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Posts Tagged ‘O Segredo de Joe Gould’

Monica Martinez é uma dessas profissionais que conseguem unir o domínio da prática e da teoria de sua profissão. Doutora em Ciências da Comunicação pela USP, defendeu uma tese que depois se transformou no livro Jornada do herói – a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo. Não parou por aí, foi para a Umesp onde obteve o seu pós-doutorado. Professora universitária e ativa pesquisadora, também possui interesse pela Criatividade. Ministra cursos de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo e, sobre o assunto, publicou Tive uma ideia! – o que é criatividade e como desenvolvê-la. Ainda que atualmente se dedique mais ao campo acadêmico, Monica é uma apaixonada pelas redações – nelas já redigiu matérias publicadas em grandes revistas do país. Não bastasse tudo isso, ainda está prestes a publicar o seu primeiro livro de ficção. Poderíamos falar por mais umas 50 linhas sobre suas qualificações, mas pararemos por aqui e deixaremos que a entrevista revele mais da PhD.

Canto dos Livros: Na sua opinião, o que é literatura?

Monica Martinez: Boa pergunta. Às vezes é mais fácil saber o que não é literatura do que o que de fato se encaixa neste rótulo, não é? A meu ver, e de forma bem sintética, literatura demanda o uso estético e criativo da linguagem escrita. E este uso deve sempre ser visto no contexto do espaço e do tempo em que o material é produzido.

CL: O Brasil é tido como um país de pessoas criativas. Essa virtude engloba a produção literária, ou essa é uma característica infundada do nosso povo? A criatividade artística não depende de um sistema de educação de maior qualidade, afinal?

MM: Um dos estudiosos contemporâneos de criatividade, o estadunidense Steven Johnson, remete ao conceito de redes líquidas para falar sobre criatividade. Este argumento é baseado nos estados da matéria e, portanto, é de simples compreensão. Assim, no estado gasoso há um caos criativo, porém neste universo caótico as boas ideias têm dificuldade em se concretizar. Já no sólido há estabilidade, porém as estruturas são tão cristalizadas que as inovações encontram dificuldade para irromper. Neste cenário, entendo que o Brasil estaria mais próximo do caos, com bastante explosões criativas, mas enfrentaria desafio no planejamento e na implementação a longo prazo das ideias criativas. Não basta criar: é preciso implementar as boas ideias, o que demanda outras habilidades do ser humano.  Habilidades, muitas delas, que evidentemente são transmitidas ou treinadas pelo sistema educacional, daí a importância de ele ser eficiente.

CL: Pegando neste ponto também, sempre existe uma grande questão em torno de escola para escritores. Alguns defendem sua importância, outros dizem que escritores já nascem prontos. Qual é a sua opinião?

MM: Já vi muita gente talentosa que simplesmente não tem a disciplina necessária para sentar e escrever. A escrita não é um fim, mas um processo. Neste sentido, é muito salutar a troca de informações e experiências, daí, a meu ver, a grande importância das oficinas. Há também muito de grupo de apoio nestes grupos, que inspiram os integrantes a vencer seus desafios e ir além do que imaginam ser seus limites.

CL: A partir da sua experiência em salas de aula, quais são as principais causas de bloqueios criativos que seus alunos expõem? E como fugir deles? 

MM: Deste assunto entendo bem, pois desde 2004 ministro um curso de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Nele, faço um levantamento, por meio de respostas espontâneas, dos problemas relacionados a bloqueios. As seis causas de bloqueios mais citadas são desorganização, dispersão, perfeccionismo, indisciplina, insegurança e falta de estabelecer prioridades, respectivamente. Penso que não se trata de uma questão de fuga, mas de identificá-los e estabelecer uma estratégia para lidar com eles. É simples assim.

CL: Você anunciou recentemente que em breve lançará um livro de ficção. O que podemos esperar dele?

MM: Livros são como filhos. A gente lhes tem um amor infinito, mas nunca sabe de fato o que se pode esperar deles. E aí reside a graça: em geral somos surpreendidos por ambos. No meu caso, até agora, o simples fato de escrever ficção foi uma das coisas mais deliciosas que já fiz. O que já é uma recompensa e tanto. O que vier a mais é lucro…

CL: Como foi para uma pessoa tão acostumada a escrever fatos reais ter a liberdade total para criar o que quisesse? Essa liberdade em algum momento atrapalhou?

MM: Sou muito rigorosa com a apuração quando faço um texto jornalístico. A pessoa não tem mais ou menos 1,70m. Ou tem 1,69m ou 1,71m, por exemplo. Para mim, portanto, escrever ficção foi relaxante, um estado muito criativo e libertador.

CL: Um dos erros comuns de iniciantes em não-ficção é a dificuldade em livrar-se de conceitos pré-concebidos, amarras e juízos de valor. Você sente isso também? Como fazer para quebrar preconceitos, tabus e julgamentos que estão tão intrinsecamente ligados a cada um de nós?

MM: Acho que tenho uma característica de personalidade que me ajuda muito, que é a de ser muito exigente comigo mesma, mas de ter uma grande abertura para as idiossincrasias dos outros. Eu tenho uma infinita curiosidade de entender o ponto de vista do outro, sem endossá-lo nem absorvê-lo, mas de compreender o porquê a pessoa pensa, sente ou age desta ou daquela forma. Uma vez uma aluna escreveu uma história de vida fantástica, na qual uma moradora de um complexo habitacional poupava a vida de um rato que morava em sua cozinha — ainda que ela tivesse medo que o roedor mordesse seu bebê — porque ele tinha três patas. Essa delicadeza com um animal, digamos, com restrições motoras, vinda de uma pessoa com tal desfavorecimento econômico, nunca saiu da minha cabeça. A realidade, realmente, na maioria das vezes é mais surpreendente que a melhor ficção.

CL: Seu trabalho no campo acadêmico está muito voltado à pesquisa. Como é ser pesquisadora no Brasil? Você sempre teve essa vontade ou foi uma coisa que “aconteceu”?

MM: Acho que tudo o que eu sempre quis foi escrever. Eu sempre soube que lidaria com a escrita, embora não soubesse muito bem como isso aconteceria. Foi tudo muito natural. Escolher jornalismo como profissão, migrar para a docência num certo ponto da vida, fazer mestrado, doutorado, pós-doutorado, começar a ensinar a escrever, virar pesquisadora… No fundo, escrever um artigo científico exige muita competência textual. E, para mim, é mandatório que um artigo científico escrito por alguém da área de comunicação social seja bem redigido. Não faz sentido que não o seja.

CL: Como essas pesquisas se encaixam ou influenciam efetivamente no fazer jornalístico? Como a imprensa adota as novidades propostas pelo meio acadêmico?

MM: É uma simbiose. Até porque muitos acadêmicos são ou foram profissionais. E acho que mesmo quem se dedica mais à docência e já esteve numa redação não se esquece o quanto é apaixonante estar no meio de uma apuração ou de um fechamento. Você se sente 100% vivo, fazendo parte da história, é uma experiência fantástica.

CL: Após fazer mestrado e doutorado em uma universidade (USP), resolveu respirar novos ares e levar sua linha de pesquisa a outra instituição (Metodista), no pós-doutorado. Fale um pouco sobre a importância dessa mudança de ares para o desenvolvimento das pesquisas e produção de conhecimento.

MM: Tive muita sorte de ter tido a oportunidade de conhecer, na USP, o professor Edvaldo Pereira Lima (que viria a ser meu orientador do doutorado anos depois), que me despertou para o Jornalismo Literário — nunca mais fui a mesma depois desta descoberta. Entre 2008 e 2010, foi uma oportunidade e tanto conhecer mais de perto pesquisadores de uma instituição de ensino muito sólida como a Umesp, com um programa de pós-graduação de quase 40 anos. É inspirador participar de um grupo de pesquisadores sérios, altamente produtivos. Você vê o conhecimento sendo gestado na sua frente. Recentemente participei, com um grupo de pesquisadores do Brasil e de outros países, de um evento na Universidade de Viena e está sendo outro aprendizado interessantíssimo, descobrir como é feita a ciência da comunicação em nível mundial. O método pode ser o mesmo, mas o tempero é absolutamente cultural, regional. Neste sentido, os brasileiros têm sorte, pois bebem tanto na fonte da ciência quantitativa do modelo estadunidense quando na qualitativa do modelo europeu.

CL: Uma de suas paixões é a narrativa de viagem. Como é a sua relação com o gênero?

MM: Tenho particular carinho pelas narrativas de viagem. Outro dia, por exemplo, estava lendo o livro do Hans Staden — já há quase 500 anos se produzia narrativas de qualidade. Penso que meu amor pelas viagens deriva do fato de que elas são sempre uma aventura de descoberta porque fazem com que os indivíduos deixem seus limites conhecidos para trás e se aventurem no novo, em universos diferentes. Isso faz com que as pessoas aprendam mais sobre si mesmos e sobre os outros — o que, para mim, é o grande desafio de se estar vivo.

CL: Quais autores na Literatura e quais jornalistas te inspiram?

MM: Tive a sorte de ter uma mãe que lia muito e que me ensinou o amor pela leitura. E um pai visionário, que me ensinou que o impossível não existe. Com certeza posso dizer que sou apaixonada por García Márquez, Hemingway, Falkner, mas amo mesmo a literatura de não-ficção americana. Talvez esta seja, de fato, minha grande especialidade. Entre eles, meus favoritos são sem dúvida Gay Talese (um clássico), Lilian Ross (com seu encantador estilo mosca-na-parede) e Joseph Mitchell (a revelação no segundo perfil de O Segredo de Joe Gould é, para mim, um dos momentos altos do jornalismo). Dos atuais, aprecio muitíssimo os livros de David Remnick, o atual editor da The New Yorker, em particular A Ponte, sobre o presidente Barack Obama.

CL: O que poderia dizer a jovens que pensam em ingressar no jornalismo ou que pretendam publicar seus escritos?

MM: Dizem que quando se vai comprar um imóvel é preciso se pensar em três coisas: localização, localização e localização. Para mim, a resposta para sua pergunta demanda três palavras: persistência, persistência e persistência. Não desistir nunca. Quem age assim certamente verá chegar a sua hora.

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Por Fred Linardi

Quando o jornalista Joseph Mitchell inicia a narrativa sobre um excêntrico miserável de Nova York dos anos 40, o leitor já se depara com um texto que inspira curiosidade. O personagem em questão é um joão-ninguém; um “homenzinho” que anda pelos bares e ruas e não tem nada de celebre ou exemplar para mostrar. E é exatamente isso que instiga também um dos repórteres mais importantes da revista The New Yorker.

Homenzinho é exatamente o primeiro termo que Mitchell usa para designar Joe Gould assim que começa este perfil jornalístico originalmente publicado em 1942. O requinte narrativo pode trazer a desconfiança de que se trata de uma ficção baseada em fatos reais, mas não é o caso. De fato, todos da região de Greenwich Village, Nova York, conheciam esse tal de Joe Gould com suas aparições em bares, tomando um café e comendo muito ketchup das mesas (puro! Não tinha dinheiro). Assim como grupos de poesias, onde o velho baixinho cismava em fazer parte e recitar seus versos que, não saíssem da boca de quem as recitava, não passariam de uma brincadeira de gosto duvidoso.

Além de ser uma presença atípica nas ruas da metrópole, o andarilho beirava o limite entre uma pessoa única e inocente, mas desagradável ao mesmo tempo. Sua excentricidade rendia-lhe convites, assim como podia causar náuseas como quando ele insistia em mostrar saber falar o idioma das gaivotas: o “gaivotês”. Mas seu grande orgulho consistia no maior projeto de sua vida, ao qual chamava Uma história oral do nosso tempo. Nela, o autor relatava sobre pessoas que ia conversando aleatoriamente pela cidade, figuras que, segundo Gould, eram os verdadeiros agentes que moviam a história de um país.

Joseph Mitchell teria todos os motivos para retratar aquele personagem, com quem conviveu por alguns meses entre bares e muitas conversas, de forma jocosa, folclórica e até mesmo pedante ou piedosa. Mas o tratamento honesto rendeu humanização àquele homem, como se, página após página, Mitchell conseguisse ir tirando mais camadas da aparência e palavras de Gould até conseguir expor a alma do personagem.

O livro é dividido em duas partes justamente pelo cuidado que Mitchell tomou ao publicar o que rendeu duas reportagens na New Yorker. O primeiro, intitulado O Professor Gaivota, é mais curto e conta sobre essa figura fascinante que também era capaz de irritar o narrador em algumas conversas que pareciam não ir mais a lugar algum (ou seriam sucessivas fugas de Gould em fugir de um determinado assunto?). O segundo perfil, este o próprio O Segredo de Joe Gould, foi publicado vinte e dois anos após o primeiro, em 1964, quando Gould já havia morrido. Mitchell continuou uma história que julgara impossível de relatar quando seu personagem ainda vivia ,preservando sua dignidade.

O suspense para descobrir o que Joe Gould escondia de todos só não causa tanta aflição porque a narrativa flui e faz com que o leitor se aproxime e crie uma simpatia tanto pelo boêmio nova-iorquino quanto pelas situações vividas por ele. O segredo revelado finda uma busca seguida pelo repórter a passos de detetive e carregada de voltas em torno dessa personalidade tão ímpar.

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