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Posts Tagged ‘José SARAMAGO’

Por Alberto Nannini

capa_o-evangelho-segundo-jesus-cristo11Depois de O cordeiro, outra dica sobre a temática de Jesus, mas com enfoque diametralmente oposto: O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago.

Escrito na famosa “prosa contínua” do falecido escritor, o romance cria em cima das famosas histórias bíblicas, e lhes dá significado completamente diferente, como no caso da ressureição de Lázaro, dos 40 dias e noites no deserto, no papel do diabo e no de Judas, e na última fala, já padecendo na cruz, do carpinteiro de Nazaré que mudou o mundo.

A visão de Saramago, que foi um notório ateu, transparece durante todo o romance, sem sequer disfarçar sua voz como narrador. Ele chega a dirigir-se ao leitor, como numa discussão, talvez procurando maior autoridade para suas críticas a dogmas das religiões cristãs. Além disso, ele humaniza Jesus, falando sobre impulsos que muitos considerariam heréticos.

Para os cristãos mais empedernidos, é uma leitura proibida, já que é praticamente impossível que eles não se indignem. Mas, para os menos tradicionalistas, traz uma perspectiva muito instigante, que condiz com o Jesus histórico – um homem de seu tempo, que condensou uma mensagem de amor (que não foi entendida até hoje), e que morreu sem a menor noção do que se tornaria.

De minha parte, nenhum livro que já li teve interpretações tão diferentes em cada leitura – passou da indignação ao aceite, até chegar a uma terceira via, que não é nenhum destes extremos. Mas isso é assunto para uma outra postagem…

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Por Fred Linardi

zeitounO absurdo é um privilégio que a realidade tem sobre a ficção. Em literatura de não ficção diversas vezes essa ideia vem à tona: se fosse uma história inventada, seria muito difícil de convencer. Essa ideia ecoa o tempo todo no livro Zeitoun, de Dave Eggers, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Foi o primeiro contato que tive com esse escritor cujas publicações até então abarcavam principalmente a literatura ficcional, exceto por O que é o quê?. Antes de folheá-lo, tampouco entendi seu título, o que se esclareceu assim que li a sinopse desta grande-reportagem que conta a história de Abdulrahman Zeitoun, um morador de Nova Orleans que vivenciou os dias em que a cidade ficou submersa após a passagem do furacão Katrina, em agosto de 2005.

Quando digo que seria absurdo demais para ser uma ficção, não me refiro apenas aos desdobramentos que misturam num ambiente hostil provocado por um desastre natural ao lado da reação não menos trágica por conta das decisões políticas de um governo cego por suas próprias neuroses, preconceitos e autoritarismo – isso tudo seria de fato um tempero à la Kafka, como indica uma das citações estampadas da quarta capa do livro. De fato, os desdobramentos, capazes de fazer a leitura acelerar na medida em que as águas do mar sobem a cada metro da cidade, fazem com que o leitor corra rapidamente pelas páginas acompanhando passo a passo, remada a remada, a inédita rotina de um homem ilhado em Nova Orleans. Provável também que leitores se lembrem de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. O clima vai ficando cada vez mais – e mais uma vez – absurdo.

Sim, os estragos do Katrina e do governo Bush dão uma ótima trama, mas o grande trunfo do livro é a percepção de Eggers ao encontrar a história da família Zeitoun, tomando-a como um dos exemplos do que aconteceu com centenas de pessoas como eles. E eis o perfil dos personagens: Abdulrahman Zeiton veio da Síria para os Estados Unidos e conheceu Kathy, uma americana de Baton Rouge, capital do estado de Lousiana. Ela, que já tinha uma simpatia pelo islamismo, acabou caindo nas graças daquele imigrante, converteu-se e se casou com ele. Foram para Nova Orleans, onde ele começou a exercer sua inteligência como mestre de obras, cuidando, reformando e restaurando acabamentos das casas de seu bairro e de outros. Sua reputação foi rapidamente comprovada pelos clientes que aumentavam a cada ano, prosperando e fazendo com que Kathy se tornasse também sua companheira de empresa. Trabalhavam de segunda a sábado – e às vezes também aos domingos. Prezavam pela beleza das casas, escolas, igrejas, escritórios, que um dia um furacão de grandes proporções haveria de destruir.

O livro não se debruça em ironias como essa: um muçulmano cuidando dos prédios de um país que teme a destruição pelos muçulmanos. Não é preciso fazer analogias como essa. O que vale é apresentar de maneira natural o cotidiano normal de algo que todos sabemos que sairá de controle em breve. Aliás, se existe uma sutileza neste livro ela está exatamente na maneira que Eggers escolhe para narrar, mostrando um discurso próprio de bons romancistas, como acontece neste trecho em que a tragédia ainda não aconteceu e estamos apenas conhecendo a rotina do casal Zeitoun e de seus filhos Zachary, Nademah, Aisha e Safiya. Na cena em que a mãe os põe para dormir, contando histórias e os aconchegando duas noites antes do furacão possivelmente chegar à cidade, nos deparamos com este terno momento: “Mais tarde, depois de dar um beijo de boa-noite em Zachary, Kathy se deitou na cama de Nademah e as meninas se acomodaram à sua volta, provocando uma confusão de membros e travesseiros sobrepostos.”

Enquanto temos um marido confiante de que aquele seria mais um alarde precipitado, como acontecia todos anos – de que o furacão perderia força no Golfo do México – Kathy, por via das dúvidas, deixa a cidade com as filhas. O autor também sabe construir bem a ideia de família sólida – talvez retratada como feliz e perfeita demais para ser verdade. Mas o fato é que entramos na vida dos Zeitoun pré-furacão com a crença que tudo poderia acontecer com eles, mas não uma tragédia. Eles já superaram preconceitos sociais, religiosos, culturais e não merecem que algo de ruim lhes aconteça. Mas o Katrina chega para desafiar a aura feliz de pais e filhos exemplares que os Zeitoun são. Assim como aquela cidade, conhecida pelo Mardi Gras, pelo seu jazz e seus blues, terá sua atmosfera calorosa e festeira arranhada pela violência às quais os moradores remanescentes da evacuação estarão vulneráveis.

A partir de então, temos uma narrativa que se alterna com o olhar da esposa vendo notícias sobre a cidade, enquanto o marido vê apenas o que seus olhos conseguem alcançar, já que a energia elétrica seria interrompida não muito tempo depois da destruição dos frágeis diques. Outro jogo do acaso: Zeitoun vem de uma família de pescadores e trabalhadores marítimos e, pelo fascínio pela água, havia comprado um bote para usar em horas de lazer, a contragosto da esposa. É neste bote que ele sai remando pelas ruas de seu bairro. Em casa, tenta vedar as goteiras e protege os álbuns de fotos. Enquanto isso, constantes flashbacks nos levam à história das famílias de origem do casal.

Os fatos que se sucedem abrem espaço para uma crítica contundente em diversas passagens do livro, principalmente no que se refere às decisões de um país com medo de ataques terroristas numa cidade devastada por um desastre já consumado e consumindo mais vidas a cada dia, enquanto militares procuram por saqueadores e bandidos em detrimento das vítimas.

Apesar do livro de quase 400 páginas ser dividido em apenas cinco capítulos, a quantidade de respiros e alternância de cenas abrandam a leitura (e, prepare-se, pois o enredo fica cada vez mais denso e crítico). Qualquer descrição além deste início dramático se trataria de spoiler, e um dos prazeres de se ler essa história temperada por atitudes desastrosas e maldosas é – assim como os Zeitoun – não saber o que acontecerá nas horas e nos dias seguintes.

A estrutura deste livro-reportagem parece feita já para ser adaptada ao cinema. E de fato ele já se encontra em pré-produção, sob direção de Jonathan Demme. Diante do sucesso que filmes biográficos têm feito, há de se vislumbrar que o mesmo aconteça nas mãos deste competente cineasta. Enquanto isso não acontece, temos um livro com qualidade literária, aprofundamento de pesquisa e registro da história vivenciada por uma família. Registro este que confirma o pensamento e as atitudes políticas e sociais de uma democracia falha em momentos de crise, que marcaram a primeira década do ano 2000 nos Estados Unidos, mas que na verdade, mostra-se uma constante cultural de um país que se diz uma nação de cidadãos livres.

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Começa hoje e vai até o dia 22 de julho, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, a exposição Jorge Amado e Universal, sobre um dos nomes mais importantes da história da literatura brasileira. Estive ontem na festa de abertura da mostra e gostei do que vi. Destaque para a sala sobre as prostitutas nas obras do escritor baiano – com néons espalhados pelas paredes e textos escondidos em caixas – e para as cartas que Jorge recebia de amigos como José Saramago, Carlos Drummond de Andrade e Érico Veríssimo. Recomendo a visita, sem dúvidas.

