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Posts Tagged ‘Igor Antunes Penteado’

Por Igor Antunes Penteado

SuassunaPoucas semanas foram tão trágicas para a história da literatura quanto a que passou. Em um espaço de cinco dias, perdemos três de nossos maiores escritores: João Ubaldo Ribeiro, no dia 18, Rubem Alves, no dia 19, e Ariano Suassuna, no dia 23. Mortes que não deixarão apenas um vazio imensurável para a cultura nacional, mas, sobretudo, que projetam lenta e definitivamente o fim de uma estirpe de escritores que praticamente não temos produzido mais.

Entretanto, a discussão que quero propor aqui é outra. Ariano Suassuna, ao longo de sua vida, foi bastante marcado por uma relação estreita com a política e, em muitas oportunidades, esteve envolvido em campanhas e mandatos. Ultimamente, vinha atuando de forma que divergia do meu posicionamento, o que me levou a um questionamento: até que ponto devemos deixar os fatos da vida privada de uma pessoa influenciarem em nosso julgamento sobre a obra produzida por ela?

Embora apresentasse em várias de suas produções críticas mordazes ao coronelismo, Suassuna manteve por anos uma proximidade indigesta –para mim – com várias figuras protagonistas deste papel, infelizmente ainda tão comum e tradicional na política nordestina e nos interiores mais profundos do Brasil. A contribuição do escritor para a nossa cultura – inclusive além dos livros propriamente ditos – é, sem dúvida, inestimável, mas sua postura em diversas ocasiões sempre me foi “estranha”. E é tão difícil colocar em cheque uma figura por quem se tem tanta admiração.

Voltando à pergunta, até que ponto uma discordância pessoal deve influenciar na avaliação sobre a obra de alguém? Parece-me que, quando a questão se refere a uma conduta moral ou a uma divergência de pensamento, o mais sensato é mesmo tentar separar as coisas. Monteiro Lobato era racista – como quase todos em sua época –, mas seria bizarro ignorar toda a sua contribuição positiva em tantas outras frentes. Nelson Rodrigues, autor daquele que elegi como meu livro favorito, era um tremendo machista e reacionário, mas genial escritor e cronista, entre outros campos em que atuou.

Como esses, vários outros exemplos me vêm à cabeça. Meu poeta favorito, Vinicius de Moraes, certa vez disse que “Existem umas feias potáveis. Mas a maioria só serve mesmo para fazer sabão”. Eu deveria ignorar todo o resto do que tanto gosto em nome desta tosquice? As bobagens antissemitas do Mel Gibson desabonam seu maravilhoso Coração Valente? O pensamento retrógrado em relação às mulheres diminui o brilhante desenvolvedor do jiu-jitsu (arte que tanto admiro) que foi Hélio Gracie? Não devo nunca mais prestigiar uma peça com Marília Pêra ou Claudia Raia pelo apoio das duas atrizes à candidatura do Collor em 1989? Acho que não.

Se no campo das ideologias as coisas já são confusas, é de se imaginar que quando a conduta destoante, na verdade, é um crime, o cenário é ainda pior. Messi, quatro vezes consecutivas eleito como o melhor jogador do mundo e investigado por suspeitas de uma faraônica fraude fiscal, deve ter seu futebol menos visto e elogiado por mim? Considerado um dos maiores boxeadores de todos os tempos, Mike Tyson não bateu só nos adversários, mas espancou uma mulher. Não é possível mais admirar sua velocidade e precisão dentro dos ringues? Outros candidatos ao ostracismo por violência doméstica: James Brown, preso repetidas vezes em seus últimos anos de vida e, claro, Netinho de Paula. O ex-negritude deve cumprir para sempre essa pena “moral” mesmo tendo apresentado, após eleito vereador, vários projetos em favor das mulheres?

Mas, nesse quesito, nenhum caso é mais emblemático que o de Sean Penn. Quando ganhou o Oscar por Milk, em 2008, o ator comoveu muita gente com seu discurso pró-direitos gays. O que a maioria não lembrou é o fato de que, duas décadas antes, Sean também bateu em sua mulher, Madonna, e fazia o melhor estilo “bad-boy” canastrão e homofóbico. Qual o tamanho da pena que Sean deveria cumprir para que eu pudesse admirar seu trabalho sem peso na consciência?

E, para piorar, assim como os conflitos e julgamentos internos, os crimes também pioram. Roman Polanski, Oscar de melhor diretor por O pianista (2002), estuprou uma menina de 13 anos há quase quatro décadas, e aí? E Woody Allen, outro diretor envolvido em um escândalo sexual com uma criança, como fica? O diretor de Match point, acusado de ter molestado sexualmente sua enteada, Dylan Farrow, quando ela tinha seis anos, deveria dizer “bye bye” à minha admiração por sua obra até os dias de hoje?

Essas questões ainda me são bastante perturbadoras, mas o fato é que seres humanos cometem, sim, erros. Muitos deles. E esperar que as obras dessas pessoas paguem por isso é mais um destes erros. Descanse em paz, Ariano. Sua obra é valiosamente eterna.

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Por Igor Antunes Penteado

Gabriel_Garcia_MarquezCem anos de solidão é, certamente, o livro que mais me desafiou até hoje. Devo ter iniciado e interrompido sua leitura ao menos cinco vezes até conseguir concluí-la. O Igor que começou a ler a obra de Gabriel García Márquez, ainda no ensino médio, era muito diferente daquele que a terminou, já formado na universidade. E essa é uma das muitas lições que o livro me ensinou: a literatura é também um instrumento poderoso de autoconhecimento.

Falar (escrever?) sobre Cem anos de solidão é tarefa desnecessária. Muito já se produziu sobre esse que é figurinha carimbada em qualquer levantamento sobre os melhores livros da história. Portanto, meu objetivo é mais falar sobre a relação como leitor com a obra do que sobre o livro em si. Sendo assim, mais do que toda a complexidade da trama arquitetada por Gabo, o emaranhado de personagens, situações e o realismo fantástico reproduzido por ele – talvez jamais haja alguém tão bom nisso –, as minhas próprias transformações foram decisivas para tamanha procrastinação em minha leitura.

Já há algum tempo, ouvi do também escritor Rubem Alves uma frase sobre música que explica bem minha relação com o livro: “A música, quando é boa, não se dá na primeira vez”. Com Cem anos de solidão aprendi que na literatura essa máxima também funciona. Mas, ao mesmo tempo em que o livro se mostrava árido, denso, a magia criada pelo autor me movia ao longo das páginas quase num surto de identidade, entre querer e não querer prosseguir com a leitura.

Essa sensação se arrastou por mais de cinco anos, tempo em que, enquanto eu aprendia sobre as transformações dos Buendía e, por conseguinte, de sua Macondo, entendia que o Igor também estava mudando. Aprendi quanta diferença existia naquele “eu” que se deparou a primeira vez com um Aureliano para o outro “eu”, que via nascer – com o mesmo nome – o derradeiro herdeiro do clã caoticamente apaixonante criado por García Márquez. Aquele caos todo fazia sentido tanto em uma cabeça adolescente cheia de efervescência, quanto em uma já mais amadurecida, porque é até hoje absolutamente familiar.

E esse, pra mim, foi o grande trunfo de Cem anos de solidão. Não só o livro, mas a leitura arrastada dele, mais do que construir uma identificação com aquela realidade que, por mais absurda e fantástica que pareça, flerta assustadoramente com a vida cotidiana, me fez compreender com mais precisão as transformações pelas quais eu mesmo passava. Enquanto o tempo transcorria pra mim, os mesmos Buendía se tornavam outros, eu mesmo me tornava outro.

Hoje, posso afirmar com segurança que Cem anos de solidão tanto é o livro que mais me desafiou quanto o que mais contribuiu na minha jornada de autocompreensão. E um passo tão importante na trajetória humana – na minha trajetória – não seria possível sem o brilhantismo de seu autor. Sem exageros, essa obra mudou minha vida e, mais do que isso, me ajudou a compreender tais mudanças. Uma semana depois de sua partida, só tenho uma coisa a dizer: Obrigado, Gabo.

 

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Por Igor Antunes Penteado

nome da morteA morte é certamente o maior enigma da vida. Isso porque, para mim, a morte faz parte da vida, não é o contrário dela. Morte é o contrário do nascimento. Até porque depois dela acontecem várias coisas que ainda fazem parte da existência (a decomposição do corpo, que permite a continuidade da vida, por exemplo). Quando nos deparamos com ela – a morte – ficamos desconcertados, na maioria das vezes. Não estamos culturalmente preparados para lidar bem com o tema. Agora imagine-se responsável pela morte de quase quinhentas pessoas. E não falo de uma bomba ou algo do tipo, é você puxando o gatilho que ceifa a vida de cada uma delas, uma a uma. Essa é a história de Júlio Santana, matador de aluguel que tem sua trajetória contada de forma muito competente por Kléster Cavalcanti no ótimo O nome da morte. Depois de matar, Júlio rezava dez ave-marias e vinte pai-nossos para pedir perdão e “esquecer” o que tinha feito. Eu, provavelmente, nunca esquecerei.

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Por Igor Antunes Penteado

íntima desordemAí está você, exausto e de saco cheio. Depois de um dia atribulado, tudo o que quer é um belo banho, largar o corpo cansado sobre a cama e desmaiar até o dia seguinte. Só que não. É só deitar e a companheira inseparável chega: a insônia. Rola pra lá, rola pra cá e nada do sono aparecer! Desanimador, não? Agora imagine se você fosse tetraplégico, o quão pior seria essa situação?

Esse é apenas um dos vários insights encontrados por Mara Gabrili para retratar o dia a dia de alguém sem qualquer movimento do pescoço para baixo no excelente Íntima desordem, uma coletânea dos melhores textos publicados por ela na revista TPM. Mas não é só dentro do universo da deficiência física que a obra gira. Como o próprio título já diz, os textos dialogam com tudo o que faz parte da vida de sua autora. O cenário político, a vida amorosa, as relações familiares etc.

Mara Gabrili é daquelas pessoas difíceis de enquadrar em modelos pré-estabelecidos, mas, em um exercício reducionista, é possível defini-la, atualmente, como deputada federal. Em 1994, aos 26 anos de idade, sofreu um acidente de carro que a deixou tetraplégica. Em Íntima Desordem, Mara expõe sua intimidade sem pudores ou receios – algo raro em uma figura pública –, o que permite nos aproximarmos de uma realidade muitas vezes bastante diferente de tudo aquilo a que estamos acostumados.

Para me conquistar, uma obra precisa ter uma boa história. Isso é preceito básico. Se for extremamente bem contada, mas não for uma boa história, não vai me ganhar. E de boas histórias o livro de Mara está recheado. Íntima Desordem oferece doses de dramaticidade, mas sem pieguice; humor, mas sem esculacho ou baixo nível; e superação, mas sem uma mensagem vazia de autoajuda, já típica na literatura recente.

A medida certa de cada um desses ingredientes faz de Íntima Desordem um livro inspirador ao mesmo tempo em que é divertido. O estilo direto da escrita da Mara tem também um toque de leveza, contraste mais do que bem-vindo com a maioria dos temas retratados na coletânea, diversas vezes bastante pesados. Mas, sobretudo, a falta de erudição e de construções muito sofisticadas é o ponto chave para o sucesso da obra. A oralidade sutil e descontraída de Mara é exatamente o que uma perspectiva aterradora como essa – a tetraplegia – necessita.

Entretanto, Íntima Desordem não surpreenderia se a própria forma como Mara lida com sua situação não surpreendesse. A coragem, a vitalidade e a força com que ela encara as perspectivas que se apresentam em seu caminho desde aquele acidente são lições preciosas para todos nós. Lições essas que o livro nos oferece em doses generosas, muitas vezes não tão fáceis de digerir, mas absolutamente necessárias.

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Por Igor Antunes Penteado

divina-comediaEssa dica de leitura pode parecer meio óbvia, e é. Trata-se de um clássico dos mais reverenciados – e com toda razão –, mas é um daqueles livros que nunca devemos nos cansar de recomendar. A obra foi chamada de Comédia porque, à época em que foi escrita, estes eram os livros voltados ao publico comum, enquanto as Tragédias eram textos voltadas à aristocracia. Agora, divina mesmo é a inspiração do autor, Dante Alighieri, em escrever tamanho primor, ainda mais se pensarmos em quando este feito aconteceu: o século XIV! A divina comédia, além de brilhantemente escrito em todos os sentidos que você possa imaginar, apoia-se bastante na simbologia de sua criação – o que traz um excepcional valor agregado –, além de ser absurdamente atemporal. É de longe um dos livros que eu mais me diverti lendo, mesmo tendo sido feito por um tiozinho lá de 1300 e alguma coisa. Recomendadíssimo!

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Por Igor Antunes Penteado

ocasodosdeznegrinhosSabe aquele livro que você teve vontade de correr à última página tamanha a angústia em saber o final? Então, ele não chega nem perto deste aqui! O caso dos dez negrinhos, de Agatha Christie, é um dos maiores best-sellers de todos os tempos (100 milhões de cópias vendidas), o que facilmente o credencia a qualquer lista de indicação. Nele, a arte do suspense é elevada à décima potência, o que o torna deliciosamente imperdível. A obra retrata a história de dez pessoas que são atraídas por um homem misterioso a uma mansão em uma ilha deserta. Um a um os convidados começam a ser assassinados, sendo que o autor dos crimes só pode ser um deles. A grande sacada é que a trama se desenrola até restar uma única pessoa e não dá pra descobrir quem é o assassino. Até o desfecho, é claro. Simplesmente brilhante!

Nota do editor: atualmente, O caso dos dez negrinhos é publicado no Brasil pela editora Globo como E não sobrou nenhum.

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Por Igor Antunes Penteado

00_SeuAzulGustavo Piqueira acaba de lançar seu 14º livro, Seu Azul, pela editora Lote 42. O mote é interessante: um casal com a relação afundada na monotonia busca ajuda de um analista e recebe como tratamento a sugestão de, para retomar o hábito do diálogo e intimidade, discutir durante o jantar notícias publicadas em portais brasileiros (as notícias são verdadeiras e têm conteúdo nitidamente duvidoso). Enquanto isso, o filho deles, Allyson, deve produzir desenhos com suas percepções daquilo que é conversado pelos pais.

Designer de renome, Piqueira é fundador da Casa Rex, premiado estúdio com sedes em São Paulo e Londres, e gosta de inovar em suas publicações, utilizando-se do conceito de livro-objeto. Na obra que antecede Seu Azul, Iconografia Paulistana (WMF Martins Fontes), por exemplo, um espelho foi colado à capa do livro, remetendo ao conteúdo, que procura estabelecer um retrato de São Paulo. Com Seu Azul não é diferente e o livro apresenta um projeto gráfico arriscado.

Assim que peguei o exemplar em mãos, um pensamento me escapou: “de quem foi essa ideia?” Isso porque a capa é feita com areia e cola de silicone. O objetivo, segundo o autor, é tornar a sensação que a relação retratada na história provoca, ainda mais desconfortável. E é justamente isso que faz com que o projeto seja arriscado, deixando brechas para que a leitura seja realmente desconfortável, com areia caindo a cada virada de página. Fora que não é das melhores a ideia de colocar um livro cheio de areia em uma estante recheada de preciosidades – como considero meus livros.

Entretanto, discutir o projeto gráfico não é meu objetivo, tampouco tenho traquejo para tal, então, vamos ao que interessa. O texto de Seu Azul é bom e tem um ritmo interessante (li numa tacada só, embora não seja dos mais fininhos). Como as páginas não são numeradas e os capítulos representam os dias do “tratamento” do casal, você acaba perdendo a noção de tempo/espaço e, quando vê, está imerso nos diálogos caóticos entre Luiz Fernando e Giuliana, personagens centrais do livro.

Faltam claramente construções mais elaboradas e o livro não se trata de nenhum primor literário. Mas essa talvez tenha sido uma casualidade que mais contribuiu do que prejudicou o resultado final, já que a argumentação e retórica do casal – bastante simplistas – servem justamente como agentes reforçadores de uma relação corriqueira, como a que o autor tenta reproduzir. Ainda nesse sentido, um ponto forte é a utilização do humor nos diálogos, principalmente nas falas de Luiz Fernando. Algumas vezes, me peguei rindo alto com as coisas que o personagem diz.

Entretanto, o ritmo dos diálogos é prejudicado por algumas “escolhas” do autor. Uma delas é a repetição excessiva de palavras, recurso que, creio, foi utilizado para dar mais oralidade às construções, mas que acaba tornando a leitura um tanto truncada em alguns trechos. A outra é o excesso de asteriscos ao longo da obra (nem a capa escapa). A cada vez que aparecem nomes dos personagens, há a sistemática repetição de um asterisco para lembrar que aqueles são nomes fictícios. E não é porque há muitos personagens na história que o excesso de asteriscos me incomodou. Esse recurso é usado toda vez que os nomes dos mesmos personagens são citados. Cansativo e desnecessário.

O livro se presta bem aos dois propósitos centrais: mostrar as agruras de uma relação fadada ao fracasso e a exposição do conteúdo extremamente discutível do que tem cada vez mais pautado nossa imprensa. São premissas que dariam, por si só, sustentação à obra, sem dúvida. Não fosse aquilo que, pra mim, é o problema mais recorrente em Seu Azul. O livro é recheado de preconceito, dos mais diversos. Machismo, racismo, preconceito de classe etc. E essa é uma crítica que vai além do conteúdo do livro, é direcionada a tudo o que consumimos.

Esses preconceitos (como já exposto por mim aqui e aqui) são extremamente difíceis de serem combatidos porque são velados. E, ao contrário do que possa ser alegado, reproduzir cenas, comportamentos, ideias, opiniões ou o que quer que seja com um conteúdo claramente discriminatório não serve como um exemplo de “olha só como essas são todas coisas ruins”, mas, pelo contrário, reforça a ideia de que esse É um mundo assim. De que essa é a postura “comum”, “normal”. E exigir tamanho grau de abstração de um público que cada vez mais consome conteúdos como os criticados no próprio livro é de uma inocência que não convém.

Mas, no geral, Seu Azul vale a leitura. Serve como reflexão acerca do mundo ao qual estamos sendo expostos e também contém alguns bons momentos de diversão, além, é claro, da sensação de desconforto provocada pelos desenhos do pequeno Allyson. O incômodo que Gustavo Piqueira quis passar, ao menos em mim, surtiu efeito. Ponto para o autor.

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Por Fred Linardi

xa dos xasExiste um cano de revólver apontado para o meu pé enquanto escrevo sobre essa grande reportagem do respeitado jornalista internacional Ryszard Kapuscinski, que morreu em 2007 de causas naturais, apesar de ter ficado muito perto de armas engatilhadas durante as dezenas de lugares por onde passou. Ao contrário dele, que cobriu 27 golpes de estado e revoluções civis, o meu risco não reside apenas no calibre apontado para meus membros inferiores. O risco está em falar sobre um trabalho como O xá dos xás, segundo título do autor que faz parte da série Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, precedido por O imperador.

Uma das primeiras lições que tive sobre Jornalismo Literário referia-se ao estilo que usa de técnicas da literatura para produzir reportagens num estilo, como o próprio nome diz, literário. Isso não significa ficcionalizar o texto, aprendi, mas sim tornar sua narrativa mais atraente ao leitor. Da mesma maneira, já cheguei a ouvir de mestres (no sentido acadêmico da palavra) que o tal estilo permitiria um tanto de invenções por parte do jornalista. Pois bem, o assunto é longo. Mas só para ficar num exemplo, relembro sobre a obra indicada pelo Igor Antunes Penteado na sua mais recente dica de leitura aqui do Canto do Livros – A sangue frio, de Truman Capote –, que será acompanhada por uma sombra eterna pelo fato do jornalista americano ter floreado um final em busca de uma conclusão dramática ao livro, criando um diálogo que jamais existiu na realidade.

Se for para escolher um dos lados, empunho com minhas próprias mãos essa arma que aponto para o meu pé e digo que fico do lado da total veracidade das cenas narradas.

Dito isso, sinto a pressão do gatilho no meu indicador.

Pow!

Ouço um barulho lá fora e quase acredito que é o estouro da minha arma que, na verdade, continua silenciosa. A capa do livro, com fundo preto e escrito em branco e vermelho, me encara. Preciso explicar o motivo de ter escolhido essa obra com menos de 200 páginas para escrever aqui nesse blog. Essa é a história do último xá do Irã, que pretendia transformar seu país numa superpotência – isso também está dito na capa. Outra coisa que ela indica, logo abaixo do subtítulo, é que faz parte da coleção já mencionada lá no primeiro parágrafo.

Então vamos lá. Era uma vez um cara chamado Mohammed Reza Pahlevi que, na década de 1940, herdou de seu pai um país miserável acima do chão e riquíssimo abaixo dele. Toda a riqueza vinda do petróleo abundante servia para enriquecer o próprio bolso, concentrando o poder suficiente para fazer a população de um país inteiro temer cogitar qualquer tentativa de mudança. Os métodos de intimidação eram dos mais complexos, com uma célula do governo repleta de informantes, que consideravam comentários banais como “hoje o céu está nublado” como mensagens subliminares de subversivos na rua. Quem ousasse dizer algo como isso, num ponto de ônibus que fosse, poderia começar a se despedir da vida – não sem antes passar por sessões de tortura que até o capeta duvida.

A história de um Irã tomado pelo egoísmo e crueldade do seu xá é margeada pela narrativa sagaz, a partir de fotos históricas coletadas, além das gravações e anotações de Kapuscinski, que há de perdoar o teclado do meu computador ocidental, que não consegue botar acento agudo no “s” e no “n” do seu sobrenome. Mas ele há de entender certas liberdades, já que… bem, já que ele é dos exemplos que devemos colocar ao lado de livros de não ficção que dão uma inventandinha em alguns trechos. Mas também ao lado de obras que fazem parte do que há de mais exemplar em grandes reportagens. E agora? De uma forma ou de outra, é inegável afirmar que livros como este (ou como A sangue frio) estão entre os mais ousados.

Mas o que Kapuscinski inventa, afinal?

Não sei dizer ao certo. É dito que

Ahhhh….!kapuscinski_01

Ouço um grito vindo da rua. Será que aquele barulho que ouvi vem de uma vítima atingida por um tiro que jamais esperava lhe atravessar o peito? Ou será que veio de alguém que está me vendo pela janela ora com a arma na mesa, ao lado de Kapuscinski, ora voltada para meus pés? Ou será que vem da minha consciência em conflito, sem saber o que dizer depois de ler o posfácio e constatar que, de fato, o velho polonês dava suas viajadas além-fato para escrever esse livro que eu, agora cúmplice de tudo, me deliciei. Cale a boca, Kapu! Arrisco-me demais ao te elogiar.

— Kapu, escute aqui! Sua obra foi chamada de “jornalismo mágico” pelo seu respeitado colega Adam Hochschild e a alcunha foi confirmada por Artur Domoslawski na biografia sobre você, Kapuscinski Não Ficção (ah, se você conhecesse Roberto Carlos em tempo…). Aí, sim, é possível saber o que há de ficção em suas obras de não ficção. Até que enfim alguém para nos esclarecer.

Ficção, sim. Mas vamos com calma (meu pé está suando frio agora). Sem dúvidas, o xá Reza Pahlevi era um tirano que governava sem um pingo de compaixão e, em certos pontos, com alguma dose de burrice, já que todos os ditadores têm seus atos falhos. Queria um país desenvolvido, queria criar “uma grande civilização”, queria que o Irã saísse do zero e se tornasse, em dez anos, um país comparável à Alemanha ou Inglaterra. Tinha dinheiro para isso e muito mais. Trouxe indústrias e importou mão de obra de outros países, já que ali as universidades eram proibidas. Os iranianos que queriam formação superior ganhavam bolsa para estudar fora – e poucos tinham coragem de regressar depois de graduados. Fanático por guerras, comprou um arsenal bélico fora de proporções, sem nem mesmo ter onde abrigar tantas aeronaves e tanques. Mas um dia o povo se desperta para uma revolução, que começa a acontecer em diversas cidades, uma depois da outra… E então Kapuscinski nos presenteia novamente na segunda parte do livro, com um primoroso ensaio sobre como funciona uma revolução. Uma peça fundamental para que se reflita sobre o espírito de um país que passa por esse tipo de evento.

Na obra de Kapu é dito que há personagens e declarações inventadas. Dentro do contexto, elas parecem coerentes, mas ainda assim podem ser fictícias. O perigo neste caso é exatamente quando os limites entre acontecimentos ou pessoas reais ou imaginários não ficam claros para o leitor. E Kapu parece tomar exatamente este cuidado. Tudo flui, os personagens são vivos e coloridos. O perigo, no entanto, é quando começamos a duvidar das histórias que, por ventura, tenham sido frutos do obstinado trabalho de pesquisa e apuração jornalística.

Entre os autores que odeio amar, acredito que sempre estará a sombra de um anti-herói chamado Kapuscinski, batendo a mão nos meus ombros e lembrando que entre a ficção e a realidade existe uma série de questões, escolhas e princípios. Existe também uma mira de um revólver prestes a disparar em nossos pés.

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Por Igor Antunes Penteado

a-sangue-frioQuando falo sobre a pós-graduação que cursei, em Jornalismo Literário, uma curiosidade instantânea surge no interlocutor: “mas que raios é isso?”. Já que grande parte das definições técnicas feitas na pressa é, além de rasa, pouco convidativa, muitas vezes opto por exemplificar com o livro que, pra mim, melhor traduz este espírito. A Sangue Frio, de Truman Capote, é considerado por muitos como o marco inicial do JL, mas não é a isso que devemos nos apegar. O fato relevante é que a obra é um excepcional exemplo do estilo – excetuando-se a cena final, assumidamente inventada, mas que não mancha em nada seu brilhantismo. Se você quer ler um texto absurdamente bem escrito, de um autor que entedia como poucos da parada e que te prende até a última linha, mesmo você já conhecendo antecipadamente o final, este é o seu próximo livro!

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Por Igor Antunes Penteado

The Hound of the Baskervilles

Sir Arthur Conan Doyle é o tipo de personalidade que dispensa apresentações. Ainda assim, pouca gente conhece passagens curiosas de sua vida, como o talento para os esportes (foi excelente jogador de críquete e golfe, mas também jogou boliche e futebol amador, como goleiro), o grande reconhecimento em sua profissão de origem – médico – e, futuramente, o envolvimento com escritos espíritas e políticos. Mas é a parte que “dispensa apresentações”, a literatura, que fez com que ele ganhasse status de celebridade.

Com sua criatividade muito acima da média, parcialmente baseado em um professor de seu tempo na universidade, Doyle criou Sherlock Holmes, personagem que certamente figura entre os mais conhecidos e admirados da história. É inegável o quanto Holmes é influente em nossa cultura até hoje, o quanto é referência cotidiana. Entretanto, eu, que sempre fui um leitor bastante frequente, já adulto, dei-me conta de um fato curioso: nunca havia lido nenhuma história completa do autor. Tampouco uma que envolvesse Holmes.

O que, para muitos, soaria como um sacrilégio, pra mim, foi uma oportunidade. Inconscientemente, minha primeira leitura deste britânico acabou sendo uma espécie de homenagem simbólica: eu li a obra em inglês. Isso porque eu estava buscando aprimorar meus conhecimentos na nova língua e, por uma feliz coincidência, me deparei com uma obra que figura na lista dos 100 melhores livros do século XX do jornal Le Monde e é considerado o melhor romance policial já escrito. The Hound of the Baskervilles (O Cão dos Baskervilles) tem credenciais mais do que suficientes e, para mim, foi uma excelente oportunidade de entrada no mundo de Conan Doyle.

O livro conta a história da família Baskerville, um clã de nobres que enfrenta uma maldição. Há várias gerações, um cão diabólico assombra os habitantes da principal propriedade da famíla, o Solar dos Baskervilles. Quando o atual dono da residência, Sir Charles Baskerville, é encontrado morto, um amigo dele, Dr. Mortimer, resolve pedir ajuda ao grande solucionador de crimes, Sherlock Holmes, para tentar resolver o caso.

O gancho parece simplório demais para uma obra com tamanhas referências, mas é aí que reside o engano. De simples a obra não tem nada. A cada linha do texto, é nítido o controle que o autor exerce sobre quem está lendo. É quase como uma aula de cadência, ritmo e técnicas de envolvimento do leitor. Conan Doyle parece não perder o controle em nenhum momento – nem da história, nem dos leitores –, e isso porque o livro foi escrito há mais de 110 anos! Uma história atemporal, no sentido mais estrito da palavra.

Mas, talvez o que mais tenha me surpreendido na obra (o que não deve soar estranho, afinal, como já declarado, meu conhecimento sobre o universo do autor era extremamente restrito) é a destacada participação de um personagem secundário, mas quase tão famoso quanto Holmes. Só posso estar falando, é claro, de seu fiel escudeiro, o Dr. Watson, que tem quase o mesmo nível de importância (se não mais, sem exageros) que o próprio Holmes.

Fica claro o brilhantismo do autor na forma como ele vai “costurando” essa relação de quase dependência entre os dois personagens ao longo do livro (e, creio, ao longo de toda a sua obra que envolva Holmes). Em um trecho que considero bastante apropriado para exemplificar o que quero dizer, Holmes diz a Watson que o assistente pode não ser luminoso, mas é um excelente condutor de luz, e que algumas pessoas não são geniais, mas têm um notável poder de estimular a genialidade. Esse é apenas um dos inúmeros diálogos que contribuem não só para o desenrolar da história, mas, fundamentalmente, para a construção desta parceria, que transcende qualquer limite do próprio livro.

Não sou muito fã de romances policiais, confesso, mas a obra me prendeu como poucas. O que foi um incentivo e tanto, já que servia como parte dos estudos de uma nova língua. Aliás, achei essa uma excelente tática para suavizar uma atividade que é muitas vezes maçante. Aliar um prazer (no caso, a literatura) ao estudo do inglês foi algo bastante positivo pra mim, dica que pode servir para outras pessoas também.

Creio que minha primeira leitura de um Conan Doyle não poderia ter sido melhor, não só porque foi de uma obra com mais de vinte adaptações cinematográficas e excepcionais referências, mas principalmente por ter me mostrado o quanto eu estava perdendo em não conhecer o universo tão relevante desse Sir que foi goleiro da várzea inglesa durante a juventude.

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