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Posts Tagged ‘Joe Sacco’

Já pensou passar boa parte do ano viajando pelos mais diferentes lugares do mundo e depois ter tempo – e a obrigação – de transformar a experiência em um livro? Pois bem, é esse o ofício de Airton Ortiz. Autor de Em busca do mundo Maia, Egito dos faraós, Cruzando a última fronteira – uma aventura pelo fascinante Alasca, Na estrada do Everest, Pelos caminhos do Tibete – Aventuras na terra de Dalai Lama e outras cinco obras o escritor gaúcho ficou renomado por praticar – e criar, segundo um estudante de Jornalismo – o chamado Jornalismo de Aventura. Nesta entrevista ele nos fala principalmente de seu trabalho e de narrativas de viagem. Confira:

Canto dos Livros: De onde veio a ideia de escrever sobre as suas viagens?

Airton Ortiz: Sou jornalista, escrever é o meu trabalho. Também sou montanhista, gosto de escalar montanhas. Assim, a partir de um determinado momento decidi escrever sobre minhas viagens pelo mundo para escalar montanhas. Escrevi o Aventura no todo da África, contando minha chegada ao cume do Kilimanjaro, a montanha mas alta deste continente. O livro saiu pela Record, vendeu muito (ainda vende muito) e decidi manter a experiência. Os livros foram sendo publicados e, como sempre vendiam muito, fui me afastando das outras atividades e me concentrando em escrever sobre minhas aventuras pelo mundo. Hoje vivo exclusivamente disso.

CL: Como é escrever um livro de viagem não ficcional?

AO: Escolho um desafio e o transformo em pauta. Por exemplo: atravessar a América do Sul, do Pacífico ao Atlantico, por dentro da Floresta Amazônica. O tema, e apenas ele, é fruto da minha imaginação, mas a partir daí o livro conta o que realmente acontece na viagem, sem se afastar da realidade. Assim, escrevi Travessia da Amazônia. Faço um minucioso diário durante a viagem e depois, na volta, seleciono apenas os acontecimentos que têm a ver com a pauta. Por isso, o livro tem um eixo, o que o aproxima de um romance. Meus leitores dizem que lêem meus livros como se fossem romances.

CL: Quais as suas peculiaridades dessas narrativas de viagem em relação a outros gêneros da escrita?

AO: Meus livros passaram a ser muito lidos nas faculdades de jornalismo, pois os estudantes entendiam que eles traziam aspectos diferentes dos outros textos jornalísticos. Lá pelas tantas um aluno, num Trabalho de Conclusão de Curso, classificou os meus livros como sendo “Jornalismo de Aventura”, um novo gênero dentro do jornalismo. Isto porque, segundo ele, sou ao mesmo tempo repórter e protagonista da reportagem. O nome se popularizou e hoje faço palestras nas faculdades de Comunicação como sendo o criador do Jornalismo de Aventura.

CL: O que é importante observar na viagem para que se obtenha sucesso na hora de escrever?

AO: Uma boa reportagem precisa contar algo novo ou, no mínimo, acrescentar informações ao que já se sabe. E, ao mesmo tempo, contar de forma criativa. Procuro unir as duas coisas: trazer para o leitor brasileiro um pouco da realidade de outras culturas contando-a a partir da visão de alguém que se integrou a ela, sempre procurando compreender em vez de julgar. Escrevo sobre a minha experiência, mas sempre dentro da técnica do jornalismo.

CL: Quais as maiores diferenças entre escrever sobre viagens de aventura (sua primeira fase, digamos assim) e relatar viagens a centros urbanos (que seria a sua segunda fase)? Por que essa mudança?

AO: A coleção Viagens Radicais, por onde publiquei dez livros, são reportagens sobre grandes travessias, o tal Jornalismo de Aventura. A coleção Expedições Urbanas são crônicas sobre cidade diferenciadas vista por um ângulo diferenciado. Ao final do livro, o leitor tem que se sentir como alguém que tenha morado na cidade. A outra grande diferença é com relação à linguagem. No jornalismo a linguagem informa, com precisão; na crônica a linguagem sugere, deixando mais espaço para o leitor. Mudei porque sou movido a desafios. Agora, por exemplo, pretendo me aventurar na ficção. Já está na Record o Gringo, um romance de aventura. Nesse caso, a linguagem é outra: não informa nem sugere, apenas insinua.

