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Posts Tagged ‘José Luis Passos’

jaffePara viver de literatura quase sempre é preciso se desdobrar. Noemi Jaffe se desdobra. Escreve livros, prefácios, ensaios e críticas, faz curadoria, dá aula em universidades e ministras cursos e oficinas de escrita. Assim, leva uma vida sem luxos, é verdade, mas alinhada com sua paixão pelas letras. Autora, dentre outros, de A verdadeira história do alfabeto e O que os cegos estão sonhando, também mantem o blog “Quando nada está acontecendo”. Na conversa que tivemos com ela por e-mail, falou de suas obras,da literatura de uma forma geral, do belo e até mesmo de poesia, assunto um tanto raro aqui no Canto.

Canto dos Livros: O que se passa quando nada está acontecendo?

Noemi Jaffe: Quando nada está acontecendo passa o que passa distraído e é durante a distração, quase sempre, que se passam as melhores coisas. Aquelas das quais a gente não se dá conta, que não têm grandiloquência, mas têm voz e vez. Não o amor, nem a guerra, nem a paz: mas algumas palavras, algumas pessoas, lugares e ações. O que se passa é o concreto, quando nada está acontecendo.

CdL: A verdadeira história do alfabeto guarda algumas semelhanças com O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges. Ele realmente lhe é uma referência?

NJ: Esse livro, particularmente, não, porque eu nem tinha feito essa relação. Mas a literatura borgeana, sim, embora não diretamente. Borges está sempre ressoando em quase tudo o que escrevo, na sua visão de literatura como jogo, influência, espelho, circularidade e na ideia de que a linguagem e as línguas são mistérios que, quanto mais você cava, mais misteriosas ficam.

CdL: Em O que o cegos estão sonhando você parte do diário que sua mãe escreveu durante a Segunda Guerra, quando ela foi prisioneira em um campo de concentração, para criar uma ficção. Como foi o contato com esse passado da sua mãe? Quais emoções afloraram? Onde a ficção se fez essencial?

NJ: Foi, e sempre é, um contato muito difícil. Me identifico muito com ela e sinto dor, medo e culpa. Mas também aprendo, com ela, a importância da dignidade, da coragem e tento dar importância, na vida, ao que é realmente importante, sem me ater ou fixar a bobagens ou frivolidades. A ficção se fez essencial porque foi a forma que encontrei para lidar com algo de que não conseguia me libertar. Não quer dizer que me libertei, mas aprendi muito com a ficção. Aprendi sobre a importância de dividir essa história e mais algumas coisinhas sobre as pessoas e o mal, que está em todo lugar e no fundo de todo mundo.

CdL: Ainda sobre O que os cegos estão sonhando, a leitura de um relato sobre o holocausto tende a modificar o leitor. Você foi modificada pelos relatos que teve contato? Em qual medida?

NJ: Acho que já respondi na pergunta acima. Estou sempre sendo modificada por essa história e pelo que leio sobre ela. Não termina.

CdL: Você atua em diversas frentes literárias, seja como escritora, professora, crítica, curadora ou acadêmica. É possível afirmar que você vive de literatura? Como foi seu trajeto? Como é possível alcançar essa realidade que é o sonho de muita gente?

NJ: Sim, vivo de literatura. Mas principalmente das aulas de escrita criativa que ministro. Não vivo de direitos, de forma alguma. Mas é a literatura que me sustenta, através de palestras, prefácios, críticas, aulas etc.
Alcançar essa realidade é fruto de perseverança. A literatura sempre dá vontade de desistir, num país como o nosso e com a pressa que as pessoas têm de obterem repercussão. Não se pode ter pressa. Se escrever é reescrever, viver de literatura é tentar de novo. Nunca tive luxo e acho que nunca vou ter.

CdL: Dessas frentes, qual é a que lhe dá mais prazer? E há alguma que na qual você gostaria de parar de atuar?

NJ: A que mais me dá prazer é terminar um livro e vê-lo pronto. Não quero parar de atuar em nenhuma. Talvez dar menos aulas.

CdL: Quais as maiores surpresas que você já teve nas aulas e oficinas de escrita que ministra?

NJ: Ter encontrado alguns grandes escritores.

CdL: Até onde é possível ensinar alguém a fazer literatura?

NJ: Infinitamente, na mesma medida em que eu mesma estou sempre aprendendo. Eu não ensino a escrever. Ensino as pessoas, ou tento ensinar a extrair o melhor de si em termos técnicos e na demonstração de recursos, como concisão, uso de palavras, simplicidade etc.

CdL: Nas artes, em geral, e na literatura, especificamente, o clássico será sempre o belo?

NJ: De forma alguma! O belo não tem mais nome. O belo é o necessariamente belo, como disse Kandinsky.

CdL: A criação de novos gêneros textuais – tweets, posts etc – pode alterar a produção literária ou ela só existe nos gêneros consagrados?

NJ: Acredito que sim, mas ainda não. Talvez parte da literatura passe a ser mais condensada e talvez outra parte, como acredito, por oposição, retorne ao caudaloso e ao trabalhoso.

CdL: Uma de suas obras, para a série Folha Explica, trata de Macunaíma. Considerando que é possível detectar uma mudança de mentalidade na sociedade brasileira, de uns 20 ou 30 anos para cá, a análise e os paralelos possíveis de serem traçados do romance com a realidade também devem mudar? A 1ª edição do seu livro, de 2001, deveria ter algum acréscimo ou modificação significativa?

NJ: Acho que eu faria mudanças sim, mas não em função da realidade brasileira e sim em função da análise que realizei, à qual acrescentaria alguns trechos do livro que deixei de verificar. Acho que Macunaíma é mutante o suficiente para sempre ser uma representação fiel (e infiel) do Brasil.

CdL: Há alguma obra recente potencialmente similar à Macunaíma, em seu impacto e originalidade?

NJ: Penso em várias ótimas obras sobre o Brasil, mas em nenhuma especificamente, portanto acho que nada com o mesmo impacto. Gosto do José Luis Passos (confira aqui a entrevista que fizemos com ele), Paulo Scott, Bia Bracher e outros, que falaram sobre questões políticas brasileiras.

CdL: Você organizou ma antologia de poemas do Arnaldo Antunes e já ministrou curso sobre Paulo Leminski. Como está o atual momento da poesia?

NJ: Acho que está realmente bom! Poetas ótimos, com dicção nova e desafiadora. Estou adorando o momento poético brasileiro.

CdL: Do que se trata e a que se propõe o romance que você está escrevendo? Qual a previsão de lançamento?

NJ: Não tenho previsão de lançamento. O romance tem a ver com a revolução húngara de 1956. Não quero, por enquanto, falar mais do que isso. 

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entrevista_desenhoNesses mais de quatro anos de Canto dos Livros, as entrevistas que procuramos fazer mensalmente se tornaram um dos principais diferenciais do blog. Por isso, resolvemos reunir os links de todas as conversas que tivemos com pessoas do meio literário em um só post. Abaixo, trechos de dez delas e, em seguida, uma relação com todos aqueles que já falaram conosco. Para ler uma entrevista na íntegra, basta clicar sobre os nomes dos entrevistados. Divirta-se!

“Perceber o mundo como um morador local o percebe é fundamental para escrever com realismo e convencer o leitor de que ele está entrando num mundo especial, diferente do seu dia-a-dia” – Airton Ortiz

“Adoro o cotidiano mais prosaico, um ponto de ônibus, um sofá com televisão, um almoço qualquer” – Andréa del Fuego

“Por mais interessantes e diferentes que tenham sido as experiências que vivi durante a viagem, tenho escolhido não estacionar em vida nenhuma. Isso não quer dizer viver superficialmente, à deriva, do tipo ‘pra onde me chamar eu vou’. É, na verdade, uma tentativa de se manter aberto, receptivo às novidades” – Antonio Lino

“Toda narrativa pública transporta implicitamente uma visão de mundo, contribuindo ou para manter o grau de consciência do leitor num nível muito baixo de entendimento da realidade, ou ajudando-o a despertar para uma visão transformadora, que não termina no ângulo puramente derrotista, negativista” – Edvaldo Pereira Lima

“Geralmente, há uma esnobação equivocada que cerca a ficção. Eu adoro belos romances, mas a verdade é que genialidade na ficção é rara e a vasta maioria dos autores que se empenha em fazê-lo acaba produzindo uma bobagem banal” – Jeremy Mercer

“A ficção é parte do real, não se opõe a ele; não é o oposto da verdade. A ficção é um modo de se tornar visíveis relações constitutivas do real” – José Luiz Passos

