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Por Fred Linardi

Cansado de conviver em sociedade, o médico-cirurgião Lemuel Gulliver resolve navegar em busca de novas aventuras. Logo na primeira rota da viagem, seu navio naufraga e o tripulante é levado pelo mar até uma praia onde, após dormir, acorda amarrado dos pés aos cabelos, rodeado pelos pequenos e curiosos habitantes locais. Isso é apenas o começo, pois além deste que é mais o conhecido país visitado pelo intrépido navegante, o leitor o acompanhará por mais três povoados, cada um com suas particularidades, numa das obras que se tornou essencial entre os livros da literatura infanto-juvenil.

Antes de seguir adiante, é bom corrigir este que é um dos maiores equívocos sobre esta narrativa escrita pelo irlandês Jonathan Swift que, numa de suas típicas manifestações de rabugice, dizia não suportar as crianças. Quando publicou o livro, em 1726, sob o título original Viagens em diversos países remotos do mundo em quatro partes, por Lemuel Gulliver, a princípio cirurgião e, depois, capitão de vários navios, Swift pretendia escrever algo que, com colocações indiretas e diretas, agredisse da maneira mais profunda a natureza mesquinha do homem.

O livro é, na verdade, uma crítica tão contundente a diversos pensamentos humanos que até hoje tem sua validade, abordando o modo de organização de países, religiões, profissões e grupos sociais. Por seu tom fabulesco e deliciosa prosa, acaba por ser uma leitura agradável tanto para adultos quanto para crianças, o que lhe rendeu sucesso desde a primeira publicação. Com o passar do tempo, associou-se à leitura juvenil, mas continua apreciado como um registro histórico e de perspicaz lucidez.

De homens e cavalos

Como é o próprio Gulliver que escreve suas andanças pelo mundo, As viagens de Gulliver é cheio de impressões sobre suas visitas pelos países. O primeiro país que visita é Lilipute, o que se tornou mais conhecido de todos, com seus habitantes ferozes, divididos em dois partidos opostos e resolvendo problemas por meio de disputas. Logo depois, o viajante segue rumo à terra de Brobdingnag, onde se vê na situação inversa, numa terra de gigantes doze vezes maiores que ele, vivendo aparentemente em paz e governados por um rei e uma rainha contrários à violência. O terceiro ponto de parada é a ilha flutuante de Laputa, onde muito se pensa e nada se realiza. Por fim, sua última viagem o leva até o país dos Houyhnhnms, de cavalos inteligentes que convivem com os rudes e grosseiros Yahoos, na terra mais exemplar encontrada por Gulliver. Entre esses países, ele passa por outros como Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib e o próprio Japão, explicando aos habitantes e líderes locais sobre como as coisas funcionam na Europa e discutindo sobre diversos temas.

A forma de contar todo este enredo, cuja veracidade é sempre destacada pelo narrador, acaba por ser uma paródia ao estilo literário em moda na Europa naquela época: a narrativa de viagem. O escritor inglês Daniel Defoe publicara sete anos antes as Aventuras de Robinson Crusué, com grande aceitação entre diversos setores sociais. “A popularidade deste tipo de narrativa é de uma Inglaterra que ainda vive um processo de expansão marítima, com novas terras sempre sendo descobertas. E há também um apelo pelo próprio exotismo e diferença entre a sociedade britânica e os povos descobertos”, diz Sandra Vasconcelos, professora de literatura da Universidade de São Paulo. “Ele usa este aparato ficcional, que tinha grande popularidade na época, para atingir outro objetivo: o da sátira, que também tinha forte presença na literatura inglesa. As Viagens de Gulliver não é uma exceção em sua obra, que é repleta de ensaios satíricos”, explica. A própria obra de Swift rebate o otimismo que rege a de Defoe, sugerindo pouca esperança às habilidades humanas.

Punhos afiados

“Matem todas as crianças da Irlanda”, sugeriu Swift no clássico texto de 1729 Uma Modesta Proposta – para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus progenitores ou para o país, e para torná-los proveitosos ao interesse público. Foi impulsionado, mais uma vez, pelo inconformismo em relação à burrice do homem dito civilizado, principalmente com a política inglesa, responsável pela colonização que deixara irlandeses agora colhendo as consequências da miséria, falta de comida e trabalho, imigrando aos Estados Unidos.

O escritor expôs suas ideias à sua maneira. Segundo o texto, as crianças, ao invés de virarem ladrões por falta de trabalho, ou abandonarem seu país natal para lutar pelo pretendente ao trono britânico, James Stuart, deveriam ser mantidas pelos ingleses sob amamentação durante seu primeiro ano, até que engordassem e fossem servidas como aperitivos e jantares. É claro que haveria uma organização em torno disso, considerando inclusive a conservação de 20 mil delas para a procriação no futuro. O escritor e ensaísta francês, André Breton, ao escrever sobre Swift, já no século 20, o considera o precursor do humor negro, elogiando sua perspicácia ao tratar sobre política e as mazelas sociais. De fato, a Grã-Bretanha era um terreno fértil para críticas, além de sua já tradicional cultura literária voltada a textos que provocam peculiares tipos de risos, mesmo que não tão agradáveis.

O próprio Swift nascera em Dublin, na Irlanda, em 1667, filho de uma inglesa radicada no país. Devido aos problemas econômicos, sua mãe, Abigail Erick, irmã de um vigário ainda residente na Inglaterra, envia Swift já adolescente para Londres e, graças às boas relações com um diplomata que já trabalhara no parlamento irlandês, Sir Willian Temple, Swift consegue emprego como seu secretário na Inglaterra, enquanto se doutorava em teologia pela Universidade de Oxford. Depois de concluir os estudos, torna-se cônego em Killrooth, encaminhado também pelo próprio Temple (que diziam ser seu verdadeiro pai).

Desde 1685, a política inglesa estava dividida entre dois grandes partidos: o partido dos whigs que defendiam ideias liberais, porém contrários à ascensão de um rei católico; e o partido dos tories, conservadores e defensores da monarquia protestante. Neste ano, o católico James II é coroado. Sob forte pressão, no entanto, é destronado no mesmo ano pela filha protestante e pelo genro Guilherme III, que passa a governar. Essa batalha de poderes rende divisão também entre intelectuais conservadores, como o próprio Willian Temple, e autores modernizadores. Swift tomava cuidado até a medida do possível. Quando lançou As viagens de Gulliver, por exemplo, não assinou a obra, cuja autoria é simplesmente do viajante fictício, evitando sofrer possíveis processos.  Mas Swift se dizia contra tudo relacionado à política. Era a favor da verdade e contra qualquer forma de organização humana.

Rato na toca

Devido aos textos irônicos, ele acaba pagando um preço. Em 1713, quando a Inglaterra é governada pela Rainha Ana, do partido dos tories, Swift perde um importante cargo: ao invés de conseguir a Sé de Hereford, na Inglaterra, é nomeado como deão da Catedral de São Patrício, em Dublin. Ofende-se com a nomeação, mas crê que o melhor a fazer é retornar à Irlanda, onde se diz sentir-se como um rato entocado. No ano seguinte, os whigs voltariam ao poder, mas Swift já é uma forte voz pela causa irlandesa.

De qualquer maneira, e por mais que tivesse sua própria visão política, que parece tender ao lado mais conservador do conhecimento científico e social, Swift era apartidário. Ao invés de levantar bandeiras contra um partido ou outro, ele escreveu a sua maior obra, sobre homens de terras diferentes, comparando suas atitudes com a curiosa sociedade europeia e a política inglesa. Gulliver conversa e aprende sobre as sociedades que visita, mas na melhor delas, ele mesmo acaba sendo recusado, pois tem uma aparência que lembra a casta irracional da sociedade. Gulliver deixa os mares e retorna à sua vida reclusa.

Os últimos anos de Swift também foram destinados à reclusão. Na Irlanda, continuou escrevendo textos cheios de sátiras e ironias, entre eles Sobre a vassoura, em que compara o homem ao utensílio de faxina. Cada vez mais se convencia de que a estupidez humana era a grande culpada por todos os males sociais. Por conta disso, chegou a desejar a loucura, que o faria se esquecer da idiotice dos homens. Em 1736, ironicamente, adoece e é diagnosticado como louco. Internado num asilo, para o qual doaria quase toda sua herança, serviu de atração para curiosos – devido à sua doença e não à sua obra. Foi sua última viagem.

Texto originalmente publicado na revista Aventuras na História.

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