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Posts Tagged ‘Narrativa de viagem’

Por Fred Linardi

VozesMarrakechEntre as particularidades de um bom livro de viagem está algo além da rica experiência de vivenciar os dias em que se passa em terras distantes geográfica e culturalmente. E aí está o tempero final que se dá num relato exemplar: a confluência de vivências culturais diversas – a de si e dos outros – num linguagem nobremente literária a partir de uma visão singular sobre o cenário e as pessoas que se apresentam, diversos de sentidos e motivações para um escritor. É essa a grande qualidade de As vozes de Marrakech, de Elias Canetti, que de defeito só tem um: suas breves páginas fazem o livro acabar muito antes de estarmos preparados para isso. Vale a pena conhecer o relato deste Nobel, que reúne as melhores qualidades de um escritor e ensaísta.

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Por Rodrigo Casarin

trem fantasmaA paixão de Paul Theroux pelos trens vem desde a sua infância, quando morava próximo aos trilhos que ligavam as cidades de Boston e Maine. Ao ouvir o barulho da locomotiva puxando todos os outros vagões, quase sempre sentia vontade de estar dentro de um deles. Theroux cresceu com a certeza de que o trem é um lugar seguro, ainda que a paisagem momentânea que o cerca possa ser extremamente desagradável. Para ele, é o melhor meio de transporte que há: não causa pânico como os aviões, não fede como os ônibus e não limita os movimentos dos passageiros como acontece em um automóvel.

Em 1973, quando já havia deixado os Estados Unidos e residia na Inglaterra, pegou um trem na Victoria Station, em Londres, rumo à estação central de Tóquio. Foi pelos trilhos do lendário Expresso do Oriente, parando e conhecendo cidades, conversando com pessoas, esboçando os seus próprios caminhos. Pegou também avião e navio, mas apenas quando trem algum poderia levá-lo ao destino seguinte. Precisou contornar o então quase impenetrável sul da União Soviética, encantou-se com a Índia e perambulou pelo sudeste asiático. Depois do Japão, o caminho de casa seria menos complexo. Um barco o levou até o gelado noroeste russo, onde subiu no Expresso Transiberiano. A ferrovia da volta era quase tão simbólica quanto a da ida.

Muita coisa na vida de Theroux mudou graças à aventura. Pessoalmente, é possível realizar-se, ao menos parcialmente, como viajante. Afetivamente, sua mulher lhe ornou com um par de chifres — o que lhe abriu a possibilidade de ser feliz em outro casamento. Profissionalmente, despontou como um promissor autor de narrativas de viagens após lançar O grande bazar ferroviário.

Trinta e três anos e muitos livros depois, o escritor quis saber se os locais por onde passara haviam mudado tanto quanto ele, e resolveu refazer a viagem que remodelou sua carreira. Saiu de Londres tendo o Japão como destino — e só não foi 100% fiel ao roteiro traçado na década de 1970 porque lhe recusaram o visto para o Irã e temeu ser seqüestrado e fuzilado no Afeganistão, mas ao menos pôde passar por reminiscências soviéticas, como o Turcomenistão e o Azerbaijão. A primeira viagem estava ali, como uma espécie de sombra contínua no seu caminho. Caberia ao escritor transformar a experiência em uma saudosa e modorrenta reprise de uma já desbotada aventura ou em algo novo, vívido, de real importância e incontestável valor literário e humano. Ao escrever Trem fantasma para a estrela do oriente, felizmente Theroux alcança a segunda alternativa.

Visão de mundo
Paul Theroux é um escritor em permanente evolução — ao menos em seus livros de não-ficção, pois não conheço seus trabalhos ficcionais. Uma mudança em sua personalidade acabou por impactar diretamente e positivamente em seus escritos: a maneira de ver o mundo. Quando escreveu O grande bazar, o escritor parecia ser um estadunidense quase caricato, que queria encontrar no resto do planeta as maravilhas de seu país natal, não outras possibilidades de se viver. Isso mudou. Em Até o fim do mundo, obra com trechos de diversos livros de viagens do autor, e O safári da estrela negra, que narra uma jornada pela África, essa transformação já era bastante perceptível. Contudo, é em Trem fantasma que ela fica mais latente.

A busca por entender, compreender e principalmente respeitar hábitos, culturas e formas de pensamento é essencial para que Theroux possa transmitir ao leitor um pouco de toda a complexidade dos lugares por onde passa. Sem um julgamento precipitado, o escritor consegue retratar toda a excentricidade, por assim dizer, de Saparmyrat Niyazov, então ditador do Turcomenistão, que rebatizou os meses do ano (janeiro passou a ter o seu nome) e tentou também rebatizar o pão com o nome de sua mãe.

A imersão em uma realidade completamente diferente é que leva Theroux a detectar a maneira como os vietnamitas lidam com as memórias da guerra com os estadunidenses. Há sim muita tristeza e pesar, mas em nenhum momento guardam rancor ou querem se vingar, pelo contrário, recebem e tratam Theroux com muita cordialidade. Para um filho do Tio Sam — e para os ocidentais, de uma maneira geral — isso é algo que beira o inverossímil. É o momento mais valioso de todo o livro. 

Domínio do gênero
Alguns preceitos são inerentes à narrativa de viagem, estão presentes em praticamente todas as boas obras do gênero. E Theroux sabe disso, a começar pela tentativa de estar em algum lugar para compreendê-lo; ser parte do todo sem modificá-lo, não um corpo estranho que causa ruídos. Isso permite ao viajante captar com mais fidelidade algo que se aproxime da essência dos lugares.

Um pensamento que Theroux transmite ao leitor logo nas primeiras páginas de Trem fantasma para a estrela do oriente tem muito a ver com isso: ele acusa viajantes de generalizarem lugares a partir de experiências brevíssimas, de tirarem conclusões de evidências insuficientes. Só faltou dizer que esses viajantes ainda escrevem para revistas de turismo. Ótimo que Theroux tenha consciência disso, ainda que também tente algumas generalizações.

É também importante que um viajante ganhe ares de “sabichão”. Theroux resgata passagens e se aprofunda no passado de muitos lugares, como se dominasse a história de cada canto recôndito da Terra. Não se engane, muitas pesquisas e estudos posteriores à viagem precisam ser feitos para que se atinja esse nível de excelência.

Por fim, o aspecto mais importante para que a narrativa de viagem possa ser vista como uma peça literária: o texto de Theroux é realmente bom. Ao longo de Trem fantasma, somente dois problemas me chamaram a atenção: a repetição de alguns conceitos (a maneira como a Índia atual vale-se da exploração de trabalhadores, por exemplo) e o último capítulo, uma espécie de breve ensaio repleto de chavões sobre viagens. Nada que tire o brilho da obra.

Resenha publicada originalmente na edição 161 do jornal literário Rascunho 

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Por Rodrigo Casarin

escritor fim do mundoO ano era 2007 e Juremir Machado da Silva, tradutor de Michel Houellebecq para o português (vertera Partículas elementares Extensão do domínio da luta até então), havia conseguido que o escritor francês fosse um dos convidados do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento. Convite aceito, Houellebecq pede ao “amigo” Juremir que, junto com sua mulher Claudia, também o acompanhe a uma viagem a Buenos Aires, Ushuaia e El Calafate. Vão à Patagônia porque é o lugar habitado mais ao Sul do mundo; porque, para os franceses, há a impressão de que nenhum outro canto pode ser mais longe — ainda que a Nova Zelândia seja mais distante da França — e porque, na ocasião, Houellebecq vendia mais livros na Argentina do que em todos os outros países hispânicos juntos.

Claro que o casal aceita o pedido — caso contrário, Um escritor no fim do mundo (viagem com Michel Houellebecq à Patagônia) não existiria e, conseqüentemente, esta resenha tampouco. Embarcam em uma viagem de sete dias, e é importante notar como de algo tão breve Juremir retirou um bom e valioso relato. Livros de viagens costumam retratar longas expedições — como Na trilha da humanidade, de Airton Ortiz —, aventuras que duram meses — O safári da estrela negra, de Paul Theroux —, buscas por algo quase sagrado — A última casa de ópio, de Nick Tosches — ou profundas imersões na cultura um país ou região ao menos um pouco estranho ao viajante-escritor — Colômbia espelho América, de Edvaldo Pereira Lima. Em todos os casos, quanto mais tempo o explorador tiver para flanar pelo desconhecido, melhor.

Talvez por não ter tido tanto tempo para esmiuçar a cultura local, talvez por não ter vivido nenhuma grande aventura — a viagem que Juremir, Michel e Claudia fazem é estritamente turística: andam de avião, táxi, hospedam-se em bons hotéis, integram excursões a atrações tradicionais, comem em bons restaurantes… — ou por estar acompanhado de um interessante escritor de renome internacional, o foco da escrita de Juremir se concentra muito mais no relacionamento que desenvolve com Houellebecq do que na viagem em si, que fica em segundo plano.

O autor opta por iniciar a obra com uma confissão que é quase um paradoxo para o que vem a seguir: “Eu amo as viagens e as memórias fugitivas. Mas odeio os viajantes e seus relatos”. Logo depois, trabalha com um conceito um tanto básico das narrativas de viagem: “Fomos ao exterior. Viajamos para o interior de nós mesmos. É essa narrativa que pretendo fazer aqui: a história de uma viagem ao interior de um homem”. E o que entrega ao leitor não é simplesmente um relato da sua passagem pela Argentina, mas principalmente uma interessante mistura de perfil do escritor francês — uma viagem ao seu interior — com ensaio sobre a relação dos dois — ou dos três, em alguns momentos. 

Difícil companheiro

Michel Houellebecq é um gênio ou um grande idiota, depende de quem o avalia. Em abril de 2002, Moacyr Scliar resenhou Plataforma, terceiro romance do francês, para a revista Veja. O título do texto, bastante elogioso à obra, era exatamente uma alusão a esses dois extremos de tratamento ao escritor: “Seria o autor francês um novo Albert Camus ou apenas um romancista medíocre e apelativo?”.

Seus romances são perturbadores. Pessimistas, politicamente incorretos, cheios de humor negro e com cenas de sexo que alguns dizem se aproximar da descrição de um filme pornô, de alguma maneira refletem a imagem do próprio autor. Houellebecq gosta de polêmicas e parece não se preocupar com o que os outros pensam dele (os brasileiros que o digam: o escritor já cancelou duas vezes sua vinda à Flip; a segunda, inclusive, aconteceu neste ano). Esforça-se para nutrir a imagem construída em torno da sua figura.

Na relação com Jurandir, faz questão que seja visto como alguém arrogante e eurocentrista, além de reiteradamente mostrar-se sedento por sexo. “Eu adoraria transar com brasileiras de dezessete anos que me acham radicalmente delicioso, mas isso me parece difícil dado o pouco tempo que ficarei em Porto Alegre. Tu não poderias organizar um concurso para descobrir a mais motivada dessas garotas? Afinal, estou ficando velho e talvez seja a minha última oportunidade de ir para a cama com uma brasileira”, diz em determinado momento para o parceiro, que, em algumas ocasiões, tem a clara impressão de que ouvirá Houellebecq se convidando para participar de um ménage à trois junto com o brasileiro e sua mulher.

Como é de se imaginar, a relação com o escritor francês não é exatamente tranqüila. Imprevisível, pode desencadear uma longa e surpreendente discussão sobre o que pingüins e lobos marinhos supostamente representariam — Houellebecq defende os primeiros; Juremir, os segundos, numa discussão que ganha corpo e importância ao longo do livro —, mas também se comunicar com o interlocutor apenas por meio de “humm” com entonações e sentidos diferentes, tudo depende do seu humor. Uma pena, pois quando o francês resolve efetivamente falar, surgem boas conversas, cheias de idéias, teorias e discussões intercaladas por amenidades e bobagens — que dão um toque pessoal e informal aos diálogos, bem ao ritmo de uma viagem sem grandes compromissos —, muito bem transpostas para o livro por Juremir.

Como não poderia ser diferente, o assunto que rende os melhores papos é literatura. Ciente do vasto conhecimento do francês, Juremir, em uma preocupação típica de intelectual, até decora o trecho de um texto de Jean Baudrillard para poder citá-lo e se fazer de erudito. Com essa alternância entre quase monólogos seguidos de lacônicos “humm” e longos, profundos e bem humorados diálogos, Juremir e Houellebecq ora parecem estar se descobrindo, ora parecem velhos amigos. 

Paisagens de gelo

Talentoso e atento, Juremir não se perde quando o francês resolve praticamente se enclausurar em si mesmo. Utiliza a relação com Claudia, as experiências que vivem, as refeições e momentos turísticos para dar corpo e movimento ao livro. Também observa bastante Houellebecq, em alguns momentos até demais: “É sempre comovente e elegante esperar um escritor famoso urinar”, confessa.

Apesar do foco na convivência com Houellebecq, em alguns momentos a narrativa de Um escritor no fim do mundo aproxima-se dos tradicionais livros de viagem. Juremir traz um pouco do fim do mundo para o leitor — lá encontram marcas da civilização que parecem se espalhar por toda a parte: American Express, Diesel, Puma, Adidas, Renault, Sony e BMW, por exemplo — e apresenta interessantes histórias de alguns lugares por onde passam, como o presídio de Ushuaia.

Ainda levando em conta os elementos locais, são interessantes as poucas oportunidades em que o autor se utiliza de algo tradicionalmente hermano como recurso. Eis uma amostra: “O silêncio tornou-se espesso. Parecia a defesa de um time argentino de futebol, de tão compacto”. Aliás, o futebol aparece em diversos momentos, mas é uma pena que daí surjam os raros deslizes do autor. Escrever que “em time que está ganhando não se mexe” para justificar o pedido de outra garrafa do mesmo vinho que estavam tomando ou que quando vêem um enorme bloco de gelo, correm para fotografá-lo junto com “as torcidas reunidas do Flamengo e do Corinthians” é optar por soluções fáceis demais.

Entretanto, não fossem construções tão óbvias, passariam desapercebidas perante os méritos do escritor. Durante uma das muitas conversas sobre literatura, Houllebecq pergunta: “Por que os seus livros não são lidos, Juremir?”. “Talvez por serem ruins. Essa é a opinião dos que me criticam”, responde o brasileiro. Não sei como andam as vendas nem o número de leitores de Um escritor no fim do mundo, mas, caso não estejam sendo satisfatórios, o problema está em algum outro lugar, não na qualidade da obra. Ao menos na opinião deste que lhe critica, Juremir.

Resenha publicada originalmente na edição 160 do jornal literário Rascunho 

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CLB26 CapaA Colômbia de Gabriel García Márquez, as histórias do tempo colonial e retratos instantâneos da geografia, povo e situações sociais são a primeira plataforma de leitura de Colômbia Espelho América 26, de Edvaldo Pereira Lima, nova edição atualizada de obra lançada com título ligeiramente modificado em 1987. A segunda é o tema subjacente do sonho da integração latino-americana, espelhado nas dores e dramas da situação colombiana.

“Tantos anos depois, o livro ganha um status de registro histórico, além de atualizar aspectos da vida colombiana de hoje”, comenta o autor, professor universitário, escritor e jornalista. Trata-se, comenta, de um formato narrativo singular da literatura de não ficção cujo propósito é oferecer ao leitor um mergulho intelectual, simbólico e sensorial em locais onde o escritor penetra como protagonista de uma jornada de descoberta, carregando consigo a probabilidade da projeção futura de quem vai lê-lo.

“Quando saiu a primeira edição, o Brasil dava pouca atenção a seus vizinhos de língua espanhola”, prossegue o autor. “Não mudou muito na área cultural, mas no setor empresarial muita gente agora se interessa, pois cresce a presença corporativa brasileira nos demais mercados sul-americanos. A Colômbia, em particular, ganha muita atenção, pois tem o segundo mercado doméstico mais importante da região após o Brasil. Da mesma forma, a curiosidade dos colombianos pelo nosso país se amplia, mobilizando muita gente a aprender o português, além de se informar sobre a cultura e a economia brasileira”.

O livro serve como introdução ligeira à Colômbia, além de discutir a questão da integração continental. É, para o autor, também um trampolim convidativo para estimular o leitor a outras leituras mais ambiciosas ou a viagens de conhecimento cujo propósito transcende o interesse meramente turístico.

A obra é publicada pelo sistema editorial Clube de Autores. Clique aqui para visitar sua página.

Veja a entrevista que fizemos em janeiro do ano passado com Edvaldo Pereira Lima.

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Por toda a equipe

Recentemente, eu, Rodrigo, entrevistei o escritor Antonio Lino para uma matéria que escrevi para a Revista da Cultura. Como o texto solicitado era pequeno, tive que descartar quase tudo que o entrevistado disse, resultando na famosa e lamentável pescada de aspas. Contudo, para que o conteúdo da boa entrevista não se perca, resolvi expandi-la com a colaboração de toda a equipe aqui do blog,

Antonio Lino é um dos tipos raros que não deixa que a vontade de cair na estrada sem destino certo e nem data para voltar fique apenas nos sonhos. Sem medo de sumir um pouco do mundo onde vivia, largou São Paulo para trás e foi explorar os confins do Brasil em uma Kombi, que se transformou em sua casa. Da aventura nasceu o Encaramujado, um livro que conta parte de tudo o que o escritor viveu ao longo da viagem aos interiores – do país e de si mesmo. Cuidado, leitor, a conversa abaixo deixará você com um imenso desejo de cometer alguma semelhante saudável loucura.

Canto dos Livros: Qual foi o seu maior objetivo ao escrever o Encaramujado?

Antonio Lino: Escrevendo eu colocava alguma ordem na bagunça de sentimentos que a viagem me provocava. E ao mesmo tempo em que a viagem ia definindo o livro, o contrário também acontecia: o livro ia definindo a viagem. Esses dias, li uma frase do Sérgio Sant’Anna com a qual me identifiquei muito. Ele dizia: “Às vezes até seleciono aquilo que vou viver em função do que desejo escrever”. Sendo assim, não sei bem se foi o maior, mas creio que um dos grandes objetivos do Encaramujado, desde o começo, foi me servir como uma espécie de cajado, que me ajudou muito a firmar meus movimentos, enquanto eu vivia os abalos intensos da viagem.

CL: Como você vê a literatura de viagem no Brasil e o que te motivou a fazer algo do gênero? Foi inspirado por algum autor em particular?

AL: Para além dos relatos de aventura, a literatura de viagem é um gênero bastante amplo, e um tanto difícil de enquadrar. Talvez nem seja propriamente um gênero, mas um “transgênero”, digamos assim, pois flerta com a ficção, com o ensaio, com a crônica, com a reportagem, com a poesia… Por isso, não me arrisco a fazer uma análise da literatura de viagem no Brasil, seria muito pretensioso da minha parte. Mas tenho minhas preferências, claro. No que se refere aos relatos não ficcionais, por exemplo, já li muitos livros que me pareceram descritivos demais, uma coleção de detalhes, diários repletos de pormenores. Acho isso enfadonho. Não me interessa saber o que o cara comeu no café-da-manhã, se ele escovou os dentes depois, se parou pra abastecer o carro… Nesse sentido, em geral, prefiro os escritores que viajam aos viajantes que escrevem. E especificamente em relação ao Encaramujado, um autor que me inspirou muito foi o Julio Cortázar. Na década de 80, ele viajou numa Kombi vermelha pela França, com a sua esposa de então, a Carol Dunlop. A partir dessa experiência, juntos, os dois escreveram Os Autonautas da Cosmopista. Além da qualidade literária (e da referência à Kombi, claro), o que me fascina bastante nesse livro é a destreza poética dos autores, que transformaram uma viagem tão aparentemente ordinária (o casal passou 30 dias na mesma estrada, encostando em todos os pontos de parada que encontravam pelo acostamento) num relato incrivelmente sensível e criativo. Para mim, esse é o ponto: nos livros sobre viagem, é o olhar do viajante, mais do que a viagem em si, o que realmente me inspira e me interessa.

CL: Como você se organizou para fazer essa viagem? Estabeleceu datas, orçamentos, roteiro geográfico…?

AL: Entre a decisão de viajar e a saída, passei cerca de um ano cuidando dos preparativos. Na verdade, o mais difícil mesmo foi me desligar das relações e compromissos que me seguravam em São Paulo. O resto foi cair na estrada. Eu tinha amigos espalhados pelo país que eu queria visitar e pretendia também conhecer alguns festejos tradicionais da cultura popular brasileira. Estive por exemplo na Festa do Divino, no Maranhão, num festival do povo Yawanawa [foto], no Acre, num Encontro dos Povos do Cerrado, em Goiás… mas quando eu não ouvia nenhuma batucada por perto, geralmente os acasos é que me guiavam. Na maior parte do tempo, viajei sem lugar certo para ir nem hora marcada para voltar.

CL: Um projeto como o Encaramujado exige certo nível de desapego afetivo, não?. Por outro lado, deve proporcionar uma amplitude imensurável na capacidade de lidar e compreender gente diferente. Após a viagem, o que mudou no jeito com que você lida com as pessoas? É mais fácil ou mais difícil “se apegar” ou ter afinidade com outra pessoa? Por quê?

AL: Além do desprendimento inicial, na saída, quando é preciso se separar da família e dos amigos, durante a viagem também se pratica continuamente esse desapego afetivo em relação às pessoas que cruzam seu caminho na estrada. De tanto se separar dos outros, o viajante acaba aprendendo melhor como estar junto. Parece um paradoxo, mas as despedidas ensinam algo sobre os encontros. E o que sinto depois dessa experiência é que o desapego não precisa se confundir com uma certa frieza, ou até desdém, no trato com a vida, não é isso. Acho que o cuidado todo é para não cultivar falsas sensações de posse e controle em relação a alguém. Sem esse sentimento de “propriedade particular”, as amizades e relações amorosas tendem a ganhar uma profundidade leve, natural. Nesse sentido, sinto que o desapego afetivo, em vez de me afastar das pessoas, na verdade, pode até fortalecer as minhas relações.

CL: Como foi passar as experiências de uma viagem pelo Brasil em uma Kombi para um livro?

AL: Boa parte dos textos do Encaramujado foi manuscrita na estrada. Era uma cena muito comum me ver por aí, nos banquinhos de praça do interior, com o bloquinho de anotações na mão, escrevendo, escrevendo. De modo que o livro e a viagem foram ganhando forma e conteúdo juntos. Nesse sentido, não sei identificar muito bem quando foi que a viagem virou livro e como foi essa passagem porque, dentro de mim, o escritor e o viajante são inseparáveis, convivem como um só.

CL: Você se preocupou mais em fazer com que o leitor também viajasse e tivesse suas próprias sensações ou se sentisse em sua pele, vivendo os sentimentos que você viveu?

AL: Me fascina mais pensar que a imaginação dos leitores reinventa a minha viagem. Por isso, quando alguém me escreve para compartilhar suas impressões em relação ao Encaramujado, é como se as posições se invertessem: o leitor assume o volante da Kombi e eu vou no banco do passageiro, admirando uma viagem que já não é mais minha. Em vez da repetição da minha experiência, necessariamente pessoal e intransferível, acho que o livro oferece janelas. E cada leitor, à sua maneira, acaba reconhecendo ali suas próprias paisagens. É o que eu espero.

CL: O Brasil não é um país muito amigável quando se trata de estradas. Houve algum episódio em que você chegou a temer pela vida de sua Kombi (e sua Kombi a temer pela vida do motorista)?

AL: Na verdade, ao longo da viagem, até que fiquei com uma impressão positiva sobre a qualidade da malha rodoviária brasileira. É claro, percorri alguns trechos vergonhosos (no Piauí, por exemplo, me lembro de uma placa pintada à mão na beira da estrada, anunciando aos motoristas, ao mesmo tempo como advertência e como protesto, que viriam pela frente “86 km de desprezo e abandono”. Dali em diante, confirmando a placa, a pista se transformou numa sucessão de crateras). Me enrosquei em alguns atoleiros também, no Jalapão e na Chapada dos Guimarães (mas aí, foi mais por imprudência do motorista, que colocou a Kombi em território exclusivo a 4×4). O único episódio mais grave não teve relação com a qualidade da estrada: no Maranhão, me envolvi num acidente com dois ciclistas. A Kombi derrapou e tombou na pista. Todos ficaram bem, mas o carro teve que ser rebocado para o conserto. Nos cinco meses seguintes, continuei a viagem a pé.

CL: Se o Encaramujado tivesse sido escrito por outra pessoa, o quão diferente você acha que ele seria?

AL: Já dizia o velho Heráclito, aquela história de que um homem não se banha duas vezes no mesmo rio. Da mesma forma, um livro não se repete, nem mesmo pela pena do próprio autor, o que dirá por outra pessoa. O Encaramujado é obra de quem eu fui naquele momento. Nunca mais vai acontecer.

CL: Toda viagem pode ser uma oportunidade de autoconhecimento. Que Antonio Lino você encontrou pelos confins do Brasil?

AL: Durante a viagem, tive a oportunidade de conviver com vários Antonios. Fui agricultor, peão-de-obra, pescador, artista mambembe, alpinista, e muito mais. Essa possibilidade de me experimentar, de me descobrir plural e conhecer um pouco melhor esse monte de gente dentro de mim, foi sem dúvida um dos grandes baratos da viagem. Por isso, acabei preferindo não ficar com nenhum Antonio em especial. Na verdade, para mim, esse exercício de autoconhecimento é fascinante justamente pela contínua perdição de si mesmo. Mais do que o encontro definitivo, acho que o movimento da busca combina mais com um viajante.

CL: De tudo o que viu pelo caminho, o que você encontrou de mais diferente de você mesmo? Se tivesse de escolher, hoje, uma outra vida, qual das tantas retratadas no livro você escolheria? Por quê?

AL: Por mais interessantes e diferentes que tenham sido as experiências que vivi durante a viagem, tenho escolhido não estacionar em vida nenhuma. Isso não quer dizer viver superficialmente, à deriva, do tipo “pra onde me chamar eu vou”. É, na verdade, uma tentativa de se manter aberto, receptivo às novidades. E um cuidado também para não alimentar muita nostalgia da estrada, como se minha felicidade só fosse possível viajando. Quando começo a me sentir meio entediado, lembro de uma frase do Rilke: “Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas…”. Atualmente, mesmo “parado”, morando num “imóvel”, tenho tentado seguir essa recomendação do Rilke: ao invés de escolher uma outra vida, mais poética, em algum lugar distante, no passado, procuro encontrar a poesia aqui mesmo, na vida que eu tenho hoje.

CL: Qual história inédita dos bastidores da viagem/ produção do Encaramujado poderia contar para nós?

AL: Tem uma historinha que acabou não entrando no livro, que aconteceu em São Luiz do Maranhão. Como eu disse, depois do acidente, segui viagem sem a Kombi. Depois de cinco meses a pé, rodando pela Amazônia, voltei para pegar o carro na oficina. Imagine, a Kombi parada aquele tempo todo, estava toda suja, uma poeira danada por dentro. Então estacionei em frente a uma pensãozinha em São Luiz e comecei a arrumação. Na calçada, fui organizando o que eu ia jogar fora, dentro de uma caixa de papelão. Lá pelas tantas, a caixa já cheia de cacarecos, chega um mendigo, conversa comigo e me pede pra fuçar aquele meu lixo. Deixo ele lá, mexendo no que eu havia descartado. E quando ele se despede e vai embora, o que me surpreende é que, entre tudo o que estava ali, ele escolhera justamente umas fotos de alguns amigos e da minha família, que eu havia jogado fora porque estavam já muito amassadas e molhadas e além do mais, eu tinha as cópias digitais. Aquilo me tocou profundamente. Um misto de compaixão pelo sujeito, já que aquele gesto me pareceu o cúmulo da solidão. E ao mesmo tempo, um incômodo, como se ele estivesse invadindo a minha vida ao levar aquelas fotografias. Até comecei a escrever um conto, baseado nessa história. Mas até hoje, ainda não acabei.

CL: O que fica de mais gratificante numa experiência como essa?

AL: Além de todos os aprendizados colhidos na estrada, sem dúvida, uma das maiores recompensas da viagem é essa possibilidade de compartilhar histórias com outras pessoas através do livro. Acontece de me escrevem contando das inspirações de um ou outro texto do Encaramujado, e isso me fascina, porque, de certa forma, isso quer dizer que minha Kombi nunca parou. Na imaginação de cada leitor, a viagem segue acontecendo.

CL: Como tem sido a aceitação do livro pelo público?

AL: Seis meses depois do lançamento, a primeira tiragem, de mil exemplares, já vai se esgotando, o que é um bom feito para um livro independente, dentro dos padrões do mercado editorial brasileiro. Entre algumas reportagens e entrevistas, que tem ajudado bastante na divulgação, sinto o boca-a-boca funcionando, muita gente comprando por indicação, ou que pegou o livro emprestado do amigo… Graças ao generoso empurrão dos leitores, posso dizer que o Encaramujado tem conseguido embalar bastante bem.

CL: A publicação de livros hoje, ainda que não seja acessível a qualquer um, é mais fácil do que nunca, já que existem impressões por demanda, editoras especializadas, dentre outras alternativas. O que isso implica para os autores?

AL: Mais e melhores oportunidades de ser lido, certamente. E mais responsabilidade também. Porque se começam a aparecer novas possibilidades de publicação (entre elas, a auto-publicação), o autor não pode mais se colocar naquela posição resignada, de “gênio incompreendido”, à espera de que alguma editora reconheça seu talento e venha bater à sua porta querendo publicá-lo. Me parece (como um palpite, quem pode saber?) que nós escritores precisaremos cada vez menos de qualquer tipo de chancela institucional para publicar nossos textos e estabelecer um contato direto com os leitores. Isso pode afetar profundamente as regras do mercado editorial e a forma como é comercializada a literatura. Vejo essa possibilidade com os meus melhores olhos.

CL: Você se sente “preso” ao tema de Literatura de Viagem? Quais são seus próximos projetos?

AL: Depois dessa viagem pelo Brasil que está contada no Encaramujado, eu já experimentei uma outra aventura: entre 2009 e 2010, andei dez meses pela África. Dessa vez, sem a Kombi. Fiquei dois meses num campo de refugiados em Gana e depois morei sete meses na Libéria, um pequeno país que tenta se recuperar de quatorze anos de guerra civil. Atualmente, estou trabalhando no meu próximo livro, que contará algumas das histórias que ouvi e vivi lá na África. Apesar de ser recorrente nos meus textos, não me sinto preso ao tema das viagens não, de maneira alguma. Muito pelo contrário: misturando viagens com literatura, o que eu sinto é liberdade.

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Confira aqui a entrevista que fizemos com Renato Modernell.

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Quando falei aqui no blog do lançamento de Encaramujado, de Antonio Lino, algumas pessoas demonstraram interesse pela obra. Agora ficou mais fácil de adquiri-la, o autor acabou de lançar a versão digital do livro, que pode ser baixado pelo site www.encaramujado.com.br. O preço? Quanto você achar justo. Isso mesmo, você baixa a história, lê e paga o quanto achar que vale.

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Monica Martinez é uma dessas profissionais que conseguem unir o domínio da prática e da teoria de sua profissão. Doutora em Ciências da Comunicação pela USP, defendeu uma tese que depois se transformou no livro Jornada do herói – a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo. Não parou por aí, foi para a Umesp onde obteve o seu pós-doutorado. Professora universitária e ativa pesquisadora, também possui interesse pela Criatividade. Ministra cursos de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo e, sobre o assunto, publicou Tive uma ideia! – o que é criatividade e como desenvolvê-la. Ainda que atualmente se dedique mais ao campo acadêmico, Monica é uma apaixonada pelas redações – nelas já redigiu matérias publicadas em grandes revistas do país. Não bastasse tudo isso, ainda está prestes a publicar o seu primeiro livro de ficção. Poderíamos falar por mais umas 50 linhas sobre suas qualificações, mas pararemos por aqui e deixaremos que a entrevista revele mais da PhD.

Canto dos Livros: Na sua opinião, o que é literatura?

Monica Martinez: Boa pergunta. Às vezes é mais fácil saber o que não é literatura do que o que de fato se encaixa neste rótulo, não é? A meu ver, e de forma bem sintética, literatura demanda o uso estético e criativo da linguagem escrita. E este uso deve sempre ser visto no contexto do espaço e do tempo em que o material é produzido.

CL: O Brasil é tido como um país de pessoas criativas. Essa virtude engloba a produção literária, ou essa é uma característica infundada do nosso povo? A criatividade artística não depende de um sistema de educação de maior qualidade, afinal?

MM: Um dos estudiosos contemporâneos de criatividade, o estadunidense Steven Johnson, remete ao conceito de redes líquidas para falar sobre criatividade. Este argumento é baseado nos estados da matéria e, portanto, é de simples compreensão. Assim, no estado gasoso há um caos criativo, porém neste universo caótico as boas ideias têm dificuldade em se concretizar. Já no sólido há estabilidade, porém as estruturas são tão cristalizadas que as inovações encontram dificuldade para irromper. Neste cenário, entendo que o Brasil estaria mais próximo do caos, com bastante explosões criativas, mas enfrentaria desafio no planejamento e na implementação a longo prazo das ideias criativas. Não basta criar: é preciso implementar as boas ideias, o que demanda outras habilidades do ser humano.  Habilidades, muitas delas, que evidentemente são transmitidas ou treinadas pelo sistema educacional, daí a importância de ele ser eficiente.

CL: Pegando neste ponto também, sempre existe uma grande questão em torno de escola para escritores. Alguns defendem sua importância, outros dizem que escritores já nascem prontos. Qual é a sua opinião?

MM: Já vi muita gente talentosa que simplesmente não tem a disciplina necessária para sentar e escrever. A escrita não é um fim, mas um processo. Neste sentido, é muito salutar a troca de informações e experiências, daí, a meu ver, a grande importância das oficinas. Há também muito de grupo de apoio nestes grupos, que inspiram os integrantes a vencer seus desafios e ir além do que imaginam ser seus limites.

CL: A partir da sua experiência em salas de aula, quais são as principais causas de bloqueios criativos que seus alunos expõem? E como fugir deles? 

MM: Deste assunto entendo bem, pois desde 2004 ministro um curso de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Nele, faço um levantamento, por meio de respostas espontâneas, dos problemas relacionados a bloqueios. As seis causas de bloqueios mais citadas são desorganização, dispersão, perfeccionismo, indisciplina, insegurança e falta de estabelecer prioridades, respectivamente. Penso que não se trata de uma questão de fuga, mas de identificá-los e estabelecer uma estratégia para lidar com eles. É simples assim.

CL: Você anunciou recentemente que em breve lançará um livro de ficção. O que podemos esperar dele?

MM: Livros são como filhos. A gente lhes tem um amor infinito, mas nunca sabe de fato o que se pode esperar deles. E aí reside a graça: em geral somos surpreendidos por ambos. No meu caso, até agora, o simples fato de escrever ficção foi uma das coisas mais deliciosas que já fiz. O que já é uma recompensa e tanto. O que vier a mais é lucro…

CL: Como foi para uma pessoa tão acostumada a escrever fatos reais ter a liberdade total para criar o que quisesse? Essa liberdade em algum momento atrapalhou?

MM: Sou muito rigorosa com a apuração quando faço um texto jornalístico. A pessoa não tem mais ou menos 1,70m. Ou tem 1,69m ou 1,71m, por exemplo. Para mim, portanto, escrever ficção foi relaxante, um estado muito criativo e libertador.

CL: Um dos erros comuns de iniciantes em não-ficção é a dificuldade em livrar-se de conceitos pré-concebidos, amarras e juízos de valor. Você sente isso também? Como fazer para quebrar preconceitos, tabus e julgamentos que estão tão intrinsecamente ligados a cada um de nós?

MM: Acho que tenho uma característica de personalidade que me ajuda muito, que é a de ser muito exigente comigo mesma, mas de ter uma grande abertura para as idiossincrasias dos outros. Eu tenho uma infinita curiosidade de entender o ponto de vista do outro, sem endossá-lo nem absorvê-lo, mas de compreender o porquê a pessoa pensa, sente ou age desta ou daquela forma. Uma vez uma aluna escreveu uma história de vida fantástica, na qual uma moradora de um complexo habitacional poupava a vida de um rato que morava em sua cozinha — ainda que ela tivesse medo que o roedor mordesse seu bebê — porque ele tinha três patas. Essa delicadeza com um animal, digamos, com restrições motoras, vinda de uma pessoa com tal desfavorecimento econômico, nunca saiu da minha cabeça. A realidade, realmente, na maioria das vezes é mais surpreendente que a melhor ficção.

CL: Seu trabalho no campo acadêmico está muito voltado à pesquisa. Como é ser pesquisadora no Brasil? Você sempre teve essa vontade ou foi uma coisa que “aconteceu”?

MM: Acho que tudo o que eu sempre quis foi escrever. Eu sempre soube que lidaria com a escrita, embora não soubesse muito bem como isso aconteceria. Foi tudo muito natural. Escolher jornalismo como profissão, migrar para a docência num certo ponto da vida, fazer mestrado, doutorado, pós-doutorado, começar a ensinar a escrever, virar pesquisadora… No fundo, escrever um artigo científico exige muita competência textual. E, para mim, é mandatório que um artigo científico escrito por alguém da área de comunicação social seja bem redigido. Não faz sentido que não o seja.

CL: Como essas pesquisas se encaixam ou influenciam efetivamente no fazer jornalístico? Como a imprensa adota as novidades propostas pelo meio acadêmico?

MM: É uma simbiose. Até porque muitos acadêmicos são ou foram profissionais. E acho que mesmo quem se dedica mais à docência e já esteve numa redação não se esquece o quanto é apaixonante estar no meio de uma apuração ou de um fechamento. Você se sente 100% vivo, fazendo parte da história, é uma experiência fantástica.

CL: Após fazer mestrado e doutorado em uma universidade (USP), resolveu respirar novos ares e levar sua linha de pesquisa a outra instituição (Metodista), no pós-doutorado. Fale um pouco sobre a importância dessa mudança de ares para o desenvolvimento das pesquisas e produção de conhecimento.

MM: Tive muita sorte de ter tido a oportunidade de conhecer, na USP, o professor Edvaldo Pereira Lima (que viria a ser meu orientador do doutorado anos depois), que me despertou para o Jornalismo Literário — nunca mais fui a mesma depois desta descoberta. Entre 2008 e 2010, foi uma oportunidade e tanto conhecer mais de perto pesquisadores de uma instituição de ensino muito sólida como a Umesp, com um programa de pós-graduação de quase 40 anos. É inspirador participar de um grupo de pesquisadores sérios, altamente produtivos. Você vê o conhecimento sendo gestado na sua frente. Recentemente participei, com um grupo de pesquisadores do Brasil e de outros países, de um evento na Universidade de Viena e está sendo outro aprendizado interessantíssimo, descobrir como é feita a ciência da comunicação em nível mundial. O método pode ser o mesmo, mas o tempero é absolutamente cultural, regional. Neste sentido, os brasileiros têm sorte, pois bebem tanto na fonte da ciência quantitativa do modelo estadunidense quando na qualitativa do modelo europeu.

CL: Uma de suas paixões é a narrativa de viagem. Como é a sua relação com o gênero?

MM: Tenho particular carinho pelas narrativas de viagem. Outro dia, por exemplo, estava lendo o livro do Hans Staden — já há quase 500 anos se produzia narrativas de qualidade. Penso que meu amor pelas viagens deriva do fato de que elas são sempre uma aventura de descoberta porque fazem com que os indivíduos deixem seus limites conhecidos para trás e se aventurem no novo, em universos diferentes. Isso faz com que as pessoas aprendam mais sobre si mesmos e sobre os outros — o que, para mim, é o grande desafio de se estar vivo.

CL: Quais autores na Literatura e quais jornalistas te inspiram?

MM: Tive a sorte de ter uma mãe que lia muito e que me ensinou o amor pela leitura. E um pai visionário, que me ensinou que o impossível não existe. Com certeza posso dizer que sou apaixonada por García Márquez, Hemingway, Falkner, mas amo mesmo a literatura de não-ficção americana. Talvez esta seja, de fato, minha grande especialidade. Entre eles, meus favoritos são sem dúvida Gay Talese (um clássico), Lilian Ross (com seu encantador estilo mosca-na-parede) e Joseph Mitchell (a revelação no segundo perfil de O Segredo de Joe Gould é, para mim, um dos momentos altos do jornalismo). Dos atuais, aprecio muitíssimo os livros de David Remnick, o atual editor da The New Yorker, em particular A Ponte, sobre o presidente Barack Obama.

CL: O que poderia dizer a jovens que pensam em ingressar no jornalismo ou que pretendam publicar seus escritos?

MM: Dizem que quando se vai comprar um imóvel é preciso se pensar em três coisas: localização, localização e localização. Para mim, a resposta para sua pergunta demanda três palavras: persistência, persistência e persistência. Não desistir nunca. Quem age assim certamente verá chegar a sua hora.

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Durante um ano e três meses, Antonio Lino morou numa Kombi e viajou pelo Brasil. Ao volante do seu domicílio nada imóvel, o escritor paulistano não chegou a descer tanto até o Chuí. Mas ao norte, sim: cravou presença no Oiapoque. Por uma centena de municípios em quinze estados, Lino rodou mais de trinta mil quilômetros pelo país.

Tendo experimentado o antigo paradoxo dos andarilhos (“viajar é sair para dentro”, escreve o autor), Lino narra suas histórias no livro Encaramujado: uma viagem de Kombi pelo Brasil (e pelos cafundós de mim).

Manuscrito na estrada, o livro reúne crônicas e contos sobre as gentes e os lugares que o autor conheceu pelo caminho. De carona com os textos, o leitor refaz na imaginação todo o trajeto percorrido pela Kombi branca, decorada com teto azul e pássaros de adesivo na lataria. O verdadeiro movimento, entretanto, está nas entrelinhas: muito mais do que um mero relato descritivo da viagem, nas páginas de Encaramujado, o que Antonio Lino revela melhor são as suas próprias paisagens internas.

Texto retirado do site do Encaramujado, onde é possível saber mais sobre a obra e comprar o livro por 35 reais.

 

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Por Fred Linardi e Rodrigo Casarin

Escritor, jornalista e professor, com mestrado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo e doutorado em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Renato Modernell dedica boa parte de sua carreira às narrativas de viagem, gênero que ensina no próprio Mackenzie e na Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL). Autor de Viagem ao pavio da vela, Sonata da última cidade (que levou um Jabuti), Che Bandoneón e Meninos de Netuno, entre outros, publicou recentemente Em trânsito – um ensaio sobre narrativas de viagem. E é exatamente a relação de viajantes com as palavras que norteia o papo abaixo.

Canto dos Livros: O que é uma boa narrativa de viagem?

Renato Modernell: É uma narrativa que revela percursos não apenas no mundo externo, mas também na geografia da alma do viajante.

CC: O que rende uma narrativa de viagem rica? Tempo e dinheiro são barreiras a serem rompidas nesta categoria?

RM: O viajante autêntico estabelece sua própria noção de tempo, que não tem necessariamente a ver com aquele do calendário ou do relógio, mas antes com o ritmo pelo qual ele assimila as coisas que vai encontrando ao longo do caminho.

CC: No Brasil, essas narrativas ainda dependem de ações independentes dos autores para serem realizadas?

RM: Não apenas disso. Há instituições que, vez por outra, dão apoio a projetos que envolvem viagens. É o caso, por exemplo, das conhecidas aventuras marítimas de Amyr Klink. Isso depende muito do tipo de viagem e também da notoriedade da pessoa. Como regra geral, é melhor o repórter viajante tentar custear a viagem por conta própria, porque deste modo ficará mais livre e mais aberto para o que der e vier.

CC: Quais obras dessa modalidade você indica? Por quê?

RM: A última casa de ópio, de Nick Tosches, é um texto cativante e que vai muito além da viagem em si, constituindo uma bela crítica (na verdade, uma sátira) da sociedade consumista em que vivemos. Os anéis de Saturno inaugura um novo modo de observar os fatos, e creio mesmo que seu autor, W. G. Sebald, é uma figura tão importante para a literatura quanto Lars von Trier o é para o cinema. Um adivinho me disse, de Tiziano Terzani, mostra a surpreendente transformação pessoal do viajante ao longo da viagem, e tem também ingredientes romanescos bem trabalhados. Viagem à Itália, de Goethe, é um clássico escrito por um gênio da literatura, e por isso indispensável.

CC: Por que as narrativas de viagem, principalmente as de não ficção, ainda são raras de se encontrar nas livrarias?

RM: Não creio que sejam raras. Ao contrário, tenho visto muita coisa saindo por aí. Podem não ser todas de qualidade, é claro, mas isso é outro assunto. As Modismos como a peregrinação a Santiago de Compostela, por exemplo, ou mais recentemente as incursões à Patagônia, ajudam a divulgar esses lugares, o que é bom, em tese, mas ao mesmo tempo pasteurizam a forma de observá-los, nivelando por baixo, o que é ruim. Mas relatos de viagem são produzidos às pencas. As pessoas viajam e anseiam por contar o que viram, mesmo que seja aquilo que todo mundo já sabe.

CC: Ao seu ver, qual a relação entre narrativas de viagem e o jornalismo literário?

RM: A narrativa de viagem está dentro do campo do jornalismo literário, valendo-se de suas técnicas e de seus pressupostos.

CC: Como está sendo levar as narrativas de viagem para a academia? Como tem sido a aceitação dos colegas? Quais pesquisas você destaca nessa área?

RM: A cada semestre me surpreendo com o número crescente de alunos de jornalismo que se inscrevem na disciplina optativa Narrativas de Viagem, que ministro no Mackenzie. Em agosto deste ano, publiquei “Em trânsito – Um ensaio sobre narrativas de viagem”, pela Editora Mackenzie, mas não conheço outro trabalho congênere. No Brasil, há muito pouca coisa publicada sobre o assunto em termos de reflexão teórica. Mas isso pode mudar nos próximos anos, acredito.

CC: Sua produção em livros é predominantemente ficcional. Após você ter viajado por vários países do globo, a pergunta que fica é: para escrever narrativa de viagens é preciso resistir à tentação de criar um romance?

RM: Uma coisa não elimina a outra. Um certo toque romanesco é bem-vindo em tudo, até num relatório, e na narrativa de viagem mais ainda, já que o viajante, mesmo que não se dê conta disso, é levado a um estado de fabulação inerente à própria viagem. Esta é uma das teses secundárias de meu livro. Um romance, porém, é outra coisa. Trata-se de uma modalidade de escrita muito mais complexa, flexível e profunda. Não basta romancear para se fazer um romance. É preciso atender a um chamado, uma espécie de convocatória, um apelo que parte do próprio livro, ainda inexistente, à espera de um autor.

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