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Posts Tagged ‘O Jogo – a Bíblia da Sedução’

Por Alberto Nannini

O Antiamericano Americano

Recentemente, eu e o Igor falamos sobre a hipótese da organização do mundo e da sociedade como a conhecemos ruir (aqui e aqui). Não é algo que se pense ou escreva com frequência, a não ser que você seja meio paranóico ou se chame Neil STRAUSS, e tenha escrito “EMERGÊNCIA – Este Livro Vai Salvar sua Vida”, 396 pags, publicado pela editora Best Seller.

Crítico musical da prestigiada revista Rolling Stone, autor de um livro de enorme sucesso  – “O JOGO – A Bíblia da Sedução” – era como todo americano médio: vivia num “mundo à parte do mundo”, gozando da prosperidade do seu país, confiante no “sistema”, alienado de todo o restante e se sentindo inatingível, ao ponto de, jocosamente, colecionar em suas viagens souvenires com temática anti-americana, como camisetas e postais.

Mas então, sobreveio a data fatídica: 11.09.01, e a sensação de segurança do americano médio desabou, em meio a milhares de toneladas de vidro, metal e fogo, junto com as torres gêmeas.

De repente, STRAUSS não era mais tão jocoso em relação ao anti-americanismo. Mais que isso, ele se deu conta de que eles eram odiados de forma quase unânime, e reeleger o G.W. Bush não foi exatamente uma ajuda… Veja o que ele diz a respeito:

“Depois da eleição de 2004, porém, foi tudo diferente. Desta vez, Bush foi eleito de fato. E a mensagem enviada a todos os outros países do mundo era a de que o povo americano aprovava suas ações. Assim, Bush já não era o estúpido aos olhos do mundo, mas sim, nós.”    

Como tudo o que está ruim sempre pode piorar, em agosto de 2005, o furacão Katrina arrasou a cidade de Nova Orleans, e, para espanto geral, o governo da nação mais avançada do planeta demorou a eternidade de 5 dias para reagir de maneira apropriada, sob a alegação de que “não estavam preparados para uma tragédia destas dimensões.” Esta foi a gota d’água, literalmente, para o autor, que resolveu “pular do barco”: ele seria um sobrevivente, a qualquer custo.

A partir daí, o livro vira uma verdadeira saga, até ele se metamorfosear de um sedentário urbano para um especialista em sobrevivência. Ele vai contando o que aprendeu e como aprendeu, desde improvisar uma faca com um cartão de crédito a se descontaminar no caso de um ataque com uma “bomba-suja”, do tipo que usa materiais radiativos. Sobra espaço até para uma redenção, lá pelo fim do livro, como toda boa história.

Isso tudo é bem legal de se ler, especialmente se gostar de assistir a programas como “Survivor” e “A Prova de Tudo” (você chegará inevitavelmente a esta conclusão: Bear Grills é uma mocinha!). Legal, mas não valeria a resenha, nem a indicação.

O que há no livro que vale tanto a resenha como a indicação, na minha opinião, foi algumas  reflexões que o pioneirismo da visão do autor te leva a fazer. Primeiro, porque é um americano tentando a todo custo conseguir uma dupla cidadania, porque quer sair dos Estados Unidos. Aventa até mesmo a possibilidade de engravidar uma brasileira, já que nossas leis, segundo ele conta, a concedem automaticamente a um estrangeiro que o faça. Mas no fim, para sorte ou azar de nossas incautas moçoilas, o autor dirige suas forças para São Cristóvão e Névis… Não, não o time de futebol do Rio de Janeiro… Você sabe, aquele país lá, que “vende” dupla cidadania por meio de algumas brechas… e do qual eu nunca tinha ouvido falar até então.

O que importa é sair da “América” – e o próprio autor percebe a ironia, em determinado momento, ao ir a uma cerimônia de atribuição do green card, espécie de visto permanente a estrangeiros.

Isso traz uma voz bastante diferente à história, como uma crítica interna e pessoal a tudo aquilo que ele vê e vive todo os dias.

Mas ainda mais relevante – e impressionante – é a análise que ele e alguns amigos discutem, sobre o que poderia estar por vir. Veja só este trecho:

“– Todo mundo concorda que os terroristas odeiam os Estados Unidos e os norte-americanos, e que querem nos destruir, certo?

– É por isso que são chamados de terroristas.

– Mas, alguma vez, vocês já pararam pra pensar que talvez não seja este o plano deles? Osama Bin-Laden não é tão estúpido e ignorante como a maioria dos norte-americanos pensa. Talvez seu plano seja destruir nossa economia. Porque esta é a única maneira de acabar de fato com os Estados Unidos da forma como nós o conhecemos. E nosso governo entrou perfeitamente no plano dele, iniciando guerras que custam centenas de milhões de dólares e que não têm fim à vista.”

Viramos os maiores adivinhos DEPOIS de acontecer algo, do tipo: “Eu sabia o tempo todo!”, “Tava na cara que isso ia acontecer” e afins. É por isso que nos parece incrível que não tenha havido muito mais predições do colapso econômico que atinge proporções globais, que tem como “marco” o anúncio da quebra do banco Lehman Brothers, em 15.09.08, e cujos efeitos persistem até hoje. O copyright do livro registra o ano de 2009, poderia até ter dado tempo de escrever já ciente de tudo; mas a seqüência cronológica que relata a história do autor situa este diálogo algum tempo após a tragédia do Katrina. Ou seja, tudo leva a crer que o autor interpretou antes e de forma certeira os sinais no horizonte, e sua odisséia para estar pronto para isso foi conseqüência.

Agora, com toda autoridade profética de quem está vendo o fato acontecer, podemos dizer que a queda do maior império que já existiu parece iminente. Esta queda não deverá ser fragorosa, com a nação norte-americana varrida do planeta; está mais para um grande “encolhimento”. Lendo a respeito, vejo que os autores concordam que a sanha expansionista geralmente é o epitáfio de um império. Afinal, é muito mais difícil manter do que conquistar. Daí que a logística envolvida em guerras a milhares de quilômetros, com objetivos escusos, não poderia dar em outra coisa. Linda Bilmes, escritora e especialista em Políticas Públicas da Universidade de Harvard, estima o custo da chamadas “guerras contra o terror” em TRÊS TRILHÕES de dólares, ou cerca de 20% da dívida que está afundando a economia americana, como talvez fosse o desejo de Bin Laden.

Contudo, eu particularmente não assisto a esta derrocada de maneira jocosa. Acredito que a democracia é a menos pior das formas de governo inventadas até hoje; prezo a liberdade que este sistema traz, ainda que se possa discutir até quais limites ela chega; e reconheço o mérito de uma nação de história muito recente se erguer como um colosso.  Seus muitos pecados não me passam em branco, mas não vejo diferença entre eles e quaisquer outras nações, a nossa inclusive. Vejamos:

–         massacres dos índios nativos: eles, e nós também;

–         opressão aos mais fracos: eles, nós e todos os outros que são ou já foram fortes;

–         consumo irresponsável das reservas energéticas e destruição do meio ambiente: idem-ibidem.

Enfim, já tive a posição de ser um tanto antiamericano – mas sem abrir mão de conquistas reforçadas/melhoradas por eles, de consumir seus produtos, de gostar muito de alguns derivados da sua cultura – e cheguei a conclusão que esta minha posição era mais emocional do que fundamentada.

Hoje, se eu tivesse que me opor a um opressor, seria contra a própria noção de nacionalidade. Ela parece ser uma evolução natural às famílias, aos clãs e aos outros agrupamentos que foram surgindo, mas acaba dividindo e estigmatizando as pessoas, ao invés de reforçar o que temos em comum. Mas também confesso que não estou disposto a abrir mão de tudo o que batalhei para conseguir para que isso mude.

Enfim, o antiamericanismo puro e simples me parece um tanto parcial e até invejoso. Inacreditavelmente, com a súbita melhora de muitos de nossos índices econômicos, o Brasil passou de figurante sem-nome-de-costas-pra-tela a coadjuvante de 1ª linha no “palco” mundial, e não precisa mais ser por problema de “auto estima enquanto nação” – ou a velha “Síndrome-do-Patinho-Feio” – que se permaneça antiamericano. Neil STRAUSS lista motivos bem melhores, ainda que um tanto pessoais. Mas ainda acho que a maior parte do antiamericanismo que se vê por aí é apenas e somente moda.

Se você tiver ainda motivos mais fortes para ser antiamericano, podemos discutir a respeito. Acho que o próprio Neil Strauss também gostaria de participar de um debate assim, caso encontrasse tempo ou ainda precisasse de um filho brasileiro. De qualquer forma, devemos discutir logo, porque, em apenas algumas décadas, que é um piscar de olhos para a História, se estivérmos vivos, pode ser que eu te repreenda, dizendo que é feio chutar cachorro morto.

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