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Posts Tagged ‘Jorge Icaza’

 

Rodrigo Casarin

nos rastros da utopia“Dude atuava na ala esquerda do Partido Comunista e se propôs a tirar quatro mil cópias do poema e usar alguns militantes do Partido para distribuí-las, discretamente, nas universidades, centros acadêmicos, sindicatos, organizações de classe, etc. […] O que eu jamais poderia ter imaginado é que aquela ideia luminosa do Dude e da panfletagem do meu poema ao Che, em Curitiba, em plena ditadura militar, mudariam todo o futuro da minha vida, obrigando-me a deixar o Brasil, e durante quatro anos peregrinar como um poeta errante ao longo de dezesseis países da América Latina”.

Visto em retrospectiva, era muita inocência Manoel de Andrade acreditar que um poema de grande repercussão em homenagem a Che Guevara passaria incólume pelos braços da ditadura, que procuravam sufocar com terror qualquer manifestação artística de alguma forma crítica ao regime. Contudo, vivendo na época, provavelmente essa percepção não era tão aguçada. Restou a Andrade deixar o país e perambular pelo parque de diversões dos Estados Unidos, que tomava providências para evitar que o comunismo ou o socialismo vingasse nos países latino-americanos.

Por onde passou, o poeta encontrou a solidariedade – palavra-chave da empreitada – de pessoas comuns e, principalmente, de outros ativistas de esquerda. Mais de 40 anos depois, transformou a sua forçada aventura no livro Nos rastros da utopia. Apoiou-se principalmente em cartas enviadas aos familiares durante o período, nos recortes dos jornais que guardou, num pequeno caderno de endereços, nas datas de seu antigo passaporte e em sua “extraordinária memória” para construir uma narrativa de viagem permeada por historicismo, ensaísmo político e muitas recordações afetivas.

A viagem de Andrade começa pelo próprio Brasil, quando parte rumo ao nordeste para conhecer aquela parte do país que jamais pisara e de onde traz passagens valiosas, como os encontros com vaqueiros e jangadeiros. Dá vida e complexidade a esses personagens típicos e constata realidades interessantes, como “Os nordestinos do sertão emigram para as grandes cidades da região e para o sul do país, mas os pescadores jamais deixam o litoral”. Também se mostra em campo, convivendo com essas pessoas. Animei-me, achei que esse seria o tom do livro, contudo, não é exatamente o que acontece. Ao longo da obra, a maior parte das pessoas é mais citada e rascunhada do que propriamente descrita e mostrada em movimento, com alguma representatividade mais abrangente do que a primeira impressão. Uma pena.

Pena que se estende para um outro ponto. Nos rastros da utopia é repleto de passagens e histórias excelentes, algumas até que justificariam um livro apenas para si. Para ficarmos apenas em dois exemplos, uma noite Andrade dorme dentro do parque histórico de Machu Pichu; em outra, numa cama exposta no Museu Histórico de Cusco, a mesma que Simón Bolivar teria dormido quando passou pela cidade. São momentos mágicos, sensacionais, únicos, que poderiam ter sido melhor explorados – mais detalhados, com mais sensações, emoções, divagações…

Mais derrapadas

Andrade derrapa também no cuidado com as palavras – algo ainda mais grave para um poeta -, como no seguinte trecho, : “Acostumado às grandes distâncias e a dispor de um longo tempo para tudo, seu sentido de espaço e duração é sempre relativo. Dir-se-ia que ele, tal como o jangadeiro em alto-mar, vive num tempo mágico, naquele sentido de duração do tempo que permanece, fora do tempo linear e contínuo do relógio” – as marcações são minhas. Será que era mesmo preciso repetir a palavre “tempo” quatro vezes, aparentemente sem objetivar nenhum efeito estilístico?

Outra passagem problemática: “Boa tarde, os senhores poderiam me conseguir um pouco de água? – cumprimentei-os, perguntando.” Precisava mesmo do “cumprimente-os, perguntando”, o “Boa tarde” já não evidencia o cumprimento enquanto a interrogação transforma a oração numa pergunta? – pergunto (tô brincando!). Há também excessos com detalhes que pouco agregam à história, exageros como o resumo e a resenha de uma obra literária – Huasipungo, clássico indigenista do equatoriano Jorge Icaza – e uma necessidade de se homenagear muitas pessoas – é bonita a gratidão do autor, mas não acho uma obra literária o melhor lugar para se acertar dívidas fraternas que pouco agregam à narrativa.

A mim, soa como uma falta de cuidado, mas não culpo exclusivamente Andrade. Pode até ser que isso tenha sido feito e o autor preferiu não dar ouvidos, mas o editor deveria alertá-lo dos excessos, mostrar que passagens excelentes podem passar desapercebidas numa história contada em mais de 900 páginas (muitas delas desnecessárias) e orientá-lo a transformar suas memórias e sua aventura numa narrativa sólida e coesa. Ainda caberia à editora evitar os problemas com o português, como palavras com grafia errada – em alguns casos, com erros que até mesmo o word acusaria -, pontuações equivocadas e repetição de linhas.

Em defesa dos oprimidos

Entretanto, há méritos de Andrade para se destacar.

É precioso o registro de como poetas de diversas nações se posicionavam e incomodavam os poderosos, tanto que diversos acabaram exilados (como o próprio autor), torturados ou até mesmo assassinados pelos fardados. E para mostrar como foi perseguido politicamente dentro do Brasil, Andrade não tem pudores em expor os documentos relacionados a sua pessoa. Descobre e mostra os registros que os militares faziam de seus passos – aterrorizante se deparar com um relato de todas as suas atividades –, os comunicados que os milicos trocavam entre si e que, em algum momento, citavam-no, e apresenta todo o seu processo de anistia, mostrando inclusive o quanto recebe de pensão.

Andrade também faz de Nos rastros da utopia um relato dos povos que resistiram, porém tombaram ao longo da história latino-americana após a chegada de Cristóvão Colombo, essenciais em sua caminhada. “Meus passos pela América não teriam sido tão fecundos se não tivesse encontrado os rastros libertários de Lautaro e Caupolicán, Túpac Amaru e Túpac Katari, Bartolina Sisa e Micaela Bastidas, Juana Azurduy e Manuela Sáenz, bem como, em episódios mais recentes, os exemplos memoráveis dos poetas Javier Heraud, Otto René Castillo e a luta atual e incondicional do ex-guerrilheiro Hugo Blanco em favor do indígena”, escreve.

Ao apresentar as histórias não oficiais, a história dos derrotados, não há como deixar de comparar a obra com As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Contudo, Andrade se perde nessas incursões ao passado. Em muitas oportunidades vai bastante longe, imerge no que aconteceu e esquece de si mesmo. Em nítidos rompimentos, praticamente abandona a sua história para contar uma outra. Ainda que alguns relatos sejam extremamento oportunos, como o massacre sofrido pelos mapuches no Chile (“o maior holocausto, na trágica história dos povos indígenas da América”), são construídos de modo didático demais, exaustivo.

Enfim, Nos rastros da utopia é mais uma obra que surge enquanto relembramos dos 50 anos da tomada do poder pelos militares no Brasil (do que li até aqui, destaco principalmente as de Bernardo Kuscinski, K., relançada, e Você vai voltar pra mim). É sim um relato oportuno, com um viés bastante interessante, mas repleto de poréns. Acredito que uma edição futura, melhor trabalhada, enxugada, possa fazer bem à obra.

Texto publicado originalmente no jornal literário Rascunho.

 

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