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Posts Tagged ‘James Joyce’

Por Rodrigo Casarin

primeira guerraSarajevo, 1914. Balas mortais atingem o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando e a duquesa Sofia. Quem as dispara é Gavrilo Princip, um sérvio integrante da Mão Negra, organização que quer todos os territórios eslavos independentes do império austro-húngaro. Para alcançar o objetivo, usam a violência como principal arma. O assassinato do casal é somente mais um ato. Gavrilo não imaginava o que aqueles disparos ocasionariam.

A Europa vivia um momento delicado. As nações imperialistas tentavam a todo custo aumentar seus territórios. Disputavam espaços na África e, para se fortalecer, investiam muito dinheiro em armamentos. Com animosidade entre os impérios, o sentimento de nacionalismo se exacerbava em uma época cujas feridas causadas por conflitos no século XIX ainda incomodavam.

Após o assassinato, os austro-húngaros acusam a Sérvia de financiar a Mão Negra e logo declaram guerra ao país. É a desculpa que todos precisavam. Como garotos esperando qualquer olhar torto para iniciar uma confusão, as nações europeias vão à briga. A Rússia em defesa dos sérvios; a Alemanha, contra a França e depois contra a Rússia; a Grã Bretanha, contra a Alemanha, em defesa da Bélgica; a Itália um tanto perdida, sem saber ao certo em quem bater. Logo os Estados Unidos chegariam para dar uma força aos amigos bretões e franceses.

A briga seria superlativa. Duraria até 1918, envolveria países de todos os continentes, deixaria mais de quinze milhões de mortos e seria conhecida como a Primeira Guerra Mundial, ou A Grande Guerra.

2014 marca os cem anos do início do conflito e o mercado editorial prepara novidades sobre o assunto. A Rocco lançará Adeus à Europa, de Olivier Campagnon, um estudo que mostra o impacto da batalha nos países latino-americanos, principalmente no Brasil e na Argentina. Segundo Campagnon, a mudança na imagem europeia, outrora exemplo de civilização, levanta questões identitárias que levam a uma reformulação do nacionalismo na América Latina.

Pela Companhia das Letras, chegará às prateleiras The Sllepwalkers (ainda sem título em português), de Christopher Clark, que trata das razões que motivaram a luta armada, e The beauty and the sorrow (outro ainda sem nome em nossa língua), de Peter England, um retrato das pessoas comuns durante o combate. A Alfaguara também trará uma novidade: O bom soldado Svejk, de Jaroslav Hasek, uma comédia que flerta com o absurdo, previsto já para o primeiro semestre.

A literatura da Primeira Guerra

As editoras se aproveitam da efeméride. Contudo, ao longo desses cem anos, diversos livros já abordaram A Grande Guerra. Os dois mais comumente associados ao evento são os romances Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, e Adeus às armas, de Ernest Hemingway.

Erich Maria Remarque é o pseudônimo de Erich Paul Remark, alemão que esteve no campo de batalha. Nada de novo no front, de 1929, é protagonizado por Paul Bäumer, que se alista ao exército germânico e vai combater no oeste europeu, onde se dá conta do que é realmente a guerra: um bando de homens matando outros homens por causa de homens que jamais viram na vida. A matança é intercalada por momentos de monotonia e fome – a dificuldade em encontrar comida às vezes é grande. Quando Paul volta à cidade, surpreende-se com as pessoas que acompanham tudo de suas casas, loucas por uma triunfal vitória, bastante diferente dos soldados da linha de frente, que só querem permanecer vivos.

