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Posts Tagged ‘o céu dos suicidas’

Por Alberto Nannini

capa  Ricardo Lisias Divorcio.inddTalvez conheça os mindfucks. A tradução literal é bem ilustrativa. Trata-se de uma espécie de quebra-cabeças, geralmente fotos, que parecem normais a primeira vista, mas que escondem algo que só aparecerá com um exame minucioso.

O detalhe dos mindfucks é que eles podem cumprir perfeitamente bem o papel de fotos, a não ser que você saiba que se trata de um mindfuck. Aí, você não conseguirá olhar para foto sem procurar o segredo dela.

  – Galera, aqui na reunião do blog já aviso que pretendo comprar e resenhar o novo livro do Ricardo Lísias.

– Beleza, tente entregar para o mês que vem. Seria legal uma leitura mais crítica.

– É o que pretendo. Acho que tenho uma chave de leitura para este livro.

O escritor mindfucker

Ricardo Lísias escreve uma literatura mindfuck. O autor, já entrevistado pelo Canto, e que teve seu ótimo livro O céu dos suicidas resenhado aqui por dois integrantes do blog (esta é a minha resenha e esta outra, do Rodrigo Casarin) está se especializando em confundir. Você lê achando que já sabe o que irá encontrar, ligado a experiências pessoais. Mas, por saber que ele é um autor ousado, que brinca com a linguagem e com algumas definições estanques da literatura, vai ser confundido, vai pensar no que ele quis dizer além do que disse, e provavelmente, mudará de ideia várias vezes.

Claro que, se você não lê livros pensando em resenhá-los e apenas comprar o último dele – Divórcio – e ler, vai achar curioso o personagem ter o mesmo nome do autor. Vai deduzir que se trata de uma expurgação, de alguém que viveu uma experiência traumática com um divórcio, e resolveu colocar tudo aquilo no papel. Esta teoria vai parecer bem encaixada, porque, com pouca pesquisa, vai ver que não apenas os nomes do personagem e do autor são o mesmo, mas que em algumas partes, a correspondência vai além: o autor/personagem diz que o livro anterior que escreveu é justamente O Céu dos Suicidas, e conta episódios reais, como ter escrito um conto para a revista piauí sobre seu pai e a Copa do Mundo de 82.

– E aí, como está a leitura do Divórcio?

– Travei a leitura, logo no começo. Achei outro livro, chamado Nada, deixei um pouco o Divórcio de lado, não tava fluindo. Vou resenhar o Nada antes, e tento entregar a resenha do Divórcio pro mês que vem.

– Mas por que travou? O que você está achando? 

– Tá meio repetitivo, e parece também uma jornada egocêntrica. Acho que é muita vaidade se colocar literalmente como o personagem, e muita exposição ficar romanceando tudo o que se viveu, literalmente.

Agora, se você conhece um pouco da obra deste autor em particular, provavelmente apurou seus sentidos a ponto de perceber que há mais ali do que está parecendo.

Depurar o gosto literário

A apuração dos sentidos e dos gostos parece um fato inescapável.  O senso artístico também é apurado com o tempo. A contemplação e o consumo da arte vão se sofisticando, quanto mais arte se contemple e se consuma, porque as experiências vão se somando e mudam os referenciais.

Com a literatura também é assim. Você lê um livro, dois, três, dez, dezenas. E começa a comparar tudo o que lê com o que já leu. E vai depurando seu gosto em autores prediletos, tramas prediletas. Chega a ponto de achar que conhece determinado autor.

– Eu acho, caras, que se pode criticar o autor x ou y, baseado no que se conhece da obra dele.

– Mas esta crítica nunca terá autoridade, a não ser que você tenha lido a obra inteira.

– Acho que não inteira, mas pelo menos uns 30%.

– Mas aí é que está: e se estes 30% não forem os mais representativos? Acho que embasar a crítica tem mais a ver com uma leitura coerente, e que se apoie em tudo o que você já leu, do que em se especializar no escritor tal, lendo tudo aquilo que o sujeito publicou.

Mas o suposto conhecimento do autor é uma armadilha – a não ser que seja um escritor medíocre, no sentido de escrever sempre aqueles livros médios e ser “fiel ao seu público”. Ele descobre um nicho e fica nele, garantindo sua fatia de mercado. Este sim pode ser conhecido, porque nunca sairá da sua zona de conforto – o que, aliás, é uma boa definição para mediocridade.

Os escritores mais capacitados não podem ser conhecidos, a não ser postumamente, pelo estudo de sua obra inteira. É o caso de gigantes da nossa literatura, como Machado de Assis, que depois, ao ter sua obra organizada, se constatou que passou por várias “fases” de escrita.

