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Posts Tagged ‘mitologia’

eduardo-spohrHá uma clara divisão na literatura nacional. Enquanto a maior parte dos escritores se desdobra para que a venda de seus livros atinja o milhar, alguns raríssimos podem se gabar de centenas de milhares (ou até mais de um milhão) de exemplares vendidos. Muitos desses bestseller pertencem ao nicho da literatura fantástica, como é o caso do carioca Eduardo Spohr, autor de A batalha do Apocalipse, Filhos do Éden: herdeiros de Atlântida, Protocolo bluehand: Alienígenas ,Filhos do Éden: anjos da morte e A torre das almas e editor do blog Filosofia Nerd. Amado por milhares (ou milhões?) de fãs, defendido por Paulo Coelho e sustentando que a literatura deve ser analisada com o coração, Spohr falou com o Canto dos Livros. 

Canto dos Livros: Sobre seu primeiro trabalho, A batalha do Apocalipse, você já declarou que, devido à dificuldade em encontrar informações concretas durante a pesquisa, teve de criar uma “mitologia própria”. Tolkien talvez tenha sido o escritor que melhor desenvolveu este trabalho, criando um universo completamente novo. Quais foram as dificuldades encontradas nas pesquisas? Como foi criar uma mitologia própria? Em quais pontos foi bom ou ruim não ter algum embasamento prévio?

Eduardo Spohr:  Foi longo, porém mais fácil dos que as pessoas pensam porque eu já jogava RPG dentro desse universo, e tive anos para desenvolvê-lo. Então, a coisa aconteceu de forma orgânica e gradual. Quando comecei a escrever A batalha do Apocalipse, já tinha praticamente tudo pronto. O mais difícil, acredito, é manter a coerência com as “regras” estabelecidas para esse universo fantástico.

CdL: É comum vermos você falando de mitos. Conte-nos um pouco sobre a sua relação com a mitologia, com a obra de Joseph Campbell e o impacto que isso tem na sua escrita.

ES: Quando eu conheci Campbell, já tinha escrito o meu primeiro livro, mas o curioso foi ver que tudo o que ele falava, eu já tinha aplicado nas minhas histórias. Então, estudando mais sobre as teorias dele, eu entendi o porquê e comecei a desconstruir todo o processo.

CdL: Flertando com Campbell, de que forma um personagem deve ser construído para que desperte emoção no leitor?  Quais seus personagens mais amados? E os mais odiados?

ES: Bom, acho que acima de tudo o personagem deve ser crível. Como fazer isso? Cada escritor deve encontrar o seu caminho. No meu caso, não tenho personagens mais amados ou odiados. São todos como filhos (risos).

CdL: De que forma você enxerga a tradicional personificação do mal, na figura de um adversário – Diabo, Satã, Lúcifer ou equivalente? Sobre a responsabilidade do mal cometido pelos e sobre os homens, a quem ela recai?

ES: É uma forma de ver as coisas. De fato o mal existe dentro de nós, assim como o bem. Está nas nossas mãos escolher o que fazer: o certo ou o errado, geralmente sendo o errado mais tentador. Metaforicamente é uma alegoria poderosa.

CdL: Suas crenças religiosas ou espirituais interferiram na escrita de seu livros ou a escrita de seus livros interferiram em suas crenças?

ES: Não. O livro é 100% ficção, não há nada relacionado com as minhas crenças ou algo do tipo.

CdL: Além de livros, você produz bastante conteúdo das suas histórias em outros formatos, como podcasts e textos no blog. Como esses formatos te ajudam a construir sua obra e envolver os leitores?

ES: São materiais diferentes, na verdade. Não acho que exista grande influência dos podcasts, por exemplo, nos meus livros.

CdL: De que forma a interação online com seus mais de 30 mil fãs no Facebook e mais de 50 mil seguidores no Twitter exerce impacto na sua obra?

ES: Eu sempre fico de olho no que os leitores falam, e escuto suas críticas. Isso tem me ajudado muito a melhorar, tenho certeza.

CdL: Você demonstra desejo de compartilhar sua experiência como escritor aos novos talentos. Há, inclusive, um post no seu blog com inúmeras referências, podcasts e vídeos sobre o assunto. O que te motiva a estimular a nova geração? Quais foram seus maiores professores na profissão?

ES: Eu acho um barato que a galera curta meus livros e o meu trabalho. Então, quando me fazem perguntas sobre como escrever, eu tenho o maior prazer em ajudar, daí eu ter feito esse post. Meu principal mentor creio que foi o escritor José Louzeiro, uma pessoa que admiro muito.

CdL: Num mundo cada vez mais racional, pelos avanços da ciência e do conhecimento, a literatura de fantasia tem hoje um papel diferente do que tinha antes?

ES: Não. Acho que é o mesmo. O papel de reconstruir a nossa sociedade e nós mesmos de forma metafórica.

CdL: Você esteve na Feira de Frankfurt este ano. O que achou da participação do Brasil no evento e como encarou todas as polêmicas que a cercaram, principalmente a lista de autores levados pelo governo e o discurso do Luiz Ruffato na abertura?

ES: Frankfurt é muito corrido. É uma reunião atrás da outra, com editores, agentes, etc. Confesso que nem tive tempo de parar e nem de pensar nas polêmicas. Estava totalmente concentrado em apresentar meu trabalho aos editores internacionais. Vamos torcer para que dê certo.

CdL: Como é a receptividade das editoras internacionais pela literatura de fantasia brasileira? O país de origem influencia no interesse dos editores? 

ES: Creio que dependa do caso. Nos lugares onde meu livro já saiu (Alemanha, Holanda e Portugal), a recepção foi bem legal.

CdL: É nítido o amadurecimento no seu texto desde o primeiro trabalho até o mais recente, Filhos do Éden: Anjos da Morte. Além da evolução como escritor, o que acha que mudou nesse tempo? Como a mudança tem sido recebida pelos leitores?

ES: Muito obrigado. Bom, claro que eu tenho tentado melhorar. Os leitores parecem estar curtindo também, pelo feedback que estão me dando.

CdL: Sobre sua evolução, você já declarou que precisava melhorar nos diálogos. Esse é um dos pontos cuja diferença pode ser percebida se compararmos o seu primeiro e o terceiro romance. Para você, qual a importância desse recurso dentro do todo? Em que exatamente e quanto acha que melhorou nesse sentido? 

ES: Muito importante. É o diálogo que dá vida aos personagens. Não só ele, mas é uma parte importante, acredito. Eu não posso dizer que melhorei (isso é para o leitor avaliar), posso dizer apenas que me esforcei para tentar melhorar.

CdL: Sua obra alcançou um grande público no Brasil, tornando-se um bestseller. Você faz parte também da coletânea de contos Geração Subzero, que reuniu autores “esquecidos pela crítica”. Afinal, não estar nas críticas da grande imprensa faz falta para você? Qual é a real importância destas críticas?

ES: Para mim é mais importante a crítica do leitor. Mas acho que toda crítica, quando feita com respeito, é válida e nos ajuda a evoluir.

CdL: Na sua opinião, um livro deve ser analisado dentro do seu nicho específico ou comparado com tudo o que compõe a literatura? Em outras palavras, uma obra de fantasia deve ser analisada tendo somente Tolkien como parâmetro ou podemos colocá-la ao lado de Graciliano Ramos, por exemplo?

ES: Acho que deve ser analisado com o coração. Pelo menos eu faço isso, enquanto leitor. Obviamente, os críticos discordariam.

CdL: Levando em conta toda a literatura brasileira contemporânea, como sua obra se situa nela?

ES: Para mim, é difícil fazer essa auto-avaliação. Prefiro que o leitor o faça.

CdL: Fazendo um exercício de futurologia, daqui cem anos, quais dos escritores brasileiros atuais continuarão sendo lidos? Por quê?

ES: Impossível dizer. E qualquer resposta seria errada. Prefiro não arriscar (risos).

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Edvaldo Pereira Lima é uma daquelas pessoas muito complicadas de se definir. Seu currículo, ainda que condensado, abrange páginas e mais páginas, mas vamos tentar dar uma ideia de quem ele é. Professor aposentado da Escola de Comunicação e Artes da USP, é Doutor em Ciências da Comunicação pela mesma universidade e realizou o pós-doutorado em Educação pela Universidade de Toronto, no Canadá. Também deu aulas como professor-visitante nas universidades de Florença, na Itália, e Londres, na Inglaterra. É co-fundador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, onde ainda ministra aulas.

Ed, como costuma ser chamado pelos conhecidos, foca boa parte de suas pesquisas nas narrativas de não-ficção, mas costuma ir além do convencional, propondo integrações multidisciplinares ao jornalismo.  Já escreveu diversos livros, dentre eles Páginas Ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, O que é livro-reportagem, Colômbia Espelho América, Aytorn Senna: o guerreiro de aquário e Escrita total. Recentemente, escreveu o capítulo sobre o Brasil do livro Literary Journalism around the Globe.

Nesta conversa para o Canto dos Livros, Ed fala sobre Jornalismo Literário (ou simplesmente JL), o poder das histórias edificantes e como a falta delas afeta o ser humano, mitologia, física quântica, olhar holístico sobre o mundo e alguns outros assuntos, como uma paixão de adolescente que levou para o mundo profissional.

Canto dos Livros: É constante o aumento de livros de não ficção nas livrarias. O que isso significa? As pessoas estão perdendo o interesse pela ficção?

Edvaldo Pereira Lima: Não sei se estão perdendo o gosto pela ficção, mas é fato que os livros de não ficção conquistaram nos anos mais recentes um lugar especial na produção das editoras, nas prateleiras das livrarias e no gosto do leitor.  Talvez parte desses leitores também leia ficção, enquanto uma parcela significativa (da qual fazem parte  leitores que antes não tinham o  hábito de ler, talvez) escolhe particularmente a não ficção.  De qualquer modo, o fato demonstra a maturidade do mercado editorial de livros, pelo menos nos grandes centros urbanos do país. Esse público encontra nos livros de não ficção abordagens exclusivamente disponíveis em livros, retratando distintos aspectos da vida real, quanto linhas temáticas de algum modo tratado por outras mídias, mas sem a longa duração e – às vezes – o aprofundamento desejado.

CL: Quais as boas novidades que apareceram no Jornalismo Literário nos últimos anos?

EPL: No caso brasileiro, o que merece registro é a continuação da produção de livros-reportagem em volume respeitável, sejam traduções de obras assinadas por autores internacionais, sejam trabalhos de escritores nacionais.  Alguns desses títulos apresentam qualidade narrativa considerável.  É o caso, recentemente, de Os Últimos Soldados da Guerra Fria,  de Fernando Morais, publicado pela Companhia das Letras. Trata-se de uma saborosa e competente narrativa da história algo que tragicômica de espiões cubanos que se infiltram no movimento anti-castrista dos Estados Unidos.

CL: Recentemente foi publicado o livro Literary Journalism around the Globe, cujo capítulo sobre o Brasil é de sua autoria. O Brasil tem alcançado seus próprios traços no Jornalismo Literário? 

EPL: Sim, há  características peculiares que marcam a produção do jornalismo literário por autores brasileiros. Nem sempre a precisão é tão meticulosa como se vê na produção norte-americana, por exemplo. Em compensação, o estilo é às vezes algo mais esteticamente livre,  como nas reportagens de Eliane Brum, ou apresentam um tom descontraído, quase como uma conversa entre compadres, como se percebe em textos de José Hamilton Ribeiro, por exemplo.  Participar deste livro – lançado nos Estados Unidos em 2011 pela University of Massachusetts Press, por iniciativa da International Association for Literary Journalism Studies, foi uma honra, contribuindo para divulgar internacionalmente os trabalhos pioneiros de Euclides da Cunha e João do Rio, assim como a fase exuberante da revista Realidade e do Jornal da Tarde na década de 1960. O livro, por sinal, pode ser comprado no Brasil através dos serviços de importação de grandes livrarias, como a Cultura, ou por meio da Amazon, na Internet.

CL: Dentro do JL, o que é inspiração? Você acredita no famoso 99% de transpiração e 1% de inspiração? O que você faz para conseguir esse bendito 1%?

EPL: Esses duas marcas da produção do JL geralmente atuam juntas.  Há um movimento de esforço e trabalho duro do autor – especialmente na pesquisa, no levantamento de campo, nas entrevistas, nas observações in loco –, por um lado, e inspirações que iluminam questões essenciais de uma obra, de outro,  ou ajudam a gerar passagens narrativas de qualidade estética. Uma coisa não existe sem a outra. Colocando de outro modo, uma delas, sozinha, é geralmente insuficiente para gerar uma boa obra de JL.  Você precisa das duas abordagens.

CL: A sua pesquisa envolve muito as chamadas histórias edificantes. Quais são os traços dessas narrativas? Como dosar este teor entre o drama humano e algo que edifique o leitor?

EPL: O que move o bom JL é a procura de compreensão dos episódios reais sob uma perspectiva integral, plena, que abarca tanto os aspectos factuais quanto os conteúdos subjetivos.  Se o autor é consciente de que o eixo condutor da boa narrativa  está nos conflitos que marcam o drama humano da existência, tem condição de manter o interesse do leitor do princípio ao fim, mesmo que a história escape de um final trágico ou amargo, ou mesmo que apesar de algo dessa natureza, exista um significado edificante.  Na vida real, nós seres humanos somos criaturas conscientes até um certo ponto; inconscientes, noutra medida.  O drama motor de toda existência humana é a pressão interna para que a nossa consciência se expanda ao máximo, diminuindo tanto quanto possível nossa porção inconsciente, que nos traz sofrimentos existenciais terríveis.   Somos seres impulsionados para sairmos das sombras – as porções negativas e muitas vezes destrutivas do inconsciente –, reconhecermos o que rejeitamos em nós próprios, nos demais e no mundo, e iluminarmos essa parte indesejada da nossa realidade, transformando-a.  Toda narrativa pública transporta implicitamente uma visão de mundo, contribuindo ou para manter o grau de consciência do leitor num nível muito baixo de entendimento da realidade, ou ajudando-o a despertar para uma visão transformadora, que não termina no ângulo puramente derrotista, negativista.  A visão negativista que conduz o leitor a um beco sem saída e à construção mental de uma representação destrutiva – a imagem de que o mundo não tem saída, de que a espécie humana é mesmo esse desastre sem conserto que vemos nos infinitos casos de corrupção profundamente imoral ou nas infindáveis histórias de crueldade do homem contra o homem – não é algo gratuito, sem efeito. Ao contrário, colabora para gerar, no inconsciente coletivo, que abarca a todos nós, um funesto pessimismo e uma desvalorização perigosa da nossa identidade enquanto indivíduos e espécie. Lamentavelmente, boa parte da produção de massa, na indústria cultural, contribui para a escravização das consciências nesse baixíssimo patamar de visão reduzida, ignóbil, das coisas, como é exemplo bem recente este polêmico caso do Big Brother, da Rede Globo de Televisão, em que vemos um deprimente episódio da baixaria que domina os princípios diretrizes de um programa produzido com todo o requinte tecnológico moderno, com audiência estrondosa, mas vergonhoso patamar de valores. A que serve algo assim? A manter as pessoas como que hipnotizadas, alienadas dos aspectos mais sublimes da vida.  São como que vampirizadas na consciência.  Resulta que ao se exporem a assistir sistematicamente a esses medíocres espetáculos de baixaria, estão dando um tiro no coração de sua própria dignidade como seres humanos.

No JL, se queremos que cumpra um papel que realmente valha a pena, nobre, na sociedade, não pode se sujeitar a essas imbecilidades dos meios de comunicação de massa. Precisa transcender essa nuvem nebulosa do pão e circo que domina boa parte da mídia, procurando retratar a realidade em sua complexidade vital, onde imperam fenômenos tanto luminosos quanto escurecedores da consciência, mas onde também manifestam-se inúmeros casos de seres humanos que transcendem a banalidade doentia da maior parte do nosso mundo contemporâneo, revelando que sim, temos esperança como espécie, ainda somos capazes de grandeza e nobreza.  A descoberta dessas qualidades, sua manifestação e consolidação nas pessoas exige um esforço enorme, às vezes dramático, em busca da consciência perdida. O drama humano verdadeiramente poderoso, narrativamente, é a trajetória dessa descoberta, na qual a consciência individual atravessa as barreiras tenebrosas dos poderes – políticos, culturais, econômicos – coletivos que tentam de todas as formas impedir que o indivíduo  liberte-se das visões de mundo escravizantes que para eles é cômoda, mas que para a pessoa humana é terrível, pois achatam e sufocam sua liberdade potencial de ser integral, pleno, verdadeiramente independente.  Dramas deste tipo, das jornadas de crescimento da consciência individual rumo ao seu potencial pleno, são cheios de suspense e desafios que não deixam a desejar a nenhum bom roteiro de Hollywood. Cabe ao autor de JL o exercício da sensibilidade para captar esse drama e contá-lo com maestria, tocando o coração e a mente do leitor, tanto pela qualidade narrativa de sua história quanto pela visão de mundo transformadora inerente a histórias desse quilate.
CL: Como o conhecimento de diferentes mitologias pode auxiliar um escritor a construir um texto de ficção ou não ficção?

EPL: Mais do que o conhecimento de mitos específicos – isto é, de histórias que apresentam sentido profundo, pela simbologia que transportam –, é bastante útil a escritores de ficção e não ficção conhecerem o processo arquetípico conhecido pelo nome de Jornada do Herói, padrão estruturador de narrativas que tem se mostrado universalmente aplicável na organização da sequência e dos elementos que compõem uma boa história dramática. O processo foi sistematizado gradativamente, começando pelo clássico livro O Herói de Mil Faces, do mitólogo Joseph Campbell, e chegando à  Jornada do Escritor, de Christopher Vogler – que reúne tanto conceitos de Campbell quanto do pai da psicologia humanista, Carl Gustav Jung –, ambos trabalhos de enorme importância na construção narrativa dos filmes de Steven Spielberg, George Lucas e James Cameron, por exemplo.  Pude formatar uma adaptação dessa linha estuturadora de narrativas a matérias de JL, formato este todo como partida para a Tese de Doutorado de Monica Martinez que resultou em seu livro Jornada do Herói: A  Estutura Mítica na Construção de Histórias de Vida em Jornalismo (Annablume, 2008).  A Jornada do Herói serve como baliza decisiva, ajudando o autor a compreender a dinâmica narrativa potencial da história sobre a qual esteja trabalhando, e a organizá-la no seu texto.