Hemingway também esteve no front. Recusado pelo exército de seu país, os Estados Unidos, arrumou uma vaga na Cruz Vermelha. Foi enviado à Itália, onde dirigiu ambulâncias até estilhaços de uma bomba lhe atingirem na perna, obrigando-o a retornar para casa. Da experiência nasceu Adeus às armas, que, se lançado hoje, com certeza fomentaria ainda mais a discussão sobre as metaficções. A obra, lançada no mesmo ano de Nada de novo no front, narra a história de Frederic Henry, estadunidense que vai à guerra ser piloto de ambulância e é ferido na perna, veja só. Assim como Hemingway, Frederic se apaixona em meio à barbárie. É sobre a relação do personagem com sua amada que o enredo desenrola até seu final publicado – apenas um dos 47 finais elaborados pelo escritor.

Se o cenário dessas duas obras é Primeira Guerra Mundial, em outras ela aparece de forma velada, com influência sobre o ambiente que os personagens vivem – é o caso de O grande Gatsby, clássico do estadunidense Scott Fitzgerald, lançado em 1925 e que mostra a prosperidade e o deslumbramento da elite de seu país nos anos que sucederam o conflito –, ou explicitamente, mas de maneira pontual – como em O tempo redescoberto, último volume da Em busca do tempo perdido, do francês Marcel Proust, do qual se destaca a cena do protagonista passeando por uma Paris em meio a bombardeios.

No Brasil, um dos personagens mais marcantes de nossa literatura nasceu inspirado pelo combate. Jeca Tatu, uma espécie de arquétipo caipira, apareceu primeiro em um artigo para o jornal O Estado de São Paulo em 1914, mas foi eternizado no conto “Urupês”, do livro Cidades mortas, de 1919. Quando criou o personagem, Monteiro Lobato estava revoltado com brasileiros que se preocupavam mais com a condição da Europa do que com o interior do seu próprio país.

Em Cidades mortas ainda há o conto “O espião alemão”, no qual Lobato ridiculariza quem pensava que o Brasil poderia ser alvo de exércitos estrangeiros, enquanto uma verdadeira batalha acontecia em seus rincões: a luta pela sobrevivência.

É evidente que a lista de prosas ficcionais que tratam do assunto não se esgota nesses títulos. Contudo, como se trata de um acontecimento histórico, é importante destacarmos os livros de não ficção que abordam a Grande Guerra. Com o nome nada original de A Primeira Guerra Mundial, temos obras assinadas por Michael Howard, Lawrence Sondhaus e H.P. Willmott, que trazem uma visão panorâmica do conflito. Focado no início do embate, enquanto estavam sendo decididos os rumos que influenciariam o mundo, há Canhões de agosto, de Barbara Tuchman, que alia informações históricas à narrativa literária em um trabalho que valeu o Prêmio Pulitzer de 1963 à autora.

Infelizmente, uma outra obra histórica construída em forma de narrativa ainda não foi publicada no Brasil. Trata-se de Der Kleine Frieden im Grossen Krieg (algo como Um pouco de paz na Grande Guerra), de Michael Jürgs, que refaz a trégua de quase uma semana entre soldados inimigos para celebrar o natal, enterrar seus mortos, jogar bola e até mesmo trocar alguns presentes. Fosse ficção, provavelmente soaria piegas.

Já com uma abordagem diferente, que dá luz às pessoas comuns, que vivenciaram e sofreram o período, há os relatos contidos em Vozes esquecidas da Primeira Guerra Mundial, trabalho de Max Arthur em parceria com o Museu Imperial de Guerra britânico.

A literatura na Primeira Guerra

Apesar dos exércitos, invasões, balas e mortes, novidades literárias continuavam aparecendo durante a Grande Guerra. E com um detalhe importante: o conflito, de certa forma, influenciou a que, para muitos, é a santíssima trindade literária do século XX: Franz Kafka, Marcel Proust e James Joyce, que, após uma busca de década por quem o editasse, lançou o livro de contos Dublinenses, uma de suas obras mais importantes, poucos dias antes de soarem os primeiros tiros. Nele, o escritor traça um retrato da vida dos habitantes de Dublin e apresenta sinais do estilo que radicalizaria em Ulysses. É de se imaginar que algumas pessoas deixassem os assuntos bélicos de lado e preferissem discutir as histórias do irlandês.

