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Posts Tagged ‘Luiz Ruffato’

Por Rodrigo Casarin

Gado Novo_Guille ThomaziNeste ano, em virtude da Copa do Mundo, uma turba de livros sobre futebol dominou as prateleiras. Tive contato, li parte deles e raros foram os que julguei realmente oportunos – o melhor de todos, O drible, de Sergio Rodrigues, é do ano passado. Das novidades, uma boa obra é Entre quatro linhas, coletânea de contos sobre o esporte organizada por Luiz Ruffato, que traz nomes como Ronaldo Correia de Brito, Tatiana Salem Levy, Carola Saavedra, André Sant’anna, Rogério Pereira e Cristovão Tezza, que alternam textos razoáveis com outros bons. Entretanto, no volume, um trabalho realmente se destaca: “Raimundo, o dono da bola”, de Eliane Brum.

Em seu conto, Eliane usa o futebol para ir além, mostrando a famigerada bravura e a coragem do sertanejo, mas também toda a sua fragilidade e inocência. Raimundo é um homem bruto e matuto, que nasceu e cresceu no meio da floresta e conhece o futebol somente pelo que ouve no rádio – nunca assistiu a partida alguma, portanto, o esporte acontece somente em seu imaginário, na ficção que cria com as informações que os locutores tentam transmitir, emular aquilo que o interiorano jamais viu.

As coisas mudam quando Valdir aparece em sua vida e, ao mesmo tempo que abre um ponto de contato entre Raimundo e a vida urbana ou moderna, também traz consigo os males da civilização. Utilizando o futebol – que passa efetivamente para o plano real, com traves e bola -, Valdir ganha a amizade do outrora desconfiado e fechado Raimundo e consegue arquitetar a sua ruína. O conto é de uma violência – não apenas física, mas moral, emocional e contra a natureza, inclusive – extrema, é daqueles que marcam e perturbam o leitor. O jogo acaba sem gol, sem apito final, mas com uma selvagem e destrutiva invasão de campo, digamos.

Numa conversa, Eliane me disse que algumas pessoas se queixaram que o texto era muito grande para um conto. Quanta mediocridade! Primeiro porque “Raimundo, o dono da bola”, com suas 31 páginas, se não é exatamente pequeno, também não é nenhum Guerra e paz do gênero. Segundo, porque isso pouco importa. A qualidade do trabalho não está condicionada a seu tamanho. Essa lógica, na ordem reversa, poderia colocar em cheque, por exemplo, o bom Gado novo, de Guille Thomazi, uma novela de 50 páginas – o livro tem 68, mas descontei as que não trazem exatamente o trabalho literário do autor. Será que alguém se queixou com Thomazi que seu livro é muito pequeno? Espero que não.

Violência do campo

Gado novo traz outra história de extrema violência que se passa no campo. Eu nasci em Campinas e cresci em São Paulo – digo que minha mãe foi me parir lá apenas para que os outros pudessem fazer piadas relacionadas à cidade -, costumava passar alguns dias de férias em Lins, no interior paulista, mas jamais estive efetivamente no campo, em uma daqueles longos vazios de fazendas gigantescas, cujos vizinhos, às vezes, estão separados por quilômetros de distância e cada endereço, de alguma forma, acaba sendo uma cidade em si mesmo. Durante muito tempo, a imagem que tive desses lugares é aquela do censo comum para um homem médio da cidade grande (ou seja, formado seguindo uma longa lista de clichês): são terras onde se vive em contato direto com a natureza, o que traz paz e tranquilidade. Lá, as pessoas plantam e criam o que comem, precisam apoiar-se e proteger-se mutuamente, o que gera uma boa relação social, que, graças às distâncias, acaba não sendo banalizada pela convivência diária. São pessoas corteses, sempre preparadas para abrir as portas de casa e receber visitantes, mesmo que sejam desconhecidos. (O clichê também tem uma variação para as cidades interioranas, segue a linha do “quero mudar pra lá porque a vida é mais tranquila, menos violência, trabalhar perto de casa, num lugar onde as pessoas se respeitam e blá blá blá”).

Entretanto, ao conversar com pessoas desses lugares e ao ler ou assistir aos relatos de como é realmente a vida nessas enormes e pouco habitadas fazendas, percebo que muitas vezes esse ideal só existe mesmo na imaginação. Se no conto de Eliane é o homem da cidade que leva a desgraça para o isolado homem do campo, na novela de Thomazi o homem do campo, já influenciado pela vida da cidade, é o próprio responsável pelas suas mazelas.

A história começa com o narrador, sempre em primeira pessoa, procurando por um norte. “O dia nasceu torto. A menina nasceu sem futuro. Descobri como se faz mal ao mundo”. As frases são bastante breves, como se o personagem, cansado e confuso, buscasse fôlego para continuar. A tragédia está feita e ele gostaria de remediá-la, entretanto, há atitudes que são impossíveis de se contornar.

Com o passar dos capítulos, o foco da narrativa vai mudando e o ponto de vista alternando de personagem – passa pela avó da menina, o padrasto, o peão, um forasteiro – e Thomazi constrói uma intricada teia, às vezes confusa, como é mesmo a vida. Cabe ao leitor situar-se dentro da obra e procurar, por meio dos relatos, dar corpo à sua própria versão da macro-história proposta – impossível ler de fato Gado novo sendo um leitor passivo. Conforme o foco muda, o texto, o ritmo, o vocabulário, também mudam, e de maneira precisa, mostrando que o jovem escritor – que nasceu em 1986 – já em seu livro de estreia apresenta bom domínio das técnicas narrativas.

Animais, humanos, humanos animais

Uma outra característica da novela de Thomazi que me chamou a atenção é a batalha entre diferentes animais pela sobrevivência. Quando o homem se depara com o bicho, a forma como se matam bois, por exemplo, pode impressionar algum urbanóide como eu, acostumado apenas com a carne já fria, pronta para ir à churrasqueira. “Paraguay não tem dó nem mão mole. Empurra a faca no peito do bicho, no espaço entre os ossos para que dê no coração” – escreve e me lembra que cresci ouvindo o quanto é cruel quando se erra essa facada no porco, que solta um berro que causa condolência até mesmo nos mais acostumados em sacrificar os futuros alimentos. Em seguida, “cortar a carne viva é uma das funções com a qual ocasionalmente nos deparamos, e o fazemos com naturalidade”, registra uma das mulheres da obra.

Entretanto, é a violência entre dois bichos da mesma espécie que merece maior destaque: a do homem contra o homem, essa tão bem conhecida por qualquer um, seja a pessoa da cidade, do campo, da praia, da floresta… “O homem meio fora de si podia decidir passar fogo em mim era ali mesmo”, pensa um dos personagens. E poderia mesmo, sempre pode. Passar fogo, espancar, vilipendiar… Sempre é preciso que um animal humano sobreviva a outro animal humano. A menina não conseguiu resistir e sua morte foi terrível: marcas de arma branca, semidespida, roupa íntima arrancada, saia rasgada, mordidas no pescoço e nos seios miúdos, falta de parte do lábio inferior, perfurações no abdômen, olhos abertos…

Quando o homem perde para o homem. Raimundo perdeu o seu lugar e Isabel jamais chegará.

Texto publicado originalmente no jornal literário Rascunho.

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eduardo-spohrHá uma clara divisão na literatura nacional. Enquanto a maior parte dos escritores se desdobra para que a venda de seus livros atinja o milhar, alguns raríssimos podem se gabar de centenas de milhares (ou até mais de um milhão) de exemplares vendidos. Muitos desses bestseller pertencem ao nicho da literatura fantástica, como é o caso do carioca Eduardo Spohr, autor de A batalha do Apocalipse, Filhos do Éden: herdeiros de Atlântida, Protocolo bluehand: Alienígenas ,Filhos do Éden: anjos da morte e A torre das almas e editor do blog Filosofia Nerd. Amado por milhares (ou milhões?) de fãs, defendido por Paulo Coelho e sustentando que a literatura deve ser analisada com o coração, Spohr falou com o Canto dos Livros. 

Canto dos Livros: Sobre seu primeiro trabalho, A batalha do Apocalipse, você já declarou que, devido à dificuldade em encontrar informações concretas durante a pesquisa, teve de criar uma “mitologia própria”. Tolkien talvez tenha sido o escritor que melhor desenvolveu este trabalho, criando um universo completamente novo. Quais foram as dificuldades encontradas nas pesquisas? Como foi criar uma mitologia própria? Em quais pontos foi bom ou ruim não ter algum embasamento prévio?

Eduardo Spohr:  Foi longo, porém mais fácil dos que as pessoas pensam porque eu já jogava RPG dentro desse universo, e tive anos para desenvolvê-lo. Então, a coisa aconteceu de forma orgânica e gradual. Quando comecei a escrever A batalha do Apocalipse, já tinha praticamente tudo pronto. O mais difícil, acredito, é manter a coerência com as “regras” estabelecidas para esse universo fantástico.

CdL: É comum vermos você falando de mitos. Conte-nos um pouco sobre a sua relação com a mitologia, com a obra de Joseph Campbell e o impacto que isso tem na sua escrita.

ES: Quando eu conheci Campbell, já tinha escrito o meu primeiro livro, mas o curioso foi ver que tudo o que ele falava, eu já tinha aplicado nas minhas histórias. Então, estudando mais sobre as teorias dele, eu entendi o porquê e comecei a desconstruir todo o processo.

CdL: Flertando com Campbell, de que forma um personagem deve ser construído para que desperte emoção no leitor?  Quais seus personagens mais amados? E os mais odiados?

ES: Bom, acho que acima de tudo o personagem deve ser crível. Como fazer isso? Cada escritor deve encontrar o seu caminho. No meu caso, não tenho personagens mais amados ou odiados. São todos como filhos (risos).

CdL: De que forma você enxerga a tradicional personificação do mal, na figura de um adversário – Diabo, Satã, Lúcifer ou equivalente? Sobre a responsabilidade do mal cometido pelos e sobre os homens, a quem ela recai?

ES: É uma forma de ver as coisas. De fato o mal existe dentro de nós, assim como o bem. Está nas nossas mãos escolher o que fazer: o certo ou o errado, geralmente sendo o errado mais tentador. Metaforicamente é uma alegoria poderosa.

CdL: Suas crenças religiosas ou espirituais interferiram na escrita de seu livros ou a escrita de seus livros interferiram em suas crenças?

ES: Não. O livro é 100% ficção, não há nada relacionado com as minhas crenças ou algo do tipo.

CdL: Além de livros, você produz bastante conteúdo das suas histórias em outros formatos, como podcasts e textos no blog. Como esses formatos te ajudam a construir sua obra e envolver os leitores?

ES: São materiais diferentes, na verdade. Não acho que exista grande influência dos podcasts, por exemplo, nos meus livros.

CdL: De que forma a interação online com seus mais de 30 mil fãs no Facebook e mais de 50 mil seguidores no Twitter exerce impacto na sua obra?

ES: Eu sempre fico de olho no que os leitores falam, e escuto suas críticas. Isso tem me ajudado muito a melhorar, tenho certeza.

CdL: Você demonstra desejo de compartilhar sua experiência como escritor aos novos talentos. Há, inclusive, um post no seu blog com inúmeras referências, podcasts e vídeos sobre o assunto. O que te motiva a estimular a nova geração? Quais foram seus maiores professores na profissão?

ES: Eu acho um barato que a galera curta meus livros e o meu trabalho. Então, quando me fazem perguntas sobre como escrever, eu tenho o maior prazer em ajudar, daí eu ter feito esse post. Meu principal mentor creio que foi o escritor José Louzeiro, uma pessoa que admiro muito.

CdL: Num mundo cada vez mais racional, pelos avanços da ciência e do conhecimento, a literatura de fantasia tem hoje um papel diferente do que tinha antes?

ES: Não. Acho que é o mesmo. O papel de reconstruir a nossa sociedade e nós mesmos de forma metafórica.

CdL: Você esteve na Feira de Frankfurt este ano. O que achou da participação do Brasil no evento e como encarou todas as polêmicas que a cercaram, principalmente a lista de autores levados pelo governo e o discurso do Luiz Ruffato na abertura?

ES: Frankfurt é muito corrido. É uma reunião atrás da outra, com editores, agentes, etc. Confesso que nem tive tempo de parar e nem de pensar nas polêmicas. Estava totalmente concentrado em apresentar meu trabalho aos editores internacionais. Vamos torcer para que dê certo.

CdL: Como é a receptividade das editoras internacionais pela literatura de fantasia brasileira? O país de origem influencia no interesse dos editores? 

ES: Creio que dependa do caso. Nos lugares onde meu livro já saiu (Alemanha, Holanda e Portugal), a recepção foi bem legal.

CdL: É nítido o amadurecimento no seu texto desde o primeiro trabalho até o mais recente, Filhos do Éden: Anjos da Morte. Além da evolução como escritor, o que acha que mudou nesse tempo? Como a mudança tem sido recebida pelos leitores?

ES: Muito obrigado. Bom, claro que eu tenho tentado melhorar. Os leitores parecem estar curtindo também, pelo feedback que estão me dando.

CdL: Sobre sua evolução, você já declarou que precisava melhorar nos diálogos. Esse é um dos pontos cuja diferença pode ser percebida se compararmos o seu primeiro e o terceiro romance. Para você, qual a importância desse recurso dentro do todo? Em que exatamente e quanto acha que melhorou nesse sentido? 

ES: Muito importante. É o diálogo que dá vida aos personagens. Não só ele, mas é uma parte importante, acredito. Eu não posso dizer que melhorei (isso é para o leitor avaliar), posso dizer apenas que me esforcei para tentar melhorar.

CdL: Sua obra alcançou um grande público no Brasil, tornando-se um bestseller. Você faz parte também da coletânea de contos Geração Subzero, que reuniu autores “esquecidos pela crítica”. Afinal, não estar nas críticas da grande imprensa faz falta para você? Qual é a real importância destas críticas?

ES: Para mim é mais importante a crítica do leitor. Mas acho que toda crítica, quando feita com respeito, é válida e nos ajuda a evoluir.

CdL: Na sua opinião, um livro deve ser analisado dentro do seu nicho específico ou comparado com tudo o que compõe a literatura? Em outras palavras, uma obra de fantasia deve ser analisada tendo somente Tolkien como parâmetro ou podemos colocá-la ao lado de Graciliano Ramos, por exemplo?

ES: Acho que deve ser analisado com o coração. Pelo menos eu faço isso, enquanto leitor. Obviamente, os críticos discordariam.

CdL: Levando em conta toda a literatura brasileira contemporânea, como sua obra se situa nela?

