Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Machado de Assis’

Por Alberto Nannini

capa  Ricardo Lisias Divorcio.inddTalvez conheça os mindfucks. A tradução literal é bem ilustrativa. Trata-se de uma espécie de quebra-cabeças, geralmente fotos, que parecem normais a primeira vista, mas que escondem algo que só aparecerá com um exame minucioso.

O detalhe dos mindfucks é que eles podem cumprir perfeitamente bem o papel de fotos, a não ser que você saiba que se trata de um mindfuck. Aí, você não conseguirá olhar para foto sem procurar o segredo dela.

  – Galera, aqui na reunião do blog já aviso que pretendo comprar e resenhar o novo livro do Ricardo Lísias.

– Beleza, tente entregar para o mês que vem. Seria legal uma leitura mais crítica.

– É o que pretendo. Acho que tenho uma chave de leitura para este livro.

O escritor mindfucker

Ricardo Lísias escreve uma literatura mindfuck. O autor, já entrevistado pelo Canto, e que teve seu ótimo livro O céu dos suicidas resenhado aqui por dois integrantes do blog (esta é a minha resenha e esta outra, do Rodrigo Casarin) está se especializando em confundir. Você lê achando que já sabe o que irá encontrar, ligado a experiências pessoais. Mas, por saber que ele é um autor ousado, que brinca com a linguagem e com algumas definições estanques da literatura, vai ser confundido, vai pensar no que ele quis dizer além do que disse, e provavelmente, mudará de ideia várias vezes.

Claro que, se você não lê livros pensando em resenhá-los e apenas comprar o último dele – Divórcio – e ler, vai achar curioso o personagem ter o mesmo nome do autor. Vai deduzir que se trata de uma expurgação, de alguém que viveu uma experiência traumática com um divórcio, e resolveu colocar tudo aquilo no papel. Esta teoria vai parecer bem encaixada, porque, com pouca pesquisa, vai ver que não apenas os nomes do personagem e do autor são o mesmo, mas que em algumas partes, a correspondência vai além: o autor/personagem diz que o livro anterior que escreveu é justamente O Céu dos Suicidas, e conta episódios reais, como ter escrito um conto para a revista piauí sobre seu pai e a Copa do Mundo de 82.

– E aí, como está a leitura do Divórcio?

– Travei a leitura, logo no começo. Achei outro livro, chamado Nada, deixei um pouco o Divórcio de lado, não tava fluindo. Vou resenhar o Nada antes, e tento entregar a resenha do Divórcio pro mês que vem.

– Mas por que travou? O que você está achando? 

– Tá meio repetitivo, e parece também uma jornada egocêntrica. Acho que é muita vaidade se colocar literalmente como o personagem, e muita exposição ficar romanceando tudo o que se viveu, literalmente.

Agora, se você conhece um pouco da obra deste autor em particular, provavelmente apurou seus sentidos a ponto de perceber que há mais ali do que está parecendo.

Depurar o gosto literário

A apuração dos sentidos e dos gostos parece um fato inescapável.  O senso artístico também é apurado com o tempo. A contemplação e o consumo da arte vão se sofisticando, quanto mais arte se contemple e se consuma, porque as experiências vão se somando e mudam os referenciais.

Com a literatura também é assim. Você lê um livro, dois, três, dez, dezenas. E começa a comparar tudo o que lê com o que já leu. E vai depurando seu gosto em autores prediletos, tramas prediletas. Chega a ponto de achar que conhece determinado autor.

– Eu acho, caras, que se pode criticar o autor x ou y, baseado no que se conhece da obra dele.

– Mas esta crítica nunca terá autoridade, a não ser que você tenha lido a obra inteira.

– Acho que não inteira, mas pelo menos uns 30%.

– Mas aí é que está: e se estes 30% não forem os mais representativos? Acho que embasar a crítica tem mais a ver com uma leitura coerente, e que se apoie em tudo o que você já leu, do que em se especializar no escritor tal, lendo tudo aquilo que o sujeito publicou.

Mas o suposto conhecimento do autor é uma armadilha – a não ser que seja um escritor medíocre, no sentido de escrever sempre aqueles livros médios e ser “fiel ao seu público”. Ele descobre um nicho e fica nele, garantindo sua fatia de mercado. Este sim pode ser conhecido, porque nunca sairá da sua zona de conforto – o que, aliás, é uma boa definição para mediocridade.

Os escritores mais capacitados não podem ser conhecidos, a não ser postumamente, pelo estudo de sua obra inteira. É o caso de gigantes da nossa literatura, como Machado de Assis, que depois, ao ter sua obra organizada, se constatou que passou por várias “fases” de escrita.

 Bom, vamos retomar a leitura..  A chave é esta: vaidade. Você é vaidoso, Ricardo. (…) Vou utilizar o Livro de Eclesiastes como citação. Vaidade das Vaidades, tudo é Vaidade.(…) Tá fácil de te pegar, Ricardo. Pág 66: “…retomar O céu dos suicidas. No dia seguinte, mandaria finalmente meu conto para concorrer a um lugar na revista Granta…” Vai dizer que não é você, Ricardo?

Sobre um divórcio esfolador

O livro tem o seguinte enredo: o personagem, Ricardo Lísias, escritor e professor, está casado há quatro meses, quando acha o diário que a sua mulher, jornalista, escreve às escondidas. O tal diário tem partes como estas: “O Ricardo é patético, qualquer criança teria vergonha de ter um pai desse. Casei com um homem que não viveu”; “Em Cannes, eu pude confirmar a mulher que sou. As carícias do (cineasta)[x] me desabrocharam”.

A traição é elevada a requintes de crueldade, segundo o narrador, porque o diário foi deixado num lugar de fácil acesso (criado-mudo dela, onde ficavam boletos de contas para pagar), o que presume intenção de ser encontrado ou despreocupação com esta possibilidade; porque o ridiculariza implacavelmente, e porque comprova pelo menos uma traição dela com um cineasta, que participava do Festival de Cannes, que ela cobria.

A metáfora recorrente para explicitar a dor e a fragilidade do personagem é esta: um corpo em carne viva. Ricardo relata que ficou sem pele. Não apenas nu, o que já seria vergonhoso e dolorido, mas sem pele alguma. Hipersensível, e vulnerável a qualquer mínimo contato ou sopro.

Segundo o site do hospital Albert Einstein, veja abaixo o potencial estressante de algumas situações, sendo 100 o maior possível (a fonte citada é The Social Readjustment Rating Scale, dos psiquiatras Thomas H. Holmes e Richard H. Rahe, ambos da Universidade de Washington, nos Estados Unidos):

morte do cônjuge  100
divórcio  73
prisão  63
morte de um parente querido  63
casamento  50
demissão do trabalho  47
aposentadoria  45
reconciliação conjugal  45
gravidez  40
grandes conquistas pessoais  28
problemas com o chefe  23
férias  13

Ou seja, a dor, considerando as particularidades da relação, a personalidade da mulher, a fragilidade do personagem e as circunstâncias traumáticas da descoberta, está bem descrita. Na escala, é o 2º evento mais estressante, e foi descoberto de forma bem ruim – resultado: deixou-o como morto (ele promete a si mesmo: “só morro mais uma vez”).

O processo de procurar o chão novamente, de recuperar a pele, utilizando para isso treinos de corrida, e a confusão que acontece em todo o processo é o que dará o tom a doze dos treze capítulos (batizados como os quilômetros de uma maratona). O último capítulo é uma discussão sobre a suposta gênese do romance, sobre escolhas feitas na hora de editar e revisar o livro, e o gesto final à ex-mulher.

Eu imaginei que ia achar, está bem aqui, pág. 103: “Os amigos da minha ex-mulher perceberam logo que eu era vaidoso e souberam me bajular”. Bom, vou ter que mencionar na resenha que você mesmo reconheceu sua vaidade. Acho que é um ponto positivo.  (…)Olha aqui, de novo, ainda melhor,  pág. 210: “Fiquei envaidecido. Eu era muito metido. Agora, depois de uma pancada em forma de diário kitsch, sei que não sou nada de mais.Minha vaidade era tão grande que precisei perder toda a pele para me livrar dela”. Mas será que se livrou mesmo?

O livro expõe as situações e seus personagens sem pudores. A memória do protagonista passeia, e ele vai “costurando” as lembranças em busca de entendimento. Neste processo, aparecem passagens com a ex-mulher, outras passagens anteriores ao casamento, cenas de sexo, indícios de comportamentos estranhos de ambos, e discussões com colegas dela. Depois do ocorrido, descontrole de praticamente todos, do ex-casal aos tais colegas, na maioria, também jornalistas.

Outra característica que aparece durante a leitura é o processo de “retomada de raciocínio” – as narrativas no início se sobrepõem, travadas, sem identificação temporal, numa confusão à altura do trauma. Gradualmente, começam a ser clareadas.

Ainda assim, por conta da linha borrada que faz confundir (propositalmente) o autor com o personagem, é uma leitura difícil. Ele cita “o medo de estar vivendo dentro de um de seus contos” e marca em determinado momento, com maiúsculas: “ACONTECEU NÃO É FICÇÃO”.

   Terminei a leitura. Tá, vou falar da vaidade e que mais? Porra, porque fui dizer que ia resenhar este livro? Nem sei se o entendi direito. Também nem sei se gostei ou não. Acho que sim. O cara escreve bem, vai.

Obras iconoclastas

O livro aproveita para criticar a vaidade, a superficialidade e a frieza de pessoas “carreiristas”, que querem subir na vida a qualquer custo – a mulher é assim descrita. Por extensão, critica, mas não de forma generalizada, os desmandos dos maus jornalistas, que podem difamar, insinuar e manipular as notícias em desfavor de quem queiram.

As posições são fortes e embasadas, apesar de maniqueístas. Recordando a pessoa do personagem e a situação vivida, não haveria como não se vitimizar, nem como não vilanizar a algoz (que poderia ser bancária ou advogada): a ex-mulher, retratada como fria, egocêntrica e imoral. Tudo bem que a metáfora da dor sentida, constantemente repetida, já comove o leitor e o seduz – pois quem não teria compaixão de alguém sem pele? – e, por conseguinte, deixa a ex-mulher em maus lençóis. Mas o que ela vai revelando de si é suficiente para se complicar. Claro que ela o faz por intermédio do autor, Ricardo Lísias, que tudo indica ser bastante próximo do personagem, Ricardo Lísias. Mas não sejamos injustos com eles.

Num rápido exame de consciência, e puxando pela memória situações traumáticas vividas que tenham como cerne algum relacionamento, é fácil perceber que este caminho é natural – nós, conhecedores que somos de todas nossas motivações e claras justificativas, somos as vítimas, enquanto o outro é o algoz, porque não nos entende. Então, a vitimização do Ricardo Lísias esfolado não é um demérito do livro, ao contrário, lhe empresta maior veracidade. Sua dor é a protagonista e a narradora.

Criticar os carreiristas é outro ponto contra o qual é difícil discordar. Seja porque o ideal de trabalho hoje – seja competitivo, trabalhe mais, supere seu colega, ganhe mais, leve vantagem, mostre serviço, dispense os excedentes, ponha os subalternos no lugar deles etc etc, é diametralmente oposto a uma vida minimamente significativa e com valores, seja porque há péssimos exemplos em todas as profissões – é um bom serviço prestado o livro discutir por que pessoas com algum poder se sentem tão superiores (a mídia é um enorme poder, o 4º poder), e porque a ambição de subir na carreira a qualquer custo pode manchar reputações, estragar amizades e relacionamentos e contaminar o caráter das pessoas.

Na verdade, discussões sérias e profundas são recorrentes ao autor: em O Céu dos Suicidas, ele batia nas tradições religiosas, aquelas que condenam para além de qualquer solução um suicida, e que falham fragorosamente em consolar os que ficam. Há que se convir que as religiões, como um todo, falham muitas vezes, quando, engessadas por suas tradições e dogmas, são incapazes de tentar entender os defeitos e desesperos humanos, que levam a gestos extremos.

Ou seja, é uma obra iconoclasta, na medida em que agride as tradições e convenções, e mostra suas fraquezas e vícios. Possivelmente, esta é uma chave de leitura para ler Ricardo Lísias: se preparar para polêmicas. Suas obras tendem a não ficar só na superfície, boiando inofensivas. Elas instigam e apontam o dedo para as feridas.

Só que aquilo que o autor Ricardo Lísias dá a conhecer de si, é exatamente assim também: agressor daquilo que discorda, como o conformismo, as tradições caducas e os comportamentos corporativistas e/ou predatórios. E isso confunde mais ainda a cabeça dos pobres resenhistas e críticos, a separar os Ricardos.

A crítica menciona autoficção, e Ricardo discorda. Quer dizer, é autoficção, porque eu comprovei que ele fala do Ricardo Lísias escritor, não comprovei? O mesmo cara que escreveu para piauí, que corre e  que tudo indica que se divorciou… Ah, não vou ficar caçando nome da ex-mulher jornalista, isso pode ser inventado. Como todo o resto…  E aí, já não é autoficção… (Suspiro). Mas foi ele que escreveu Céu dos Suicidas, ele fala de si próprio. Mas em qual medida?

A arte que choca demora a ser reconhecida

Geralmente, os hábitos adquiridos como leitor facilitam novas leituras. Como já dito, leitores contumazes comparam tudo o que leem com tudo o que já leram, e tendem a perceber nuances de estilo e referências. Como todo o gosto que é depurado pelo prazer que te dá, você vai subindo as exigências, ficando mais crítico e teoricamente, tendo maior autoridade para dizer do que gosta ou não, e porquê.

Só que, para ler Ricardo Lísias, estes hábitos chegam quase a dificultar. Você vai lendo e, dependendo do enfoque, vai se agradando com o que lê ou não. Se a leitura enfatiza o apuro literário, o estilo limpo, o humor involuntário e a acidez, você gosta bastante. Se você achar que é autoficção, se se obcecar em procurar as referências de eventos reais acontecidos, pode não gostar. Se entender que este jogo todo é uma desconstrução dos moldes normais da literatura e do romance, pode voltar a gostar, ainda que já esteja meio cansado. Este é o preço do pioneirismo que leva a autorreferência a um novo patamar.

Não poucas críticas atingem o autor, o que acaba desviando o enfoque do mérito literário de seus últimos livros. Uma análise precipitada de sua obra provavelmente destacará alguma controvérsia ligada a tal autoficção ou termo semelhante, discutindo suas intenções e referências autobiográficas. Mesmo uma análise que destacasse a predominância das narrativas em 1ª pessoa entre os “novos” autores e o que há de confessional nelas, tenderá a deixar o mérito de suas obras em segundo plano.

Ao me dar conta disso, durante a produção desta resenha, deixei de lado a abordagem que pretendia – fazer um apanhado da vaidade dos novos autores e suas narrativas confessionais em 1ª pessoa, cujo ápice seria os últimos livros de Ricardo Lísias, tornado personagem de mesmo nome e sobrenome de suas tramas, para então traçar um paralelo com um mundo que prioriza o individual e vai se ensimesmando cada vez, mas que também facilita a publicação de opiniões, blogs e resenhas, e cria algum espaço para todos que queiram se tornar um pouco escritores, ainda que quase todo o grosso desta produção seja vaidade e superficialidades.

Mas se a obra de Lísias até aqui não pode ser chamada de alguma coisa é justamente de superficial. Ela choca e inquieta, e este é um dos principais atributos que a arte pode ter.

 O avesso do avesso do avesso

Chegando a alguma conclusão sobre a obra do escritor mindfucker.

Chegando a alguma conclusão sobre a obra do escritor mindfucker.

Eu, como bom leigo de arte que sou, a reconheço segundo os padrões do senso comum. Ao ver o realismo de um quadro de Caravaggio, digamos, exposto no lugar adequado – um museu – o reconheceria facilmente como arte. Se visse o mesmo quadro fora do museu, ainda o reconheceria como arte, pelos seus pressupostos e pelo fácil encaixe no modelo estereotipado.

Já no caso de obras de arte iconoclastas e rompedoras de convenções, como o vaso sanitário de Marcel Duchamp ou o tubarão de Damien Hirst, que dependem de um contexto para serem entendidas como arte, não são facilmente reconhecidas como tal, e têm justamente nisto um de seus méritos. Afinal, um vaso sanitário fora de um banheiro e de um museu provavelmente é só sobra de alguma reforma, e um tubarão conservado talvez seja só para estudos de especialistas. Quebrar estas convenções é a sacada.

Divórcio, o último romance de Ricardo Lísias, vem no meio adequado: publicado em forma de livro exposto em livrarias e assinado por um escritor muito bom, com amplo domínio da escrita e de suas ferramentas, e que vai demarcando seu espaço. E, ainda assim, é uma obra que rompe paradigmas. Poderia ser apenas mais um livro sobre o tema, correto e bem escrito, com notas autobiográficas mais ou menos difusas, mas foi bem mais ousado que isso, e é um rompedor. Tem alguns defeitos, abusa da metalinguagem, começa meio confuso, com alguns discursos indefinidos no tempo e de identificação complicada na realidade da trama, mas vai engrenando, clareando, da mesma forma que o personagem começa a retomar o controle quando limpa seu “cafofo” e quando percebe que seu corpo sem pele, quando cansado pela caminhada, o permite dormir por algumas horas, e por isso, se põe a treinar para a corrida de São Silvestre.

O último capítulo antecipa críticas possíveis e entra no mérito das próprias escolhas feitas na escrita do livro. Daí que clareza ou padronização nunca foram preocupações, na gênese desta obra. Ao contrário, esta confusão é parte indissociável dela. Justamente como um divórcio: traumático, confuso, triste – o que só a torna mais real e lhe confere personalidade.

Além disso, borrar todas as linhas divisórias entre romance e autoficção também funciona como um recurso cíclico, como dois espelhos colocados de frente um ao outro, que espelham a imagem da imagem da imagem… da imagem ”n” refletida. Não são a ficção e a realidade imagens espelhadas?

Ou como o poema famoso de Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”, poderia vir uma paráfrase, que dissesse que o romancista ousa, ousa tão descaradamente, que finge que é ele a experimentar, aquilo que pode ter passado.

Estranho, não? Mas se você ler, vai entender.

Read Full Post »

Por Alberto Nannini 

baltazar-serapiãoDe vez em quando, algum autor vira o “queridinho” da mídia. Considerando que o mercado de Literatura é tão ávido por lucro quanto qualquer outro, nem sempre estes tais queridinhos mostram a que vieram.

O português valter hugo mãe, (que quando lançou o livro do qual falaremos grafava seu nome com iniciais minúsculas), parecia ser um destes casos. Badalado, surpresa da Flip de 2011, teve divulgação maciça pela nossa mídia (às vezes, um tanto “baba-ovo” de estrangeiros), e seus livros ocupavam lugar de destaque nas livrarias.

Isto posto, confesso que caí no erro clássico do senso-comum: criticar sem conhecer. Algo que felizmente começou a ser solucionado com a leitura de o remorso de baltazar serapião, da Editora 34.

Após este poderoso livro, comecei a prestar mais atenção em Valter Hugo Mãe (aliás, impossível não lhe ter simpatia vendo o vídeo que está no final do texto). Hoje, ele prefere a grafia em maiúsculas, para não ficar marcado apenas por esta característica. A verdade é que, após começar a conhecer sua obra, é possível assegurar que não há a menor chance de que ele seja lembrado apenas por isso.

Tragédia portuguesa

O livro conta a história de Baltazar Serapião e sua família. Apelidados de “sargas”, são assim chamados por causa da vaca de estimação deles, chamada Sarga, que é dócil como um cão. São cinco: Baltazar, mãe, pai, o irmão mais novo, Aldegundes, e a irmã caçula, Brunilde. Vivem nas terras de D. Afonso, espécie de senhor feudal, casado com D. Catarina.

Completam o elenco central da tragédia Ermesinda, a mulher de Baltazar; Tereza Diaba, uma pária abusada por todos os homens, e a Mulher queimada.

O primeiro parágrafo dá o tom da história, e vai pautar as posições que ocuparão os personagens: “a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só o diabo e gente a arder tinham destino. A voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo do mugido e atitude de nossa vaca, a sarga, como lhe chamávamos”.

Narrado por Baltazar, sujeito absolutamente limitado, a história tem o alcance e a perspectiva da sua estreiteza de raciocínios e de sua brutalidade. Os contrapontos, sempre dados pelas personagens femininas, são apenas vozes com que ele dialoga, e às quais responde, se não com seus patéticos argumentos e preconceitos, diretamente com a violência.

Estigmatizados como bichos, ridicularizados a ponto de serem reconhecidos pelo nome da vaca, os sargas se acomodam conforme a relação de poder desigual, totalmente submissos a D. Afonso. Brunilde, tão logo menstrua, se muda para casa dele, a lhe servir aos caprichos. A mãe é parcialmente aleijada – teve o pé retorcido por um ataque do pai, a lhe “corrigir”. Aldegundes é sensível, mas tem fixação pela vaca sarga. E Baltazar, que como todos os homens da trama, se alivia em Tereza Diaba, é da mesma laia.

A azarada Ermesinda, descrita como delicada e lindíssima, é pedida por Baltazar em casamento a seus pais, que concordam. Vai morar com Baltazar, no conjugado onde antes abrigavam a sarga. A beleza da moça não passa despercebida de D. Afonso, que manda que ela vá à sua casa todas as manhãs.

E, em algum momento, o povo ignorante das cercanias castiga uma velha acusada de bruxaria, ateando-lhe fogo, mas esta sobrevive, totalmente desfigurada.

Estas vidas miseráveis estão entrelaçadas pela desgraça, pelas superstições, pela obtusidade absoluta, que parte de conclusões só possíveis a homens ignorantes, inseguros e irremediavelmente tolos, para gerar dor, violência e morte.

Fusão de estilos

A primeira referência que vem à cabeça é Saramago. O falecido autor, ao ler o romance, disse: “às vezes tive a impressão de assistir a um novo parto da língua portuguesa”. O estilo, inspirado na oralidade, com acentuação particular, lembra muito o do premiado escritor. Até se “pegar o jeito”, trava um pouco a leitura, mas é uma inovação bem vinda e consistente, que mantém o padrão durante todo o romance.

Mas a história, algumas situações e o próprio ambiente lembraram bastante José Lins do Rêgo e seu Fogo Morto, também. Seu personagem Mestre José Amaro com sua brutalidade, a espancar a filha histérica e a maltratar a mulher, está bastante presente. A desgraça de Ermesinda, seu martírio pela suposta infidelidade, e o sofrimento do feminino em geral no romance, remete levemente à saga de Capitu e Bentinho, no clássico Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Isso mostra a quantas ia o meu erro de pré-julgamento de Valter Hugo Mãe: após ler apenas uma obra sua, e ainda que rasamente, o comparo a três dos maiores escritores da língua portuguesa em todos os tempos, verdadeiras unanimidades.

Então, imagino que um livro que aliasse a linguagem de Saramago, a ambientação e a criação de personagens de José Lins do Rêgo e a inventividade de Machado de Assis, resultaria em algo muito semelhante ao remorso de baltazar serapião.

Tal é a qualidade da obra que esta parece deslocada no tempo. Poderia figurar ao lado dos clássicos, e lhes guarda muitas semelhanças. Se fosse sugerida pelos professores de literatura, traria um material formidável para discussão, que poderia se apoiar, principalmente, na opressão ao feminino.

Barbaridades entranhadas e recorrentes

A opressão ao feminino está de tal modo entranhada nos nossos hábitos, que costuma acontecer o que há de mais hediondo: muitas vezes, ela passa despercebida.

Coincidentemente, o Canto dos Livros levantou esta discussão, nos artigos Não, esse cara não é você e Uma medida de amor e ácidos, e não há um único dia em que notícias sobre as consequências desta opressão não sejam divulgadas: assassinatos, estupros, violência, desrespeito, preconceito, e muito mais, sendo certo que apenas uma minúscula fração daquilo que acontece chega a ser divulgado.

Por este viés, o livro traz um questionamento atual e importantíssimo, não obstante sua ambientação remeta a tempos passados. A constatação da opressão massiva ao feminino permeia a obra inteira, marca e desfigura suas personagens femininas, e tem como contraponto a obtusidade, a brutalidade e a imposição da força do masculino.

Porém, mais que um discurso panfletário, a obra tem um brilho próprio, e poderia ser discutida por vários vieses, que passam pela crítica aos costumes – de quão atrasados alguns deles são, perdurando até os dias de hoje, e do quanto a carência de uma boa educação afeta a vida das pessoas, ou mesmo pelo questionamento à romantização da vida rural, no livro tratada como precária e sofrida.

Além disso, é triste, mas inevitável constatar, que há milhões de Ermesindas por aí, espancadas, dilaceradas e violentadas, e outro tanto de Terezas Diabas, vilipendiadas, abusadas, desrespeitadas, e ainda outro tanto de Mulheres Queimadas, desfiguradas, marcadas e discriminadas, pela ignorância essencialmente masculina que domina nosso mundo.

De qualquer forma, os vieses tem em comum serem todos bárbaros, entranhados na nossa cultura e tristemente atuais, apesar de a vida rural ser hoje apenas uma reminiscência do que já foi.

Mérito literário

Seja para detectar um destes ou outros vieses de interpretação, seja apenas para ler uma boa história, o livro tem o mérito de ser autossuficiente, e prescindir de malabarismos para justificá-lo: como toda obra de excelência, se justifica por si só, tem força o bastante para permanecer na memória de quem o ler, e tende a fazer refletir.

Além do mérito da história, há os personagens – reais, densos, quase palpáveis, a ponto de a empatia pelo sofrimento das mulheres da trama nos afetar de verdade. Como já dito, elas existem, e são milhões.

Já a burrice, estupidez e brutalidade dos homens também existem, infelizmente, e o retrato deles é mais que verossímil, é atual e alarmante. E, obviamente, não incorre apenas nos meios rurais, ao contrário, atitudes como as deles são rotineiras, nos campos e nas cidades de todo o mundo.

Um livro que trata de uma história definida, que não demonstra pretensão de ser um retrato ou uma crítica formal, mas sim um “recorte” de um tempo indeterminado, com personagens reais e notórios, cuja escrita nos deixa entrever suas motivações, espíritos, ambições e limitações – essa pode não ser a descrição mais elaborada, mas a conclusão é uma: se trata de um clássico.

E minha aposta é que remorso de baltazar serapião já é um, e o tempo lhe fará (ou já faz) a devida justiça, quiçá até deverá figurar em breve como leitura indicada nas escolas, vestibulares e afins.

Se quiser uma leitura densa, atual, chocante e instigadora, o livro é este. Leia, descubra qual é o remorso que atinge o personagem/narrador, e se surpreenda.

Read Full Post »

jose luiz passosJosé Luiz Passos tem uma missão nem um pouco fácil: lecionar Literatura Brasileira na Universidade da California em Los Angeles (mais conhecida como UCLA), nos Estados Unidos, um dos países mais fechados no mundo para as artes e a cultura que não as locais. Formado em sociologia e doutor em Letras, o professor também é escritor, já publicou os ensaios Ruínas de linhas puras Machado de Assis, o romance com pessoas e os romances Nosso grão mais fino O sonâmbulo amador, um dos livros mais elogiados pela crítica em 2012 – e começo de 2013, já que a obra foi publicada no final do ano passado – e que já tem resenha aqui no blog. Na entrevista abaixo, dentre outros temas, Passos fala sobre como chegou à universidade estadunidense, sobre sua formação como leitor e o trabalho de ficcionista.

Canto dos Livros: Como você foi parar na Universidade da Califórnia?

José Luiz Passos: Quando o e-mail começou a fazer parte da vida universitária no Brasil, em 1994, escrevi para alguns professores nos Estados Unidos e na Inglaterra, buscando fazer uma pós-graduação fora. Na época, era aluno de sociologia na UFPE e, depois, na Unicamp, em São Paulo. Fui aceito por algumas universidades estrangeiras, entre as quais estava a Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA, para onde acabei vindo. Depois de concluir o doutorado, outro campus do mesmo sistema me contratou como professor: a Universidade da Califórnia em Berkeley, mais conhecida pelo nome da cidade. Dei aulas em Berkeley por nove anos. Em 2008, a UCLA abriu um concurso na minha área, no qual passei, e, então, decidi voltar para cá. Gosto de Los Angeles. Sempre preferi as cidades grandes.

CdL: Como é ministrar um curso de Literatura Brasileira em uma universidade dos Estados Unidos? Há real interesse por nossa literatura aí? Por quais autores?

JLP: A literatura brasileira é ensinada aqui em português e em inglês, no contexto dos programas de letras hispânicas, línguas neolatinas ou literatura comparada. É, portanto, uma das várias literaturas oferecidas na língua original, ou em tradução, para alunos de diversos programas e cursos. Nossas disciplinas são abertas a todos os estudantes do campus; resulta que as turmas são heterogêneas: gente de música, direito, matemática, ciências biomédicas etc., além dos demais cursos nas humanidades. Desde que cheguei, noto um interesse cada vez maior pelo Brasil, porém não necessariamente pela literatura brasileira. A noção mais difusa da “cultura” brasileira — e em particular, da música, do cinema e de questões socioeconômicas — tem sido o foco dos estudos e dos diplomas dos alunos americanos. Entre os autores mais canônicos, Machado de Assis e Clarice Lispector são os mais usados em sala de aula. O que mudou bastante, a meu ver, foi o interesse, dentro dos programas de letras, na ficção contemporânea. Há hoje mais cursos que incluem autores mais jovens nas diversas universidades americanas que conheço. Em Berkeley, costumava ensinar, a cada três semestres, um curso sobre o romance contemporâneo usando exclusivamente textos publicados nos últimos quatro ou cinco anos. Trouxe o curso para a UCLA e ensinei-o, por exemplo, no semestre passado.

CdL: Qual a sua opinião sobre o atual momento da literatura no Brasil? Quais nomes e obras merecem destaque?

JLP: Creio que atravessamos um momento de produção intensa e de grande diversidade na literatura brasileira. Há, também, uma visibilidade maior na mídia, por conta dos prêmios, das novas mídias sociais, dos incentivos governamentais, das feiras e festivais. Isso é bom, e tem feito a literatura brasileira repercutir um pouco mais aqui fora. Mas a intensidade do movimento no mercado e a maior visibilidade das letras na grande mídia não resultam, necessariamente, numa literatura de maior qualidade. Pode ser que sim. Esperemos que sim. Sinceramente, sou otimista a esse respeito. Como professor de letras, fico contente de ver uma literatura mais robusta e diversa ocupando as livrarias e chegando às salas de aula, inclusive fora do Brasil. São muitos os nomes que leio com prazer. Destacar uns poucos é fazer injustiça com os demais. Então, menciono apenas aqueles que li recentemente e estão, agora, enquanto escrevo, ao alcance da mão. Admiro Beatriz Bracher e Adriana Lunardi; sempre que posso, volto a elas. Achei o romance Mar azul, de Paloma Vidal, fascinante. E estou ansioso para ler o próximo de Ricardo Lísias, cuja ousadia da imaginação sempre me impressiona. Quem mais? Hoje dei uma aula sobre Sérgio Sant’Anna, mas este não conta, porque conta demais; é um clássico vivo.

CdL: Em seus dois livros de ficção há duas personagens bastante sensuais, Ana Corama e Minie. Houve algum cuidado especial na hora de compô-las? Há alguma diferença na construção de um personagem masculino e um feminino?

JLP: Ana Corama (em Nosso grão mais fino, de 2009) e Minie (em O sonâmbulo amador, de 2012) são ao mesmo tempo um problema e uma solução para os seus admiradores masculinos, Vicente Campelo e Jurandir, respectivamente. Mas a semelhança para aí. Ambas têm grande independência moral frente a seus amantes, mas apenas Ana Corama tem o poder de uma narradora; é autora de livros; enfrenta Vicente no plano dos diálogos que desenvolvem interiormente, ao longo de quarenta anos. Por sua vez, Minie representa, para Jurandir, não uma volta ao passado, como Ana, mas o desafio de um presente em que o desejo confunde papéis e funções. Em O sonâmbulo amador, a amiga Minie se confunde com a amante, que se confunde com a memória da esposa quando jovem e, também, com a colega de trabalho. Em ambos os casos, é o desejo do narrador por essas mulheres que os leva adiante, na tentativa de contar uma história que, para elas, é fundamental e precisa ser enfrentada, a despeito da hesitação masculina. São sensuais? Espero que sim. Afinal, são amadas profundamente; e do trauma que esse amor gera, nascem as narrativas de Vicente e Jurandir.

CdL: O processo de reescrita é quase uma unanimidade entre os escritores. Segundo consta, seu primeiro romance teve 16 versões. Como isso funciona para você? Que tipo de trecho merece ser reescrito tantas vezes? Usando o didatismo de um educador, poderia dar um exemplo prático — quem sabe de alguma frase de O sonâmbulo amador — desse processo de reescrita?

JLP: Em cada um dos projetos, a reescrita tem um papel diferente. No caso de Nosso grão mais fino, demorei até encontrar um modo de fazer com que meus personagens pudessem habitar e falar a partir de diferentes momentos no tempo. A cada vez que faço uma mudança na estrutura, gravo e imprimo uma nova versão do texto. Então, por exemplo, no primeiro romance, a sequência da ação apresenta diferenças radicais em cada uma das versões; numa delas, o irmão de Vicente — Zelino — era um pássaro; noutra, os diálogos eram destacados em itálicos, com direções de cena no estilo do teatro; noutra, ainda, a ação continuava após o capítulo final, narrando os últimos dias de Vicente. Já em O sonâmbulo amador, a reescrita foi necessária para moderar a presença dos sonhos no plano do tempo presente de Jurandir. A versão mais completa dos originais tinha 510 páginas. Entreguei à Alfaguara uma versão com 320 páginas, o que resultou nas 270 do livro. Os cortes incidiram na redução da quantidade de sonhos, de personagens secundários e no seu tempo de permanência na clínica de Belavista. Mas também reescrevi a voz narrativa: originalmente, Jurandir escrevia cartas a dr. Ênio, dirigindo-se a ele diretamente, descrevendo as sessões de análise com grande minúcia. Então, não é que a mesma frase seja reescrita dezesseis vezes: é que a relação entre as partes se altera, a voz muda de tom e a interação entre as personagens transforma o ritmo do enredo. A cada vez que isso muda, é necessário, a meu ver, recompor o fio e cuidar da consistência de estilo e perspectiva. Assim, novas versões vão brotando uma de dentro da outra. 

CdL: Você não depende de sua produção literária para pagar as contas, certo? Isso lhe permite investir o tempo que achar necessário na escrita de um livro, mas também faz com que tenha de dividir seu tempo com outras atividades. Como isso funciona para você? Escreve só nas horas vagas mesmo ou separa uma parte do dia para escrever?

JLP: Escrevo sempre que posso. A rigor, dependo do que escrevo para viver. Escrevo minhas notas de aula, relatórios, pareceres, cartas de recomendação, artigos, livros acadêmicos… Então, você tem razão; não viver da literatura não significa, necessariamente, ter mais tempo ou estar mais livre para escrever. Meu tempo é, em grande parte, tomado pela rotina da burocracia acadêmica. Então, como disse, escrevo o máximo possível, sempre que posso. Nos meses de férias e intervalos universitários, é claro, me dedico com mais disciplina à ficção. Costumava separar horas na semana para escrever meu primeiro romance. Porém, com o aumento das minhas responsabilidades na universidade e as demandas da vida familiar, isso é cada vez mais difícil. Hoje, por exemplo, escrevo em cafés, restaurantes, aeroportos, etc., coisa que não fazia antes. O tempo, por incrível que pareça, anda cada vez mais raro.

CdL: Você demorou cinco anos para escrever O sonâmbulo amador. Por que tanto tempo? Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou durante a escrita deste livro?

JLP: Iniciei O sonâmbulo amador em 2007, o ano em que publiquei meu livro sobre Machado de Assis. No ano seguinte, meu primeiro romance foi aceito pela Alfaguara. Precisei revê-lo mais de uma vez e cuidar de sua saída. Então, parada no sonâmbulo. Em 2008, mudei de Berkeley para Los Angeles. Transladei a profissão e a família. Vendi um imóvel e comprei outro. Em 2009, nasceu meu segundo filho e assumi a direção do Centro de Estudos Brasileiros, na UCLA. Ou seja, essa pequena lista mostra que as interrupções na redação de O sonâmbulo amador foram de várias ordens. A maior dificuldade foi encontrar tempo para um mergulho mais concentrado e de longa duração no universo do romance. Por isso, me impus um método de escrita relativamente rígido: primeiro redigi os sonhos de Jurandir. Depois, os eventos em sua vida presente. A seguir, o enlace de ambos com as memórias e os textos que ele próprio buscava escrever. Organizar e dar unidade a uma matéria tão diversa, do ponto de vista cronológico e estilístico, foi talvez o grande esforço do livro e aquilo que me custou mais tempo.

CdL: Como você tem acompanhado a recepção de O sonâmbulo amador pelo público e pela crítica?

JLP: Estou satisfeito e surpreso com a repercussão do romance. Fico especialmente contente quando recebo notas pessoais, de amigos que não vejo há muito tempo, e que não são profissionais do comentário à literatura. O livro, em parte, foi escrito para eles, tal como o próprio Jurandir confessa nas últimas duas páginas. A sanção da crítica profissional é, obviamente, muito importante para a permanência do livro. Mas minha satisfação maior está na repercussão dele entre aqueles que, de certo modo, estão dentro do livro e para quem concebi a história de Jurandir.

CdL: Em entrevista recente, você declarou que O sonâmbulo amador é meio que uma tentativa de acabar o que seu pai começou, mas sem usar a vida dele — o que seria “difícil demais” —, já que usou como base o material deixado por ele em um baú. Ainda assim, sabemos o quanto Jurandir — personagem principal da obra — foi influenciado por uma história real. Posto isso, o quanto a sua ficção se apoia na realidade? Como você, particularmente, consegue achar a medida certa de uma dentro da outra?

JLP: A ficção é parte do real, não se opõe a ele; não é o oposto da verdade. A ficção é um modo de se tornar visíveis relações constitutivas do real. O que tirei dos diários de meu pai foi a ideia de alguém que é levado a fazer, a contragosto, uma revisão de sua vida noturna: uma vida sonhada ou escondida na distância de memórias que tentamos evitar. Porém, não se trata da história do meu pai; por exemplo, nem eu nem ele jamais perdemos um filho. Somos, neste sentido, diferentes de Jurandir. Em outros, somos iguais. A pergunta inversa, então, se coloca: como seria escrever uma narrativa que não se baseasse em nenhuma história ou traço do real? De certa forma, tal livro nunca chegou a ser escrito; e se for, arrisco-me a dizer, será inútil ou sumamente desinteressante.

CdL: Para você, a literatura — romances sobre sonhos e outras manifestações escondidas no subconsciente — é uma forma de terapia? Funciona?
JLP:
Não sei se funciona como terapia. São coisas que podem se parecer, mas que, de fato, são diferentes. O aspecto iniludível da presença de um bom terapeuta, que nos ouve e nos guia, não é equivalente à sensação de máxima liberdade e satisfação individual que caracteriza a composição de uma narrativa de ficção. (Isso, pelo menos, no meu caso.) Há momentos em que escrever um romance, ao longo de tanto tempo, chega a ser infernal. A preocupação com o pormenor, com o tom, com a frase nos separa das pessoas. Ao mesmo tempo, é também uma educação em como representar situações entre pessoas que são outras, diferentes da pessoa e dos valores do próprio autor. É, então, um abraço no outro e também uma reserva com relação a ele… Isso é terapia? Acho que não.

CdL: Qual a diferença do José Luiz Passos de Nosso grão mais fino para o José Luiz Passos de O sonâmbulo amador?

JLP: É a diferença entre um autor sem nenhum livro e outro com dois romances. Ou seja, cabelos brancos. Maior controle sobre o ofício. Uma responsabilidade mais vultosa frente a leitores, outros autores, amigos etc. Escrevi meu segundo romance com maior consciência da estrutura que pretendia dar a ele. Escrevi o primeiro embriagado pela realidade da morte do meu pai e pela presença de pessoas que pareciam saídas de uma noite muito longa. O primeiro é uma poesia. Ainda me agrada muito. Mas agora está mais distante e, de certa maneira, voltou a ser um segredo, inclusive para mim.

CdL: Para um autor, quais as principais diferenças entre publicar livros com ensaios e livros com romances?

JLP: É a diferença entre narrar um gol e chutar a gol. Em ambos os casos, é possível ter prazer e encontrar companhia interessante. São práticas relacionadas. Há quem considere não haver diferença entre ambas, mas acho isso um pouco exagerado. Gosto de escrever ensaios e ficção. Gosto, particularmente, da sala de aula, onde, creio eu, locução e gol dão as mãos. Os ensaios que escrevo derivam das aulas que dou. Ensino literatura e ensino, mais recentemente, escrita criativa. Lendo os escritores de que gosto e os trabalhos dos meus alunos — acho eu — aprendo a escrever melhor. Então, são práticas relacionadas, dão gosto, mas não vejo necessidade de confundi-las ou forçá-las numa hierarquia.

CdL: Alguns autores cuidam das suas obras como mães cuidam de bebês, são resistentes à críticas e as enxergam de forma um pouco distorcida, enquanto outros, no outro extremo, mal falam sobre elas e as deixam soltas no mundo, por assim dizer. Qual a sua relação com suas obras?

JLP: Sou autor recente. É cedo para falar de uma suposta relação autoral, já constituída, com as minhas obras… Claro que é incômodo receber uma crítica negativa. Mas é incômodo também quando o objeto da crítica é a forma como dirigimos, fazemos um bolo ou damos um beijo. Ao mesmo tempo, se uma objeção de imediato destruir o escritor, alguma coisa faltava nele — independentemente da razão da crítica. Procuro deixar os meus livros em paz, e dar a eles o apoio que necessitam para ir adiante, sem desaparecer no horizonte dos leitores. São, sim, de certo modo (para usar a sua imagem) como filhos: mimá-los é uma forma de arruiná-los pela cegueira; mas abandoná-los por conta própria também é muito cruel.

CdL: Se você pudesse escolher, viveria só de escrever livros? Por quê?
JLP:
Viver apenas de escrever livros é uma ideia tentadora. Mas acho que sentiria falta da sala de aula. Hoje passei o dia ensinando Osman Lins e Sérgio Sant’Anna. O debate com meus alunos americanos — muitos dos quais liam esses autores pela primeira vez — foi um prazer imenso. Depois, discuti os contos da minha turma de escrita criativa. Outro prazer imenso. Ora, acho que grande parte do sentido dos livros que lemos e queremos escrever está aí, não? Na divisão do bolo. Na conversa sobre o bolo. No consumo dele como se fosse uma festa. Viver “só de escrever livros” é talvez abrir mão de uma parte gostosa dessa festa. Uma parte com pé no chão e menos pompa.

