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Posts Tagged ‘livros’

Por João Dutra

Houve um tempo em que o carteiro era visto como um personagem de destaque em nosso dia-a-dia. Uma profissão cercada de idealização e romantismo. Era também uma espécie de médico, cuja especialidade era tirar as pessoas do tédio e curar a ansiedade, a expectativa.

Isso porque ele era o portador de uma relíquia chamada carta, escrita por alguém, à mão ou com ajuda de uma tecnologia, como a máquina de escrever. Livros foram escritos com base em cartas enviadas entre personalidades.

Um desses livros, chamado Cartas a um Jovem Poeta, é inspiração para aqueles que pretendem aprender poesia. Seu autor, o poeta Rainer Maria Rilke, nascido em Praga, escreve ao jovem aprendiz Franz Xaver Kappus, sobre quais caminhos seguir nessa empreitada.

Cartas a um Jovem poeta não é reconhecido como uma obra valiosa apenas por seu valor didático, mas também pela capacidade de Rilke em conversar com seu interlocutor – e nós, leitores – de maneira envolvente.

Hoje, o carteiro perdeu seu brilho entre as contas de telefone e extratos bancários. Vivemos em uma época em que a correspondência é enviada por SMS, e-mail, pelas redes sociais. No meio desta correria, falta tempo para se dedicar a algo tão artesanal como as cartas.

Nesse cenário, diminui a probabilidade de um livro construído por meio das mensagens em papel e caneta. Resta, em um misto de curiosidade e esperança, saber se um dia alguém publicará algo de valor com base na comunicação digital.

No passado, os Beatles tornaram famosa uma versão de “Please Mr. Postman”, que homenageava a então profissão heroica do carteiro. Quem sabe o futuro nos guarde um novo objeto para uma composição desse tipo. Quem sabe alguém escreva algo como Tuítes a um Jovem Poeta. Quem sabe componham “Please Mr. Facebook”.

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Por Rodrigo Casarin

“Ah, eu não leio porque o livro é muito caro”

Em conversas sobre livros e literatura é comum ouvir leitores se queixando do preço do livro. Normal, sempre queremos preços mais baixos para o que consumimos. Contudo, é um tanto comum também ouvir pessoas vomitando a frase acima. Você não lê por causa do preço dos livros, amigão? Então vamos lá.

Esta imagem que você acabou de ver circulou pelo Facebook há algum tempo servindo como um confortável álibi para quem não lê. Mas ela não se sustenta. É sim possível aqui no Brasil comprar livros – excelentes, diga-se de passagem – por cerca de 5 reais cada exemplar, basta procurar em sebos, por exemplo. No final do ano passado, adquiri Pais e filhos, de Turgueniev, Complexo de Portnoy, de Philip Roth, e Morte em Veneza e Tonio Kröger, de Thomas Mann, por menos de 15 reais. Comprei pelo excelente Estante Virtual, site que reúne sebos de todo o Brasil – que, por sua vez, despacham as encomendas para qualquer canto do país.

Não gosta de livros de sebo? Acha que a Literatura só presta quando está em papéis frescos? Quer comprar uma obra/ edição que acabou de ser lançada? Pois bem, então você vai pagar mais caro mesmo. Até uns 60 reais, quem sabe. É caro? É sim. Mas quanto você gasta por mês comprando roupas, em jantares, baladas, cerveja, churrascos, shows… Por que é normal pagar 100 reais numa calça jeans, mas não 50 reais em um livro, uma obra de arte?

Contudo, ainda assim, se você quer comprar livros novos, há sim boas opções por aí. Coleções de pockets costumam trazer ótimos títulos por menos de 20 reais. A L&PM, talvez a principal editora deste segmento, lançou recentemente uma série com obras a 5 reais – sim, menos do que uma cerveja vagabunda no bar.

Para quem mora em São Paulo, também é possível encontrar clássicos sendo vendidos no metrô, naquelas máquinas que você deposita a grana e leva o produto. Algumas apontam um preço para casa livro, outras cobram 5 reais por qualquer um e algumas, veja só, deixam que você pague o quanto achar que o produto vale. É sério! Veja:

Não quer livro de bolso nem de metrô? Exigente para quem dizia que não lê apenas porque o livro é caro, hein. Mas fique calmo, há saídas. Freqüentemente sites como o Submarino, Saraiva e Fnac fazem grandes promoções, com obras que chegam a custar até 70% menos de seu valor original. Há ainda eventos em diversas cidades nos quais as editoras realizam vendas diretas para os consumidores, o que garante um abatimento de ao menos 50% do valor de capa do exemplar. Procure estar bem informado, com certeza você vai achar oportunidades para comprar livros a preços bem mais em conta.

“Cara, na boa, eu realmente não tenho grana. Troco de celular todo mês, sempre compro o notbook do ano, o seguro do meu carro tunado é caro, as baladas que freqüento cobram mais de 70 reais só para eu colocar a bunda do lado de dentro do lugar, uísque 12 anos me dá dor de cabeça, então só bebo de 15 pra cima, toda semana eu vou pra Maresias… Realmente, não sobra 20 reais para ficar comprando um livro por mês, muito caro!”.

Nossa, você tem razão! Agora te compreendo perfeitamente! Mas e as bibliotecas? Já foi em alguma? Não paga nada para ler ou emprestar o livro e costumam ter um ótimo acervo. Talvez na sua própria escola ou faculdade haja uma com boa gama de títulos. Na sua cidade não há bibliotecas? Sim, infelizmente isso é recorrente e precisa ser mudado. Contudo, dê uma olhada aqui. Viu? Uma porrada de obras para baixar, tudo gratuito! E se pesquisar acha muito mais pela Internet, pode ter certeza.

Não gostou de nenhuma das opções acima? Continua sem ler por causa do preço do livro? Faz igual ao mendigão. Provavelmente ele tem menos grana do que você, todavia, veja só, ele está lendo!

É, amigo, acho que a desculpa de que você não lê por causa do preço dos livros não vai colar mais, né!? Mas não se preocupe, dê uma olhada no gráfico e nas informações abaixo:

Viu? Diga que você não lê porque a leitura não é tradição no Brasil, que na sua casa ninguém lê ou que você não foi formado como leitor. Esses são problemas muito sérios em nosso país, de verdade, e você pode usá-los tranqüilamente como desculpas. Agora, não me venha com a balela do preço. Aliás, não conte mais essa ladainha para ninguém, ela não se sustenta e a chance de você ser visto como um idiota é bastante grande.

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Por Rodrigo Casarin

Está aí o verão. Principalmente nesta época do ano, é difícil passarmos um dia sem ver na tevê, escutar no rádio ou ler em alguma revista ou site alguém falando sobre como cuidar do corpo. A ordem é clara: todos precisam estar em forma. Ser saudável não basta, é preciso ser sarado. É preciso que seu corpo esteja de acordo com os padrões de beleza atuais, nada de se achar bonito apenas por seguir critérios renascentistas. Ter uma barriga passa a quase ser um crime. Se ainda o barrigudo for flagrado se deliciando com uma bela porção de calabresa acebolada e um tonel de cerveja, aí o julgamento e a acusação são inevitáveis: precisa se cuidar mais.

E ta lá no programa das 13h20: tome suco de clorofila com jaca para diminuir a barriga; na revista semanal: corra 150km por dia e coma apenas mato para atingir o corpo perfeito; na Internet: plante a própria melancia e conquiste o corpo da mulher fruta da estação… É um policiamento constante, uma lavagem cerebral permanente.

Claro que ter um corpo saudável é importante, contudo, não é isso que pregam, não se enganem. Basta ver a quantidade de pessoas que tomam diversos tipos de substâncias maléficas ao ser humano apenas para atingir os formatos que nos empurram goela abaixo como sendo os ideais. Agora, se fingem querer que todos tenham uma saúde impecável, por que não desejam o mesmo para o cérebro?

Que interessante seria se assistíssemos na televisão, ouvíssemos nas rádios e lêssemos em qualquer canto sistematicamente coisas do tipo: “Você precisa ler mais, é importante para o seu cérebro”, “Não dê opiniões sem fundamentações básicas, estude o assunto antes de meter o bedelho”, “Ache o que quiser, mas saiba embasar os seus achismos”. Poderiam criar programas, que passariam no horário nobre, com dicas de leituras e debates sobre obras consagradas. Com o tempo, as pessoas se acostumariam com nomes como Tolstoi, Philip Roth, Gabriel Gárcia Márquez, Cristovão Tezza ou Jorge Luis Borges. Ficariam íntimas de Ryszard Kapuscinski e Charles Bukowski. Não estranhariam aquele gordo que continua comendo feito um porco, mas qualquer um que não saiba o mínimo sobre Dostoievski.

Obviamente outros programas abordariam outras manifestações artísticas. Os filmes enlatados dos Estados Unidos dariam lugar a verdadeiras obras de arte. Menos Spielberg, mais Ricardo Darín, Almodóvar e Lars Von Trier. Em seguida, discussões sobre as obras e como elas se encaixaram no contexto da época em que foram filmadas. Outras formas de se expressar também teriam seu lugar, tudo para que o cérebro de cada um seja realmente desenvolvido.