 Bom, vamos retomar a leitura..  A chave é esta: vaidade. Você é vaidoso, Ricardo. (…) Vou utilizar o Livro de Eclesiastes como citação. Vaidade das Vaidades, tudo é Vaidade.(…) Tá fácil de te pegar, Ricardo. Pág 66: “…retomar O céu dos suicidas. No dia seguinte, mandaria finalmente meu conto para concorrer a um lugar na revista Granta…” Vai dizer que não é você, Ricardo?

Sobre um divórcio esfolador

O livro tem o seguinte enredo: o personagem, Ricardo Lísias, escritor e professor, está casado há quatro meses, quando acha o diário que a sua mulher, jornalista, escreve às escondidas. O tal diário tem partes como estas: “O Ricardo é patético, qualquer criança teria vergonha de ter um pai desse. Casei com um homem que não viveu”; “Em Cannes, eu pude confirmar a mulher que sou. As carícias do (cineasta)[x] me desabrocharam”.

A traição é elevada a requintes de crueldade, segundo o narrador, porque o diário foi deixado num lugar de fácil acesso (criado-mudo dela, onde ficavam boletos de contas para pagar), o que presume intenção de ser encontrado ou despreocupação com esta possibilidade; porque o ridiculariza implacavelmente, e porque comprova pelo menos uma traição dela com um cineasta, que participava do Festival de Cannes, que ela cobria.

A metáfora recorrente para explicitar a dor e a fragilidade do personagem é esta: um corpo em carne viva. Ricardo relata que ficou sem pele. Não apenas nu, o que já seria vergonhoso e dolorido, mas sem pele alguma. Hipersensível, e vulnerável a qualquer mínimo contato ou sopro.

Segundo o site do hospital Albert Einstein, veja abaixo o potencial estressante de algumas situações, sendo 100 o maior possível (a fonte citada é The Social Readjustment Rating Scale, dos psiquiatras Thomas H. Holmes e Richard H. Rahe, ambos da Universidade de Washington, nos Estados Unidos):

morte do cônjuge  100
divórcio  73
prisão  63
morte de um parente querido  63
casamento  50
demissão do trabalho  47
aposentadoria  45
reconciliação conjugal  45
gravidez  40
grandes conquistas pessoais  28
problemas com o chefe  23
férias  13

Ou seja, a dor, considerando as particularidades da relação, a personalidade da mulher, a fragilidade do personagem e as circunstâncias traumáticas da descoberta, está bem descrita. Na escala, é o 2º evento mais estressante, e foi descoberto de forma bem ruim – resultado: deixou-o como morto (ele promete a si mesmo: “só morro mais uma vez”).

O processo de procurar o chão novamente, de recuperar a pele, utilizando para isso treinos de corrida, e a confusão que acontece em todo o processo é o que dará o tom a doze dos treze capítulos (batizados como os quilômetros de uma maratona). O último capítulo é uma discussão sobre a suposta gênese do romance, sobre escolhas feitas na hora de editar e revisar o livro, e o gesto final à ex-mulher.

Eu imaginei que ia achar, está bem aqui, pág. 103: “Os amigos da minha ex-mulher perceberam logo que eu era vaidoso e souberam me bajular”. Bom, vou ter que mencionar na resenha que você mesmo reconheceu sua vaidade. Acho que é um ponto positivo.  (…)Olha aqui, de novo, ainda melhor,  pág. 210: “Fiquei envaidecido. Eu era muito metido. Agora, depois de uma pancada em forma de diário kitsch, sei que não sou nada de mais.Minha vaidade era tão grande que precisei perder toda a pele para me livrar dela”. Mas será que se livrou mesmo?

O livro expõe as situações e seus personagens sem pudores. A memória do protagonista passeia, e ele vai “costurando” as lembranças em busca de entendimento. Neste processo, aparecem passagens com a ex-mulher, outras passagens anteriores ao casamento, cenas de sexo, indícios de comportamentos estranhos de ambos, e discussões com colegas dela. Depois do ocorrido, descontrole de praticamente todos, do ex-casal aos tais colegas, na maioria, também jornalistas.

Outra característica que aparece durante a leitura é o processo de “retomada de raciocínio” – as narrativas no início se sobrepõem, travadas, sem identificação temporal, numa confusão à altura do trauma. Gradualmente, começam a ser clareadas.

Ainda assim, por conta da linha borrada que faz confundir (propositalmente) o autor com o personagem, é uma leitura difícil. Ele cita “o medo de estar vivendo dentro de um de seus contos” e marca em determinado momento, com maiúsculas: “ACONTECEU NÃO É FICÇÃO”.

   Terminei a leitura. Tá, vou falar da vaidade e que mais? Porra, porque fui dizer que ia resenhar este livro? Nem sei se o entendi direito. Também nem sei se gostei ou não. Acho que sim. O cara escreve bem, vai.

Obras iconoclastas

O livro aproveita para criticar a vaidade, a superficialidade e a frieza de pessoas “carreiristas”, que querem subir na vida a qualquer custo – a mulher é assim descrita. Por extensão, critica, mas não de forma generalizada, os desmandos dos maus jornalistas, que podem difamar, insinuar e manipular as notícias em desfavor de quem queiram.

As posições são fortes e embasadas, apesar de maniqueístas. Recordando a pessoa do personagem e a situação vivida, não haveria como não se vitimizar, nem como não vilanizar a algoz (que poderia ser bancária ou advogada): a ex-mulher, retratada como fria, egocêntrica e imoral. Tudo bem que a metáfora da dor sentida, constantemente repetida, já comove o leitor e o seduz – pois quem não teria compaixão de alguém sem pele? – e, por conseguinte, deixa a ex-mulher em maus lençóis. Mas o que ela vai revelando de si é suficiente para se complicar. Claro que ela o faz por intermédio do autor, Ricardo Lísias, que tudo indica ser bastante próximo do personagem, Ricardo Lísias. Mas não sejamos injustos com eles.

Num rápido exame de consciência, e puxando pela memória situações traumáticas vividas que tenham como cerne algum relacionamento, é fácil perceber que este caminho é natural – nós, conhecedores que somos de todas nossas motivações e claras justificativas, somos as vítimas, enquanto o outro é o algoz, porque não nos entende. Então, a vitimização do Ricardo Lísias esfolado não é um demérito do livro, ao contrário, lhe empresta maior veracidade. Sua dor é a protagonista e a narradora.

Criticar os carreiristas é outro ponto contra o qual é difícil discordar. Seja porque o ideal de trabalho hoje – seja competitivo, trabalhe mais, supere seu colega, ganhe mais, leve vantagem, mostre serviço, dispense os excedentes, ponha os subalternos no lugar deles etc etc, é diametralmente oposto a uma vida minimamente significativa e com valores, seja porque há péssimos exemplos em todas as profissões – é um bom serviço prestado o livro discutir por que pessoas com algum poder se sentem tão superiores (a mídia é um enorme poder, o 4º poder), e porque a ambição de subir na carreira a qualquer custo pode manchar reputações, estragar amizades e relacionamentos e contaminar o caráter das pessoas.

Na verdade, discussões sérias e profundas são recorrentes ao autor: em O Céu dos Suicidas, ele batia nas tradições religiosas, aquelas que condenam para além de qualquer solução um suicida, e que falham fragorosamente em consolar os que ficam. Há que se convir que as religiões, como um todo, falham muitas vezes, quando, engessadas por suas tradições e dogmas, são incapazes de tentar entender os defeitos e desesperos humanos, que levam a gestos extremos.

Ou seja, é uma obra iconoclasta, na medida em que agride as tradições e convenções, e mostra suas fraquezas e vícios. Possivelmente, esta é uma chave de leitura para ler Ricardo Lísias: se preparar para polêmicas. Suas obras tendem a não ficar só na superfície, boiando inofensivas. Elas instigam e apontam o dedo para as feridas.

Só que aquilo que o autor Ricardo Lísias dá a conhecer de si, é exatamente assim também: agressor daquilo que discorda, como o conformismo, as tradições caducas e os comportamentos corporativistas e/ou predatórios. E isso confunde mais ainda a cabeça dos pobres resenhistas e críticos, a separar os Ricardos.

A crítica menciona autoficção, e Ricardo discorda. Quer dizer, é autoficção, porque eu comprovei que ele fala do Ricardo Lísias escritor, não comprovei? O mesmo cara que escreveu para piauí, que corre e  que tudo indica que se divorciou… Ah, não vou ficar caçando nome da ex-mulher jornalista, isso pode ser inventado. Como todo o resto…  E aí, já não é autoficção… (Suspiro). Mas foi ele que escreveu Céu dos Suicidas, ele fala de si próprio. Mas em qual medida?

A arte que choca demora a ser reconhecida

Geralmente, os hábitos adquiridos como leitor facilitam novas leituras. Como já dito, leitores contumazes comparam tudo o que leem com tudo o que já leram, e tendem a perceber nuances de estilo e referências. Como todo o gosto que é depurado pelo prazer que te dá, você vai subindo as exigências, ficando mais crítico e teoricamente, tendo maior autoridade para dizer do que gosta ou não, e porquê.

Só que, para ler Ricardo Lísias, estes hábitos chegam quase a dificultar. Você vai lendo e, dependendo do enfoque, vai se agradando com o que lê ou não. Se a leitura enfatiza o apuro literário, o estilo limpo, o humor involuntário e a acidez, você gosta bastante. Se você achar que é autoficção, se se obcecar em procurar as referências de eventos reais acontecidos, pode não gostar. Se entender que este jogo todo é uma desconstrução dos moldes normais da literatura e do romance, pode voltar a gostar, ainda que já esteja meio cansado. Este é o preço do pioneirismo que leva a autorreferência a um novo patamar.

Não poucas críticas atingem o autor, o que acaba desviando o enfoque do mérito literário de seus últimos livros. Uma análise precipitada de sua obra provavelmente destacará alguma controvérsia ligada a tal autoficção ou termo semelhante, discutindo suas intenções e referências autobiográficas. Mesmo uma análise que destacasse a predominância das narrativas em 1ª pessoa entre os “novos” autores e o que há de confessional nelas, tenderá a deixar o mérito de suas obras em segundo plano.

Ao me dar conta disso, durante a produção desta resenha, deixei de lado a abordagem que pretendia – fazer um apanhado da vaidade dos novos autores e suas narrativas confessionais em 1ª pessoa, cujo ápice seria os últimos livros de Ricardo Lísias, tornado personagem de mesmo nome e sobrenome de suas tramas, para então traçar um paralelo com um mundo que prioriza o individual e vai se ensimesmando cada vez, mas que também facilita a publicação de opiniões, blogs e resenhas, e cria algum espaço para todos que queiram se tornar um pouco escritores, ainda que quase todo o grosso desta produção seja vaidade e superficialidades.

Mas se a obra de Lísias até aqui não pode ser chamada de alguma coisa é justamente de superficial. Ela choca e inquieta, e este é um dos principais atributos que a arte pode ter.

 O avesso do avesso do avesso

Chegando a alguma conclusão sobre a obra do escritor mindfucker.

Chegando a alguma conclusão sobre a obra do escritor mindfucker.

Eu, como bom leigo de arte que sou, a reconheço segundo os padrões do senso comum. Ao ver o realismo de um quadro de Caravaggio, digamos, exposto no lugar adequado – um museu – o reconheceria facilmente como arte. Se visse o mesmo quadro fora do museu, ainda o reconheceria como arte, pelos seus pressupostos e pelo fácil encaixe no modelo estereotipado.

Já no caso de obras de arte iconoclastas e rompedoras de convenções, como o vaso sanitário de Marcel Duchamp ou o tubarão de Damien Hirst, que dependem de um contexto para serem entendidas como arte, não são facilmente reconhecidas como tal, e têm justamente nisto um de seus méritos. Afinal, um vaso sanitário fora de um banheiro e de um museu provavelmente é só sobra de alguma reforma, e um tubarão conservado talvez seja só para estudos de especialistas. Quebrar estas convenções é a sacada.

Divórcio, o último romance de Ricardo Lísias, vem no meio adequado: publicado em forma de livro exposto em livrarias e assinado por um escritor muito bom, com amplo domínio da escrita e de suas ferramentas, e que vai demarcando seu espaço. E, ainda assim, é uma obra que rompe paradigmas. Poderia ser apenas mais um livro sobre o tema, correto e bem escrito, com notas autobiográficas mais ou menos difusas, mas foi bem mais ousado que isso, e é um rompedor. Tem alguns defeitos, abusa da metalinguagem, começa meio confuso, com alguns discursos indefinidos no tempo e de identificação complicada na realidade da trama, mas vai engrenando, clareando, da mesma forma que o personagem começa a retomar o controle quando limpa seu “cafofo” e quando percebe que seu corpo sem pele, quando cansado pela caminhada, o permite dormir por algumas horas, e por isso, se põe a treinar para a corrida de São Silvestre.

O último capítulo antecipa críticas possíveis e entra no mérito das próprias escolhas feitas na escrita do livro. Daí que clareza ou padronização nunca foram preocupações, na gênese desta obra. Ao contrário, esta confusão é parte indissociável dela. Justamente como um divórcio: traumático, confuso, triste – o que só a torna mais real e lhe confere personalidade.

Além disso, borrar todas as linhas divisórias entre romance e autoficção também funciona como um recurso cíclico, como dois espelhos colocados de frente um ao outro, que espelham a imagem da imagem da imagem… da imagem ”n” refletida. Não são a ficção e a realidade imagens espelhadas?

Ou como o poema famoso de Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”, poderia vir uma paráfrase, que dissesse que o romancista ousa, ousa tão descaradamente, que finge que é ele a experimentar, aquilo que pode ter passado.

Estranho, não? Mas se você ler, vai entender.

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Por Rodrigo Casarin

A tentação de escrever um texto sobre O céu dos suicidas traçando um paralelo entra o Ricardo Lísias, o autor da obra, com outros escritores que se relacionaram de alguma forma com o suicídio é grande. Contudo, há quem já tenha escrito colocando-o ao lado de Enrique Vila-Matas, do bom Suicídios exemplares, ou mostrando como o tema remete a David Foster Wallace, um nome cada vez mais querido pela crítica e que optou por acabar com sua própria vida. São boas abordagens, mas que se aproximam basicamente pela temática.

Penso que uma maneira de ler O céu dos suicidas é procurando entendê-lo dentro da própria obra de Ricardo Lísias e de suas referências (ou auto-referências, como veremos mais adiante). Mas vamos primeiro ao livro.

A história inicia com Ricardo Lísias (o protagonista homônimo do escritor) deixando de ser um colecionador para se tornar um especialista em coleções. É o ser não sendo, o afastamento necessário que devemos ter de um assunto para que possamos tratá-lo com a devida imparcialidade – o que nem sempre acontecerá ao longo da trama.

Aos poucos, a história deixa de falar da vida do protagonista como colecionador e especialista para imergi-lo em duas grandes buscas: a principal é saber o porquê do suicídio de André, amigo de Ricardo; a secundária, que funciona bem para o desenrolar dos fatos, é descobrir qual era a relação do avô de Ricardo com o Oriente Médio, mais precisamente o Líbano, ao longo da década de 1970.

Como já é de se esperar de uma obra que trata do suicídio, uma certa melancolia permeia cada página de O céu dos suicidas. As reflexões sobre a culpa de quem fica vão sendo aos poucos abordadas. O que poderia ter sido feito para que o suicídio fosse evitado? Qual a parcela de culpa de cada um para que a tragédia acontecesse? Onde o amigo estará agora? Ricardo acaba se tornando um colecionador de hipóteses e dados e acontecimentos da vida de André – e apenas os mais importantes merecem destaque, como em qualquer coleção que se preze –, como se isso pudesse manter o amigo vivo, como se com isso continuasse vivendo com o amigo.

Os detalhes do suicídio de André aparecem aos poucos, deixando a impressão que Ricardo não quer encará-los de uma vez. Contudo, em certo ponto da narrativa, o narrador parece tomar coragem e falar definitivamente sobre o que aconteceu, explicitando os pormenores da tragédia. Em contrapartida, conforme a história é contada, Ricardo vai se dando conta da dimensão da persa e a cada capítulo aparenta sentir mais falta do amigo.

Já a busca dos motivos pelos quais o avô trocava cartas com alguém do Líbano acabam por levar o protagonista a uma viagem – aparentemente precipitada; fracassada, com certeza – até o país do Oriente Médio, o que nos remete a outras obras de Lísias, onde o contato com o estrangeiro também é elemento marcante.

Em O livro dos mandarins, Paulo passa pela Inglaterra e imerge na China – chega até a aprender o idioma chinês. Em “Tólia”, conto de Lísias publicado na Granta – Os melhores jovens escritores brasileiros, o personagem principal, que também chama Ricardo, vai parar na Rússia e aprende o russo, outro idioma bastante estranho para nós brasileiros, com uma origem linguistica diferente do português. Em “Concentração”, conto publicado na Granta – Longe daqui, uma edição destinada às narrativas de viagem, Damião, o protagonista, viaja para e na cultura Argentina, muito mais próxima da nossa realidade. Como outros escritores de sua geração, Ricardo é um autor que não confina a ambientação de suas histórias nos limites geográficos do país onde vive. Mas há mais características de O céu dos suicidas que aproximam o livro de outras obras do mesmo autor.

Elementos autobiográficos e o narrador

Elementos autobiográficos permeiam O Céu dos Suicidas. O indicativo mais óbvio disso é o nome do protagonista: Ricardo Lísias, ainda que o autor deixe claro que o personagem principal não é ele. Ricardo – o escritor – recentemente também perdeu um amigo que se suicidou, diz que também passou por uma fase psicologicamente e emocionalmente bastante conturbada após o ocorrido (e quem há de duvidar?), também estudou em Campinas… Há momentos em que as reações do protagonista parecem ser as do próprio autor, como a surpresa com a educação de um policial ou quando o personagem relata que “As melhores coleções sobre material político que observei até hoje comprovam que José Sarney e Fernando Collor combinavam com o papel que lhes coube no picadeiro que foi a presidência do Brasil após a ditadura. Eu me envergonho de sentir saudades daquele tempo”. O posicionamento político de Ricardo escritor refletido no Ricardo personagem é evidente.

Em “Tólia”, como já vimos, o protagonista do conto também se chama Ricardo e os elementos autobiográficos voltam a abundar: a formação acadêmica, a relação com a literatura, os livros que escreveu… Pode ser apenas uma fase, mas, nesses dois exemplos – os seus trabalhos mais recentes se considerarmos apenas as publicações em livros – a ficção de Lísias parece tomar um rumo fortemente baseado em experiências de vida do próprio autor, como também acontece em Meus três Marcelos, conto de 2011 com um protagonista que dá aulas sobre literatura, como Lísias.

Toques da biografia de um escritor estão presentes, em menor ou maior escala, em praticamente qualquer obra de ficção, contudo, ao menos nesses trabalhos citados, Lísias parece criar uma nova história em cima de sua própria história, não utilizar elementos de suas vivências para dar um tom mais realístico ou falar com mais propriedade de algo que ocorre no plano ficcional. É a ficção invadindo a realidade, não o contrário.

E o protagonista de O céu dos suicidas não é útil apenas para que haja uma discussão da interferência da biografia do criador em sua criação. Ricardo Lísias personagem também é uma ótima oportunidade para que retomemos a sempre atual discussão de até onde podemos confiar no narrador de uma história.

Ricardo Lísias personagem é alguém que passa por surtos repentinos que beiram a inverossimilhança. Em meio a uma conversa, pode mandar alguém tomar no cu ou se foder de uma hora para a outra, apenas porque o interlocutor diz algo que não lhe agrada ou que não vai de encontro às suas expectativas. Além disso, o protagonista – também narrador – não é dos mais confiáveis. “Não me recordo como saí do apartamento da desgraça. Desde que meu grande amigo se matou, tenho problemas de memória. De repente, na lembrança que consigo recuperar, vejo-me na rua de novo”, revela. Ora, se temos aí um ser que passa por surtos – mostrando um distúrbio ou, ao menos, um indiscutível momento de forte perturbação psicológica – aliado a uma memória falha, como podemos acreditar nas palavras que ele diz?

Em outro momento de forte carga emocional, novo exemplo. Ricardo fecha um capítulo com um lapidar: “Não vou conseguir terminar este capítulo”, mostrando que está completamente envolvido com a história – envolvido a ponto de ser influenciado por ela, de ser até refém dela, mostrando que não possui um distanciamento necessário para encará-la como isenção, tal qual um especialista em coleções que não se afasta de suas próprias coleções. Esse é um dos grandes trunfos do livro, deixar para que o leitor decida se acredita ou não em tudo aquilo que vem sendo dito. Alguns acontecimentos são irrefutáveis – não há como negar o suicídio, por exemplo – mas outros são questionáveis – em alguns momentos, será que tamanha falta de educação e respeito realmente aconteceram daquela maneira?

Linguagem e beleza

Em O livro dos mandarins, romance publicado em 2009, Ricardo Lísias utiliza a linguagem com radicalismo. São comuns as excessivas repetições de frases e ideias em parágrafos próximos ou até em um mesmo parágrafo. Já em O céu dos suicidas, o recurso é usado com muito mais parcimônia, como no seguinte trecho: “Nesse mesmo dia, recebi uma ligação. Ricardo, o André se enforcou. Ricardo, a polícia achou o corpo do André enforcado. Já faz alguns dias. Ricardo, o seu amigo. Ricardo, você, Ricardo, o André, Ricardo. Enforcado, Ricardo. O André se enforcou, Ricardo”, fazendo com que as repetições e as frases incompletas deixem a impressão de que estamos vivendo a confusão mental que acontece na cabeça de Ricardo ao receber a notícia do suicídio do amigo.

Por outro lado, em O céu dos suicidas um toque de radicalismo está no formato dos capítulos, sempre curtos, ocupando não mais de uma página e meia, como se tudo acontecesse em flashs. O resultado da comparação mostra um escritor mais maduro, mais feliz nas experimentações, que consegue atingir uma estética muito mais bela com a linguagem e os recursos utilizados.

E por falar em beleza, os momentos mais belos de O céu dos suicidas são aqueles em que Ricardo busca saber para onde a alma de André poderá ter ido.

As religiões são implacáveis com os suicidas, praticamente todas elas os condenam veementemente. Nos templos, igrejas, sinagogas ou qualquer outra espécie de casa de Deus, não há consolo, afago, clemência e nem piedade com aqueles que optam por tirar suas próprias vidas. Nem com estes e nem com os que ficam. A dor e, principalmente, a raiva do protagonista após cada acolhimento frustrado são latentes. Ao procurar o psiquiatra, que também em nada lhe ajuda, o narrador se abre “Um dos nossos amigos, um cara muito espiritual, acho que a palavra é essa, espiritual, disse que em todas as religiões, ou praticamente em todas, os suicidas sofrem muito e na maior parte das vezes não vão para o céu”.

Em uma das buscas por alguma palavra que lhe conforte, Ricardo acaba sendo – não sem motivo – espancado por um grupo de espíritas. A surra é tamanha que vai parar no hospital e, após receber os primeiros tratamentos, é de um médico que ouve o consolo que tanto procurava. Em cenas breves e diálogos sucintos, mas belos, o doutor lhe ensina a rezar para acalmar a angustia, conversa com Ricardo sobre Deus, diz o que o personagem tanto procurou ouvir: “Seu amigo foi direto para o céu, sem nenhum sofrimento”.

Na obra, Médico é escrito assim, com m maiúsculo, da mesma maneira que se convencionou escrever Deus. Com esse recurso, de certa forma Lísias coloca o doutor no mesmo patamar do Todo-Poderoso, mas não por acaso. É de uma ironia, sensibilidade e beleza imensa o personagem, após ouvir palavras que muito lhe doíam dos religiosos, encontrar o afago nos dizeres de um médico, um dos profissionais mais ligados à ciência e que levam a fama de se sentirem mesmo deuses, mas pelas intervenções que podem fazer no ser humano, por poderem salvar vidas com atos físicos, não com palavras. Palavras essas que encaminham Ricardo de volta a uma vida um pouco mais nos eixos.

Esse último aspecto de O céu dos suicidas, o Médico fazendo aquilo que Deus não conseguiu fazer por causa de seus representantes na Terra, é um daqueles momentos que tocam profundamente o leitor mais atento e que está realmente envolvido com a obra. É um daqueles momentos que nos fazem entender porque a arte é essencial para a vida.

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Ricardo Lísias já foi entrevistado aqui no Canto dos Livros, confira clicando aqui.

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Por Alberto Nannini

“Se não fosse a possibilidade do suicídio, eu já teria me matado.”,                                                                                E.M. Cioran

Passava um comercial assim: uma praia, em um dia nublado; ao fundo, uma música linda e triste. Uma mulher de vestido anda. Ela vai entrando no mar revolto, entrando, entrando… até desaparecer. Era do CVV, Centro de Valorização da Vida. Talvez conheça, trata-se de um serviço por telefone, feito por voluntários, que está 24 horas por dia disponível para receber ligações de qualquer pessoa, que queira dizer qualquer coisa. Nasceu como uma medida para prevenção do suicídio, e ajuda também as vítimas de depressão, traumas, ou apenas quem queira desabafar um pouco.

Para ser voluntário do CVV, havia um treinamento rigoroso, de oito finais de semana, que acabava funcionando como uma “peneira”. Mas os persistentes enfrentavam seu primeiro plantão semanal já bastante preparados: simulações de atendimento eram feitas, e havia um trabalho incessante para despir os novatos de preconceitos. Ante a diversidade incrível de voluntários, que vinham de todas as classes sociais, havia muitos profissionais – como psicólogos e médicos – que davam embasamento às teorias ensinadas sobre os potenciais suicidas – gente comum, cuja dor e sofrimento os comprime a um beco sem saída, do qual a única escapatória parece ser a mais definitiva delas.

Aprendi ali, dentre outras coisas valiosíssimas, a não subestimar nem pré-julgar alguém que tentou ou consumou o suicídio. Cada um sabe a dor que sente. O sofrimento insuportável do suicida termina ali, da pior forma. Mas o dos seus conhecidos, amigos e familiares, está apenas começando. Virá avassalador, na forma das saudades, das perguntas que ficarão eternamente sem resposta, e, não raro, de doses cavalares de culpa.

No excepcional livro O Céu dos Suicidas, Ricardo Lísias fala com propriedade sobre isso.

Tal qual alguns outros autores contemporâneos, como Marcelo Mirisola e Alex Antunes, Ricardo vai escrevendo “instantâneos” do seu cotidiano, nesse estilo que borra a linha entre romance e autobiografia, e vai reconstruindo, em capítulos de página e meia, as memórias dos dias próximos ao suicídio de seu grande amigo, André.

Esta escolha estilística poderia ser um problema. Os mais puristas chiariam , dizendo que os novos romances andam com cara de diários, ou de blogs, e que seria perfeitamente possível  criar um personagem para servir de alter-ego. Outros se queixariam ante a indefinição do que é “real” e do que foi romanceado.

Felizmente, não sou um purista.

É verdade que mesmo com um narrador em primeira pessoa e utilizando seu próprio nome, não se poderia assegurar a princípio que a obra não é total ou parcialmente de ficção.   Porém, há muito os leitores não estão mais restritos apenas ao livro: há a internet, e há as diversas outras publicações, como artigos, resenhas e afins. Por isso, um leitor mais detalhista lembrará de outros textos do autor com este mesmo tom e tema (como a nossa entrevista) que revelam a realidade desta experiência.

De qualquer forma, ante a qualidade da escrita de Lísias, esta discussão vira algo menor. Fosse o Ricardo do livro “apenas” um personagem, ou que haja nele um determinado tanto de ficção, suas experiências não se tornam por isso menos tocantes e verossímeis. A leitura te envolve de maneira quase suave, falando sobre coleções, até se perceber logo que tudo ali grita e dói. Tudo o que foi largado dói, a saudade dói, a impotência dói, a irreversibilidade dói.

A construção da narrativa é brilhante: vai descendo em espiral, afundando aos poucos, entre as memórias e reconstruções cada vez mais doloridas, antes, durante e depois do episódio do suicídio. Uma vez que tudo está sendo relembrado e já foi vivido, pequenos gestos, pequenas palavras ditas ou não-ditas assumem um significado enorme. Tudo fica desmedido.

Além disso, não há (ou não se percebe) uma intenção planejada, seguindo um “roteiro”. Este é um mérito deste tipo de escrita. É como se o autor nos disponibilizasse os seus recortes, iguais àquele diário das experiências que cada um de nós vai tecendo em sua cabeça, dia após dia, e que nem sempre contamos aos outros. Conforme lidas, as sensações, as lembranças, as reações relatadas vão trazendo à nossa frente o Ricardo, frágil e contrito, e é impossível ficar alheio ao seu drama.

Ante esta leitura, parece que o estilo de escrita sequer foi uma escolha: foi uma imposição. Tinha que ter sido escrito desta forma. Faz sentido. Há dores pessoais demais para serem  romanceadas.

Arrisco dizer também que somente após um certo distanciamento foi possível colocar tudo no papel, dar-lhe coesão, porque o próprio Ricardo menciona dificuldade de concluir alguns capítulos, e também reconhece seu comportamento reativo – aquilo que ele fazia sem controle e mal se dando conta – na voz das pessoas que, com muita paciência e amor, lhe servem de bóia. Por exemplo, no capítulo em que sua mãe o socorre e o situa, naquele tom incontestável que só as mães conseguem, é impressionante como ele deu mais a conhecer dela do que se a descrevesse por páginas e páginas.

Este e os outros fragmentos de memória do Ricardo-autor-personagem-narrador vão descrevendo a espiral de frustração, culpa e solidão que ele vai descendo, e podem ser creditados como extremamente fidedignos, principalmente porque ele não se poupa em nenhum momento.

Aliás, para extravasar tamanha dor, o que ele menos fez foi poupar. Sobra para todo mundo, e aqueles risos tristes que o livro vai te arrancar será quando ele terá que enfrentar alguns desdobramentos bastante singulares (e literalmente doloridos) dos seus próprios gritos e ações.

Mas acredito que a sensação que vai perdurar mais será aquela de bolo na garganta – algo que você tenta engolir, mas parece que não está cabendo. E, dependendo da proximidade que você tenha com o tema, é bem possível que as lágrimas surjam.

Como se tudo isso não bastasse, fiquei particularmente sensibilizado com as descrições de epifania que Ricardo viveu, na busca de explicação junto às religiões. Há alguns ditos que tem o poder e o efeito de uma oração – seja pela súplica, seja pela raiva que contém, e a quem se dirigem. Momentos belíssimos são relatados, e não pude deixar de constatar – e lamentar – que, num dia comum, se fosse testemunha de qualquer um deles, provavelmente continuaria andando, e imaginaria alguma espécie de loucura. Se um amigo me relatasse as experiências que ele relatou, eu buscaria como resposta alguma bobagem ouvida como stress pós-traumático, ou surto. Tal e qual já fizeram comigo. Isso prova uma coisa: eu, que já vivi epifanias muito parecidas, e que já fiz perguntas semelhantes, aprendi direitinho, e agora estou “curado”.

Estou normal.

Que bom.

Enfim.

Os livros que nos marcam de tal forma que não os resumimos a alguns parágrafos ou a apenas uma vaga lembrança, são poucos. Os que mostram e/ou confirmam verdades profundas, e nos emocionam de verdade, levando a sensações extremas, são ainda mais raros. Pois, para mim, O Céu dos Suicidas está neste rol. Sua escrita pungente me emocionou, me fez pensar, me tornou solidário à dor do autor e com o muito de dor que há por aí. Fez também que eu me tornasse mais convicto de algumas posições – dentre elas, a que me faz achar o título da obra perfeito e verdadeiro. Necessário até.

Eu escrevi que há ditos com efeito de oração no livro (apesar de Ricardo, em determinado momento, ser ensinado a rezar),  mas agora me dei conta: o livro é inteiro uma oração.

Por tudo isso, mas não só por tudo isso, indico: leia correndo!!! Ou melhor, compre-o correndo, e leia sem pressa, se puder – creio que haja poucas ofertas tão atrativas e compensadoras quanto esta nas livrarias.

E, por último, gostaria de ligar esta resenha e indicação ao texto de David Foster Wallace. Não por haver o suicídio em comum aos dois, mas por ambos falarem, com tanta precisão e beleza, da vida e suas dores e alegrias. De liberdade e difíceis escolhas. E por soarem como orações, de urgência e de amor.

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Confira aqui a entrevista que fizemos com o autor.

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