CdL: Quais as suas principais referências literárias?

JLP: Mudam sempre. São as que ando lendo. Esta semana, como disse, além de Osman Lins e Sérgio Sant’Anna, participei de uma oficina de tradução em que discutimos Machado de Assis e Ricardo Lísias. São, sem dúvida, referências. Outras, além das brasileiras: olho para a minha cabeceira e lá estão os “internacionais” que ando lendo: Hilary Mantel, Hans Magnus Enzensberger e Steven Millhauser. Uma inglesa, um alemão e um americano, todos contemporâneos. As referências mudam. Se não mudassem, não haveria diferença entre elas e um tijolo, ou um credo que se recita sem nenhuma consciência.

CdL: O que é um grande escritor? E um grande livro?

JLP: Se eu tivesse essa grande resposta, escreveria um grande livro sobre esse grande tema.

Read Full Post »

Panorama do setor, cobertura do mercado livreiro e o que Cinquenta tons de cinza pode nos ensinar sobre incentivo à leitura

Por Igor Antunes Penteado

A Bienal Internacional do Livro de São Paulo encerrou sua 22ª edição no último domingo, 19 de agosto, no Pavilhão de Exposições do Anhembi. Segundo dados da organização, nos 34 mil metros de exposição, o evento terminou com um saldo de mais de 750 mil visitantes – 123 mil apenas no último sábado (18/08), um recorde histórico.  De acordo com o que afirmou a presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Karine Pansa, essa edição pode ser considerada “o maior encontro literário da América Latina” e evidencia que a “leitura continua crescendo no interesse da população”.

Outros dados da CBL apontam que a Bienal conseguiu trazer a São Paulo cerca de 1.180 autores – 18 deles internacionais -, contou com aproximadamente 1.829 lançamentos de livros, recebeu a visita de 120 mil alunos das escolas públicas e particulares, vindos da capital e interior do Estado de São Paulo, e obteve presença destacada nas redes sociais, com 84,7 mil “curtidores” no Facebook (que geraram 12 mil compartilhamentos) e 17,3 mil seguidores no Twitter (com dois mil retweets até o sábado 18/08).

Nesta 22ª edição, o tema central foi “Livros transformam o mundo, livros transformam pessoas”, mas será mesmo que esses números revelam o cenário brasileiro ou tratam-se apenas de um recorte positivo e inverossímil da nossa realidade?

Panorama

De cara, recentemente, tivemos a publicação de diversos dados sobre a preocupante situação brasileira em termos de leitura, notícias como: no ensino superior 38% dos alunos não sabem ler e escrever plenamente, brasileiro vai cada vez menos às bibliotecas, Brasil enfrenta o desafio de formar novos leitores  e cerca de 75% dos brasileiros jamais pisaram em uma biblioteca. Há também a cada vez mais nítida e acentuada segmentação do setor, com dados como os de que cresce o número de títulos e caem tiragens de livros no Brasil.

Nesta realidade, durante a Bienal, foi lançada a obra Retratos da Leitura no Brasil, livro homônimo à pesquisa apresentada em março e que compila seus principais dados. Coordenada pela socióloga Zoara Failla, a iniciativa traz artigos de pesquisadores, escritores e de profissionais do governo, de entidades do livro e de organizações do terceiro setor acerca dos mais variados temas abordados no levantamento que ouviu, em 2011, 5.012 pessoas de 5 anos ou mais, moradoras de 315 municípios. Traz ainda os números da pesquisa e gráficos comparativos, apresentando um mapa do comportamento leitor brasileiro – o que lê, quando e onde lê, por que lê.

Entretanto, o principal dado que a pesquisa mostra é nossa sensível deficiência no estímulo à leitura. Não só no sentido de ensinar as crianças a juntar letras e formar palavras e frases, mas incentivá-las e transformá-las em leitores críticos, que terão prazer em ler um livro de literatura e que continuarão buscando novas leituras quando saírem da escola e não forem mais obrigadas a ler. Melhor retrato disso é que o índice de leitura do brasileiro é de quatro livros por ano segundo a pesquisa, mas, quando excluímos as obras indicadas pela escola, ou seja, quando consideramos apenas a leitura espontânea, chega-se ao risível índice de pouco mais de um livro por ano.

É, o cenário não parece positivo, apesar do incentivo que o governo federal tem mostrado quanto ao assunto, como o Plano Nacional do Livro e da Leitura – PNLL, instância interministerial do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, para o qual a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, anunciou em abril investimentos de R$ 373 milhões em ações situadas em quatro eixos estratégicos: democratização do acesso, fomento à leitura e à formação de mediadores, valorização institucional da leitura e fomento às cadeias criativa e produtiva.

Outro cenário que parece positivo é mostrado pela pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) sobre o mercado editorial do Brasil, que apontou que os brasileiros compraram cerca de 469,5 milhões de livros em 2011. Contudo, em debate virtual entre os autores deste Canto dos Livros, surgem ainda mais questionamentos sobre os números. Um exemplo é que boa parte dessas vendas é feita para o governo. “Isso significa que, teoricamente, os livros estão chegando a escolas e bibliotecas, mas não necessariamente na mão dos leitores”, argumentou Rodrigo Casarin.

Já João Dutra foi ainda mais fundo na questão, e a analisou sob o ponto de vista econômico. “Lembro que vi manchetes em cadernos de Economia dizendo que a Classe C agora compra carro importado, faz cruzeiro, consome luxo… e como isso impactou no crescimento desses mercados. Mas não me lembro de ter visto nada sobre a Classe C comprar mais livros. Imagino que esse [pequeno] aumento na compra de livros provavelmente deva ter vindo de quem já comprava antes”, salientou.

Dentro disso, é imprescindível acabarmos com o conceito de que o brasileiro não lê por problemas econômicos – com a falácia de que o livro é caro, desconstruída brilhantemente aqui – e analisarmos a própria indústria do livro, o que ela tem oferecido, como divulga seus produtos e como tem pautado sua produção meramente sob o ponto de vista mercadológico.

Mercado Editorial e suas nuances

Na sexta-feira (17/08), a Bienal realizou o encontro “A Cobertura do Mercado Editorial Pela Imprensa”, com as participações de Antoune Nakkhle, jornalista e diretor de comunicação da assessoria de comunicaçãoespecializada em livros e cultura Parceria 6, Luiz Costa Pereira, jornalista, doutor em filosofia e educação pela USP, criador e editor da revista Língua Portuguesa (Editora Segmento), e de Rinaldo Gama , também jornalista e editor do caderno Sabático – Um tempo para a leitura, do jornal O Estado de S. Paulo.

Durante a conversa, sob mediação de Guilherme Loureiro, os três discutiram o quanto a imprensa influencia – ou deveria influenciar – positivamente no hábito de leitura da população. Até porque, intrinsecamente, Literatura e Jornalismo têm a mesma origem, como lembrou Rinaldo. “Literatura é um conceito recente. Ambos são e derivam da arte da escrita. No final do século XIX e início do século XX, era o jornal que publicava literatura e ajudava a popularizá-la. Claro, popularizava dentro do contexto histórico de analfabetismo da época”.

O editor do Sabático também lembrou que a nossa realidade ainda é calcada no fato de que só a obrigatoriedade é capaz de estimular os alunos a lerem. “Nossa sociedade é acostumada com a leitura compulsória, quando as pessoas são obrigadas a ler. Pesquisas mostram que alunos da universidade leem mais no primeiro ano do que no último, o que é no mínimo estranho”, afirmou Rinaldo. Já Luiz Costa Pereira lembrou outra de nossas deficiências. “Hoje o Brasil tem muito mais editora do que livraria. Só pra ter um exemplo, o estado do Acre inteiro tem apenas uma livraria” disse ele.

Outro aspecto bastante discutido durante o encontro foi o papel da imprensa especializada no incentivo à leitura. Todos os participantes foram unânimes em concordar que a imprensa é importante – e não desaparecerá tão cedo –, já que as pessoas desenvolveram o hábito de precisar de alguém que diga o que consumir, já que hoje a literatura é vista também, e principalmente, como uma forma de entretenimento. “A imprensa de hoje é uma espécie de curadoria, que diz o que é legal ou não. Só que o problema é que tem tanto lançamento que não tem como dar tudo. Aí, claro, existem as apostas óbvias, como um lançamento de um escritor consagrado, e fica difícil achar bons autores novos”, confidencia Luiz.

Ele também destacou que a vastidão de conteúdo que pode ser encontrado na internet ajuda a fazer com que o trabalho de quem cobre o setor de livros seja mais aprofundado. “Se eu for falar de um livro do Machado de Assis, eu não posso ficar falando da vida e da obra dele, porque isso já tem na internet. Mais e melhor. Eu tenho que fazer uma crítica que envolva muitos outros aspectos”.  Entretanto, no Brasil, o relacionamento entre editores e jornalistas ainda encontra dificuldades, como parece ser a tônica de todo o setor.

Relação mercado editorial X imprensa

“’Se meu livro é bom, por que eu vou anunciar? Vão dar de qualquer jeito nos suplementos dedicados à literatura mesmo’. Esse é o pensamento do editor”, diz Rinaldo Gama. Segundo ele, as editoras até hoje não têm a tradição de serem anunciantes como outros seguimentos da cultura cultivaram e, assim, a divulgação de lançamentos fica quase exclusivamente por conta das resenhas e críticas. Quem fez coro nesse sentido foi o assessor Antoune Nakkhle, que disse encontrar severas dificuldades de abertura do mercado editorial ao relacionamento com os jornalistas.

Segundo ele, 99% dos editores não entendem que é necessário oferecer um PDF, mesmo que ainda sem os ajustes finais, 30 dias antes do lançamento de um livro para o jornalista trabalhar em cima do material. “Eu trabalho com o outro 1%”, brincou Antoune. Ele também destacou que os editores querem garantias de que, estabelecendo uma relação com a imprensa, seus livros serão com certeza divulgados, o que nem sempre é possível. “O cara quer que eu dê garantias de o que o livro dele vai sair no jornal, e isso eu não tenho como fazer. O que eu sinto é que o editor tem uma expectativa diametralmente oposta a dos jornalistas que cobrem livros. A mentalidade tem que ser de que se deve dar o livro porque ele é bom e você acredita nele, não só pra vender”, postulou.

Mas o assunto mais discutido entre todos – e também certamente o mais polêmico – foi a questão da qualidade do que tem sido publicado.  Essa discussão girou dentro do tema de um excelente questionamento feito pelo Rodrigo (colega e idealizador aqui do Canto) há uns meses atrás, sobre se as livrarias andam sendo frequentadas por mais leitores ou por simples consumidores de livros, e que também deu ideia para este post. Para Rinaldo Gama, essa conversa deve começar, necessariamente, com uma ressalva. “É importante lembrar que nem tudo o que se publica em livro é literatura, como nem tudo que se publica em jornal é jornalismo. Muitas vezes trata-se de outro tipo de expressão que usa o mesmo ferramental”, definiu.

Seguindo na mesma linha, Luiz Costa Pereira concordou com Rinaldo, mas ampliou um pouco mais a discussão, ressaltando que um best seller, ainda que de qualidade duvidosa, merece sim atenção, o cuidado que deve ser tomado é com o tamanho da importância que se dá ao fato. “Um livro vender muito, quantidades fora dos padrões, é um fato cultural que eu, como jornalista, não posso dar as costas. A questão é a relevância que você dá a ele”, explicou. Para exemplificar ainda melhor, Luiz lembrou um fato que, segundo ele mesmo, até hoje não sai da sua cabeça. “Nunca me esqueço do dia em que o Jornal Nacional exibiu uma reportagem de dez minutos sobre o nascimento da filha da Xuxa e, no mesmo dia, apenas dois minutos sobre a privatização da telefonia no Brasil”. Segundo ele, é essa a dosagem que o jornalista tem de ter.

Sem discordar completamente dos companheiros de debate, Antoune, entretanto, defendeu a importância de todo tipo de livro ser, sim, discutido e divulgado na imprensa. “Quem sustenta uma editora é quem compra o livro que não é literatura, principalmente autoajuda e livros técnicos. Isso é fato”, provocou. E, mesmo afirmando que sua empresa cresce devagar porque “não trabalha com lixo”, disse que atende também a todos estes segmentos.

Aqui chegamos a uma outra discussão, que já foi proposta por aqui antes, mas que creio estar longe de ser esgotada. Qualquer tipo de leitura vale para incentivar este hábito nas pessoas? Leitores que são formados através de livros que nada tem a acrescentar podem migrar pra leituras mais complexas? Devemos continuar a criticar livros de qualidade duvidosa mesmo sabendo de sua extrema importância para a saúde financeira das editoras, inclusive para a viabilidade de toda a sua produção?  Fato é que a Bienal do Livro 2012, pra mim, parece ter encerrado deixando mais perguntas do que respostas. Mas quem disse que isso é ruim, não?

*Nota do Autor. O livro Cinquenta tons de cinza foi usado no subtítulo do texto simplesmente como exemplo recente de um best seller que sofreu duramente nas mãos da crítica especializada. Entretanto, este exemplo poderia conter outros tantos nomes. Vale lembrar que essa iniciativa não significa um pré-julgamento meu (que não li o estrondoso sucesso da inglesa E.L. James) e tampouco dos outros autores deste Canto dos Livros.

Read Full Post »

Por toda equipe.

Andréa del Fuego é uma daquelas escritoras que pode fazer parte de qualquer seleção de novos autores brasileiros. Entretanto, o seu primeiro romance, Os Malaquias, proporcionou-lhe já de cara o Prêmio José Saramago, em 2011, o que a coloca também no patamar de autores de quem podemos esperar desempenho digno dos grandes nomes de nossa literatura a cada nova obra lançada. Andréa tem 36 anos e escreveu também a trilogia de contos Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu, além dos juvenis Sociedade da caveira de cristal e Quase caio. Na conversa abaixo, falamos sobre seu inicio nas letras, o peso de um prêmio como o Saramago e Os Malaquias, claro. Confira:

Canto dos Livros: Você começou a carreira de escritora escrevendo, entre outros,  contos eróticos. Como é escrever esse tipo de texto? Da onde vem a inspiração para construí-los? Qual o limite entre o erotismo e a pornografia?

Andréa del Fuego: Escrevia contos eróticos no final da adolescência, foi a experiência de morte na família que desviou meu foco para algo bem maior que o encontro erótico. A pornografia é um estímulo maior que o estímulo erótico, esse é mais subjetivo, anuncia sem mostrar, o que tem mais elo com a literatura. Acreditava que o erotismo tivesse a maior força da existência, ele tem força mesmo, mas a morte é invencível.  Já no meio do primeiro livro de contos, que era erótico, minha rota já estava fazendo a curva, as perdas e desencontros já faziam pressão. O erotismo é justamente encontro, o contrário.

CL: Em que os contos eróticos servem para uma evolução da técnica de quem os escreve? Você ainda pratica esse tipo de literatura? Por quê?

AdF: Não tenho escrito contos eróticos, esse tema não é mais protagonista. Gosto de um conto que escrevi recentemente, “Francisco não se dá conta”, em que um aposentado tem um caso amoroso com um bancário, o mais perto do sexo que há é uma cena em que eles tomam banho juntos e o velhote faz xixi na banheira, ou quando repousam o prato de comida no chão para deixar rolar. Acho que a evolução da técnica tem pouco a ver com o gênero da escrita, mas com as horas de voo desse gênero ou de qualquer outro. É preciso escrever muito, pra jogar muito texto fora.

CL: Entrando agora em Os Malaquias, os personagens são uma das maiores forças desta obra. Como você lida com eles? Qual a sua reação ao ver um deles morrer, por exemplo?

AdF: Eles são meu parentes, literalmente. Morreram no decurso da escrita do livro, literalmente. A relação com esse livro é como se ele fosse um filho, agora que acabei de parir, posso comparar a isso mesmo, há uma ligação sanguínea e ancestral com os personagens. Trata-se de um álbum do fotografias que encontrei em um baú e que visitarei até o fim.

CL: Os Malaquias pode ser considerado uma obra de realismo fantástico, já que boa parte da história é baseada na vida de seus bisavós. Em um livro assim, como funciona o trabalho de pesquisa histórica? Ela existe ou você simplesmente usa os elementos que já domina da história com complementos de ficção? Como funciona essa costura de realidade e fantasia?

AdF: Nenhuma pesquisa, há invenção, intuição e delírio. Bem delírio mesmo, a ponto de ter que cortar minha tendência poética para não deixar tudo ainda mais delirante. No corte do texto, fui eliminando a poesia gratuita, aquela de passagem que dá vontade de escrever porque o personagem inspira, fui ficando seca na técnica para que o delírio da história ficasse “comestível”.

CL: O seu texto é marcado por frases curtas, quase sempre diretas e com raros excessos de palavras. Quais foram as suas principais influências para que chegasse a esse estilo?

AdF: Ler Machado de Assis, ele é um detox da linguagem. Lá está ele escrevendo sem nenhuma palavra sobrando, assim como Graciliano Ramos. Até Guimarães Rosa, com aquele derrame de linguagem, não deixa sobrar nada.

CL: No que você se inspira para criar as ambientações dos seus textos?

AdF: O cotidiano, adoro o cotidiano mais prosaico, um ponto de ônibus, um sofá com televisão, um almoço qualquer.

CL: O que significa ganhar o Prêmio José Saramago já no seu romance de estreia para o mundo adulto?

AdF: O prêmio deu-me coragem para escrever assim como escrevo, como se me desse carteira de habilitação para o que já faço. Ao mesmo tempo, é uma espécie de fiscal que me acompanha dizendo que daqui por diante, que eu tome tenência e não publique qualquer coisa.

CL: Sempre que uma mulher vence um prêmio, ou ganha destaque por qualquer que seja sua atuação profissional, começam a ser inseridas questões de gênero no acontecimento. Você não acha que essa prática sistêmica de ficar dividindo “meninos e meninas” já cansou? Você já sofreu com algo nesse sentido?

AdF: Nunca senti isso. E não sinto de propósito, a mulher já é um adulto civil, não há um motivo sequer para que a mulher não faça o que quer e precisa fazer. Há direitos ainda a ser conquistados, mas o espaço já está dado, é hora e obrigação de ocupá-lo.

CL: Ainda sobre esse assunto, você está participando da antologia 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. É, sem dúvida, uma grande oportunidade das autoras mostrarem suas caras e seus trabalhos, mas não acha que projetos assim só fazem reafirmar essa questão de gênero?

AdF: Essa antologia foi muito importante, revelou muitas escritoras. É só não classificá-la demais, tirá-la da prateleira da literatura para a prateleira da antropologia.

CL: Tivesse você a chance de escolher o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2012, para quem ele iria? Por quê?

AdF: Um brasileiro, quem sabe o Dalton Trevisan que acabou de levar o Camões, justamente por ser um contista, e por não cultuar a própria imagem em eventos e convescotes.

Read Full Post »

Por Rodrigo Casarin

Está aí o verão. Principalmente nesta época do ano, é difícil passarmos um dia sem ver na tevê, escutar no rádio ou ler em alguma revista ou site alguém falando sobre como cuidar do corpo. A ordem é clara: todos precisam estar em forma. Ser saudável não basta, é preciso ser sarado. É preciso que seu corpo esteja de acordo com os padrões de beleza atuais, nada de se achar bonito apenas por seguir critérios renascentistas. Ter uma barriga passa a quase ser um crime. Se ainda o barrigudo for flagrado se deliciando com uma bela porção de calabresa acebolada e um tonel de cerveja, aí o julgamento e a acusação são inevitáveis: precisa se cuidar mais.

E ta lá no programa das 13h20: tome suco de clorofila com jaca para diminuir a barriga; na revista semanal: corra 150km por dia e coma apenas mato para atingir o corpo perfeito; na Internet: plante a própria melancia e conquiste o corpo da mulher fruta da estação… É um policiamento constante, uma lavagem cerebral permanente.

Claro que ter um corpo saudável é importante, contudo, não é isso que pregam, não se enganem. Basta ver a quantidade de pessoas que tomam diversos tipos de substâncias maléficas ao ser humano apenas para atingir os formatos que nos empurram goela abaixo como sendo os ideais. Agora, se fingem querer que todos tenham uma saúde impecável, por que não desejam o mesmo para o cérebro?

Que interessante seria se assistíssemos na televisão, ouvíssemos nas rádios e lêssemos em qualquer canto sistematicamente coisas do tipo: “Você precisa ler mais, é importante para o seu cérebro”, “Não dê opiniões sem fundamentações básicas, estude o assunto antes de meter o bedelho”, “Ache o que quiser, mas saiba embasar os seus achismos”. Poderiam criar programas, que passariam no horário nobre, com dicas de leituras e debates sobre obras consagradas. Com o tempo, as pessoas se acostumariam com nomes como Tolstoi, Philip Roth, Gabriel Gárcia Márquez, Cristovão Tezza ou Jorge Luis Borges. Ficariam íntimas de Ryszard Kapuscinski e Charles Bukowski. Não estranhariam aquele gordo que continua comendo feito um porco, mas qualquer um que não saiba o mínimo sobre Dostoievski.

Obviamente outros programas abordariam outras manifestações artísticas. Os filmes enlatados dos Estados Unidos dariam lugar a verdadeiras obras de arte. Menos Spielberg, mais Ricardo Darín, Almodóvar e Lars Von Trier. Em seguida, discussões sobre as obras e como elas se encaixaram no contexto da época em que foram filmadas. Outras formas de se expressar também teriam seu lugar, tudo para que o cérebro de cada um seja realmente desenvolvido.

Alguns bons anos depois, teríamos muito mais pessoas cultas e verdadeiramente inteligentes por aí, com real capacidade para lidar com os problemas, com uma dimensão muito maior da realidade, que saberiam conviver muito melhor com as diversidades e respeitar o próximo. O próximo, esse sim, poderia ser gordo, magro, tanto faz, desde que saudável. Saudável de corpo e, principalmente, de mente (com o perdão do cacófato).

Read Full Post »

Um dos livros nacionais mais elogiados pela crítica nos últimos anos, Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, além de ter um grande valor literário, também é uma grande diversão para o leitor – e sabemos que quando algum livro agrada aos críticos, muitas vezes ele é um porre para os míseros mortais, não é mesmo!?

Como o nome já indica, a história é praticamente uma epopeia pornográfica. A obra é dividida em duas partes. A primeira, de uma intensidade fantástica, com cenas, cenários e diálogos muito bem trabalhados, passa-se na cidade de São Paulo. Ou melhor, em uma espécie de submundo da metrópole. O personagem principal é Zeca, um anti-herói que cativa o leitor já no começo do texto. O cara bebe, fuma, cheira, não é nem um pouco chegado a trabalho, não está nem aí para a esposa, mostra raras preocupações pelo filho, não desperdiça nenhuma oportunidade de comer uma mulher, vive passando a perna no cunhado e, ainda assim, é extremamente carismático, surpreendentemente humano.

Tal estilo de vida acaba envolvendo Zeca em uma série de complicações, e aí que a história em si começa a realmente se desenrolar. Após uma intensa noite de bebedeira, sexo e muito nariz na farinha, o protagonista resolve passar uma temporada em Ubatuba – e aqui chegamos na segunda parte da obra. Vai para o Litoral para espairecer sobre alguns problemas pontuais, mas lá descobre que sua vida está muito mais complicada do que poderia supor.

Na praia, desacelera. Durantes algumas semanas, leva uma vida bem mais tranquila, longe do pó, tomando apenas alguns gorós e fumando poucos baseados. Começa a curtir o estilo de vida praiano, enquanto a sua vida só piora em São Paulo. Contudo, a necessidade de sexo acaba fazendo com que Zeca arrume confusões – e, durante algum tempo, soluções – também em Ubatuba.

Atualmente, qualquer livro repleto de sexo, drogas e com a história completamente focada em um ponto de vista bastante masculino (que beira o machismo) é automaticamente comparado às obras de Bukowski. Com Pornopopéia não é diferente. Contudo, enquanto o Velho Safado atingia o seu ápice em rapidinhas (contos), Reinaldo Moraes domina com maestria a arte do sexo tântrico, e mantém a relação – nem sempre ereto, é verdade, mas ainda assim mostrando presença – ao longo de 660 páginas.

Em alguns momentos a lembrança de Nelson Rodrigues também é inevitável, principalmente quando relacionamentos “proibidos” ocorrem. Há passagens deste tipo, inclusive, nas quais Moraes utiliza um vocabulário próximo ao do Anjo Pornográfico (o famoso ululante, por exemplo). Talvez isso não seja apenas uma coincidência, mas um exemplo do domínio que o autor tem do texto, que levou anos para ficar pronto.

O final de Pornopopéia poderia ser um pouco melhor, contudo isso está longe de ser um problema em um livro que nos brinda constantemente com passagens do tipo. “Lá vai a tarde entrando em preguiçosa agonia no horizonte líquido desse lugar comum à beira-mar. Olha só que poesia tem essa frase. Má poesia, mas poesia assim mesmo. Eu conseguiria viver sem poesia. Aliás, eu vivo sem poesia, Não conseguiria é viver sem buceta. E estou vivendo sem buceta”.

No lugar de Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa ou Graciliano Ramos (como fazem – ou ao menos tentam – as escolas), dê Pornopopéia na mão de um moleque de 15, 16 ou 17 anos. Quero ver se ele não se apaixonará por Literatura.

Livro: Pornopopéia

Autor: Reinaldo Moraes

Editora: Objetiva

Páginas: 660

Read Full Post »

Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: