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Posts Tagged ‘Inglaterra’

jose luiz passosJosé Luiz Passos tem uma missão nem um pouco fácil: lecionar Literatura Brasileira na Universidade da California em Los Angeles (mais conhecida como UCLA), nos Estados Unidos, um dos países mais fechados no mundo para as artes e a cultura que não as locais. Formado em sociologia e doutor em Letras, o professor também é escritor, já publicou os ensaios Ruínas de linhas puras Machado de Assis, o romance com pessoas e os romances Nosso grão mais fino O sonâmbulo amador, um dos livros mais elogiados pela crítica em 2012 – e começo de 2013, já que a obra foi publicada no final do ano passado – e que já tem resenha aqui no blog. Na entrevista abaixo, dentre outros temas, Passos fala sobre como chegou à universidade estadunidense, sobre sua formação como leitor e o trabalho de ficcionista.

Canto dos Livros: Como você foi parar na Universidade da Califórnia?

José Luiz Passos: Quando o e-mail começou a fazer parte da vida universitária no Brasil, em 1994, escrevi para alguns professores nos Estados Unidos e na Inglaterra, buscando fazer uma pós-graduação fora. Na época, era aluno de sociologia na UFPE e, depois, na Unicamp, em São Paulo. Fui aceito por algumas universidades estrangeiras, entre as quais estava a Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA, para onde acabei vindo. Depois de concluir o doutorado, outro campus do mesmo sistema me contratou como professor: a Universidade da Califórnia em Berkeley, mais conhecida pelo nome da cidade. Dei aulas em Berkeley por nove anos. Em 2008, a UCLA abriu um concurso na minha área, no qual passei, e, então, decidi voltar para cá. Gosto de Los Angeles. Sempre preferi as cidades grandes.

CdL: Como é ministrar um curso de Literatura Brasileira em uma universidade dos Estados Unidos? Há real interesse por nossa literatura aí? Por quais autores?

JLP: A literatura brasileira é ensinada aqui em português e em inglês, no contexto dos programas de letras hispânicas, línguas neolatinas ou literatura comparada. É, portanto, uma das várias literaturas oferecidas na língua original, ou em tradução, para alunos de diversos programas e cursos. Nossas disciplinas são abertas a todos os estudantes do campus; resulta que as turmas são heterogêneas: gente de música, direito, matemática, ciências biomédicas etc., além dos demais cursos nas humanidades. Desde que cheguei, noto um interesse cada vez maior pelo Brasil, porém não necessariamente pela literatura brasileira. A noção mais difusa da “cultura” brasileira — e em particular, da música, do cinema e de questões socioeconômicas — tem sido o foco dos estudos e dos diplomas dos alunos americanos. Entre os autores mais canônicos, Machado de Assis e Clarice Lispector são os mais usados em sala de aula. O que mudou bastante, a meu ver, foi o interesse, dentro dos programas de letras, na ficção contemporânea. Há hoje mais cursos que incluem autores mais jovens nas diversas universidades americanas que conheço. Em Berkeley, costumava ensinar, a cada três semestres, um curso sobre o romance contemporâneo usando exclusivamente textos publicados nos últimos quatro ou cinco anos. Trouxe o curso para a UCLA e ensinei-o, por exemplo, no semestre passado.

CdL: Qual a sua opinião sobre o atual momento da literatura no Brasil? Quais nomes e obras merecem destaque?

JLP: Creio que atravessamos um momento de produção intensa e de grande diversidade na literatura brasileira. Há, também, uma visibilidade maior na mídia, por conta dos prêmios, das novas mídias sociais, dos incentivos governamentais, das feiras e festivais. Isso é bom, e tem feito a literatura brasileira repercutir um pouco mais aqui fora. Mas a intensidade do movimento no mercado e a maior visibilidade das letras na grande mídia não resultam, necessariamente, numa literatura de maior qualidade. Pode ser que sim. Esperemos que sim. Sinceramente, sou otimista a esse respeito. Como professor de letras, fico contente de ver uma literatura mais robusta e diversa ocupando as livrarias e chegando às salas de aula, inclusive fora do Brasil. São muitos os nomes que leio com prazer. Destacar uns poucos é fazer injustiça com os demais. Então, menciono apenas aqueles que li recentemente e estão, agora, enquanto escrevo, ao alcance da mão. Admiro Beatriz Bracher e Adriana Lunardi; sempre que posso, volto a elas. Achei o romance Mar azul, de Paloma Vidal, fascinante. E estou ansioso para ler o próximo de Ricardo Lísias, cuja ousadia da imaginação sempre me impressiona. Quem mais? Hoje dei uma aula sobre Sérgio Sant’Anna, mas este não conta, porque conta demais; é um clássico vivo.

CdL: Em seus dois livros de ficção há duas personagens bastante sensuais, Ana Corama e Minie. Houve algum cuidado especial na hora de compô-las? Há alguma diferença na construção de um personagem masculino e um feminino?

JLP: Ana Corama (em Nosso grão mais fino, de 2009) e Minie (em O sonâmbulo amador, de 2012) são ao mesmo tempo um problema e uma solução para os seus admiradores masculinos, Vicente Campelo e Jurandir, respectivamente. Mas a semelhança para aí. Ambas têm grande independência moral frente a seus amantes, mas apenas Ana Corama tem o poder de uma narradora; é autora de livros; enfrenta Vicente no plano dos diálogos que desenvolvem interiormente, ao longo de quarenta anos. Por sua vez, Minie representa, para Jurandir, não uma volta ao passado, como Ana, mas o desafio de um presente em que o desejo confunde papéis e funções. Em O sonâmbulo amador, a amiga Minie se confunde com a amante, que se confunde com a memória da esposa quando jovem e, também, com a colega de trabalho. Em ambos os casos, é o desejo do narrador por essas mulheres que os leva adiante, na tentativa de contar uma história que, para elas, é fundamental e precisa ser enfrentada, a despeito da hesitação masculina. São sensuais? Espero que sim. Afinal, são amadas profundamente; e do trauma que esse amor gera, nascem as narrativas de Vicente e Jurandir.

CdL: O processo de reescrita é quase uma unanimidade entre os escritores. Segundo consta, seu primeiro romance teve 16 versões. Como isso funciona para você? Que tipo de trecho merece ser reescrito tantas vezes? Usando o didatismo de um educador, poderia dar um exemplo prático — quem sabe de alguma frase de O sonâmbulo amador — desse processo de reescrita?

JLP: Em cada um dos projetos, a reescrita tem um papel diferente. No caso de Nosso grão mais fino, demorei até encontrar um modo de fazer com que meus personagens pudessem habitar e falar a partir de diferentes momentos no tempo. A cada vez que faço uma mudança na estrutura, gravo e imprimo uma nova versão do texto. Então, por exemplo, no primeiro romance, a sequência da ação apresenta diferenças radicais em cada uma das versões; numa delas, o irmão de Vicente — Zelino — era um pássaro; noutra, os diálogos eram destacados em itálicos, com direções de cena no estilo do teatro; noutra, ainda, a ação continuava após o capítulo final, narrando os últimos dias de Vicente. Já em O sonâmbulo amador, a reescrita foi necessária para moderar a presença dos sonhos no plano do tempo presente de Jurandir. A versão mais completa dos originais tinha 510 páginas. Entreguei à Alfaguara uma versão com 320 páginas, o que resultou nas 270 do livro. Os cortes incidiram na redução da quantidade de sonhos, de personagens secundários e no seu tempo de permanência na clínica de Belavista. Mas também reescrevi a voz narrativa: originalmente, Jurandir escrevia cartas a dr. Ênio, dirigindo-se a ele diretamente, descrevendo as sessões de análise com grande minúcia. Então, não é que a mesma frase seja reescrita dezesseis vezes: é que a relação entre as partes se altera, a voz muda de tom e a interação entre as personagens transforma o ritmo do enredo. A cada vez que isso muda, é necessário, a meu ver, recompor o fio e cuidar da consistência de estilo e perspectiva. Assim, novas versões vão brotando uma de dentro da outra. 

CdL: Você não depende de sua produção literária para pagar as contas, certo? Isso lhe permite investir o tempo que achar necessário na escrita de um livro, mas também faz com que tenha de dividir seu tempo com outras atividades. Como isso funciona para você? Escreve só nas horas vagas mesmo ou separa uma parte do dia para escrever?

JLP: Escrevo sempre que posso. A rigor, dependo do que escrevo para viver. Escrevo minhas notas de aula, relatórios, pareceres, cartas de recomendação, artigos, livros acadêmicos… Então, você tem razão; não viver da literatura não significa, necessariamente, ter mais tempo ou estar mais livre para escrever. Meu tempo é, em grande parte, tomado pela rotina da burocracia acadêmica. Então, como disse, escrevo o máximo possível, sempre que posso. Nos meses de férias e intervalos universitários, é claro, me dedico com mais disciplina à ficção. Costumava separar horas na semana para escrever meu primeiro romance. Porém, com o aumento das minhas responsabilidades na universidade e as demandas da vida familiar, isso é cada vez mais difícil. Hoje, por exemplo, escrevo em cafés, restaurantes, aeroportos, etc., coisa que não fazia antes. O tempo, por incrível que pareça, anda cada vez mais raro.

CdL: Você demorou cinco anos para escrever O sonâmbulo amador. Por que tanto tempo? Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou durante a escrita deste livro?

JLP: Iniciei O sonâmbulo amador em 2007, o ano em que publiquei meu livro sobre Machado de Assis. No ano seguinte, meu primeiro romance foi aceito pela Alfaguara. Precisei revê-lo mais de uma vez e cuidar de sua saída. Então, parada no sonâmbulo. Em 2008, mudei de Berkeley para Los Angeles. Transladei a profissão e a família. Vendi um imóvel e comprei outro. Em 2009, nasceu meu segundo filho e assumi a direção do Centro de Estudos Brasileiros, na UCLA. Ou seja, essa pequena lista mostra que as interrupções na redação de O sonâmbulo amador foram de várias ordens. A maior dificuldade foi encontrar tempo para um mergulho mais concentrado e de longa duração no universo do romance. Por isso, me impus um método de escrita relativamente rígido: primeiro redigi os sonhos de Jurandir. Depois, os eventos em sua vida presente. A seguir, o enlace de ambos com as memórias e os textos que ele próprio buscava escrever. Organizar e dar unidade a uma matéria tão diversa, do ponto de vista cronológico e estilístico, foi talvez o grande esforço do livro e aquilo que me custou mais tempo.

CdL: Como você tem acompanhado a recepção de O sonâmbulo amador pelo público e pela crítica?

JLP: Estou satisfeito e surpreso com a repercussão do romance. Fico especialmente contente quando recebo notas pessoais, de amigos que não vejo há muito tempo, e que não são profissionais do comentário à literatura. O livro, em parte, foi escrito para eles, tal como o próprio Jurandir confessa nas últimas duas páginas. A sanção da crítica profissional é, obviamente, muito importante para a permanência do livro. Mas minha satisfação maior está na repercussão dele entre aqueles que, de certo modo, estão dentro do livro e para quem concebi a história de Jurandir.

CdL: Em entrevista recente, você declarou que O sonâmbulo amador é meio que uma tentativa de acabar o que seu pai começou, mas sem usar a vida dele — o que seria “difícil demais” —, já que usou como base o material deixado por ele em um baú. Ainda assim, sabemos o quanto Jurandir — personagem principal da obra — foi influenciado por uma história real. Posto isso, o quanto a sua ficção se apoia na realidade? Como você, particularmente, consegue achar a medida certa de uma dentro da outra?

JLP: A ficção é parte do real, não se opõe a ele; não é o oposto da verdade. A ficção é um modo de se tornar visíveis relações constitutivas do real. O que tirei dos diários de meu pai foi a ideia de alguém que é levado a fazer, a contragosto, uma revisão de sua vida noturna: uma vida sonhada ou escondida na distância de memórias que tentamos evitar. Porém, não se trata da história do meu pai; por exemplo, nem eu nem ele jamais perdemos um filho. Somos, neste sentido, diferentes de Jurandir. Em outros, somos iguais. A pergunta inversa, então, se coloca: como seria escrever uma narrativa que não se baseasse em nenhuma história ou traço do real? De certa forma, tal livro nunca chegou a ser escrito; e se for, arrisco-me a dizer, será inútil ou sumamente desinteressante.

CdL: Para você, a literatura — romances sobre sonhos e outras manifestações escondidas no subconsciente — é uma forma de terapia? Funciona?
JLP:
Não sei se funciona como terapia. São coisas que podem se parecer, mas que, de fato, são diferentes. O aspecto iniludível da presença de um bom terapeuta, que nos ouve e nos guia, não é equivalente à sensação de máxima liberdade e satisfação individual que caracteriza a composição de uma narrativa de ficção. (Isso, pelo menos, no meu caso.) Há momentos em que escrever um romance, ao longo de tanto tempo, chega a ser infernal. A preocupação com o pormenor, com o tom, com a frase nos separa das pessoas. Ao mesmo tempo, é também uma educação em como representar situações entre pessoas que são outras, diferentes da pessoa e dos valores do próprio autor. É, então, um abraço no outro e também uma reserva com relação a ele… Isso é terapia? Acho que não.

CdL: Qual a diferença do José Luiz Passos de Nosso grão mais fino para o José Luiz Passos de O sonâmbulo amador?

JLP: É a diferença entre um autor sem nenhum livro e outro com dois romances. Ou seja, cabelos brancos. Maior controle sobre o ofício. Uma responsabilidade mais vultosa frente a leitores, outros autores, amigos etc. Escrevi meu segundo romance com maior consciência da estrutura que pretendia dar a ele. Escrevi o primeiro embriagado pela realidade da morte do meu pai e pela presença de pessoas que pareciam saídas de uma noite muito longa. O primeiro é uma poesia. Ainda me agrada muito. Mas agora está mais distante e, de certa maneira, voltou a ser um segredo, inclusive para mim.

CdL: Para um autor, quais as principais diferenças entre publicar livros com ensaios e livros com romances?

JLP: É a diferença entre narrar um gol e chutar a gol. Em ambos os casos, é possível ter prazer e encontrar companhia interessante. São práticas relacionadas. Há quem considere não haver diferença entre ambas, mas acho isso um pouco exagerado. Gosto de escrever ensaios e ficção. Gosto, particularmente, da sala de aula, onde, creio eu, locução e gol dão as mãos. Os ensaios que escrevo derivam das aulas que dou. Ensino literatura e ensino, mais recentemente, escrita criativa. Lendo os escritores de que gosto e os trabalhos dos meus alunos — acho eu — aprendo a escrever melhor. Então, são práticas relacionadas, dão gosto, mas não vejo necessidade de confundi-las ou forçá-las numa hierarquia.

CdL: Alguns autores cuidam das suas obras como mães cuidam de bebês, são resistentes à críticas e as enxergam de forma um pouco distorcida, enquanto outros, no outro extremo, mal falam sobre elas e as deixam soltas no mundo, por assim dizer. Qual a sua relação com suas obras?

JLP: Sou autor recente. É cedo para falar de uma suposta relação autoral, já constituída, com as minhas obras… Claro que é incômodo receber uma crítica negativa. Mas é incômodo também quando o objeto da crítica é a forma como dirigimos, fazemos um bolo ou damos um beijo. Ao mesmo tempo, se uma objeção de imediato destruir o escritor, alguma coisa faltava nele — independentemente da razão da crítica. Procuro deixar os meus livros em paz, e dar a eles o apoio que necessitam para ir adiante, sem desaparecer no horizonte dos leitores. São, sim, de certo modo (para usar a sua imagem) como filhos: mimá-los é uma forma de arruiná-los pela cegueira; mas abandoná-los por conta própria também é muito cruel.

CdL: Se você pudesse escolher, viveria só de escrever livros? Por quê?
JLP:
Viver apenas de escrever livros é uma ideia tentadora. Mas acho que sentiria falta da sala de aula. Hoje passei o dia ensinando Osman Lins e Sérgio Sant’Anna. O debate com meus alunos americanos — muitos dos quais liam esses autores pela primeira vez — foi um prazer imenso. Depois, discuti os contos da minha turma de escrita criativa. Outro prazer imenso. Ora, acho que grande parte do sentido dos livros que lemos e queremos escrever está aí, não? Na divisão do bolo. Na conversa sobre o bolo. No consumo dele como se fosse uma festa. Viver “só de escrever livros” é talvez abrir mão de uma parte gostosa dessa festa. Uma parte com pé no chão e menos pompa.

CdL: Quais as suas principais referências literárias?

JLP: Mudam sempre. São as que ando lendo. Esta semana, como disse, além de Osman Lins e Sérgio Sant’Anna, participei de uma oficina de tradução em que discutimos Machado de Assis e Ricardo Lísias. São, sem dúvida, referências. Outras, além das brasileiras: olho para a minha cabeceira e lá estão os “internacionais” que ando lendo: Hilary Mantel, Hans Magnus Enzensberger e Steven Millhauser. Uma inglesa, um alemão e um americano, todos contemporâneos. As referências mudam. Se não mudassem, não haveria diferença entre elas e um tijolo, ou um credo que se recita sem nenhuma consciência.

CdL: O que é um grande escritor? E um grande livro?

JLP: Se eu tivesse essa grande resposta, escreveria um grande livro sobre esse grande tema.

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Por Fred Linardi

Cansado de conviver em sociedade, o médico-cirurgião Lemuel Gulliver resolve navegar em busca de novas aventuras. Logo na primeira rota da viagem, seu navio naufraga e o tripulante é levado pelo mar até uma praia onde, após dormir, acorda amarrado dos pés aos cabelos, rodeado pelos pequenos e curiosos habitantes locais. Isso é apenas o começo, pois além deste que é mais o conhecido país visitado pelo intrépido navegante, o leitor o acompanhará por mais três povoados, cada um com suas particularidades, numa das obras que se tornou essencial entre os livros da literatura infanto-juvenil.

Antes de seguir adiante, é bom corrigir este que é um dos maiores equívocos sobre esta narrativa escrita pelo irlandês Jonathan Swift que, numa de suas típicas manifestações de rabugice, dizia não suportar as crianças. Quando publicou o livro, em 1726, sob o título original Viagens em diversos países remotos do mundo em quatro partes, por Lemuel Gulliver, a princípio cirurgião e, depois, capitão de vários navios, Swift pretendia escrever algo que, com colocações indiretas e diretas, agredisse da maneira mais profunda a natureza mesquinha do homem.

O livro é, na verdade, uma crítica tão contundente a diversos pensamentos humanos que até hoje tem sua validade, abordando o modo de organização de países, religiões, profissões e grupos sociais. Por seu tom fabulesco e deliciosa prosa, acaba por ser uma leitura agradável tanto para adultos quanto para crianças, o que lhe rendeu sucesso desde a primeira publicação. Com o passar do tempo, associou-se à leitura juvenil, mas continua apreciado como um registro histórico e de perspicaz lucidez.

De homens e cavalos

Como é o próprio Gulliver que escreve suas andanças pelo mundo, As viagens de Gulliver é cheio de impressões sobre suas visitas pelos países. O primeiro país que visita é Lilipute, o que se tornou mais conhecido de todos, com seus habitantes ferozes, divididos em dois partidos opostos e resolvendo problemas por meio de disputas. Logo depois, o viajante segue rumo à terra de Brobdingnag, onde se vê na situação inversa, numa terra de gigantes doze vezes maiores que ele, vivendo aparentemente em paz e governados por um rei e uma rainha contrários à violência. O terceiro ponto de parada é a ilha flutuante de Laputa, onde muito se pensa e nada se realiza. Por fim, sua última viagem o leva até o país dos Houyhnhnms, de cavalos inteligentes que convivem com os rudes e grosseiros Yahoos, na terra mais exemplar encontrada por Gulliver. Entre esses países, ele passa por outros como Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib e o próprio Japão, explicando aos habitantes e líderes locais sobre como as coisas funcionam na Europa e discutindo sobre diversos temas.

A forma de contar todo este enredo, cuja veracidade é sempre destacada pelo narrador, acaba por ser uma paródia ao estilo literário em moda na Europa naquela época: a narrativa de viagem. O escritor inglês Daniel Defoe publicara sete anos antes as Aventuras de Robinson Crusué, com grande aceitação entre diversos setores sociais. “A popularidade deste tipo de narrativa é de uma Inglaterra que ainda vive um processo de expansão marítima, com novas terras sempre sendo descobertas. E há também um apelo pelo próprio exotismo e diferença entre a sociedade britânica e os povos descobertos”, diz Sandra Vasconcelos, professora de literatura da Universidade de São Paulo. “Ele usa este aparato ficcional, que tinha grande popularidade na época, para atingir outro objetivo: o da sátira, que também tinha forte presença na literatura inglesa. As Viagens de Gulliver não é uma exceção em sua obra, que é repleta de ensaios satíricos”, explica. A própria obra de Swift rebate o otimismo que rege a de Defoe, sugerindo pouca esperança às habilidades humanas.

Punhos afiados

“Matem todas as crianças da Irlanda”, sugeriu Swift no clássico texto de 1729 Uma Modesta Proposta – para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus progenitores ou para o país, e para torná-los proveitosos ao interesse público. Foi impulsionado, mais uma vez, pelo inconformismo em relação à burrice do homem dito civilizado, principalmente com a política inglesa, responsável pela colonização que deixara irlandeses agora colhendo as consequências da miséria, falta de comida e trabalho, imigrando aos Estados Unidos.

O escritor expôs suas ideias à sua maneira. Segundo o texto, as crianças, ao invés de virarem ladrões por falta de trabalho, ou abandonarem seu país natal para lutar pelo pretendente ao trono britânico, James Stuart, deveriam ser mantidas pelos ingleses sob amamentação durante seu primeiro ano, até que engordassem e fossem servidas como aperitivos e jantares. É claro que haveria uma organização em torno disso, considerando inclusive a conservação de 20 mil delas para a procriação no futuro. O escritor e ensaísta francês, André Breton, ao escrever sobre Swift, já no século 20, o considera o precursor do humor negro, elogiando sua perspicácia ao tratar sobre política e as mazelas sociais. De fato, a Grã-Bretanha era um terreno fértil para críticas, além de sua já tradicional cultura literária voltada a textos que provocam peculiares tipos de risos, mesmo que não tão agradáveis.

O próprio Swift nascera em Dublin, na Irlanda, em 1667, filho de uma inglesa radicada no país. Devido aos problemas econômicos, sua mãe, Abigail Erick, irmã de um vigário ainda residente na Inglaterra, envia Swift já adolescente para Londres e, graças às boas relações com um diplomata que já trabalhara no parlamento irlandês, Sir Willian Temple, Swift consegue emprego como seu secretário na Inglaterra, enquanto se doutorava em teologia pela Universidade de Oxford. Depois de concluir os estudos, torna-se cônego em Killrooth, encaminhado também pelo próprio Temple (que diziam ser seu verdadeiro pai).

Desde 1685, a política inglesa estava dividida entre dois grandes partidos: o partido dos whigs que defendiam ideias liberais, porém contrários à ascensão de um rei católico; e o partido dos tories, conservadores e defensores da monarquia protestante. Neste ano, o católico James II é coroado. Sob forte pressão, no entanto, é destronado no mesmo ano pela filha protestante e pelo genro Guilherme III, que passa a governar. Essa batalha de poderes rende divisão também entre intelectuais conservadores, como o próprio Willian Temple, e autores modernizadores. Swift tomava cuidado até a medida do possível. Quando lançou As viagens de Gulliver, por exemplo, não assinou a obra, cuja autoria é simplesmente do viajante fictício, evitando sofrer possíveis processos.  Mas Swift se dizia contra tudo relacionado à política. Era a favor da verdade e contra qualquer forma de organização humana.

Rato na toca

Devido aos textos irônicos, ele acaba pagando um preço. Em 1713, quando a Inglaterra é governada pela Rainha Ana, do partido dos tories, Swift perde um importante cargo: ao invés de conseguir a Sé de Hereford, na Inglaterra, é nomeado como deão da Catedral de São Patrício, em Dublin. Ofende-se com a nomeação, mas crê que o melhor a fazer é retornar à Irlanda, onde se diz sentir-se como um rato entocado. No ano seguinte, os whigs voltariam ao poder, mas Swift já é uma forte voz pela causa irlandesa.

De qualquer maneira, e por mais que tivesse sua própria visão política, que parece tender ao lado mais conservador do conhecimento científico e social, Swift era apartidário. Ao invés de levantar bandeiras contra um partido ou outro, ele escreveu a sua maior obra, sobre homens de terras diferentes, comparando suas atitudes com a curiosa sociedade europeia e a política inglesa. Gulliver conversa e aprende sobre as sociedades que visita, mas na melhor delas, ele mesmo acaba sendo recusado, pois tem uma aparência que lembra a casta irracional da sociedade. Gulliver deixa os mares e retorna à sua vida reclusa.

Os últimos anos de Swift também foram destinados à reclusão. Na Irlanda, continuou escrevendo textos cheios de sátiras e ironias, entre eles Sobre a vassoura, em que compara o homem ao utensílio de faxina. Cada vez mais se convencia de que a estupidez humana era a grande culpada por todos os males sociais. Por conta disso, chegou a desejar a loucura, que o faria se esquecer da idiotice dos homens. Em 1736, ironicamente, adoece e é diagnosticado como louco. Internado num asilo, para o qual doaria quase toda sua herança, serviu de atração para curiosos – devido à sua doença e não à sua obra. Foi sua última viagem.

Texto originalmente publicado na revista Aventuras na História.

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Por Alberto Nannini

Nossas ações e nossa compreensão do universo se baseiam na noção espaço-tempo: tudo o que não esteja inserido nas três dimensões espaciais (largura – comprimento – altura), e na dimensão temporal, (que pode ser dividida também em três: passado – presente – futuro), se torna uma abstração. Por exemplo, entender a teoria do “Universo de 10 Dimensões”, ou pensar em conceitos como a infinitude, nos deixam com aquela sensação de “…hã?”, de vazio.

É aí que uma ilustração pode ajudar. Por exemplo, entendemos as formas no espaço pela perspectiva: uma mangueira vista de cima de um prédio é uma linha; de muito perto, é um tubo; de dentro, é um túnel. Desta forma, uma das hipóteses para explicar como seria um universo de 10 dimensões é que as outras dimensões estariam “enroladas” num espaço diminuto e ficariam imperceptíveis a nós. Justamente como no exemplo da visão da mangueira, cuja forma “muda” conforme a escala e a proximidade. Fica bem mais fácil de entender.

Assim, há algumas analogias, ilustrações e afins que possibilitam um entendimento quase instantâneo de uma determinada proposição. Mais que isso, para não-especialistas compreenderem alguns postulados científicos, somente por meio de uma delas. E há também alegorias tão bem construídas que podem revelar um conhecimento digno dos estudos mais rigorosos.

É o caso do livro “Planolândia”, de Edwin Abbot Abbot. Foi publicado pela 1ª vez na Inglaterra, em 1884!! A história parece bastante simples: num mundo de duas dimensões, mora A. Quadrado. As mulheres são triângulos (ironização da ideia de inferioridade delas), e a “complexidade” e o status dos seres da Planolândia têm relação com o número de lados e simetria de suas figuras. Há inclusive uma evolução: a tendência é que um ser quadrado, unido à sua esposa triangular, tenham como filho um pentágono ou um hexágono, que gerarão, por sua vez, heptágonos ou octógonos. Logo, os círculos são os mais perfeitos, e ocupam, não à toa, os cargos políticos e eclesiásticos. E há ainda muitas outras ironias do tipo.

Num dia qualquer, está A. Quadrado em sua casa, quando percebe um círculo lá dentro. Por pertencer a uma casta inferior, A. Quadrado o reverencia, mesmo sem entender como ele lá entrou. O que ele não sabe é que o círculo, na verdade, é uma esfera, que vinda da “Espaçolândia”, entrou por acaso na Planolândia, e só pode ser vista na sua secção dentro dela (para visualizar, imagine uma folha “virtual” feita de luz, como o raio emitido por um leitor de código de barras, e passe pelo espaço dela uma bola transparente; a parte iluminada da bola, dentro do espaço desta “folha”, será um círculo).

Por mais que a Esfera lhe explique, A. Quadrado não entende a “dimensão adicional” que há na Espaçolândia. Aí então, a Esfera lhe leva para uma jornada. Primeiro, conhecer a “Linhalândia”, onde todos os seres são segmentos de uma reta. Então, A. Quadrado começa a entender: para os seres da Linhalândia, que veêm apenas um de seus lados, ele é apenas uma linha – sua largura ou seu comprimento – já que eles não conseguem ver ambos ao mesmo tempo.

Em seguida, vão até a “Pontolândia”, onde o ser é um ponto, e ele é tudo (o que isso lembra?) e não entende nada que esteja fora dele. Mesmo as vozes de A. Quadrado e da Esfera ele acha vir dele mesmo.

Visitando, finalmente, a “Espaçolândia”, A. Quadrado, vendo cubos, compreende a tridimensionalidade, e, quando retorna para sua casa, tenta explicá-la aos seus conterrâneos, em vão.

A Esfera o visita novamente, e ele se diz preparado para ir à próxima dimensão, além da Espaçolândia, onde os cubos terão 16 arestas, ao invés de 8, e assim igual e sucessivamente a todos os outros seres. O resultado é que a Esfera se indigna, dizendo ser impossível haver mais dimensões além das conhecidas, e A. Quadrado termina seus dias internado num hospício, vendo seu sol plano nascer igual a ele próprio.

De início, esta formidável analogia já abala algumas convicções “sólidas”: aquilo que conhecemos pode ou estar errado ou ser apenas a superfície. Aliás, isso vem sendo confirmado pela ciência, desde que ela foi criada. Conceitos tidos como “absolutos” foram e continuam sendo revistos: o tempo não “flui” de maneira uniforme, a luz pode ser “dobrada”, uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, e por aí vai.

Daí que não há nenhuma razão para se acreditar que não possa haver outras dimensões, ainda que só nos movimentemos nas quatro conhecidas. E proposições que contrariem cabalmente aquilo que conhecemos não podem ser automaticamente descartadas, porque a verdade pode ser bastante “contraintuitiva”.

Isso abre muito espaço para a “pseudo-ciência”, o que é uma discussão à parte. Mas até essa auxilia a construção do nosso conhecimento, deliciosa e inquietantemente provisório.

Além do livro citado, tenho mais duas indicações para aprofundar este assunto:

Planolândia“, Edwin Abbot Abbot, Ed. Conrad (já achei este livro à venda por R$9,90!);

“Incríveis Passatempos Matemáticos”, Ian Stewart, Ed. Zahar, e

“Almanaque das Curiosidades Matemáticas”, idem.

Por isso, queridos, se receberem uma visita de um “ser fantasmagórico”, que provavelmente apareceria “do nada”, se materializaria e depois iria sumindo, tente não se assustar: provavelmente é algo ou alguém da 5ª Dimensão, entrando, por acaso, no nosso pobre plano só tridimensional.

[ P.S.: Pretendo retomar esta postagem, com outras alusões que podem ser feitas com trechos destes livros, explicando como a Planolândia me ajudou a entender as potências numéricas e a equação x°=1, e abordando implicações teológicas (!!!) nos conceitos de perspectiva, proporção e, se der, também nos extravagantes fractais! Ufa! ]

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Jim Knipfel


Jim Knipfel é um desgraçado. Passou boa parte de sua infância e adolescência preocupando-se em tumultuar a vida dos outros apenas para se divertir com isso. Tentava colocar fogo em prédios, roubava, vandalizava…  Achava bonito ser maloqueiro. Cresceu e deixou de cometer as babaquices de outrora, mas vê (ou quase isso) o mundo e os seres humanos de uma forma extremamente pessimista. Digo ou quase isso porque Knipfel é praticamente cego, não consegue andar na rua sem sua bengala e, ainda assim, vive tropeçando por aí. Beberrão assumido, tentou se matar algumas vezes. Fracassou.

Passou por diversos empregos medonhos até chegar à recepção do jornal New York Press. Como se experimentava às vezes  como escritor, Knipfel resolveu tentar a sorte em uma vaga para jornalista do periódico. Se deu bem. Seu texto ganhou prestigio e, tempo depois, tornou-se colunista. Todas essas histórias – e muitas outras, claro – estão presentes em A arte de ser desagradável, um dos livros de memórias do autor e o único traduzido para o português. Na obra, o escritor também faz questão de exaltar o bairro onde vive com orgulho: o Brooklyn.

Se vive e passa boa parte de sua vida no famoso bairro de Nova Iorque, Knipfel deve conhecer a Brooklyn Brewery. Se não conhece, está perdendo muita coisa. Fundada em 1988, a cervejaria é uma das mais importantes no efervescente cenário de cervejas artesanais dos Estados Unidos. Seu mestre cervejeiro, Garret Oliver, talvez atualmente seja o nome de maior relevância quando o assunto é harmonização entre cerveja e comida.

Garret Oliver

No ano passado, alguns rótulos da Brooklyn chegaram ao Brasil, dentre eles a East India Pale Ale, uma cerveja aromática e com amargor pronunciado, como pede o estilo, que provavelmente agradaria (ou agrada, quem sabe) o paladar de Knipfel.

A India Pale Ale, ou apenas IPA, surgiu na Inglaterra na época das grandes navegações. Como as viagens para a Índia eram muito longas, as cervejas chegavam no país asiático estragadas. A solução para o problema foi acrescentar mais lúpulo as Pale Ale, aumentando o seu tempo de conservação e, conseqüentemente, seu amargor (proveniente do lúpulo).

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admiravelUma história atemporal é um dos requisitos mais lembrados dentre as razões que tornam um livro um clássico. “Admirável mundo novo”, do inglês Aldous Huxley, vai além. Escrito em 1932, a história é uma das principais referências quando o assunto é ficção cientifica, rótulo bem estipulado para os padrões da época. Acontece que, com o passar do tempo, o livro se tornou (e se torna) cada vez mais atual.

A história mostra uma sociedade onde as pessoas são produzidas em série, com características em comum e divididas em castas. Cada uma serve para algum tipo de trabalho especifico e os modos de vida são semelhantes. A história é ambientada em uma Inglaterra do futuro, onde Deus é banido e passa se chamar Ford, clara alusão aos donos de empresas e detentores da grana que comandam a sociedade.

Nas castas mais baixas, os livros são objetos proibidos e autores ocultados, para que as pessoas não questionem a teoria de que nada que é velho pode ser melhor do que as coisas novas. Por interesse das autoridades, a privacidade do individuo é banida e os sentimentos suprimidos pela “soma”, uma espécie de droga, que pode ser comparada ao álcool ou calmantes.

Talvez uma das partes mais emblemáticas do livro seja quando o administrador da sociedade explique o porquê as pessoas são feitas com repudio as flores: não poderiam gostar de alguma coisa com a qual não se pode ganhar dinheiro, pois os campos e jardins são gratuitos.

O ponto alto da história acontece quando um “selvagem” é integrado à sociedade. Vindo de Malpaís, lugar sem atrativos financeiros – portanto desprezado pelos ingleses – ele começa questionar de vida das pessoas vivem e a reivindicar seus direitos, funcionado como uma espécie de filósofo em uma sociedade que não pensa.

O que em 1932 foi escrito como uma obra de ficção cientifica hoje pode muito bem ser considerada uma abordagem de como pode ser o futuro (ou até mesmo o presente) da humanidade.

*Resenha resgatada do meu antigo blog

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