Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘O mito da doença mental’

Por Alberto Nannini

capa_a_casa_dos_naufragosCuba. A pequena ilha, emblemática resistência de um regime alternativo, está sempre nos noticiários, bem como seu governante, o ditador Fidel Castro, ultimamente afastado.

Li duas obras ligadas ao país: A casa dos náufragos, de Guillermo Rosales, e Cuba – minha revolução, de Inverna Lockpez e Dean Haspiel. Ambas são relatos de cubanos exilados, e são bastante politizadas, no sentido de passar impressões sobre o regime por gente que o viveu na pele.

Meu plano original era abordar algumas particularidades do regime castrista por um olhar leigo e desapaixonado, interpretando o discurso dos autores destas obras. Porém, tive que mudar a abordagem. A primeira obra era tão rica e suscitava tantos questionamentos e reflexões que seria um desperdício utilizá-la apenas para falar sobre Cuba.

Mergulhar na loucura

Comprei A casa dos náufragos sem qualquer indicação, e me surpreendi. Magnífico.

A orelha do livro diz:

Exilado em Miami, o escritor cubano William Figueras é internado pela família em um asilo destinado a inválidos e doentes mentais. Sofrendo de alucinações auditivas episódicas e comportamento paranoico não violento, o personagem está em posição privilegiada em relação aos outros pacientes. ‘Já te observei bastante’, diz o abjeto zelador da instituição, ‘e você não está louco’. O que a princípio poderia ser uma vantagem termina por aprofundar sua dor.

Capacitado a compreender o estado de miséria humana que o rodeia, desnutrido, perturbado e sem perspectivas, o escritor pressente a morte. Egresso de uma Cuba mergulhada na ideologia e na censura, ele se situa no presente como um náufrago que nem pertence ao território que habita nem sente falta do que abandonou.

A exemplo de sua ficção, Guillermo Rosales também deixou Havana e se mudou para Miami em 1979, onde permaneceu até a morte, em 1993. Membro do círculo intelectual cubano que se transferiu para os Estados Unidos, foi lido pela comunidade hispanófona de Miami, mas permaneceu desconhecido do grande público, já que A casa dos náufragos só foi traduzido para o inglês nos anos 2000.

Curto (apenas 122 páginas), mas poderoso. Uma história humana e pungente. Fica na memória, por seus muitos méritos. E faz pensar em muitas coisas.

Tons autobiográficos

Não é fácil separar personagens literários de autores, para não dizer impossível: a dimensão da literatura abarca, extrapola e reinventa os fatos, refletindo-os com uma lente difusa, mesmo quando a intenção é ter um tom autobiográfico. De qualquer forma, a polêmica sobre isto vai muito longe (a discussão sobre os livros de Ricardo Lísias abordam o tema com maestria; leia as resenhas aqui já publicadas, sobre o último romance, Divórcio, e sobre O céu dos Suicidas, aqui e aqui).

Mas algumas características do livro de Guillermo Rosales empurram para uma leitura de notas autobiográficas: segundo consta, o escritor tinha esquizofrenia, e frequentou diversas instituições psiquiátricas ao longo da vida.

Além disso, o protagonista do livro, William, conta de sua relação com o regime cubano e das leituras que fez ao longo da vida, também muito semelhantes à história do próprio autor: “’Este é meu fim’, declara ‘eu, que li Proust completo quando tinha quinze anos, Joyce, Miller, Sartre, Hemingway, Scott Fitzgerald, Albee, Ionesco, Beckett. Que vivi vinte anos numa revolução, sendo carrasco, testemunha, vítima’”.

De qualquer maneira, a força do livro prescinde completamente de que se determine o quanto há de autobiografia nele. A história comove e arrasta, no abismo de desalento que sempre acompanha a loucura, mesmo quando alguma esperança vã teima em acender.

Por isso, o título A casa dos náufragos é muito apropriado, e até a edição do livro e a capa dele – uma pequena casa amarela flutuando num fundo preto e azul escuro, que evoca a imensidão do mar – remete ao tipo de leitura que vai se mergulhar, sem nunca deixar de ser uma metáfora mais abrangente do exílio, da solidão e da crueldade.

imagem_loucoNaufragando…

A trama começa com Willian sendo levado pela tia à “boarding home”, espécie de abrigo para desvalidos, ou um hospício disfarçado. Lá, ele vai perceber como serão as coisas, e verá que a lei do mais forte é a regra única, e entenderá mais sobre a miséria – sua e a dos outros – do que jamais imaginou.

Com o tempo, o protagonista vai se acomodando à situação, e passa a entender o posto que ocupa. Ele percebe que a desesperança ali é a regra, inclusive para os opressores, como o zelador ladrão e abusador, ou o dono, que acolhe “hóspedes” de olho nos cheques de pagamento que recebe do governo para cuidá-los. Um mero negócio, vil como qualquer outro.

Um dia, o já razoavelmente adaptado Willian vê a chegada de uma nova “hóspede”, que concorda com tudo o que dizem. Ele e todos os outros “testam” a novata, de maneiras terríveis. Mas ele começa a dedicar maior atenção a ela, e se permite ter alguma esperança. E a convida para um plano – fugir do asilo e recomeçar a vida, os dois se lançando ao mundo. E de novo a fuga de Cuba se repete aqui, metaforicamente: se lançam, de forma precária, contra outra imensidão de mar escuro – o mundo desconhecido da “normalidade”, longe de surtos e medicações, sendo um a boia do outro. Uma fuga em múltiplos níveis: exilados fugindo duas vezes da exploração, da loucura e da desesperança.

Pode dar certo, eles não são mais loucos que a média que se via do lado de fora. Qual será o desfecho desta tentativa desesperada? Da derradeira chance, do último suspiro de sanidade e de normalidade para dois excluídos? Vale a pena ler e conferir.

Historicamente crível

A história é relativamente simples, mas não sei se seria possível escrevê-la sem algum conhecimento de causa. Cabe relembrar que o autor esteve internado diversas vezes. Tudo isso vai se insinuando, após a leitura, quando se considera o quanto há de Guillermo em Willian.

Voltando à ficção, outro componente interessante na trajetória do protagonista é o quanto ele se mimetiza aos loucos, tornando-se tão brutal quanto for necessário. Presumo que este fato, num caso real, seja uma imposição, e não uma escolha.

Então, supondo que haja um determinado tanto de autobiografia: poucos discordariam que estas partes – as desabonadoras – são as historicamente mais críveis, porque todos “editam” suas facetas mais obscuras a seu bel prazer, quando relatam algo de si mesmos (Facebook, alguém?). Ou seja, haja o que houver de tons autobiográficos no livro, é brilhante que ele demonstre conhecer tão bem a loucura, e conte os deslizes que cometeu, ao invés de apenas retratar o sentimento de inadequação de estar ali. Ao contrário, em algum momento, ele passa a pertencer ao lugar, e sempre há uma luta (literalmente) insana, que acontece em diversas frentes.

O pequeno romance de Guillermo é notável pela amplitude de leituras que permite, e não se presta a uma só interpretação.

Análise prometida para breve…

Das várias maneiras que se poderia aprofundar esta obra, duas se insinuam: sobre a loucura em si e sobre a fuga.

Como já disse, o plano inicial era abordar, como leigo que sou, um pouco do rico material de discussão sobre o regime comunista de Cuba e sobre algumas polêmicas que sempre o cercaram. Com a manifestação dos autores das duas obras citadas, ambos exilados da ilha, eu pretendia analisar alguns pontos da ditadura castrista, o que ela trouxe e o que custou.

Porém, deixarei esta abordagem para uma próxima resenha. Nesta, terei que priorizar a abordagem sobre a loucura, por causa de uma obra lida anteriormente.

holocausto_brasileiro_capa… e pequeno parênteses sobre a loucura

A obra referida é o livro reportagem de Daniela Arbex: Holocausto brasileiro, já brilhantemente resenhado pelo Rodrigo Casarin aqui.

Ler Holocausto brasileiro é uma viagem a um mundo de terror pior que o pesadelo mais insistente. Saber que ele é uma reportagem, que foi escrito mediante a aferição de fatos, é estarrecedor. Se no livro de Guillermo sobra lirismo e beleza literária, no de Daniela a crueza dos fatos te atinge como um soco no estômago com luva de ferro. Se a verdade se obnubila no primeiro, e nos perguntamos o quanto daquela história magnífica e daqueles personagens foram reais, no de Daniela, ficamos sabendo do desfecho de alguns, e da tristeza que prevaleceu em suas vidas.

É impressionante como as obras se acrescentam. Ler A casa dos náufragos é como conseguir acessar a narrativa autoral, feita por um interno que fosse um romancista excelente, de uma das milhares de histórias que aconteceram em Colônia, o hospício retratado em Holocausto brasileiro. E ler Holocausto é entender profundamente a que tipo de situação Guillermo se referiu, em seus rudimentos – porque a vida dos desgraçados em Colônia era ainda bem pior que a ficção.

Pensar nisso dá vertigem.

O que é loucura, afinal?

A loucura não é um ponto pacífico. Eminentes psiquiatras e estudiosos buscam um consenso. Há bem pouco tempo, as perturbações mentais, por mais diversas que fossem, costumavam ser categorizadas do mesmo jeito. Conforme diz Charles Pépin, autor francês, sobre o louco, “Ontem percebido como mensageiro divino, hoje como doente mental, não há uma verdade acerca dele; a maneira como o consideramos varia segundo os sistemas de pensamento e poder”. Daniela Arbex endossa estes dizeres em seu livro, relatando que entre os internados, havia esquizofrênicos, dementes, mas também pessoas apenas tímidas ou caladas, e muitos sem qualquer anomalia digna de nota – apenas pessoas indesejadas (ou inconvenientes para alguns poderosos). Este estigma de loucura para aqueles que se quer excluir é muito importante.

Possivelmente, foi o questionamento deste estigma que levou o psiquiatra húngaro Thomas Szasz a abalar os alicerces da psicologia com sua obra “O mito da doença mental”. Na obra, grosso modo, ele defende que “doença mental” é uma metáfora. As mentes podem estar “doentes” apenas no sentido em que as brincadeiras estão doentes ou as economias estão doentes. Ou seja, o estigma de doente mental se baseia em uma teoria e não em um fato, semelhante a acusar alguém de estar possuído pelo demônio, por exemplo.

A razão da perpetuação deste rótulo que remanesce até hoje seriam interesses – excluir pessoas indesejadas, diferentes e fora dos padrões. Conforme o verbete sobre Szasz no Wikipédia diz, “os diagnósticos psiquiátricos estigmatizam rótulos, construídos à semelhança dos diagnósticos médicos e aplicados a pessoas cujo comportamento incomoda e ofende a outros”.

Para Szasz, a doença mental é um instrumento de controle e exclusão, e não tem sequer uma pequena parte da precisão que reivindica.

Mesmo porque, a normalidade também é um conceito difuso, e talvez nem mesmo muito desejável. Quase sempre, são os “fora-do-normal” que criam e questionam. Mas a normalidade se torna “desejável”, no sentido em que, uma vez estabelecido um comportamento normal, e contanto que as pessoas e suas reações estejam dentro dele, o status quo permanece: poder concentrado nas mãos de pouquíssimos, conformismo e impotência para a imensa maioria. Este ordenamento, tão antigo quanto as sociedades, se impõe em qualquer cultura. Os “fora da curva” serão categorizados: a doença mental, quando acomete a uma pessoa rica, a torna apenas “excêntrica”; se for pobre, a torna, além de maluca, perigosa, o que impõe que ela precisa ser contida, seja do jeito que for.

Como lidar com os loucos

O hospício de Colônia, de história tão recente, é mais apavorante que qualquer ficção. O “””consolo”””, bem entre aspas e bem ironicamente, é que o tratamento de doentes mentais e excluídos pior do que a animais não é exclusividade do Brasil (lugar onde sabemos bem o quanto o dinheiro, o poder e a influência fazem diferença); barbarizar os loucos era uma espécie de regra. O hospital Willowbrook State School, em Nova Iorque, nos anos 60, tinha mais de 6.000 internos que andavam nus, eram espancados e abusados pelos cuidadores.

Ou seja, assume-se que uma desordem mental tira a humanidade da pessoa. Mesmo que não haja uma maneira 100% segura de diagnosticar esta desordem, e, principalmente, que tanto o diagnóstico como o remédio proposto sejam radicalmente influenciados pela posição social que o doente ocupa. Se for um bilionário, talvez, no máximo, sofra processos de interdição dos herdeiros (será que, talvez, quem sabe, mais preocupados com a saúde do que com a dilapidação do patrimônio?); mas, se for um pobre, antigamente, seria deportado, para depósitos de pessoas. Hoje em dia, seria largado à própria sorte.

Loucas inconsistências

De qualquer forma, o assunto é muito amplo até para especialistas, mas algumas considerações podem ser feitas.

O psiquiatra escocês Ronald David Laing (1927 – 1989) pesquisou a esquizofrenia e, segundo ele, a doença é uma reação compreensível a situações impossíveis de serem vividas. Ele procurava padrões na fala dos esquizofrênicos, e questionava a validade do diagnóstico psiquiátrico para desordens mentais, já que estes são baseados no comportamento do “doente”.

Laing apontou o problema de se diagnosticar uma conduta mental a base de um comportamento, mas tratá-la de forma biológica, com remédios. A medicação interfere na capacidade de pensar, e por conseguinte, na cura.

É verdade que a precisão dos diagnósticos e o conhecimento sobre as desordens mentais cresceu, mas outro fator acompanhou também este crescimento: o comércio em cima das doenças, puxado pela indústria de medicamentos. E isto se liga a um outro problema bem complexo: a indústria do diagnóstico.

Interesses comerciais

Lou Marinoff, em seu livro Pergunte a Platão, falou sobre a indústria do diagnóstico: segundo ele, para que profissionais como psiquiatras e psicólogos sejam ressarcidos pelos planos de saúde, eles tem que diagnosticar algo. Assim, se construiu uma nação inteira de doentes – qualquer pessoa, qualquer uma mesmo, pode ter alguma disfunção mental diagnosticada. Basta que seja humana, e que se sinta triste ou angustiada de vez em quando, para ter sua CID (código internacional de doença) no seu atestado, e possivelmente, com uma receita prescrevendo alguma medicação acompanhando.

Daí que , embora os avanços médicos sejam evidentes, outros interesses continuam a tornar a loucura algo nebuloso.

Então, depois de todas estas considerações, há que se perguntar: apesar das inconsistências no diagnóstico da loucura, apesar do uso dela como desculpa para exclusão de indesejáveis, apesar do histórico pavoroso de massacre dos doentes mentais pobres, e apesar do comércio e dos interesses financeiros que existem em cima disso, será que, pelo menos, os médicos sabem diferenciar os realmente perturbados dos sãos?

cartun_loucoComo distinguir a loucura da sanidade?

Se qualquer um pode ser diagnosticado como vítima de alguma transtorno mental, como distinguir os loucos dos normais?

Bom, o psicólogo americano David Rosenhan fez um experimento clássico a respeito. Se os psiquiatras dizem que transtornos mentais podem ser diagnosticados de modo preciso com base em sintomas, e assim serem categorizados como doenças, eles deveriam saber diferenciar, por estes mesmos critérios, os loucos dos sãos.

Só que não. Não se consegue diferenciar os loucos dos sãos nos hospitais psiquiátricos. O estudo de Rosenhan reuniu oito pessoas sãs (ele próprio no meio), para tentar internação em instituições psiquiátricas. Orientados a dizer sobre vozes que ouviam, todos os pacientes foram internados, com diagnóstico de esquizofrenia, embora não apresentassem sintomas da doença.

Uma vez internados, eles se comportaram de maneira absolutamente normal. O que quer que fizessem era interpretado como sintoma da doença. Para um dia inteiro de internação, o contato com os médicos era de cerca de sete minutos diários. Os únicos a perceberem o embuste foram alguns dos outros internos – supostamente loucos.

O pesquisador divulgou o estudo e informou que enviaria, nos próximos meses, um ou mais pseudopacientes, como eles foram, para tentar novamente a internação. Após conhecerem o estudo e avisados, nos hospitais da época, de 193 novos internos autênticos, 41 foram identificados como suspeitos por pelo menos um membro da equipe da instituição, e 23 como possíveis pseudopacientes por pelo menos um psiquiatra.

O chato é que Rosenhan não enviou ninguém.

Distinções falhas

Ou seja, a loucura, em grande medida, é uma cisma – por uma normalidade e por uma padronização que muda ao sabor dos costumes e interesses. Houve, sim, progressos: há desordens mentais mais ou menos compreendidas. Desgraçadamente para alguns loucos antigos, ficava ao sabor da história e da cultura local se aquele atributo deles, por exemplo, de ouvir vozes, era um dom – o que poderia torná-lo um profeta – ou uma maldição – o que o tornaria um endemoniado. O matemático americano John Nash, autor da Teoria dos Jogos, era esquizofrênico, e poderia ter sido morto, há apenas… ia dizer algumas décadas, mas me lembrei que Colônia e Willowbrook são seus contemporâneos.

Ou seja, é bastante razoável supor que pessoas que poderiam contribuir para o progresso da humanidade foram empilhadas e sacrificadas, apenas porque não as entendiam, porque elas eram muito pobres, ou ainda, porque eram muito tímidas ou pouco articuladas. Ou qualquer combinação destes fatores.

Evidentemente, isto não significa que pessoas que não pudessem contribuir de qualquer forma tivessem que ser sacrificadas. Limitadas ou não, eram pessoas. E a vida delas, tão sagrada quanto a de qualquer “normal”.

Em grande medida, aliás, eles, que eram simples de coração e reduzidos em suas capacidades, precisavam ainda mais da ajuda dos outros. É o mesmo raciocínio que leva a absoluta maioria de pessoas a ter ojeriza a maus tratos com animais – seres meio dependentes, com limitações, puros, sem maldades ou interesses. Não sei precisar em porcentagens, mas deduzo que a maioria dos deficientes mentais sejam assim. Às vezes, pode nos enojar o quanto eles se reduzem aos instintos básicos/fisiológicos, e o quanto lhes falta pudores. Como comem, copulam e se sujam como animais; mas esquecemos que pudores são construções sociais mutáveis, e andar nu, por exemplo, é aceito em algumas comunidades. E pior, esquecemos que, ao amontoá-los como bichos, lhes tiramos qualquer dignidade que poderiam preservar, e só lhes restará mesmo o instinto de sobrevivência.

Ainda em defesa da inofensividade da maioria dos loucos, me parece que os perigosos e violentos da nossa sociedade gozam perfeitamente de suas capacidades mentais – lhes falta empatia e um tanto de humanidade, e lhes sobra egoísmo e ganância. Criminosos, de maneira geral, não são loucos. Claro, há aqueles que têm surtos psicóticos, que causam massacres. Mas o que há de loucura num sequestrador, que arquiteta um plano cuidadoso para levar sua vítima, ter seu resgate e não ser pego?

Loucura moderna

Recentemente, mais um garoto recalcado (Elliot Rodgers), perturbado num nível profundo, massacrou seis pessoas, nos EUA, por não ser reconhecido, e se sentir inferiorizado. Qual o nível de loucura disso? Internos são mais loucos e mais perigosos que alguém assim?

E sobre o norueguês Anders Behring Breivik, que planejou um atentado por anos, e rumou para uma ilha e massacrou perto de 70 inocentes? E sobre Columbine, e mesmo do brasileiro Wellington Menezes, que imitou a “moda” americana de massacres em escola e assassinou 12 (o massacre de Realengo)?

Como diagnosticar estes loucos modernos? O que fazer?

holocausto_Não sei, mas sei o que não fazer: não se pode colocá-los em nada que se assemelhe a um hospício antigo. Argumentos em contrário, por mais persuasivos que sejam, especialmente para quem perdeu alguém em qualquer um dos massacres, reabrem a exceção que criaram distorções como Colônia e Willowbrook (que aliás, à sua época, não eram exceções, mas a regra); ou legitimam asilos e abrigos como comércios vis que nada tem de humanos, e que visam apenas lucro, como o relatado por Guillermo Rosales em seu livro.

Retroceder e permitir a volta de colônias ou a legitimação de “boarding homes” (hospícios particulares) são caminhos terríveis, que já deveriam ter sido totalmente abolidos.

A sombra da loucura continuará a afetar as sociedades, mas precisamos progredir no tratamento dos doentes. Este é um problema de dimensões tão profundas e tão controverso que parece pacífico que não haja uma solução unânime e sem riscos. Desenvolver medicações para tratar doentes, além do problema do comércio de fármacos e da indústria de diagnósticos, tende a robotizar as pessoas. Interná-las, quase sempre, é apenas excluí-las do convívio – mesma alternativa que se pensa para outros indesejáveis, como viciados, mendigos e criminosos de menor potencial ofensivo.

Assumo que não consigo pensar, nem ingenuamente, em algo que pudesse funcionar, neste caso. Talvez uma série de ações conjuntas e ordenadas e também uma mudança social. Mas repito: hospícios devem ser peças de museu (de horrores, no caso).

A balada do louco

Concluindo para ligar todo o exposto à obra de Guillermo Rosales, muitos loucos tem visão mais sã e verdadeira da sociedade que muitos ditos normais. Muitos normais são apenas bovinamente conformados, e nunca utilizaram a capacidade oculta que carregam de questionar a ordem das coisas – ordem esta que prioriza outros deu$e$ em detrimento da compaixão pelos semelhantes.

A loucura pode ser uma face da genialidade, e nem todos que as cometem são necessariamente loucos – aliás, segundo o psicólogo americano Elliot Aronson, qualquer pessoa, em determinadas situações, pode fazer algo que seja considerado insensato.

O autor de A casa dos náufragos era considerado insano, por alguns parâmetros, mas entregou uma obra de rara sensibilidade. Seja para refletir sobre a loucura, seja para pensar sobre as fugas, ou para apreciar uma peça de literatura magnífica, a indico.

Acho que Rosales endossaria a clássica música “Balada do louco”, do grupo brasileiros Os Mutantes, que intitula esta resenha. Especialmente o verso:

Eu juro que é melhor

Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu.

 

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: