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Posts Tagged ‘Jornalismo Literário’

Por Fred Linardi

xa dos xasExiste um cano de revólver apontado para o meu pé enquanto escrevo sobre essa grande reportagem do respeitado jornalista internacional Ryszard Kapuscinski, que morreu em 2007 de causas naturais, apesar de ter ficado muito perto de armas engatilhadas durante as dezenas de lugares por onde passou. Ao contrário dele, que cobriu 27 golpes de estado e revoluções civis, o meu risco não reside apenas no calibre apontado para meus membros inferiores. O risco está em falar sobre um trabalho como O xá dos xás, segundo título do autor que faz parte da série Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, precedido por O imperador.

Uma das primeiras lições que tive sobre Jornalismo Literário referia-se ao estilo que usa de técnicas da literatura para produzir reportagens num estilo, como o próprio nome diz, literário. Isso não significa ficcionalizar o texto, aprendi, mas sim tornar sua narrativa mais atraente ao leitor. Da mesma maneira, já cheguei a ouvir de mestres (no sentido acadêmico da palavra) que o tal estilo permitiria um tanto de invenções por parte do jornalista. Pois bem, o assunto é longo. Mas só para ficar num exemplo, relembro sobre a obra indicada pelo Igor Antunes Penteado na sua mais recente dica de leitura aqui do Canto do Livros – A sangue frio, de Truman Capote –, que será acompanhada por uma sombra eterna pelo fato do jornalista americano ter floreado um final em busca de uma conclusão dramática ao livro, criando um diálogo que jamais existiu na realidade.

Se for para escolher um dos lados, empunho com minhas próprias mãos essa arma que aponto para o meu pé e digo que fico do lado da total veracidade das cenas narradas.

Dito isso, sinto a pressão do gatilho no meu indicador.

Pow!

Ouço um barulho lá fora e quase acredito que é o estouro da minha arma que, na verdade, continua silenciosa. A capa do livro, com fundo preto e escrito em branco e vermelho, me encara. Preciso explicar o motivo de ter escolhido essa obra com menos de 200 páginas para escrever aqui nesse blog. Essa é a história do último xá do Irã, que pretendia transformar seu país numa superpotência – isso também está dito na capa. Outra coisa que ela indica, logo abaixo do subtítulo, é que faz parte da coleção já mencionada lá no primeiro parágrafo.

Então vamos lá. Era uma vez um cara chamado Mohammed Reza Pahlevi que, na década de 1940, herdou de seu pai um país miserável acima do chão e riquíssimo abaixo dele. Toda a riqueza vinda do petróleo abundante servia para enriquecer o próprio bolso, concentrando o poder suficiente para fazer a população de um país inteiro temer cogitar qualquer tentativa de mudança. Os métodos de intimidação eram dos mais complexos, com uma célula do governo repleta de informantes, que consideravam comentários banais como “hoje o céu está nublado” como mensagens subliminares de subversivos na rua. Quem ousasse dizer algo como isso, num ponto de ônibus que fosse, poderia começar a se despedir da vida – não sem antes passar por sessões de tortura que até o capeta duvida.

A história de um Irã tomado pelo egoísmo e crueldade do seu xá é margeada pela narrativa sagaz, a partir de fotos históricas coletadas, além das gravações e anotações de Kapuscinski, que há de perdoar o teclado do meu computador ocidental, que não consegue botar acento agudo no “s” e no “n” do seu sobrenome. Mas ele há de entender certas liberdades, já que… bem, já que ele é dos exemplos que devemos colocar ao lado de livros de não ficção que dão uma inventandinha em alguns trechos. Mas também ao lado de obras que fazem parte do que há de mais exemplar em grandes reportagens. E agora? De uma forma ou de outra, é inegável afirmar que livros como este (ou como A sangue frio) estão entre os mais ousados.

Mas o que Kapuscinski inventa, afinal?

Não sei dizer ao certo. É dito que

Ahhhh….!kapuscinski_01

Ouço um grito vindo da rua. Será que aquele barulho que ouvi vem de uma vítima atingida por um tiro que jamais esperava lhe atravessar o peito? Ou será que veio de alguém que está me vendo pela janela ora com a arma na mesa, ao lado de Kapuscinski, ora voltada para meus pés? Ou será que vem da minha consciência em conflito, sem saber o que dizer depois de ler o posfácio e constatar que, de fato, o velho polonês dava suas viajadas além-fato para escrever esse livro que eu, agora cúmplice de tudo, me deliciei. Cale a boca, Kapu! Arrisco-me demais ao te elogiar.

— Kapu, escute aqui! Sua obra foi chamada de “jornalismo mágico” pelo seu respeitado colega Adam Hochschild e a alcunha foi confirmada por Artur Domoslawski na biografia sobre você, Kapuscinski Não Ficção (ah, se você conhecesse Roberto Carlos em tempo…). Aí, sim, é possível saber o que há de ficção em suas obras de não ficção. Até que enfim alguém para nos esclarecer.

Ficção, sim. Mas vamos com calma (meu pé está suando frio agora). Sem dúvidas, o xá Reza Pahlevi era um tirano que governava sem um pingo de compaixão e, em certos pontos, com alguma dose de burrice, já que todos os ditadores têm seus atos falhos. Queria um país desenvolvido, queria criar “uma grande civilização”, queria que o Irã saísse do zero e se tornasse, em dez anos, um país comparável à Alemanha ou Inglaterra. Tinha dinheiro para isso e muito mais. Trouxe indústrias e importou mão de obra de outros países, já que ali as universidades eram proibidas. Os iranianos que queriam formação superior ganhavam bolsa para estudar fora – e poucos tinham coragem de regressar depois de graduados. Fanático por guerras, comprou um arsenal bélico fora de proporções, sem nem mesmo ter onde abrigar tantas aeronaves e tanques. Mas um dia o povo se desperta para uma revolução, que começa a acontecer em diversas cidades, uma depois da outra… E então Kapuscinski nos presenteia novamente na segunda parte do livro, com um primoroso ensaio sobre como funciona uma revolução. Uma peça fundamental para que se reflita sobre o espírito de um país que passa por esse tipo de evento.

Na obra de Kapu é dito que há personagens e declarações inventadas. Dentro do contexto, elas parecem coerentes, mas ainda assim podem ser fictícias. O perigo neste caso é exatamente quando os limites entre acontecimentos ou pessoas reais ou imaginários não ficam claros para o leitor. E Kapu parece tomar exatamente este cuidado. Tudo flui, os personagens são vivos e coloridos. O perigo, no entanto, é quando começamos a duvidar das histórias que, por ventura, tenham sido frutos do obstinado trabalho de pesquisa e apuração jornalística.

Entre os autores que odeio amar, acredito que sempre estará a sombra de um anti-herói chamado Kapuscinski, batendo a mão nos meus ombros e lembrando que entre a ficção e a realidade existe uma série de questões, escolhas e princípios. Existe também uma mira de um revólver prestes a disparar em nossos pés.

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Por Igor Antunes Penteado

a-sangue-frioQuando falo sobre a pós-graduação que cursei, em Jornalismo Literário, uma curiosidade instantânea surge no interlocutor: “mas que raios é isso?”. Já que grande parte das definições técnicas feitas na pressa é, além de rasa, pouco convidativa, muitas vezes opto por exemplificar com o livro que, pra mim, melhor traduz este espírito. A Sangue Frio, de Truman Capote, é considerado por muitos como o marco inicial do JL, mas não é a isso que devemos nos apegar. O fato relevante é que a obra é um excepcional exemplo do estilo – excetuando-se a cena final, assumidamente inventada, mas que não mancha em nada seu brilhantismo. Se você quer ler um texto absurdamente bem escrito, de um autor que entedia como poucos da parada e que te prende até a última linha, mesmo você já conhecendo antecipadamente o final, este é o seu próximo livro!

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CLB26 CapaA Colômbia de Gabriel García Márquez, as histórias do tempo colonial e retratos instantâneos da geografia, povo e situações sociais são a primeira plataforma de leitura de Colômbia Espelho América 26, de Edvaldo Pereira Lima, nova edição atualizada de obra lançada com título ligeiramente modificado em 1987. A segunda é o tema subjacente do sonho da integração latino-americana, espelhado nas dores e dramas da situação colombiana.

“Tantos anos depois, o livro ganha um status de registro histórico, além de atualizar aspectos da vida colombiana de hoje”, comenta o autor, professor universitário, escritor e jornalista. Trata-se, comenta, de um formato narrativo singular da literatura de não ficção cujo propósito é oferecer ao leitor um mergulho intelectual, simbólico e sensorial em locais onde o escritor penetra como protagonista de uma jornada de descoberta, carregando consigo a probabilidade da projeção futura de quem vai lê-lo.

“Quando saiu a primeira edição, o Brasil dava pouca atenção a seus vizinhos de língua espanhola”, prossegue o autor. “Não mudou muito na área cultural, mas no setor empresarial muita gente agora se interessa, pois cresce a presença corporativa brasileira nos demais mercados sul-americanos. A Colômbia, em particular, ganha muita atenção, pois tem o segundo mercado doméstico mais importante da região após o Brasil. Da mesma forma, a curiosidade dos colombianos pelo nosso país se amplia, mobilizando muita gente a aprender o português, além de se informar sobre a cultura e a economia brasileira”.

O livro serve como introdução ligeira à Colômbia, além de discutir a questão da integração continental. É, para o autor, também um trampolim convidativo para estimular o leitor a outras leituras mais ambiciosas ou a viagens de conhecimento cujo propósito transcende o interesse meramente turístico.

A obra é publicada pelo sistema editorial Clube de Autores. Clique aqui para visitar sua página.

Veja a entrevista que fizemos em janeiro do ano passado com Edvaldo Pereira Lima.

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Enfim foi divulgada a programação completa do II Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos, que acontecerá no Goethe-Institut de Curitiba, entre os dias 24 e 27 de outubro, em paralelo a Gibicon. Dentre os participantes estará este que vos escreve. Confira:

 

24 de outubro

18h | Abertura da exposição “Cartoon Movement – o mundo através do jornalismo

quadrinhos”

Desde dezembro de 2010, o portal Cartoon Movement (www.cartoonmovement.com/comic) publica reportagens em quadrinhos sobre temas de relevância internacional. Em menos de dois anos de existência, já foram em torno de 40 trabalhos publicados na internet, em inglês, sobre o Congo, o Haiti, o Afeganistão, o Rio de Janeiro, os Estados Unidos, entre outros. São quadrinhos de diversos estilos e formatos, do convencional ao hipertexto, com um elo em comum: todos eles são jornalismo puro! Algumas dessas páginas estarão expostas no Goethe-Institut Curitiba durante os dias do evento.

Convidados especiais: Érico Assis, Gonçalo Junior e Augusto Paim

 

25 de outubro

10h – 11h30 | Do Jornalismo Literário ao New New Journalism

Palestra apresentando um panorama do caminho que vai do Jornalismo Literário ao Novo Novo Jornalismo, como é conhecido o Jornalismo em Quadrinhos.

Palestrante: Celso Falaschi

Mediação: Rodrigo Casarin

14h – 15h30 | Pauta e apuração de reportagens em quadrinhos

Palestra sobre os processos de escolha de uma pauta de quadrinhos e o desenvolvimento da apuração, com destaque para a discussão sobre como a linguagem dos quadrinhos pode contribuir para o jornalismo.

