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Por Alberto Nannini

cuba_minha_revolucao_capaNa resenha anterior, comentei que havia lido duas obras sobre Cuba: “A casa dos náufragos”, de Guillermo Rosales, e “Cuba – Minha revolução”, de Inverna Lockpez e Dean Haspiel. Pretendia naquela ocasião utilizá-las para falar sobre o controverso regime cubano, mas, ante a riqueza do livro de Rosales, a resenha foi toda baseada nele, e falou sobre a loucura.

Agora, retomo a proposta original, resenhando a segunda obra e utilizando ambas para tocar no assunto bem espinhoso: o regime imposto por Fidel Castro.

Cuba – Minha revolução

A sinopse da obra, uma graphic novel, diz:

Quando Fidel Castro toma a cidade de Havana no despertar do ano de 1959, Sonya – então com 17 anos – acredita nas promessas da Revolução Cubana. Estudante de medicina que sonha em virar pintora, ela junta-se à milícia e acaba presa entre o idealismo e a ideologia. Como voluntária na Baía dos Porcos, ela se choca ao encontrar um antigo amor do outro lado do campo de batalha, e mais ainda quando é presa e torturada pelos seus próprios camaradas. Com cicatrizes físicas e emocionais, Sonya tenta encontrar satisfação na arte. Mas, quando se dá conta de que nenhuma de suas iniciativas – seja com uma arma ou um pincel na mão – se enquadra no novo regime, ela precisa fazer escolhas entre sua família, seu amor e seu amado país. Ilustrada pelo artista indicado ao prêmio Eisner, Dean Haspiel (The Alcoholic), esta história é baseada em fatos reais.”

Publicada pela Panini Books, é caprichada: capa dura, papel couchê, e colorida em quatro cores: branco, preto, e tons de vermelho e cinza. Os desenhos são excelentes, e comunicam muito além do texto, como toda boa obra de quadrinhos: enquanto a narradora divaga ou recorda, as ações desenhadas podem mostrar outras ações.

Aliás, um parênteses: imagino que leitores deste blog não tenham preconceito com quadrinhos – literatura da melhor qualidade vem nesta forma, como provam os livros Fun Home, Maus, Escalpo e diversos outros. Mas, caso haja em você alguma resistência, este livro é um ótimo remédio para quebrá-la: uma história fechada (em volume único), interessante, perfeitamente equilibrada e muito incrementada pelo meio escolhido para contá-la.

Voltando, leia e embarque na vida de Sonya: testemunhe o que é viver a gênese de uma revolução, passar por mudanças radicais e veja o quanto isso vai afeta-la e a todos que a cercam.

Engajada e prisioneira

Idealista, a personagem rememora seus 17 anos, quando Cuba ainda estava sob o jugo de Fulgêncio. A mãe dela, muito bonita, é fútil; o padrasto, um sujeito prático; e o pai, russo e mais distante, médico.

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERASonya não se conforma em apenas assistir a revolução iminente. Quando o carismático Fidel Castro sobe ao poder e profere seu 1º discurso em rede nacional, em 8 de janeiro de 1959, ela se decide: vai se alistar na revolução. Suas ambições em ser uma artista ficarão em segundo plano – se tornará médica, para melhor servir à causa.

Como voz de fundo, vão aparecendo as consequências do novo regime: o comércio do padrasto vai à falência, e depois, todos os outros comércios são fechados; os revolucionários passam por treinamento de guerrilha, e médicos, como ela, não podem atender prisioneiros; muitos fogem do país, e o estado de guerra prossegue.

Há também uma história de amor, perdida e reencontrada, como conta a sinopse. O inferno de Sonya está só começando. Acusada de ter amigos na agência americana CIA, é levada prisioneira, e torturada sistematicamente para confessar. Mas isso ainda não quebra sua confiança na revolução.

Quando é solta, sua irmã por parte de mãe nasceu, mas não há muita esperança. O novo governo vem se mostrando tão ruim ou pior que o anterior. Apesar de uma tintura de normalidade, que envolve um casamento, ela se divide entre continuar fiel à causa ou tentar se safar – este é o dilema que vai dar o tom da história.

Quase biografia

Embora a autora tenha utilizado uma personagem, ela conta que o roteiro foi baseado na sua vida – veja o agradecimento: “Queria agradecer ao Dean Haspiel por ter me encorajado a contar minha história”. Ainda que caiba interpretar a qual história ela se refere, esta frase, uma vez entendida dentro do contexto do livro e após algumas pesquisas, embasa essa premissa.

O mérito literário é significativo: trata-se de uma leitura fluida, apesar de contar um drama com passagens pesadas. A construção da narrativa com tintas autobiográficas tem o ritmo daqueles filmes em que o personagem mais velho conta sua história, e as passagens da sua juventude o retratam exatamente como era – no caso de Sonya, a voluntária que podia estapear alguém que contestasse o regime, ou que brigaria com quem mais ama pela revolução – e, conforme passa o tempo, retrata suas mudanças e amadurecimento.

Aliás, da mesma maneira que o livro de Guillermo Rosales, não vejo como contar uma história como esta sem muito conhecimento de causa. Ainda que não se possa determinar o quanto dela foi inventado, uma vez que a autora e a personagem são nativas de Cuba, exiladas, ex-revolucionárias, ex-médicas e artistas, parece suficiente para admitir como algo que vai além do “baseado em fatos reais”.

Talvez coubesse alguma precaução contra a amargura dos desiludidos, que, eventualmente, podem retratar seus algozes com piores tintas e características; contudo, a autora, por meio de sua personagem e alter ego, não perde tempo demonizando-os – ela foca mais sua vida e experiências, dentre as quais a revolução e seus agentes são ingredientes. De qualquer maneira, o retrato que ela dá daquele país é condizente com outras narrativas, inclusive a do já citado Guillermo Rosales, em “A casa dos Náufragos”.

Até aqui, já é possível recomendar a leitura como um drama digno de ser lido, e que ainda vai ensinar coisas sobre a ilha que só quem lá viveu saberia. Partindo disto, então, é possível aprofundar a discussão: o que há em Cuba?

Marcando posição pela liberdade

Humildemente, preciso ressaltar a falta de alcance desta resenha para retratar algo tão complexo como um dos regimes mais controversos da história recente. Mas, como todos, eu tinha alguma opinião pré-estabelecida sobre isso, e li livros (selecionados?) que a reforçou em alguns sentidos.

A virulência dos atacantes e dos defensores de Cuba sempre me impressionou. Os defensores apoiam o exemplo do regime, suas taxas de escolaridade, a resistência ao imperialismo americano, a excelência em ciência, esportes e medicina. Os detratores apontam os massacres de inocentes, a pobreza e falta de opções, o cerceamento de liberdade, o controle absoluto do Estado em tudo – dos bens de consumo aos itens básicos de sobrevivência.

Aqui, já posso marcar posição: acho a liberdade mais importante do que quaisquer eventuais benesses que o governo possa me oferecer. No regime onde fui criado, o Estado tem obrigação (nem sempre bem cumprida) de fornecer um mínimo operacional em estrutura, e de não cercear minha liberdade.

Ainda que caibam muitos senões – de diversos tamanhos – a estes reducionismos, e haja ataques mais ou menos ruidosos à liberdade mesmo nas melhores democracias, estas sempre vão me parecer melhores que as alternativas.

Uma vez que faltam opções melhores, cumpre tentar melhorar e aperfeiçoar o que se tem (que não é pouco), e aprender com os erros que os piores regimes ensinaram.

censura_das_tiraniasReis e mares de sangue

Uma lição aprendida é: tirania de qualquer espécie é ruim, não importa como ela tenha surgido. Relativizar não cabe: trocar um tirano péssimo por um “mais bonzinho” equivale a preferir ser sequestrado por bandidos corteses aos sanguinários – óbvio, mas duas péssimas alternativas de qualquer jeito. Ao se confiar em um só homem ou em um colegiado deles com poderes extremos, necessariamente se abre mão de muitas premissas: a individualidade, a liberdade, a própria vontade de se expressar e de inovar.

O tirano é um mal em si. Já disseram que os bem-intencionados são ainda mais perigosos, porque suas ações são difusas e confundem – eles oferecem algo, e tomam outro tanto, muitas vezes sem as pessoas se darem conta.

A tirania sempre assolou e continua assolando a humanidade, com várias roupagens: monarcas, caudilhos, militares e até dinastias. Pessoas que mandam nas vidas dos outros, e que, invariavelmente, acumulam o máximo de benesses para si. A lista é vasta, e inclui algumas das piores e mais danosas personalidades de todos os tempos: Pol Pot, Hitler, Mobuto, Kadafi, os Kim norte-coreanos, Mao Tse Tung, Stalin – a contagem de seus cadáveres passa da centena de milhões. E inclui Fidel, que mandou fuzilar inimigos, e que teria vastas posses, como uma ilha particular, num país onde a propriedade privada era proibida para todos os efeitos.

Mesmo assumindo um viés utilitarista, e aceitando que os governantes em geral precisam tomar decisões difíceis, que eventualmente traga sofrimento e até mortes, os erros e pecados dos tiranos não podem ser atenuados, porque eles pensam primeiramente em si mesmos e em seus apadrinhados, e porque não medem o custo de seus caprichos.

Esta é uma diferença significativa entre os regimes despóticos e as democracias, mesmo as mal estabelecidas. É verdade que há políticos tão ruins e gananciosos quanto qualquer tirano, mas a democracia não lhes dá plenos poderes, nem permite que eles os usurpem impunemente.

Esta argumentação é feita tendo em vista o defensor ferrenho do castrismo: aquele que acha que a democracia é ruim, o capitalismo é péssimo, Fidel é um grande herói e que é pena não haver algo assim por aqui. Aliás, este opositor é um tanto bizarro: ele acredita que conhece mais deste regime do que quem o viveu na pele, e até lutou por ele, como no caso de Inverna Lockpez.

Este tal defensor ferrenho acha ter maior autoridade que nativos como Yoani Sanchez, blogueira cubana que já foi presa e vivia sobre constantes ameaças, e a chama de “vendida” (segundo eles, ela teria um conluio com a CIA, agência americana). Ou seja, ele maximiza os (muitos) erros e falhas da democracia e do capitalismo, e costuma minimizar ou desconsiderar o custo da ditadura castrista e às vezes também de outras ditaduras, conforme sua orientação ideológica.

E é aí que ele erra.

males_do_socialismoMales do socialismo…

A construção do tipo “tal coisa é péssima, veja seu (pior) exemplo/ em compensação, tal coisa é ótima, veja meu (melhor) exemplo” é tão comum que se impregna em discursos bastante variados. Ufanismo vs. “complexo-de-vira-latas”, feminismo vs. misoginia, progressos vs. tradições, nacional vs. estrangeiro. O que há em comum entre estas cismas é que as posições extremas que qualquer um dos lados adotam não resistem a um exame mais apurado.

O radicalismo sempre tende a errar pelo excesso. A crítica absoluta do regime de Fidel é mais ideológica do que pensada; mas o inverso também é válido. A defesa exagerada deste chega a ser desrespeitosa, com o tanto de medo, de mortes, torturas e exílio que ele gerou.

No final das contas, tudo vai pender para simpatias pré-definidas, cismas e valores particulares. O fiel da balança vai ser aquilo que mais vale para o argumentador.

Críticos do capitalismo pregam um mundo imaginário onde todos recebam o mesmo, e tenham as mesmas oportunidades. É um dos melhores cenários – pena que a História demonstre cabalmente que ele não consegue ser posto em prática por nenhum método ou sistema inventado até hoje.

Contra o socialismo, de maneira bastante simplista, eu me questiono: ao se recompensar a todos de maneira igual pelo o que quer que façam, não parece óbvio que logo vai se perceber que não vale a pena trabalhar muito? Já que o que se obtém não está ligado ao trabalho duro, à vontade de inovar e de criar, nem há mérito em nada que se faça, tanto faz o empenho com que se trabalha.

Se a contestação é que quem pensar nisso é trapaceiro, então precisaria haver uma “solução final” para eliminá-los, porque todas as sociedades humanas (e até algumas de animais) têm os trapaceiros – aqueles que percebem que podem ficar à custa dos outros. O que me parece é que, numa sociedade comunista, a trapaça pode se tornar contagiosa.

Talvez se argumente que o socialismo ideal constrói uma sociedade onde o papel de cada um seja respeitado, e onde todos têm a mentalidade de que, dando seu melhor, todos ganham (o que, segundo alguns especialistas, resultaria no comunismo propriamente dito). Mas esta sociedade utópica não precisa ser necessariamente socialista. O capitalismo seria muito melhor assim, embora o que realmente aconteça esteja bem distante disso, como vamos ver mais adiante.

A principal falha do socialismo cubano, o que fez virtualmente ruir o regime castrista e todas as tentativas similares, não é apenas a superioridade da economia de livre mercado, mas algo que pode fazer ruir a sociedade moderna: os gananciosos homens.

Nenhum sistema dispensa homens para dirigi-los. Até a anarquia acabaria elegendo seus “cabeças”. E é aqui que a coisa realmente fede: são muitos os carniceiros que assumem o título de soberanos. Ditadores, como o próprio Fidel, nem são o pior que existe: há déspotas mais sanguinários ainda, que não se preocupam em dar qualquer contrapartida à população, a não ser aquele mínimo que os perpetue no poder, e apenas porque reis precisam de súditos e servidores. Houve e há muitos destes na África, que apenas enriquecem roubando. E há ainda a bizarra dinastia de ditadores com poderes semi-divinos na Coreia do Norte (alvo de uma das minhas próximas resenhas).

Enfim, a ganancia dos socialistas que exercem o poder não fica nada a dever aos piores capitalistas, com o agravante que seus desvios e desmandos vitimam diretamente a população que governam. Está muito bem testemunhado no livro de Inverna Lockpes este proceder.

males_do_capitalismo…e males do capitalismo

Eu tinha uma opinião rasa de que o capitalismo e a democracia eram os dois melhores sistemas possíveis, apenas sendo necessários ajustes do tamanho ideal do Estado e de sua intervenção. Pesquisei mais, e ainda acho que, combinados, formam o melhor disponível; mas as mudanças precisam ser feitas imediatamente, ou tudo que conhecemos poderá desabar.

Indícios do caos vieram com a crise econômica mundial, que levou bancos e até países ao colapso, há seis anos. Isto demonstrou o quanto o mercado é vulnerável às suas próprias liberdades e excessos. Um cenário com a economia se liquefazendo e bancos quebrando geraria pânico, aonde populações inteiras veriam suas economias sumirem, e o resultado seria um Deus-nos-acuda. Os exemplos – como a Finlândia e a Argentina – são preocupantes. Em escala mundial, isso poderia gerar uma catástrofe sem precedentes.

Porém, este não é a única falha possível: há um “bug” no sistema capitalista, só recentemente detectado, até onde eu sei. Analistas respeitavam um cenário chamado “a curva de Kuznets”, de um economista bielorrusso, Simon Kuznets. Ela dizia, grosso modo, que num país em desenvolvimento, o gráfico da desigualdade imita a forma da letra “u” invertida (ou Curva de Gauss): de pouca desigualdade, já que todos começariam pobres, ela subiria bastante com os investimentos (cujas melhores recompensas vão para poucos); mas depois cairia de novo e se estabilizaria, conforme o progresso se instalasse.

Porém, o economista francês Thomas Piketty compilou seus estudos num livro de mais de 700 páginas, chamado “O capital no século XXI”, bastante polêmico, onde contesta a curva de Kuznets, com uma grande análise de dados estatísticos referentes às rendas de habitantes de alguns países ditos “de 1º mundo”.

Piketty percebeu que a desigualdade não se estabiliza depois da instalação do progresso, pelo simples fato que, no capitalismo como é hoje, tudo favorece que os mais ricos enriqueçam mais e num ritmo maior do que a camada mais pobre e muito mais numerosa progrida e ascenda nas classes sociais. Na verdade, a desigualdade aumenta, ainda que, na teoria, haja menos pobres – enquanto eles ascendem um pouquinho nas suas posses e independência, os ricos ficam milionários, e os multimilionários, bilionários.

Isso se dá porque o sistema econômico, como o concebemos hoje – globalizado, interligado e quase onipresente – está recompensando mais aqueles que invistam seu dinheiro fora da cadeia de produção. Especulação imobiliária, carteira de ações, heranças e ganhos de capital em cima de capital dão retorno maior que produzir e empreender, e traz menores custos.

Sem produção, o intricado modelo de mercado desanda – é como tirar uma engrenagem de uma máquina. Vão quebrando todos os sistemas interligados: empregos, capacitação, crédito. Aí, a ascensão das classes desfavorecidas fica cada vez mais difícil, e tudo recai nas costas do Estado. Se este for bem administrado, até pode suprir, por um tempo; mas, se for inchado e obsoleto – como o nosso – aí, complica.

O modelo atual não é sustentável independente da eficiência do Estado. O sistema capitalista está rumando ao colapso. A desigualdade é sentida na pele, e provoca um clima belicoso, gera exclusão e violência, que podem resultar em tragédia. Fora isso, as regras mudam para cada indivíduo, na medida em que haja mais dígitos em sua conta bancária. Ricos são imunes às leis, mandam suas fortunas para paraísos fiscais, não declaram ganhos, e enriquecem cada vez mais. Mas os cidadãos pobres e os médios – como eu e provavelmente você – pagam seu imposto até o último centavo, não tem a quem recorrer, e são esfolados de todos os lados.

Para piorar o cenário, as oportunidades não são nem nunca foram iguais. Por exemplo, o ingresso em universidades públicas. Se fosse uma corrida de 400 metros com barreiras, poderia se alegar que todos que ingressam na faculdade começarão do mesmo ponto. Mas se esquece que há os nascidos em berço de ouro que nada fizeram a não ser se preparar para esta corrida de cartas marcadas, e foram carregados até a linha de partida. Já outros, tiveram que “correr” a vida inteira, por quilômetros, entre empregos mal remunerados, educação de baixa qualidade e pouco acesso à cultura.

Se você fosse apostar nesta corrida imaginária, e visse um corredor que já vai começar a prova cansado, suado e arfando, com as mãos nos joelhos, enquanto outro está descansado, super equipado e bem preparado, apostaria em quem?

Pela falta de oportunidades, a maioria nem mesmo chega à linha de partida, para disputar a tal corrida. E o ingresso em faculdade pública é uma de muitas corridas, todas claramente desequilibradas.

O fato é que a desigualdade é um fato incontestável nas sociedades capitalistas. As sociedades socialistas parecem ter mais igualdade, mas apenas porque, fora os governantes privilegiadíssimos, todos os outros sofrem terrivelmente, de maneira parecida.

Justiça à meritocracia

Há uma particularidade nas sociedades democráticas capitalistas que sofre também com defesas e ataques extremos: a meritocracia.

Em minha opinião, é uma grande invenção. Graças a ela, existe alguma justiça no sistema. Antes dela, e mesmo hoje, onde ela não vigora, imperam sistemas de castas. As pessoas ficam condenadas a ser aquilo para o que nascem/herdam. É o caso dos intocáveis da Índia.

Contudo, ela não pode ser colocada como a “solução mágica”, nem distorcida para controle e acusação dos desfavorecidos. Isso porque, ao apontá-la como solução, utilizando como exemplo pessoas que, fora da curva, conseguiram vencer na corrida por empregos e uma vida digna, mesmo saídos da base da pirâmide social, se endossa o discurso errado de que a culpa dos milhões e milhões que não ascendem é exclusivamente deles mesmos, que não teriam estudado e batalhado o suficiente. Absurdo. Nem todos partem nas corridas da mesma linha de largada.

Também que se apontar que os critérios de medição dos méritos nem sempre são claros ou justos. Mas tenho certeza que você preferirá trabalhar em qualquer lugar onde seu esforço seja reconhecido em algum momento, e não onde você esteja condenado a ficar submisso a outros que não tem suas competências, mas somente influências ou parentesco com os poderosos.

Veja, não estou dizendo que não haja isso por aí – há sim, e bastante. Pode ser que você seja vítima da meritocracia do QI – “Quem Indica”, ou do nepotismo, que pode favorecer incompetentes. Mas o desrespeito a ideia não a enfraquece, da mesma forma que o fato de haver quem queira levar vantagem em tudo não enfraquece a honestidade. Ao contrário, a torna mais necessária. A meritocracia é uma ideia tão poderosa que, nas sociedades competitivas, quando é ignorada, traz mais prejuízo que lucro.

O grande porém é que ela não basta para balancear a situação vigente de oportunidades tão díspares. Pode corrigir um pouco as injustiças, mas são necessárias ações afirmativas parta diminuir a desigualdade – como é o caso das cotas raciais, contra as quais eu mesmo me posicionava, antes de refletir melhor.

Enfim, para atacar mesmo a desigualdade, seriam necessárias ações mais drásticas. Piketty sugeriu taxar fortemente as grandes fortunas. Há muito barulho condenando isso, o que não é de se admirar – há muitos que condenam a provisão de cerca de 0,5% do PIB brasileiro para o programa de distribuição de renda Bolsa Família, exemplo mundial e comprovadamente efetivo.

piramide_insustentavelCríticas a todos

Isto posto, e tendo, como de costume, me alongado, resumo aqui a ópera: Cuba teve o valor de tentar um novo sistema, conseguiu progressos científicos, educacionais e esportivos. “Peitou” o maior império do planeta. Mas pagou preços altos, deixando sua população à míngua (conforme relatos dos próprios habitantes), e se tornando obsoleta em muitos dos avanços que tinha conseguido. O comunismo idealizado por Karl Marx apenas inspirou o regime de Cuba, que acabou distorcido.

O capitalismo, por sua vez, reina no mundo, mas traça uma rota insustentável de enriquecimento sem limites dos que já são ricos, falta de interesse em produção e falta de uma ética que recuse lucros a qualquer custo. Ou seja: qualquer indústria ou comércio que gere bilhões vai pesar se compensam os riscos; se os dividendos forem fartos, não há limites para o que possa virar comércio: tráfico de pessoas, mão de obra análoga à escravidão, entorpecentes, armas etc. Tudo em nome de Mammom – o deus-dinheiro.

Mas enfim, os dois autores dos livros mencionados, Inverna Lockpez e Guillermo Rosalez, mostram a derrocada de Cuba, perdendo seus artistas e intelectuais justamente para seu arqui-inimigo. Claro que eles são amostra pequena, mas, só por eles, arrisco afirmar que o regime castrista é um arcaísmo. Há que se registrar também que o maior libelo do capitalismo, os EUA, começam a experimentar decadência – um bom exemplo é a cidade de Detroit, que já foi uma das maiores e mais avançadas metrópoles do mundo, e hoje, agoniza, tentando sobreviver com medidas que estimulem a reocupação de seus bairros inteiros abandonados.

Em relação ao tópico “tiranos”, afirmo, categórico: eles são sempre desprezíveis. A tirania é causa de prejuízos incomensuráveis – de vidas, de recursos, de avanços. Tiranos como o próprio Fidel tinha o poder de mandar fuzilar quem dele discordasse. Qual pessoa permaneceria sana com um poder destes na mão? Estes seres nem sempre humanos desviam recursos para si e seus apadrinhados, sem se dar conta da culpa de sangue que existe nesta atitude: toda a pessoa que morra por falta de recursos desviados (de hospitais, digamos), recai sobre quem desvia. Isso vale, lógico, para políticos.

Ainda sobre os tiranos, registro que eles não são só governantes de países ou ditadores: há deles em todos os lugares. Há os chefes tiranos, que sentem prazer em humilhar os subalternos; há até os amigos tiranos, que não admitem serem contrariados e não aceitam brincadeiras, embora a todos contestem e tirem sarro; enfim, pode existir tirania onde quer que haja uma relação de poder.

O detalhe é que toda relação humana é uma relação de poder. Em casamentos, em família, até de pais com filhos, sendo que alguns defendem que as crianças e jovens (e nem tão jovens) de hoje tiranizam seus pais e responsáveis, que acabam reféns de seus caprichos e vontades, como um fardo eterno.

O que precisa ser feito

Voltando à política, ditaduras, que pressupõem tirania (de um ou vários), nunca são uma boa escolha. A democracia tem defeitos evidentes, inclusive abriga tiranos muito poderosos, sejam pessoas ou instituições, como políticos, a polícia e outros. Verdade. Mas há liberdades na democracia que simplesmente não existem em outros sistemas. Isso é um fato. Se há desrespeitos a estas liberdades, e por mais reprimidos que sejam alguns direitos, como o de livre manifestação, ainda é possível articular uma resistência e lutar por mudanças – algo bem difícil de fazer quando se está vendado num paredão de fuzilamento, ou escravizado num campo de trabalho forçado ou ainda, silenciado pelo medo ou mesmo “sumido” da face da terra.

Se foram apontados defeitos e criticados os principais macrorregimes econômicos, é porque, mesmo a um leigo, pareceram evidentes suas falhas. Contudo, prefiro tomar a posição e valorizar a democracia – o menos pior dos regimes – a apenas criticar sem nada propor. A desigualdade pode e precisa ser combatida, com ações afirmativas de inclusão, mesmo que pareçam paliativas ou até desproporcionais, como, por exemplo, cotas raciais e assistência do Estado para redistribuição de bens. Elas visam corrigir distorções e, de maneira secundária, mudar a mentalidade segregacionista em vários níveis. Estas medidas só parecem erradas porque há pouco interesse real em mudanças significativas, e porque a correção de erros radicais pode precisar ser radical, ao menos de início.

Assim como os seres vivos, sistemas complexos visam a autopreservação. O capitalismo está em rota de catástrofe, e quando uma sociedade perde o balanço de estabilidade que a mantém, ou há uma correção, ou há a extinção. Os exemplos são inúmeros. Não se pode perder de vista que ele já foi uma correção a outros sistemas mais injustos ainda – e que possibilitou a criação de riqueza e progressos em vários níveis para centenas de milhões. Mas também não se pode perder de vista que hoje, muitos acham que o capitalismo é apenas servir a outro tirano – o lucro. Trocar “seis por meia dúzia” não vai funcionar.

O que deveria ser viável é que todos percebessem que o capitalismo predatório acabará com tudo – com todos os recursos ambientais e humanos, apenas para que poucos enriqueçam além da capacidade de gastar o dinheiro e muito, mas muito além da necessidade para uma vida confortável, produtiva e feliz.

Algumas iniciativas vêm surgindo, tímidas. Empresas preocupadas com os impactos ecológicos (além das obrigações por lei). Comprometidas em dar contrapartes sociais, revertidas á todos, e não apenas aos clientes. Gestão mais humana. Não buscando apenas mais lucro.

Então, um capitalismo mais responsável é possível. Sei que parece conversa de Nova Era. Utopia. Ingenuidade. E é mesmo. Mas é absolutamente necessário também. E urgente.

Claro que sempre haverá sujeitos gananciosos, que querem ser milionários. Ainda poderão sê-los, mas não a qualquer custo – especialmente de se manter miseráveis, ignorantes, dependentes e condenados a subsistência dois terços da população mundial, enquanto cerca de 1% concentra metade ou mais de todas as riquezas. Isso vai gerar revoluções sangrentas, que não ficarão restritas a uma ilha.

praca_tianamenTiranomaquia’

Titanomaquia, da mitologia grega, foi o embate dos titãs contra os deuses do Olimpo, que venceram e governavam tudo. A “tiranomaquia”, minha paráfrase, é o embate dos tiranos contra o resto do mundo. Tudo o que tiraniza o homem deve ser combatido, sob pena de se escravizar, disfarçadamente (ou não), a maioria das pessoas. Todos os sistemas ditatoriais, capitalistas ou não, estão inclusos; o que dirá então dos déspotas clássicos. Nós, o resto do mundo, precisamos ganhar. Não há mais lugar para Fidéis.

Há uma linha evolutiva – antigamente, a tirania era o governo comum, legitimado pelos regimes em voga, como a monarquia; hoje, eles são minoria, mas ainda resistentes em serem varridos para o lixo da história. Onde persistem, prejudicam os países que governam em todos os índices importantes, e são responsáveis por oceanos de sangue, sofrimento e morte. Sem contar que, onde há ditadura, não há liberdade – o pior cenário possível, em minha opinião.

E é por isso que uma má democracia é preferível a uma ótima ditadura.

Destituídos os tiranos de carne e osso, precisamos acabar com o tirano feito de cifrões. É bem mais difícil.

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Maravilhar, denunciar, espantar, renovar, chocar, provocar, criar… Tudo isso se espera da arte em suas diversas facetas. Assim, se determinada forma de expressão consegue causar tudo isso e mais, ela pode – e deve – ser considerada arte. É o caso dos Quadrinhos, que, embora correlato à Literatura e ao Cinema, vai fincando seu próprio espaço, com obras que não poderiam encontrar melhor representação se não em HQs. Sendo assim, não há como não ser arte a série Fracasso de Público, do estadunidense Alex Robinson (publicada no Brasil em três volumes pela Gal Editora), que se tornou sucesso de público e de crítica.

Além da ótica recepção de Fracasso de público, seu único trabalho lançado no mercado brasileiro, Robinson também pode se orgulhar de prêmios importantes, como o Eisner e o Gran Prix no Festival de Angôuleme. E é para falar um pouco de sua obra e muito sobre a chamada 9ª Arte que conversamos com ele:

Canto dos Livros: A globalização contribuiu bastante para os Quadrinhos. Hoje, um quadrinista pode colaborar com alguém do outro lado do mundo e ser publicado em línguas que desconhece. Como você experimenta esta nova ordem? Sabe quantos países publicaram suas obras? Recebe propostas de parcerias e colaborações?  

Alex Ross: Acho que até agora meu trabalho foi traduzido para português, espanhol, francês, alemão e polonês (haveria traduções também para o grego e o italiano, mas não sei dizer se chegaram a ser lançadas). Para mim é simplesmente maravilhoso, algo que eu jamais pude esperar quando eu comecei. Eu via meu trabalho – especialmente Fracasso de Público – muito voltado à cultura pop americana para ter capacidade de ressoar em públicos de outras realidades, mas é gratificante saber que funciona num ponto mais em comum. Os tradutores devem ter feito um trabalho espetacular.

Ninguém nunca me procurou para um trabalho colaborativo. Não sei se isso tem a ver com qualidade do que faço ou se as pessoas acreditam que eu não aceitaria, já que todos os meus livros foram projetos solos. Seria curioso fazer um trabalho em parceria, mas é algo que na verdade eu nunca fui atrás.

CL: Ainda sobre a globalização, você tem contato com a produção dos artistas brasileiros, principalmente os quadrinistas?

AR: Infelizmente não. Já que, assim como a maioria dos americanos, eu só sei ler em inglês, meu contato com quadrinhos internacionais é muito limitado.

CL: Como os quadrinhos de fora dos Estados Unidos são vistos no país?   

AR: O mercado americano é dominado pelos super-heróis da Marvel e da DC, então os quadrinhos importados tendem a entrar na categoria “alternativa”. Tem um monte de europeus, como Lewis Trondheim, que são os favoritos da crítica, mas não creio que alcancem o grande mercado. Acho que os leitores dos alternativos são mais receptivos aos trabalhos internacionais e tem algumas editoras que têm construído um nicho ao publicar obras traduzidas.

CL: Dentre as chamadas “obras-primas” dos Quadrinhos, algumas figuram em quase todas as listas: Watchmen, V de Vingança, Maus, Sandman, praticamente toda a obra de Will Eisner, entre outros. Na sua opinião, há alguma obra injustiçada por não figurar (ou por figurar!) nestas listas?

AR: Eu poderia mencionar vários quadrinhos importantes para mim pessoalmente – o trabalho Cerebus, de Dave Sim; MAD, de Sergio Aragones; O quarteto fantástico, de John Byrne – mas eu não os colocaria exatamente como grandiosos. Foram apenas trabalhos que, por alguma razão, tivera um impacto sobre mim. Contrariamente, há vários quadrinhos grandiosos que não funcionam comigo. É tudo muito subjetivo. Me parece que essas listas são mais discutidas por críticos do que os próprios criadores.

CL: Presumimos que a sua lista anterior exerceu influência sobre você e seu trabalho, certo? Quais outras influências moldaram seu estilo?

AR: O primeiro contato que tive com quadrinhos foi nas publicações de jornal de domingo, que eu cortava e colecionava em álbuns. Eu também gostava de coisas como Archie e Mad, voltadas para o público jovem. Quando eu tentava convencer as pessoas a comprar Fracasso de Público, eu falava para elas que era parecido com Archie, mas com palavrão e nudez.

CL: Paulo Ramos, especialista brasileiro em Quadrinhos, publicou uma obra, A Leitura dos Quadrinhos, na qual discorre sobre as diversas possibilidades narrativas, utilizando inúmeros exemplos. No entanto, Fracasso de Público já mostra uma variação impressionante de recursos e possibilidades narrativas, desde balões de diálogo, até o desenho caricatural, para denotar raiva ou êxtase. Isto torna a obra indicada para o estudo teórico dos Quadrinhos e suas possibilidades. O uso desta gama de recursos gráficos na história foi algo natural ou você  adaptou a história para utilizá-los? Você tem conhecimento da utilização de sua obra em salas de aula? Já ministrou cursos ou palestras sobre a criação de quadrinhos? 

AR: Uma vez fui convidado pelo Centro de Estudos de História em Quadrinhos (Center for Cartoon Studies), uma pequena escola especializada em quadrinhos, para conversar com alunos durante uma aula única. Nunca fiz nada, além disso, como professor. Por outro lado, eu acho que seria interessante, já que isso nos força a pensar em outras maneiras de trabalhar, ou em teorias que menosprezamos ou nos seguimos apenas por instinto. Explicar para alguém o porquê fizemos algo de uma maneira particular pode nos trazer um entendimento melhor sobre nossos próprios métodos – o porquê de termos feito daquele jeito. Ao mesmo tempo em que eu realmente gosto dessas conversas e aulas, me falta confiança sobre minhas habilidades para expô-las. E os alunos são como abelhas – eles conseguem farejar o medo. Eu tenho certeza que eu iria desmoronar assim que eu fosse questionado.

CL: Há uma polêmica, aqui no Brasil, sobre a utilização dos quadrinhos na educação e em provas, vestibulares, concursos e afins. Alguns veículos de nossa mídia tentam desacreditar este uso. Como é, aí nos Estados Unidos, esta questão? Vocês prestigiam e utilizam quadrinhos na educação?

AR: O boom dos quadrinhos nos anos 2000 certamente aumentou a reputação dos gibis e graphic novels, então eu sinto que não sejam mais tão polêmicos quanto já foram. Acredito também que a educação superior nos EUA acabou saindo dos clássicos tradicionais e começou a buscar ramificações da cultura pop, então os quadrinhos mais clássicos não parecem tão arriscados assim. Acho que as pessoas nos Estados Unidos estão ficando mais burras, ou menos educadas, então o simples fato de crianças quererem ler alguma coisa já é algo considerado positivo.

CL: Hoje, os Quadrinhos assumem o cunho de jornalismo, de denúncia, de relatos biográficos. Na sua opinião, este processo enraíza os Quadrinhos definitivamente como uma forma de arte? E, se estamos testemunhando a história e a reinvenção desta suposta arte, o que poderíamos projetar para ela no futuro?

AR: É impossível dizer. Diante de toda a reputação que os quadrinhos estejam conquistando, as vendas são péssimas. Por um tempão as pessoas esperavam que a presença de quadrinhos em livrarias ajudaria, e agora todo mundo espera de novo que os quadrinhos digitais vire o jogo. Estou um pouco nervoso com isso, já que com a conversão para o digital torna-se mais fácil não pagar para ler. O digital certamente não contribuiu para indústria musical, mas acho que não há nenhuma direção para ir a não ser seguir adiante. Hoje em dia, a maioria das pessoas fazem quadrinhos porque amam fazer isso, não por estarem ganhando dinheiro.

CL: As Histórias em Quadrinhos parece uma espécie de irmã mais nova da Literatura, mas sem o mesmo prestígio. Para você, os Quadrinhos podem ser encarados também como Literatura? A presença de Quadrinhos em listas respeitadas como as dos “100 Maiores Romances desde 1923”, ou prestigiadas com o prêmio Pulitzer, demonstra uma maior ligação com a Literatura?

AR: Não os vejo tão bem como irmãos. Para mim são como primos ou espécies diferentes, como o macaco-aranha e o gorila. Você pode compará-los em encontrar similaridades, mas as diferenças são grandes o suficiente para que os julguemos a partir de padrões diferentes. Pessoas comparam muito os Quadrinhos com o Cinema, então você pode olhá-los dessa forma: como híbrido profano do Cinema e da Literatura.

CL: A produção artística geralmente traz em si uma satisfação que vai além de qualquer resultado comercial. No seu caso, desenhar páginas e páginas, lapidar diálogos e lay-outs, e todo o trabalho que a arte dos Quadrinhos demanda, traz quais sensações e recompensas?

AR: Ha! Bem, os resultados comerciais realmente não são um fator. Obviamente é legal vender livros, mas pelo trabalho que dá para fazer uma graphic novel, é melhor trabalhar como garçom ou lavando pratos. Pessoalmente, a grande satisfação que isso me dá é concluir uma página muito boa. Isso não acontece com a freqüência que desejamos – talvez a cada cinco páginas – mas acho que isso é o suficiente para nos empolgar. Então, de alguma forma você tem que ser seu próprio público. Uma outra coisa legal é quando eu volto e releio uma piada ou uma frase inteligente e que me fazer rir por eu já ter esquecido que escrevi.

CL: Como é, para quem já alcançou tanto sucesso de público e crítica como você, lidar com a expectativa cada vez maior em cima de um novo trabalho seu? 

AR: Há suas desvantagens, mas é claro que eu queria que fosse diferente. Eu entro num processo em que me convenço de que qualquer que seja o trabalho em que estou, ele será um grande fracasso, que todos irão odiá-lo e que será lembrado como o meu trabalho mais fraco. Parece ser o único jeito para conseguir parar de me pressionar, o que me faz retornar ao modo como era quando eu comecei a desenhar ainda criança – quadrinhos feitos para agradar primeiramente a mim. Você não consegue produzir se está constantemente preocupado, imaginando o que o público e críticos vão achar.

CL: Fracasso de Público foi considerado um “épico do cotidiano”, incluindo personagens comuns, facilmente identificáveis pelos leitores. Apesar de hoje ser uma proposta cada vez mais apreciada – como vemos em Retalhos de Graig Thompson, e Fun Home, de Alison Bechdel – quando você a utilizou, a realidade não era bem essa. Na sua opinião, qual a importância dessa identificação dos leitores com a história que estão lendo? Isso denota um amadurecimento do leitor, que prefere ver situações reais à fantasia, ou é apenas uma questão de segmentação?
AR: Eu realmente não sei. Quando eu comecei o Fracasso de Público, em 1994, me inspirei em quadrinhos autobiográficos como Peep Show, de Joe Matt, e Yummy Fur, de Chester Brown, junto a quadrinhos ficcionais como Unsupervised Existence, de Terry Laban. Minimum Wage, de Bob Fingerman, e Love & Rockets também tinham qualidades similares, então eu não fui um pioneiro desse estilo.

Uma coisa que eu acho interessante é que os quadrinhos que vocês mencionaram são autobiográficos, e até agora todas as graphic novels que se tornaram um grande sucesso são autobiográficas. Acho que as pessoas se sentem menos constrangidas em lê-las, já que essas histórias remetem a uma “questão séria”, ao invés de serem simples histórias ficticias.

CL: Você trabalhou sete anos em uma livraria, nutrindo certa angústia em ser publicado. Quanto de sua própria história há em Fracasso de Público? Você se preocupou em “despessoalizar” as histórias vividas por você para que elas tivessem um contexto universal e gerassem empatia em qualquer leitor? Quais outras referências usou para construir a trama do livro?

AR: De fato, incluí muitos elementos da minha própria vida, desde a livraria até a senhoria. Irving Flavor foi parcialmente inspirado por um professor um tanto amargo que eu tive na escola de artes. Quando você é um escritor jovem, em especial, você tende a usar experiências de sua própria vida, pois você não tem muito mais sobre o quê produzir. Quando você fica mais velho, ganha mais experiências e perspectivas que não precisa mais se apoiar tanto nisso. Ou então você melhora e disfarça isso. Todos os meus livros têm traços autobiográficos, mas eles devem ser elementos que só eu consigo ver (ao menos eu acho).

Parece estranho, mas eu não costumo pensar nos leitores ao trabalhar num livro, pelo menos não no sentido de incluir ou não incluir coisas. Eu penso “Isso está claro? Os leitores vão entender o que estou tentando dizer?”, mas isso é uma extensão do trabalho.

CL: Fracasso de Público fala também sobre a bilionária indústria de adaptações de Quadrinhos para o cinema. Embora não seja novo, este interesse de Hollywood pelos Quadrinhos certamente se intensificou nos últimos anos. O que a indústria de Quadrinhos ganha ou perde nesta relação?

AR: A maioria das adaptações foram de quadrinhos de super-heróis, então não acho que tenham um grande impacto sobre a minha área. Eu acho que a grande decepção da indústria de Quadrinhos é que nenhum dos blockbusters representaram impacto de vendas significativo nos quadrinhos pelos quais se basearam. Isso é provavelmente uma má notícia para eles, já que agora que as pessoas podem ter suas doses de quadrinhos via 3D e som surround, há menos incentivo do que nunca para se ler quadrinhos de super-heróis. Não acho que quadrinhos mais pessoais e sob propriedades de seus criadores serão tão afetados, mas é claro que as lojas que vendem meus quadrinhos fazem a maior parte de seus lucros vendendo livros e revistas de super-heróis. Então, basicamente meu destino está atrelado ao deles. Quadrinhos independentes são como os crustáceos que vivem na barriga da baleia super-herói.

CL: Em entrevista ao Jornal do Brasil, você se declarou um “pessimista por natureza”. Por quê? O quanto acha que um olhar pessimista permite maior entendimento e capacidade de crítica sobre a sociedade contemporânea?

AR: Suponho que isso venha da minha criação. É algo que eu não seria se eu tivesse escolha, já que os otimistas parecem ser mais felizes. Ultimamente tenho tentado reduzir meu contato às coisas que me deprimem, como os noticiários e acontecimentos atuais. Sei que não tenho poder para fazer coisa alguma sobre isso tudo, então parei de dar atenção. Eu tento estreitar meu foco – amigos, família, qualquer coisa que me dê prazer. Vocês podem dizer que isso é fuga, que para mudar o mundo devemos nos envolver e assim por diante, mas eu não tenho energia. A Máquina ganha.

CL: Você se formou em artes, com especialização em desenhos animados, correto? Quão importante – ou fundamental – você julga uma formação de ensino superior para alguém que queira começar a desenhar e escrever, seja Quadrinhos ou Literatura?

AR: Eu sou muito pela educação, mas a escola de artes foi uma tremenda perda de dinheiro. Essencialmente, a faculdade deveria nos expor um monte de idéias diferentes e coisas que não teríamos de outra maneira, mas minha impressão é que a escola de artes foi como ter uma babá dispendiosa. Eu já fazia meus quadrinhos e tentava aprender o máximo que podia sobre história em quadrinhos desde criança, então acho que a escola de artes não fez muita diferença para mim. Dado à situação que economia está e o quão cara é uma faculdade, eu não recomendaria fazer uma escola de artes – faça ou uma especialização em algo que possa te trazer um retorno financeiro (que você pode usar para subsidiar sua carreira artística), ou pule tudo isso e ao menos não comece sua vida adulta endividado. Pule a faculdade, mas não deixe de se educar. Seja um leitor voraz, faça aulas, viagem e de alguma forma amplie seus horizontes porque essas coisas farão sua arte (ou escrita) melhorar.

CL:  Como funciona, na prática, o seu trabalho?

AR: Na maioria dos livros eu escrevi e desenhei uma página de cada vez. Isto é, eu escrevia diálogos o suficiente para preencher uma página, na qual eu então escrevia e desenhava. E então, eu escrevia a segunda página, desenhava, escrevia a terceira página etc… Eu tinha um geral da trama na cabeça, mas eu gostava de mantê-la em aberto para improvisar e deixar que a história crescesse de maneira orgânica.

No novo livro em que estou trabalhando, mudei ligeiramente a maneira de trabalha e escrevi diversas cenas ao longo da história (apesar de estar desenhando todas na ordem). Fiz isso porque estava tendo vários bloqueios de escrita muito ruins por muito tempo, em que eu começava um projeto e perdia o gás ou o abandonava. Eu precisei encontrar algo para trabalhar quando o meu lado escritor não aparecia para trabalhar. Até agora estou satisfeito com esse método.

Ainda há vezes em que eu me sinto como numa luta, mas é bom ter essas cenas que eu já escrevi como um tipo de apólice de seguro para criatividade.

CL: O que pode nos adiantar sobre este novo livro?

AR: Bem, em termos de publicação, o plano é que a Top Shelf o transforme digitalmente em série e o reúna para a impressão quando estiver pronto. Fracasso de Público foi originalmente seriada e eu meio que senti falta de ter algo publicado de maneira convencional. Eu não faço idéia de como ele será recebido; se leitores de produção alternativa compram versões digitais ou não. Por enquanto, estou apenas me focando em trabalhar no livro, tentando não pensar no lado comercial.

Sobre o conteúdo, é um tipo de retorno ao Fracasso de Público, no sentido de que são um monte de amigos conversando, e não uma trama pesada como foram meus dois últimos trabalhos. Assim como Fracasso de Público foi sobre eu descobrindo minha vida aos 20 e poucos anos, este será sobre eu descobrindo a vida nos meus 40. Eu sei que já disse ter me resignado a este livro ser um fracasso, mas estou curioso para ver como isso se dará. Leitores de quadrinhos, ao menos nos Estados Unidos, tendem a estar nos 20 anos ou no começo dos 30, o que foi condizente também com o Fracasso de Público, mas eu não sei se um livro sobre lidar com a meia-idade será tão popular.

Tradução: Fred Linardi

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The Box office poison success – an interview with Alex Robinson

To amaze, to denounce, to frighten, to renovate, to stun, to provoke, to create… All of it is expected from art and in all of its facets. So, if any way of expression is able to cause that and much more, it can be – and must be – considered art. Including the Comics that, although is interrelated to Literature and Cinema, is gaining its own ground, with works that couldn´t find any better space but into the comics strips.

Therefore, there´s no way but to considerate as art the series Box office poison, by the American Alex Ross (released in Brazil in three single volumes by Gal Editora), which has became a public and critics success.

Besides the great reception of this title – Robinson´s only work published in Brazil – he can be proud of himself after some important prizes such as the Eisner and the Agoulême Festival Grand Prix. And in order to chat about his work and a lot about this called the 9th Art that we have talked to him:

Canto dos Livros: Globalization has brought many contributions to the comics. Today, is possible for two or more artists to co-work and to be published in a completely different language. How do you experience this new kind of structure? Do you know how many countries in which your work has been published? Do you use to receive partnership invitations? 

Alex Robinson: I think at this point my work has been translated into Portugese, Spanish, French, German and Polish (there were supposed to be Greek and Italian books as well but I can’t confirm they were ever released). It’s just amazing to me, nothing I ever even imagined when I started off. I would’ve assumed my work–especially Box office poison–was too based in American pop culture to resonate with people in other worlds, but it’s gratifying to know that it works on a more common ground. The translators must’ve done a terrific job!

No one has ever approached me about collaborating, but I’m not sure if that has to do with the quality of my work or people just assume I don’t collaborate, since all of my books have been solo projects. I would be curious to work with someone else but it isn’t something I’ve really looked into.

CL: Still about globalization, do you have contact with Brazilian artists’ production, mainly the comics ones?

AR: Unfortunately, I have not. Since like most Americans I only read English my exposure to foreign comics has been very limited.

CL: How are the foreign comic productions seen in the US?

AR: The American market is dominated by superheroes from Marvel and DC, so foreign comics tend to fall into the “alternative” category. There are a bunch of Europeans like Lewis Trondheim who are critical favorites but I don’t think they reach a big market. I think people who read alternative comics are more receptive to foreign material and there are a few companies that have carved out a niche publishing translations.

CL: Among the called “top” comics, some of them appear in almost all of the lists, like WatchmenVfor VendettaMausSandman, almost every Will Eisner works, and so on. In your opinion, is there any wrongly forgotten (or wrongly reminded) title in or out of these lists? 

AR: I could mention several comics that had an effect on me personally–Dave Sim’s work on Cerebus, Sergio Aragones MAD, John Byrne’s run on Fantastic Four–but I wouldn’t presume to hold them up as objectively great. They were just works that, for whatever reason, had an impact on me. Conversely, there are several “great” comics which didn’t work for me. It’s all subjective. Those kinds of lists seem to be the kind of thing that critics argue about, rather than creators.

CL: We assume that some of these works just mentioned by you have influenced your creation, right? What other influences have shaped your style?

AR: The first comics I was exposed to were the Sunday comics in the newspaper, which I would cut out and paste into albums. I also liked stuff like Archie and MAD, comics aimed at young people. When I was trying to get people to buy Box Office Poison I would say it’s like Archie, but with cursing and nudity.

CL: A Brazilian cartoon specialist, Paulo Ramos, talks about its several narrative possibilities, with lots of examples in his book Leitura em Quadrinhos. Meanwhile, your book Box Office Poison itself already shows up some impressive narrative resources variety, from the speech balloons until the caricature draw. Did it come in a natural way when you were creating the story? Has it come to your knowledge if your books are used in classrooms? And have you ever gave comics creation classes yourself?

AR: The Center for Cartoon Studies, a small school specializing in comics, asked me to talk to a class for a one-time lecture but other than that I’ve never done any teaching. On the one hand, I think it could be interesting, since it forces you to think about ways of working or theories that you might otherwise just take for granted or go by instinct. Having to explain to someone why you did something a particular way can give you a greater understanding of your own methods–why did I do it that way? While I do like talking shop and lecturing people I think I lack the confidence in my own abilities to pull it off. Students are like bees–they can smell fear. I’m sure I would cave in as soon as I was challenged.

CL: There´s a controversy here in Brazil about the use of comics in classroom, tests, entrance exams etc – which is even disapproved by some news media. And what about in US, is that an issue? Do educators appreciate and use them as a teaching tool?

AR: The graphic novel boom of the 2000s definitely raised the respectability of comics and graphic novels, so I feel like it’s not as controversial as it once was. I think higher education in this country has also moved away from traditional classics and has started branching into more pop cultural areas, so high-brow comics don’t seem as risky. I think people in America are getting dumber, or at least less educated, so the fact that kids want to read anything is considered positive.

CL: Nowadays the comics have gained the tone of denunciation, biographies reports etc. In your point of view, does this process solidify the comics as a way of art (at least for those who haven´t seen it like that until then)? If so, what can it be project about the comics future?

AR: It’s impossible to say. For all the respect comics are getting, sales are generally terrible. For a long time people were hoping that getting graphic novels into bookstores would help, and now everyone is praying that digital comics will turn things around. I’m a little nervous about that, since once things go digital it’s very easy to not pay for them. Going digital certainly didn’t help the music industry, but I suppose we have nowhere to go but up. At this point, most of the people doing comics are doing it because they love it, not because they’re making money.

CL: It seems that comics are a Literature discredited young sister. Do you think that comics can be considered as Literature itself? Its presence on respected lists such as the “100 best novels since 1923”, or in respected prizes as Pulitzer, shows a straighter link with Literature?

AR: I don’t think of comics and literature as being siblings so much as cousins, or different species, like a Spider Monkey and a Gorilla. You can compare them and they do have some similarities but the differences are big enough where you can’t judge them by the same standards. People compare comics and movies a lot so maybe you could look at comics in that way, as some unholy hybrid of movies and literature.

CL: About the satisfaction of producing a piece of art, how does it feel after finishing a work with some many drawn pages, dialogs, layouts… What are the biggest rewards, besides the commercial results?

AR: Ha! Well, the commercial results are not really a factor. Obviously it’s nice to sell books but for the amount of work it takes to do a graphic novel you’d be much better off waiting tables or digging ditches. Personally, the most satisfaction I get is completing a very good page. This doesn’t happen as often as you’d like–maybe only once every five pages–but I suppose it’s enough to keep you going. It is satisfying when people tell me they like my work of course, but you can’t count on that and when you’re working on a long book it can be months or even years before people see what you’re working on, so you have to be your own audience in a way.

One other thing that’s nice is when I go back an reread a joke or clever phrase and it makes me laugh, since I forgot I wrote it.

CL: And how does it feel, for an author who has reached the public and critics success, to deal with the increasing expectations over a new work of yours? 

AR: It has its drawbacks but naturally I wouldn’t want it the other way around. I go through a process where I convince myself that whatever I’m working on now will be a huge flop, everyone will hate it and it will be regarded as my weakest work. It seems to be the only way to take the pressure off myself, which let’s me get back to how I first started doing comics as a kid–comics done to entertain myself first and foremost.  You can’t do work constantly looking over your shoulder imagining what an audience or critics will think.

CL: The book Box Office Poison was considered an “every-day epic”, with ordinary characters, easily identified by readers. Although it’s a feature that has became increasingly appreciated – as we can see in Blankets orFun Home – when you first used it, the usual practice wasn´t quite like this. In your opinion, what´s the matter of this identification between reader and story? Does it mean a reader maturity, that now is interested in “real life” stories, or that´s just a matter of editorial segmentation?

AR: I really don’t know. When I started Box Office Poison, way back in 1994, I was inspired by autobiographical comics like Joe Matt’s Peep Show and Chester Brown’s Yummy Fur, along with fictional comics like Terry Laban’s Unsupervised Existence. Love & Rockets and  Bob Fingerman’s Minimum Wage also had similar qualities, so I wasn’t really a pioneer of the form.

One thing I find interesting is that the two comics you mention are autobiographical, and so far virtually all of the graphic novels that have become huge are autobiographical. I think people feel less embarrassed to be reading them, since they address “serious issues” instead of just being made up stories.

CL: You have worked for seven years on a bookstore, with that kind of anxiety to be published. How much of your own experience can we take from Box Office Poison? Have you tried not to put too much of yourself in it, so it could be more universal to the readers? What others references did you use to build up the plot?

AR: I definitely included a lot of elements from my own life, from the bookstore to the crazy landlady. Irving Flavor was partially inspired by a somewhat bitter teacher I had in art school. When you’re a young writer, especially, you tend to bring in experiences from your own life because you don’t have much else to build on. As you get older and gain more experiences and perspective you don’t have to rely on that as much, or you get better at disguising it. All my books have autobiographical aspects, but they might be things that only I can see (or so I think).

It sounds odd but I dont usually think of readers when I’m working on a book, at least not in the sense of including or not including things. I’ll think “Is this clear? Will the readers understand what I’m trying to say?” but that’s about the extent of it.

CL: Box Office Poison talks about the movie comics adaptation billionaire industry. Although it´s not such a news, this Hollywood interest by the comics stories has increased a lot in the past years. What are the comics industry losses and gains in this relationship?

AR: It’s mostly been superhero comics that have been adapted so I don’t think it’s had much of an impact on my side of the marketplace. I think the biggest disappointment for the industry is that none of the blockbuster movies have had any noticeable impact on sales of the comics they’re based on. It’s probably bad news for them, since now that people can get their superhero fix in surroundsound 3D there’s less incentive than ever to actually read superhero comics. I don’t think more personal, creator-owned comics will be as effected, but of course the shops that sell my books mostly make their money from superhero comics, so ultimately my fate is tied in to theirs. Independent comics are like the barnacles on the belly of the superhero whale.

CL: On an interview for Jornal do Brasil, you´ve declared that you are a “natural born pessimist”. Why is that? Do you think that this kind of view allows a better comprehension and a critic view over our society? 

AR: I assume it comes from my upbringing. It’s certainly not anything I would choose if given the option, since optimistic people seem happier. Lately I’ve been trying to limit my exposure to things that get me depressed, like the news and current events. I know I’m powerless to do anything about any of it so I’ve stopped paying attention. I try to take a narrower focus–friends, family, whatever gives me pleasure. You could say this is a cop out, that if we’re going to change the world we should get involved and so on but I don’t have the energy. The Machine wins.

CL: Your graduation is in arts, with cartoon specialization, right? How much important – or crucial – do you see a superior education for someone who wants to illustrate or to write?   

AR: I am for all for education but art school was a tremendous waste of money. Ideally, college would expose you to a lot of different ideas and things you would not otherwise experience, but my feeling is that art school was like having an expensive babysitter. I’d been making my own comics and trying to learn as much about cartooning as I could since I was a child so I don’t think art school made much of a difference for me. Given the way the economy is and how expensive college is I wouldn’t recommend going to college for art–either major in something that can generate some good income (which you can use to subsidize your art career), or skip it altogether and at least not start your adult life in debt. Skip college, but don’t skip getting educated. Be a voracious reader, take classes, travel and otherwise broaden your horizons because that stuff will make your art (or writing) better.

CL: How is you working process?

AR: Most of my books I wrote and drew one page at a time. That is, I would write out enough dialogue and so on to fill a page, which I would then write and draw. Then I would write the second page, draw it, write the third page, etc. I would have an overall plot in my head but I liked to keep it open to improvisation and letting the story grow in an organic way. With the new book I’m working on I’ve changed my methods slightly, in that I’ve written out several scenes throughout the book ahead of time (though I’m still drawing them in order). I did this because I was experiencing very bad writers block for a long time, where I would start a project and then lose steam and abandon it. I had to come up with a way of having something to work on when the writer part of me didn’t show up to work. So far I’m glad I did it. There are still times I feel it’s more of a struggle but it’s nice to have those scenes I already wrote out as a kind of creative insurance policy.

CL: You´re working in a new book, right? What can it be anticipated about it?

AR: Well, in terms of publishing it the plan is for Top Shelf to serialize it digitally and collect it for print when it’s done. Box Office Poison was originally serialized and I kind of missed having something come out on a regular basis, as opposed to years between graphic novels. I have no idea how it will be received, if alternative comics people buy digital comics or not. Right now I’m mostly focusing on just working on the book, trying not to think about the business side of it.

In terms of the content, it’s something of a throwback to Box Office Poison in that it’s a lot of friends sitting around chatting and it’s not as plot heavy as my last two books. As much as Box Office Poison was about me figuring out my life in my 20s, this book is kind of me figuring out life in my 40s. I know I’ve already said I’ve resigned myself to this book being a failure, but I’m curious to see how it fares. Comics readers, at least in America, tend to be people in the 20s and early 30s, which served Box Office Poison well, but I don’t know if a book about dealing with middle age will be as popular.

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Por Alberto Naninni e Rodrigo Casarin

O Jornalismo Cultural é a área de maior interesse do jovem Augusto Paim, que, com apenas 26 anos, já possui em seu currículo trabalhos de grande relevância, como uma reportagem em quadrinhos sobre as favelas do Rio de Janeiro para um site holandês e a coordenação de um dossiê sobre São Paulo para a revista espanhola Zona de Obras. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria e mestrando em Letras, pela PUCRS, com pesquisa relacionada à escrita criativa, foi o curador do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos (EIJQ), no Instituto Goethe de Porto Alegre, e já organiza a segunda edição do evento, que acontecerá em Curitiba. Como tradutor, já passou do alemão para o português o livro Johnny Cash – uma biografia, a história de vida do cantor retratada em HQ, publicada pela 8Inverso. No papo abaixo, Augusto fala bastante sobre esses assuntos e é enfático com relação à necessidade do amadurecimento dos quadrinhos como arte.

Canto dos Livro: Como é realizar o trabalho de tradução? O que se espera de um bom tradutor?

Augusto Paim: Os passos que dou nessa área ainda não são firmes e velozes como os de quem já pratica a tradução há anos – e a habilidade de traduzir pode muito bem ser comparada ao desenvolvimento de um músculo -, então só posso falar das descobertas surgidas durante o processo do meu próprio trabalho, além do que aprendi acompanhando o trabalho de outros tradutores mais experientes. O que se espera de um bom tradutor, antes de mais nada, é domínio da língua de chegada e o conhecimento de muitas ferramentas de pesquisa. Dominar a língua de partida, além de tarefa praticamente impossível, não é tão importante quanto isso.
Da minha parte, o trabalho de tradução é um processo penoso, que não começa exatamente quando coloco a primeira palavra no arquivo do Word, mas sim no momento em que leio um livro no original pela primeira vez, passando pelo período longo que leva para se achar uma editora para essa obra no Brasil. O meu envolvimento com a tradução, talvez porque tenho trabalho especificamente com quadrinhos alemães, vai além do trabalho de rotina de um tradutor.

CL: Quais as diferenças de traduzir uma livro de prosa para uma história em quadrinhos?

AP: Genericamente, acho que as obras de quadrinhos são uma ótima porta de entrada no terreno da tradução, já que o clima da história é parcialmente dado pelos desenhos, que tendem à universalidade. Analisando isoladamente, porém, vejo casos de obras cuja dificuldade não são amenizadas pelos desenhos. Um caso recente, de que posso dar o exemplo como tradutor, é Wir können ja Freunde bleiben, do Mawil, que deve chegar nas livrarias em breve pela Zarabatana. O título será Mas podemos continuar amigos. É um livrinho curto, de apenas 64 páginas, mas deu muito trabalho, porque a maior parte das suas partes cômicas é baseada no tom curioso de algumas expressões regionais de Berlim, além de outras da época da escola do autor, ou seja, expressões já desgastadas pelo tempo. Sem falar nas onomatopeias! Ah, e também tem um capitulo do livro que é baseado numa confusão idiomática, quando as personagens moram numa república estudantil, e essa situação precisou ser adaptada para funcionar por aqui. Para traduzir esse livro, precisei fazer a tal “tradução criativa”, pensando em formas de fazer com que o livro cative o leitor brasileiro da mesma forma que cativa o alemão.

CL: Quais obras lançadas no Brasil você considera um exemplo de tradução? Por quê?

AP: Sempre se corre o risco de omitir nomes por esquecimento, mas… lá vai! Me ocorre agora a tradução de Antonio de Macedo Soares para Maus e a de Daniel Galera para Jimmy Corrigan, duas obras que, pela fluência com que podem ser lidas no português, demonstram o talento dos tradutores. Além disso, essas duas obras, lidas pelo olhar treinado de um tradutor, mostram que tipo de dificuldade se enfrentou na tradução. E com certeza foram muitas, a começar pelo volume de páginas.
Destaco também o engajamento permanente de Érico Assis na tradução de quadrinhos do idioma inglês.

CL: Você também possuí trabalhos relacionados ao jornalismo em quadrinhos. Como você começou a se interessar pelo gênero?

AP: Eu tive o primeiro contato com o trabalho de Joe Sacco em 2006. Nessa época eu cursava Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria, e esse interesse acabou virando o tema da minha monografia, em que eu fiz uma análise semiológico-narrativa de um trecho de Palestina: na Faixa de Gaza. Depois da faculdade, o tema continuou me acompanhando, e cresceu de importância a partir de dois momentos-chave: quando tive a oportunidade de realizar minha primeira reportagem em HQ e na ocasião em que organizamos o I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos.

CL: Em que estado se encontra o jornalismo em quadrinhos no mundo? E no Brasil?

AP: Ainda muito incipiente. Internacionalmente, começam a surgir nomes de destaque individual, como Dan Archer e David Axe, nos Estados Unidos. Na Alemanha, muitos autores consagrados se aventuram por essa área, como Jens Harder e Ulli Lust. Importante tem sido o trabalho de Matt Bors, editor do portal Cartoon Movement, que tem estimulado o surgimento de HQ-repórteres em diferentes continentes. O mundo, porém, ainda precisa da égide de Joe Sacco.
No Brasil, ainda não há um nome de peso na área, mas acredito que os novos talentos estão por aí, germinando em algum lugar, já fazendo algumas experiências. Para que eles desabrochem, falta estímulo, e é por isso que considero fundamental o trabalho de discussão e informação proporcionado por eventos como o EIJQ.

CL: Com relação ao jornalismo em quadrinhos, quais os trabalhos que você destaca para quem queira conhecer mais sobre o gênero?

AP: Sempre que falo sobre o assunto a alguém que me escuta pela primeira vez, sugiro a leitura de Maus e de toda a obra de Joe Sacco. Depois recomendo a visita ao portal Cartoon Movement, na seção de reportagens em quadrinhos. E, eventualmente, a leitura da reportagem Os Filhos de Joe Sacco, sobre o crescimento internacional do Jornalismo em Quadrinhos

CL: Na sua opinião, quadrinhos, independente de ficcionais ou não, também podem ser considerados obras literárias? Por quê?

AP: O amadurecimento de uma linguagem passa por sua autonomia. Se os quadrinhos já tem obras que demonstram essa independência (e as tem em número suficiente para isso), o mesmo não se pode dizer se sua recepção crítica. É por isso que ainda precisamos referenciar uma obra-prima dos quadrinhos como “literária”; uma forma de elogiar e demonstrar qualidade para uma linguagem que ainda carece de respeito crítico (não se diz, por exemplo, para elogiar um bom filme, que ele seja “literário”…). Por outro lado, penso que a literatura tem muito a oferecer para a linguagem dos quadrinhos, principalmente como fonte de inspiração de densidade e do uso criterioso de técnicas narrativas. Mas também podemos falar da importância do teatro, do cinema, da fotografia… e das próprias obras-primas dos quadrinhos!

CL: Você está organizando a segunda edição do Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos. O que já pode nos adiantar sobre ele?

AP: O II EIJQ ocorrerá em Curitiba, dentro do festival de quadrinhos Gibicon, entre 25 e 28 de outubro deste ano. Ainda não posso divulgar nomes oficialmente, o que posso dizer é que, exatamente como foi no I EIJQ, estamos pensando no estímulo de uma discussão, no fomento de um debate, e essa continuará sendo nossa motivação durante o segundo evento. Creio que o tema terá uma oportunidade e tanto de crescimento por o evento ser realizado dentro de um grande festival de quadrinhos. Isso traz a possibilidade de atrair ainda mais público interessado e, por outro lado, permite que os interessados em Jornalismo em Quadrinhos tenham a oportunidade de, além de participar das discussões, aproveitar todas as outras atividades de um festival desse porte.

CL: O Governo do Estado de São Paulo disponibiliza para os professores kits de leitura para atualização e trabalho, nos quais há opções com obras em quadrinhos. Por outro lado, revistas de grande circulação volta e meia publicam reportagens críticas a eles, desmerecendo-os como assunto de vestibulares e concursos, e atacando a linguagem de alguns. Quais implicações e prejuízos você enxerga causados por esta controvérsia?

AP: Acompanhei algumas dessas discussões na mídia. Em linhas gerais, o resultado é lamentável! Não para quem trabalha com quadrinhos, claro, que já passou dessa fase do discurso fácil e irrefletido sobre a linguagem. Meu receio é em relação a quem ainda não redescobriu o universo dos quadrinhos enquanto linguagem artística. Por outro lado, creio que não estamos mais em 1954, e que o público leitor dessas matérias tem agora senso crítico para não cair cegamente numa reedição das ideias de Fredric Wertham e sua Sedução do Inocente [que atacava moralmente os quadrinhos e acusava-os quadrinhos de subverterem os leitores].

Além disso, há muitos profissionais trabalhando com quadrinhos em sala de aula de forma madura e consistente. Essas polêmicas ajudam a vender jornal e acabam trazendo algum efeito negativo na carona, mas não conseguem destruir a solidez de um trabalho de conscientização e amadurecimento que vem de décadas. Derruba alguns tijolos, mas a parede segue de pé.

CL: Qual seria o cenário ideal para que os quadrinhos auxiliassem mais na educação e na produção jornalística?

AP: O cenário ideal: quando o conhecimento técnico sobre a linguagem dos quadrinhos, no público geral, equivalesse ao conhecimento que se tem sobre cinema, literatura, artes visuais etc. Não se trata de exigir um grande conhecimento, veja bem, apenas uma visão geral de respeito a uma arte que tem sua história. Isso ainda falta. Em relação ao Jornalismo em Quadrinhos, o caminho é mais árduo, porque envolve uma dupla conscientização: o jornalista precisa conhecer melhor a linguagem dos quadrinhos, e o quadrinista deve procurar entender toda uma dinâmica e um código de procedimentos do jornalismo. Falta essa via de mão dupla, falta mesmo. E, no meu ver, sem isso não se faz uma reportagem em quadrinhos que realmente mereça atenção.

CL: Numa biblioteca básica de Quadrinhos, quais obras não poderiam faltar?

AP: E agora, como citar tudo? Além de esquecer obras importantes, também não tenho como citar as que ainda não li.
Bem, no campo teórico-técnico, penso que é indispensável ter trabalhos do Scott McCloud, Umberto Eco, Will Eisner e Thierry Groensteen, para começo de conversa. Em relação aos quadrinhos em si, há tanta obra de qualidade que se começasse a listar algumas, certamente não se pararia mais. Bem, vou falar de duas obras cuja leitura recente me causaram um impacto bastante positivo, não só em termos de conteúdo, mas também de linguagem. Jimmy Corrigan e Cachalote. Não são minhas obras-primas, veja bem, mas são leituras recentes. Além disso, há inúmeras obras em língua alemã que têm me contagiado bastante, mas que infelizmente ainda não são do conhecimento do leitor brasileiro. Sugiro acompanhar o portal de quadrinhos do Instituto Goethe.

O Augusto também é editor dos blogs Cabruuum e August Fest, vale conferir!

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