Alguns bons anos depois, teríamos muito mais pessoas cultas e verdadeiramente inteligentes por aí, com real capacidade para lidar com os problemas, com uma dimensão muito maior da realidade, que saberiam conviver muito melhor com as diversidades e respeitar o próximo. O próximo, esse sim, poderia ser gordo, magro, tanto faz, desde que saudável. Saudável de corpo e, principalmente, de mente (com o perdão do cacófato).

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Por João Dutra

No filme Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, há uma cena na qual um senhor que aparenta ter uns 70 anos de idade, contador de histórias, reflete sobre sua atual condição.

Ele lamenta que seus ouvintes tenham se transformado em leitores de seus livros e, desde então, não mais se sentam em rodas para ouvir o que ele tem a dizer. Em vez disso, sentam-se isoladamente, dando toda a atenção aos escritos. Dessa forma, o autor se tornara dispensável, invisível.

Além disso, na visão do personagem, os livros fizeram com que se perdesse a emoção, o poder da linguagem corporal e entusiasmo da narrativa contada pessoalmente e exigiram das pessoas cuidados com a interpretação e significado das palavras escritas.

Alguém já tinha pensado nisso? Em como os livros poderiam ter diminuído a importância dos contadores de histórias?

Há muitas particularidades entre as culturas em vários países do mundo, entretanto é comum a capacidade e necessidade de se contar histórias. Muda-se o idioma, mudam-se as crenças, mas as pessoas mantêm o desejo de conversar, de ter algo a dizer e alguém para ouvir.

O livro exerce um papel essencial nesse cenário. É por meio dele que a experiência pessoal, o conhecimento, uma visão de mundo, o exercício da imaginação de um escritor inspirado podem se tornar onipresentes, universais e seu autor, não invisível, mas imortal.

Ainda assim, vale o alerta do personagem: não basta se sentar em frente aos livros, também precisamos nos sentar em frente de gente. Trocar nossas experiências é uma necessidade ancestral. Contar histórias parece ser questão de sobrevivência. De certa forma, somos todos Sherazades.

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O cenário é desolador. As pessoas pouco conversam. As televisões são projetadas nas paredes das casas – em um mesmo ambiente, se os quatro lados puderem ser transformados em telas, um tanto melhor. Quase ninguém presta atenção no que está ao seu redor. As publicidades possuem tamanhos colossais, para que os jovens que dirigem a mais de 190 quilômetros por hora possam vê-las.

Nesse lugar, qualquer livro é um objeto proibido. Para que não haja risco da população possuir bibliotecas – ou um mísero exemplar de alguma obra –, bombeiros são encarregados de atear fogo em qualquer livro que encontram. Isso mesmo, em Fahrenheit 451 (temperatura na qual o papel pega fogo) os bombeiros colocam fogo em livros, ao invés de apagar incêndios. O objetivo? Acabar com discussões provenientes de pensamentos opostos e, consequentemente, trazer a felicidade para todo o povo.

A história tem Montag, um bombeiro, como personagem principal. O cara se orgulha de sua profissão e realiza sua tarefa com prazer, até que um dia se encontra com Clarisse, sua vizinha de 17 anos. A menina – uma “subversiva” que ousa admirar as flores e sentir prazer em tomar chuva – puxa conversa com Montag e o questiona de diversas coisas relacionadas à forma como ele leva a vida. Ao final do papo, começa a surgir no bombeiro uma espécie de rebeldia, que propulsionará a mudança que acontece com o personagem ao longo da história.

Escrito por Ray Bradbury, Fahrenheit 451 foi transposto para os quadrinhos por Tim Hamilton (com autorização e aprovação Bradbury) em 2009 e agora chega ao Brasil pela Globo Graphics. A adaptação segue fielmente a obra original, mantendo inclusive as falas mais marcantes dos personagens. Como o texto de Bradbury conta com poucas descrições de cenários, a maioria dos desenhos são repletos de sombras, o que permite ao desenhista omitir boa parte dos espaços onde a história se passa ou trabalhar apenas com traços mais simples. Consequentemente, esse recurso acaba proporcionando à história um clima mais sombrio do que a sua versão original. Também em decorrência dos parcos cenários, os planos mais fechados são bastante utilizados, para que a atenção esteja realmente centrada nos personagens – por isso mesmo, as expressões nos rostos de cada um deles poderiam ser melhor trabalhadas.

Caso Hamilton tivesse se preocupado um pouco mais com a maneira que a história é contada nos quadrinhos, o resultado final de seu trabalho com certeza seria melhor. Em muitos momentos falta dramaticidade. O tom dos acontecimentos pouco varia, quase tudo parece acontecer sob o mesmo clima, e isso acaba por prejudicar um pouco a intensidade das cenas.

Apesar da obra ser bem adaptada para os quadrinhos, ela perde parte de suas forças nesse formato de mídia. Uma história que fala sobre uma sociedade onde os livros são proibidos e queimados possuí um significado muito maior quando contada exatamente em um livro. E que fique claro que livros e histórias em quadrinhos, por mais que possuam formatos muito semelhantes, são mídias distintas. Para boa parte dos estudiosos, inclusive, as Hqs se aproximam muito mais do Cinema – principalmente por causa da relação entre palavras e imagens – do que da Literatura.

A versão em quadrinhos de Fahrenheit 451 poderia ser melhor em alguns pontos, mas, apesar disso, é sim uma boa obra e uma excelente opção tanto para quem já leu o livro quanto para aqueles que desejam conhecer essa história, que está no hall dos grandes clássicos da ficção científica com teor distópico, junto com 1984, de George Orwell, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley e Laranja mecânica, de Anthony Burgess.

Livro: Fahrenheit 451

Autor: Ray Bradbury e Tim Hamilton

Tradução: Ricardo Lísias e Renato Marques

Editora: Globo

Páginas: 160

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Festa do livro na USP

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O despertar literário

Por Igor Antunes Penteado

Bom, já de cara, devo fazer uma confissão. Tenho usado esta coluna para o Canto também a meu favor. Através dela, vejo a oportunidade de sanar algumas curiosidades minhas sobre a relação entre pessoas e livros. Assim, retomando a ideia levantada em meu primeiro post, hoje pretendo falar sobre o despertar do entusiasmo pelos livros. Isso porque fico curioso em saber como ocorreu esse “despertar” em cada um dos que por aqui transitam.

É comum ouvirmos a batida frase de que o brasileiro não gosta de ler. Óbvio que ela faz sentido, afinal, nosso país possui uma taxa de analfabetismo de 15%. Para se ter uma ideia, entre os países da América do Sul, só não temos uma taxa pior que a da Bolívia, além de que, apenas outros dez países do mundo possuem mais de 10 milhões de analfabetos. Isso sem falar nos analfabetos funcionais.

Se fizermos uma comparação com nossos vizinhos, enquanto lemos, em média, um livro por ano, chilenos e argentinos leem cinco, enquanto os uruguaios leem seis. Em uma outra comparação, talvez pouco sensata, mas curiosa, Portugal – nosso colonizador – é o segundo país que menos lê em toda Europa, com um índice melhor apenas que o de Malta.

Sem querer parecer tendencioso pondo a culpa de nossa pouca cultura literária nos patrícios portugueses, creio, como o consenso quase geral, que podemos atribuir esse quadro a dois fatores básicos. Por aqui, muitos foram alfabetizados pela televisão, além de que a escola não ajuda nesse despertar literário, obrigando adolescentes recém-iniciados no mundo das letras a ler obras clássicas do século 19, de qualidade incontestável, mas que pouco têm em comum com sua própria história e o mundo em que vivem.

Fora isso, um estudo da Unesco revelou que a fórmula que faz alguns países terem maior tradição em ler do que outros nada mais é do que a soma de três práticas, ou seja, só se lê muito onde ler é uma tradição nacional, onde o hábito de ler vem de casa e onde são formados novos leitores. Não precisa de muito para notarmos que, não, não nos enquadramos em nenhuma das práticas.

Entretanto, o mais curioso de tudo é que, pensando em minha própria tragetória literária, constato que eu tinha tudo para dar errado! Afinal, faço parte da geração que foi educada pela TV, fui obrigado, ainda na pré-adolescência, a ler clássicos com os quais não tinha a menor identificação, meu país não tem tradição em ler, meus pais odeiam o hábito da leitura e são raríssimos os colegas que cresceram comigo e cultivam a mesma paixão literária.

Não me lembro de uma obra que tenha marcado, de maneira decisiva, minha entrada no mundo literário. Mas eu acho que, pra mim, sempre foi muito claro que, quanto mais eu lesse, mesmo assuntos sobre os quais eu não tinha o menor interesse, menos eu seria enganado. Quanto mais eu soubesse sobre o mundo, sobre como as coisas funcionam, mais eu conseguiria discutir em nível igualitário com quem quer que fosse, não sendo apenas mais um a ser passado pra trás. E acho que é a essa sede de saber sempre mais que devo minha paixão pelos livros.

O velho jargão de que ler nunca é demais, pra mim, jamais será batido. Pelo contrário, quanto mais leio, quanto mais conheço, mais tenho vontade de ler, de conhecer. E essa, sem dúvida, é a parte mais incrível e saborosa de toda a história.

E quanto a você, como foi seu “despertar literário”? (Lembrando que obras inspiradoras nesse início também enriquecerão os comentários!!!)

 

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