Palestrante: Augusto Paim

Mediação: Vinicius Rodrigues

 

26 de outubro

18h – 19h30 | Conciliando Jornalismo e Quadrinhos

Mesa-redonda sobre as relações e divergências entre os campos do quadrinho e do jornalismo. Três autores que trabalham simultaneamente em ambas as áreas discutem se é possível essa conciliação, e com que possibilidades e limitações ela ocorreria.

Debatedores: Gonçalo Junior, Paulo Ramos e Augusto Paim

Mediação: Rodrigo Casarin

 

27 de outubro

10h – 11h30 | Jornalismo em Quadrinhos tem História?

Mesa-redonda sobre as origens do Jornalismo em Quadrinhos. Existe mesmo uma História do Jornalismo em Quadrinhos? É uma questão que será debatida, a partir de dois pesquisadores com visões divergentes sobre o tema.

Debatedores: Aristides Corrêa Dutra e Juscelino Neco

Mediação de Vinícius Rodrigues

14h – 15h30 | Reportagem em quadrinhos na Alemanha

Palestra sobre as experiências com reportagens em quadrinhos na Alemanha – as instituições de pesquisa, os autores, as publicações. Destaque para o trabalho do coletivo Monogatari.

Palestrante: Mawil

Mediação: Reinhard Sauer

 

Convidados:

Aristides Corrêa Dutra é Mestre em Comunicação pela ECO/UFRJ (2003), com dissertação sobre jornalismo em quadrinhos, e artista plástico graduado pela UFES (1988). É docente da Universidade Veiga de Almeida e da Universidade Cândido Mendes, ambas no Rio de Janeiro, e colunista de arte e história da revista Conceito A e do site Canal A. Foi consultor, em 2011, da equipe que produziu a reportagem em quadrinhos do jornal Extra sobre a pacificação do Complexo de Favelas do Alemão. Já ministrou cursos, oficinas, palestras e participou de debates, seminários e congressos sobre quadrinhos no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Vitória, Salvador e Florianópolis.

Augusto Paim é jornalista, escritor e tradutor. Graduou-se em Jornalismo pela UFSM e atualmente cursa o Mestrado em Letras/Escrita Criativa na PUCRS, cujo trabalho final será uma graphic novel. Em 2009, indicou e traduziu para o português o livro Johnny Cash – uma biografia, premiada obra do quadrinista alemão Reinhard Kleist. Em 2010, foi curador e organizador do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos. É autor das reportagens em quadrinhos Juventude: tempo de crescer e Inside the Favelas. http://www.augustopaim.com.br

Celso Falaschi é jornalista e professor do curso de pós-graduação em Jornalismo Literário da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, da qual é cofundador e, desde 2006, presidente. Doutor em Psicologia, com estudos sobre criatividade aplicada à escrita. Participou da organização e fundação da CRIABRASILIS – Associação Brasileira de Criatividade e Inovação, da qual foi conselheiro. Foi editor do jornal O Estado de S. Paulo, diretor da Intercom e coordenador da Expocom. Lecionou no curso de jornalismo da PUC-Campinas por vinte anos. http://www.abjl.org.br / http://www.textovivo.com.br

Érico Assis é jornalista e tradutor especializado em quadrinhos. Colabora com os sites Omelete e Blog da Companhia e traduz regularmente para as editoras Companhia das Letras e Panini, entre outras. http://www.ericoassis.com.br

Gonçalo Junior é formado em jornalismo e direito. Começou na imprensa nos anos 1980 como editor de fanzines; depois ,trabalhou em jornais de Salvador. Em São Paulo, cobriu TV e cinema para o caderno Fim-de-Semana da Gazeta Mercantil. É autor de livros-reportagens como A guerra dos gibis, Maria Erótica e o clamor do sexo, Ora, bolas!, País da TV e de Alceu Penna e as Garotas do Brasil. http://www.goncalo.junior.blog.uol.com.br

Juscelino Neco é jornalista, pesquisador e quadrinista. Durante o mestrado em Jornalismo na UFSC, investigou o discurso do modelo de reportagem em quadrinhos, conforme desenvolvido por Joe Sacco. Desde 2011 pesquisa quadrinhos de não-ficção no doutorado do Programa de Pós-Graduação da ECA/USP, como bolsista FAPESP. É autor das HQs Destroços, A Maldição dos Sapos e Best Seller. http://www.massacredepelucia.wordpress.com /www.jumentomascarado.blogspot.com.br

Mawil nasceu em 1976, na Berlim Oriental. Depois da queda do Muro, publicou seus primeiros quadrinhos em fanzines editados por conta própria. Mais tarde, estudou design gráfico na Faculdade Berlim Weissensee, onde desenvolveu suas primeiras graphic novels: Strand Safari e Mas podemos continuar amigos (este último, defendido como trabalho de conclusão do curso). Seguiram-se outros livros pela editora berlinense Reprodukt, com traduções para o inglês, o francês, o espanhol, o polonês, o russo, o tcheco e o português. Além disso, desenha para jornais como o Berliner Tagesspiegel e blogs, e ministra workshops. É um dos integrantes do coletivo Monogatari, que produziu reportagens em quadrinhos em Berlim e na Basileia. http://www.mawil.net

Paulo Ramos é jornalista e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo. Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, onde integra o Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP. Pós-doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas. Coordena na Unifesp o Getexto (Grupo de Estudos do Texto), que tem nos quadrinhos e nas produções midiáticas dois de seus interesses de pesquisa. É autor de diferentes obras teóricas e jornalísticas sobre quadrinhos. http://www.blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br

Reinhard Sauer é diretor do Goethe-Institut Porto Alegre, onde, nos últimos anos, tem incentivado ações promovendo os quadrinhos brasileiros e alemães. Em 2009, trouxe a Porto Alegre o quadrinhista Reinhard Kleist, autor da biografia em quadrinhos de Johnny Cash. Em 2010, organizou o I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos. É idealizador do Osmose, um projeto de residências artísticas para autores de quadrinhos do Brasil e da Alemanha.

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário (JL) pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), onde concluiu o curso com uma proposta de integração entre o JL e as Histórias em Quadrinhos. Atua profissionalmente como editor da editora Biografias & Profecias, por onde publicou os livros Plenamente – o bom em busca do belo e Luzir – incandescendo o Vale do Paraíba, ambos em coautoria com Regina Magalhães. Também é coautor de Punk – o protesto não tem fim, escrito com o jornalista Igor Antunes Penteado. Além disso, colabora com resenhas para o Jornal Rascunho e edita o blog Canto dos Livros. http://www.biografiaseprofecias.com.br / http://www.cantodoslivros.wordpress.com

Vinicius Rodrigues é professor de Literatura e dá aulas em escolas da rede particular de Porto Alegre e região metropolitana. Graduou-se em Letras pela UFRGS, onde atualmente finaliza seu mestrado em Literatura Brasileira sobre o ensino de literatura e seu papel na formação de leitores no Ensino Médio, tendo como foco a abordagem das histórias em quadrinhos nesse segmento. Apresentou trabalhos e publicou artigos sobre quadrinhos e narrativas gráficas e, em 2012, lançará, em conjunto com outros pesquisadores, o livro História em quadrinhos: diante da experiência dos outros, resultado dos debates das Jornadas de Estudos sobre os Romances Gráficos da Universidade de Brasília. É membro da comissão organizadora da “edição Porto Alegre” dessa Jornada, que ocorrerá em novembro de 2012. www.devaneioliterario.blogspot.com.

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Unindo uma história real de amor, espiritualidade, viagens internacionais e o mundo da escrita, os textos dePoemas Para Lucy e Outros Amores Sagrados, de Edvaldo Pereira Lima, publicado pelo sistema editorial Clube de Autores, compõem homenagem à esposa do autor, falecida em 2011, navegam por territórios da difícil jornada humana rumo à individuação, desembocam em considerações sociais sobre o Brasil de hoje.

Poemas biográficos, de um lado, espontâneos, de outro, têm como contexto de fundo questões existenciais que transcendem a história particular do poeta, conduzindo o leitor pelo arco temporal de quase 18 anos de vida amorosa espelhando os prazeres, as dores, os desencontros, os desafios, as alegrias de um longo relacionamento, assim como o confronto inevitável com a morte, temas universais de todos nós. Racional e intuitivo, emocional e intelectual, tocado pela inquietude espiritual, o autor – também professor universitário e jornalista – evita formas e fórmulas rígidas, preferindo seus poemas orgânicos, livres, sem obediência a nenhum formato imposto por modismos externos.

A linha condutora de tudo é o dramático impulso à ampliação de consciência que a vida nos coloca neste complexo momento histórico de transformação individual, social e planetária que vivemos”, destaca Pereira Lima. “Homens e mulheres configuram novos tipos de relacionamentos, os papéis se alteram, os casais são pressionados a vencer modelos antigos e todos nós, coletivamente, vivemos o grande desafio de descobrirmos o sagrado em todas as áreas das nossas vidas, como indivíduos e membros de uma única espécie que configurou uma civilização potencialmente fabulosa, mas em precário estado de sub vivência”, completa.

Os poemas da primeira parte refletem essas questões no campo romântico, partindo de tributo ao amor em “Além do Possível”, passando, entre outros, pelo sugestivo “Hula” – ondulante como as ondas do Havaí -, visitando em forma bilíngue “London Eye” (a Roda Gigante/O Olho de Londres) e terminando no tocante “Linda”, testemunho do final de uma vida humana. Os da segunda navegam por temas espirituais dramáticos – como “Armagedon” – ou de entrega – “Senhor Além da Ponte Nebulosa” -, por questões psicológicas do ego e do Self –PoemaSanto” -, por viagens de descobertas –Cruzeiro aéreo Caribe” e “Paisagem” -, por considerações quanto aos propósitos superiores de países e nações – “América do Meu Jeito” e “Arábia” -, terminam num contundente exame da nação e de brasileiros extraordinários do século XXI, o país encharcado, em paradoxo, pelo câncer endêmico da corrupção política, em “Brasil”. Jornalistas literários e a artista pop Reba McEntire também são homenageados nessa parte. Na terceira e última, os leitores recebem um bônus surpresa de um texto de terceiros, bastante útil para a alma.

Poemas Para Lucy e Outros Amores Sagradosé o décimo livro do autor, seu primeiro de poemas, tem 346 páginas impressas, custa R$45,53 na versão padrão, mais correio. O leitor pode optar por diferentes formas de acabamento e por uma versão colorida. Está à venda pelo sistema Clube de Autores e livrarias virtuais associadas, com acesso para encomenda e leitura de algumas partes da obra por aqui.

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Por Fred Linardi

Ao escrever Na pior em Paris e Londres, Eric Arthur Blair ainda não era conhecido como George Orwell e, claro, não havia escrito os clássicos 1984 e A revolução dos bichos. De fato, essa narrativa de não ficção foi seu primeiro livro.

Sua premissa parece uma ideia que já passou pela cabeça de muitos: numa arriscada aventura, o autor decidiu que viveria como um jovem miserável pelas cidades de Paris e Londres, usando roupas de segunda mão e procurando empregos direcionados para pessoas naquela condição social. Simplesmente isso.

Os altos e baixos da vida um tanto vagabunda e desesperadora o fizeram passar fome e ser pressionado pelas cobranças de aluguel do seu miserável cubículo em Paris, infestado de percevejos. Foi também na capital francesa que ele batalhou por empregos como professor ou qualquer coisa que lhe pudesse trazer uma sobrevivência mais digna. Com incertezas e dias de estomago vazio, fixou-se como lavador de pratos de um hotel, onde conseguiu ficar a maior parte do tempo.

Entre o próprio emprego e os bares que frequentava, o escritor inglês soube aproveitar o encontro com personagens de vidas semelhantes a ele e ilustrá-los como retratos daquela realidade. Nesses meados dos anos 1920, Orwell conseguiu informar o que acontecia entre as ruas repletas de pessoas que viviam à margem da sociedade europeia, como eram tratados pelos patrões, colegas de trabalho e como era o relacionamento entre os próprios miseráveis que acabou conhecendo. É em Londres que o jovem escritor tem uma grande rotação entre albergues de todos os tipos e conta como esses lugares funcionam e quais são as condições de hospedagem.

Entre as ideias e ensaios sobre as experiências nesta rotina, os episódios são narrados com requintes textuais que mantêm o interesse pela leitura, por mais grotescos que sejam os casos contados pelos homens e mulheres que cruzavam seu caminho. Algumas vezes os depoimentos duram por quase todo um capítulo curto e pontual, mas também incrementados de ótimas reconstruções de cenas que projetam os ambientes de forma vívida.

Além de imprimir uma realidade à parte, o livro revela um enérgico jovem escritor. Na pior em Paris e em Londres manteve-se inédito no Brasil até 2005, quando foi editado pela Companhia das Letras em sua já notável coleção Jornalismo Literário. A narrativa revela a possibilidade de se fazer reportagem pela sua maneira mais radical, ou seja, retirando-se do escritório e vivenciando um determinado tema. Orwell não chega às últimas consequências, como décadas depois o Jornalismo Gonzo faria, nas mãos de seu mais ilustre representante, o americano Hunter Thompson. Talvez esteja aí o equilíbrio deste trabalho de Orwell, onde é perceptível seu cuidado em voltar vivo para contar a história.

Ainda bem, pois dentro dos seus trabalhos de não ficção, ele ainda escreveria os notáveis Dentro da baleia e A caminho de Wigan, refletindo sobre a sociedade e a política. De forma mais direta e pessoal, seus ensaios prevêem a qualidade narrada e a profundidade filosófica contida em seus clássicos romances posteriores.

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Monica Martinez é uma dessas profissionais que conseguem unir o domínio da prática e da teoria de sua profissão. Doutora em Ciências da Comunicação pela USP, defendeu uma tese que depois se transformou no livro Jornada do herói – a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo. Não parou por aí, foi para a Umesp onde obteve o seu pós-doutorado. Professora universitária e ativa pesquisadora, também possui interesse pela Criatividade. Ministra cursos de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo e, sobre o assunto, publicou Tive uma ideia! – o que é criatividade e como desenvolvê-la. Ainda que atualmente se dedique mais ao campo acadêmico, Monica é uma apaixonada pelas redações – nelas já redigiu matérias publicadas em grandes revistas do país. Não bastasse tudo isso, ainda está prestes a publicar o seu primeiro livro de ficção. Poderíamos falar por mais umas 50 linhas sobre suas qualificações, mas pararemos por aqui e deixaremos que a entrevista revele mais da PhD.

Canto dos Livros: Na sua opinião, o que é literatura?

Monica Martinez: Boa pergunta. Às vezes é mais fácil saber o que não é literatura do que o que de fato se encaixa neste rótulo, não é? A meu ver, e de forma bem sintética, literatura demanda o uso estético e criativo da linguagem escrita. E este uso deve sempre ser visto no contexto do espaço e do tempo em que o material é produzido.

CL: O Brasil é tido como um país de pessoas criativas. Essa virtude engloba a produção literária, ou essa é uma característica infundada do nosso povo? A criatividade artística não depende de um sistema de educação de maior qualidade, afinal?

MM: Um dos estudiosos contemporâneos de criatividade, o estadunidense Steven Johnson, remete ao conceito de redes líquidas para falar sobre criatividade. Este argumento é baseado nos estados da matéria e, portanto, é de simples compreensão. Assim, no estado gasoso há um caos criativo, porém neste universo caótico as boas ideias têm dificuldade em se concretizar. Já no sólido há estabilidade, porém as estruturas são tão cristalizadas que as inovações encontram dificuldade para irromper. Neste cenário, entendo que o Brasil estaria mais próximo do caos, com bastante explosões criativas, mas enfrentaria desafio no planejamento e na implementação a longo prazo das ideias criativas. Não basta criar: é preciso implementar as boas ideias, o que demanda outras habilidades do ser humano.  Habilidades, muitas delas, que evidentemente são transmitidas ou treinadas pelo sistema educacional, daí a importância de ele ser eficiente.

CL: Pegando neste ponto também, sempre existe uma grande questão em torno de escola para escritores. Alguns defendem sua importância, outros dizem que escritores já nascem prontos. Qual é a sua opinião?

MM: Já vi muita gente talentosa que simplesmente não tem a disciplina necessária para sentar e escrever. A escrita não é um fim, mas um processo. Neste sentido, é muito salutar a troca de informações e experiências, daí, a meu ver, a grande importância das oficinas. Há também muito de grupo de apoio nestes grupos, que inspiram os integrantes a vencer seus desafios e ir além do que imaginam ser seus limites.

CL: A partir da sua experiência em salas de aula, quais são as principais causas de bloqueios criativos que seus alunos expõem? E como fugir deles? 

MM: Deste assunto entendo bem, pois desde 2004 ministro um curso de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Nele, faço um levantamento, por meio de respostas espontâneas, dos problemas relacionados a bloqueios. As seis causas de bloqueios mais citadas são desorganização, dispersão, perfeccionismo, indisciplina, insegurança e falta de estabelecer prioridades, respectivamente. Penso que não se trata de uma questão de fuga, mas de identificá-los e estabelecer uma estratégia para lidar com eles. É simples assim.

CL: Você anunciou recentemente que em breve lançará um livro de ficção. O que podemos esperar dele?

MM: Livros são como filhos. A gente lhes tem um amor infinito, mas nunca sabe de fato o que se pode esperar deles. E aí reside a graça: em geral somos surpreendidos por ambos. No meu caso, até agora, o simples fato de escrever ficção foi uma das coisas mais deliciosas que já fiz. O que já é uma recompensa e tanto. O que vier a mais é lucro…

CL: Como foi para uma pessoa tão acostumada a escrever fatos reais ter a liberdade total para criar o que quisesse? Essa liberdade em algum momento atrapalhou?

MM: Sou muito rigorosa com a apuração quando faço um texto jornalístico. A pessoa não tem mais ou menos 1,70m. Ou tem 1,69m ou 1,71m, por exemplo. Para mim, portanto, escrever ficção foi relaxante, um estado muito criativo e libertador.

CL: Um dos erros comuns de iniciantes em não-ficção é a dificuldade em livrar-se de conceitos pré-concebidos, amarras e juízos de valor. Você sente isso também? Como fazer para quebrar preconceitos, tabus e julgamentos que estão tão intrinsecamente ligados a cada um de nós?

MM: Acho que tenho uma característica de personalidade que me ajuda muito, que é a de ser muito exigente comigo mesma, mas de ter uma grande abertura para as idiossincrasias dos outros. Eu tenho uma infinita curiosidade de entender o ponto de vista do outro, sem endossá-lo nem absorvê-lo, mas de compreender o porquê a pessoa pensa, sente ou age desta ou daquela forma. Uma vez uma aluna escreveu uma história de vida fantástica, na qual uma moradora de um complexo habitacional poupava a vida de um rato que morava em sua cozinha — ainda que ela tivesse medo que o roedor mordesse seu bebê — porque ele tinha três patas. Essa delicadeza com um animal, digamos, com restrições motoras, vinda de uma pessoa com tal desfavorecimento econômico, nunca saiu da minha cabeça. A realidade, realmente, na maioria das vezes é mais surpreendente que a melhor ficção.

CL: Seu trabalho no campo acadêmico está muito voltado à pesquisa. Como é ser pesquisadora no Brasil? Você sempre teve essa vontade ou foi uma coisa que “aconteceu”?

MM: Acho que tudo o que eu sempre quis foi escrever. Eu sempre soube que lidaria com a escrita, embora não soubesse muito bem como isso aconteceria. Foi tudo muito natural. Escolher jornalismo como profissão, migrar para a docência num certo ponto da vida, fazer mestrado, doutorado, pós-doutorado, começar a ensinar a escrever, virar pesquisadora… No fundo, escrever um artigo científico exige muita competência textual. E, para mim, é mandatório que um artigo científico escrito por alguém da área de comunicação social seja bem redigido. Não faz sentido que não o seja.

CL: Como essas pesquisas se encaixam ou influenciam efetivamente no fazer jornalístico? Como a imprensa adota as novidades propostas pelo meio acadêmico?

MM: É uma simbiose. Até porque muitos acadêmicos são ou foram profissionais. E acho que mesmo quem se dedica mais à docência e já esteve numa redação não se esquece o quanto é apaixonante estar no meio de uma apuração ou de um fechamento. Você se sente 100% vivo, fazendo parte da história, é uma experiência fantástica.

CL: Após fazer mestrado e doutorado em uma universidade (USP), resolveu respirar novos ares e levar sua linha de pesquisa a outra instituição (Metodista), no pós-doutorado. Fale um pouco sobre a importância dessa mudança de ares para o desenvolvimento das pesquisas e produção de conhecimento.

MM: Tive muita sorte de ter tido a oportunidade de conhecer, na USP, o professor Edvaldo Pereira Lima (que viria a ser meu orientador do doutorado anos depois), que me despertou para o Jornalismo Literário — nunca mais fui a mesma depois desta descoberta. Entre 2008 e 2010, foi uma oportunidade e tanto conhecer mais de perto pesquisadores de uma instituição de ensino muito sólida como a Umesp, com um programa de pós-graduação de quase 40 anos. É inspirador participar de um grupo de pesquisadores sérios, altamente produtivos. Você vê o conhecimento sendo gestado na sua frente. Recentemente participei, com um grupo de pesquisadores do Brasil e de outros países, de um evento na Universidade de Viena e está sendo outro aprendizado interessantíssimo, descobrir como é feita a ciência da comunicação em nível mundial. O método pode ser o mesmo, mas o tempero é absolutamente cultural, regional. Neste sentido, os brasileiros têm sorte, pois bebem tanto na fonte da ciência quantitativa do modelo estadunidense quando na qualitativa do modelo europeu.

CL: Uma de suas paixões é a narrativa de viagem. Como é a sua relação com o gênero?

MM: Tenho particular carinho pelas narrativas de viagem. Outro dia, por exemplo, estava lendo o livro do Hans Staden — já há quase 500 anos se produzia narrativas de qualidade. Penso que meu amor pelas viagens deriva do fato de que elas são sempre uma aventura de descoberta porque fazem com que os indivíduos deixem seus limites conhecidos para trás e se aventurem no novo, em universos diferentes. Isso faz com que as pessoas aprendam mais sobre si mesmos e sobre os outros — o que, para mim, é o grande desafio de se estar vivo.

CL: Quais autores na Literatura e quais jornalistas te inspiram?

MM: Tive a sorte de ter uma mãe que lia muito e que me ensinou o amor pela leitura. E um pai visionário, que me ensinou que o impossível não existe. Com certeza posso dizer que sou apaixonada por García Márquez, Hemingway, Falkner, mas amo mesmo a literatura de não-ficção americana. Talvez esta seja, de fato, minha grande especialidade. Entre eles, meus favoritos são sem dúvida Gay Talese (um clássico), Lilian Ross (com seu encantador estilo mosca-na-parede) e Joseph Mitchell (a revelação no segundo perfil de O Segredo de Joe Gould é, para mim, um dos momentos altos do jornalismo). Dos atuais, aprecio muitíssimo os livros de David Remnick, o atual editor da The New Yorker, em particular A Ponte, sobre o presidente Barack Obama.

CL: O que poderia dizer a jovens que pensam em ingressar no jornalismo ou que pretendam publicar seus escritos?

MM: Dizem que quando se vai comprar um imóvel é preciso se pensar em três coisas: localização, localização e localização. Para mim, a resposta para sua pergunta demanda três palavras: persistência, persistência e persistência. Não desistir nunca. Quem age assim certamente verá chegar a sua hora.

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Por Fred Linardi

Filmes estreiam a cada semana, como se tivessem todas as facilidades do mundo para conseguirem sobreviver nesse ciclo interminável. Mas o jogo formado pela indústria cinematográfica não é de hoje e vem acompanhando os filmes desde que o cinema começou a traçar sua história. Determinados pela correria nos estúdios, entre produtores, diretores, distribuidores e caciques da sétima arte, os filmes – especialmente os de Hollywood – acabaram definindo o modo de levar esse mundo aos milhões de dólares.

Entres tantos livros especializados em cinema, Filme, da jornalista Lillian Ross, destoa positivamente ao retratar o dia a dia em um set de filmagem. Em meados dos anos 50, em vista de fazer um retrato de um desses lugares onde a magia é construída, a repórter da revista The New Yorker decidiu acompanhar o diretor de cinema John Huston. A gravação seria a do filme A Glória de um covarde (The red badge of courage), baseado no livro homônimo de Stephen Crane. Lillian Ross acompanhou toda a fase de aprovação e gravação até a estreia do filme, relatando as peculiaridades dos bastidores compostos por diferentes maneiras de pensar a produção cinematográfica.

Como característica do Jornalismo Literário, a autora limitou-se à observação detalhada e passou para o papel as cenas do que ocorria nos sets de filmagem, nos escritórios da MGM e na casa dos produtores. Entrevistas parecem ter sido uma das técnicas coadjuvantes, de modo que o que se destaca em sua narrativa é a sua posição de observadora dos ângulos, diálogos e movimentos que a rodeavam – método jornalístico que recebe o nome de ‘mosca na parede’.

Tal exercício não é tão fácil quanto parece: passar os ambientes ao leitor de maneira que este enxergue e tire suas conclusões pelos próprios fatos é uma forma conquistada por poucos narradores da vida real. Ross usa diálogos e sutilezas dos personagens para mostrar suas singularidades, sem a necessidade de expor sua opinião.

Seu trabalho acabou resultando numa minuciosa narrativa acerca de correrias e discussões por idéias e resoluções de problemas do roteiro de um clássico que tem tudo para dar certo e, ao mesmo tempo, fracassar. “Uma descrição terrível de como um grande filme pode ser reduzido à incoerência pelo acanhamento e analfabetismo dos chefes de estúdio”, disse Grahan Green – frase que acompanha o título do livro na edição lançada pela primeira vez no Brasil, pela Companhia das Letras, em 2005.

O ótimo desempenho de autores, cujas reportagens acompanham o passar do tempo, como Lillian Ross, Joseph Mitchell, Truman Capote, entre outros, vira e mexe abre discussões sobre a aproximação do jornalismo e a arte. Novamente em pauta, o assunto entrou na Feira Literária Internacional de Parati de 2006, quando Ross, já uma senhorinha, esteve presente e endossou suas próprias palavras sobre a arte da reportagem, dizendo evitar discutir sobre a questão. Apesar de ter vindo com um discurso morno, defendeu a prática como evidência da qualidade de um texto. Para ela o segredo está em fazê-lo de forma “boa” ou “ruim”, e ponto final.

Parece que Ross já tinha essa consciência quando escreveu Filme, cujo nome em inglês é Picture. Palavra que, além de significar filme, também quer dizer retrato: uma ótima sugestão para o resultado dessa grande reportagem.

 

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Por Fred Linardi

Quando o jornalista Joseph Mitchell inicia a narrativa sobre um excêntrico miserável de Nova York dos anos 40, o leitor já se depara com um texto que inspira curiosidade. O personagem em questão é um joão-ninguém; um “homenzinho” que anda pelos bares e ruas e não tem nada de celebre ou exemplar para mostrar. E é exatamente isso que instiga também um dos repórteres mais importantes da revista The New Yorker.

Homenzinho é exatamente o primeiro termo que Mitchell usa para designar Joe Gould assim que começa este perfil jornalístico originalmente publicado em 1942. O requinte narrativo pode trazer a desconfiança de que se trata de uma ficção baseada em fatos reais, mas não é o caso. De fato, todos da região de Greenwich Village, Nova York, conheciam esse tal de Joe Gould com suas aparições em bares, tomando um café e comendo muito ketchup das mesas (puro! Não tinha dinheiro). Assim como grupos de poesias, onde o velho baixinho cismava em fazer parte e recitar seus versos que, não saíssem da boca de quem as recitava, não passariam de uma brincadeira de gosto duvidoso.

Além de ser uma presença atípica nas ruas da metrópole, o andarilho beirava o limite entre uma pessoa única e inocente, mas desagradável ao mesmo tempo. Sua excentricidade rendia-lhe convites, assim como podia causar náuseas como quando ele insistia em mostrar saber falar o idioma das gaivotas: o “gaivotês”. Mas seu grande orgulho consistia no maior projeto de sua vida, ao qual chamava Uma história oral do nosso tempo. Nela, o autor relatava sobre pessoas que ia conversando aleatoriamente pela cidade, figuras que, segundo Gould, eram os verdadeiros agentes que moviam a história de um país.

Joseph Mitchell teria todos os motivos para retratar aquele personagem, com quem conviveu por alguns meses entre bares e muitas conversas, de forma jocosa, folclórica e até mesmo pedante ou piedosa. Mas o tratamento honesto rendeu humanização àquele homem, como se, página após página, Mitchell conseguisse ir tirando mais camadas da aparência e palavras de Gould até conseguir expor a alma do personagem.

O livro é dividido em duas partes justamente pelo cuidado que Mitchell tomou ao publicar o que rendeu duas reportagens na New Yorker. O primeiro, intitulado O Professor Gaivota, é mais curto e conta sobre essa figura fascinante que também era capaz de irritar o narrador em algumas conversas que pareciam não ir mais a lugar algum (ou seriam sucessivas fugas de Gould em fugir de um determinado assunto?). O segundo perfil, este o próprio O Segredo de Joe Gould, foi publicado vinte e dois anos após o primeiro, em 1964, quando Gould já havia morrido. Mitchell continuou uma história que julgara impossível de relatar quando seu personagem ainda vivia ,preservando sua dignidade.

O suspense para descobrir o que Joe Gould escondia de todos só não causa tanta aflição porque a narrativa flui e faz com que o leitor se aproxime e crie uma simpatia tanto pelo boêmio nova-iorquino quanto pelas situações vividas por ele. O segredo revelado finda uma busca seguida pelo repórter a passos de detetive e carregada de voltas em torno dessa personalidade tão ímpar.

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Cruzar a África de norte a sul sem tomar aviões nem ter acesso a celulares, computadores, Internet, fax ou qualquer coisa do tipo. Esse foi o desafio que Paul Theroux se impôs para escrever O Safári da Estrela Negra – uma viagem através da África. Famoso tanto pelos seus livros de ficção como pelos de não ficção, esses sobre viagens, o autor obteve uma grande história ao imergir no continente africano. E soube contá-la muito bem, eis o grande mérito.

As dificuldades que Theroux encontrou pelo caminho foram inúmeras, principalmente ao procurar informações sobre como se locomover entre cidades ou países.  Em determinado momento, por exemplo, o escritor precisa checar diariamente se o barco que carece tomar sairia naquele dia, pois não havia nada programado com antecedência. Problemas burocráticos o viajante também encontrou aos montes, principalmente quando necessitou de vistos prévios para entrar em algum país.

Mas, ao mesmo tempo, Theroux se deparou com uma África muito diferente da que conhecemos daqui. Claro que toda a questão da miséria, fome e violência está presente no livro, mas há também inúmeros exemplos de um povo solidário e atencioso, sempre pronto para estender a mão. Um dos momentos mais marcantes da viagem é a passagem do escritor pela Etiópia, país devastado no começo da segunda metade do século XX, porém com uma nação altruísta e que luta pela reconstrução e reestruturação da sua terra.

Uma questão que é escancarada diversas vezes ao longo do livro é o quanto o assistencialismo emperra o desenvolvimento do continente. As ajudas humanitárias vindas de todo o mundo fazem com que boa parte dos africanos (principalmente os governantes) se acomode, fique apenas esperando a ajuda de alguém. Por outro lado, caso essa caridade cesse, em um primeiro momento as vítimas fatais seriam inúmeras. Esse parece ser o grande paradoxo dessa política de amparo constante, não apenas na África, mas em qualquer lugar que ele exista.

Ao longo da livro, Theroux cita referências literárias sobre o continente, como Coração das Trevas, de Joseph Conrad e parte da obra de Rimbaud, que se mudou para a África ainda adolescente. Também faz questão de criticar constantemente Ernest Hemingway, que, segundo o viajante, incorpora exatamente o tipo de turista que faz mal ao lugar: aquele que o vê apenas como exótico, hospeda-se em hotéis luxuosos que são ilhas em meio à miséria e ainda sai pela savana matando os maiores animais que vê pela frente, apenas para exaltar sua masculinidade.

O Safári da Estrela Negra é um ótimo livro, mas torna-se ainda melhor se comparado com outras obras do autor. A evolução da escrita e da forma como Theroux enxerga o mundo fica evidente se compararmos esse título, lançado em 2002, com O Grande Bazar Ferroviário, obra de referência para narrativas de viagem de não ficção, de 1975. Atualmente, o escritor consegue enxergar nos povos as distintas realidades existentes, sem querer traçar um paralelo com a forma de viver dos ocidentais. Antes bastante presente, o preconceito é deixado quase que totalmente de lado, e isso faz uma diferença imensa. Tal diferença pode ser notada também em Até O Fim do Mundo, uma coletânea com diversos trechos de livros de Theroux, mas se faz ainda mais presente quando percebida em uma obra completa, não apenas em fragmentos de viagens.

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