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Posts Tagged ‘Nelson Rodrigues’

Por Rodrigo Casarin

Foto: Victor Daguano

Foto: Victor Daguano

A história já é conhecida: uma garota de programa faz sucesso com um blog e resolve transformar as suas experiências na cama em um livro. Se outrora quem assumia esse papel de prostituta-escritora era Bruna Surfistinha, agora é a vez de Lola Benvenutti, que acaba de lançar O prazer é todo nosso, destinado “a todos que desejam gozar a vida longe de tabus e preconceitos e querem ser livres para descobrir seu corpo e suas inúmeras possibilidades de prazer” – é o que diz a contracapa.

Entretanto, a trajetória de Lola difere de sua antecessora. Aos 22 anos, é formada em Letras pela Universidade Federal de São Carlos. Foi fazer o curso pela paixão que tem por literatura, por autores como Dostoiévski e Nelson Rodrigues. Na faculdade, descobriu também gostar de africanos como Ondjaki e Mia Couto. “Gosto muito da poesia que há na prosa deles, me toca muito, são bastante viscerais. Acho que o Mia Couto tem muitas similaridades com o Guimarães Rosa”, compara. São dois escritores que fizeram livros que lhe marcaram, aliás: Terra sonâmbula, de Mia, e Grande sertão: veredas, de Rosa, que remete-lhe à mudança do interior de São Paulo para a capital paulista.

Uma frase de Rosa, inclusive, virou uma das diversas tatuagens que colorem o seu corpo: “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Tatuou ainda outras duas frases cunhadas por escritores: “Dizer insistentemente que fazia sol lá fora”, de Manuel bandeira, e “Quem não sente no corpo a alma expandir-se até desbrochar em puro grito de orgasmo, num instante infinito?”, de Carlos Drummond de Andrade.

No dia a dia faz o possível para ter algum tempo para leitura. Atualmente, divide-se entre A vida como ela é, de Nelson Rodrigues, Fanny Hill ou memórias de uma mulher de prazer, de John Cleland, e Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, outro de Mia Couto. Mas não é sempre que consegue arrumar uma hora livre em sua agenda. Seu cotidiano é corrido. Além de atender os clientes, gosta de responder pessoalmente todos os mais de cem e-mails que recebe diariamente. “Tenho que dar atenção para as pessoas que me procuram, não é só passar um preço, então é o tipo de coisa que não dá para delegar”.

Esse envolvimento com a literatura lhe trouxe algumas perturbações na hora de escrever O prazer é todo nosso. De cara, revela estar preocupada com a crítica, com a maneira que os leitores receberão a obra, diz há um peso maior quando algo é escrito por uma pessoa formada em Letras.

O resultado do trabalho é uma série de histórias que se passam na cama – ou em lugares mais improváveis, como um carro em movimento, com o parceiro ao volante –, pontuadas por um tom que mistura o professoral e uma espécie de autoajuda sexual. “Quis levar um olhar intenso para as relações, que vai além do sexo. Passei um ano escrevendo, procurei problematizar questões da sexualidade, refletir sobre o ato em si, sobre o prazer. É importante fazer com que as pessoas se permitam viver novas experiências”, explica.

O prazer é todo nosso

Lola diz que não há uma linha de ficção em seu livro, que realmente viveu todas as histórias da maneira que estão contadas. São passagens como um swing com 15 casais em uma festa fechada em Ribeirão Preto, situação que compara ao filme De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick, com uma clássica cena de orgia. “Quando estavam me levando para aquele lugar, completamente isolado, misterioso, eu realmente achei que ia morrer”. Há outros momentos inusitados, como usar um dos brinquedos sexuais que leva na bolsa para se masturbar em meio a um congestionamento em São Paulo ou ser contratada para satisfazer cinco amigas, cujos maridos viajavam a trabalho, em uma “noite das mulheres”. Também situações mais leves, como quando ajuda um casal a retomar o tesão mútuo, auxilia uma mulher a gozar pela primeira vez na vida ou orienta um rapaz com clara inclinação homossexual a se permitir experiências com pessoas do mesmo sexo.

Entretanto, algumas passagens ficaram de fora por serem “pesadas demais”: a vez que atendeu um cego com fístula no braço e mal hálito, por exemplo, ou as diversas vezes em que clientes não apenas consumiram drogas em sua presença, mas insistiram para que ela também o fizesse – o que sempre recusou, garante.

O prazer é todo nosso apresenta referências a outras obras literárias, como um capítulo chamado História do olho, do francês Georges Bataille, um dos grandes clássicos da literatura erótica, gênero que muito agrada Lola. Da vertente, destaca Hilda Hilst, Anais Nin, Henry Miller e um quadrinista contemporâneo, Chester Brown, canadense autor de Pagando por sexo. “É uma HQ que traz uma problematização, apresenta o ponto de vista masculino sobre a relação com prostitutas e é uma história situada nos dias de hoje”.

Sobre os soft porns, diz ver certa importância neles por, eventualmente, fazerem com que pessoas descubram o prazer da leitura e se permitam algumas inovações na vida sexual, contudo, as qualidades acabam por aí. “Tecnicamente, leio e penso no Milton Hatoum, por exemplo, que constrói um labirinto que não é possível ser desvendado sem que se preste muita atenção no que está lendo. Nesse aspecto, esses pornôs que estão na moda não são tão bons”.

No campo profissional, Lola relata que títulos como Cinquenta tons de cinza pouco lhe impactaram; mesmo antes do sucesso da publicação, já tinha um perfil de dominadora e costumava praticar sadomasoquismo com homens. “Além disso, vejo nos livros mais algo onírico, da mulher ser tratada como uma princesa na vida cotidiana e ser dominada na cama”.

Lola e suas colegas

A influência da literatura também está no nome de trabalho da garota, que na verdade se chama Gabriela Natalia Silva. Enquanto o Benvenutti remete à “bem-vindo” em italiano, o Lola é uma homenagem a Lolita, a clássica ninfeta de Vladimir Nabokov. Ela se vê, de certa forma, nesse papel, como uma menina sensual que mexe com a cabeça de homens mais velhos.

Prostitui-se desde os 17 anos e, apesar das pretensões com a carreira literária e da vontade de fazer um mestrado (quer estudar o sexo dentro da antropologia ou das ciências sociais para ir mais a fundo na parte teórica do assunto que domina na prática), não tem planos para deixar a profissão tão cedo. Orgulha-se do que faz. Diz que, mais do que prazer, tem o importante papel de dar atenção, ouvir, valorizar a compreender muitas pessoas que não encontram isso em outras relações.

Apesar de passar por momentos às vezes desagradáveis – certa vez precisou se segurar para não mandar o cliente “tomar no cu” depois de ouvir que poderia “ter mais peitinho” -, diz-se sortuda de trabalhar com tantas pessoas legais. Quando perguntada como prefere ser tratada, opta por “puta mesmo, acho mais original, causa um choque nas pessoas, é mais divertido, mais bem resolvido”. É aí que invoca Gabriela Leite – outra puta-escritora, autora de Filha, mãe, avó e puta, e ferrenha ativista na busca pelos direitos das profissionais do sexo, que faleceu em 2013 -, a quem prefere ser comparada, tanto que dedica o livro à ex-colega.

Contudo, o paralelo com Bruna Surfistinha e seu O doce veneno do escorpião é inevitável. É possível afirmar que Bruna é mais detalhista em seus relatos, vai mais a fundo nos pormenores carnais, enquanto Lola se preocupa em refletir sobre cada cena presente em seu livro. É como se a primeira não ligasse em assumir o lado pornográfico da obra, enquanto a segunda procurasse ficar no campo erótico, menos vulgar. Outra diferença: O doce veneno do escorpião traz uma narrativa única, enquanto O prazer é todo nosso pode ser encarado como uma sequência de contos, com alguma lógica e continuidade entre si, mas que também se sustentam se lidos de maneira independente. Em comum, ambas assumem que, além do sexo, precisam fazer as vezes de analista de diversos clientes.

Escrevendo O prazer é todo nosso – que sai com uma aposta alta, em tiragem de 10 mil exemplares – Lola conseguiu juntar as duas coisas que mais gosta na vida: o sexo e a literatura. Espera que o livro seja um divisor de águas em sua carreira, apesar de não fazer ideia de como ele irá repercutir e para onde vai lhe levar – só assegura que não será para longe dos programas.

Matéria originalmente publicada no Uol.

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Por Igor Antunes Penteado

SuassunaPoucas semanas foram tão trágicas para a história da literatura quanto a que passou. Em um espaço de cinco dias, perdemos três de nossos maiores escritores: João Ubaldo Ribeiro, no dia 18, Rubem Alves, no dia 19, e Ariano Suassuna, no dia 23. Mortes que não deixarão apenas um vazio imensurável para a cultura nacional, mas, sobretudo, que projetam lenta e definitivamente o fim de uma estirpe de escritores que praticamente não temos produzido mais.

Entretanto, a discussão que quero propor aqui é outra. Ariano Suassuna, ao longo de sua vida, foi bastante marcado por uma relação estreita com a política e, em muitas oportunidades, esteve envolvido em campanhas e mandatos. Ultimamente, vinha atuando de forma que divergia do meu posicionamento, o que me levou a um questionamento: até que ponto devemos deixar os fatos da vida privada de uma pessoa influenciarem em nosso julgamento sobre a obra produzida por ela?

Embora apresentasse em várias de suas produções críticas mordazes ao coronelismo, Suassuna manteve por anos uma proximidade indigesta –para mim – com várias figuras protagonistas deste papel, infelizmente ainda tão comum e tradicional na política nordestina e nos interiores mais profundos do Brasil. A contribuição do escritor para a nossa cultura – inclusive além dos livros propriamente ditos – é, sem dúvida, inestimável, mas sua postura em diversas ocasiões sempre me foi “estranha”. E é tão difícil colocar em cheque uma figura por quem se tem tanta admiração.

Voltando à pergunta, até que ponto uma discordância pessoal deve influenciar na avaliação sobre a obra de alguém? Parece-me que, quando a questão se refere a uma conduta moral ou a uma divergência de pensamento, o mais sensato é mesmo tentar separar as coisas. Monteiro Lobato era racista – como quase todos em sua época –, mas seria bizarro ignorar toda a sua contribuição positiva em tantas outras frentes. Nelson Rodrigues, autor daquele que elegi como meu livro favorito, era um tremendo machista e reacionário, mas genial escritor e cronista, entre outros campos em que atuou.

Como esses, vários outros exemplos me vêm à cabeça. Meu poeta favorito, Vinicius de Moraes, certa vez disse que “Existem umas feias potáveis. Mas a maioria só serve mesmo para fazer sabão”. Eu deveria ignorar todo o resto do que tanto gosto em nome desta tosquice? As bobagens antissemitas do Mel Gibson desabonam seu maravilhoso Coração Valente? O pensamento retrógrado em relação às mulheres diminui o brilhante desenvolvedor do jiu-jitsu (arte que tanto admiro) que foi Hélio Gracie? Não devo nunca mais prestigiar uma peça com Marília Pêra ou Claudia Raia pelo apoio das duas atrizes à candidatura do Collor em 1989? Acho que não.

Se no campo das ideologias as coisas já são confusas, é de se imaginar que quando a conduta destoante, na verdade, é um crime, o cenário é ainda pior. Messi, quatro vezes consecutivas eleito como o melhor jogador do mundo e investigado por suspeitas de uma faraônica fraude fiscal, deve ter seu futebol menos visto e elogiado por mim? Considerado um dos maiores boxeadores de todos os tempos, Mike Tyson não bateu só nos adversários, mas espancou uma mulher. Não é possível mais admirar sua velocidade e precisão dentro dos ringues? Outros candidatos ao ostracismo por violência doméstica: James Brown, preso repetidas vezes em seus últimos anos de vida e, claro, Netinho de Paula. O ex-negritude deve cumprir para sempre essa pena “moral” mesmo tendo apresentado, após eleito vereador, vários projetos em favor das mulheres?

Mas, nesse quesito, nenhum caso é mais emblemático que o de Sean Penn. Quando ganhou o Oscar por Milk, em 2008, o ator comoveu muita gente com seu discurso pró-direitos gays. O que a maioria não lembrou é o fato de que, duas décadas antes, Sean também bateu em sua mulher, Madonna, e fazia o melhor estilo “bad-boy” canastrão e homofóbico. Qual o tamanho da pena que Sean deveria cumprir para que eu pudesse admirar seu trabalho sem peso na consciência?

E, para piorar, assim como os conflitos e julgamentos internos, os crimes também pioram. Roman Polanski, Oscar de melhor diretor por O pianista (2002), estuprou uma menina de 13 anos há quase quatro décadas, e aí? E Woody Allen, outro diretor envolvido em um escândalo sexual com uma criança, como fica? O diretor de Match point, acusado de ter molestado sexualmente sua enteada, Dylan Farrow, quando ela tinha seis anos, deveria dizer “bye bye” à minha admiração por sua obra até os dias de hoje?

Essas questões ainda me são bastante perturbadoras, mas o fato é que seres humanos cometem, sim, erros. Muitos deles. E esperar que as obras dessas pessoas paguem por isso é mais um destes erros. Descanse em paz, Ariano. Sua obra é valiosamente eterna.

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Por Rodrigo Casarin

Karina Freitas

Karina Freitas

Paulinha Denise não é puta, apesar de suas roupas. Se veste para provocar e capricha no rebolado. Usa um chapéu que mais parece um poodle, que cobre seu cabelo alisado e oxigenado. Tem um cabeção, um rabo perfeito, uma borboleta gigante tatuada na coxa e um umbigão mal tesourado extremamente feio, com uma tripa um pouco pra fora. É a mulher mais brega de Suzano. Frequenta os bares do centro de São Paulo e gosta de frango a passarinho e baconzitos. Tem dois cachorros, Titi e Camila, e uma irmã trambiqueira. Foge para Mongaguá quando precisa fazer algo realmente sério. Nunca leu Dostoiévski, adora Zíbia Gasparetto, compra livros do Shinyashiki e jamais encherá o saco com Clarice Lispector e Amélie Poulain. Curte Zeca Pagodinho. Não conhece “Samba do avião” e não sabe nada de Tom Jobim e bossa nova.

Ariela é o contrário de Paulinha. Não depila os pentelhos à maquina zero. Veste apenas uma camisa xadrez e fuma no terraço, mostrando-se nua e cabeludinha para as meninas da rua. Larga calcinhas e bijuterias para marcar território. É uma mentira, uma falsidade ambulante, uma Lolita avançada tecnologicamente. Em seu beijo não há cerveja ou amendoim. Ariela faz sonhar, é mulher para apresentar como namorada. É Maria Rodapé, gosta de beatnik. Tem sorriso de coelho e curte enganar os homens. Enxerga poesia onde somente existe egoísmo, solidão e desespero.

Ivete coleciona revistas femininas, não perde um programa da Sílvia Poppovic e é especialista em sexo oral. Mora na rua 3122, nº411, B.C, atende no número de telefone do seu tio Fernando e não trepou ontem de tarde, apenas levou umas porradas reparadoras e transcendentais depois que seu parceiro achou uma camisinha jogada atrás da cama – e ele nunca usa camisinha.

Eva é uma debiloide que dá desconto após o programa e fala de amigas em meio ao seu trabalho, mesmo quando está usando a boca para tal – aliás, gosta de conversar enquanto realiza seu ofício com a língua, os lábios, a garganta… Não fuma e tem belos pés, com unhas redondas e cobertas por base. Deveria se sentir honrada pela sutil relação que tem com Charles Bukowski.

Claudinha! Ele queria currá-la tal qual lera em Nelson Rodrigues. Uma garota de talentos, queria ser escritora. Abriu as pernas, mas preferia não ver seu nome numa história. Ao final de uma tarde em Paquetá, reclamou que os pés dele não tinham vida.

Nelci, aquela de cabelo esquisito e calcanhares sujos, é uma típica representante das garotas da fila de cinema gratuito do Centro Cultural São Paulo. Adora dizer um monte de bobagens e falar sobre uma tal de filosofia de vida superior.

Cristina B. era uma paixão de infância, da sétima série B. Claro que ela provocou apenas ilusão e desilusão. Agora, com 34 anos e ainda bela, deve estar casada com um alemão escroto que lhe deu um casal de filhos mongoloides e a leva para passar as férias de julho em Campos do Jordão. Cristina B foi sucedida pela inesquecível Luciana H.

Cris tem dentes grandes, que projetam seus lábios como se engolissem a própria língua. Ela às vezes causa tédio. Já Thaís é arquiteta, lésbica e namora Bebel. Moderninha, gosta de acrílicos. Tem ainda a Regiane, do disk-putas, que beija na boca, não bebe e o chama de “Príncipe de verdade”.