Outro título que deve ter sido posto em pauta entre uma opinião ou outra sobre o conflito é A metamorfose, um dos trabalhos mais representativos de Kafka, lançado em 1915. A saga do homem-inseto Samsa foi escrita após o início da Primeira Guerra Mundial, que impactou tanto na própria obra – o pessimismo da época, as questões que a modernidade trazia, a desesperança – quanto no autor tcheco, que passava por uma crise emocional agravada pelos episódios de matança.

Completando o trio sacro, já mostramos como a embate aparece no último volume de Em busca do tempo perdido, de Proust, mas faltou dizer que a publicação da septologia foi interrompida por conta da luta entre países. No caminho de Swan chega às livrarias em 1913, enquanto À sombra das raparigas em flor sai apenas em 1919. Apesar da conhecida morosidade da escrita do francês, o lapso entre publicações foi um motivo externo ao autor. A guerra também aparece de forma velada em Em busca do tempo perdido, afinal, não haveria como retratar a sociedade de sua época sem levar em conta os efeitos que ela provocou.

Apesar de distantes, não escapamos de novidades que flertam ou se agarram à confusão europeia. Lima Barreto, por exemplo, publica Numa e a ninfa e a versão em livro de O triste fim de Policarpo Quaresma durante os anos de conflito. Porém, é na poesia brasileira que o combate exerceu uma influência mais direta, em autores dos mais importantes para o movimento modernista no país.

Manuel Bandeira era tuberculoso, por isso, em 1913, mudou-se para a Suíça – iria se tratar por lá. Iria, caso não tivesse que retornar ao Brasil no ano seguinte, por conta do início das animosidades. De volta ao seu país natal, publica em 1917 A cinza das horas, sua primeira obra, que sai com uma edição de 200 exemplares custeados pelo autor. Mais evidente é a influência da Grande Guerra em Mário de Andrade, que também em 1917 publicou, sob o pseudônimo de Mario Sobral, Há uma gota de sangue em casa poema, livro inspirado pelas barbáries da batalha.

E tudo isso começou, de certa forma, com os tiros de Gavrilo Princip.

Texto publicado originalmente na edição XX suplemento literário Pernambuco.

Ps: Desculpem pelo jogo de negrito e não-negrito, mas há algum tempo venho apanhando do WordPress.

 

 

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Rodrigo Casarin

Wellinton_Melo_estrangeiro_labirtinto_167-140x214Há diversas formas de ser derrotado.

No futebol convencional, aquele que passa na televisão, as variáveis não são tantas. Há a derrota comum (1 x 0 ou 2 x 1 para o adversário), as goleadas (a partir de três gols de diferença, exceto em clássicos, quando qualquer derrota — às vezes até o empate — soa como uma goleada) e a derrota doída, aquelas com virada após os 40 minutos do segundo tempo ou em partidas decisivas. Há ainda detalhes como perder jogando bem ou sem sequer ver a bola que apenas dão alguma complexidade ao fracasso.

No futebol de rua — ou de quadra, ou society, ou qualquer futebol jogado com os amigos — as variações de derrota vão além das já citadas. No tradicionalíssimo dez minutos ou dois gols, ver seu goleiro ser repetidamente vazado em menos de um minuto é deprimente, principalmente se o jogo seguinte correr ao longo de seu tempo máximo enquanto você espera apaticamente sentado na mureta. Se forem quatro times na quadra, então, o vexame se torna ainda maior — ele é sempre proporcional ao tempo de espera. Há ainda a derrota não-derrota. É simples: a vantagem do empate é do time que já está na quadra. Não importa que o desafiante sustente bravamente ao longo de dez minutos o placar em branco, aquele que já estava ganhando que continuará em campo e os guardiões da defesa suíça voltarão para o banquinho, derrotados sem perder.