CL: Quais livros nessa área você destaca?

AO: A maioria dos meus livros ganhou algum prêmio, mas destaco dois: o Na trilha da humanidade, uma volta ao mundo seguindo os humanos pré-históricos da África até o Brasil, que é uma ampliação de uma série de reportagens que publiquei no jornal Zero Hora, de Porto Alegre. A série foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo. E o Havana, 55 crônicas sobre a cidade de Havana, que ganhou o Prêmio Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores.

CL: Você acredita que existam elementos que aumentam a chance de uma viagem se tornar uma boa história para ser contada? Lugares pouco explorados, a presença – ou ausência – de amigos, uma cultura exótica, fazem com que a jornada seja boa fonte de matéria-prima para um livro como os seus?

AO: Sim, quanto mais diferente o lugar, mais interessante vai ser a história; pois aguçará a imaginação do leitor. E o leitor é, na verdade, o responsável pela maior parte da história. Mas, é claro, desde que o escritor consiga perceber as nuanças específicas de cada realidade. Perceber o mundo como um morador local o percebe é fundamental para escrever com realismo e convencer o leitor de que ele está entrando num mundo especial, diferente do seu dia-a-dia.

CL: Apesar de todas as precauções e preparo, acidentes graves e mesmo fatais não são raros em viagens de aventura. Qual a motivação para se expor a situações-limite, de risco tão alto? Qual(is) novas perspectiva(s) são adquiridas, se flertando com a morte?

AO: A alienação ao risco nos aliena de nós mesmos. Viver sem experimentar fortes emoções é diminuir o pouco que já somos. E a natureza selvagem é o melhor ambiente para o homem se por à prova e descobrir até onde ele pode ir. Expor-se a situações-limite amplia o autoconhecimento, e conhecer-se com profundidade é fundamental para compreendermos os diversos sentidos que a vida tem. Enfim, como diria Guimarães Rosa: “Viver é perigoso”. E eu acrescentaria: ainda bem!

CL: Em relação às expedições urbanas, um exemplo notável é o de Guy Delisle, quadrinista canadense que conseguiu relatar o cotidiano de alguns dos centros urbanos mais restritos do mundo, como Pyongyang, na Coréia do Norte, e Myanmar. Estes testemunhos assumem também o cunho de denúncia, ao relatar os desmandos das ditaduras nos dois países. Você tem planos de visitar algum destino semelhante a estes? Visitá-los alteraria seu enfoque ao escrever?

AO: Eu tenho um olhar terno sobre as pessoas e um olhar muito crítico sobre as instituições. As instituições normalmente são opressoras, pois tendem a nos diluir no coletivo, ignorando o que temos de melhor: a capacidade de sermos únicos. E isso não acontece apenas nas ditaduras, mas em todos os sistemas políticos neste chamado “mundo moderno”. A instituição “cidade” oprime muito mais do que este ou aquele governo. Os governos passam, podem demorar, mas passam, mas a desumanização das grandes cidades veio pra ficar. E ela é muito mais opressora, pois camuflada. Queremos humanizar os robôs enquanto nós, os humanos, estamos nos robotizando. Por isso, meu enfoque sempre é o ser humano, onde quer que ele esteja.

CL: Uma vez mencionados Jornalismo e Quadrinhos, Joe Sacco surge naturalmente. Seus relatos jornalísticos são referência no gênero, e cumprem diversos papéis. O Jornalismo de Aventura é outra ramificação, e muitos sites de notícias já aceitam relatos de colaboradores “leigos”. Esta reinvenção do Jornalismo tende a resultar no que, na sua opinião?

AO: Acabaram-se as verdades absolutas, e isso é bom; porque deixa o viver mais complexo. Diz-se que no mundo contemporâneo não existem mais verdades, mas versões. Então, se é para ficarmos com as versões, quanto maior essa  pluralidade, melhor; ela democratiza nosso olhar sobre a realidade. Mas, é claro, desde que o consumidor dessas versões (leitor/telespectador/ouvinte) saiba que está recebendo uma informação filtrada por este ou aquele interesse. O importante é se ter uma visão geral do processo para se poder contextualizar cada informação que chega até nós. E, a partir daí, criarmos a nossa própria versão. O jornalismo tradicional precisa entender isso, entender o mundo no qual ele está inserido. Aquele jornalista dono da verdade, que sabe tudo sobre todos, está com os dias contados.

CL: Como é o seu método de escrita? Você tira um tempo para estruturar as ideias ao longo da viagem, ou o texto só toma forma depois do retorno, já no escritório?

AO: Eu “pauto” a viagem, isto é, a planejo de acordo com a história que desejo contar. Para escrever o livro Vietnã pós-guerra, por exemplo, fiz o roteiro levando em conta os lugares que foram importantes durante a Guerra do Vietnã. Ou, como a definem os vietnamitas: “Guerra americana”. Faço uma pesquisa antes de sair de casa, vivencio as experiências durante a viagem, amplio a pesquisa por onde vou passando e anoto tudo num diário. Mas o texto mesmo só começo a escrever na volta.

CL: As redes sociais da internet convidam seu público a contar a própria história. Você acredita que haverá mais bons contadores de história nas futuras gerações? Qual você imagina ser o impacto desses novas formas de comunicação na capacidade das pessoas em construir suas próprias jornadas de aventura?

AO: Escrever só se aprende escrevendo. Então, quanto mais se escrever, melhor serão as histórias. E quando alguém se dispõe a contar algo que tenha presenciado, utilizando como instrumento a linguagem escrita, precisará refazer mentalmente toda a viagem. Ao repensar a viagem, acabamos descobrindo coisas que não havíamos notado durante o próprio viajar. Pode-se reavaliar as frustrações, repensar as alegrias; enfim, ampliar a experiência. E construir histórias de vida mais densas.

CL: Há pouco foi lançado nos cinemas, com direção do brasileiro Walter Salles, o filme On the Road, baseado no livro homônimo de Jack Kerouac. Essa publicação é considerada uma obra de inspiração para toda uma geração de viajantes. A obra de Kerouac te inspirou? Quais obras de inspiraram a escrever suas histórias de aventura?

AO: Comecei a viajar antes do livro ser publicado no Brasil. Então, diretamente, ele não me inspirou. Mas o ambiente que inspirou Kerouac também me inspirou. O mundo que gira em torno de mim está sempre me inspirando. Sou uma espécie de antena sintonizada na diversidade humana e cultural deste planeta. Por isso, as influências que recebo são muito fragmentadas. Mas gosto de dois escritores, em especial, tanto pela obra que construiram quanto pela vida que levaram, e acho que uma coisa é consequência da outra: Jack London e Ernest Hemingway.

CL: Você conta com apoio da rede Zaffari para escrever os seus livros. Como conseguiu essa parceria? Como ela funciona?

AO: O Zaffari é uma empresa que se caracteriza por patrocinar eventos culturais no Rio Grande do Sul. Nossa parceria começou com meu primeiro livro, Aventura no topo da África, e segue até hoje. Eu recebo uma verba por ano para viajar e poder me dedicar a escrever um livro na volta. O retorno que dou a eles é a publicidade gerada pelos meus livros, palestras; enfim, onde vou levo o nome da empresa.

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Por Alberto Naninni e Rodrigo Casarin

O Jornalismo Cultural é a área de maior interesse do jovem Augusto Paim, que, com apenas 26 anos, já possui em seu currículo trabalhos de grande relevância, como uma reportagem em quadrinhos sobre as favelas do Rio de Janeiro para um site holandês e a coordenação de um dossiê sobre São Paulo para a revista espanhola Zona de Obras. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria e mestrando em Letras, pela PUCRS, com pesquisa relacionada à escrita criativa, foi o curador do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos (EIJQ), no Instituto Goethe de Porto Alegre, e já organiza a segunda edição do evento, que acontecerá em Curitiba. Como tradutor, já passou do alemão para o português o livro Johnny Cash – uma biografia, a história de vida do cantor retratada em HQ, publicada pela 8Inverso. No papo abaixo, Augusto fala bastante sobre esses assuntos e é enfático com relação à necessidade do amadurecimento dos quadrinhos como arte.

Canto dos Livro: Como é realizar o trabalho de tradução? O que se espera de um bom tradutor?