ES: Para mim, é difícil fazer essa auto-avaliação. Prefiro que o leitor o faça.

CdL: Fazendo um exercício de futurologia, daqui cem anos, quais dos escritores brasileiros atuais continuarão sendo lidos? Por quê?

ES: Impossível dizer. E qualquer resposta seria errada. Prefiro não arriscar (risos).

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Por Rodrigo Casarin

cronicas de viagemAntes dos holofotes da cena literária se voltarem para Paulo Coelho, Luiz Ruffato e a polêmica das biografias, um tema que vinha novamente sendo bastante discutido era a autoficção, muito por conta do lançamento de Divórcio, de Ricardo Lísias. A edição 162 do Rascunho, inclusive, trouxe o excelente ensaio A imposição do “eu”, de Luciana Hidalgo, obrigatório para quem se interessa pelo assunto.

Uma obra que poderia incitar algo nas conversas é Crônicas de viagem, de Peter Ferry. Nela, um escritor chamado Peter Ferry conta para os seus alunos de escrita criativa uma história que ganha força e passa a ser a narrativa principal do livro. Ferry diz que presenciou um acidente, e que neste uma mulher, Lisa Kim, morreu. Contudo, ele supostamente poderia ter evitado a tragédia e, por isso, carrega consigo a culpa. Decide, então, investigar quem era aquela mulher.

Em seguida, a história dessa busca se mistura com elementos da vida particular de Ferry. O relacionamento com Lydia, sua companheira, começa a degringolar por conta da fixação do parceiro por saber quem era Lisa. Também precisa se afastar das salas de aula e viajar para conseguir continuar a escrever a história — que está sendo contada para seus alunos, vale lembrar. De certa forma, o que chega aos leitores é seu tatear, a busca por ela e por como contá-la, algo que remete ao que Julián Fuks fez em Procura do romance.

E as crônicas de viagem?

Antes de nos aprofundarmos em por que o livro poderia contribuir para a discussão da autoficção, vale dizer que Crônicas de viagem não é um livro de viagem, e nem de crônicas de viagem, como seria de se esperar. Não das viagens a que a palavra nos remete, aquelas em que nos deslocamos de um lugar para o outro e vivemos durante algum tempo numa realidade distinta da que estamos habituados. É sim um romance que traz alguns relatos de viagens. O mais interessantes deles é sobre Bangkok, na Tailândia. Ferry, o personagem, fala com aparente propriedade sobre as famosas putas do sudeste asiático, parece se apaixonar por elas. Sobre a cidade, define: “Bangkok é o bordel da Ásia… A cidade inteira exala uma ligeira sordidez”.

Viaja também para duas cidades mexicanas: San Miguel de Allende e Curnavaca, onde passa um longo período porque o lugar tem uma calmaria boa para um escritor, detecta que por lá pessoas são menos importantes que máquinas e conhece Charlie, “um homem complexo, original, perturbado, multidimensional, autoinventado, cheio de falhas e idiota, mas um homem completo”, um dos personagens mais interessantes da obra. Outros destinos são as florestas canadenses e, ao final, Doolin, na Irlanda.

Mas esses deslocamentos são passagens pontuais e estão longe de caracterizar o livro como uma narrativa de viagem. “Crônicas de viagem. É uma espécie de metáfora”, diz o protagonista em um diálogo. E é uma pena, pois essas viagens são as partes mais interessantes do livro, muito melhores do que quando estamos na história principal.

Voltando à discussão

Até aqui, encarei o Peter Ferry do livro somente como um personagem homônimo de seu criador. Entretanto, vale trazermos alguns poucos elementos biográficos do Peter Ferry de carne e osso. Como seu personagem, obviamente, ele também é escritor. Também é professor e escreve crônicas de viagem. Com isso, e pela maneira que a história é narrada e estruturada (um livro de Peter Ferry, que tem como personagem um professor chamado Peter Ferry que cria uma história com um também professor Peter Ferry), a confusão é inevitável. Mas é nos diálogos que o personagem trava com os alunos que aparecem alguns elementos que realmente poderiam contribuir com a discussão.

De início, o professor deixa claro que a história que está contando é inventada e mostra a força que uma narrativa pode ter:

É claro que nada disso aconteceu na realidade. Eu já disse isso a vocês quatro vezes, e vocês sabem que não aconteceu. Mas olhem para vocês. Estão todos interessados, querem saber o resto, querem saber se ela estava nua, o que havia de errado com ela, o que eu fiz ou deixei de fazer e todo o resto, embora eu esteja inventando tudo isso bem na cara de vocês. É por isso que as histórias são tão poderosas.

“Estou tirando essa história da minha cabeça agora”, diz em outra oportunidade para depois embaralhar tudo: “A história da moça no carro realmente aconteceu, é claro, ou poderia ter acontecido, ou talvez tenha mesmo acontecido”. O que fica é a boa bagunça na cabeça dos alunos — e do leitor.

Ora, mas se o criador da história já disse que ela é inventada, por que não acreditamos? Simples: porque a mentira pode estar nessa informação.

O problema está já na epígrafe do livro, uma citação de E. M. Forster: “Os homens no rio estavam pescando. (Mentira; mas também assim é a maioria das informações)”. Pouco importa se pescavam ou não. Para ir mais além, independentemente de verdades ou falsidades, o que interessa é que o máximo que conseguimos atingir é uma versão de uma história real que, se não é uma mentira, também está longe de ser a realidade. Pode ser uma verdade, mas, para alcançar essa uma verdade, abrimos mão de infinitas outras — parece confuso, e é mesmo. De certa forma, é esse ponto que Lísias aborda em seus discursos e é essa falta de limites entre o inalcançável e irretratável real (que talvez pudesse ser encarado como a totalidade das verdades) e o fictício que Javier Cercas usa tão bem em suas criações arraigadas em eventos históricos, por exemplo.

Mas, voltando ao livro de Ferry, o tempo todo disse que ele poderia acrescentar algo à discussão, só que isso não deverá acontecer, pois a obra em si deixa a desejar. Sua história central não funciona bem, as crônicas de viagem, apesar de boas, mais confundem do que contribuem e diversas situações deveriam ser trabalhadas com um cuidado maior: muita coisa acontece de maneira fácil, discussões na sala de aula contam com vozes secundárias que mais parecem filmes pessimamente dublados, e pontos interessantes que mereciam ser explorados são deixados de lado. Em determinado momento, o personagem Ferry diz para seus alunos “Um escritor precisa acreditar que o que está escrevendo naquele exato momento é a coisa mais importante que alguém já escreveu na vida”. Será que Ferry, o escritor, acreditava Crônicas de viagem era a coisa mais importante que ele escreveu na vida? Acho que não.

Texto publicado originalmente na edição 163 do jornal literário Rascunho.

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bernardo carvalhoDesde sua estreia em 1993, com Aberração, Bernardo Carvalho já publicou outras dez obras e se tornou um dos escritores mais prestigiados do país. Dentre seus trabalhos merecem destaque títulos como Mongólia, Onze, Nove noites e O filho da mãe, que integra a polêmica coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras. Reprodução, o livro mais recente do autor, foi lançado neste segundo semestre de 2013 e apresenta um estudante de chinês envolvido em um enorme imbróglio no aeroporto horas antes de embarcar para a sonhada viagem à China. Por conta deste novo trabalho e da importante carreira que o Canto dos Livros entrevistou Bernardo Carvalho. 

CdL: É de se imaginar que para escrever Reprodução você tenha navegado bastante por sites de notícias e blog para ler os comentários dos internautas. Ao ler esses comentários – muitas vezes reacionários e racistas, como o personagem principal da obra –, qual era o seu sentimento? 

Bernardo Carvalho: Não li muitos comentários. Nem naveguei muito para poder escrever o livro. Como é tudo mais ou menos igual, basta ler alguns pra entender como a coisa funciona.

CdL: Apesar do tamanho, Reprodução tem uma estrutura que em muitos momentos se assemelha ao conto ou à novela. Contudo, ainda não existe uma definição clara do que seja um conto, uma novela e um romance. Para você, como esses gêneros são caracterizados? 

BC: Você vai achar as definições clássicas dos gêneros nos manuais literários. Pra mim, interessa embaralhar os gêneros. Mas acho que esse livro tem um espírito mais teatral do que qualquer outra coisa.

CdL: Em certo momento, Reprodução também é um livro que fala sobre o domínio que determinadas línguas exercem sobre outras. A passagem que trata das línguas que morrem chega a ser comovente. Qual a sua relação e interesse pelas línguas, sejam elas dominantes ou à beira da morte? 

BC: O desvio me interessa. O desvio da regra, a diferença, a exceção, a resistência ao hegemônico etc. Nesse sentido, as línguas em vias de extinção são chaves pra mundos alternativos, que estão se perdendo. Com o desaparecimento das línguas, o mundo também se estreita.

CdL: É cada vez mais evidente a maneira truculenta como policiais costumam tratar qualquer tipo de suspeito. Não seria mais plausível se o delegado que interroga o “estudante de chinês” desse um tapa na orelha do interrogado e mandasse ele apenas responder objetivamente as perguntas feitas? 

BC: Os personagens literários mais interessantes são aqueles que não correspondem às expectativas do leitor.

CdL: O protagonista de Reprodução parece só ouvir as pessoas quando aparentemente aumentam a voz ou quando não há mais nada para ser feito além de escutar uma conversa. É uma forma de mostrar que estamos cada vez mais preocupados em falar e menos dispostos a ouvir? 

BC: Não sei. É uma característica do personagem.

CdL: O final de Reprodução é forte e emblemático. Você é um crente, um otimista? 

BC: O final é trágico e triste. Crente, eu não sou. Acho que oscilo entre fases de otimismo e pessimismo.

CdL: Em entrevista recente, ao comentar sobre a banalização promovida pela internet, você destacou o narcisismo, e a maneira perversa pela qual ele pega as pessoas que escrevem ali, para qualquer audiência, lhes dando a ilusão de que são celebridades. Por outro lado, os romancistas costumam ter um forte componente narcisista, a serem bajulados pelos leitores e editoras, tanto mais quanto maior seja a projeção e o potencial comercial de suas obras, importando pouco a qualidade literária dela. No seu caso, escritor há 20 anos e consagrado, reconhece em você ou na sua obra indícios deste mesmo narcisismo? Concorda com o diagnóstico de alguns especialistas, de que a atual literatura brasileira é em grande parte feita com narrativas em primeira pessoa, confessionais e também narcisistas? 

BC: O narcisismo está em todo mundo. Faz parte do humano. Há gradações, claro, e maneiras diferentes de lidar com o narcisismo. Mas acho pobre pensar que uma narrativa em primeira pessoa é sinal de narcisismo do autor. É não ter entendido absolutamente nada do que é literatura.

CdL: Em uma resenha para O Globo, Beatriz Resende, professora da UFRJ, diz que você “confirma sua versatilidade como escritor que foge da zona de conforto”. É possível fazer arte permanecendo na zona de conforto? 

BC: Não há regras em literatura e arte. O conforto me incomoda, mas é o meu caminho. Não sou modelo pra ninguém.

CdL: O discurso de Luiz Ruffato na abertura da Feira de Frankfurt tem dividido opiniões no meio literário. Qual sua opinião sobre as colocações do autor? 

BC: Gostei do discurso dele.

CdL: Como foi a sua participação na Feira de Frankfurt? O que achou da seleção de escritores?

BC: Senti falta do Rubens Figueiredo e do Reinaldo Moraes [que já foi entrevistado pelo Canto e cujas respostas guardam certa semelhança com as de Bernardo]. Não sei se não foram convidados o se não quiseram ir.

CdL: Ainda sobre a feira, na oportunidade João Paulo Cuenca, Paulo Lins e Luiz Ruffato iniciaram um abaixo assinado apoiando a greve de professores do Rio de Janeiro e repudiando a violência policial. O que você achou desse manifesto? Na sua visão, qual é o papel de um escritor diante de reivindicações contemporâneas, como essa e tantas outras levantadas recentemente no Brasil? 

BC: Não conheço ninguém que seja contra a democracia e a educação, e a favor da truculência policial.

CdL: Alguns acham que a Literatura tem papel específico, outros, que ela pode ser uma agente de mudanças profundas. Entre estes dois pólos, onde você se situa? 

BC: Entre os dois. Nos dois.

CdL: Recentemente, a discussão sobre as biografias não autorizadas ganhou força novamente com a posição do Procure Saber, encabeçado por Paula Lavine. Tanto como escritor quanto personalidade pública, qual sua posição sobre isso? 

BC: A favor da liberdade de expressão.

CdL: Hoje em dia, ante as facilidades em se publicar, mas também ante a enorme concorrência, qual(is) atitude(s) aconselharia para novos escritores? O que eles devem enfatizar? 

BC: Cada um deve levar seu projeto literário e suas diferenças até as últimas consequências.

CdL: O humor tem qual espaço na sua obra? Se fosse defini-la em uma característica, qual seria?  

BC: Geralmente, o humor não está muito aparente no que eu escrevo. O Reprodução é uma exceção.

CdL: Após 20 anos de sua estreia como escritor, como você olha para sua própria obra?

BC: Fiz o que deu pra fazer.

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Tatiana Salem LevyTatiana Salem Levy nasceu em Lisboa, ainda jovem mudou-se para o Rio de Janeiro e agora passa uma nova temporada em terras portuguesas. Estreou como escritora com A chave de casa, de 2007, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria “romance de estreia”, já foi publicado na Espanha, França, Itália, Portugal, Romênia e Turquia e agora está sendo vertido para o inglês. Dois rios, seu outro romance, foi publicado em 2011 – sim, ela não tem pressa para despejar novos títulos no mercado.

Além disso, Tatiana já organizou e participou de coletâneas de contos (está presente na Granta com os melhores jovens escritores brasileiros, por exemplo) e publicou ensaios que surgiram de suas pesquisas acadêmicas (a moça é doutora em estudos da literatura pela PUC-RJ). Nessa conversa com o Canto dos Livros, falou do seu moroso processo de produção, o atual momento da literatura no país e um pouco de sua obra. Confira:

Canto dos Livros: Passado mais de um ano da publicação da Granta com os melhores jovens escritores brasileiros, como você avalia a sua participação na revista? Qual a importância dela? Houve algum retorno perceptível além do estardalhaço causado no meio literário à época do lançamento? 

Tatiana Salem Levy: A Granta ter feito um número com jovens escritores brasileiros significa que há um interesse crescente pela nossa literatura, o que é positivo para todos nós, para os que estavam e para os que não estavam na revista. O mercado estrangeiro nunca se mostrou tão aberto a ler os autores brasileiros, a traduzi-los. O meu primeiro livro, por exemplo, já saiu em seis países e agora, graças à Granta, vai sair também em inglês – isso, quinze anos atrás, era impossível. Portanto, além do estardalhaço, que é chato, mas inevitável, acho que a gente só saiu ganhando com a publicação da Granta.

CdL: O escritor Luiz Antonio Assis Brasil vê como marca predominante nesta geração de jovens escritores a escrita em primeira pessoa: “É quase hegemônico de uns 15 anos para cá. É uma literatura muito confessional”, diz. Concorda com esta análise? 

TSL: Mais ou menos. Uma marca que a literatura atual não tem é a hegemonia. Há, sim, uma tendência à escrita em primeira pessoa, mas acho que também há uma tendência a se escrever em terceira, a uma prosa mais realista. Acho que há uma diversidade grande no que diz respeito à forma e aos temas. E não acho que a literatura em primeira pessoa seja necessariamente confessional, acho que há, antes, uma tendência a se jogar com isso, brincar com as fronteiras entre o biográfico e o fictício.

CdL: Dessa nova geração de escritores brasileiros, quais obras e autores você destaca? Por quê? 

TSL: Não me sinto numa posição confortável para destacar nenhuma obra nem autor da minha geração. Acho que esse papel não cabe a mim. Posso dizer que gosto muito do trabalho do Daniel Galera, do Michel Laub, da Carola Saavedra, entre outros, mas isso é meu gosto pessoal. Até porque acho que ainda é muito cedo para definir quem são os mais importantes.

CdL: A maior proximidade dos autores, com seus perfis em redes sociais, é uma realidade. Você sente esta proximidade? Em que medida isto te afeta? 

TSL: Não sinto mais nada disso, porque saí do Facebook e nunca tive Twitter. Posso apenas dizer que receber mensagens de leitores no Facebook era uma das poucas coisas boas de se estar lá.

CdL: Você não parece preocupada em lançar uma obra atrás da outra em um curto espaço de tempo. Seu processo de escrita é muito lento? Como ele funciona? 

TSL: Sim, bastante lento. É engraçado, porque cada vez que vou começar um livro, que tenho uma ideia e penso na estrutura narrativa, eu me digo: desta vez vai ser fácil, é só sentar e escrever. Mas nunca é só sentar e escrever. É como se a escrita de um livro não me ensinasse quase nada sobre o processo de escrita, como se eu tivesse que reaprender a cada livro. Num certo sentido é como partir do zero, e eu até gosto desse frescor. Mas também é difícil, porque inevitavelmente chega um momento em que eu digo: está tudo uma merda. Faz pouco tempo joguei 150 páginas fora. No fim, parece que foi fácil, mas nunca é. Eu poderia dizer que se escrevo uma página por dia posso ter um romance por ano, mas não é bem assim, porque a gente nunca conta as páginas que foram pro lixo, e a verdade é que elas são fundamentais. Além disso, tem o tempo de ruminação, eu fico ali com cada romance, cada história, ruminando, mudando pequenas coisas aos poucos, até conseguir ficar satisfeita e decidir publicá-lo.

CdL: Em uma entrevista para a Saraiva, você disse não gostar muito do termo autobiografia, prefere falar de memória. Pra você, quais as diferenças entre os dois termos (ou gêneros)? 

TSL: Já não me lembro em que contexto eu disse isso, de qualquer forma eu nunca escrevi nem uma autobiografia, nem uma memória. Talvez eu estivesse falando sobre a memória na A chave de casa, de que forma eu trabalhei com essa questão, porque a memória é um dos tópicos cruciais do romance. Mas eu não devia estar falando da minha memória ou da memória da minha família (se estava, já mudei de ideia, até porque essa entrevista tem tempo, e eu mudo de ideia constantemente), e sim do próprio trabalho da memória, do fato de ela nunca ser redonda, fechada. A chave de casa tem uma narrativa que funciona como pequenos flashes, que brinca o tempo todo com a incerteza, com as contradições, com a interpretação – tal como e a memória.

CdL: Independente do termo que usemos, sua obra está bastante atrelada ao seu passado e ao passado da sua família. Como os seus familiares costumam receber os seus livros? 

TSL: Eu não diria que a minha obra (se é que tenho uma) esteja bastante atrelada ao meu passado e ao passado da minha família. A chave de casa, sim, mas meus outros livros (meu segundo romance, o ensaio e o infantil), não. Então, só vou responder essa pergunta em relação ao primeiro livro. É verdade que houve uma expectativa da minha família em torno do romance, porque eles achavam que veriam a história da família retratada. Alguns dos meus familiares ficaram frustrados, justamente porque eu não conto nada da história dos meus antepassados. Tirando o fato de que vieram da Turquia, nada aconteceu na realidade, a história do passado do avô da personagem é completamente ficcionalizada. Mas no fundo, a questão é: que importância isso tem? Que diferença faz se eu falo de coisas que aconteceram ou não? O que vale é o leitor acreditar no que lê. Se aconteceu ou não, isso não faz diferença. O que define um romance é a forma com a qual a história é narrada, e não aquilo que é narrado.

CdL: Tendo organizado a coletânea Primos, com histórias de autores brasileiros descendentes de árabes e judeus, como você analisa a produção literária (de qualquer canto do mundo) que reflete a conturbada relação entre esses dois povos? 

TSL: Eu e a Adriana Armony quisemos organizar esse livro para mostrar como a convivência entre árabes e judeus não apenas é possível, como existiu ao longo dos séculos e ainda existe hoje em muitos lugares, tanto na diáspora quanto em Israel e na Palestina. Eu tinha acabado de fazer minha primeira viagem a Israel, e tinha voltado muito espantada (positivamente) com a semelhança entre os dois povos. São mesmo primos, em termos culturais e geográficos, mas vivem em guerra há algumas décadas.

A nossa ideia era, num certo sentido, promover uma espécie de paz literária, apontar para as semelhanças desses povos. Agora, analisar a produção literária de qualquer canto do mundo que reflita essa relação, sinceramente, não me sinto apta a isso. A nossa vontade era apenas a de mostrar para um público brasileiro o diálogo possível, e existente, entre árabes e judeus.

CdL: Você participou da coletânea 25 mulheres que estão fazendo a nova Literatura Brasileira, organizada por Luiz Ruffato. Pois bem. A desigualdade enraizada no tratamento dispensado a homens e a mulheres, quando no mesmo ofício, é um fato. Por outro lado, a boa literatura independe absolutamente do gênero de seu autor. Assim sendo, na sua opinião, iniciativas como estas, de reunir mulheres escritoras, auxiliam na quebra destes preconceitos enraizados ou apenas os reforçam?   

TSL: Movimentos como este são fundamentais. O Ruffato organizou essa antologia porque no livro Geração 90: Manuscritos do computador havia apenas uma mulher, a Cintia Moscovich. Ele quis mostrar como havia muitas outras escrevendo, daí o livro.

Antigamente, eu achava que as mulheres, no meio artístico e intelectual, já tinham conquistado o seu espaço, mas na prática fui vendo que não é bem assim. Parece que a mulher ocupa uma espécie de cota pré-definida. Quando jornais e revistas fazem um balanço, por exemplo, dos 10 melhores livros do ano ou da década, normalmente há apenas uma ou duas mulheres. Se você ver os finalistas dos prêmios mais importantes, é a mesma coisa. Eu tenho viajado muito para participar de festivais literários, e o mesmo ocorre, sempre mais homens do que mulheres. Até na Granta, são 14 homens para 6 mulheres.

Se de fato houvesse mais homens do que mulheres escrevendo, eu entenderia. Ou se a qualidade dos textos dos homens fosse superior à dos textos das mulheres, eu também entenderia. Mas não é o caso. Portanto, cheguei à conclusão de que nem mesmo no meio artístico e intelectual a luta pelo espaço da mulher chegou ao fim.

Não se trata de defender uma literatura feminina – não acredito em tal coisa –, mas sim de eliminar a desigualdade entre homens e mulheres.

CdL: Testemunhamos recentemente um engajamento de cidadãos, com participação maciça dos jovens, em manifestações de protesto pelo Brasil. O que pensa a respeito? Qual colaboração uma escritora e sua obra podem legar para este público? 

TSL: Achei maravilhoso o engajamento da população brasileira para lutar pelos seus direitos. Estou passando um tempo em Portugal e, por esse motivo, infelizmente, não pude participar das manifestações. Se estivesse no Brasil, certamente teria ido. Manifestações são um momento de explosão de vitalidade, de se sentir vivo e lutando por um mundo melhor. A nossa tradição não é muito a de ir para a rua, né? Então, acho fantástico que tanta gente tenha se manifestado, e espero que o Brasil continue a ser um país assim, que luta pelos seus ideais.

Quanto ao legado de uma escritora e sua obra para isso, nem sei se há. Na verdade não acho que exista algo como “esse público” num sentido homogêneo. O público é sempre muito variado. A literatura transforma as pessoas aos poucos e, com isso, vai transformando o mundo, mas uma coisa assim imediata, acho que os cronistas dos jornais, os antropólogos, por exemplo, têm um papel mais eficaz nesse sentido.

CdL: Como o Canto dos Livros, muitos outros blogs de literatura produzem suas resenhas e críticas às obras publicadas no Brasil. O que acha desta tendência? Poderia citar aspectos positivos e negativos dela?  

TSL: Acho esta tendência ótima. Quanto mais gente houver dando suas opiniões, escrevendo sobre literatura, melhor. Desde que os textos sejam assinados, claro. A melhor coisa da Internet é a possibilidade de divulgação dos textos de qualquer um, a abertura e a circulação da informação.  A pior é o anonimato. Uma pessoa sem nome não precisa se defender, e pode atacar usando os golpes mais baixos e rasos, sem profundidade, um ataque que vale só pelo ataque mesmo, muitas vezes velando um mero ressentimento.

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