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Claraboia 

José Saramago

Companhia das Letras

Primavera de 1952. Um prédio de seis apartamentos numa rua modesta de Lisboa é o cenário principal das histórias simultâneas que compõem este romance da juventude de José Saramago. Os dramas cotidianos dos moradores – donas de casa, funcionários remediados, trabalhadores manuais – tecem uma trama multifacetada, repleta de elementos do consagrado estilo da maturidade do escritor, em especial a maestria dos diálogos e o poder de observação psicológica.

No início da década de 1950, José Saramago já não era um nome totalmente desconhecido na cena literária. Aos trinta anos, publicara o romance Terra do pecado. Até 1953, o escritor iniciaria a redação de mais quatro romances, que ficaram inacabados. Em 5 de janeiro daquele ano Saramago finalizava o datiloscrito de Claraboia. O novo romance acabaria esquecido no fundo de uma gaveta. O original nunca foi devolvido ao seu autor, que também não recebera resposta alguma. Na década de 1980, já consagrado, Saramago era contatado pela mesma editora para publicar Claraboia. A mágoa pela falta de resposta na juventude levou-o a declarar que não desejaria ver o romance editado em vida.

O Rio é tão longe – Cartas a Fernando Sabino

Otto Lara Resende

Companhia das Letras

Amigos desde a juventude em Belo Horizonte, Otto e o escritor, cronista e editor Fernando Sabino (1923-2004) mantiveram uma ligação epistolar como poucas em nossa literatura. É sob todos os aspectos uma proeza em um tempo em que não havia computadores pessoais nem e-mail nesse vasto intercâmbio entre os dois autores ao longo do tempo e de diversas cidades.

Este volume inédito traz as cartas de Otto a Sabino ao longo de mais de trinta anos de uma sólida amizade – que perduraria até a morte do primeiro, no início dos anos 1990. Enviadas de lugares como Rio de Janeiro, Bruxelas e Lisboa (nestas duas últimas cidades Otto viveria como adido cultural), as cartas trazem o ponto de vista singularíssimo de um autor sobre os mais diversos aspectos da vida: dos amores à literatura, das transformações nos costumes à política do Brasil.

Nestas cartas escritas com mão levíssima e dicção altamente literária, comparece um elenco de personagens que iriam decidir os rumos do Brasil nos mais diversos campos, da literatura à política, da música popular às finanças. Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Jânio Quadros, San Thiago Dantas, Chico Buarque e João Goulart, entre muitos outros, aparecem como protagonistas, interlocutores ou mesmo em sublimes (humorísticas ou amorosas) evocações de um autor que assim definiu seu gosto por escrever tantas cartas: “Não é grafomania. É civilidade”.

Bom dia para nascer – Crônicas publicadas na Folha de S.Paulo

Otto Lara Resende

Companhia das Letras

No início da década de 1990, Otto Lara Resende iniciou uma profícua e caudalosa colaboração com a Folha de S. Paulo. Jornalista tarimbado, com passagens por diversas redações, Otto escrevia nesse espaço diário crônicas sobre uma vasta gama de assuntos: os desajustes da política (vivíamos a Era Collor), os amigos desaparecidos (como Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes e Paulo Mendes Campos), os costumes no Rio de Janeiro (cidade que o mesmerizava), as mudanças no nosso idioma, a literatura etc. Sempre com clareza e delicadeza exemplares.

Esta reunião de suas crônicas na Folha é uma edição ampliada de um volume publicado pela Companhia das Letras em 1993 e organizado, na época, por Matinas Suzuki. Desta vez, o jornalista Humberto Werneck recebeu a incumbência de coordenar o volume, garimpando mais de setenta crônicas nunca antes publicadas em livro.
E o Otto cronista é nada menos que um clássico do gênero: sua prosa, escorreita e refinada (mas nunca hermética), se molda à perfeição a amplitude de temas e pontos de vista apresentados diariamente nas páginas do jornal. A leitura das notícias o alimentava, claro, mas também há aqueles tópicos consagrados por outros cronistas antes e depois (a exemplo de Rubem Braga e Fernando Sabino, amigos e personagens de alguns textos deste volume), como a impiedosa passagem do tempo, os encontros e desencontros proporcionados pela grande cidade, a nostalgia de quem sabe que tudo, afinal, é breve e desaparece um dia. Às vezes, na edição seguinte do jornal.

O romancista ingênuo e o sentimental

Orhan Pamuk

Companhia das Letras

Em 1927, o romancista E. M. Forster proferiu em Cambridge as conferências hoje conhecidas como Aspectos do romance, uma resistente obra de referência dos estudos literários. Fazendo a devida justiça a esse pequeno livro, o turco Orhan Pamuk deu, em 2009, seu testemunho pessoal sobre a arte do romance na prestigiosa posição de palestrante das conferências Charles Eliot Norton, em Harvard.

Com o mote do famoso ensaio de Friedrich Schiller, “Sobre a poesia ingênua e sentimental” (1795-6), este livro reúne as seis aulas de Pamuk, e pode muito bem ser lido como uma atualização das lições de Forster. Entre tantos antecessores ilustres, cabe lembrar que, em 1985, a morte impediu Italo Calvino de falar em Harvard. Das Seis propostas para o próximo milênio, a última ficou em esboço.

A exemplo de Calvino, Pamuk desenha um percurso pela cultura do Ocidente, com a diferença de que explicita que o seu lugar é o de um intelectual em país pobre não ocidental. Se, para a audiência de Forster, o romance era ocidental e sobretudo europeu, o gênero chegou plenamente globalizado ao século XXI, e um dos principais tópicos de Pamuk é a apropriação do cânone pelos países periféricos e os papéis que a escrita e a leitura de ficção vêm desempenhando fora dos grandes centros culturais.

O eterno marido

Dostoiévski

L&PM

Uma tradição pode ter consequências trágicas. Mas como ter certeza de que o outro sabe que foi enganado? Em O eterno marido, Dostoiévski conduz seus personagens pelo fio tênue da dúvida e promove um surreal encontro entre um homem traído e o traidor.

Dostoiévski escreveu a obra em apenas três meses, durante o ano de 1869, quando não tinha dinheiro nem para colocar o manuscrito no correio. Publicado em 1870, este é um dos trabalhos mais refinados do autor e uma amostra das suas grandes temáticas, como a dualidade humana, e dos grandes personagens, como o homem comum que chega às fronteiras do crime. Um livro pungente, cercado de uma atmosfera de sarcasmo e ironia que beira a loucura.

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Por Alberto Nannini

Tudo depende da perspectiva[1]. Olhar algo de diferentes planos muda totalmente a percepção. Na verdade, vai ainda muito mais longe: nossos sentidos não são infalíveis (vide ilusões de ótica[2]  e afins), e nosso cérebro pode não processar – e via de regra não processa – uma mesma informação, vista duas vezes, da mesma maneira, já que estamos sujeitos a influências externas e à nossa própria “evolução”, por assim dizer: com um segundo de diferença, já não somos os mesmos. Como se não bastasse, o simples fato de se observar algo já o modifica, segundo a Física Quântica.

Daí que nossa noção de realidade é muito mais precária do que supomos.

Ouça esta conversa animada numa fábrica:

–         O mundo não tem forma definida!

–         Imagina, claro que tem! Tem forma circular!

–         Vocês dois não sabem nada! O nosso planeta é muito maior do que vocês imaginam! O que a nossa fábrica produz segue para os confins do planeta, pelos milhares de km de rios!

–         Ih, disfarça, olha o chefe chegando!

Nada de tão extraordinário, certo? A não ser que os operários fossem suas células hepáticas, da “fábrica” de seu fígado, “vigiados” por enzimas. Logo, elas falavam de você.

Consequentemente, sob esta perspectiva, você é um planeta [3].

Se admitíssemos que nossas células conversadeiras ali tivessem esse nível de consciência, será que compreenderiam o que formam juntas, isto é, que a somatória de todas elas mais seus respectivos desempenhos e funções, perfeitamente sincronizados, mais todo o meio físico em que vivem (seu corpo), formam você, e as minhas, formam a mim, e respectivamente todas as outras pessoas e seres? Não, não entenderiam. E não só não entenderiam, como qualquer célula que tivesse uma conversa estranha sobre “formamos um todo”, ou “em nossos núcleos[4], somos todas iguais”, “uma mesma linha[5] nos une”, seria ou vista como excêntrica, ou seria até eliminada, por desvio de função. E como posso afirmar que elas não compreenderiam o todo do qual fazem parte? …Bom, eu não entendo o Todo do qual faço parte. Sem contar que nós, como espécie, fomos especialmente cruéis com alguns visionários (crucificados, lapidados, queimados…)[6] que diziam algo não muito diferente do que diriam estas tais células subversivas. E olha que digo isso sendo só mais um pensando (e escrevendo) sobre este assunto, apoiado no ombro de gigantes muito melhor capacitados, que pensavam nisso desde… desde quando existimos como esta cruel espécie, praticamente.

Pensar no que consistiria este tal “Todo” é “apenas” o berço de toda a ciência, de toda a filosofia e de todo o progresso que fizemos.

Vejamos: da mesma forma que o personagem A. Quadrado da “Planolândia”¹, depois de uma jornada quase de herói, onde foi apresentado a um mundo “menos complexo” para entender o mundo “mais complexo”, intuiu que deveria haver mais do que aquilo que podia ser visto… O que poderíamos intuir, do ponto de vista macro, se pensármos que, do ponto de vista micro, seríamos, metaforicamente, considerados como planetas?

Aqui as coisas começam a ficar bem interessantes. Expandindo a analogia de sermos planetas para nossas células, e se fossêmos células para nosso planeta? A Terra, conosco e toda a biodiversidade como componentes, poderia ser também um ente vivo? Parece loucura, mas é uma teoria séria, que resume, bem a grosso modo, a Hipótese Gaia[7].

É uma questão de escala: ante a embabascante e incompreensível vastidão do Universo, o que é um pálido ponto azul no espaço? Ou mesmo nosso Sol, uma estrela entre bilhões e bilhões, de grandeza apenas mediana?

Os números nos entontecem, e entender o mundo macro parece muita pretensão. Daí o  recurso de se fazer essas analogias, e de usar perspectivas e proporções.

Proporcionalmente, somos um “planeta” para nossas células, ao mesmo tempo que, invertendo totalmente a perspectiva, a própria Terra é só uma minúscula célula no universo! E ainda, se para algum organismo unicelular que viva alguns segundos, nossos 80 anos de labuta, em média, são quase a eternidade, perto dos 10 bilhões de anos que vivem uma estrela, nossa vida é ainda mais ínfima, uma fração de fração de segundo, uma fagulha que se apaga praticamente ao mesmo tempo em que se acendeu.

Mas o mais lindo, absurdo e fascinante disso tudo é justamente o que há em comum em todos estes exemplos: nós, e as células, e os planetas e as estrelas, e quiçá o mundo, temos uma “arquitetura” muito semelhante. Somos mundos dentro de mundos. Como Matrioshkas[8].

Mundos dentro de mundos. Nada mais verdadeiro. O micro espelha o macro, vertiginosamente. A relação inevitável aqui é com os fractais. Talvez conheça o Conjunto de Mandelbrot[9], belíssimo. Trata-se de um construto matemático, onde, por mais que se vá recortando a figura inicial, que é muito mais complexa do que aparenta à 1ª vista, os recortes resultam em algo muito semelhante ou até absolutamente idênticos ao original! Mesmo reduzida sucessivamente, revela mais e mais detalhes, e ainda espelha a “matriz”. Não se parece isso conosco, ou com a vida como a conhecemos? Mesmo reduzida a algo aparentemente insignificante (recordemos que insignificância é só uma questão de escala), ainda é Vida, pulsando contra todas as chances.

Então, um planeta, um mundo, e mesmo a própria Divindade. Isto és Tu. Você contém em si todo o mistério e toda a maravilha do mundo, perambulando faceiro(a) por aí, nas suas tantas dezenas[10] de quilogramas de água, carbono e outros elementos básicos.

Concluindo, como no caso acima da descrição que fiz de você, é bastante fácil provar que há muitas situações nas quais o todo resulta maior do que a simples reunião de suas partes, da culinária ao futebol[11]. E a nossa somatória? Todas as nossas vidas, nossas lutas, nossa história, o que formam juntas?

Formam uma tapeçaria intrincadíssima, da qual nós somos os fios, entrelaçados caóticamente no avesso dela. Nos enrolamos uns com os outros, numa “costura” aparentemente aleatória, e damos origem a outros fios, até o dia em que “acaba” (noss)o fio[12]. Não fazemos ideia de qual “figura” esta tapeçaria forma, nem se há um Tecelão ou se é obra do acaso, ops!, Acaso. Inclusive, mesmo nessa metáfora, se fôssemos fios, mesmo o mais fino deles é composto de uma série de fios menores emaranhados, e as próprias moléculas que os compõem se enovelam em cadeias também. Recortes auto-semelhantes.