Augusto Paim: Os passos que dou nessa área ainda não são firmes e velozes como os de quem já pratica a tradução há anos – e a habilidade de traduzir pode muito bem ser comparada ao desenvolvimento de um músculo -, então só posso falar das descobertas surgidas durante o processo do meu próprio trabalho, além do que aprendi acompanhando o trabalho de outros tradutores mais experientes. O que se espera de um bom tradutor, antes de mais nada, é domínio da língua de chegada e o conhecimento de muitas ferramentas de pesquisa. Dominar a língua de partida, além de tarefa praticamente impossível, não é tão importante quanto isso.
Da minha parte, o trabalho de tradução é um processo penoso, que não começa exatamente quando coloco a primeira palavra no arquivo do Word, mas sim no momento em que leio um livro no original pela primeira vez, passando pelo período longo que leva para se achar uma editora para essa obra no Brasil. O meu envolvimento com a tradução, talvez porque tenho trabalho especificamente com quadrinhos alemães, vai além do trabalho de rotina de um tradutor.

CL: Quais as diferenças de traduzir uma livro de prosa para uma história em quadrinhos?

AP: Genericamente, acho que as obras de quadrinhos são uma ótima porta de entrada no terreno da tradução, já que o clima da história é parcialmente dado pelos desenhos, que tendem à universalidade. Analisando isoladamente, porém, vejo casos de obras cuja dificuldade não são amenizadas pelos desenhos. Um caso recente, de que posso dar o exemplo como tradutor, é Wir können ja Freunde bleiben, do Mawil, que deve chegar nas livrarias em breve pela Zarabatana. O título será Mas podemos continuar amigos. É um livrinho curto, de apenas 64 páginas, mas deu muito trabalho, porque a maior parte das suas partes cômicas é baseada no tom curioso de algumas expressões regionais de Berlim, além de outras da época da escola do autor, ou seja, expressões já desgastadas pelo tempo. Sem falar nas onomatopeias! Ah, e também tem um capitulo do livro que é baseado numa confusão idiomática, quando as personagens moram numa república estudantil, e essa situação precisou ser adaptada para funcionar por aqui. Para traduzir esse livro, precisei fazer a tal “tradução criativa”, pensando em formas de fazer com que o livro cative o leitor brasileiro da mesma forma que cativa o alemão.

CL: Quais obras lançadas no Brasil você considera um exemplo de tradução? Por quê?

AP: Sempre se corre o risco de omitir nomes por esquecimento, mas… lá vai! Me ocorre agora a tradução de Antonio de Macedo Soares para Maus e a de Daniel Galera para Jimmy Corrigan, duas obras que, pela fluência com que podem ser lidas no português, demonstram o talento dos tradutores. Além disso, essas duas obras, lidas pelo olhar treinado de um tradutor, mostram que tipo de dificuldade se enfrentou na tradução. E com certeza foram muitas, a começar pelo volume de páginas.
Destaco também o engajamento permanente de Érico Assis na tradução de quadrinhos do idioma inglês.

CL: Você também possuí trabalhos relacionados ao jornalismo em quadrinhos. Como você começou a se interessar pelo gênero?

AP: Eu tive o primeiro contato com o trabalho de Joe Sacco em 2006. Nessa época eu cursava Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria, e esse interesse acabou virando o tema da minha monografia, em que eu fiz uma análise semiológico-narrativa de um trecho de Palestina: na Faixa de Gaza. Depois da faculdade, o tema continuou me acompanhando, e cresceu de importância a partir de dois momentos-chave: quando tive a oportunidade de realizar minha primeira reportagem em HQ e na ocasião em que organizamos o I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos.

CL: Em que estado se encontra o jornalismo em quadrinhos no mundo? E no Brasil?

AP: Ainda muito incipiente. Internacionalmente, começam a surgir nomes de destaque individual, como Dan Archer e David Axe, nos Estados Unidos. Na Alemanha, muitos autores consagrados se aventuram por essa área, como Jens Harder e Ulli Lust. Importante tem sido o trabalho de Matt Bors, editor do portal Cartoon Movement, que tem estimulado o surgimento de HQ-repórteres em diferentes continentes. O mundo, porém, ainda precisa da égide de Joe Sacco.
No Brasil, ainda não há um nome de peso na área, mas acredito que os novos talentos estão por aí, germinando em algum lugar, já fazendo algumas experiências. Para que eles desabrochem, falta estímulo, e é por isso que considero fundamental o trabalho de discussão e informação proporcionado por eventos como o EIJQ.