“Sinto que todo escritor sofre de uma hipermetropia: pode enxergar bem a obra dos outros, à distância, mas a sua própria sempre aparece aos seus olhos imprecisa e turva” – Julián Fuks

“Acho que no geral há uma possibilidade razoável de nos próximos anos termos bons livros para ler. No entanto, parece-me que boa parte da produção ainda reproduz – sem criticar ou, ainda pior, aderindo ao que há de pior no Brasil. Digamos que estamos diante, se formos falar no geral, de uma produção amena e edulcorada” – Ricardo Lísias

“O que mais me incomodava, além dos entraves burocráticos, era a minha completa inaptidão para conversar com as pessoas. Às vezes eu ficava em silêncio ao lado de algum entrevistado vendo os ônibus passarem, por puro pânico e falta de perguntas. Isso às vezes era uma vantagem, porque o sujeito acabava falando qualquer coisa que lhe viesse à mente” – Vanessa Barbara

Alex Robinson

Augusto Paim

Bernardo Carvalho

Claudio Brites

Cristina Cezar

Eric Novello

Felipe Pena

Ferréz

F. T. Farah

Lehgau-Z Qarvalho

Marcelo Maluf

Monica Martinez

Nazarethe Fonseca

Nelson Magrini

Paulão de Carvalho

Reinaldo Moraes

Renato Modernell

Tatiana Salem Levy

Xico Sá

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Ricardo Lísias é um dos escritores nacionais de quem os leitores mais podem esperar algo atualmente. Autor de O livro dos mandarins, obra singular sobre o mundo corporativo, também escreveu Cobertor de estrelas, que foi traduzido para o espanhol e o galego, Duas praças, terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de 2006 e Anna O. e outras novelas, de contos. O céu dos suicidas, seu próximo romance, já está no forno e deverá ser lançado até o começo de abril pela editora Alfaguara. Confira abaixo uma entrevista com Ricardo, onde ele fala sobre O livro dos mandarins, prêmios literários e, dentre outras coisas, o texto que escreveu recentemente para a revista Piauí.

Canto dos Livros: Para começar, o que é literatura para você?

Ricardo Lísias: Muita coisa especial, mas nesse momento da minha vida estou preferindo praticá-la a pensá-la. Talvez possa dizer que entre tanta coisa, uma das que mais me agrada é a forma particularmente profunda e eficaz de expressão.

CL: Qual o papel da literatura de ficção?

RL: Creio também que muitos: entre eles, fugir da vulgaridade, fugir do lugar-comum, resguardar discursos particulares etc.

CL: Como vê a literatura não ficcional?

RL: Acho que dentro de suas particularidades, pode ser tão especial quanto a ficção. Eu não colocaria em patamares diferentes Franz Kafka e Walter Benjamin.

CL: O livro dos mandarins pode ser considerado um retrato dos executivos atuais? Como o livro foi recebido por pessoas dessa classe?

RL: Em parte, sim. Tive notícias apenas das pessoas que serviram como informantes. Todas gostaram. Muita gente que trabalhou nesse meio – sobretudo em bancos – me disse que a representação e  ideologia também ficaram adequadas. Mas algumas pessoas também se sentiram agredidas pelo livro. Recebi algumas manifestações nesse sentido.

CL: Em O livro dos mandarins quase todos os seus personagens se chamam Paulo (ou Paul, Pablo…). Por que a escolha por esse recurso e esse nome especificamente?

RL: Há a tentativa de mostrar a despersonalização das pessoas no ambiente corporativo. O nome Paulo foi utilizado porque foi o que eu achei que permite um grande número de variações.

CL: O livro dos mandarins foi lançado em 2009 e provavelmente concorreu aos prêmio de 2010, quando Minha mãe se matou sem dizer adeus, de Evandro Affonso Ferreira, ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Leite derramado, de Chico Buarque, levou o Jabuti de melhor livro do ano de Ficção – enquanto Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre, foi escolhido como melhor romance – e o mesmo Leite derramado venceu o Prêmio Portugal Telecom, apenas para ficarmos em três premiações das mais conhecidas. Em uma entrevista para a revista Vice, você diz não ter recebido nenhum grande prêmio com O livro dos mandarins por ter uma postura que desagrada muitos jurados, por não fazer média com os outros. Você acredita que o seu livro seja superior a todos esses citados?