O que, finalmente, leva à conclusão que, já que mesmo as menores partes costumam espelhar o todo, uma forma de intuir o que formamos no macro, de qual é a figura (e o propósito) da tal “tapeçaria”, é ver o que formamos no micro, no aqui e agora. Não apenas somar as partes, mas “exponenciar”, e transcender. Não apenas o físico e material e toda a vaidade[13] derivada deles, mas o imaterial, aquilo que mesmo as mais inteligentes e sensíveis células de um todo, quando as há, tem extrema dificuldade de apre(e)nder.

Se existe dor, intriga, o mal e a morte, existe também a alegria, a paz, o amor e a vida, a (re)nascer. E costumamos preferir os primeiros aos últimos, de forma que podemos deduzir que participamos de algo incomensurável e lindo, mas que não sabemos bem o que seja.

Como nós mesmos.

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Para saber mais, indico:

Intuições fractais, da revista Piauí;

Incríveis Passatempos Matemáticos, Ian Stewart, Ed. Zahar, e

Almanaque das Curiosidades Matemáticas, idem (estes dois de novo!).

Planolândia, Edwin Abott Abott, Ed. Conrad (e este também!)

Bilhões e Bilhões, Carl Sagan, Cia de Bolso.

Pálido Ponto Azul, idem, Cia das Letras (esse é bem difícil de achar…)

O Dom Supremo, Henry Drummond (adaptação de Paulo Coelho), Ed. Rocco (este por causa da última citação, a seguir…)

Para terminar, uma citação, cuja interpretação, após lido tudo isso, poderia pender para uma tal que não se escore apenas numa determinada religião ou doutrina, mas que revele uma verdade profunda:

“Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei (o Todo), como também sou conhecido.”

                        I Coríntios 13, 12

 Somos Todos Um.


[2]                 http://www.ilusoes.com.br ; Vale a visita!

[3]                Esta analogia pode ir bastante longe: temos trilhões de células (“seres vivos”), que vivem em diversas partes do corpo (“habitats”), com muitas especialidades (“espécies”), reguladas por um mecanismo compensatório (“cadeia alimentar”)… E por aí vai.

[4]               Eucariontes; caso fossem mesmo trabalhadores como conhecemos, teriam um sindicato e discriminariam as procariontes, a não ser que conviesse uma aliança política. Aí, como resultado, talvez até fizéssemos a fotossíntese.

[5]                [ou uma mesma fita de dupla hélice…]

[6]                Esta citação é menção a um dos capítulos finais do “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José SARAMAGO, onde Jesus, em conversa com o diabo, ouve ele dizer o que acontecerá a alguns dos santos e mártires que o seguirão. Leitura forte, duma temática sensacional, que bem pode ser meu próximo tema…

[7]                Veja http://www.terrabrasil.org.br/noticias/materias/pnt_gaya.htm [O que leva a outra correlação: quando nossas células se multiplicam desordenadamente e atuam de forma desarmônica, temos um câncer, que consome tudo á sua volta, e possivelmente nos matará. E o que fazemos nós hoje, ou o que somos hoje, para nosso planeta Terra?]

[8]                  Lembra? São aquelas bonecas russas que vão se escondendo uma dentro da outra. Falei que você era uma Matrioshka Planetária, não falei?

[9]                 http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-50/obituario/intuicoes-fractais; não deixe de dar uma “googlada” em ‘“Conjunto de Mandelbrot” – Imagens’, há umas de cair o queixo!

[10]               Centenas de kg, no caso de alguns ex-jogadores de futebol fenomenais.

[11]              O exemplo mais famoso da culinária é “não é apenas se juntando farinha, manteiga, açucar, ovos e fermento que se tem um bolo”, pois é necessário um complexo processo, que envolve misturar, assar e ter uma tia para fazer tudo isso. No futebol, não é se juntando 11 jogadores que se tem necessariamente um time. Alguém, por favor, avise o técnico do meu…

[12]               Aí, literalmente, é o fim da linha.

[13]              “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!” É o mote do livro do “Eclesiastes”, da Bíblia; é uma leitura interessantíssima, curta e impressionante, que pode ser lida tranquilamente como literatura, sem fins religiosos.

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