Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Lucas’

 

Por Alberto Nannini

medHomensAlmasA inglesa Taylor Caldwell tem um estilo facilmente reconhecível: extremamente detalhista nas ambientações e descrições de personagens e localidades, muito precisa nas reconstruções históricas, e sempre baseando seus muitos livros no ideário cristão.

No caso do livro Médico de homens e de almas, a autora fez uma grande pesquisa para romancear a história de Lucas, a quem se atribui um dos evangelhos canônicos. Médico no seu tempo, contam algumas lendas que se atribuíam milagres e prodígios a ele antes mesmo de sua conversão ao cristianismo.

Com este mote, ela costura um romance envolvente, que conta a história do futuro santo, que sente grande compaixão pelos homens e que “não gosta” muito de Deus, ou melhor dizendo, não O sente próximo. Sua aproximação à ideologia do carpinteiro de Nazaré vai se mostrando como um arranjo perfeito, suprindo-o daquela convicção que lhe falta. Enquanto isso, Taylor Caldwell descreve costumes (chamou-me a atenção as refeições da época), localidades, vestimentas e elucida arranjos políticos no intricado panorama social vigente naqueles tempos, com os romanos buscando conter a insurgência crescente dos rebeldes judeus.

A autora, muito prolífica, escreveu também O grande amigo de Deus, romanceando a história de Paulo, o apóstolo que, bem dizer, fundamentou o cristianismo e lhe deu as bases que possibilitaram que ele reinasse soberano por milênios e que continue uma das mais influentes filosofias do mundo.

Tenho uma relação de afinidade com os livros de Taylor Caldwell – tanto que pretendia dar dica de leitura outro livro dela, mas pensei que havia tanto a falar a respeito deles que valeria uma resenha.

De qualquer forma, caso aprecie romances com fundo histórico e queira saber mais sobre os primórdios do cristianismo, a dica é ler um destes livros mencionados. Possivelmente, se ler um e gostar, vai desejar ler o outro. Foi o que aconteceu comigo.

 

Read Full Post »

Por João Dutra

jesusNo princípio, Deus criou o céu e a terra. De lá para cá, a gente também criou um monte de coisas: a roda, o chuveiro elétrico e o iPad. Mas, como li outro dia em um desses posts compartilhados no Facebook: “as melhores coisas do mundo não são coisas”. Muito do que criamos realiza muito bem os desejos do corpo – afinal, quem ousaria duvidar dos benefícios do banho quente no inverno? –, mas e os desejos da alma, para os quais a ciência e a tecnologia não têm respostas tão precisas?

É necessário buscar soluções em outras perspectivas a respeito da vida: a arte, a filosofia e a religião. Tentemos usar esses três elementos para contar a história de um homem que veio ao mundo para nos apresentar um caminho para fazer a vida valer a pena.

Amor democrático

Em “Pride (in the name of love)”, a banda irlandesa U2 nos apresenta a história do criador de uma forma inovadora de amar:

One man come in the name of love
One man come and go
One man come here to justify
One man to overthrow

Este é Cristo. Como a própria letra diz, é um homem que veio ao mundo para subverter.

O amor cristão é subversivo pois é uma reação intensa e declarada ao contexto em que se inseria no momento em que foi criado. Lembremos que o mundo greco-romano, a região civilizada, por assim dizer, da época de Cristo, era em essência aristocrático.

Os dois tipos de amor sobre os quais refletimos anteriormente aqui no Canto, o Eros platônico e o Philia aristotélico, não são nada democráticos. O desejo erótico é apenas pelo que nos falta, a beleza que nos falta, a força que nos falta, o talento que nos falta. A Philia de Aristóteles é por aqueles poucos e bons amigos e amigas que nos alegram por serem como são.

Na Bíblia, Cristo estimula os leitores a amar “o próximo”. Mas, que próximo? Quando perguntado, sua resposta veio em forma de parábola, aquela que talvez melhor represente o pensamento cristão: a do bom samaritano (“Lucas 10.25-37”).

Essa conhecida história é precedida por aquilo que Cristo relata ser o caminho para a salvação:

Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.” (“Lucas 10.27”)

A palavra usada para descrever esse amor é Ágape, palavra latina de origem grega.

Amor “em” Deus

Ágape é um daqueles termos difíceis de serem traduzidos, por significar mais do que outros idiomas permitem. Há quem o traduza como “caridade”, mas certamente representa mais do que a esmola dada a um desconhecido no semáforo ou a uma ligação para o Criança Esperança.

Em Aprender a viver, o filósofo francês Luc Ferry faz uma tentativa de atribuir significado ao termo. O que Cristo nos ensina não seria a amar invariavelmente a qualquer um. A sabedoria está em amar a Deus sobre todas as coisas (incluindo a roda, o chuveiro elétrico e o iPad). Desse amor, baseado na fé – não na racionalidade, aqui o pensamento cristão se descola da filosofia – deriva o amor por todos os filhos do Criador. O próximo.

Então, Ágape seria sobre amar aos outros “em” Deus, sustentado na fé de que somos todos filhos do mesmo Pai.

Ali, nas parábolas de um homem simples e pobre, surgiu pela primeira vez a base sobre a qual se sustentaria toda a civilização dali em diante: a crença que, de alguma forma, todos somos iguais. Foi o berço das ideias de humanidade, igualdade, fraternidade, democracia.

Morte e ressureição

Não por acaso, tal subversão condenou seu idealizador à pior das penas da época, como faz referência a letra do U2:

One man caught on a barbed wire fence
One man here resist
One man washed up on an empty beach
One man betrayed with a kiss

Traído pelo beijo cruel de Judas, Cristo, depois de resistir às tentações terrenas e divinas, foi crucificado.

O professor Sir. Ken Robinson, nomeado cavaleiro pela corte britânica graças a seu trabalho em defesa da Educação, aponta no livro The element que um verdadeiro criativo deve estar preparado para resistir contra todos os que o forçarem a manter o status quo, que se incomodam com suas ideias originais. Cristo não hesitou em defender sua ideia, até as últimas consequências. Um criador. Um criativo.

Em sua canção, o U2 exalta um dos seguidores de Ágape, outro revolucionário, que morreu em nome do amor:

Early morning, april four
Shot rings out in the Memphis sky
Free at last, they took your life
They could not take your pride

Este é Martin Luther King, pastor protestante, que morreu na defesa dos direitos civis dos negros nos EUA. A manhã de 4 de abril certamente foi um momento de muita tristeza para os que acreditam que todos devemos ser tratados igualmente perante a lei.

A despeito de todos os milagres de Cristo relatados na Bíblia, imagino que o maior de todos tenha sido a capacidade de fazer com que o amor da forma em que acreditava ressurgisse em pessoas como Martin Luther King, Mandela, Madre Teresa e todos aqueles que no dia-a-dia praticam Ágape. Vida eterna para o amor.

Como diria o U2 em “Walk on”, em outra canção bastante inspiradora, amar não é nada fácil, mas no final das contas, parece ser a única coisa que vale a pena levar conosco.

Seja movido pelo Eros de Platão, por Philia de Aristóteles ou pelo Ágape de Cristo, amar é uma busca pessoal por uma fonte rica de significado. Uma criação mais valiosa que a roda, o chuveiro elétrico e o iPad. Uma maneira inspiradora de compartilhar o fato de que as melhores coisas da vida não são coisas.

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: