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Rodrigo Casarin

nos rastros da utopia“Dude atuava na ala esquerda do Partido Comunista e se propôs a tirar quatro mil cópias do poema e usar alguns militantes do Partido para distribuí-las, discretamente, nas universidades, centros acadêmicos, sindicatos, organizações de classe, etc. […] O que eu jamais poderia ter imaginado é que aquela ideia luminosa do Dude e da panfletagem do meu poema ao Che, em Curitiba, em plena ditadura militar, mudariam todo o futuro da minha vida, obrigando-me a deixar o Brasil, e durante quatro anos peregrinar como um poeta errante ao longo de dezesseis países da América Latina”.

Visto em retrospectiva, era muita inocência Manoel de Andrade acreditar que um poema de grande repercussão em homenagem a Che Guevara passaria incólume pelos braços da ditadura, que procuravam sufocar com terror qualquer manifestação artística de alguma forma crítica ao regime. Contudo, vivendo na época, provavelmente essa percepção não era tão aguçada. Restou a Andrade deixar o país e perambular pelo parque de diversões dos Estados Unidos, que tomava providências para evitar que o comunismo ou o socialismo vingasse nos países latino-americanos.

Por onde passou, o poeta encontrou a solidariedade – palavra-chave da empreitada – de pessoas comuns e, principalmente, de outros ativistas de esquerda. Mais de 40 anos depois, transformou a sua forçada aventura no livro Nos rastros da utopia. Apoiou-se principalmente em cartas enviadas aos familiares durante o período, nos recortes dos jornais que guardou, num pequeno caderno de endereços, nas datas de seu antigo passaporte e em sua “extraordinária memória” para construir uma narrativa de viagem permeada por historicismo, ensaísmo político e muitas recordações afetivas.

A viagem de Andrade começa pelo próprio Brasil, quando parte rumo ao nordeste para conhecer aquela parte do país que jamais pisara e de onde traz passagens valiosas, como os encontros com vaqueiros e jangadeiros. Dá vida e complexidade a esses personagens típicos e constata realidades interessantes, como “Os nordestinos do sertão emigram para as grandes cidades da região e para o sul do país, mas os pescadores jamais deixam o litoral”. Também se mostra em campo, convivendo com essas pessoas. Animei-me, achei que esse seria o tom do livro, contudo, não é exatamente o que acontece. Ao longo da obra, a maior parte das pessoas é mais citada e rascunhada do que propriamente descrita e mostrada em movimento, com alguma representatividade mais abrangente do que a primeira impressão. Uma pena.

Pena que se estende para um outro ponto. Nos rastros da utopia é repleto de passagens e histórias excelentes, algumas até que justificariam um livro apenas para si. Para ficarmos apenas em dois exemplos, uma noite Andrade dorme dentro do parque histórico de Machu Pichu; em outra, numa cama exposta no Museu Histórico de Cusco, a mesma que Simón Bolivar teria dormido quando passou pela cidade. São momentos mágicos, sensacionais, únicos, que poderiam ter sido melhor explorados – mais detalhados, com mais sensações, emoções, divagações…

Mais derrapadas

Andrade derrapa também no cuidado com as palavras – algo ainda mais grave para um poeta -, como no seguinte trecho, : “Acostumado às grandes distâncias e a dispor de um longo tempo para tudo, seu sentido de espaço e duração é sempre relativo. Dir-se-ia que ele, tal como o jangadeiro em alto-mar, vive num tempo mágico, naquele sentido de duração do tempo que permanece, fora do tempo linear e contínuo do relógio” – as marcações são minhas. Será que era mesmo preciso repetir a palavre “tempo” quatro vezes, aparentemente sem objetivar nenhum efeito estilístico?

Outra passagem problemática: “Boa tarde, os senhores poderiam me conseguir um pouco de água? – cumprimentei-os, perguntando.” Precisava mesmo do “cumprimente-os, perguntando”, o “Boa tarde” já não evidencia o cumprimento enquanto a interrogação transforma a oração numa pergunta? – pergunto (tô brincando!). Há também excessos com detalhes que pouco agregam à história, exageros como o resumo e a resenha de uma obra literária – Huasipungo, clássico indigenista do equatoriano Jorge Icaza – e uma necessidade de se homenagear muitas pessoas – é bonita a gratidão do autor, mas não acho uma obra literária o melhor lugar para se acertar dívidas fraternas que pouco agregam à narrativa.