CL: Com relação ao jornalismo em quadrinhos, quais os trabalhos que você destaca para quem queira conhecer mais sobre o gênero?

AP: Sempre que falo sobre o assunto a alguém que me escuta pela primeira vez, sugiro a leitura de Maus e de toda a obra de Joe Sacco. Depois recomendo a visita ao portal Cartoon Movement, na seção de reportagens em quadrinhos. E, eventualmente, a leitura da reportagem Os Filhos de Joe Sacco, sobre o crescimento internacional do Jornalismo em Quadrinhos

CL: Na sua opinião, quadrinhos, independente de ficcionais ou não, também podem ser considerados obras literárias? Por quê?

AP: O amadurecimento de uma linguagem passa por sua autonomia. Se os quadrinhos já tem obras que demonstram essa independência (e as tem em número suficiente para isso), o mesmo não se pode dizer se sua recepção crítica. É por isso que ainda precisamos referenciar uma obra-prima dos quadrinhos como “literária”; uma forma de elogiar e demonstrar qualidade para uma linguagem que ainda carece de respeito crítico (não se diz, por exemplo, para elogiar um bom filme, que ele seja “literário”…). Por outro lado, penso que a literatura tem muito a oferecer para a linguagem dos quadrinhos, principalmente como fonte de inspiração de densidade e do uso criterioso de técnicas narrativas. Mas também podemos falar da importância do teatro, do cinema, da fotografia… e das próprias obras-primas dos quadrinhos!

CL: Você está organizando a segunda edição do Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos. O que já pode nos adiantar sobre ele?

AP: O II EIJQ ocorrerá em Curitiba, dentro do festival de quadrinhos Gibicon, entre 25 e 28 de outubro deste ano. Ainda não posso divulgar nomes oficialmente, o que posso dizer é que, exatamente como foi no I EIJQ, estamos pensando no estímulo de uma discussão, no fomento de um debate, e essa continuará sendo nossa motivação durante o segundo evento. Creio que o tema terá uma oportunidade e tanto de crescimento por o evento ser realizado dentro de um grande festival de quadrinhos. Isso traz a possibilidade de atrair ainda mais público interessado e, por outro lado, permite que os interessados em Jornalismo em Quadrinhos tenham a oportunidade de, além de participar das discussões, aproveitar todas as outras atividades de um festival desse porte.

CL: O Governo do Estado de São Paulo disponibiliza para os professores kits de leitura para atualização e trabalho, nos quais há opções com obras em quadrinhos. Por outro lado, revistas de grande circulação volta e meia publicam reportagens críticas a eles, desmerecendo-os como assunto de vestibulares e concursos, e atacando a linguagem de alguns. Quais implicações e prejuízos você enxerga causados por esta controvérsia?

AP: Acompanhei algumas dessas discussões na mídia. Em linhas gerais, o resultado é lamentável! Não para quem trabalha com quadrinhos, claro, que já passou dessa fase do discurso fácil e irrefletido sobre a linguagem. Meu receio é em relação a quem ainda não redescobriu o universo dos quadrinhos enquanto linguagem artística. Por outro lado, creio que não estamos mais em 1954, e que o público leitor dessas matérias tem agora senso crítico para não cair cegamente numa reedição das ideias de Fredric Wertham e sua Sedução do Inocente [que atacava moralmente os quadrinhos e acusava-os quadrinhos de subverterem os leitores].

Além disso, há muitos profissionais trabalhando com quadrinhos em sala de aula de forma madura e consistente. Essas polêmicas ajudam a vender jornal e acabam trazendo algum efeito negativo na carona, mas não conseguem destruir a solidez de um trabalho de conscientização e amadurecimento que vem de décadas. Derruba alguns tijolos, mas a parede segue de pé.

CL: Qual seria o cenário ideal para que os quadrinhos auxiliassem mais na educação e na produção jornalística?

AP: O cenário ideal: quando o conhecimento técnico sobre a linguagem dos quadrinhos, no público geral, equivalesse ao conhecimento que se tem sobre cinema, literatura, artes visuais etc. Não se trata de exigir um grande conhecimento, veja bem, apenas uma visão geral de respeito a uma arte que tem sua história. Isso ainda falta. Em relação ao Jornalismo em Quadrinhos, o caminho é mais árduo, porque envolve uma dupla conscientização: o jornalista precisa conhecer melhor a linguagem dos quadrinhos, e o quadrinista deve procurar entender toda uma dinâmica e um código de procedimentos do jornalismo. Falta essa via de mão dupla, falta mesmo. E, no meu ver, sem isso não se faz uma reportagem em quadrinhos que realmente mereça atenção.