RL: Não acho que eu tenha dito exatamente isso para a Vice, mas não vou olhar a revista agora, para não me influenciar com a resposta aqui. Eram também dois momentos diferentes para mim. Antes de tudo, acho que o livro de Evandro Affonso Ferreira saiu um ano depois do meu, não creio que concorremos a nada juntos. Mas já respondendo a uma parte da pergunta, acho o livro dele bom, como também acho bom o romance do Chico Buarque. Já o livro do Edney Silvestre, acho muito bem feito e bom como os outros dois, mas com um detalhe: é um livro claramente infanto-juvenil. Para esse público, é excelente. 

Eu li uma parte das “discussões” que se seguiram às premiações sobre o livro do Edney Silvestre e do Chico Buarque e fiquei impressionado como não houve nenhum tipo de atenção a esse detalhe. Como quase sempre, aliás, não houve discussão estética…

De resto, não acho de forma alguma que meu livro tenha sido prejudicado (ou não tenha sido…) em prêmios literários por causa de alguma possível radicalidade. Sequer me sinto à vontade para dizer que há alguma radicalidade no meu romance. Não é minha função, como também não é minha função dizer se eu merecia ter ganho ou não, ou aliás, quem merecia.

O que acho claramente é que os prêmios e tudo o que cerca a literatura brasileira são parte do Brasil, portanto também um reflexo dele. É só pensar nas eleições: de vez em quando, elegemos de longe o melhor candidato, outras vezes, o Tiririca. Prêmios dizem mais sobre o júri do que sobre o autor vencedor e os outros. Também não quero ser hipócrita: o dinheiro é importante, lógico, facilita o trabalho de todo mundo.

Acho ainda que o comportamento “morno” de muitos grandes ganhadores de prêmio no Brasil os ajuda a chegar ao consenso. Dificilmente um senhor desses faz alguma declaração incômoda…

Mas de jeito nenhum eu me sinto prejudicado: ganhei alguns, perdi outros, mas frequento boa parte dessas listas já faz tempo, e nunca fiz nenhuma concessão, de nenhuma ordem. Nem vou fazer.

CL: Por outro lado, O livro dos mandarins foi o último campeão da Copa de Literatura Brasileira, ganhando de goleada d’O filho da mãe, do Bernardo Carvalho, na final. Isso tem alguma importância para você?

RL: Sem dúvida, muita importância. Em primeiro lugar, muitos dos textos sobre o meu livro eram ótimos e mostravam coisas que eu não tinha visto. Depois confirmaram algo que venho sentindo há algum tempo: que meus textos cada vez mais agradam as novas gerações de leitores, inclusive muitos afastados do mainstream literário e com reservas a ele. A Copa de Literatura está fora dos espaços já muito viciados. Fiquei bastante satisfeito com o resultado.   

CL: Você tem um conto chamado Concentração, na Granta edição de narrativas e contos de viagem. Sua estrutura é perspicaz, acompanhando acontecimentos dramaticamente irônicos em torno do personagem Damião. Como foi o processo de criação desta narrativa?  

RL: Em 2001, em julho, tive um problema em uma conexão e acabei ficando bastante tempo no aeroporto de Buenos Aires. Comprei alguns jornais e fiquei espantado com a situação do país. Como já gostava de literatura latino-americana e tinha estudado os movimentos autoritários dessa região, mergulhei na história argentina e desde esse mesmo ano visitei o país algumas vezes. Comecei a escrever ainda no aeroporto. Devo tê-lo refeito inúmeras vezes em vários anos. Comprei alguns arquivos de jornais e fiz algumas pequenas coleções de material histórico sobre a Argentina, até concluir esse conto, em 2008. Foi o texto em que trabalhei por mais tempo até hoje, mesmo contando os romances. Tive certa obsessão pela história e pela literatura argentina, mas ela já passou.

CL: O que você pensa dos outros escritores de sua geração? Quais destaca?

