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Posts Tagged ‘Neil Gaiman’

Por Alberto Nannini

o-pacto_joe-hillQuando as pessoas que você ama lhe viram as costas, e sua vida se torna um inferno, ser o diabo não é tão mau assim”. Esta é a chamada de capa do livro O pacto, de Joe Hill. Fisgou minha atenção numa livraria, e me levou a ler a sinopse e as orelhas, achando-o instigante, até finalmente comprá-lo.

Depois de já começada a leitura, meu amigo César me informou que Joe Hill é filho de Stephen King, para meu espanto. Embora não seja uma regra absoluta (vide Antonio Prata e Mário Prata, Érico Veríssimo e Luis Fernando Veríssimo, dentre outros), não utilizar o sobrenome famoso, quando se tenta o mesmo ofício que o pai bem sucedido, é um bom sinal e soa corajoso.

Uma história de chifres

O livro fala sobre um rapaz, Ignatius Perrish, o Ig, que vive um pesadelo dantesco: o amor de sua vida, Merrin, foi estuprada e assassinada, e todos acham que ele é o culpado, já que eles tinham rompido o namoro e brigado feio na noite do crime. Inocentado mais pela influência da família do que por provas, um belo dia ele acorda com chifres (que é o título original da obra – Horns). As pessoas veem os chifres, mas quase não se assustam, logo se esquecem de tê-los visto, e começam a contar a Ig seus desejos e pecados mais secretos.

Ig está se tornando o (ou um) diabo, e quer descobrir quem matou Merrin e por que, e se vingar. Parece que será uma tarefa fácil. Mas, a princípio, os chifres e seu poder de fazer as pessoas confessarem se mostram mais como um incômodo constrangedor do que uma vantagem, já que Ig descobre segredos inconfessáveis de seus parentes, amigos e até desconhecidos, e também o que eles pensam dele de verdade. Mas fica muito pior: em matéria de maldade, perto de muitos humanos, diabos são reles amadores, e a jornada do novo chifrudo será, literalmente, um inferno.

Impressões sobre o livro

A construção de personagens é talvez o ponto alto da trama. Ig, Merrin e Lee Torneau, o melhor amigo de Ig (antes do crime), são muito bem delineados, e parecem saltar das páginas para o mundo. Ficaram bem reais. Outros personagens, como Gleena, namorada de Ig após o crime, e Terry, seu irmão, também mostram, em sua caracterização e ações, perfis psicológicos consistentes. Isto é fundamental para que tramas que tenham um pé no sobrenatural fluam de maneira satisfatória. Ponto para o autor.

A divisão dos capítulos, que procura alternar o ponto de vista entre os três protagonistas, funciona muito bem. Suas motivações e o tipo de elo que os une, além das impressões que tem uns dos outros, engrenam perfeitamente.

Outro ótimo mérito é a premissa do homem se tornar o diabo. Bastante criativa, abre o leque para uma série de interpretações e considerações, que serão retomadas mais à frente.

O estilo de escrita é condizente. Há palavrões quando cabem, e não há abuso de adjetivos. A tradução parece não comprometer, embora tenha encontrado pelo menos um erro grave nela (tudo indica que foi traduzido terrific como terrível). Mas as pouco mais de 300 páginas passam bem rápido, e o livro prende, na expectativa do desfecho que explique as ações dos personagens e que mostre a trajetória do novo diabo.

Como pontos negativos, não me convenceu bem o fato de todos acharem que Ig era o culpado pelo crime de estupro e morte da namorada e grande amor de sua vida. As narrativas de sua história, que incluem episódios da infância e adolescência com Lee e Terry, e também do momento em que conheceu Merrin e sua paixão instantânea por ela, nunca demonstraram que ele seria capaz de um ato como este – já que foram namorados por seis anos até o crime, e tinham rompido naquela noite, numa briga triste mas nada fora do comum, como bem sabe qualquer um que já tenha terminado algum relacionamento.

Além disso, com todo o aparato tecnológico que existe para se apurar crimes – especialmente os de grande apelo popular, de caráter sexual e que envolva famosos ou seus parentes, como no caso – dificilmente não seria desvendado.

O surgimento dos chifres poderia ter sido melhor amarrado. Talvez eu não tenha entendido direito a origem deles (tenho algumas hipóteses que não posso revelar, porque seriam spoilers), mas o fato é que eles surgem sem explicação, cerca de um ano após o crime; Ig está vivo, conversa e convive com todos que o toleram, embora esteja reduzido à condição de pária e beberrão.

Lá pelo fim, há uma explicação da atitude de Merrin, sobre o fim do namoro; achei desnecessária. Tenta amarrar bem esta ponta, e erra a medida. Muitas outras pontas terminam soltas, como o destino final de Ig.

De qualquer forma, é um livro notável, no meu entender, tanto pelos méritos e até pelos deméritos artísticos, como pela discussão que traz à baila: a personificação do mal.

O diabo e outros males

Na minha última resenha/artigo, que falava sobre o genocídio em Ruanda, perguntei se você, leitor, acredita que o Mal seja personificado. Uma tirinha de Calvin e Haroldo (brilhante!) que ilustra o artigo lança um olhar interessante:

Calvin: Você acredita no demônio? Sabe, um ser supremo, maligno, dedicado à tentação, corrupção e destruição do homem?

Haroldo: Não sei se o homem precisa desta ajuda…

Discutindo um pouco a origem do mito, tudo remete às dicotomias, e à natureza dual do homem. Quase sempre precisamos do oposto para entender algum conceito: claro/escuro, longe/perto, bem/mal.

O Deus único é um conceito relativamente recente. Por isso, chegaram a nós bem documentadas as tradições de muitas civilizações mais antigas que cultuavam panteões de deuses, como o caso da grega, um dos pilares da civilização ocidental. E há outras que ainda são assim nos dias de hoje, como o hinduísmo e algumas religiões africanas.

Este Deus único e seus pressupostos de perfeição – Onipotência: tudo poder; Onisciência: tudo conhecer e ver e Onipresença: estar em todos os lugares – gera alguns paradoxos, como o problema da existência do mal. Tal aspecto é tão importante que, conforme já havia citado no mesmo artigo de Ruanda, o filósofo Leibniz sistematizou uma corrente de pensamentos que procura conciliar a existência dele com a existência do mal – a Teodiceia, e a cisma entre os teístas e os ateus (especialmente os modernos ateus militantes, como Richard Dawkins, Sam Harris e o falecido Christopher Hitchens) baseia-se principalmente nisto.

A solução mais comum e antiga sempre foi a personificação da maldade em um opositor – o diabo, com a origem de todos os males sendo a ele atribuída.

A face do Mal

O antagonismo ao deus único já figurava no zoroastrismo, religião monoteísta mais antiga que se tem registro. Nela, o opositor era Ahriman, ainda que não representasse propriamente uma entidade, mas sim uma manifestação de tudo o que é negativo.

Na tradição judaico-cristã, o diabo, originalmente, tinha outra atribuição, como o próprio nome dizia: acusador. Conforme se desenrolam as narrativas da Bíblia, vai mudando de função. Ele se torna a serpente, que dá o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal (só este nome é mais que significativo…) à Eva; em Jó, vira o adversário, que tem livre acesso a Deus, e O contesta, quando Ele aponta Jó como exemplo de homem íntegro. Segundo o diabo, Jó só era assim porque tinha todas as graças. Então, Deus autoriza que se tire tudo de Jó, poupando-lhe só a vida.

No novo testamento, Jesus se encontra com o diabo, que por três vezes lhe tenta a cair. Demônios são expulsos das pessoas, e depois, os apóstolos advertem para as pessoas se defenderem das artimanhas do tinhoso. No livro de apocalipse, se dá a batalha final do diabo contra as hostes angélicas, e o dia do juízo final, onde todas as pessoas, vivas e que já morreram, serão julgadas e terão que enfrentar seu derradeiro destino: subir aos céus, aonde reina Jesus, ou ser banida para o inferno, e lá sofrer por toda a eternidade.

Na cultura, o diabo é um personagem riquíssimo, e já figurou em literatura, peças, filmes e muitas outras manifestações artísticas – além deste livro.

O sermão de fogo

Aproveitá-lo em seu enredo, e reinventá-lo totalmente foi a sacada do autor em O pacto. Afinal, quem está ali é sempre Ignatius (trocadilho no nome do inglês igneous – ígneo: que é de fogo). Ele se torna um quase-diabo, mas é sempre ele por baixo dos chifres. Meio como Peter Parker se tornar o Homem Aranha.

Sem apologia ao ateísmo, Joe Hill ataca os estigmas usuais do diabo e de deus, com um jocoso “sermão de fogo”. Só isso já vale o livro. Cito apenas dois trechos dele para você apreciar ou contestar:

Há muito tempo Satanás é conhecido como o Adversário, mas Deus teme muito mais às mulheres do que ao diabo, e Ele está certo. Ela, com seu poder de trazer vidas ao mundo, é quem foi realmente feita à imagem e semelhança do criador, e não o homem.

O diabo sabe que só aqueles que têm coragem de arriscar a alma por amor merecem ter alma, mesmo que Deus não saiba.

quadrinhos carlos ruasSua interpretação diferente do papel do diabo não é nova, mas tem personalidade. Saramago, ateu declarado, reviu o papel do adversário em seu clássico O evangelho segundo Jesus Cristo (já indicado aqui no Canto dos Livros). Para ele, o diabo é muito mais próximo da humanidade do que Deus. Outro autor consagrado que inverteu o conceito da figura (Lúcifer, no caso) foi Neil Gaiman, em seu clássico Sandman (que muitos julgam ser a melhor história em quadrinhos já publicada). Seu Lúcifer é quase discreto, e está cansado de cuidar do inferno, o larga e vem viver entre os humanos.

A mitologia do anjo caído

Toda a história criada a respeito de um arcanjo que era o mais bonito, mas que caiu em desgraça pelo pecado do orgulho, é uma mitologia muito bonita e rica. Pensando bem, não difere, em sua estrutura, daquelas que ninguém leva ao pé da letra, como as de diversos exemplos da mitologia grega – como Hades ter se tornado senhor dos infernos, e que depois sequestrou Perséfone e deu origem às estações do ano.

Indo um pouco mais a fundo na do arcanjo caído – Lúcifer, que embora se confunda com satanás e com o diabo, não é o mesmo ente – o orgulho foi a causa de sua queda. Ora, veja se este orgulho que ele teve não é tal e qual o do filho primogênito, que tem a atenção roubada pela chegada do caçula. Não parece igual? O amor confundir-se com o ciúme é algo humano, demasiado humano. E que pai expulsaria seu primogênito, por ele dizer e acreditar ser melhor e mais bonito que o filho mais novo? (O caçula de Deus, segundo a tradição, é a humanidade). O que há de fora do comum nisso? Tudo bem que a mitologia de Lúcifer diz que ele queria usurpar o posto de Deus. Este é um pecado mais grave, mas danação eterna sempre me pareceu exagero, até para o diabo, que um dia amou a deus e foi amado por ele.

Mas quais pecados são além da redenção?

Difícil responder. De qualquer forma, é de se pensar: se Deus detesta os pecadores, e o diabo os pune, ambos não estariam do mesmo lado?

Bem, Deus tem critérios misteriosos. Algumas coisas este deus não aceita, e insurgência, como bem sabem Lúcifer, Adão e Eva, parece ser o pecado mais grave aos seus olhos – tal e qual qualquer ditador.

Personalização de deus

Na minha opinião, toda esta polêmica e os furos irremediáveis da mitologia cristã se dão pela personalização excessiva de deus. Algo perfeitamente compreensível, ao se ver os atributos que tinham as antigas deidades.

Para um povo nômade e continuamente expulso, como os judeus, ter um deus senhor dos exércitos fazia bastante sentido. Já hoje, sabendo o que há numa guerra, e pensando que todos são seus filhos, é, no mínimo, um contrassenso.

Deus ter “inimigos” entre os humanos é uma desproporção. Ele tomar partido de um povo e auxiliá-lo em guerras contra outros é ingênuo. Era exatamente o que eu desejava quando era pequeno e os caras grandes na escola me batiam – torcia para Deus se vingar deles por mim (o que, felizmente, parece nunca ter acontecido).

Ou seja, a visão de deus e do diabo de muitos – até mesmo a de religiões – é muito semelhante à visão de super-heróis e super-vilões que é tão comum hoje. Deus é o super-herói supremo, e o diabo, o arquivilão. Além de ser algo incrivelmente infantil, também é uma redução de sentido totalmente disparatada. Um ser onipotente teria mais o que fazer do que se preocupar com orações bem feitas, adorações e pecados.

Pretendo retomar esta discussão em outra resenha. Há muito para se considerar sobre isso.

Pobres diabos

Joe Hill parece promissor. Seus livros tem feito sucesso e ele angariou muitos fãs. Quanto ao O pacto, li resenhas apaixonadas sobre, pessoas que o consideraram o melhor que já leram. Acho que não é para tanto. É um bom livro, uma história bem construída e contada, ainda que tenha algumas falhas, na minha opinião, que, se sanadas, resultariam em uma obra mais coesa.

De qualquer forma, se o ler, preste atenção ao “Sermão de Fogo”, uma contraposição ao Sermão da Montanha, sem contudo desrespeitá-lo ou desacreditá-lo (o que não seria possível, de qualquer forma).

Talvez o diabo esteja com os dias contados. Disse o sociólogo francês Michel Maffesoli, em seu livro A parte do diabo: “a pessoa plural num mundo policultural tende a integrar o mal como um elemento entre outros”. Ou seja, o mal personificado vai perdendo sua função, e o diabo vira um personagem literário.

Sobre a maldade dele, me assustam mais os homens em qualquer guerra, ou munidos de alguma justificativa semelhante, ou simplesmente possuídos (?) pelo ódio e pela ignorância. Pobres diabos, estes (sub)humanos. Concordo com o que cantam os Racionais MC’s, em seu clássico “Diário de um detento”:

Já ouviu falar de Lucífer? / Que veio do Inferno com moral, um dia… / No Carandiru, não… ele é só mais um. / Comendo rango azedo, e com pneumonia…

E, por último, a respeito destas e de outras crenças, o magistral Joseph Campbell:

Mitologia é o nome que damos às religiões dos outros..

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Crédito da foto: Renato Parada

Crédito da foto: Renato Parada

Antonio Prata está em evidência. Na mesma semana do lançamento do seu novo livro, Nu, de botas, no início deste mês, envolveu-se em uma polêmica por conta do texto “Guinada à direita“, publicado na Folha de São Paulo, jornal onde é colunista. Alguns não entenderam sua suposta mudança de posição ideológica, e outros, pior, aplaudiram de pé o texto que precisou ser esmiuçado no domingo seguinte para que maus entendidos (ou entendedores?) fossem resolvidos. Autor de obras como Douglas, As pernas da tia Corália, Adulterado, Felizes quase sempre e Meio intelectual, meio de esquerda, foi um dos integrantes da edição da revista Granta com os melhores jovens escritores brasileiros e ajudou a escrever a novela Avenida Brasil. Além disso, informação importante, fabrica cervejas em sua própria casa. Falou de todos esses assuntos nesta entrevista que fizemos com ele (e de futebol também!).

Canto dos Livros: Como anda a vida depois da guinada à direita?

Antonio Prata: Muito mais tranquila. É bem mais fácil ser de extrema direita do que ser meio de esquerda. Você não precisa se preocupar com a pobreza – é culpa dos pobres – nem com a desigualdade – cada indivíduo é diferente do outro. Você pode fazer piadas racistas, machistas e homofóbicas e pagar de vanguardista. Ser de esquerda dá muito trabalho. Você está sempre sofrendo. Direita é paz de espírito. (RISOS – é sempre bom frisar…)

CdL: Ficou muito surpreso com a reação das pessoas a esse seu texto? Pensou que haveria tanta gente se identificando com o discurso e incapaz de perceber a ironia?

AP: Fiquei. Eu escrevi tantos absurdos no texto que jamais pensei que alguém pudesse levá-lo ao pé da letra.  Afirmava que José Maria Marin e Marco Feliciano eram de esquerda, que o “poderoso lobby dos antropólogos” havia transformado toda a área cultivável do Brasil em reserva indígena, que os negros estavam no poder, escanteando os brancos…

CdL: Na quarta capa de Nu, de botas está escrito que no livro “Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância”. Nessas revisitas você foi fiel à sua memória ou você criou histórias – ou detalhes – em cima daquilo que lembra da sua infância? Você realmente deixou de ganhar uma bicicleta do Bozo porque não sabia qual era o seu endereço?

AP: Olha, não dá pra chamar memórias de outra coisa senão de ficção, esse é um primeiro ponto. A memória é sempre uma história editada, reescrita no nosso cérebro. Às vezes (não poucas) é até inventada do zero. Memórias tão antigas, então… Eu não poria a mão no fogo por nada do que está no livro, se tivesse que testemunhar num tribunal quanto à veracidade. Ou seja, mesmo o que eu acho que aconteceu, não sei se aconteceu mesmo (ou se foi do jeito que lembro). Já certas histórias ou pedaços delas eu realmente inventei, para melhorar os enredos ou preencher brechas. A história da bicicleta eu trago na lembrança exatamente do jeito que escrevi. (Mas duvido que tenha acontecido: você acha que o Bozo ia conversar com um moleque de 5 anos depois do programa? E que ia se propor a dar uma bicicleta, do nada? Estranho.)

CdL: Como foi escrever esse livro?

AP: Foi legal. E cansativo, como sempre é a escrita.

CdL: É raro vermos crianças sendo bem retratadas na literatura e em Nu, de botas, você consegue captar bem o contraste entre a diferença de olhar, raciocínio e pensamento entre uma criança e um adulto. Como conseguiu isso? Tentativa e erro, estudos sobre a infância, convivência com crianças, boa memória dos primeiros anos de vida?

AP: Agradeço o elogio. Eu tentei criar as histórias a partir das memórias. E as memórias já tinham uma certa linguagem, um certo estilo de narrativa. O que tentei fazer foi ser fiel a esse estilo. Agora, se é assim que uma criança pensa (ou que eu pensava), já não sei. Mesmo esse elogio é o elogio de um adulto, alguém que, como eu, já não sabe mais o que passa pela cabeça das crianças. É igual filme de época. Você assiste Gladiador ou Spartacus e diz “nossa, eles recriaram direitinho a vida em Roma!”: mas quem é que sabe como era exatamente a vida em Roma?!

CdL: Ainda sobre a técnica de narrar histórias sob a perspectiva de uma criança, é uma questão da habilidade de bons escritores (como Bill Waterson e Neil Gaiman, para ficar em dois exemplos), ou há algum macete que facilite a tarefa?

AP: Pois então, são recriações, né? Pra começar, se eu quisesse ser realmente fiel ao pensamento das crianças, teria que restringir meu vocabulário a duzentas palavras, não poderia fazer frases longas nem conjugar direito os verbos. Eu tentei esse caminho quando comecei a escrever o livro, ficou ridículo. Experimentei alguns caminhos antes de chegar no que está publicado.

CdL: O Nu, de botas foi lançado junto com o Ligue os pontos, do Gregório Duvivier, em uma espécie de balada. De onde surgiu essa ideia? Como foi a experiência de aproximar dois universos tão distintos, a balada e a literatura?

 AP: A ideia foi da editora e eu achei ótima, porque sou fã do Gregório (embora não o conhecesse pessoalmente). Mais do que pela balada, o lançamento foi legal porque teve um bate-papo entre o Gregório e eu e leitura de trechos dos livros. Quanto à balada, propriamente, lamento dizer que eu tava tão exausto depois de tudo que nem consegui chegar à pista de dança. (Subir num palco e falar em público não é muito aterrorizante, pra mim. Aterrorizante são os sete dias e as vinte e quatro horas antes de subir no palco e falar em público…).

CdL: Você começou a publicar seus textos em veículos de comunicação bem jovem. De lá até hoje, como tem acompanhado as mudanças na imprensa? Como enxerga o futuro dela?

AP: Cara, quem souber responder essa pergunta ou é um gênio ou tá mentindo… 

CdL: Avenida Brasil foi uma das novelas mais elogiadas dos últimos anos, principalmente por causa de seu roteiro. Como foi fazer parte da equipe que escreveu essa novela? Como o trabalho era dividido? Quais eram as suas funções?

AP: A história é criada pelo autor principal, João Emanuel Carneiro. Todo dia ele faz uma escaleta, um resumão bem detalhado do capítulo e manda pros quatro colaboradores. Na escaleta, já vem apontado qual colaborador pegará quais cenas. A gente faz basicamente diálogos. Daí manda pra ele, ele dá um tapa final e manda pra ser filmado.

Foi demais participar dessa novela, por várias razões. Primeiro, por trabalhar com o João Emanuel, um escritor talentosíssimo e generoso, com quem aprendi muito. Também pela graça de escrever um troço que metade do país tá assistindo e comentando. Sem falar na alegria que é ver o diálogo que você escreveu sair da boca de alguns dos melhores atores do Brasil. (Em vários casos, aliás, melhorado por eles).

CdL: Ainda sobre a novela, você teve alguma participação nas hilárias cenas que o Tufão aparecia lendo A interpretação dos sonhos, de Freud (e o chamava de Fred), Mar morto, do Jorge Amado (para o Leleco dizer que nem sabia que o mar tinha vida para morrer) e O idiota, do Dostoievski (para o mesmo Leleco dizer que idiota mesmo era o Tufão)? Como foi a recepção para essas, digamos, intervenções? Como o pessoal da Globo as recebeu?

AP: Olha, quem mandava nas leituras do Tufão era o João Emanuel.

Não vejo essas citações como intervenções. Fazia sentido a Nina incentivar o Tufão a ler, como parte da “recuperação” que ela estava promovendo ali. E havia algumas piscadelas pro público, também. O primeiro livro que ela deu pra ele, se não em engano, era o Primo Basílio, que tinha não só o tema da traição como a inversão de papéis entre patroa e empregada, que se daria entre Nina e Carminha lá pelo capítulo cem. 

CdL: Seu pai, Mário Prata, o influencia como escritor?  Há ou houve alguma cobrança – sua, dele, da crítica ou dos leitores – pelo parentesco? Houve algum conflito íntimo quando você decidiu que seria escritor, como querer se diferenciar do estilo dele? 

 AP: Eu sempre digo que influência é uma palavra leve demais para definir o quanto a presença de um pai determina os caminhos de um filho. Mais do que me influenciar, ele me deu vinte e três cromossomos, me ensinou a andar, a falar, etc. Ou seja: sem dúvida “influenciou” muitíssimo minha escolha na profissão.

No começo havia a desconfiança de algumas pessoas, sim, mas com o tempo isso ficou pra trás. Ser filho de um escritor sem dúvida me abriu muito mais portas do que criou cobranças.

Não acho que eu tenha querido me diferenciar do estilo dele. Nossas disputas edípicas se deram em outros campos que não nas páginas

CdL: Como parte do time, o que você tem a dizer sobre o vexame brasileiro em Frankfurt? Perder de 9X1 não foi um pouco demais?

AP: Cara, pegue dezesseis escritores brasileiros que treinaram juntos duas vezes na vida no Playball da Barra Funda (nunca os onze do mesmo lado, só seis contra seis) e ponha pra jogar contra um time de quarenta alemães que treinam desde 2005. Ponha num campo oficial, a quatro graus, com garoa fina. Acho que 9X1 foi praticamente um empate.

CdL: Você também faz cerveja em casa. Há alguma forma de se relacionar a literatura com a cerveja caseira?

AP: Os textos dá pra consertar o tempo todo, dá pra mexer, remexer, cortar, remendar. Cerveja, se você cometer um errinho, vai tudo pro lixo. Ou melhor, pra pia.

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Por Alberto Nannini

oceano_fimAcho que o maior elogio que um escritor iniciante pode receber é quando outros leitores lhe contam que se lembraram dele e de seu estilo de escrita ao ler uma obra de autor consagrado.

O inglês Neil Gaiman é quem mais me inspira a escrever. Seu estilo lírico, supercriativo e de fino humor, aliado à precisão de suas sentenças, apuro nos diálogos e um tanto de poesia nas descrições e criações, o tornaram um dos mais prestigiados escritores da atualidade.

Autor de histórias em quadrinhos consagradas, como Sandman e Livros da magia (precursor de Harry Potter), de romances infanto-juvenis, como Coraline e Lobos atrás das paredes, com obras adaptadas para o cinema, como Stardust e Beowulf e, finalmente, de romances muito premiados e excelentes, como Deuses Americanos e Os filhos de Anansi, o inglês estava sem lançar para o público adulto desde 2005.

Este jejum foi quebrado com o livro O oceano no fim do caminho, publicado aqui pela editora Intrínseca. Toda a magia de Gaiman está presente, numa fábula que resgata alguns rituais de passagem da infância e os mescla com fantasia e alusões diversas às ciências, literatura e espiritualidade.

Um oceano em um balde

Um homem de meia idade retorna a casa onde passou sua infância, em uma pequena cidade da Inglaterra, para um funeral. Andando pela vizinhança, chega a uma fazenda, onde, num repente, se recorda de ter vivido uma aventura extraordinária quando tinha sete anos, em companhia de uma garota quatro anos mais velha, chamada Lettie Hempstock.

O recurso utilizado pelo autor foi narrar a história como se a lembrança retornasse completa e subitamente, o que explica a narração que se alterna entre a perspectiva de uma criança de sete anos e do adulto que ela se tornou.

O tal oceano no fim do caminho do título é um lago que existe na fazenda das Hempstock – Lettie, a garota de 11 anos, sua mãe e a avó, que são mais do que aparentam. O garoto vai encontra-las por acaso, por conta de duas mortes que vai testemunhar. Na tal fazenda, cabem um oceano e um mundo de coisas. Suas moradoras ensinarão sobre lealdade, escolhas e poderes primitivos.

Troca desvantajosa

Neil Gaiman consegue resgatar as impressões que só na infância, experimentamos. Descrever um copo de leite fresco, ou um pudim com geleia de amora como uma criança faria. E falar sobre refúgios secretos nos jardins, e monstros no varal. Ele brinca com a linguagem e as memórias, e consegue inverter a lógica do mundo normal: não largamos as coisas da infância como fantasias, em troca do real; largamos a realidade da fantasia, trocando-a por outras verdades, cinzas e sem graça, que inventamos.

Há uma chuva de referências no romance. Vão das ideias científicas, como o Buraco de Minhoca – espécie de túnel no espaço-tempo, transformado em algo mais literal – além do Big Bang e da matéria escura, a eventos e personagens reais, como Guy Fawkes, que inspirou os quadrinhos V de Vingança, de Alan Moore (que consagrou a máscara branca com bigode e cavanhaque estilizados, usada em protestos), passando, lógico, por gatos, espécie de fixação do autor.

Tecer tudo isso num romance mágico, que é uma fábula sobre a infância e sobre aquilo que perdemos, é só um dos méritos do livro. Ele serve também como um tíquete de viagem ao passado.

A criança interior

Ao ler O oceano no fim do caminho, recordei do quanto de magia existia na minha infância. Os meus lugares secretos. A casa de meu avô, enorme e com um jardim gigantesco, virava palco de aventuras. Com minha irmã, prima e vizinhos, íamos ao quintal resolver crimes, onde um muro manchado de água era uma prova de sangue, onde chuchus esquentados numa lata era ração de sobrevivência, e onde a abertura da tampa de concreto de uma galeria pluvial era a bocona, que às vezes, engolia crianças.

Não que eu acreditasse cegamente na história da bocona. Apenas a evitava, prudentemente, quando estava sozinho, dando uma volta bem maior pelo jardim. Afinal, minha irmã e as crianças mais velhas disseram que ela engolia garotos, e elas também confiavam nisso.  Quando crianças, acreditamos nas nossas próprias mentiras. (Risos) Desculpe o humor involuntário… Quando crianças, eu disse – como se não mentíssemos a nós mesmos dez vezes mais depois de crescidos. Não há nada mais mentiroso que um adulto.

Enfim, Neil Gaiman tem a capacidade fabulosa de transportar seus leitores a um mundo paralelo. Tal como grandes contadores de histórias, como R. J. Tolkien, C. S. Lewis e os irmãos Grimm.

Há um único senão no livro, em minha opinião: Gaiman, alternando as vozes do narrador como recordação vívida de quando criança, para a atualidade, como adulto, às vezes se perde um pouco. Detalha alguns eventos além do necessário, e com isso, perde o recurso do leitor imaginar, ante a descrição infantil dos fatos, o que a criança realmente viu. Não sei se fui claro, e não quero publicar spoilers, mas um garotinho, ao ver cenas que não tem condição de entender, vai adaptá-la a seu repertório, onde há monstros, vermes vindos de outras realidades e seres que pretendem arrancar seu coração, e onde babás são seres diabólicos. Embora ele pudesse utilizar o narrador adulto para dizer o que realmente aconteceu, como fez algumas vezes, não achei necessário.

De qualquer forma, a construção da história brinca com a imaginação e a realidade, como é típico do autor. Lembra um pouco o enredo de O labirinto do fauno, filme de Guillermo Del Toro, em que uma garota vive uma fantasia com princesas, monstros e o fauno, enquanto vive dias traumáticos durante a ditadura de Franco, na Espanha. O garoto do livro também vive eventos traumáticos, que guardam nítida correspondência com eventos reais, mas que, para ele, seriam causados por seres mágicos. O que aconteceu, o que foi inventado, o que a impressão de criança fantasiou? O livro não responde isso, e aí está a mágica de sua narrativa.

Isso me fez pensar nos dias passados da infância, quando nossas conclusões são tão diferentes, e também no que fazemos à nossa criança interior. Ontem mesmo eu andava por aí pensando em coisas importantes, como cavar um buraco enorme, subir em árvores, chutar qualquer coisa remotamente parecida com uma bola, que ia de latas a pedras. Responda, se souber, como aquele garotinho que eu fui, e aquele ou aquela que você foi, deu lugar a estes adultos tão empertigados como nós, que andam por aí?

Duas vozes, dois olhares

A música “City of blinding lights”, do U2 , minha banda favorita, brada:

Time, time / Tempo, tempo

Won’t leave me as I am / Não vai me deixar do jeito que eu sou

But time won’t take the boy out of this man / Mas o tempo não vai levar o garoto que esta dentro desse homem

Sim, é inevitável: crescemos e deixamos as coisas de criança. O tempo nos muda, inexoravelmente, tanto que já somos diferentes de um dia para o outro. Mas ouvir a criança interior, sufocada sob tantas obrigações e sob a crueza da tal realidade, é uma opção, e uma luta que tem que ser travada, e que talvez passe justamente por resgatar fantasias, em leituras, filmes ou brincadeiras, e, mais do que tudo, em atitudes.

Adultos estressados, contraídos, alquebrados e infelizes, muitas vezes, tem diagnóstico parecido, segundo algumas correntes de ajuda psicológica: sufocaram sua criança interior. Não a ouvem mais, nem prestam atenção ao que ela vê.

Tamanha é a diferença entre o mesmo fato visto pelos olhos de uma criança do que visto pelos olhos de um adulto que não admira que o olhar deste último se imponha de tal forma que esquecemos que já vimos monstros em varais e debaixo das camas, portais para outros mundos dentro de armários, magia em lugares secretos inocentes, oceanos em lagos, e universos paralelos dentro de quartos de brincar.

Não se trata de ficar iludido ou ignorar o conhecimento adquirido – o conhecimento é um fardo que, uma vez obtido, não pode ser devolvido. Trata-se de manter a criança interior viva e participante.

Quando as duas vozes e os dois olhares internos conversam, o mundo fica mais poético, criativo e é possível enxergar perspectivas invisíveis a apenas um dos olhares. E uma das maiores dádivas que podemos experimentar retorna: a capacidade de se maravilhar.

A fantasia como resgate e como lente

Acredito que a função deste olhar fantasioso é possibilitar os progressos mais sérios e manter vivas as tradições e a arte. Se não por meios de metáforas, alusões, fantasias e divagações, como se elaborariam as teorias científicas, e como se inovaria, se almejaria?

A ânsia que os adultos desenvolvem por controle, ou melhor, pela ilusão de controle, acaba atropelando o espaço da fantasia na vida. Mas como esta última é uma necessidade vital, são criadas válvulas de escape, que vão aparecer de alguma forma. Por exemplo, no consumo massivo de romances fantásticos, como o próprio caso da série Harry Potter. As duas necessidades duelam por espaço, e há vantagem para a primeira.

Mas perder a lente da fantasia torna tudo sem graça, e pode se revelar algo arrogante e inesperadamente cômico. Filósofos eminentes da antiguidade acreditavam que o mundo era plano e sustentado no casco de uma tartaruga, e que todas as coisas eram compostas pelos quatro elementos essenciais: fogo, ar, terra e água. A ciência se ri disso. Mas a fantasia ri de tudo, até de si mesma, brinca com estas e com outras ideias, cria em cima delas, inventa tradições, empresta significado.

Teorias sérias da ciência caíram por terra, enquanto projeções fantásticas dos escritores de ficção científica de ontem ganham a nossa realidade: chips minúsculos inseridos em qualquer coisa, nanorrobôs, teletransporte, rede mundial de computadores.

Ou seja, a fantasia nos guia antes da ciência. E, quando seus olhares se fundem, um lago é o oceano primordial, os mundos paralelos se comunicam conosco, e, no coração e na vontade de uma pessoa, há força para mudar o mundo inteiro.

brincando-com-o-filhoAutores que mesclam estes dois olhares em suas obras, dizendo muito fazendo de conta que estão apenas contando uma historinha, nos acompanham desde sempre. Seja com as fábulas consagradas, seja com as epopeias criadas, ou com as tradições orais dos milhares de povos que já caminharam sobre a terra, eles sempre chegam até nós, compartilhando sua curiosidade em relação ao mundo e perscrutando nosso papel na ordem das coisas. Pois estas indagações são algo que nos irmana, independente da época, raça e crença.

Há oceanos a serem desbravados, às vezes, dentro das páginas de um livro inocente. Acorde sua criança interior, e, se possível, faça esta leitura junto com ela. Talvez perceba algo muito além de um romance.

Ah, e não esqueça: divirta-se! 😛

*Originalmente publicado como “Dias passados de fabulosas infâncias – resenha de ‘O oceano no fim do caminho'”

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nelsonNão é raro alguém enxergar um escritor de fantasia como um sonhador, que tende a ver implicações metafísicas em todos os cantos. Claro que muitos autores justificam esse estereótipo, mas não é o caso de Nelson Magrini. Engenheiro Mecânico, estudioso e pesquisador em Física, com ênfase em Mecânica Quântica e Cosmologia, professor e consultor de Gestão Empresarial e Logística, exerce carreira profissional no Brasil e nos países do Mercosul. Responsável por projetos de inclusão e cidadania, agente literário, revisor, copidesque e autor de livros como Anjo a face do mal, Ceifadores – Anjo a face do mal II, e Relâmpagos de Sangue, além de participante de coletâneas de contos, é um escritor estabelecido no seu segmento. Escreve (preferencialmente) fantasia, mas, na entrevista que concedeu ao Canto dos Livros, mostra pés solidamente calcados ao chão e uma lógica que nada tem de fantasiosa. 

Canto dos Livros: Você buscou na escrita uma alternativa às consultorias que prestava como engenheiro. Dez anos depois dessa mudança profissional, é possível dizer que a estratégia compensou? Por quais motivos?

Nelson Magrini: Antes de tudo, meu agradecimento a toda equipe do Canto dos Livros por esta oportunidade. Em relação à questão, é necessário entender que essa alternativa sempre foi vista em longo prazo. Assim, treze anos depois que decidi me tornar escritor e nove anos depois de ter publicado meu primeiro livro, Anjo – a face do mal, a estratégia funcionou no sentido de ser um escritor relativamente conhecido, de fazer parte da história da literatura fantástica nacional e, mesmo, de ser um dos expoentes da fase, digamos, contemporânea ou atual, de ter contribuído para esse novo início e desenvolvimento. Contudo, em se tratando de ser um “autor de sucesso”, creio que falta me tornar ainda mais conhecido, abrangendo, desta feita, o grande público e, é claro, ser financeiramente recompensador. Apesar de todas as batalhas, lutas e triunfos dos mais diversos, o sonho de viver exclusivamente de escrever livros ainda permanece por alcançar. Mas seguramente não foi abandonado.

CL: O raciocínio lógico da engenharia influencia na escrita dos livros? 

NM: Tenho certeza que sim, muito embora possa passar despercebido para mim. Penso que até como se manifesta minha criatividade é de uma maneira lógica, embora tudo comece com um insight, normalmente uma imagem ou cena. E apesar de não gostar de traçar linhas gerais e deixar a imaginação correr solta, ainda assim vejo uma estruturação lógica por detrás de meus projetos.

CL: Você é estudioso e pesquisador em Mecânica Quântica e Cosmologia. Há um movimento que utiliza a mecânica quântica e algumas de suas particularidades para iluminar questões metafísicas, como na obra do indiano Amit Goswami e outros, que puderam ser vistos no filme Quem somos nós?. Já o americano Brian Greene enfatiza mais o estudo da mecânica quântica para aplicação em teorias científicas. Para qual lado pende os seus estudos?

NM: Eu pendo totalmente para o único lado verdadeiro da Mecânica Quântica (MQ), ou seja, o lado de Brian Greene. De fato, até existe possibilidades de se utilizar a MQ para clarear ou nortear certas questões metafísicas, mas estas se encontram no domínio da Filosofia, tipo a natureza da realidade, onde se discute muito o Realismo, o que ele significa, se é possível mantê-lo como visão de mundo, etc. Contudo, sou bastante enfático e contrário ao que Goswami e outros fazem, onde a MQ é chamada a suportar qualquer tipo de crendice sem nenhum fundamento científico. Aliás, a MQ jamais deu qualquer validade a questões espirituais e similares, embora um número bem grande de pessoas pareça necessitar que algo assim ocorra, como sustentando seus pensamentos e fé. Nesse sentido, Goswami e outros são apenas pessoas que escrevem tendo como alvo um público bastante específico, onde o intuito do lucro fácil é mais que claro. Perceba que, apesar da propaganda que os meios interessados fazem, Goswani, por exemplo, apesar de ser um físico, nunca publicou um trabalho sequer em Física de verdade e que fosse pioneiro. Apesar do marketing de que ele “calou os críticos por meio de várias publicações técnicas a respeito de suas teorias”, a pergunta é: quais publicações técnicas? Chamar seus livros de publicações técnicas é uma piada! Goswami sequer responde ao simples desafio de mostrar nas equações da MQ quais termos representam aquilo que ele afirma. Por que não o faz? Porque simplesmente os termos não representam nada do que ele prega, simples assim.

Vale lembrar que livros desse tipo, ou filmes como Quem somos nós?, são conhecidos no meio científico como charlatanices, e é uma pena que poucos físicos sérios tenham tempo para expor e denunciar esse tipo de divulgação.

CL: Como você enxerga a receptividade dos jovens para as narrativas fantásticas hoje em dia, quando a aridez do mundo adulto parece contagiá-los de forma tão prematura?

NM: Penso que a receptividade ocorra exatamente pelo fato do mundo adulto ser tão árido. Apesar do contágio prematuro, cada vez mais enfático, existe no jovem (e não só) aquela vontade de poder desligar do mundo real, mesmo que por algum tempo, onde a imaginação volta a correr solta. Possivelmente, em uma sociedade cada vez mais dura, a fuga momentânea venha a ser vista como mais um modo das pessoas combaterem o stress. Talvez, em um futuro não muito distante, pessoas com tal perfil sejam vistas como portadores de uma habilidade valiosa. Algo assim não me espantaria.

CL: É correto afirmar que sua obra é segmentada ao nicho de fantasia?

NM: De modo geral, sim, embora o termo mais abrangente seja literatura fantástica. Eu escrevo, basicamente, tramas de mistério, suspense e terror, sempre incorporando um ou mais elementos fantásticos. Contudo, embora notadamente uma literatura de entretenimento, sempre que possível e dentro do contexto, ou seja, pertinente à trama, gosto de fazer meus leitores pensarem, questionarem, e tal pode se dar em relação a temas bem mais realistas. Mas no fundo, como sempre digo, minhas histórias são para divertir, para que os leitores passem umas boas horas vivenciando o mistério e o suspense, e, se possível, que pulem de susto!

CL: O livro Anjo – a face do mal tem personagens pertencentes a diversas mitologias, inclusive do panteão afro-brasileiro. Há alguma intenção ou mensagem na utilização deles?

NM: Não necessariamente uma mensagem, mas a intenção foi exatamente utilizar uma mitologia extremamente rica e, por que não dizer, famosa no Brasil, e que nunca foi, ou é muito pouco explorada em livros de aventura e entretenimento. O mais interessante é que, ao se pesquisar ou estudar a respeito desse panteão, deparamo-nos com personagens (entidades) com personalidade própria e que podem ser muito explorados. Curiosamente, recebi alguns comentários negativos em relação ao uso desses personagens, comentários que transpareciam certo preconceito, como se fosse normal se falar em anjos ou mesmo demônios, mas que não era de bom tom tratar de “entidades” usadas em macumba! Mas foram muito poucos, e penso que a maioria dos leitores gostou da maneira como edifiquei tais personagens.

CL: O deus retratado na obra lembra muito o demiurgo de que fala a gnose e presente em alguns dos evangelhos apócrifos. Quais leituras fez antes de começar a escrever?

NM: Curiosamente, em relação a deus, nenhuma. Mesmo em relação a Lúcifer, um personagem marcante da obra, não fiz nenhuma pesquisa específica, muito embora, ao longo de anos, já havia lido muito a respeito, e até mesmo participado de um grupo de estudo sobre o assunto, De qualquer modo, antes mesmo de iniciar o projeto, eu já tinha muito bem definido as características de tais personagens, e se tais características são similares às apresentadas em determinadas doutrinas ou linhas de pensamento, isso se deve a mera coincidência.

CL: Ainda sobre Anjo – a face do mal, o protagonista da obra, Lúcifer, é apresentado de forma bastante original e guarda poucas semelhanças com a mitologia cristã. Dois autores consagrados fizeram o mesmo com o personagem: Neil Gaiman, em Sandman, e Saramago em, O Evangelho segundo Jesus Cristo. Eles o influenciaram? Quais autores o inspiram?

NM: Em se tratando de Lúcifer, eu já conhecia e admirava o personagem de Gaiman, mas não tive contato com o de Saramago. Independente disso, eu já tinha a minha visão muito bem estruturada e já sabia o que queria de meu personagem, então não penso que tive qualquer influência literária mais direta.

Já em relação a autores que me inspiram, são muitos, desde Isaac Asimov e Arthur Clark, quando lia muita ficção-científica, até mais contundentemente Stephen King e Dean Kootz, mestres do terror moderno, terreno que mais gosto de trabalhar. Mas vale lembrar que esses são apenas alguns nomes. Eu devorei tantos livros durante minha vida inteira que seguramente muitos me influenciaram, mesmo que não me recorde dos nomes hoje em dia.

CL: Como seu trabalho conta com influências de narrativas mitológicas, você chega a se inspirar na estrutura da Jornada do Herói, conceituada por Joseph Campbell e, mais adiante, remodelada por Christopher Vogler?

NM: Pode até ser que em parte sim, mas é totalmente inconsciente, ou seja, não é algo intencional. Penso que muito da Jornada do Herói já se instaurou na mente de qualquer leitor voraz, exatamente por devorar milhares de tramas onde tal característica é destacada, e seguramente, isso resgata à mente quando se compõe uma história. Mas nunca me preocupei com tal questão a ponto de estudar a respeito e aplicá-la de maneira consciente e proposital em meus textos.

CL: Que tipo de retorno tem obtido dos fãs e da crítica com respeito a seu trabalho?

NM: Os fãs, de modo geral, me trazem uma resposta muito gratificante. Críticas ou comentários negativos são bastante raros, tendo a esmagadora maioria dos leitores gostado muito de meus livros. Em relação à crítica, seja em blogs ou veículos mais especializados, também sempre foram muito positivas, o que me mostra que estou no caminho certo.

CL: Como você observa a relação entre a literatura fantástica e a crítica literária?

NM: Se considerarmos como crítica literária a chamada crítica especializada ou profissional, a relação não é nada boa, com raras exceções, principalmente se nos restringirmos aos autores nacionais. Aliás, em relação à esmagadora maioria desses últimos, nem dá para falar que os críticos falam mal; eles simplesmente os ignoram. Até entendo que ainda existe muitos autores amadores nesse segmento, mas também tem muita gente boa que já está presente há anos, têm presença no meio, inúmeros fãs e, ainda assim, é praticamente nula a atenção da crítica.

CL: O cenário de literatura de fantasia no Brasil está consolidado?

NM: Sem dúvida. É um nicho que não para de crescer em termos de leitores, bem como, onde a todo mês surgem novos nomes. Obviamente, ele necessita uma maior estruturação e atenção por partes das editoras, principalmente as chamadas grandes, com destacada penetração no mercado.

CL: Qual influência autores estrangeiros, como Anne Rice e Stephanie Meyer, exercem sobre o mercado nacional?

NM: Autores estrangeiros de sucesso seguramente influenciaram e influenciam toda uma geração, ainda mais com o aporte de marketing com que tais títulos chegam ao país. Antes mesmo de ser consumido pelos leitores, estes já são despertados para o novo Big 1 que está chegando. Uma vez que, na sua esmagadora maioria, os novos (assim como os velhos) escritores são leitores vorazes e compulsivos, é óbvio que estes terão uma influência muito grande, não só das duas escritoras citadas, mas de vários outros. Como qualquer influência, se o novo escritor não souber dosar e procurar seu próprio estilo e caminho, ela poderá vir a ser muito negativa.

CL: Indo um pouco além, na sua opinião, qual papel a fantasia tem hoje no mundo?

NM: Penso que o mesmo que sempre teve: divertir as pessoas e levá-las a um mundo de faz de conta por um tempo. Talvez, o que se vê hoje em dia seja uma maior e mais rápida disseminação de determinados universos de fantasia, que acabam virando moda, com milhares de seguidores. Nesse sentido, pode-se ter a impressão de que a fantasia tem uma maior influência na moldagem do mundo e, mesmo, de certos convívios sociais, mas creio que a maioria que curte tais aventuras saiba diferenciar entre a realidade e o imaginário. Existem extremos? Sem dúvida, mas não creio que sejam percentualmente representativos.

Como já comentei, vivenciar por um período a literatura de fantasia pode vir a ser encarada, em um futuro não tão distante, como uma forma de se combater o stress de uma sociedade cada vez mais competitiva e exigente. Por fim, vale lembrar que a indústria de entretenimento fatura bilhões de dólares por ano. Seguramente, isso diz alguma coisa sobre a natureza humana.

CL: Em entrevista ao blog Fontes da ficção você fala dos problemas que acontecem em diversos setores da cadeia editorial. Como autor, qual a melhor maneira de ajudar a solucionar esses ou parte desses problemas e alavancar as vendas de um livro?

NM: Taí uma muito boa pergunta , mas de difícil resposta. O Brasil não é diferente de outros países onde, uma editora, assim como qualquer empresa, visa e necessita obter lucro para prosperar e se manter no mercado. Contudo, aqui falta uma função que lá fora é executada em larga escala, seja através de agentes literários (refiro-me a profissionais sérios e capacitados, aquele que investe no talento, uma figura que faz extrema falta por aqui) ou dos próprios editores. No geral, o editor nacional ou não aposta no escritor brasileiro ou aposta pouco. E pior, se contenta com pouco. Se um autor vende 3 mil, 5 mil cópias de um título, e esse é seu montante constante a cada novo lançamento, está ótimo (não me refiro a autores que já se consagraram e conseguem, com o passar do tempo, vender bem acima desses números). Eles investem um tanto nesse nome e obtém um certo retorno. Vale dizer que 3 ou 5 mil exemplares de um título está extremamente acima do que a maioria vende em um lançamento, cujas tiragens variam de mil a 3 mil exemplares para editoras que não trabalham sob demanda.

Contudo, falta aquele que verá um autor com uma venda pobre, mas que vê o talento que ele possui, ou seja, que enxerga que, se (bem) trabalhando, ele venderá 10, 15, 20, 50 mil exemplares ou mais. Porém, para isso, além de se ler a obra desse autor promissor, tem-se que investir, e aí a coisa complica. O que falta aqui é esse apostador no talento, que esteja disposto, como em qualquer tipo de negócio, diga-se de passagem, a colocar dinheiro para ganhar muito mais. Um autor bom vende bem; torne-o muito mais conhecido que ele venderá muito mais. Basta um conhecimento básico de marketing para saber que essa relação não é linear. Se fosse, o mundo jamais seria o que é hoje e jamais se investiriam bilhões nesse campo.

Como eu disse, é uma pergunta bastante complexa de se responder e o descrito acima é apenas um ponto. Seguramente, existem muitos outros.

CL: Na entrevista acima citada você também diz não possuir nenhuma influência literária nacional. Continua não tendo? Por quê?

NM: Basta ver as influências que citei acima. Eu lia todos eles na minha adolescência e nos anos seguintes. Naquela época, dentro do segmento que eu adorava, ficção-científica e, depois, terror, inexistiam autores nacionais ou eram desconhecidos. Lembro-me de ter lido um ou dois contos do André Carneiro, mas nem me recordo onde. Se hoje, o autor nacional de literatura fantástica tem como divulgar seu trabalho na Internet e ficar mais conhecido do público, naquela época era praticamente impossível. Pelo menos, eu nunca ouvi falar de nomes que publicavam nessa linha. Pensando bem, imagino que tenha até lido autores brasileiros nesse segmento, mas eles (ou as editoras) publicavam com pseudônimos estrangeiros.

Então, nesse cenário, nunca me identifiquei com algum nome que viria a acompanhar, como Stephen King, por exemplo, e que seguramente iria me influenciar. E, de fato, continuo não tendo, talvez porque agora sejamos todos contemporâneos. Isso não significa que não possa aparecer algum autor nacional e que venha a exercer influência em minhas obras futuras, mas por enquanto não existe.

CL: O que é um livro de sucesso?

NM: Um livro de sucesso é aquele que apresenta uma trama instigante, daquelas que prende o leitor da primeira à última página, que o faz pensar em determinados momentos da história, que o faz sentir saudades dos personagens e lamentar o término do livro. Também precisa ser bem escrito, com um português, no mínimo, elegante, variado. Um livro de sucesso tem tudo isso, mas isso tudo, por si só, não garante sucesso algum. Ele também tem de ser bem trabalhado pela editora, o autor ser promovido, seja por esforço próprio, como pela editora, em um esquema que gere real penetração no mundo dos leitores, tornando o título conhecido, bem como seu autor. Vale lembrar que um trabalho bem feito faz a editora ser reconhecida, o que leva leitores a observar com mais cuidado os títulos de seu catálogo.

Em se conseguindo isso, o retorno é garantido.

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Por toda a equipe.

Autor de Jorge do Pântano e Meu pai sabe voar (em parceria com Daniela Pinotti, sua esposa) e organizador do livro de contos Era uma vez para sempre…, Marcelo Maluf dedica boa parte de seu tempo de escritor e professor tratando de assuntos do universo da literatura feita para jovens. Formado em Artes Visuais, tomou gosto pelas histórias ouvindo com tudo o que seu avô contava. É responsável pelos blogs Labirintos no Sótão – destinado à literatura – e Tu és isto – sobre espiritualidade. Nessa conversa, claro, falou muito sobre a relação da juventude com as letras, mas também mostrou seu ponto de vista sobre a relação entre a ciência e a religião.

Canto dos Livros: Como é escrever para jovens? Quais os cuidados a tomar?

Marcelo Maluf: Escrever para jovens, em essência, é como escrever para qualquer público, valorizando a qualidade do texto. Mas uma coisa primordial talvez seja a ênfase a uma boa história, um bom enredo. Posso estar falando besteira, mas não creio que muita experimentação de linguagem funcione para o público juvenil. O único cuidado a tomar é o de não ser chato.

CL: Quais as diferenças entre a literatura infantil, a infanto-juvenil e a juvenil?

MM: Para responder a essa pergunta, primeiro é preciso levar em conta o leitor. Vou utilizar aqui os critérios da pesquisadora Nelly Novaes Coelho. Ela faz a seguinte divisão: Pré-leitor (Infantil): primeira infância – dos 15/17 meses aos 3 anos; segunda infância – a partir dos 2/3 anos; Leitor iniciante – a partir dos 6/7 anos; Leitor-em-processo (Infanto-juvenil) – a partir dos 8/9 anos; Leitor fluente (Infanto-juvenil) – a partir dos 10/11 anos e Leitor crítico (Juvenil) – a partir dos 12/13 anos. Portanto, tendo consciência desses leitores diversos, é possível reconhecer as linguagens para os diversos públicos. Mas para além disso, eu diria que o escritor precisa primeiro escrever, depois entender se o seu texto pode se encaixar em alguma dessas divisões e não o contrário. E mais, cada leitor pode subverter essa divisão, pois a experiência de leitura é diferente para cada um. Enfim, como diria Tatiana Belinky: “a faixa etária é que me escolha”. Não há regras, é necessário bom-senso e boas histórias.

CL: Normalmente, histórias para crianças e jovens possuem teor fantástico. A literatura mais focada na realidade em que vivemos, aparentemente, desperta pouco interesse para esses públicos. Por que isso?

MM: Bem, na minha experiência não vejo desta maneira. Percebo que as boas histórias independem do gênero para conquistar esses leitores. É claro que quando um livro é adaptado para o cinema e faz sucesso acaba por conquistar mais leitores ainda, como no caso de Harry Potter. Mas até hoje, livros como o Gênio do Crime, do João Carlos Marinho, entre outros também estão na lista dos mais vendidos.

CL: Antigamente, a Literatura Infantil tinha a preocupação de ensinar valores e advertir contra erros, inclusive alterando os finais de lendas e fábulas para que contivessem “moral” implícita de maneira politicamente correta. Hoje em dia, ainda existe esta preocupação?

MM: A tradição das fábulas e lendas em muitas culturas sempre tiveram o caráter de passar uma “mensagem”, algum ensinamento, e isso em si não é nada ruim. A questão é quando a moral se transforma em veículo de moralismo. Aí a coisa vira uma grande baboseira. Hoje, ainda existem livros produzidos com esse fim moralista, principalmente quando ligados a algum dogma. Eu acredito nas boas histórias, elas contêm conflitos, relacionamentos, desafios, convivência, que implicam numa empatia do leitor com a história e os personagens. Em si, isso já é uma tarefa de reflexão incrível.

CL: Qual a sua opinião sobre a forma como a literatura vem sendo abordada na escola? Acha que acaba aproximando ou afastando os jovens dos livros?

MM: Em sua maioria, só vem afastando. Mas esse problema é da educação de modo geral, dos péssimos cursos de formação, e do desserviço do poder público quanto ao estímulo à leitura com foco no prazer e não na obrigatoriedade.  Mas existe por outro lado muita gente boa por aí. É o caso da professora. Daniela Neves que é orientadora de Sala de Leitura da EMEF Profa. Maria Berenice dos Santos, onde a leitura e os livros são encontros com o prazer de boas histórias e bons livros, mediados pela paixão de ler, que é fundamental para aproximar as crianças e jovens dos livros.

CL: É possível um livro fazer grande sucesso entre os jovens sem ele estar inserido na indústria pop?

MM: Sem dúvida que sim. Já citei o caso do Gênio do Crime, e posso citar outros tantos, como os livros do Pedro Bandeira, do Jostein Gaarder, do Eon Colfier, que hoje são referências de autores que atingiram grandes números de vendagem e tornaram-se bem populares, mas primeiro conquistaram por suas histórias e não por nenhum jogo marketeiro.

CL: Quais obras você indicaria para uma pessoa de 15 anos que nunca foi leitora, mas está interessada em começar a ler?

MM: Primeiro eu buscaria saber quais os temas e interesses desse jovem. Daí poderia ter uma percepção de seus gostos, para indicar uma história de fantasia, policial, realista, de mistério, ficção científica, etc…Bem, vou indicar cinco livros que gosto muito: Slam, do Nick Hornby, Artemis Fowl, do Eon Colfier, Coraline, do Neil Gaiman, O grande Mentecapto, do Fernando Sabino e O Hobbit, do Tolkien, entre muitos outros.

CL: Qual a importância dos cursos e oficinas literárias na formação de um escritor?

MM: Acho que as oficinas podem ajudar a trocar experiências de leitura crítica. Nas oficinas exercitamos e produzimos textos que serão lidos, compartilhados, criticados e, nesse sentido, é de suma importância que o escritor compartilhe, leia e critique. Para que não fique apenas com a opinião dos parentes, amigos e da namorada ou namorado, etc. Tenho grandes amigos que conheci nas oficinas em que participei, também pode ser uma oportunidade para conhecer nossos pares.

CL: Como foi escrever o livro Meu pai sabe voar em parceria com a Daniela Pinotti? Como fica a questão autoral em uma obra feita por dois autores?

MM: Escrever em parceria é um exercício que todos escritores deveriam experimentar. Ampliamos com essa experiência a nossa capacidade de ouvir novas possibilidades para as nossas idéias, exercita o desapego e pode ser muito prazeroso e enriquecedor todo o processo criativo. Com a Daniela, que é minha esposa, e com quem sempre dividi leituras e sonhos, foi uma experiência fantástica. Com certeza, vamos escrever outros. Quanto aos direitos autorais, a porcentagem é dividida.

CL: Como você começou a ler? Quais práticas acha que podem incentivar as crianças a tomarem gosto pela leitura?

MM: O meu gosto pela leitura começou primeiro com o meu fascínio pelo objeto-livro. As primeiras histórias que me encantaram foram as histórias que ouvia do meu avô Joaquim, que eram geralmente histórias sobre sacis, mulas-sem-cabeça, etc. Depois vieram as coletâneas da série “Para gostar de ler”. Daí descobri Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, etc. Acho que o incentivo a leitura deve vir acompanhado do gosto por ouvir histórias. O livro deve ser um objeto de afeto, de paixão e prazer. Se o adulto for alguém que tem esse contato com o livro, naturalmente poderá contaminar as crianças e jovens a tomarem esse gosto.

CL: Quanto você acredita que a leitura na infância e na adolescência influenciou o que você é hoje? Cite algumas obras que contribuíram na sua formação e que você julga indispensáveis aos jovens.

MM: Posso afirmar, no meu caso, que sou fruto, entre outras vivências, das leituras que fiz. Muitas das minhas idéias, desejos, vontades, sonhos, concepção de mundo, percepção estética vieram de minhas leituras e influenciam direta e indiretamente as minhas escolhas e caminhos. Entre minhas leituras de formação e que indico aos jovens estão: Encontro Marcado (Fernando Sabino), A Metamorfose (Franz Kafka), Histórias Extraordinárias (Edgar Allan Poe), As mil e uma Noites, as crônicas do Rubem Braga, do Fernando Sabino, do Paulo Mendes Campos. Os poemas do Drummond, do Murilo Mendes, do Manuel Bandeira. Os contos do Murilo Rubião, do Machado de Assis, entre outros. Mas gostaria de ressaltar que não foram só os textos de ficção e poesia que me formaram como leitor. Livros como a Autobiografia de um Iogue (Paramahansa Yogananda) e Minhas experiências com a verdade (Mahatma Gandhi) foram fundamentais na minha formação.

CL:Mudando de assunto, você mantém um blog cuja descrição é: Caminhos de espiritualidade, mística, consciência e compaixão pelos seres e pela terra”. É fato que a atual liberdade de expressão iniciou um diálogo sem precedentes sobre estes mesmos caminhos e suas infindáveis vertentes, dentre os quais poderíamos citar como pólos opostos o ateísmo beligerante, de Richard Dawkins e Christopher Hitchens (dentre outros), de um lado, e o espiritualismo de auto-ajuda de Rondha Byrne e afins, de outro. Como você se posiciona nessa discussão? O que tem a dizer sobre a busca por espiritualidade?

MM: Primeiro, gostaria de agradecer por essa pergunta, considero-a fundamental para ampliarmos a reflexão tão necessária sobre a espiritualidade no mundo contemporâneo.

Estamos vivendo um momento de grandes transformações nos paradigmas humanos. É necessário que se diga que Rondha Byrne, até onde conheço, está muito distante das questões sobre espiritualidade que me interessam, assim como Dawkins, com seu delírio científico e seu marketing ateísta. No caso de Rondha, a busca centra-se na lógica do sistema de que o mais forte e convicto pode ganhar mais, na lei do desejo e da atração. E me parece que se mergulharmos nessa ideia, podemos inclusive aproximar Dawkins de Rondha, já que para ambos a seleção natural se faz pela lei do mais forte. O que inclusive é muito perigoso e pode justificar atrocidades, guerras, intolerâncias e preconceitos, se compreendermos a teoria da evolução do ponto de vista pragmático, rasteiro e não espiritual. Deus e a teoria da evolução não são excludentes. A ciência e a religião não são excludentes. O que não tem nada a ver com criacionismo.

Bem, o que eu busco são a compaixão, o cuidado, a compreensão e a colaboração entre os seres. Nesse sentido, sou um caminhante aprendiz. As grandes tradições espirituais da humanidade (Budismo, Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Taoísmo, Hinduísmo, entre outras) têm como princípio o amor e a busca do autoconhecimento. Ou seja, o cuidado de si, dos outros e do planeta. E na ciência interessa-me a visão da Física quântica (Fritjof Capra, Amit Goswami, etc), que está em profundo acordo com ideias budistas, por exemplo. Por esse mesmo motivo, também não compreendo o que chamamos de Deus como aquela figura estereotipada de barbas brancas, sentado em algum lugar no céu apontando os nossos erros.

Não há segredo algum, há mistério, presença, amor. Deus pode ser Aquele que não é. E pode ter mil faces. O Eu Maior. Grandes homens e avatares surgiram na história da humanidade e continuam por aí: Jesus Cristo, Sidarta Gautama, Lao-Tsé, Maomé, Francisco de Assis, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Dom Hélder Câmara, entre outros grandes. Atualmente temos Dalai Lama, Leonardo Boff, Frei Betto, Jean-Yves Leloup, Roberto Crema, Sogyal Rinpoche, entre muitos e muitos que propagam essa compreensão da vida, do autoconhecimento e de Deus. É uma jornada longa e bela, e esse é o motivo pelo qual todos nós estamos aqui, para cuidarmos da nossa casa comum e da teia de relações da vida em que todos ganham se formos compassivos e amorosos. Para isso é necessário entregar-se e confiar no mistério, não para explicá-lo, mas para experimentá-lo. Enfim, é preciso buscar…para não cairmos no delírio de Hawkins ou na cilada de Rondha.

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Concurso de contos

A Editora Infinitum abriu um novo concurso de contos. O tema é bem legal: como os deuses – de qualquer mitologia – vivem nos dias de hoje? Os melhores textos serão agrupados em uma antologia on-line que terá distribuição gratuita. Boa oportunidade para a divulgação de trabalhos!

Quem quiser se inspirar um pouco antes de escrever o seu conto, recomendo a leitura de Deuses Americanos, de Neil Gaiman, cuja proposta é semelhante: deuses antigos tentando sobreviver nos dias atuais, após caírem em descrença.

Para mais informações sobre o concurso, clique aqui.

 

Revista literária

A revista literária Macondo receberá até dia 20 de março material para a sua primeira edição, prevista para o final de abril. Podem ser enviados contos, poemas, haicais, resenhas, charges, fotografias, ensaios… Enfim, uma gama bastante variada de gêneros. A publicação surge com a pretensão de explorar a arte literária. Será trimestral e de circulação on-line.

Mais informações, como detalhes para o envio de material, aqui.

 

Fanzine literário

O blog Casmurros lançou a primeira edição do seu fanzine literário – que aborda assuntos do universo ficcional – chamado, adivinhem? Casmurros! A estréia foi boa, com destaque para um ensaio sobre Jorge Luis Borges e Roberto Bolaño.

O download do fanzine pode ser feito aqui.

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