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Posts Tagged ‘Mardi Grãs’

Por Fred Linardi

zeitounO absurdo é um privilégio que a realidade tem sobre a ficção. Em literatura de não ficção diversas vezes essa ideia vem à tona: se fosse uma história inventada, seria muito difícil de convencer. Essa ideia ecoa o tempo todo no livro Zeitoun, de Dave Eggers, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Foi o primeiro contato que tive com esse escritor cujas publicações até então abarcavam principalmente a literatura ficcional, exceto por O que é o quê?. Antes de folheá-lo, tampouco entendi seu título, o que se esclareceu assim que li a sinopse desta grande-reportagem que conta a história de Abdulrahman Zeitoun, um morador de Nova Orleans que vivenciou os dias em que a cidade ficou submersa após a passagem do furacão Katrina, em agosto de 2005.

Quando digo que seria absurdo demais para ser uma ficção, não me refiro apenas aos desdobramentos que misturam num ambiente hostil provocado por um desastre natural ao lado da reação não menos trágica por conta das decisões políticas de um governo cego por suas próprias neuroses, preconceitos e autoritarismo – isso tudo seria de fato um tempero à la Kafka, como indica uma das citações estampadas da quarta capa do livro. De fato, os desdobramentos, capazes de fazer a leitura acelerar na medida em que as águas do mar sobem a cada metro da cidade, fazem com que o leitor corra rapidamente pelas páginas acompanhando passo a passo, remada a remada, a inédita rotina de um homem ilhado em Nova Orleans. Provável também que leitores se lembrem de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. O clima vai ficando cada vez mais – e mais uma vez – absurdo.

Sim, os estragos do Katrina e do governo Bush dão uma ótima trama, mas o grande trunfo do livro é a percepção de Eggers ao encontrar a história da família Zeitoun, tomando-a como um dos exemplos do que aconteceu com centenas de pessoas como eles. E eis o perfil dos personagens: Abdulrahman Zeiton veio da Síria para os Estados Unidos e conheceu Kathy, uma americana de Baton Rouge, capital do estado de Lousiana. Ela, que já tinha uma simpatia pelo islamismo, acabou caindo nas graças daquele imigrante, converteu-se e se casou com ele. Foram para Nova Orleans, onde ele começou a exercer sua inteligência como mestre de obras, cuidando, reformando e restaurando acabamentos das casas de seu bairro e de outros. Sua reputação foi rapidamente comprovada pelos clientes que aumentavam a cada ano, prosperando e fazendo com que Kathy se tornasse também sua companheira de empresa. Trabalhavam de segunda a sábado – e às vezes também aos domingos. Prezavam pela beleza das casas, escolas, igrejas, escritórios, que um dia um furacão de grandes proporções haveria de destruir.

O livro não se debruça em ironias como essa: um muçulmano cuidando dos prédios de um país que teme a destruição pelos muçulmanos. Não é preciso fazer analogias como essa. O que vale é apresentar de maneira natural o cotidiano normal de algo que todos sabemos que sairá de controle em breve. Aliás, se existe uma sutileza neste livro ela está exatamente na maneira que Eggers escolhe para narrar, mostrando um discurso próprio de bons romancistas, como acontece neste trecho em que a tragédia ainda não aconteceu e estamos apenas conhecendo a rotina do casal Zeitoun e de seus filhos Zachary, Nademah, Aisha e Safiya. Na cena em que a mãe os põe para dormir, contando histórias e os aconchegando duas noites antes do furacão possivelmente chegar à cidade, nos deparamos com este terno momento: “Mais tarde, depois de dar um beijo de boa-noite em Zachary, Kathy se deitou na cama de Nademah e as meninas se acomodaram à sua volta, provocando uma confusão de membros e travesseiros sobrepostos.”

Enquanto temos um marido confiante de que aquele seria mais um alarde precipitado, como acontecia todos anos – de que o furacão perderia força no Golfo do México – Kathy, por via das dúvidas, deixa a cidade com as filhas. O autor também sabe construir bem a ideia de família sólida – talvez retratada como feliz e perfeita demais para ser verdade. Mas o fato é que entramos na vida dos Zeitoun pré-furacão com a crença que tudo poderia acontecer com eles, mas não uma tragédia. Eles já superaram preconceitos sociais, religiosos, culturais e não merecem que algo de ruim lhes aconteça. Mas o Katrina chega para desafiar a aura feliz de pais e filhos exemplares que os Zeitoun são. Assim como aquela cidade, conhecida pelo Mardi Gras, pelo seu jazz e seus blues, terá sua atmosfera calorosa e festeira arranhada pela violência às quais os moradores remanescentes da evacuação estarão vulneráveis.

A partir de então, temos uma narrativa que se alterna com o olhar da esposa vendo notícias sobre a cidade, enquanto o marido vê apenas o que seus olhos conseguem alcançar, já que a energia elétrica seria interrompida não muito tempo depois da destruição dos frágeis diques. Outro jogo do acaso: Zeitoun vem de uma família de pescadores e trabalhadores marítimos e, pelo fascínio pela água, havia comprado um bote para usar em horas de lazer, a contragosto da esposa. É neste bote que ele sai remando pelas ruas de seu bairro. Em casa, tenta vedar as goteiras e protege os álbuns de fotos. Enquanto isso, constantes flashbacks nos levam à história das famílias de origem do casal.

Os fatos que se sucedem abrem espaço para uma crítica contundente em diversas passagens do livro, principalmente no que se refere às decisões de um país com medo de ataques terroristas numa cidade devastada por um desastre já consumado e consumindo mais vidas a cada dia, enquanto militares procuram por saqueadores e bandidos em detrimento das vítimas.

Apesar do livro de quase 400 páginas ser dividido em apenas cinco capítulos, a quantidade de respiros e alternância de cenas abrandam a leitura (e, prepare-se, pois o enredo fica cada vez mais denso e crítico). Qualquer descrição além deste início dramático se trataria de spoiler, e um dos prazeres de se ler essa história temperada por atitudes desastrosas e maldosas é – assim como os Zeitoun – não saber o que acontecerá nas horas e nos dias seguintes.

A estrutura deste livro-reportagem parece feita já para ser adaptada ao cinema. E de fato ele já se encontra em pré-produção, sob direção de Jonathan Demme. Diante do sucesso que filmes biográficos têm feito, há de se vislumbrar que o mesmo aconteça nas mãos deste competente cineasta. Enquanto isso não acontece, temos um livro com qualidade literária, aprofundamento de pesquisa e registro da história vivenciada por uma família. Registro este que confirma o pensamento e as atitudes políticas e sociais de uma democracia falha em momentos de crise, que marcaram a primeira década do ano 2000 nos Estados Unidos, mas que na verdade, mostra-se uma constante cultural de um país que se diz uma nação de cidadãos livres.

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