RL: É incômodo para mim responder essa pergunta de maneira pontual, porque uns poucos deles são amigos muito próximos, então não vou citá-los. Acho que a Vanessa Barbara é bastante notável em vários aspectos, inclusive (ou sobretudo) tecnicamente. Também gostei bastante do livro do José Luis Passos (Nosso grão mais fino) e tenho bastante expectativa com relação ao próximo dele. Gostei de tudo o que li até hoje do Julian Fuks também. O livro de Brisa Paim me surpreendeu. Também gostei dos últimos textos da Verônica Stigger, achei-os bastante originais. Acho que no geral há uma possibilidade razoável de nos próximos anos termos bons livros para ler. No entanto, parece-me que boa parte da produção ainda reproduz – sem criticar ou, ainda pior, aderindo ao que há de pior no Brasil. Digamos que estamos diante, se formos falar no geral, de uma produção amena e edulcorada.

Eu gostaria de conhecer um pouco melhor a poesia e a crítica para falar desses campos também, mas seria leviano com o pouco que li.

CL: Sobre o processo criativo, você relatou para a revista Piauí deste mês uma verdadeira saga, aonde o ato de correr e depois treinar para completar a Corrida de São Silvestre foram sua terapia para superar problemas e conseguir concluir seus escritos pendentes. Não raro, diz-se que a tristeza e a adversidade auxiliam na criação. Quais diferenças você sentiu – ou não – na sua criação durante este período, comparado a outros normais? E como era o seu processo até então?

RL: No segundo semestre de 2011 sofri uma espécie de “acidente biográfico” que me causou um colapso emocional. Escrevi sobre isso em três momentos, durante o tratamento de recuperação. Na verdade, ainda estou me tratando, com um psicanalista com quem eu já tinha feito análise uma vez. Como continuo sob impacto emocional, ainda que muito melhor, não quero falar sobre isso em um gênero diferente dos que já me manifestei.

CL: Este relato da Piauí daria um excelente roteiro para ser aproveitado em outras mídias, como filmes (de curta metragem, no caso) ou quadrinhos biográficos. Você aprecia estas mídias? É influenciado por algumas delas? Se sim, por quais autores e obras?

RL: Eu não costumo ler quadrinhos, apenas alguns casos muito especiais, como Art Spiegelman e Joe Sacco, mas mesmo assim sem muita constância. Sobre o cinema, ao contrário dos quadrinhos, tenho muito interesse. Não sei dizer em que medida o cinema poderia influenciar uma obra literária. Acho que não muito, se formos pensar na particularidade formal de cada gênero. Gosto bastante de documentários, de uma parte do cinema norte-americano e de alguns diretores específicos, como Antonioni, Buñuel e, entre outros, Lars von Trier.

CL: Ainda sobre o publicado na Piauí, a fragilidade e a sinceridade que você corajosamente demonstra se devem ao gênero do escrito, bem como à situação e tempo específicos, ou poderia se dizer que eles permeiam sua obra e estilo?

RL: Acho que tudo se intensificou por conta da violência enorme da situação. Mas como eu disse acima, sinto-me melhor me manifestando sobre o “incidente” em outro gênero que não a entrevista.

CL: Qual é o seu objetivo ao editar o jornal literário Silva? Como ele se mantém, já que você não o vende?

RL: Silva tem um pouco para mim a função de reafirmar a importância do papel. Ele só existe porque o papel permite o formato. Não tenho obviamente nada contra as mídias digitais, que na verdade me interessam muito, mas não gosto do discurso que diz que elas soterrarão o papel. Nesse sentido, o Silva é um objeto de resistência. Também gosto bastante de edições alternativas e fanzines. Por isso fiz uma.

Ele se mantém com meus recursos próprios, até aqui. No entanto, para ser justo, é preciso dividir a autoria com o artista gráfico Luciano Arnold, que faz um excelente trabalho por um valor quase que abaixo do custo.

CL: Quais conselhos que gostaria de ter ouvido quando começou a escrever e poderia dizer hoje aos iniciantes?

RL: Não sei se eu acredito em conselhos. Mas eu acredito na leitura dos bons livros (dos grandes livros) e na procura intensa por um caminho particular. Acredito também em consciência de trabalho, de forma e de ideologia. Por fim, acredito que é preciso se distanciar dos grupos, do glamour e da vida “chapa-branca”.

CL: Do que se trata O céu dos suicidas, livro seu que será lançado em breve? O que podemos esperar dele?

RL: Em 2008, um dos meus amigos mais próximos se matou, depois de uma situação muito complicada. Fui uma das últimas pessoas a estar com ele antes. O livro é sobre isso. Eu não queria adiantar mais, porém.

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