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Posts Tagged ‘O sonâmbulo amador’

jose luiz passosJosé Luiz Passos tem uma missão nem um pouco fácil: lecionar Literatura Brasileira na Universidade da California em Los Angeles (mais conhecida como UCLA), nos Estados Unidos, um dos países mais fechados no mundo para as artes e a cultura que não as locais. Formado em sociologia e doutor em Letras, o professor também é escritor, já publicou os ensaios Ruínas de linhas puras Machado de Assis, o romance com pessoas e os romances Nosso grão mais fino O sonâmbulo amador, um dos livros mais elogiados pela crítica em 2012 – e começo de 2013, já que a obra foi publicada no final do ano passado – e que já tem resenha aqui no blog. Na entrevista abaixo, dentre outros temas, Passos fala sobre como chegou à universidade estadunidense, sobre sua formação como leitor e o trabalho de ficcionista.

Canto dos Livros: Como você foi parar na Universidade da Califórnia?

José Luiz Passos: Quando o e-mail começou a fazer parte da vida universitária no Brasil, em 1994, escrevi para alguns professores nos Estados Unidos e na Inglaterra, buscando fazer uma pós-graduação fora. Na época, era aluno de sociologia na UFPE e, depois, na Unicamp, em São Paulo. Fui aceito por algumas universidades estrangeiras, entre as quais estava a Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA, para onde acabei vindo. Depois de concluir o doutorado, outro campus do mesmo sistema me contratou como professor: a Universidade da Califórnia em Berkeley, mais conhecida pelo nome da cidade. Dei aulas em Berkeley por nove anos. Em 2008, a UCLA abriu um concurso na minha área, no qual passei, e, então, decidi voltar para cá. Gosto de Los Angeles. Sempre preferi as cidades grandes.

CdL: Como é ministrar um curso de Literatura Brasileira em uma universidade dos Estados Unidos? Há real interesse por nossa literatura aí? Por quais autores?

JLP: A literatura brasileira é ensinada aqui em português e em inglês, no contexto dos programas de letras hispânicas, línguas neolatinas ou literatura comparada. É, portanto, uma das várias literaturas oferecidas na língua original, ou em tradução, para alunos de diversos programas e cursos. Nossas disciplinas são abertas a todos os estudantes do campus; resulta que as turmas são heterogêneas: gente de música, direito, matemática, ciências biomédicas etc., além dos demais cursos nas humanidades. Desde que cheguei, noto um interesse cada vez maior pelo Brasil, porém não necessariamente pela literatura brasileira. A noção mais difusa da “cultura” brasileira — e em particular, da música, do cinema e de questões socioeconômicas — tem sido o foco dos estudos e dos diplomas dos alunos americanos. Entre os autores mais canônicos, Machado de Assis e Clarice Lispector são os mais usados em sala de aula. O que mudou bastante, a meu ver, foi o interesse, dentro dos programas de letras, na ficção contemporânea. Há hoje mais cursos que incluem autores mais jovens nas diversas universidades americanas que conheço. Em Berkeley, costumava ensinar, a cada três semestres, um curso sobre o romance contemporâneo usando exclusivamente textos publicados nos últimos quatro ou cinco anos. Trouxe o curso para a UCLA e ensinei-o, por exemplo, no semestre passado.

CdL: Qual a sua opinião sobre o atual momento da literatura no Brasil? Quais nomes e obras merecem destaque?

JLP: Creio que atravessamos um momento de produção intensa e de grande diversidade na literatura brasileira. Há, também, uma visibilidade maior na mídia, por conta dos prêmios, das novas mídias sociais, dos incentivos governamentais, das feiras e festivais. Isso é bom, e tem feito a literatura brasileira repercutir um pouco mais aqui fora. Mas a intensidade do movimento no mercado e a maior visibilidade das letras na grande mídia não resultam, necessariamente, numa literatura de maior qualidade. Pode ser que sim. Esperemos que sim. Sinceramente, sou otimista a esse respeito. Como professor de letras, fico contente de ver uma literatura mais robusta e diversa ocupando as livrarias e chegando às salas de aula, inclusive fora do Brasil. São muitos os nomes que leio com prazer. Destacar uns poucos é fazer injustiça com os demais. Então, menciono apenas aqueles que li recentemente e estão, agora, enquanto escrevo, ao alcance da mão. Admiro Beatriz Bracher e Adriana Lunardi; sempre que posso, volto a elas. Achei o romance Mar azul, de Paloma Vidal, fascinante. E estou ansioso para ler o próximo de Ricardo Lísias, cuja ousadia da imaginação sempre me impressiona. Quem mais? Hoje dei uma aula sobre Sérgio Sant’Anna, mas este não conta, porque conta demais; é um clássico vivo.