Mulher, mulher

Sem mulher não existe Marcelo Mirisola. Não só o escritor, mas o autor, narrador e personagem também seriam impossíveis sem as presenças femininas. Sem elas, não conseguiriam dar um passo – ou escrever uma linha – sequer. “É impossível fazer qualquer coisa na vida sem a presença feminina, literatura é só uma entre as milhares de outras coisas”, diz ele no brevíssimo papo que tivemos por e-mail.

Elas são a grande força das obras de Mirisola e, nas colagens acima, estão exemplos dessas personagens que dão vida a alguns livros do escritor. Paulinha Denise e Ariela são as responsáveis pela existência de Hosana poluída, o mais recente, que será publicado agora em maio pela Editora 34. A história começa num arquipélago na ilha de Sumatra – um dos quatro territórios da Oceania no War, célebre jogo de tabuleiro – e passa por São Paulo, Guarulhos, Rio de Janeiro, Suzano e interior de Minas Gerais. Nas suas primeiras páginas, Marcelo Mirisola, o protagonista, ouve de uma marmiteira que também lê tarô que irá correr o mundo e desfrutar do sexo de muitas mulheres – clarividência que reverbera por toda a obra do escritor.

Mas antes de continuar falando sobre as beldades mirisolianas, vale passar por alguns outros pontos de Hosana poluída. A prosa de Mirisola continua precisa até mesmo nas notas de rodapé – ou principalmente nas impagáveis notas de rodapé –, que costumam concentrar toda a verve cafona e sacana do autor, numa ótima mistura de Xico Sá com Chales Bukowski. Uma amostra: “Dedo no cu, no caso dos bitiniques de padaria, dois dedos cruzados – como se materializassem uma estrutura de DNA – que por sua vez denunciaria a falta incorrigível de talento e ânsia de se foder acompanhada de mais uma dose de Domecq” – o ódio é de Buk, a dose é de Xico.

A pontaria de Mirisola também continua ótima e mira desde aqueles que analisam seus livros – na visão do personagem, Paula Denise faz comentários mais pertinentes sobre Charque do que pesquisadores, mestres e doutores da Unicamp – e os “intelectuais ticket-refeição da Flip”, passando por velhos torturadores que hoje fazem hidroginástica no SESC “da melhor idade” até atingir o ápice com um “nazista ecológico dissidente do PV e recém-filiado ao PC do B” – e não se preocupem, também há referências críticas em tom parecido a outros partidos de diferentes vertentes ideológicas.

Nessa linha de contemporaneidade, vale ainda registar passagens em que o personagem envia mensagens de telefone de Tim para Tim “a custo quase zero”, a possibilidade do Facebook como ferramenta para manter ou resgatar o relacionamento e o sonho de comprar um apartamento em Suzano financiado pela Caixa. São detalhes, às vezes pequenos, que aproximam muito o texto do homem médio brasileiro, aquele que está sempre em busca de seu ouro de tolo. Ainda merecem destaque as referências, como a possibilidade de falar com um tal de Reinaldo Moraes doutor em relacionamentos, e citações a autores consagrados, como neste ótimo trecho: “O diamante é um dos poucos objetos lapidados pela vontade humana capaz de encerrar-se em si mesmo. Os livros de Camus também”.

Por fim, em um momento que tanto se discute a autoficção, impossível não registar o quanto escritor, autor, narrador e personagem Marcelo Mirisola são parecidos. Em dado momento, o personagem-narrador chega a pensar se referindo à Paula Denise: “Se ela quisesse mesmo ser minha mulher, teria de aceitar o pacote completo, eu & meus 12 livros publicados”. De um ano pra cá, Ricardo Lísias, por conta de seu Divórcio, que esteve no cerne dessa discussão. Considero isso um equívoco. A figura contemporânea ideal para ancorar o debate sobre metaficção e os limites entre escritor, autor, narrador e personagem é Marcelo Mirisola – boa parte de sua obra comprova e nos permite isso. Ele mesmo – o escritor – vai além. “Não só é possível, como é necessário [que haja a confusão]. Já disse numa entrevista, e repito: sou o Pedro Álvares Cabral da autoficção aqui no Brasil, e ninguém tasca”.

Voltemos às belas.

Ivete, Eva, Claudinha, Nelci, Cristina B, Luciana H, Cris, Thaís, Bebel e Regiane estão espalhadas por O herói devolvido (2000), O azul do filho morto (2002), Bangalô (2003) e Memórias da sauna finlandesa (2009) e entram neste texto porque seria um desperdício não aproveitarmos uma gama tão boa de personagens femininas. Afinal, Marcelo, personagem preferido de Mirisola, é um grande conquistador, praticamente um Renato Gaúcho das páginas literárias. E as moças que conquista possuem personalidade própria, muitas vezes flertam ou mergulham na breguice e cafonice, frequentam bares que fedem a urina e ficam com homens que se banham de loção barata. Não se importam de comer frango a passarinho e às vezes podem ter uma pele de amendoim nos dentes talvez sujos de batom. Não ligam para o bafo de cerveja ou cachaça – podem até sentir tesão nisso. São também moças que caem na lábia de intelectuais e se apaixonam depois de ouvirem algumas frases de efeito ou serem presenteadas com uma bijuteria bem acabada. E podem ser o contrário ou mistura de tudo isso, pois não seguem fórmulas. “Na mesma proporção em que elas me destroem, eu as construo”, conta o escritor. São mulheres de personalidade marcante, jamais idealizadas – a não ser pelos próprios personagens masculinos. E aí, méritos para o Mirisola autor e escritor, que, contudo, garante não sentir atração por nenhuma delas.

Você sente tesão pelas suas personagens, Mirisola? Com quais você gostaria de ter uma noite (ou uma vida)?

Só se eu fosse necrófilo. Tesão nenhum.

Mas eu disse que elas apaixonam e costumam se apaixonar de verdade. Aliás, o amor e a paixão são os grandes temas de Marcelo Mirisola. Muitas vezes são representados em relacionamentos breves, conturbados, acompanhados de traições corriqueiras, porém nunca simples, sempre sofridas. Alguns personagens podem até fingir que não ligam para os chifres ou para as desilusões, mas as frustrações e as dores em algum momento se manifestam, afinal, as relações são sempre intensas, mesmo que dure apenas uma noite – e isso graças às sedutoras Denises, Claudinhas, Regianes e afins.

Um conto que representa muito bem isso é “Festinha na masmorra”, de Memórias da sauna finlandesa, no qual o protagonista vai a um clube de sadomasoquismo para conseguir realizar sua grande perversão sexual: fazer papai-mamãe no escuro. É isso! Por mais que se cerquem de grandes extravagâncias, os personagens de Mirisola querem fazer papai-mamãe no escuro, sussurrar um “eu te amo” no ouvido da parceira e levar o café da manhã na cama, ainda que parceira e cama mudem a cada semana. Todos são desesperados por carinho e atenção. Entretanto, o próprio escritor discorda desse ponto de vista: “Eu penso que é tudo idealizado, apesar dos estragos causados pela realidade. Se o amor fosse possível, como você infere, não faria nenhum sentido escrever ficção”.

Há um trecho de Hosana poluída que é lapidar quanto a importância das mulheres na obra do escritor: “Inércia é a propriedade segundo a qual um corpo não pode modificar seu estado de movimento ou repouso, ao menos que sobre ele passe a atuar algo ou alguma força. Sem mulher, não há movimento”. Ou seja, a chave para entender Mirisola está em sua própria obra – é assim que os grandes artistas fazem, bastam-se naquilo que criam.

Texto publicado originalmente no suplemento literário Pernambuco.

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xicoPor Guilherme Magalhães, Rodrigo Casarin e Yasmin Taketani

No Vale do Cariri, início da década de 1970, um menino acompanha seu pai, conhecido como “O Velho”, na boléia de Big Jato. É o caminhão limpa-fossas que garante o sustento da família — “tudo que a gente ganha vem da merda” — e o espírito trabalhador do pai que orgulha o menino. Mas sua formação é dividida entre outros modelos, como o tio beatlemaníaco, “veado, maconheiro e vagabundo”, e é influenciada pela própria região, que avança por uma estrada esburacada rumo à modernização.

Esta é a história de Big Jato (leia resenha aqui), novo romance de Xico Sá. Nascido no Crato, Ceará, em 1962, Xico Sá começou a carreira de jornalista no Recife, atuou como repórter investigativo e publicou livros de contos e crônicas, como Chabadabadá e Modos de macho & modinhas de fêmea, e atualmente é colunista da Folha de S. Paulo e comentarista dos programas “Saia justa” (GNT) e “TV Folha” (Cultura). No prólogo do autobiográfico Big Jato, o autor profetiza: “Se um homem não conta, é um homem morto”. Vivo que é, Xico Sá se muniu do filtro da ficção, enfrentou a “maldição do cronista” e escreveu sua vingança contra o passado. Nesta entrevista, realizada via e-mail, Xico Sá fala sobre a escrita do novo livro, a “dama conservadora” que é a crônica e a característica de rir da própria desgraça, entre outros temas.

No prólogo de Big Jato, você escreve: “Tudo isso estava muito guardado. Agora emerge por força superior”. Como definiria essa força que o impeliu a colocar as histórias no papel?

Faltava o poder da ficção, o filtro da ficção, a lente da ficção. Havia um rascunho ainda muito fiel ao vivido, uma noção quase documental e, de certa forma, piedosa. Queria outra coisa, uma espécie de vingança contra o passado. Não há melhor vingança do que o dia em que você diz: opa, agora parece a maior mentira do universo, a trapaça venceu inclusive o inconsciente, manchou de vez as lembranças encobridoras, agora tenho uma verdade mínima na mesa, a verdade que só um ficcionista alcança. O autor mente muito, como no título do livraço de Carlos Sussekind e Francisco Daudt. Creio ter alcançado minimamente o sagrado altar dos mentirosos.

Sendo um romance autobiográfico, qual o efeito que a escrita de Big Jato — de revisitar e ficcionalizar o passado — teve sobre você? Por que a ficção se fez necessária para contar essa história?

Nada mais farsesco do que inscrever um livro como autobiográfico. Aí começo a funcionar como ficcionista. No prólogo, uso meu amigo Kurt Vonnegut como escudo: tudo isso aconteceu, mais ou menos. Se lesse meu livro e acreditasse que eu era o seu filho, no modo que está no Big Jato, meu pai me assassinaria da forma mais greco-cratense — cratense de Crato, a cidade onde nasci. Graças a Deus é um homem da roça, vive isolado no seu rancho, na sua cachaça metafísica e nas suas caçadas de avoantes e tatus, jamais vai perder seu tempo com certas leituras. Sorte de nós todos. Mas o pior é que eu chorava como um desalmado, em certas partes da escrita. Principalmente nas partes mais inventadas. Vai entender o diabo da ficção! É poderosa. Você inventa para fugir, ela nos pega como uma nova verdade mais lascada e sofrida ainda. Uma sucuri que nos engole como a um boi no pântano.

Big Jato, estruturado em 33 capítulos, começou na forma de contos. O que o fez transformá-los em um romance? Como foi a passagem de contista e cronista a romancista?

Era um conto só, com várias versões, mas um relato bem capenga, desajeitado, embora já contemplasse a merda toda do limpa-fossas do Velho, o personagem principal. Os amigos Joca Terron e Ronaldo Bressane leram e começaram a me botar pilha para esticar e explorar a idéia, digo, a merda. Isso há séculos, uns sete anos atrás. Deixei pra lá. Quando retomei, em 2011, o livro saiu num jato só, aí sim foi importante a prosódia do Cariri, onde se passa a suposta história. Voltei lá para treinar o ouvido. Juntei a isso releituras do meu escritor brasileiro predileto, Graciliano Ramos, e tudo que é romance e crônica dos picarescos de Espanha — daí o humor, creio. Aqui mesmo neste jornal, o escritor Raimundo Carrero fez uma crítica que me deixou corado, metido e achando que valeu a pena ter rabiscado o tal volume. Ele exagerou dizendo que o Lazarillo de Tormes tinha agora a companhia de um livro brasileiro, o Big Jato. Isso foi de arrombar de bom. Agradeço a Deus por ele ter visto a influência dos miseráveis pícaros espanhóis. Estes mesmos pícaros que se parecem muito com as narrações populares ou dos cordéis nordestinos. Ora, essa coisa é muito da minha formação como leitor pícaro-picareta e de escritor idem. O anti-heroísmo soy yo.

Temas de suas crônicas — como mulher, masculinidade, futebol, vida nordestina e cultura brega lado a lado com a alta cultura — estão presentes também em Big Jato. O romance permitiu, de alguma forma, que você desse a eles uma densidade que não cabia na crônica?

O livro tem todas as virtudes e todos os defeitos que tenho como cronista. Inclusive os temas. E olhe que, durante a escrita, a grande paranóia era não deixar a crônica tomar conta da parada. Dizia pra mim mesmo: fdp, agora você é um ficcionista, chega! Mesmo assim, foi impossível evitar a contaminação, mesmo armado de todos os repelentes e escudos. Ao final, fiquei com a sensação de que o amor e o sexo, temas tão comuns a tudo que escrevo, não estavam presentes como deveriam, embora existam cenas de cabarés, leilões de virgens para gringos e a iniciação sexual do guri. Acabei me conformando: ora, àquela altura eu mal sabia o que era uma fêmea direito. Havia me deitado apenas com cabritas. A memória não poderia me trair nessa hora.

Qual a sua definição de crônica?

É o PF da literatura brasileira. Arroz, feijão, bife e um ovo estrelado por cima. E tem coisa melhor, amigos, na hora da fome canina? É o gênero vira-lata por excelência, por isso tanto me encanta. Na minha crônica mais metalingüística, solene definição para a falta de assunto em cima da hora do fechamento do jornal, defino assim o ofício de cronista: algumas crônicas nascem fáceis, como aparentam aquelas de Rubem Braga, como uma polaroid, uma pose digital, olha o passarinho, olha a borboleta amarela, diga xis, um sabiá teimando contra o barulho da metrópole. Fáceis como beijos roubados de mulheres difíceis… Outras nascem na dança, na pista, uma moleza, como empurrar bêbado em ladeira, como Vinicius no elogio de uma saboneteira, como descer para um café ou uma cerveja lá na esquina da Augusta.

A crônica brasileira vive um bom momento? Qual a marca mais visível dos cronistas em atividade?

Continuamos no arroz, feijão, bife e um ovo estrelado por cima. Mesmo no caso de um gourmet, como o Verissimo, nosso melhor cronista, mestre da área. A crônica é uma dama conservadora, mudou quase nada depois de Rubem Braga. Não existiria a minha crônica esportiva, por exemplo, sem a matriz deixada por Nelson Rodrigues. A minha crônica amorosa é requentada, e isso eu acho um luxo, de Paulo Mendes Campos e Antônio Maria, dois caras que leio como orações diárias. Só acrescento farinha e pimenta, por causa da minha origem, no PF. E uma cachacinha, obviamente. A matriz é a mesma dos anos 1950 até hoje, incluindo uma certa porção de subliteratura, faz parte — como uma porção de viagem na maionese.

Numa entrevista, você comenta que escreveu Big Jato para enfrentar a maldição do cronista, “o sofrimento de não arrematar tudo numa frase de efeito, não deixar a crônica tomar conta”. Durante sua escrita, descobriu alguma “maldição do romancista”?

A gente descobre de cara a maldição do romancista: será que este personagem tem capacidade de andar com as próprias pernas, mesmo as pernas curtas da mentira? Arte maldita. E tem o diabo da voz, uma afinação de possessos, eco de casa mal-assombrada. Estou longe de entender dessas coisas. Pior é que a maldição vicia: já estou no embalo de um novo sofrimento como ficcionista. Quando falo em matar a maldição do ficcionista, trato da maldição do ficcionista em português. Em portunhol selvagem, língua dos meus mentores Douglas Diegues e Wilson Bueno, sou veterano, me aventurei em muitas narrativas publicadas inclusive no Paraguai, minha verdadeira pátria, afinal de contas a pátria de um hombre é a pátria do seu uísque, por supuesto.

Do Crato até São Paulo, como sua formação cultural — e literária, por extensão — foi construída? O que lhe fez optar pela “alma de poeta”?

Entre o Cariri — além do Crato, vivi em outras cidades da região — e São Paulo, tive a sorte de morar, estudar e beber no Recife. Minha educação sentimental e literária, mesmo ainda precária e mobralesca, devo a esta cidade e aos seus escritores e poetas. Cheguei lá ainda jovem, na casa dos dezesseis, mas dei a sorte de conviver com muitos mestres, que me indicavam e cobravam leituras nas mesas dos bares —melhor lugar para tal cobrança a um mancebo —, como Jaci Bezerra, Alberto da Cunha Melo, Paulo Bruscky — que julgo o maior artista plástico brasileiro —, Jomard Muniz de Britto, José Carlos Targino, Raimundo Carrero — com quem trabalhei em um jornal da Universidade Federal de Pernambuco — e tantos outros. Sem querer esnobar, ainda dei a sorte de uma breve convivência com Gilberto Freyre, que me dava porres enormes de licor de pitanga — bebida que ele julgava como invenção sua e a mais incrível do planeta — e João Cabral de Melo Neto, quando das suas férias em Pernambuco. Como não tinha capacidade de conversar de verdade sobre poesia com João Cabral — mal eu tinha lido o ABC do Pound e O arco e a lira do Paz —, inventava umas entrevistas mandrakes, pois eu já era repórter — cheguei a publicar uma no Jornal da Tarde. Mas nossa grande conversa era mesmo sobre futebol. Ele jogou no América (do Recife) e no Santa Cruz. Um dia, quem sabe, publico essa prosa futebolística.

Os pais do narrador desprezam os livros, preferindo a objetividade da matemática e o suor do trabalho como possibilidades de se levar uma vida melhor. Que resposta daria ao Velho quando este pergunta: “Inteligente para quê? Para pensar até sobre uma folha que cai sobre a terra? Que adianta?”.

Na vida real, esse era mais o espírito de um avô do que do meu pai. Meu velho nunca foi de livros, sempre esteve no pequeno comércio de bodegas, feiras e na roça. Mas eu queria cutucar também essa crença exagerada e iluminista de que os livros salvam. O personagem faz o elogio da vida prática, rasteira, direta, a vida de pobre, em contraposição ao tio doidão beatlemaníaco e à tia bibliotecária, responsável também pela perdição sonhadora do guri. É ela que aplica os [Charles] Dickens no pequeno infeliz.

O menino cresce entre a masculinidade bruta do pai e um cosmopolitismo emergente do tio, que representam as mudanças culturais no sertão na época, marcado pelo conflito entre o novo e o velho, entre a tradição e a tecnologia. Dessa mistura, o que resultou?

O bom confronto se repete hoje, em bases mais radicais, globalizadas e com as novidades made in China. Até alguns fetiches da mitologia sertaneja, como produtos do padre Cícero, são fabricados no Oriente. Uma das raras virtudes do meu livro é ser um romance no sentido de demarcar uma crônica de costumes de uma época, entre o rural e o urbano, em um momento em que o Brasil estava aderindo a um novo tempo: a migração em massa, deixando lugares como o meu às moscas, em busca da metropolização, etc. Quem foge, como o suposto herói da saga, foge com medo da extinção, como um animal desesperado.

Independentemente do gênero, seus textos sempre são tidos como divertidos. Não é diferente com Big Jato: amor não correspondido, trabalho pesado do pai, “bullying” dos colegas de escola, vida dura no sertão, inflação, tio “vagabundo” e os sofrimentos tradicionais dos adolescentes são tratados com graça, mas poderiam muito bem compor um drama. O que o leva em direção ao humor?

Creio que seja esse negócio de rir da própria desgraça. De novo voltamos aos pícaros-picaretas da glória de estar vivos. Mas se for buscar nas minhas leituras, também é Gógol puro: acredito no nariz e no capote desse russo como as duas peças mais incríveis e bonitas da literatura. Tenho muitos motivos para expor minhas dores em forma de tiração de onda.

No momento em que se passa a trama, início dos anos 1970, o futebol desempenhava no imaginário popular um papel muito mais vivo do que hoje. Existe um “descaso” com o futebol na literatura brasileira contemporânea?

Sim, na ficção existe, embora a família Sant’Anna, a melhor família de ficcionistas brasileiros hoje, tenha feito de tudo para salvar a ficção ludopédica. Pegue O paraíso é bem bacana, do André, um livraço, uma história de futebol cosmopolita, com neguinho saindo do futebol de praia e do Santos para ser um Mané Mohamed (cito aqui de cabeça sem puerra nenhuma de Google), uma história internacional que antecipa muitos conflitos do futebol em estádios da Europa. Genial. É a melhor ficção sobre futiba do mundo, melhor até que o Peter Handke de O medo do goleiro diante do pênalti, que tem apenas quinze minutos de bola rolando, o resto é o drama da humanidade fora das quatro linhas, como se fosse qualquer pecinha grega da vida. Aí, para completar, você pega esse último do Sérgio, pai do André, obviamente, tricolor das Laranjeiras doente: Páginas sem glória. O mesmo tricolor que já havia escrito contos memoráveis mata a pau sobre um anti-herói futebolístico.

Sexo é um tema recorrente nos seus textos e comentários. Por que ele é tão mal retratado na literatura? Que autores conseguem transpor com maestria o ato para palavras? Soft porn lhe agrada?

Se é soft, não é pornô, muito menos sexo. Sexo é sujo e sagrado ao mesmo tempo. Aí é sacanagem competir com Henry Miller. Quase todo escritor brasileiro, pelo que escrevem sobre isso, toma banho depois do sexo.

Entrevista publicada originalmente na edição 155 do jornal literário Rascunho.

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A adaptação de obras literárias para o teatro é algo recorrente. Em São Paulo, no momento, além de Um Coração Fraco (que já falamos aqui), há ao menos outras três em cartaz:

A cripta de Poe – adaptação de Lenerson Polonini para as obras O retrato oval, Berenice, O espectro, Ligeia, Annabel Lee e O corvo, dentre outras de Edgar Allan Poe, considerado por muitos como o mestre do suspense.

Local: Centro Cultural São Paulo – Sala Ademar Guerra

Endereço: rua Vergueiro, 1000, Paraíso

Horário: de quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 20h.

Ingresso: 20 reais.

O grande inquisidor – adaptação de Rubens Rusche para um trecho de Irmãos Kamarazov, um dos grandes romances de Dostoievski.

Local: Sesc Pompéia

Endereço: rua Clélia, 93

Horário: sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 19h.

Ingresso: 16 reais.

O beijo no asfalto – um dos clássicos de Nelson Rodrigues.

Local: Teatro de Arena Eugênio Kusnet

Endereço: rua Doutor Teodoro Kusnet, 94, Consolação

Horário: sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 19h.

Ingresso: 20 reais.

Aproveitem!

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Um dos livros nacionais mais elogiados pela crítica nos últimos anos, Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, além de ter um grande valor literário, também é uma grande diversão para o leitor – e sabemos que quando algum livro agrada aos críticos, muitas vezes ele é um porre para os míseros mortais, não é mesmo!?

Como o nome já indica, a história é praticamente uma epopeia pornográfica. A obra é dividida em duas partes. A primeira, de uma intensidade fantástica, com cenas, cenários e diálogos muito bem trabalhados, passa-se na cidade de São Paulo. Ou melhor, em uma espécie de submundo da metrópole. O personagem principal é Zeca, um anti-herói que cativa o leitor já no começo do texto. O cara bebe, fuma, cheira, não é nem um pouco chegado a trabalho, não está nem aí para a esposa, mostra raras preocupações pelo filho, não desperdiça nenhuma oportunidade de comer uma mulher, vive passando a perna no cunhado e, ainda assim, é extremamente carismático, surpreendentemente humano.

Tal estilo de vida acaba envolvendo Zeca em uma série de complicações, e aí que a história em si começa a realmente se desenrolar. Após uma intensa noite de bebedeira, sexo e muito nariz na farinha, o protagonista resolve passar uma temporada em Ubatuba – e aqui chegamos na segunda parte da obra. Vai para o Litoral para espairecer sobre alguns problemas pontuais, mas lá descobre que sua vida está muito mais complicada do que poderia supor.

Na praia, desacelera. Durantes algumas semanas, leva uma vida bem mais tranquila, longe do pó, tomando apenas alguns gorós e fumando poucos baseados. Começa a curtir o estilo de vida praiano, enquanto a sua vida só piora em São Paulo. Contudo, a necessidade de sexo acaba fazendo com que Zeca arrume confusões – e, durante algum tempo, soluções – também em Ubatuba.

Atualmente, qualquer livro repleto de sexo, drogas e com a história completamente focada em um ponto de vista bastante masculino (que beira o machismo) é automaticamente comparado às obras de Bukowski. Com Pornopopéia não é diferente. Contudo, enquanto o Velho Safado atingia o seu ápice em rapidinhas (contos), Reinaldo Moraes domina com maestria a arte do sexo tântrico, e mantém a relação – nem sempre ereto, é verdade, mas ainda assim mostrando presença – ao longo de 660 páginas.

Em alguns momentos a lembrança de Nelson Rodrigues também é inevitável, principalmente quando relacionamentos “proibidos” ocorrem. Há passagens deste tipo, inclusive, nas quais Moraes utiliza um vocabulário próximo ao do Anjo Pornográfico (o famoso ululante, por exemplo). Talvez isso não seja apenas uma coincidência, mas um exemplo do domínio que o autor tem do texto, que levou anos para ficar pronto.

O final de Pornopopéia poderia ser um pouco melhor, contudo isso está longe de ser um problema em um livro que nos brinda constantemente com passagens do tipo. “Lá vai a tarde entrando em preguiçosa agonia no horizonte líquido desse lugar comum à beira-mar. Olha só que poesia tem essa frase. Má poesia, mas poesia assim mesmo. Eu conseguiria viver sem poesia. Aliás, eu vivo sem poesia, Não conseguiria é viver sem buceta. E estou vivendo sem buceta”.

No lugar de Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa ou Graciliano Ramos (como fazem – ou ao menos tentam – as escolas), dê Pornopopéia na mão de um moleque de 15, 16 ou 17 anos. Quero ver se ele não se apaixonará por Literatura.

Livro: Pornopopéia

Autor: Reinaldo Moraes

Editora: Objetiva

Páginas: 660

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A Casa do Saber irá realizar entre os dias 10 e 31 de maio o curso Futebol e Literatura. Serão quatro encontros que explorarão textos sobre futebol de nomes como Albert Camus, Carlos Drummond de Andrade, Eduardo Galeano, Luis Fernando Veríssimo, João Saldanha e João Cabral de Mello Neto. O escritor central do curso será Nelson Rodrigues

Dêem uma olhada na programação:

10/05 – A crônica esportiva como forma de arte

17/05 – Explicando o Brasil através do futebol

24/05 – O Fla X Flu do texto futebolístico: os irmãos Mario Filho e Nelson Rodrigues

31/05 – O futebol na poesia, nos roteiros de cinema e nas letras de música

Quem ministrará o curso será Marcos Caetano, cronista dos jornais O Estado de São Paulo e Jornal do Brasil, das revistas Piauí, Football e O2 e comentarias da RedeTV e ESPN.

Os encontros acontecerão na Casa do Saber Unidade Jardins / Mario Ferras das 20h às 22h. O preço é de 210 reais na inscrição e mais uma parcela do mesmo valor. Para mais informações, clique aqui.

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