Na literatura também há diversas formas de derrotas. Às vezes, os livros são derrotados, às vezes, os leitores. Se pegarmos para ler uma obra e a largamos antes da página 50 ou de completar 10% do calhamaço, derrota vexaminosa para o livro. Se lemos uma obra inteira para no final dizer “é uma porcaria”, derrota normal para o livro. Livro lido, entendido e leitor satisfeito é empate. Se estamos encantados com o livro, mas não conseguimos avançar em suas páginas por conta de uma clara debilidade nossa, 1 x 0 pro livro. Agora, se adoramos o que estamos lendo, criamos expectativa para continuar a leitura e chegamos ao final com a impressão de que tudo aquilo valeu a pena, mas que ainda há muito para se entender da obra, aí é goleada para o livro. Diferentemente do futebol, onde muitas vezes o técnico não pode ser execrado ou vangloriado pelo resultado de uma partida, quando o livro perde, empata, ganha ou goleia, seu escritor é sim diretamente responsável por aquilo e merece ficar com todos os louros — ou receber todas as vaias.

Já havia perdido para alguns livros. Ulysses, de James Joyce, me desbancou por volta da página 300, Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, já me derrotou por três vezes (nas três eu ainda era bastante jovem, então anseio por mais uma revanche). Já sofri algumas derrotas mais feias (um 5 x 2, talvez) para obras de Proust e Dostoiévski, por exemplo. Agora, uma goleada como a que tomei de Estrangeiro na labirinto, de Wellington de Melo, jamais havia tomado. Futebol envolvente, insinuante, com jogadores de características completamente versáteis, um olhar crítico sobre a própria maneira de jogar, domínio tanto do espaço quanto do tempo dentro de campo, atletas com fôlego para ir até a linha de fundo, voltar, ir de novo, dribles improváveis e inesperados… Eu também estava em campo e jamais me entregaria. Tentei jogar. Quando houve espaço, fui pra cima, mas o contra-ataque era sempre mortal. Fiz o que pude, mas, ao final, bastava-me bater palmas e admirar aquele que me derrotou. Não lembro exatamente como ficou o placar, mas era algo clássico, típico da copa de 1954, como um 7 x 3 ou 8 x 4.

As impressões do derrotado

Na quarta capa do livro, dicas que a partida seria difícil: “Um juiz acusado de homofobia ao julgar um assassinato, mas que esconde um segredo ainda mais sombrio. Um matador de aluguel que volta à casa dos pais para acertar as contas com o passado. Uma prostituta viciada em crack que se vê presa em um labirinto de palavras” — até aí tudo bem, o time parece ser bom, mas dá pra encarar — “Vozes anônimas que tentam explicar a natureza de um livro que supostamente aprisiona seus leitores, usando conceitos de física quântica, da psicanálise e do ocultismo” — com essa filosofia de jogos é que as coisas se tornam mais difíceis para qualquer adversário.

Estrangeiro no labirinto é um livro múltiplo — palavra ideal para acompanhá-lo, aliás. São histórias diferentes, contadas por narradores (cronistas) diferentes, com vozes completamente distintas e bem caracterizadas, que se alternam e, de alguma maneira, compõem a própria história do livro. Cada trecho está dentro de uma porta que pertence a um salão e é precedido por cartas de tarô. Alguns cronistas narram as histórias anunciadas na quarta capa, outros filosofam, discutem, censuram-se.

Por todas as partes, dicas e evidências da multiplicidade dos personagens. O recurso do duplo é amplamente explorado por Melo, e, em muitos momentos, remete às diversas possibilidades de se ver uma só existência, algo tratado magistralmente pelo italiano Luigi Pirandello em Cem, nenhum e cem mil. A habilidade em lidar com esse jogo, arrisco dizer, deixaria Borges e Gógol orgulhosos do trabalho do autor.

Sim, Estrangeiro no labirinto é um labirinto, só que não um labirinto moderno e bonitinho, cheio de arbustos bem aparados e turistas sorridentes, mas daqueles com espelhos que nos refletem, distorcem e confundem, daqueles mitológicos, repletos de armadilhas e charadas a serem desvendadas, daqueles que uma vez dentro, a possibilidade de sair é quase inexistente — sim, porque as páginas do livro acabam, mas ele continua na cabeça.

Que venham mais leituras da obra, diversas outras, para que os elementos comecem a ser realmente percebidos, entendidos e, a partir disso, explicados e debatidos. Creio que Estrangeiro no labirinto terá uma carreira de glória pela frente, que será daqueles times com poucos torcedores, mas extremamente leais e qualificados. Parabéns pela vitória, Wellington. Sento na mureta e espero minha vez de lhe desafiar novamente.

Texto publicado originalmente na edição 167 do jornal literário Rascunho.

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Por Fred Linardi

livro por diaDe um dia para o outro a rotina do jornalista policial canadense Jeremy Mercer mudou. Sem honrar o voto de confiança de um criminoso, Mercer citou seu nome num livro-reportagem sobre uma série de assassinatos ocorridos na cidade. Seria muito ingênuo pensar que o assassino deixaria por menos. Logo depois do lançamento do livro, o telefone da casa do jovem jornalista tocou. Era o próprio foragido que prometia acertar as contas mais cedo ou mais tarde.

Essa foi a maior motivação para que Mercer pensasse em sair de cena por um tempo, ao menos até que os ânimos do bandido (talvez) se acalmassem. A segunda motivação foi sua situação acadêmica. Ele estava quase jubilando na faculdade de jornalismo por causa do francês, a única matéria que faltava para concluir sua graduação. Resolveu que faria a disciplina na França, berço da língua e um país distante o suficiente para não ser perseguido por um enfurecido criminoso.

Com o dinheiro contado para poucas semanas, Mercer passou um tempo em condições extremamente simples, mas mesmo assim seus tostões acabaram. Um dia, enquanto fugia de uma das típicas chuvas de Paris, abrigou-se na Livraria Shakespeare and Company. Mal imaginava a história da loja, tampouco sobre seu dono ou sobre a principal informação que mudaria o destino de Mercer na cidade luz. George Whitman, o fundador e proprietário, vivia e pregava uma filosofia socialista e fazia de sua loja um celeiro para isso. Uma de suas atitudes era abrigar escritores e aspirantes entre as prateleiras repletas de títulos em inglês. Em meio aos livros novos, usados, antigos e raros, algumas camas compunham o romântico ambiente da loja. Jeremy Mercer apresentou-se e foi aceito para ocupar uma delas durante o tempo que precisasse – desde que escrevesse. Desde que se dedicasse à leitura, à escrita e, claro, ajudasse em algo da loja.

Um livro por dia, publicado aqui pela Casa da Palavra, é uma agradável leitura sobre a experiência de morar na livraria cuja fama se dá graças a escritores como Ezra Pound, Ernest Hemingway e James Joyce. Isso porque George Whitman abriu sua loja com o mesmo nome da primeira versão da lendária livraria que não sobreviveu à ocupação alemã em 1940. Amigo e admirador de Sylvia Beach, que criara a primeira versão da Shakespeare and Company, Whitman a reinaugurou em outro endereço na década seguinte, mantendo a tradição da original.

Mas Jeremy Mercer alojou-se na livraria no ano 2000, quando o contexto era bem diferente daquele retratado por Woody Allen em Meia noite em Paris. Não que hoje em dia não haja mais novos Hemingways na livraria – pode ser até que tenha… – mas a realidade parisiense que é outra também. Entre os suspenses vivenciados pelos jovens moradores estava a situação ameaçadora imposta por um grande magnata da hotelaria em comprar o prédio de três andares ocupado pela Shakespeare and Company. Além deste drama financeiro, Whitman carregava uma difícil questão familiar: a relação com sua filha que morava na Inglaterra e que pouco teve contato ao longo de sua vida.

Aliás, entre as maiores qualidade da maneira de Mercer narrar, está no modo que mantém pequenos suspenses entre um capítulo e outro, conquistando a atenção do leitor, que se envolve cada vez mais na leitura. Entre breves perfis de outros estrangeiros que ali vivem – incluindo um velho e excêntrico poeta inglês –, retrata a liberdade e as situações extremas daqueles que resolveram deixar seus países para morar praticamente de favor e com moedas contadas. O relato então se torna ainda mais generoso ao leitor, pois conta a história de Whitman e da livraria, mas também mostra as fraquezas e dúvidas dos personagens do livro, inclusive do próprio Mercer ao longo dos quatro meses que lá viveu, bebeu, escreveu e – devido ao costume local e ao inverno – pouco teve condições de se assear.

Vivendo em algumas questões extremas – a livraria não é munida de banheiro com chuveiro, por exemplo – Mercer relata episódios aflitivos, como os indesejáveis ratos que disputavam a comida do jantar preparado e servido por Whitman. E também como os moradores arranjavam diferentes meios para combater a miséria, valia até mesmo cuidar um pouco da higiene no banheiro de um café do outro lado da rua, já que banhos de verdade costumavam acontecer somente quando tinham a sorte de ter uma noite de amor no quarto de hotel de alguma turista que surgia na loja.

O livro aproveita as tramas de destinos incertos. O destino de Jeremy Mercer parece ter sido muito melhor do que se jamais tivesse sofrido uma ameaça de morte. Temos a certeza disso inclusive pelo livro publicado – tudo ocorreu bem e ele está vivo até hoje. Já sobre o destino da livraria e George, é preciso ler toda a obra. A leitura é gratificante, indicando que a narrativa de não ficção continua a atingir os altos níveis de qualidade que tem alcançado há décadas.

O próximo entrevistado do Canto dos Livros será o Jeremy Mercer. Não percam!

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Ontem, dia 17 de março, foi celebrado o Saint Patrick’s Day (ou Dia de São Patrício, como queiram), uma comemoração tipicamente irlandesa que se espalhou por todo o mundo graças às estratégias de divulgação de cervejarias que associaram suas marcas à data.

Uma das cervejas mais consumidas no Saint Patrick’s Day é a Guinness, talvez o maior patrimônio irlandês. Criada por Arthur Guinness no século XVIII, a cerveja é uma das mais famosas do planeta e referência do estilo Stout. Quando servida, a aparência dessa negra é sensacional. O liquido completamente escuro é coberto por um pequeno, mas extremamente resistente, creme bege, que deixa marca ao longo de todo o pint conforme a breja vai sendo tomada. A formação desse corpo também merece destaque: ao despejar a latinha no copo, um liquido marrom se agita como areia movediça por algum tempo, até que se aquiete em sua forma final.

E se a Guinness é um dos patrimônios do país dos leprechauns, um outro grande “embaixador” da Irlanda está na literatura: James Joyce. Autor do clássico Ulisses – romance publicado em 1922 que serviu como um dos pontos para o modernismo e trouxe novas possibilidades para a Literatura, principalmente referentes a aspectos psicológicos dos personagens –, Joyce nasceu em Dublin em 2 de fevereiro de 1882. Outra obra bastante famosa do escritor é Dublinenses, composta por 15 contos sobre sua terra natal e a vida de seus habitantes.

Um dos países mais pobres da Europa e, por ser uma ilha, distante das outras nações, a Irlanda pode se orgulhar de ter uma data celebrada em boa parte do mundo, uma cerveja famosíssima que é referência em seu estilo e um dos escritores mais influentes e importantes do século XX. Para homenageá-la, façamos como nossos amigos abaixo, então!

Leprechauns beberrões.

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