CL: Numa biblioteca básica de Quadrinhos, quais obras não poderiam faltar?

AP: E agora, como citar tudo? Além de esquecer obras importantes, também não tenho como citar as que ainda não li.
Bem, no campo teórico-técnico, penso que é indispensável ter trabalhos do Scott McCloud, Umberto Eco, Will Eisner e Thierry Groensteen, para começo de conversa. Em relação aos quadrinhos em si, há tanta obra de qualidade que se começasse a listar algumas, certamente não se pararia mais. Bem, vou falar de duas obras cuja leitura recente me causaram um impacto bastante positivo, não só em termos de conteúdo, mas também de linguagem. Jimmy Corrigan e Cachalote. Não são minhas obras-primas, veja bem, mas são leituras recentes. Além disso, há inúmeras obras em língua alemã que têm me contagiado bastante, mas que infelizmente ainda não são do conhecimento do leitor brasileiro. Sugiro acompanhar o portal de quadrinhos do Instituto Goethe.

O Augusto também é editor dos blogs Cabruuum e August Fest, vale conferir!

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Ricardo Lísias é um dos escritores nacionais de quem os leitores mais podem esperar algo atualmente. Autor de O livro dos mandarins, obra singular sobre o mundo corporativo, também escreveu Cobertor de estrelas, que foi traduzido para o espanhol e o galego, Duas praças, terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de 2006 e Anna O. e outras novelas, de contos. O céu dos suicidas, seu próximo romance, já está no forno e deverá ser lançado até o começo de abril pela editora Alfaguara. Confira abaixo uma entrevista com Ricardo, onde ele fala sobre O livro dos mandarins, prêmios literários e, dentre outras coisas, o texto que escreveu recentemente para a revista Piauí.

Canto dos Livros: Para começar, o que é literatura para você?

Ricardo Lísias: Muita coisa especial, mas nesse momento da minha vida estou preferindo praticá-la a pensá-la. Talvez possa dizer que entre tanta coisa, uma das que mais me agrada é a forma particularmente profunda e eficaz de expressão.

CL: Qual o papel da literatura de ficção?

RL: Creio também que muitos: entre eles, fugir da vulgaridade, fugir do lugar-comum, resguardar discursos particulares etc.

CL: Como vê a literatura não ficcional?

RL: Acho que dentro de suas particularidades, pode ser tão especial quanto a ficção. Eu não colocaria em patamares diferentes Franz Kafka e Walter Benjamin.

CL: O livro dos mandarins pode ser considerado um retrato dos executivos atuais? Como o livro foi recebido por pessoas dessa classe?

RL: Em parte, sim. Tive notícias apenas das pessoas que serviram como informantes. Todas gostaram. Muita gente que trabalhou nesse meio – sobretudo em bancos – me disse que a representação e  ideologia também ficaram adequadas. Mas algumas pessoas também se sentiram agredidas pelo livro. Recebi algumas manifestações nesse sentido.

CL: Em O livro dos mandarins quase todos os seus personagens se chamam Paulo (ou Paul, Pablo…). Por que a escolha por esse recurso e esse nome especificamente?

RL: Há a tentativa de mostrar a despersonalização das pessoas no ambiente corporativo. O nome Paulo foi utilizado porque foi o que eu achei que permite um grande número de variações.

CL: O livro dos mandarins foi lançado em 2009 e provavelmente concorreu aos prêmio de 2010, quando Minha mãe se matou sem dizer adeus, de Evandro Affonso Ferreira, ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Leite derramado, de Chico Buarque, levou o Jabuti de melhor livro do ano de Ficção – enquanto Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre, foi escolhido como melhor romance – e o mesmo Leite derramado venceu o Prêmio Portugal Telecom, apenas para ficarmos em três premiações das mais conhecidas. Em uma entrevista para a revista Vice, você diz não ter recebido nenhum grande prêmio com O livro dos mandarins por ter uma postura que desagrada muitos jurados, por não fazer média com os outros. Você acredita que o seu livro seja superior a todos esses citados?

RL: Não acho que eu tenha dito exatamente isso para a Vice, mas não vou olhar a revista agora, para não me influenciar com a resposta aqui. Eram também dois momentos diferentes para mim. Antes de tudo, acho que o livro de Evandro Affonso Ferreira saiu um ano depois do meu, não creio que concorremos a nada juntos. Mas já respondendo a uma parte da pergunta, acho o livro dele bom, como também acho bom o romance do Chico Buarque. Já o livro do Edney Silvestre, acho muito bem feito e bom como os outros dois, mas com um detalhe: é um livro claramente infanto-juvenil. Para esse público, é excelente. 

Eu li uma parte das “discussões” que se seguiram às premiações sobre o livro do Edney Silvestre e do Chico Buarque e fiquei impressionado como não houve nenhum tipo de atenção a esse detalhe. Como quase sempre, aliás, não houve discussão estética…

De resto, não acho de forma alguma que meu livro tenha sido prejudicado (ou não tenha sido…) em prêmios literários por causa de alguma possível radicalidade. Sequer me sinto à vontade para dizer que há alguma radicalidade no meu romance. Não é minha função, como também não é minha função dizer se eu merecia ter ganho ou não, ou aliás, quem merecia.

O que acho claramente é que os prêmios e tudo o que cerca a literatura brasileira são parte do Brasil, portanto também um reflexo dele. É só pensar nas eleições: de vez em quando, elegemos de longe o melhor candidato, outras vezes, o Tiririca. Prêmios dizem mais sobre o júri do que sobre o autor vencedor e os outros. Também não quero ser hipócrita: o dinheiro é importante, lógico, facilita o trabalho de todo mundo.

Acho ainda que o comportamento “morno” de muitos grandes ganhadores de prêmio no Brasil os ajuda a chegar ao consenso. Dificilmente um senhor desses faz alguma declaração incômoda…

Mas de jeito nenhum eu me sinto prejudicado: ganhei alguns, perdi outros, mas frequento boa parte dessas listas já faz tempo, e nunca fiz nenhuma concessão, de nenhuma ordem. Nem vou fazer.

CL: Por outro lado, O livro dos mandarins foi o último campeão da Copa de Literatura Brasileira, ganhando de goleada d’O filho da mãe, do Bernardo Carvalho, na final. Isso tem alguma importância para você?

RL: Sem dúvida, muita importância. Em primeiro lugar, muitos dos textos sobre o meu livro eram ótimos e mostravam coisas que eu não tinha visto. Depois confirmaram algo que venho sentindo há algum tempo: que meus textos cada vez mais agradam as novas gerações de leitores, inclusive muitos afastados do mainstream literário e com reservas a ele. A Copa de Literatura está fora dos espaços já muito viciados. Fiquei bastante satisfeito com o resultado.   

CL: Você tem um conto chamado Concentração, na Granta edição de narrativas e contos de viagem. Sua estrutura é perspicaz, acompanhando acontecimentos dramaticamente irônicos em torno do personagem Damião. Como foi o processo de criação desta narrativa?  

RL: Em 2001, em julho, tive um problema em uma conexão e acabei ficando bastante tempo no aeroporto de Buenos Aires. Comprei alguns jornais e fiquei espantado com a situação do país. Como já gostava de literatura latino-americana e tinha estudado os movimentos autoritários dessa região, mergulhei na história argentina e desde esse mesmo ano visitei o país algumas vezes. Comecei a escrever ainda no aeroporto. Devo tê-lo refeito inúmeras vezes em vários anos. Comprei alguns arquivos de jornais e fiz algumas pequenas coleções de material histórico sobre a Argentina, até concluir esse conto, em 2008. Foi o texto em que trabalhei por mais tempo até hoje, mesmo contando os romances. Tive certa obsessão pela história e pela literatura argentina, mas ela já passou.

CL: O que você pensa dos outros escritores de sua geração? Quais destaca?

RL: É incômodo para mim responder essa pergunta de maneira pontual, porque uns poucos deles são amigos muito próximos, então não vou citá-los. Acho que a Vanessa Barbara é bastante notável em vários aspectos, inclusive (ou sobretudo) tecnicamente. Também gostei bastante do livro do José Luis Passos (Nosso grão mais fino) e tenho bastante expectativa com relação ao próximo dele. Gostei de tudo o que li até hoje do Julian Fuks também. O livro de Brisa Paim me surpreendeu. Também gostei dos últimos textos da Verônica Stigger, achei-os bastante originais. Acho que no geral há uma possibilidade razoável de nos próximos anos termos bons livros para ler. No entanto, parece-me que boa parte da produção ainda reproduz – sem criticar ou, ainda pior, aderindo ao que há de pior no Brasil. Digamos que estamos diante, se formos falar no geral, de uma produção amena e edulcorada.

Eu gostaria de conhecer um pouco melhor a poesia e a crítica para falar desses campos também, mas seria leviano com o pouco que li.

CL: Sobre o processo criativo, você relatou para a revista Piauí deste mês uma verdadeira saga, aonde o ato de correr e depois treinar para completar a Corrida de São Silvestre foram sua terapia para superar problemas e conseguir concluir seus escritos pendentes. Não raro, diz-se que a tristeza e a adversidade auxiliam na criação. Quais diferenças você sentiu – ou não – na sua criação durante este período, comparado a outros normais? E como era o seu processo até então?

RL: No segundo semestre de 2011 sofri uma espécie de “acidente biográfico” que me causou um colapso emocional. Escrevi sobre isso em três momentos, durante o tratamento de recuperação. Na verdade, ainda estou me tratando, com um psicanalista com quem eu já tinha feito análise uma vez. Como continuo sob impacto emocional, ainda que muito melhor, não quero falar sobre isso em um gênero diferente dos que já me manifestei.

CL: Este relato da Piauí daria um excelente roteiro para ser aproveitado em outras mídias, como filmes (de curta metragem, no caso) ou quadrinhos biográficos. Você aprecia estas mídias? É influenciado por algumas delas? Se sim, por quais autores e obras?

RL: Eu não costumo ler quadrinhos, apenas alguns casos muito especiais, como Art Spiegelman e Joe Sacco, mas mesmo assim sem muita constância. Sobre o cinema, ao contrário dos quadrinhos, tenho muito interesse. Não sei dizer em que medida o cinema poderia influenciar uma obra literária. Acho que não muito, se formos pensar na particularidade formal de cada gênero. Gosto bastante de documentários, de uma parte do cinema norte-americano e de alguns diretores específicos, como Antonioni, Buñuel e, entre outros, Lars von Trier.

CL: Ainda sobre o publicado na Piauí, a fragilidade e a sinceridade que você corajosamente demonstra se devem ao gênero do escrito, bem como à situação e tempo específicos, ou poderia se dizer que eles permeiam sua obra e estilo?

RL: Acho que tudo se intensificou por conta da violência enorme da situação. Mas como eu disse acima, sinto-me melhor me manifestando sobre o “incidente” em outro gênero que não a entrevista.

CL: Qual é o seu objetivo ao editar o jornal literário Silva? Como ele se mantém, já que você não o vende?

RL: Silva tem um pouco para mim a função de reafirmar a importância do papel. Ele só existe porque o papel permite o formato. Não tenho obviamente nada contra as mídias digitais, que na verdade me interessam muito, mas não gosto do discurso que diz que elas soterrarão o papel. Nesse sentido, o Silva é um objeto de resistência. Também gosto bastante de edições alternativas e fanzines. Por isso fiz uma.

Ele se mantém com meus recursos próprios, até aqui. No entanto, para ser justo, é preciso dividir a autoria com o artista gráfico Luciano Arnold, que faz um excelente trabalho por um valor quase que abaixo do custo.

CL: Quais conselhos que gostaria de ter ouvido quando começou a escrever e poderia dizer hoje aos iniciantes?

RL: Não sei se eu acredito em conselhos. Mas eu acredito na leitura dos bons livros (dos grandes livros) e na procura intensa por um caminho particular. Acredito também em consciência de trabalho, de forma e de ideologia. Por fim, acredito que é preciso se distanciar dos grupos, do glamour e da vida “chapa-branca”.

CL: Do que se trata O céu dos suicidas, livro seu que será lançado em breve? O que podemos esperar dele?

RL: Em 2008, um dos meus amigos mais próximos se matou, depois de uma situação muito complicada. Fui uma das últimas pessoas a estar com ele antes. O livro é sobre isso. Eu não queria adiantar mais, porém.

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