A mim, soa como uma falta de cuidado, mas não culpo exclusivamente Andrade. Pode até ser que isso tenha sido feito e o autor preferiu não dar ouvidos, mas o editor deveria alertá-lo dos excessos, mostrar que passagens excelentes podem passar desapercebidas numa história contada em mais de 900 páginas (muitas delas desnecessárias) e orientá-lo a transformar suas memórias e sua aventura numa narrativa sólida e coesa. Ainda caberia à editora evitar os problemas com o português, como palavras com grafia errada – em alguns casos, com erros que até mesmo o word acusaria -, pontuações equivocadas e repetição de linhas.

Em defesa dos oprimidos

Entretanto, há méritos de Andrade para se destacar.

É precioso o registro de como poetas de diversas nações se posicionavam e incomodavam os poderosos, tanto que diversos acabaram exilados (como o próprio autor), torturados ou até mesmo assassinados pelos fardados. E para mostrar como foi perseguido politicamente dentro do Brasil, Andrade não tem pudores em expor os documentos relacionados a sua pessoa. Descobre e mostra os registros que os militares faziam de seus passos – aterrorizante se deparar com um relato de todas as suas atividades –, os comunicados que os milicos trocavam entre si e que, em algum momento, citavam-no, e apresenta todo o seu processo de anistia, mostrando inclusive o quanto recebe de pensão.

Andrade também faz de Nos rastros da utopia um relato dos povos que resistiram, porém tombaram ao longo da história latino-americana após a chegada de Cristóvão Colombo, essenciais em sua caminhada. “Meus passos pela América não teriam sido tão fecundos se não tivesse encontrado os rastros libertários de Lautaro e Caupolicán, Túpac Amaru e Túpac Katari, Bartolina Sisa e Micaela Bastidas, Juana Azurduy e Manuela Sáenz, bem como, em episódios mais recentes, os exemplos memoráveis dos poetas Javier Heraud, Otto René Castillo e a luta atual e incondicional do ex-guerrilheiro Hugo Blanco em favor do indígena”, escreve.

Ao apresentar as histórias não oficiais, a história dos derrotados, não há como deixar de comparar a obra com As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Contudo, Andrade se perde nessas incursões ao passado. Em muitas oportunidades vai bastante longe, imerge no que aconteceu e esquece de si mesmo. Em nítidos rompimentos, praticamente abandona a sua história para contar uma outra. Ainda que alguns relatos sejam extremamento oportunos, como o massacre sofrido pelos mapuches no Chile (“o maior holocausto, na trágica história dos povos indígenas da América”), são construídos de modo didático demais, exaustivo.

Enfim, Nos rastros da utopia é mais uma obra que surge enquanto relembramos dos 50 anos da tomada do poder pelos militares no Brasil (do que li até aqui, destaco principalmente as de Bernardo Kuscinski, K., relançada, e Você vai voltar pra mim). É sim um relato oportuno, com um viés bastante interessante, mas repleto de poréns. Acredito que uma edição futura, melhor trabalhada, enxugada, possa fazer bem à obra.

Texto publicado originalmente no jornal literário Rascunho.

 

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Por Rodrigo Casarin

Ilustração de Janio Santos

Janio Santos

1.

Quando escrevemos, quando criamos, expurgamos o que está em nós, damos forma a sentimentos, organizamos ideias, refletimos sobre o que parecia estar escondido em algum compartimento na periferia do cérebro, dividimos com o papel – real ou virtual – o peso de nossas experiências, um pouco de nossas sombras. Às vezes, algo que começa como um íntimo desabafo se transforma num revigorante e produtivo processo.

2.

Você vai voltar pra mim é um apanhado de histórias transformadas em contos. Praticamente todos eles são de alguma forma inventadas, buscam fazer um retrato da realidade que talvez só seja possível com as nuances permitidas pela ficção. Mais do que relatos pontuais da época da ditadura no Brasil, os textos trazem o clima de medo, perseguição e até mesmo indiferença – a maioria das pessoas não estava nem aí para o que acontecia – que se instaurou no país ao longo de duas décadas que estão num passado apenas cronológico. O período está ali, bem representado, seja de maneira trágica, como em “Sobre a natureza do homem” e “Tio André” – talvez o melhor texto de todo o livro –, seja de maneira originalmente saudosista, como em “Recordações do casarão”.

Olhados na totalidade, os contos nos dão um grande panorama da vida íntima de muitos brasileiros ao longo da ditadura, de famílias que entravam em conflito porque o filho com verve revolucionária batia de frente com o pai reacionário (“Pais e filhos” e “Os gaúchos”), de “subversivos” que, por viverem em estado de permanente tensão, de medo de serem pegos pela polícia, acabavam encontrando alguma tranquilidade somente quando presos (“A mãe rezadeira”), dos podres da esquerda, tanto em forma de membros delatores (“Dodora”) quanto das artimanhas ilícitas para se levantar dinheiro (“O filósofo e o comissário”). Você vai voltar pra mim trata o assunto com a complexidade e profundidade que ele merece ser tratado, enfim.

3.

Bernardo Kuscinski entrou na USP no começo da década de 1960 para estudar Física. Quando um grupo de alunos subversivos foi expulso da FEI, estava dentre aqueles que os receberam na Universidade de São Paulo. De maneira quase que natural para um jovem estudante, pendia para a esquerda na mesma proporção que a direita se extremava. Tentou entrar para um grupo trotskista – estava de olho principalmente nas meninas que dele participavam –, mas foi recusado sob a alegação de que era muito fraco. Isso talvez tenha lhe poupado a vida.

Então, colaborava como podia. Levava bilhetes de um grupo para outro, ajudava em ações e até mesmo assaltou alguns mimeógrafos – apesar de não saber para quê foram usados. Percebeu que tinha mais jeito para comunicação e trocou a física pelo jornalismo. Trabalhando na revista Veja, participou da publicação de duas matérias de capa que denunciavam a tortura no Brasil. Fez também um dossiê sobre o assunto, com o irônico objetivo de ajudar o ditador Médici, que bradava ser contra aquela forma de violência, a extinguir a prática cada vez mais disseminada no Brasil. Se não houve censura antes da publicação, a perseguição após a veiculação das matérias foi enorme. Acreditava que colegas da imprensa ficariam ao seu lado, mas estava errado. Com medo de que algo pudesse acontecer, aproveitou que a esposa estava em Londres e se auto-exílou na Inglaterra.

Kuscinski viveu a ditadura de perto. Mais que isso, conheceu gente que mergulhou e foi engolido pelas entranhas dos órgãos de repressão. É com base nas histórias dessas pessoas que escreveu Você vai voltar pra mim.

2.

A semelhança entre K. e a obra de Kafka é evidente, a começar pelo nome do protagonista, K, que remete a Joseph K., personagem principal de O processo. K está em busca de sua filha, Ana Rosa, e de seu genro, Wilson, desaparecidos durante a ditadura. Já não tem esperanças de encontrá-los vivos, mas quer os corpos, reivindica seu direito de cumprir os ritos e o luto necessários para que a morte possa ser, se não superada, ao menos aceitada. Nessa busca, entra num espiral de mandos, desmandos, informações, contrainformações e absurdos semelhantes aos vividos por Joseph K. Além disso, em todo momento a ditadura soa como a grande força superior que inspira medo e transforma vítimas em culpados – para Kafka, esse elemento estava em casa, como podemos comprovar em sua Carta ao pai.

Mas claro que não é só isso. K também luta contra a crueldade do desaparecimento súbito e sem registros – até mesmo durante o holocausto, os soldados de Hitler ao menos anotavam os nomes das vítimas. Os capítulos alternam o foco entre K e outros personagens, como uma delatora construída com extrema complexidade, cuja participação é um dos pontos mais altos da obra. Também mostra os problemas da esquerda radical, seu totalitarismo, seus hábitos semelhantes aos praticados por aqueles que combatiam. No âmbito familiar, é uma narrativa sobre um pai que se aproxima e passa a conhecer muito mais sobre a sua filha – não só politicamente, mas também pessoalmente – apenas depois que ela desaparece.

3.

Ana Rosa Kuscinski e Wilson Silva desapareceram em 22 de abril de 1974. Militavam pela ALN (Ação Libertadora Nacional) e sumiram quando os repressores eliminavam pessoas que pudessem comprometê-los de alguma forma. A bandidagem batia continência.

Bernardo Kuscisnki estava em Londres e só soube do desaparecimento da irmã e do cunhado quando seu pai foi encontrá-lo. A princípio, acreditavam que o sumiço poderia ser temporário. Porém, com o passar dos dias, das semanas, dos meses, primeiro a angustia e depois o desolamento aumentavam na proporção inversa à esperança de acharem Ana e Wilson vivos. Investiram dinheiro, contataram gente em diversos lugares do mundo, vasculharam todas as pistas que surgiram, mas elas sempre vinham acompanhadas de algo estranho, como uma força maior que misteriosamente as alteravam e impediam que se aproximassem de alguma verdade. O espectro ditatorial parecia atuar em todas as instâncias.

A violência contra a família e contra Ana não se encerrou no desaparecimento em si. Depois disso, ela passou a ser tratada por muitos como uma mera comunista, como alguém que mereceu sofrer o que sofreu por ser subversiva. Nem mesmo na USP, onde dava aulas, recebeu um tratamento respeitoso. Após uma decisão tomada por seus colegas, foi destituída de seu cargo por abandono de emprego, como se não ir ao trabalho fosse uma opção sua, não uma consequência de seu assassinato, de um crime político. O caso ainda é uma chaga na história da universidade.

No ótimo K., Kuscinski romanceia a história da busca de seu pai por sua irmã e se aprofunda nessas questões que envolveram o pós-morte de Ana.

2.

A abordagem que Kuscinski utilizou em K., a tragédia vista sob uma perspectiva próxima, mas não grudada, a um pai que perde sua filha, o transforma em um livro esteticamente mais interessante do que Você vai voltar pra mim. Contudo, ambos são fundamentais – aliás, qualquer obra bem escrita sobre a ditadura é fundamental. Retratam um período que ainda não se esgotou, que vive nos algozes impunes que continuam por aí, nos mais variados tipos de vítimas e, o que é mais preocupante, em seus entusiastas.

Mas a relevância vai além. Todas as atrocidades representadas nas obras de alguma maneira eram justificadas por conta da vítima ser “subversiva”, algo bastante semelhante com o que temos hoje, quando alguém pode ser espancado por dez policiais em uma manifestação, afinal, se estava lá, é “baderneiro”, ou preso ao poste com um cadeado de bicicleta, já que é “bandido” mesmo. O ser humano continua sendo descartável no Brasil, só mudaram os adjetivos.

Um dos melhores trechos de K. vai ao cerne da questão, flertando com a humanização dos animais e animalização dos humanos: “Mandou comprar essa ração de trinta paus o quilo, mais cara que filé mignon; o pior foi ontem, quanto eu falei em sacrificar a cadela, levei o maior esporro, me chamou de desumano, de covarde, que quem maltrata cachorro é covarde; quase falei pra ele: e quem mata esses estudantes coitados, que têm pai e mãe, que já estão presos, e ainda esquarteja, some com os pedaços, não deixa nada, é o quê?” – haviam acabado de matar os donos da cadela que agora deveriam cuidar bem.

3.

Kuscinski acredita que no Brasil a ditadura não tem o tratamento que merece. Crê que o brasileiro, de uma maneira geral, não se envergonha de um dos períodos mais asquerosos de sua história, que encara as perseguições, torturas, mortes e sumiços como algo necessário para aquele momento. Evoca países que protagonizaram tragédias semelhantes, ainda que de proporções distintas, e tentam se retratar com o passado, como a Alemanha e a necessidade de reafirmar constante que o holocausto foi um erro gigantesco, como outros países da América do Sul, que julgaram, condenaram e prenderam ditadores e seus capangas fardados. Aqui não. Apesar da Comissão da Verdade, o esforço é pequeno, como se não quisessem incomodar os velhinhos que ainda exercem influência e, mais do que isso, são admirados por membros das Forças Armadas e de parte representativa – e poderosa, principalmente – da população.

16.

Mas essa é a visão macro, a visão do país, do povo. Há ainda a visão micro, o eu, a tragédia particular. Essas Kuscinski começa a de alguma forma superar. Depois de ser compulsoriamente aposentado pela USP, onde era professor, e de se desiludir com o jornalismo que pende cada vez mais para o lado de quem detém o poder, resolveu escrever ficção – garante que ela permite uma maior reflexão sobre a condição humana.

Enquanto conversamos sobre sua relação com o período ditatorial, sobre sua irmã, seus olhos permaneceram vermelhos como o uniforme da seleção da Polônia – país onde seu pai nasceu. Às vezes os esfregava com as mãos, com força, apertava-nos, mas nenhuma lágrima se desprendeu do seu marejado globo ocular. Sua aparência, seu sentimento, só mudou quando falamos de literatura. Sorri para dizer que descobriu a maravilha que é inventar ou recriar histórias, mas lamenta ter começado muito tarde – ele completa 77 anos em 2014. Arrisca-se em diversos gêneros, experimenta-se com o estilo de outros escritores, passeia por temas, descobre-se como autor. “Rompi com a razão racional, fui para a razão humana”.

Por que optou por começar escrevendo sobre a ditadura? Porque era o que ainda estava – está – latente dentro de si. Enxerga Você vai voltar pra mim como um livro bastante forte, mas escrito com a cabeça, enquanto diz que K. foi feito com suas entranhas. Dessa forma, com a cabeça, com as entranhas, Kuscisnki encontrou nas palavras uma forma para cuidar de seu passado.

Texto publicado originalmente na edição 98 do suplemento literário Pernambuco.

 

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Crédito: Fernanda Sucupira

Crédito: Fernanda Sucupira

Nesta altura do ano, já podemos afirmar que 2012 foi ótimo para Julián Fuks, muito por causa do sucesso – de crítica, veja bem – de seu mais recente livro, Procura do romance, um dos finalistas do importante prêmio Portugal Telecom. Além disso, no ano que finda nos próximos dias, Julián foi escolhido para integrar a Granta com os 20 melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos, outro feito considerável. Paulistano filho de pais argentinos exilados no Brasil, o entrevistado deste mês do Canto dos Livros também já escreveu Histórias de literatura e cegueira e Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu.

Canto dos livros: Comecemos pelo óbvio, qual a importância de ser um dos escolhidos para a Granta dos melhores jovens escritores brasileiros? Isso já teve algum tipo de impacto real na sua carreira?

Julián Fuks: É evidente que foi um lançamento de grande impacto, recebido com ânimos exacerbados, provocando suas polêmicas justificáveis. Mesmo que a literatura não tenha sido o foco de boa parte das discussões, essa repercussão toda deixou claro que não se trata de uma atividade anódina, indiferente, relegada ao interesse de tão poucos. Há vitalidade na literatura brasileira, ao menos no que diz respeito ao funcionamento do mercado – o que, convenhamos, não é grande coisa. Pessoalmente, acho que acabou servindo para me apresentar a um público mais amplo, fazendo circular meu nome. Não chega a ser um fenômeno muito mensurável, mas veio num momento bom da minha vida, somando-se a outras ocorrências agradáveis.

CL: Continuando a falar da Granta, nela, além de muitos contos ambientados totalmente ou parcialmente fora do Brasil, dentre os autores escolhidos temos o Chico Mattoso, que nasceu na França, o Javier Contreras, que nasceu em Salvador mas é de família chilena – os pais vieram para o Brasil fugindo da ditadura –, a Carola Saavedra, que é chilena, o Miguel de Castillo, que é filho de um uruguaio, e você, que, como já dissemos, é filho de pais argentinos exilados no Brasil. O que podemos perceber com isso? Demonstra que a literatura brasileira está, culturalmente, cada vez mais diversa?

JF: A diversidade da literatura brasileira é um fato inquestionável; não poderia ser diferente dada a diversidade do próprio país. Mas não tenho certeza de que a Granta revelou isso: pelo contrário, parece predominar na seleção certa uniformidade de propostas, e talvez de fato haja nisso algo de triste. Mas você pergunta sobre a profusão de semi-hispânicos, e isso eu só posso responder apelando à minha própria experiência. Estou certo de que o exílio de meus pais, exílio que herdei deles e que se expressou sobretudo como um constante estranhamento idiomático, teve sua importância para que eu me tornasse escritor. Há algo de estimulante nesse expatriamento linguístico, e talvez isso explique em alguma medida a existência de outros escritores com biografias parecidas.

CL: De certa forma continuando a aproveitar o assunto Granta, o que acha do atual momento da literatura brasileira? Quais nomes e obras você destaca?

JF: Como disse, a vitalidade que hoje se vê parece muito mais editorial e mercadológica do que propriamente literária. Mas é claro que dessa pujança um tanto problemática acaba por se depreender também a qualidade, até como forma de resistência aos ditames do mercado. Há várias respostas possíveis e interessantes ao problema que aí se coloca. Gosto do rigor do Nuno Ramos, por exemplo, dos jogos lógicos do Alberto Mussa, da ousadia do Reinaldo Moraes, da novidade do Ricardo Lísias. Entre os menos conhecidos, aprecio muito o romance que o Tiago Novaes acaba de lançar, Documentário, que leva o fenômeno tão difundido da autoficção a limites inesperados. E poderia, é claro, estender essa lista por mais umas quantas frases. 

CL: Quais autores e obras lhe inspiram?

JF: Pergunta difícil, pois de nada valeria estender aqui uma lista de nomes notáveis. Os que me inspiram são os que propõem a literatura como uma forma de crítica, no sentido mais amplo e agudo da palavra. Crítica de um mundo desigual e injusto, um mundo que desfila tranquilamente suas confortáveis atrocidades. Mas também crítica do próprio pensamento e da própria linguagem, que se fazem instrumentos inócuos a serviço desse mesmo estado de coisas. 

CL: Em qual momento de sua vida se deu conta de que seria escritor? Seus primeiros textos – que considera dignos de nota – foram produzidos sob quais circunstâncias?

JF: Me concebi como escritor muito antes de escrever qualquer coisa que prestasse. Escrever parece exigir esse esforço de autoafirmação, esse compromisso com as palavras e com as páginas. Só muito depois de me decidir a isso, e já com a sensação de que me demorava, de que falhava, foi que escrevi meus primeiros contos – os que publiquei em meu primeiro livro. Há neles um pouco dessa desconfiança em relação ao próprio fazer literário, desconfiança que marca meu trabalho até hoje. Há neles certa noção de um fracasso inevitável. 

CL: Saramago, autor tardio, teria dito que, se pudesse aconselhar a alguém que pretendesse ser escritor, diria-lhe para ler por trinta anos, depois por mais trinta, para aí então escrever. Sob esta ótica, do alto de seus 31 anos, você seria um tanto precoce (rs). Você já enfrentou dúvidas se você ou seus textos estariam suficientemente maduros? Como olha para seus textos mais antigos? O que pensa deles?

JF: Não serei eu, decerto, o mais indicado para avaliar a maturidade dos meus textos. Sinto que todo escritor sofre de uma hipermetropia: pode enxergar bem a obra dos outros, à distância, mas a sua própria sempre aparece aos seus olhos imprecisa e turva. Com meus textos mais antigos tenho sérios problemas, não consigo lê-los sem uma crítica ferrenha, sem sofrer pela infeliz comparação entre o que fiz e o que poderia ter feito. Já com os textos que vou escrevendo, o entusiasmo e o envolvimento suspendem – nos dias bons – essas leituras mais corrosivas. 

CL: Até pelas suas origens, você demonstra um grande interesse pela Argentina e, por extensão, pela literatura argentina. É cada vez mais comum que as pessoas comparem a arte argentina com a brasileira. O que acha dessa comparação?

JF: Análises comparativas podem ser proveitosas, podem ressaltar aspectos despercebidos de cada produção artística. Desde que não se pautem em clichês e visões canhestras de cada cultura, desde que não se apeguem demais a ideias pré-concebidas, para que a comparação não se perca na platitude das rivalidades estúpidas.

CL: Ainda com relação à comparação entre a arte argentina e a brasileira, qual paralelo podemos traçar entre a literatura de cada um destes países? Na sua opinião, quais os pontos mais fortes de cada uma e quais as principais diferenças?

JF: Apesar da proximidade, são posições muito diferentes, perspectivas distintas, tradições quase divergentes em alguns aspectos. Há na literatura brasileira um histórico de engajamento político e de atenção ao social que pouco se vê na literatura argentina, mais marcada por uma produção intelectual e autorreflexiva. Claro que estou falando de predominâncias, que os autores não se resumem a isso e que tampouco as culturas se encerram nessa aparente dicotomia. Os escritores mais interessantes foram justamente os que transgrediram esses limites. 

CL: Em novembro você iria apresentar uma palestra sobre Jorge Luis Borges, mas ela foi cancelada porque a prefeitura cortou parte da verba destinada ao Centro Cultural São Paulo. Qual seria o conteúdo desta palestra? Qual faceta do escritor argentino e de sua obra que você iria abordar?

JF: A proposta era confrontar a poesia de Borges com seus próprios princípios, comentar seus poemas à luz de seus ensaios sobre poética. Havia algo de performático em Borges, na retórica de suas posições teóricas, em suas conferências finais sobre literatura. É interessante ver como ele transgride suas próprias propostas em benefício da própria obra, de sua expressividade. Nesse contraste veem-se romper os dogmatismos, as certezas indesejáveis.

CL: Procura do romance foi finalista do prêmio Portugal Telecom, um dos mais importantes que temos para literatura, e, de uma maneira geral, muito bem aceito pela crítica – até o Rodrigo Gurgel, o polêmico jurado C do Jabuti, disse o livro poderia render a você, com louvor, o troféu em forma de tartaruga. Como você vê essa recepção ao seu trabalho?

JF: Fico contente com as deferências e os elogios, óbvio, mas também vou aprendendo aos poucos que não devo levá-los muito a sério, que a literatura fica aquém e além desses processos. Esse foi para mim um ano agitado, cheio de acontecimentos. Escrever, nesse contexto, se tornou quase uma impossibilidade, e o que quero agora é recuperar as condições físicas e mentais necessárias para produzir algo que o valha. 

CL: Seguindo a pergunta acima, você leu os outros concorrentes ao Prêmio Portugal Telecom (K, de Bernardo Kucinski, Diário da queda, de Michel Laub, e A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, que foi o vencedor)? O que achou do resultado?

JF: Li os livros, e gostei de cada um deles por razões diversas. O resultado me pareceu justo, sim. Valter Hugo Mãe tem uma produção consistente, um domínio invejável de seus próprios recursos que faz dele um escritor prolífico e cuidadoso a um só tempo. E particularmente acertada me pareceu a menção honrosa a Kucinski. O livro dele é de uma importância imensurável, pela história verídica que encerra ou gostaria de encerrar, pelo alcance político e histórico do que se narra. 

CL: Pelo pouco que sabemos da sua biografia, muito de sua vida pessoal parece fazer parte de suas obras. Até que ponto – ou com qual intensidade – você faz o que vem sendo chamado de autoficção, ou seja, cria uma obra romanceando a sua própria vida, sua própria história?

JF: É difícil ter certeza se a autoficção é de fato um fenômeno novo, ou se assim se apresenta algo que já era feito por escritores inúmeros de todos os tempos. Em Procura do romance há muito da minha trajetória pessoal, sim, há muito das minhas indagações e preocupações reais, é em parte a minha vida que se destrincha ali. Mas não sei se seria muito diferente se eu me ocupasse de criar lapsos maiores entre mim e meu personagem, se eu exacerbasse o lado ficcional da narrativa e me disfarçasse o máximo que conseguisse. Retorno, sem querer retornar, à velha concepção de que o escritor só escreve sobre si, concepção questionável que precisa ser matizada, mas que tem o seu momento de verdade. 

CL: Há aqueles que dizem que a literatura de hoje seria mais descartável, menos densa, tanto pela “aceleração moderna” quanto pela profusão de obras, que soterraria o que poderia se destacar. Por outro lado, há os que entendem que ambos fatores seriam positivos, justamente por segmentarem mais a produção literária e incentivarem sua produção e consumo. Você concorda com algum destes vieses?

JF: Acho que, se há algo de destacável na literatura atual, é o abandono de certo rigor de preceitos que marcava as melhores narrativas ao longo do século XX, em prol de um desejo de soberania, de um anseio por voltar a contar histórias como antes se fazia. A literatura, que tanto parecia ter de se haver com seus próprios impasses e dilemas, agora quer se esquecer deles e se devolver ao mundo, tomada talvez por uma nostalgia de tempos mais profícuos. Resta saber se os tantos retornos que se criam não se dão na forma de um abandono crítico. Algo que lamentavelmente viria a lhe subtrair o peso, o impacto, o alcance possível. 

CL: O que você tem lido atualmente?

JF: Justamente, preocupado com essas questões e com a possibilidade de renovação e radicalismo no romance contemporâneo, resolvi escrever um artigo a respeito. Para isso me pus a ler as obras fatídicas daquele que talvez seja o último dos radicais, ou o último dos modernos: Samuel Beckett. Voltei à trilogia do pós-guerra, Molloy, Malone morre e O inominável, e quero ver como vou sair dali. Se conseguir sair.

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