CL: Você defende que um escritor tenha uma base holística. Quais pontos de vista comumente vêm sendo negligenciados por esses profissionais?

EPL: A visão holística verdadeira nada tem a ver com concepções místicas de qualidade duvidosa.  Diz respeito, sim, a uma visão de mundo  integral, sistêmica, complexa.   É uma abordagem muito diferente desse patamar raso, mecanicista, superficial, esquemático que impera na maior parte dos relatos públicos, tanto na mídia jornalística quanto mesmo em obras de ficção. A nossa sociedade está nessa situação crítica em que se encontra parcialmente por causa desse olhar míope sobre a realidade que impera na maior do sistema cultural e do sistema educacional.  Essa visão distorcida e reducionista trouxe à nossa civilização este mundo em perigoso caminho de autodestruição em que nos encontramos. É urgente uma revisão e uma transformação do nosso olhar, rumo a uma perspectiva complexa, integral – portanto holística, já que a palavra “holos” quer dizer todo –, dinâmica, processual.  Se um jornalista literário absorve os instrumentos comprovadamente eficazes do JL para construir narrativas e a isso acrescenta um modo de ver holístico, realiza um trabalho de grande importância para a transformação da consciência do leitor rumo a um patamar relevante de compreensão dinâmica da realidade.  A aquisição de um olhar holístico é possível através do estudo de propostas de vanguarda existentes em vários campos do saber e da prática em que o autor reeduca sua maneira de ver as coisas, desenvolvendo para isto não só seus potenciais mentais, intelectuais, mas também suas emoções e seus processos intuitivos, colocando-se a serviço de captação e ressignificação da realidade.

CL: O que a física quântica, um assunto cujo estudo é de seu interesse, tem a acrescentar ao jornalismo?

EPL: Muito, pois é um dos campos da ciência que nos ajuda exatamente a olhar para a realidade com uma angulação complexa, dinâmica, abrangente. Tome-se, por exemplo, o conceito de múltiplas realidades apresentado pelo grande físico téorico David Bohm, e já estaremos vendo os fatos da história imediata de nossos dias não como algo raso, superficial e mecânico, mas como um processo complexo que nos abre um horizonte muito mais vasto de entendimento orgânico, vivo, efetivo e significativo do que é, verdadeiramente, esse fenômeno extraordinariamente desafiador e belo que se chama vida.

CL: Como podemos utilizar o máximo de potencial de nossa mente na hora de contar uma história?

EPL: Conhecendo a mente, abrindo nossa percepção para descobrir como pensamos, como vemos a realidade, que fatores condicionam o modo como a percebemos.  Praticando exercícios de distintas metodologias que nos ajudam a sairmos fora do padrão reduzido de visão das coisas apenas pelo lado estreito da racionalidade reduzida. Aprendendo a usar técnicas e métodos de ativação da criatividade que ensinamos nos cursos de pós-graduação da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, como a visualização criativa.  Exercitando alguns desses dispositivos de vanguarda que disponibilizo no meu método e livro Escrita Total de redação espontânea.  Aprendendo a meditar, como nos cursos e práticas do budismo, especialmente em suas linhagens tibetanas.  Abandonando os preconceitos da racionalidade estreita. Deixando nossa sensibilidade falar mais alto.

CL: Em todo seu tempo de carreira, qual sua maior decepção literária (um livro, um autor, algo que tenha ficado muito abaixo da sua expectativa…)? Por quê?

EPL: Não seria ético citar nomes, mas há alguns livros-reportagem decepcionantes, assinados por profissionais de renome do jornalismo, mas que nada sabem sobre a natureza real e as exigências do livro-reportagem. São pessoas famosas da mídia diária, mas que ao trabalharem um tema potencialmente rico, em livro-reportagem, levam para essa modalidade o mesmo padrão de linguagem e o mesmo caráter efêmero, superficial, do jornal do dia a dia. Metem os pés pelas mãos, produzindo um resultado pífio.

CL: Qual você julga ser o erro mais frequente de um pretendente a autor de não-ficção? E de ficção?

EPL: No primeiro caso, querer deitar verdades, como se sua leitura da realidade fosse a mais perfeita e a mais absoluta de todas. No segundo, achar que destilar pobreza de olhar o mundo a partir de seu próprio umbigo é a coisa mais esplendorosa que já aconteceu na história da literatura.

CL: Por que a opção por publicar alguns de seus livros por conta própria? Qual a vantagem, para o autor, nesse tipo de publicação?

EPL: No meu caso, não se trata propriamente de publicação por conta própria, mas sim de publicação por um sistema editorial independente e inovador.  Tenho livros publicados por editoras convencionais, mas também tenho títulos pelo Clube de Autores, iniciativa que democratiza sobremaneira a publicação de livros no país. O Clube oferece aos autores um modo de publicação instantânea, sobre a qual têm controle e domínio bastante grande do processo de edição, em si, sem custos e sem a burocracia operacional que cerca o trabalho costumeiro das editoras convencionais.

CL: Sua paixão pela aviação é amplamente reconhecida. Você trocaria tudo o que realizou dentro do jornalismo – e, mais amplamente, dentro de todo campo de narrativas de não ficção – para ter sido piloto? Por quê?

EPL: Não. O sonho de ser piloto foi uma paixão de adolescência. O que me move na aviação, mais do que tudo, é o que representa como liberdade e velocidade para unir culturas, conhecer mundos, transpor distâncias, descobrir territórios, povos e histórias dos mais variados cantos do globo. Estou feliz em unir de um jeito peculiar as duas coisas.  Parte da minha atividade profissional consiste em escrever, como jornalista, sobre aviação comercial.

CL: Um daqueles clichês, mas que todos gostam de saber a resposta: quais os seus livros e autores preferidos?

EPL: No JL, quase todos os livros de Gay Talese, com destaque para seu clássico Fama & Anonimato, assim como  para o ótimo  O Olho da Rua, de Eliane Brum. Em biografias, o bom O Mago, de Fernando Moraes, sobre Paulo Coelho.  Na ficção, o divertidíssimo Pantaleão e as Visitadoras, de Mario Vargas Llosa, assim como o extraordinário romance de ficção científica Shikasta, de Doris Lessing.  Na filosofia da ciência e suas implicações para toda a sociedade, o fabuloso Ponto de Mutação, de Fritjof Capra. Na categoria de boa narrativa por cientistas, Muito Além do Nosso Eu, de Miguel Nicolélis.   No conhecimento não convencional da realidade, os intrigantes livros assinados por Ramatís, psicografados pelo médium Hercílio Maes, com destaque para A Fisiologia da Alma. Em narrativa de viagem, o excelente Um Adivinho Me Disse, de Terziano Terzani.

CL: Está preparando alguma novidade que já possa nos contar?

EPL: Estou preparando sim, mas prefiro nada dizer, por enquanto.

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Neste sábado, dia 12, das 14h às 17h, acontecerá o 4º encontro do ano do Núcleo Granja Viana da Fundação Joseph Campbell, na Igreja Santo Antonio, no número 486 da Rua Santo Antonio, próxima ao quilômetro 24 da rodovia Raposo Tavares sentido São Paulo – Cotia. Na oportunidade, os capítulos 5 (somente segunda parte) e 6 do livro O voo do pássaro selvagem serão debatidos e haverá uma palestra de Ana Figueiredo, coordenadora da Roundtable de São Paulo da Fundação Joseph Campbell. O evento é gratuito, mas os organizadores solicitam a doação de um quilo de alimento não perecível que será destinado ao espaço paroquial onde o encontro acontece.

O objetivo do Núcleo Granja Viana da Fundação Joseph Campbell é o de estimular os estudos de mitologia e religião comparada a partir da perspectiva de Joseph Campbell (1904-1987), mitólogo estadunidense e um dos maiores estudiosos dessa área ao longo da história.

Os interessados em participar do encontro devem enviar ainda hoje (dia 10) um e-mail confirmando a presença para nucleogranjavianajcf@gmail.com.

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 Por Alberto Nannini

Damos nomes às coisas, e criamos sistemas de significação para compreendermos o mundo a nossa volta. A linguagem e suas infindáveis variantes, as línguas e dialetos – segundo uma corrente de pensamento muito respeitada, justamente o que nos difere de todos os outros animais – é um desses sistemas. É por meio dela que o que descobrimos pode ser exprimido, além de outros incontáveis usos. Ela nos revela O QUE foi descoberto.

Toda a ciência, bastante elogiada nas postagens anteriores, é outro sistema. Dividida esquematicamente em áreas do conhecimento, para que seja possível ramificá-la e aprofundá-la, é uma conquista fantástica, uma ferramenta extraordinária, para nos revelar COMO o mundo é feito.

A pesquisa sistemática feita pela ciência até responde, por meio de conjecturas e teorias, muitos porquês. Mas nem sempre estas respostas satisfazem ou encerram completamente o assunto. Qualquer um que já respondeu a alguma pergunta feita por uma criança sabe que os “POR QUÊS” podem se suceder quase infinitamente. Ou seja, percebemos desde bem cedo que algumas respostas estão longe de ser suficientes: buscamos mais que respostas, buscamos significado. Há, por isso, um outro sistema de significação para suprir esta necessidade: a religião.

John GRAY, ensaísta e filósofo britânico, define:

Tanto a ciência como a religião são sistemas de símbolos que servem às necessidades humanas – no caso da ciência, à predição e ao controle. As religiões servem a muitos objetivos, mas afinal respondem a uma necessidade de significação que é mais bem suprida pelo mito do que pela explicação.”

Posto que estes sistemas têm finalidades diferentes, parece estranho que haja “briga” entre a ciência e a religião, mas há, e bastante. Geralmente, quando uma pretende dar uma resposta onde a outra é mais gabaritada. E isso sempre aconteceu… Antigamente, a ciência tinha que prestar contas à religião, nas pessoas de seus dignitários. Os lamentáveis exemplos são conhecidos: Galileu, Giordano Bruno, dentre outros. Hoje em dia, houve uma inversão: é a religião que busca a “aprovação” da ciência, para validar seus dogmas e comprovar seus mitos. Um exemplo pronto é a Teoria Criacionista.

E o que esta inversão prova? Acho que há muito a ser estudado a este respeito, mas de imediato poderia se dizer que a ciência vem bastante prestigiada, crescendo em progressão geométrica nos últimos poucos séculos, e com este avanço, tem encontrado respostas, técnicas e descobertas que incontestavelmente melhoram tanto a qualidade como a expectativa média de vida. Desta forma, ao influenciar na vida de praticamente todos, tornando-a mais fácil, longa e prazerosa, a ciência vira o “alvo” de uma admiração antes dedicada à religião.

Com este suposto assédio à ciência, estaria então a religião se “cientificando”, ou mesmo se tornando desnecessária? A resposta não parece tão simples.

Em substituição a uma instituição religiosa que se confundia com o próprio governo, riquíssima, influente e tirana, a religião hoje entende que há mais liberdade de escolha, e precisa seduzir de outras formas. Tanto que as tendências religiosas apontam para algo parecido a um “self-service”: se aceita determinada denominação, mas não implicando necessariamente em concordância com todos os dogmas desta doutrina, mas também em se utilizar procedimentos, rituais e ter crenças “emprestadas” de outras religiões. A princípio, isso parece ótimo – o fanatismo e a obediência cega nunca terminaram bem. A religião está se adaptando ao mundo de hoje, e já não pode mais submeter a ciência a seus desmandos.

O porém é que, junto com o justificado prestígio da ciência, e da liberdade que há para se aprofundá-la, há também uma certa “superestimação”, como se nela fosse possível encontrar resposta para absolutamente tudo. Isso é um claro e grande exagero.

Ainda assim, a ciência, na pessoa de alguns de seus expoentes, tem empreendido um ataque pesado à religião – preferencialmente sobre aquelas com maior número de seguidores – tanto como instituição, como em sistema de crenças, que seria, segundo eles, não apenas obsoleto, como também prejudicial e potencialmente desastroso, ao fomentar guerras, ódio, preconceitos e outras agruras. Há uma espécie de desencanto com a religião, e os ateus, agnósticos e livre pensadores, antes prudentemente escondidos, tem se revelado, com graus variados de indignação ante o “passado negro” da religião, de forma geral.

Refletindo melhor sobre este cenário, é possível encontrar muitas ligações de guerras e matanças relacionadas à religião, em praticamente todas as épocas. Porém, parece bastante razoável dizer que a religião, dada a posição e importância que sempre teve, seria apenas o meio encontrado e utilizado por alguns homens – e são sempre estes que corrompem tudo – para exercerem aquilo que procuram avidamente: o poder. Em muitos casos, é o meio preferencial, pois a crença cega coage uma pessoa de bem, parecida com qualquer um de nós, a abrir mão de tudo o que tenha por uma “causa” difusa, à base de alguma promessa no “porvir” que não tem como ser racionalmente contestada.

Uma vez que a ciência depende de algum tipo de linguagem ou código para ser inteligível, o ataque à religião é feito nestes termos. Aponta contradições, inconsistências e ingenuidades em interpretações, quase sempre literais, feitas a palavras ou textos tido como sagrados. Estas observações são válidas, e estão de acordo com o lugar que a ciência ocupa hoje: algo como uma “lanterna”, para iluminar o que estava obscuro. Mas o problema é tratar o código da religião, mitológico e transcedental, como algo passível de estrita análise científica. John GRAY diz sobre: “As religiões não se constituem de proposições que lutam para tornarem-se teorias.” Mais que isso, a confusão feita com a linguagem metafórica do mito, ao se querer analisar suas histórias e parábolas à luz da ciência, os confunde com mentiras, e ridiculariza a sabedoria milenar neles contida.

Isso é um desserviço tão grande quanto o é a credulidade irrefletida, e ambos são igualmente danosos. Por exemplo, se o nascimento virginal era uma impossibilidade científica (hoje não mais: fertilização in vitro), é possível dizer, dentre outras interpretações, que a linguagem metafórica pretendia emprestar distinção e pureza àquele nascimento específico, episódio este, aliás – nascer de uma virgem – recorrente nas mitologias antigas.

De qualquer forma, um pequeno exercício de humildade mostraria que a ciência, ainda que formidável, é como uma “lanterninha”, um pequeno facho de luz apontando para a vastidão infinita. Imagine-se na escuridão absoluta, olhando um quadro-painel desenhado por todo um muro gigantesco, a Muralha da China, digamos, munido apenas desta lanterna. Você veria “flashes” das pinturas, e teria imensa dificuldade de “montar” a figura completa, quanto mais entender seu propósito. Faria sentido se gabar que a lanterninha na sua mão é muito mais avançada e potente que as tochas que os antigos empunhavam para tentar entender o quadro-painel, ou seria mais inteligente interpretar os relatos deles e perceber que, à parte a linguagem e a ênfase que davam a alguns detalhes, eles contavam uma história muito coerente?

Há um homem dedicou sua vida inteira para interpretar e procurar os padrões do equivalente a estes relatos: Joseph CAMPBELL. E a noção de religiosidade que ele construiu é muito mais consistente e significativa que o ataque que os autores ateus, como Richard DAWKINS, Sam HARRIS e Christopher HITCHENS fazem, respectivamente, em seus livros “Deus, um Delírio”, “Carta a uma Nação Cristã” e “Deus Não é Grande”. Entender os exageros e abusos que se fazem em nome da religião é uma coisa, atacar qualquer tipo de fé como algo característico de pessoas pouco inteligentes é outra, muito diferente.

E aqui concluo a primeira parte deste meu ensaio, grifando algo que espero que tenha ficado bem balizado: a comunhão com o que há de Divino NÃO DEPENDE de intelecto ou de instrução. Até porque muito do que é mais importante está acima da linguagem, como diz a citação do início. Envolve um tanto de instinto e um tanto de sabedoria, e bem pouco saber. Para tornar mais clara esta condição, há de se pontuar algumas da diferenças fundamentais entre o “saber” e a Sabedoria: o primeiro dependente do domínio de ao menos uma língua, é cumulativo, apreendido por esforço, disponível em locais específicos, como bibliotecas, faculdades, dentre outros, enquanto a última independente até de alfabetização, não é mensurável, é apreendida por vivência e reflexão, não armazenável, mas encontrada em todos os lugares. Dito de outra forma, Sabedoria é a habilidade de se utilizar com máxima perfeição o saber que se tenha. Daí o fato de haver pessoas muito “cultas” que são bem pouco sábias, e pessoas tidas como “ignorantes” que são repletas de sabedoria.

Logo, respondendo ao título do ensaio, se afirma de maneira categórica: Não são necessárias inteligência ou instrução para se experimentar o Divino. Nem tampouco é necessário se pertencer a alguma doutrina específica ou praticar determinados rituais para isso. Ou seja, nem muita ciência nem religião irrefletida. Se ambos extremos de exigência estão errados, daí se depreende também que o embate ciência x religião é inútil e custoso.

Termino por ora com uma citação religiosa antiquíssima que não se prende a dogmas, e uma outra de um dos maiores cientistas e gênios de todos os tempos:

O caminho que pode ser expresso não é o Caminho constante

O nome que pode ser enunciado não é o Nome constante

Sem-Nome é o princípio do céu e da terra

Com-Nome é a mãe de dez mil coisas” – TAO TE CHING

 “Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração pelo espírito infinitamente superior que se revela no pouco que nós, com nossa fraca e transitória compreensão, podemos entender da realidade.” – Albert Einstein

Para saber mais, indico:

A Anatomia de John Gray”, John GRAY, Ed. Record;

Isto és Tu”, Joseph CAMPBELL, Landy Editora;

O Mundo Assombrado por Demônios”, Carl SAGAN, Cia. das Letras

Além da “trinca” dos ateus, brilhantemente escritos, mas, felizmente, refutáveis:

Deus, um Delírio”, Richard DAWKINS, Cia. das Letras

Carta a uma Nação Cristã”, Sam HARRIS, Cia. das Letras

deus não é grande”, de Christopher HITCHENS, Ediouro

Na sequência deste ensaio, pretendo analisar brevemente o que nos separa e o que temos em comum em matéria de crenças, para, então, tentar indicar uma “terceira via”, que é aonde minhas reflexões me levaram.

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