CdL: Em seus dois livros de ficção há duas personagens bastante sensuais, Ana Corama e Minie. Houve algum cuidado especial na hora de compô-las? Há alguma diferença na construção de um personagem masculino e um feminino?

JLP: Ana Corama (em Nosso grão mais fino, de 2009) e Minie (em O sonâmbulo amador, de 2012) são ao mesmo tempo um problema e uma solução para os seus admiradores masculinos, Vicente Campelo e Jurandir, respectivamente. Mas a semelhança para aí. Ambas têm grande independência moral frente a seus amantes, mas apenas Ana Corama tem o poder de uma narradora; é autora de livros; enfrenta Vicente no plano dos diálogos que desenvolvem interiormente, ao longo de quarenta anos. Por sua vez, Minie representa, para Jurandir, não uma volta ao passado, como Ana, mas o desafio de um presente em que o desejo confunde papéis e funções. Em O sonâmbulo amador, a amiga Minie se confunde com a amante, que se confunde com a memória da esposa quando jovem e, também, com a colega de trabalho. Em ambos os casos, é o desejo do narrador por essas mulheres que os leva adiante, na tentativa de contar uma história que, para elas, é fundamental e precisa ser enfrentada, a despeito da hesitação masculina. São sensuais? Espero que sim. Afinal, são amadas profundamente; e do trauma que esse amor gera, nascem as narrativas de Vicente e Jurandir.

CdL: O processo de reescrita é quase uma unanimidade entre os escritores. Segundo consta, seu primeiro romance teve 16 versões. Como isso funciona para você? Que tipo de trecho merece ser reescrito tantas vezes? Usando o didatismo de um educador, poderia dar um exemplo prático — quem sabe de alguma frase de O sonâmbulo amador — desse processo de reescrita?

JLP: Em cada um dos projetos, a reescrita tem um papel diferente. No caso de Nosso grão mais fino, demorei até encontrar um modo de fazer com que meus personagens pudessem habitar e falar a partir de diferentes momentos no tempo. A cada vez que faço uma mudança na estrutura, gravo e imprimo uma nova versão do texto. Então, por exemplo, no primeiro romance, a sequência da ação apresenta diferenças radicais em cada uma das versões; numa delas, o irmão de Vicente — Zelino — era um pássaro; noutra, os diálogos eram destacados em itálicos, com direções de cena no estilo do teatro; noutra, ainda, a ação continuava após o capítulo final, narrando os últimos dias de Vicente. Já em O sonâmbulo amador, a reescrita foi necessária para moderar a presença dos sonhos no plano do tempo presente de Jurandir. A versão mais completa dos originais tinha 510 páginas. Entreguei à Alfaguara uma versão com 320 páginas, o que resultou nas 270 do livro. Os cortes incidiram na redução da quantidade de sonhos, de personagens secundários e no seu tempo de permanência na clínica de Belavista. Mas também reescrevi a voz narrativa: originalmente, Jurandir escrevia cartas a dr. Ênio, dirigindo-se a ele diretamente, descrevendo as sessões de análise com grande minúcia. Então, não é que a mesma frase seja reescrita dezesseis vezes: é que a relação entre as partes se altera, a voz muda de tom e a interação entre as personagens transforma o ritmo do enredo. A cada vez que isso muda, é necessário, a meu ver, recompor o fio e cuidar da consistência de estilo e perspectiva. Assim, novas versões vão brotando uma de dentro da outra. 

CdL: Você não depende de sua produção literária para pagar as contas, certo? Isso lhe permite investir o tempo que achar necessário na escrita de um livro, mas também faz com que tenha de dividir seu tempo com outras atividades. Como isso funciona para você? Escreve só nas horas vagas mesmo ou separa uma parte do dia para escrever?

JLP: Escrevo sempre que posso. A rigor, dependo do que escrevo para viver. Escrevo minhas notas de aula, relatórios, pareceres, cartas de recomendação, artigos, livros acadêmicos… Então, você tem razão; não viver da literatura não significa, necessariamente, ter mais tempo ou estar mais livre para escrever. Meu tempo é, em grande parte, tomado pela rotina da burocracia acadêmica. Então, como disse, escrevo o máximo possível, sempre que posso. Nos meses de férias e intervalos universitários, é claro, me dedico com mais disciplina à ficção. Costumava separar horas na semana para escrever meu primeiro romance. Porém, com o aumento das minhas responsabilidades na universidade e as demandas da vida familiar, isso é cada vez mais difícil. Hoje, por exemplo, escrevo em cafés, restaurantes, aeroportos, etc., coisa que não fazia antes. O tempo, por incrível que pareça, anda cada vez mais raro.

CdL: Você demorou cinco anos para escrever O sonâmbulo amador. Por que tanto tempo? Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou durante a escrita deste livro?

JLP: Iniciei O sonâmbulo amador em 2007, o ano em que publiquei meu livro sobre Machado de Assis. No ano seguinte, meu primeiro romance foi aceito pela Alfaguara. Precisei revê-lo mais de uma vez e cuidar de sua saída. Então, parada no sonâmbulo. Em 2008, mudei de Berkeley para Los Angeles. Transladei a profissão e a família. Vendi um imóvel e comprei outro. Em 2009, nasceu meu segundo filho e assumi a direção do Centro de Estudos Brasileiros, na UCLA. Ou seja, essa pequena lista mostra que as interrupções na redação de O sonâmbulo amador foram de várias ordens. A maior dificuldade foi encontrar tempo para um mergulho mais concentrado e de longa duração no universo do romance. Por isso, me impus um método de escrita relativamente rígido: primeiro redigi os sonhos de Jurandir. Depois, os eventos em sua vida presente. A seguir, o enlace de ambos com as memórias e os textos que ele próprio buscava escrever. Organizar e dar unidade a uma matéria tão diversa, do ponto de vista cronológico e estilístico, foi talvez o grande esforço do livro e aquilo que me custou mais tempo.

CdL: Como você tem acompanhado a recepção de O sonâmbulo amador pelo público e pela crítica?

JLP: Estou satisfeito e surpreso com a repercussão do romance. Fico especialmente contente quando recebo notas pessoais, de amigos que não vejo há muito tempo, e que não são profissionais do comentário à literatura. O livro, em parte, foi escrito para eles, tal como o próprio Jurandir confessa nas últimas duas páginas. A sanção da crítica profissional é, obviamente, muito importante para a permanência do livro. Mas minha satisfação maior está na repercussão dele entre aqueles que, de certo modo, estão dentro do livro e para quem concebi a história de Jurandir.

CdL: Em entrevista recente, você declarou que O sonâmbulo amador é meio que uma tentativa de acabar o que seu pai começou, mas sem usar a vida dele — o que seria “difícil demais” —, já que usou como base o material deixado por ele em um baú. Ainda assim, sabemos o quanto Jurandir — personagem principal da obra — foi influenciado por uma história real. Posto isso, o quanto a sua ficção se apoia na realidade? Como você, particularmente, consegue achar a medida certa de uma dentro da outra?

JLP: A ficção é parte do real, não se opõe a ele; não é o oposto da verdade. A ficção é um modo de se tornar visíveis relações constitutivas do real. O que tirei dos diários de meu pai foi a ideia de alguém que é levado a fazer, a contragosto, uma revisão de sua vida noturna: uma vida sonhada ou escondida na distância de memórias que tentamos evitar. Porém, não se trata da história do meu pai; por exemplo, nem eu nem ele jamais perdemos um filho. Somos, neste sentido, diferentes de Jurandir. Em outros, somos iguais. A pergunta inversa, então, se coloca: como seria escrever uma narrativa que não se baseasse em nenhuma história ou traço do real? De certa forma, tal livro nunca chegou a ser escrito; e se for, arrisco-me a dizer, será inútil ou sumamente desinteressante.

CdL: Para você, a literatura — romances sobre sonhos e outras manifestações escondidas no subconsciente — é uma forma de terapia? Funciona?
JLP:
Não sei se funciona como terapia. São coisas que podem se parecer, mas que, de fato, são diferentes. O aspecto iniludível da presença de um bom terapeuta, que nos ouve e nos guia, não é equivalente à sensação de máxima liberdade e satisfação individual que caracteriza a composição de uma narrativa de ficção. (Isso, pelo menos, no meu caso.) Há momentos em que escrever um romance, ao longo de tanto tempo, chega a ser infernal. A preocupação com o pormenor, com o tom, com a frase nos separa das pessoas. Ao mesmo tempo, é também uma educação em como representar situações entre pessoas que são outras, diferentes da pessoa e dos valores do próprio autor. É, então, um abraço no outro e também uma reserva com relação a ele… Isso é terapia? Acho que não.

CdL: Qual a diferença do José Luiz Passos de Nosso grão mais fino para o José Luiz Passos de O sonâmbulo amador?

JLP: É a diferença entre um autor sem nenhum livro e outro com dois romances. Ou seja, cabelos brancos. Maior controle sobre o ofício. Uma responsabilidade mais vultosa frente a leitores, outros autores, amigos etc. Escrevi meu segundo romance com maior consciência da estrutura que pretendia dar a ele. Escrevi o primeiro embriagado pela realidade da morte do meu pai e pela presença de pessoas que pareciam saídas de uma noite muito longa. O primeiro é uma poesia. Ainda me agrada muito. Mas agora está mais distante e, de certa maneira, voltou a ser um segredo, inclusive para mim.

CdL: Para um autor, quais as principais diferenças entre publicar livros com ensaios e livros com romances?

JLP: É a diferença entre narrar um gol e chutar a gol. Em ambos os casos, é possível ter prazer e encontrar companhia interessante. São práticas relacionadas. Há quem considere não haver diferença entre ambas, mas acho isso um pouco exagerado. Gosto de escrever ensaios e ficção. Gosto, particularmente, da sala de aula, onde, creio eu, locução e gol dão as mãos. Os ensaios que escrevo derivam das aulas que dou. Ensino literatura e ensino, mais recentemente, escrita criativa. Lendo os escritores de que gosto e os trabalhos dos meus alunos — acho eu — aprendo a escrever melhor. Então, são práticas relacionadas, dão gosto, mas não vejo necessidade de confundi-las ou forçá-las numa hierarquia.

CdL: Alguns autores cuidam das suas obras como mães cuidam de bebês, são resistentes à críticas e as enxergam de forma um pouco distorcida, enquanto outros, no outro extremo, mal falam sobre elas e as deixam soltas no mundo, por assim dizer. Qual a sua relação com suas obras?

JLP: Sou autor recente. É cedo para falar de uma suposta relação autoral, já constituída, com as minhas obras… Claro que é incômodo receber uma crítica negativa. Mas é incômodo também quando o objeto da crítica é a forma como dirigimos, fazemos um bolo ou damos um beijo. Ao mesmo tempo, se uma objeção de imediato destruir o escritor, alguma coisa faltava nele — independentemente da razão da crítica. Procuro deixar os meus livros em paz, e dar a eles o apoio que necessitam para ir adiante, sem desaparecer no horizonte dos leitores. São, sim, de certo modo (para usar a sua imagem) como filhos: mimá-los é uma forma de arruiná-los pela cegueira; mas abandoná-los por conta própria também é muito cruel.

CdL: Se você pudesse escolher, viveria só de escrever livros? Por quê?
JLP:
Viver apenas de escrever livros é uma ideia tentadora. Mas acho que sentiria falta da sala de aula. Hoje passei o dia ensinando Osman Lins e Sérgio Sant’Anna. O debate com meus alunos americanos — muitos dos quais liam esses autores pela primeira vez — foi um prazer imenso. Depois, discuti os contos da minha turma de escrita criativa. Outro prazer imenso. Ora, acho que grande parte do sentido dos livros que lemos e queremos escrever está aí, não? Na divisão do bolo. Na conversa sobre o bolo. No consumo dele como se fosse uma festa. Viver “só de escrever livros” é talvez abrir mão de uma parte gostosa dessa festa. Uma parte com pé no chão e menos pompa.

CdL: Quais as suas principais referências literárias?

JLP: Mudam sempre. São as que ando lendo. Esta semana, como disse, além de Osman Lins e Sérgio Sant’Anna, participei de uma oficina de tradução em que discutimos Machado de Assis e Ricardo Lísias. São, sem dúvida, referências. Outras, além das brasileiras: olho para a minha cabeceira e lá estão os “internacionais” que ando lendo: Hilary Mantel, Hans Magnus Enzensberger e Steven Millhauser. Uma inglesa, um alemão e um americano, todos contemporâneos. As referências mudam. Se não mudassem, não haveria diferença entre elas e um tijolo, ou um credo que se recita sem nenhuma consciência.

CdL: O que é um grande escritor? E um grande livro?

JLP: Se eu tivesse essa grande resposta, escreveria um grande livro sobre esse grande tema.

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Por Rodrigo Casarin

o_sonambulo_amador_As memórias e os sonhos são complexas extensões da realidade. Ambas de total autoria de nosso cérebro, muitas vezes se mostram com uma clareza incrível, mas escondem mistérios, criam armadilhas, brincam demais com o limite entre o que é de nossa imaginação e o que aconteceu, ou poderia acontecer, na realidade. Precisamos sempre olhá-las com uma noção crítica bastante apurada para que não sejamos enganados.

Ter consciência desses labirintos que nossa consciência cria em seus diferentes tipos de atividade é fundamental para tentar ler O sonâmbulo amador, mais recente romance do pernambucano José Luiz Passos, sem ser enganado pelos sonhos e memórias — que, registrados em quatro cadernos, compõem a obra — de Jurandir. Uma das principais tarefas do leitor é identificar o que aconteceu no plano real e o que aconteceu no plano onírico ou imaginativo do protagonista. Provavelmente a riqueza de detalhes, a coerência, a razoabilidade e a verossimilhança sejam bons parâmetros para determinarmos o que se passa apenas na mente do personagem ou além dela.

Apesar de um começo aparentemente bastante lúcido, com o seu desenrolar a história vai ficando paulatinamente mais confusa e fragmentada, com sonhos e memórias — algumas absurdas e inverossímeis — que se confundem com a realidade. Da mesma forma, mas em direção contrária, com o avançar das páginas o jogo se inverte, resultando em um retrato muito bem construído da confusão mental de um homem que, aos poucos, perde e depois recupera o domínio de discernir a fantasia da realidade.

Mas o que leva Jurandir a tamanha confusão? As tragédias. Os dramas de Jurandir impulsionam toda a história. O maior deles é ter que conviver com a perda de André, o filho adolescente. Aliás, se tivesse que definir O sonâmbulo amador em apenas uma frase, diria que é um romance sobre o sofrimento para toda a vida de um pai que perde um filho jovem, com quem lutava para se entender.

Só que há mais mazelas na história de Jurandir: a falta de uma estrutura familiar, a frustração por ter uma vida sem brilho — sequer conseguiu “tirar” o curso técnico em agronomia que sonhava fazer quando jovem —, o joelho destruído na infância que o deixou permanentemente manco, a subordinação ao (ex?) amigo rico, as relações com suas mulheres (Heloísa, sua esposa, mãe do filho morto e por quem demonstra seus mais sinceros sentimentos e suas lembranças mais significativas, e Minie, uma amante de personalidade forte, bastante sensual — as duas tão marcantes quanto Ana Corama, de Nosso grão mais fino, o primeiro romance de Passos).

Os traumas, desgostos e decepções do personagem são de suma importância para entender por que o protagonista teve a atitude que o levou ao hospital psiquiátrico de onde escreve seus cadernos. Entretanto, os problemas não aparecem de maneira fácil como nesta resenha. No livro, tudo o que é revelado é feito vagarosamente, como se os feixes de luz atingissem aos poucos diferentes partes de um objeto do qual, a princípio, podemos ver apenas nuances, mas com uma iluminação que cresce vagarosamente, suas cores e sua beleza vão aparecendo — o que exige uma boa dose de atenção na leitura da obra.

Na clínica psiquiátrica Jurandir encontra valiosos aliados para que não passe a viver apenas em um mundo criado por sua própria mente. Madame Góes, a administradora do lugar, e Ramires, o enfermeiro um tanto doidão, ajudam o protagonista a se sentir importante, principalmente incentivando-o a realizar pequenas tarefas cotidianas e auxiliando-o a tentar cumprir uma missão que deixara pendente ao ser internado.

Por lá, o protagonista também conhece o doutor Ênio, médico que pede para que o personagem passe a registrar diariamente todos os seus sonhos, memórias e atividades. Além de ajudar no tratamento, a escrita serve como elo entre Jurandir e tudo o que deixou do lado de fora da clínica. “Sinto muita falta das pessoas e, enquanto escrevo, fico revendo os assuntos que deixei pendentes e que me perseguem à noite”, relata.

Na frase resgatada acima, há uma clara indicação do quanto os sonhos — que se apresentam como se acontecessem em flashs, com passagens abruptas, frases curtas, poucos detalhes, confusos, não da maneira como os sonhamos, mas da forma com que costumamos tentar contá-los quando estamos acordados — fazem parte da rotina de Jurandir. É neles que o protagonista extravasa e o inconsciente se manifesta com intensidade. O mundo onírico é um escape para as tragédias que o protagonista não superou, apenas suprimiu — e que vaza cada vez mais para o consciente. É nesse universo que Jurandir se idealiza: vira uma pessoa importante e querida, projeta no sogro Constantino uma figura paterna que lhe faltou na vida, torna-se um valentão que adora usar um revólver prateado calibre trinta e dois. 

Recursos

Se o enredo e a forma como ele é explorado já fazem de O sonâmbulo amador um grande livro, as qualidades literárias do autor tornam a obra ainda mais significativa. O sofisticado estilo de Passos, com parágrafos bem construídos, ritmo preciso e domínio sobre a trama, faz com que o autor atinja uma estética primorosa, invejável.

Apesar de jovem — nasceu em 1971 —, Passos apresenta uma escrita bastante madura e segura. Impressiona, por exemplo, a habilidade para trabalhar com a história em diferentes níveis temporais e psicológicos sem causar confusão ou prejuízo ao leitor. O domínio das técnicas e recursos literários também merece ser salientado. Eis um modelo simples, presente em um dos ótimos diálogos da obra:

Jurandir, eu não quis ser indelicada com você. Falei aquilo só por falar, ela disse.

Você falou. Como foi? Que eu tinha perdido a coragem?

Falei que antes você era mais dado. Que saía com a gente. Só isso.

Que nada, Minie. O que é que há? Pensa que eu sou feito suas colegas, para ficar rindo de besteira? Você é muito engraçada.

Como assim, ela perguntou. Hem, Jurandir?

Você às vezes não liga para nada. É muito fácil, eu disse, e então calamos nisto

A utilização da indagação “Como foi?”, como se Jurandir quisesse enfatizar ainda mais o que Minie havia dito; o comentário “você é muito engraçada” que vem no final de uma fala, após duas perguntas provocativas, tal qual um desabafo inesperado para o momento da discussão; e o “Hem, Jurandir” de Minie, que pressiona o personagem com uma pergunta e a cobrança pela resposta dentro da mesma fala, dão vida e verossimilhança ao diálogo.

Passos também sabe utilizar detalhes que parecem desnecessários para revelar a personalidade de seus personagens.

(…) fui e acendi a luz do cômodo. Vi a cama, com as cabeceiras encostadas contra o guarda-roupa, uma mesinha nova ao lado da janela e, já em cima dela, o abajur com a manga de vidro enroscada em volta de uma lâmpada transparente, amarela, das que gosto de usar. Até ali não tive qualquer reação. O que experimentei depois foi curioso como um golpe de conforto. Como se minha mulher tivesse posto um ponto final na questão que vinha nos causando tanta confusão e remordimento. Passei para lá naquela mesma noite, cuidando de organizar alguma coisa do trabalho e também as minhas próprias anotações.

Notem que quando o personagem acende a luz do quarto, vê apenas o que está diante dos seus olhos, mas quando percebe o abajur com a manga de vidro enroscada em volta de uma lâmpada transparente amarela (e não um simples abajur, como a cama, o guarda-roupa e a mesinha), das que ele gosta, e provavelmente o acende, é como se o personagem voltasse para si mesmo e encontrasse o ponto final do problema que havia tido com sua mulher — que soube montar o espaço com uma sutileza que agrada o marido, que gosta de ser paparicado.

Para não ser só elogios — o que não seria um problema —, o escritor poderia usar os verbos dicendi com maior parcimônia. Vejam este exemplo (os grifos são meus):

Com a porta aberta pude ouvir o falatório. Ela queria saber se eu precisava de ajuda para descer. Falei que não.

A senhora estava aí fazia tempo?

Que pergunta, ela disse.

Só por curiosidade, insisti.

Ficamos em silêncio.

Hoje, não, ela disse, e passou outra vista pelo meu quarto.

É mesmo imprescindível a utilização do “ela disse” nas duas situações? Ou tal repetição foi proposital? Acredito que o segundo seja mesmo de suma importância, principalmente por ligar a fala à ação que a sucede, mas se o primeiro tivesse sido suprimido, o texto continuaria funcionando muito bem. Não seria exigir muito do leitor que inferisse quem estava dizendo “que pergunta”.

Esse pequeno problema, porém, não causa prejuízo algum ao excelente O sonâmbulo amador, obra das mais marcantes da literatura brasileira contemporânea, na qual Passos apresenta uma linguagem ainda mais redonda do que em Nosso grão mais fino. É o tipo de livro que o leitor continua lendo simplesmente por ser bom, não por querer descobrir algo ou chegar a algum lugar — ainda que descubra, ainda que chegue.

Texto publicado originalmente na edição 154 do jornal literário Rascunho.

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