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Posts Tagged ‘literatura portuguesa’

Por Alberto Nannini 

baltazar-serapiãoDe vez em quando, algum autor vira o “queridinho” da mídia. Considerando que o mercado de Literatura é tão ávido por lucro quanto qualquer outro, nem sempre estes tais queridinhos mostram a que vieram.

O português valter hugo mãe, (que quando lançou o livro do qual falaremos grafava seu nome com iniciais minúsculas), parecia ser um destes casos. Badalado, surpresa da Flip de 2011, teve divulgação maciça pela nossa mídia (às vezes, um tanto “baba-ovo” de estrangeiros), e seus livros ocupavam lugar de destaque nas livrarias.

Isto posto, confesso que caí no erro clássico do senso-comum: criticar sem conhecer. Algo que felizmente começou a ser solucionado com a leitura de o remorso de baltazar serapião, da Editora 34.

Após este poderoso livro, comecei a prestar mais atenção em Valter Hugo Mãe (aliás, impossível não lhe ter simpatia vendo o vídeo que está no final do texto). Hoje, ele prefere a grafia em maiúsculas, para não ficar marcado apenas por esta característica. A verdade é que, após começar a conhecer sua obra, é possível assegurar que não há a menor chance de que ele seja lembrado apenas por isso.

Tragédia portuguesa

O livro conta a história de Baltazar Serapião e sua família. Apelidados de “sargas”, são assim chamados por causa da vaca de estimação deles, chamada Sarga, que é dócil como um cão. São cinco: Baltazar, mãe, pai, o irmão mais novo, Aldegundes, e a irmã caçula, Brunilde. Vivem nas terras de D. Afonso, espécie de senhor feudal, casado com D. Catarina.

Completam o elenco central da tragédia Ermesinda, a mulher de Baltazar; Tereza Diaba, uma pária abusada por todos os homens, e a Mulher queimada.

O primeiro parágrafo dá o tom da história, e vai pautar as posições que ocuparão os personagens: “a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só o diabo e gente a arder tinham destino. A voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo do mugido e atitude de nossa vaca, a sarga, como lhe chamávamos”.

Narrado por Baltazar, sujeito absolutamente limitado, a história tem o alcance e a perspectiva da sua estreiteza de raciocínios e de sua brutalidade. Os contrapontos, sempre dados pelas personagens femininas, são apenas vozes com que ele dialoga, e às quais responde, se não com seus patéticos argumentos e preconceitos, diretamente com a violência.

Estigmatizados como bichos, ridicularizados a ponto de serem reconhecidos pelo nome da vaca, os sargas se acomodam conforme a relação de poder desigual, totalmente submissos a D. Afonso. Brunilde, tão logo menstrua, se muda para casa dele, a lhe servir aos caprichos. A mãe é parcialmente aleijada – teve o pé retorcido por um ataque do pai, a lhe “corrigir”. Aldegundes é sensível, mas tem fixação pela vaca sarga. E Baltazar, que como todos os homens da trama, se alivia em Tereza Diaba, é da mesma laia.

A azarada Ermesinda, descrita como delicada e lindíssima, é pedida por Baltazar em casamento a seus pais, que concordam. Vai morar com Baltazar, no conjugado onde antes abrigavam a sarga. A beleza da moça não passa despercebida de D. Afonso, que manda que ela vá à sua casa todas as manhãs.

E, em algum momento, o povo ignorante das cercanias castiga uma velha acusada de bruxaria, ateando-lhe fogo, mas esta sobrevive, totalmente desfigurada.

Estas vidas miseráveis estão entrelaçadas pela desgraça, pelas superstições, pela obtusidade absoluta, que parte de conclusões só possíveis a homens ignorantes, inseguros e irremediavelmente tolos, para gerar dor, violência e morte.

Fusão de estilos

A primeira referência que vem à cabeça é Saramago. O falecido autor, ao ler o romance, disse: “às vezes tive a impressão de assistir a um novo parto da língua portuguesa”. O estilo, inspirado na oralidade, com acentuação particular, lembra muito o do premiado escritor. Até se “pegar o jeito”, trava um pouco a leitura, mas é uma inovação bem vinda e consistente, que mantém o padrão durante todo o romance.

Mas a história, algumas situações e o próprio ambiente lembraram bastante José Lins do Rêgo e seu Fogo Morto, também. Seu personagem Mestre José Amaro com sua brutalidade, a espancar a filha histérica e a maltratar a mulher, está bastante presente. A desgraça de Ermesinda, seu martírio pela suposta infidelidade, e o sofrimento do feminino em geral no romance, remete levemente à saga de Capitu e Bentinho, no clássico Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Isso mostra a quantas ia o meu erro de pré-julgamento de Valter Hugo Mãe: após ler apenas uma obra sua, e ainda que rasamente, o comparo a três dos maiores escritores da língua portuguesa em todos os tempos, verdadeiras unanimidades.

Então, imagino que um livro que aliasse a linguagem de Saramago, a ambientação e a criação de personagens de José Lins do Rêgo e a inventividade de Machado de Assis, resultaria em algo muito semelhante ao remorso de baltazar serapião.

Tal é a qualidade da obra que esta parece deslocada no tempo. Poderia figurar ao lado dos clássicos, e lhes guarda muitas semelhanças. Se fosse sugerida pelos professores de literatura, traria um material formidável para discussão, que poderia se apoiar, principalmente, na opressão ao feminino.

Barbaridades entranhadas e recorrentes

A opressão ao feminino está de tal modo entranhada nos nossos hábitos, que costuma acontecer o que há de mais hediondo: muitas vezes, ela passa despercebida.

Coincidentemente, o Canto dos Livros levantou esta discussão, nos artigos Não, esse cara não é você e Uma medida de amor e ácidos, e não há um único dia em que notícias sobre as consequências desta opressão não sejam divulgadas: assassinatos, estupros, violência, desrespeito, preconceito, e muito mais, sendo certo que apenas uma minúscula fração daquilo que acontece chega a ser divulgado.

Por este viés, o livro traz um questionamento atual e importantíssimo, não obstante sua ambientação remeta a tempos passados. A constatação da opressão massiva ao feminino permeia a obra inteira, marca e desfigura suas personagens femininas, e tem como contraponto a obtusidade, a brutalidade e a imposição da força do masculino.

Porém, mais que um discurso panfletário, a obra tem um brilho próprio, e poderia ser discutida por vários vieses, que passam pela crítica aos costumes – de quão atrasados alguns deles são, perdurando até os dias de hoje, e do quanto a carência de uma boa educação afeta a vida das pessoas, ou mesmo pelo questionamento à romantização da vida rural, no livro tratada como precária e sofrida.

Além disso, é triste, mas inevitável constatar, que há milhões de Ermesindas por aí, espancadas, dilaceradas e violentadas, e outro tanto de Terezas Diabas, vilipendiadas, abusadas, desrespeitadas, e ainda outro tanto de Mulheres Queimadas, desfiguradas, marcadas e discriminadas, pela ignorância essencialmente masculina que domina nosso mundo.

De qualquer forma, os vieses tem em comum serem todos bárbaros, entranhados na nossa cultura e tristemente atuais, apesar de a vida rural ser hoje apenas uma reminiscência do que já foi.

Mérito literário

Seja para detectar um destes ou outros vieses de interpretação, seja apenas para ler uma boa história, o livro tem o mérito de ser autossuficiente, e prescindir de malabarismos para justificá-lo: como toda obra de excelência, se justifica por si só, tem força o bastante para permanecer na memória de quem o ler, e tende a fazer refletir.

Além do mérito da história, há os personagens – reais, densos, quase palpáveis, a ponto de a empatia pelo sofrimento das mulheres da trama nos afetar de verdade. Como já dito, elas existem, e são milhões.

Já a burrice, estupidez e brutalidade dos homens também existem, infelizmente, e o retrato deles é mais que verossímil, é atual e alarmante. E, obviamente, não incorre apenas nos meios rurais, ao contrário, atitudes como as deles são rotineiras, nos campos e nas cidades de todo o mundo.

Um livro que trata de uma história definida, que não demonstra pretensão de ser um retrato ou uma crítica formal, mas sim um “recorte” de um tempo indeterminado, com personagens reais e notórios, cuja escrita nos deixa entrever suas motivações, espíritos, ambições e limitações – essa pode não ser a descrição mais elaborada, mas a conclusão é uma: se trata de um clássico.

E minha aposta é que remorso de baltazar serapião já é um, e o tempo lhe fará (ou já faz) a devida justiça, quiçá até deverá figurar em breve como leitura indicada nas escolas, vestibulares e afins.

Se quiser uma leitura densa, atual, chocante e instigadora, o livro é este. Leia, descubra qual é o remorso que atinge o personagem/narrador, e se surpreenda.

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O escritor Valter Hugo Mãe, tido como um dos maiores nomes da literatura portuguesa nos últimos anos, estará em um bate-papo sobre o lançamento de O filho de mil homens, que acaba de ser lançado no Brasil pela Cosac Naify  (junto com o nosso reino, pela Editora 34). A conversa será mediada por Daniel Benevides e acontecerá na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho (nº915), em São Paulo, a partir das 19h30.

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