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Por Rodrigo Casarin

Adulterio_Capa WEBVigésimo sétimo livro de Paulo Coelho, Adultério, como o título já entrega, trata-se de uma história de traição, com pitadas de erotismo soft à 50 Tons de Cinza e dose de apelo sob medida para garantir o sucesso – de vendas, veja bem – do escritor brasileiro mais lido e traduzido em todo o mundo (a obra de Coelho foi publicada em 168 países e transposta para 80 idiomas).

Adultério acompanha Linda, uma bela jornalista de 31 anos que trabalha no jornal mais importante da Suíça francesa e se veste com as melhores roupas que o dinheiro pode comprar. Mora em Genebra junto de seus dois filhos, que são razão de seu viver, e de seu marido, dono de um fundo de investimentos e que todo ano aparece na lista da revista “Bilan” dentre as 300 pessoas mais ricas do país.

Linda leva uma vida tranquila, daquelas que parecem possíveis somente na ficção mesmo. Contudo, apesar de amar os filhos e seu marido, sente-se incompleta e deprimida. Tem o desejo de fazer algo diferente, experimentar o novo, sair da rotina. A oportunidade surge quando vai entrevistar Jacob König, um ex-namorado da escola, casado com Marianne – uma mulher que aparentemente não liga para as puladas de cerca do seu companheiro –, e que agora é candidato a um cargo do governo suíço e uma das peças proeminentes do jogo político do país.

Ao final da entrevista, ambos terminam o que haviam começado na adolescência. Nesse momento, temos o primeiro flerte de Adultério com a onda de livros eróticos populares que dominou o mercado editorial após o lançamento da trilogia 50 Tons de Cinza. No novo trabalho de Coelho, o sexo está presente e bastante explicitado, com detalhes talvez até excessivos e deslocados. De volta ao pós-entrevista, a traição que move o livro está consumada.

Como já deu para perceber nesta breve introdução, os personagens de Adultério são superlativos. Estamos falando de um dos 300 homens mais ricos da Suíça, de uma das jornalistas mais respeitadas do país e de um dos homens mais importantes da política local. Parece não haver espaço para meio-termo na obra do escritor. Esse conceito se arrasta para diversos outros pontos. Linda, por exemplo, ou nunca tem orgasmo ou passa a ter orgasmos múltiplos. Também só consegue pensar que é infeliz – e repete isso exaustivamente ao longo de boa parte da história – e que gostaria de ser feliz, como se qualquer uma das possibilidades pudesse ser completa e inesgotável, não estados que mudam, muitas vezes repentinamente, e que apenas temperam a rotineira normalidade da vida.

Mas os problemas de Adultério não se encerram aí. A questão da traição é tratada de maneira quase infantil. Linda se arrasta pelas páginas como uma adolescente de 16 anos que trai seu primeiro namorado, não como uma mulher de cultura refinada – é o que supomos por tudo que a cerca, ao menos. Seus pensamentos são pouco complexos e recheados de um moralismo pragmático, como se a única maneira de se encarar o adultério fosse se sentir suja e culpada. Perde-se a chance de tratar de temas como a diferença entre amor e sexo, a necessidade de atender os próprios desejos enquanto precisamos manter o que a sociedade espera de nós e até mesmo a possibilidade de um relacionamento que fuja do padrão. Enfim, acomoda-se no tranquilo senso comum.

Há ainda personagens que são apresentados com alguma contundência, mas depois simplesmente desaparecem do livro (é o caso do vizinho de Linda que gosta de passar os finais de semana encerando seu Audi), frases que soam como se fossem mal traduzidas – apesar de eu deduzir que a obra tenha sido escrita em português, afinal, trata-se de um escritor brasileiro e não há nenhuma referência a tradutores na ficha técnica do livro – e ideias que até parecem sofisticadas pela verborragia que as orna, mas não resistem a uma reflexão um pouco mais atenta e crítica do leitor.

Para compôr Adultério, Paulo Coelho realizou pesquisas na internet, trocou e-mails com pessoas que entraram em depressão por conta de problemas amorosos e, em entrevista recente ao jornal “O Estado de São Paulo”, disse que procurou transformar o que leu em um relato sobre a traição que vem do coração, não do corpo. Então, talvez o que tenha faltado para a história seja a complexidade da mente. Mas nada que impedirá que as pilhas de livros das livrarias se desfaçam em pouco tempo.

Texto publicado originalmente no Uol.

 

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Por Rodrigo Casarin

cronicas de viagemAntes dos holofotes da cena literária se voltarem para Paulo Coelho, Luiz Ruffato e a polêmica das biografias, um tema que vinha novamente sendo bastante discutido era a autoficção, muito por conta do lançamento de Divórcio, de Ricardo Lísias. A edição 162 do Rascunho, inclusive, trouxe o excelente ensaio A imposição do “eu”, de Luciana Hidalgo, obrigatório para quem se interessa pelo assunto.

Uma obra que poderia incitar algo nas conversas é Crônicas de viagem, de Peter Ferry. Nela, um escritor chamado Peter Ferry conta para os seus alunos de escrita criativa uma história que ganha força e passa a ser a narrativa principal do livro. Ferry diz que presenciou um acidente, e que neste uma mulher, Lisa Kim, morreu. Contudo, ele supostamente poderia ter evitado a tragédia e, por isso, carrega consigo a culpa. Decide, então, investigar quem era aquela mulher.

Em seguida, a história dessa busca se mistura com elementos da vida particular de Ferry. O relacionamento com Lydia, sua companheira, começa a degringolar por conta da fixação do parceiro por saber quem era Lisa. Também precisa se afastar das salas de aula e viajar para conseguir continuar a escrever a história — que está sendo contada para seus alunos, vale lembrar. De certa forma, o que chega aos leitores é seu tatear, a busca por ela e por como contá-la, algo que remete ao que Julián Fuks fez em Procura do romance.

E as crônicas de viagem?

Antes de nos aprofundarmos em por que o livro poderia contribuir para a discussão da autoficção, vale dizer que Crônicas de viagem não é um livro de viagem, e nem de crônicas de viagem, como seria de se esperar. Não das viagens a que a palavra nos remete, aquelas em que nos deslocamos de um lugar para o outro e vivemos durante algum tempo numa realidade distinta da que estamos habituados. É sim um romance que traz alguns relatos de viagens. O mais interessantes deles é sobre Bangkok, na Tailândia. Ferry, o personagem, fala com aparente propriedade sobre as famosas putas do sudeste asiático, parece se apaixonar por elas. Sobre a cidade, define: “Bangkok é o bordel da Ásia… A cidade inteira exala uma ligeira sordidez”.

Viaja também para duas cidades mexicanas: San Miguel de Allende e Curnavaca, onde passa um longo período porque o lugar tem uma calmaria boa para um escritor, detecta que por lá pessoas são menos importantes que máquinas e conhece Charlie, “um homem complexo, original, perturbado, multidimensional, autoinventado, cheio de falhas e idiota, mas um homem completo”, um dos personagens mais interessantes da obra. Outros destinos são as florestas canadenses e, ao final, Doolin, na Irlanda.

Mas esses deslocamentos são passagens pontuais e estão longe de caracterizar o livro como uma narrativa de viagem. “Crônicas de viagem. É uma espécie de metáfora”, diz o protagonista em um diálogo. E é uma pena, pois essas viagens são as partes mais interessantes do livro, muito melhores do que quando estamos na história principal.

Voltando à discussão

Até aqui, encarei o Peter Ferry do livro somente como um personagem homônimo de seu criador. Entretanto, vale trazermos alguns poucos elementos biográficos do Peter Ferry de carne e osso. Como seu personagem, obviamente, ele também é escritor. Também é professor e escreve crônicas de viagem. Com isso, e pela maneira que a história é narrada e estruturada (um livro de Peter Ferry, que tem como personagem um professor chamado Peter Ferry que cria uma história com um também professor Peter Ferry), a confusão é inevitável. Mas é nos diálogos que o personagem trava com os alunos que aparecem alguns elementos que realmente poderiam contribuir com a discussão.

De início, o professor deixa claro que a história que está contando é inventada e mostra a força que uma narrativa pode ter:

É claro que nada disso aconteceu na realidade. Eu já disse isso a vocês quatro vezes, e vocês sabem que não aconteceu. Mas olhem para vocês. Estão todos interessados, querem saber o resto, querem saber se ela estava nua, o que havia de errado com ela, o que eu fiz ou deixei de fazer e todo o resto, embora eu esteja inventando tudo isso bem na cara de vocês. É por isso que as histórias são tão poderosas.

“Estou tirando essa história da minha cabeça agora”, diz em outra oportunidade para depois embaralhar tudo: “A história da moça no carro realmente aconteceu, é claro, ou poderia ter acontecido, ou talvez tenha mesmo acontecido”. O que fica é a boa bagunça na cabeça dos alunos — e do leitor.

Ora, mas se o criador da história já disse que ela é inventada, por que não acreditamos? Simples: porque a mentira pode estar nessa informação.

O problema está já na epígrafe do livro, uma citação de E. M. Forster: “Os homens no rio estavam pescando. (Mentira; mas também assim é a maioria das informações)”. Pouco importa se pescavam ou não. Para ir mais além, independentemente de verdades ou falsidades, o que interessa é que o máximo que conseguimos atingir é uma versão de uma história real que, se não é uma mentira, também está longe de ser a realidade. Pode ser uma verdade, mas, para alcançar essa uma verdade, abrimos mão de infinitas outras — parece confuso, e é mesmo. De certa forma, é esse ponto que Lísias aborda em seus discursos e é essa falta de limites entre o inalcançável e irretratável real (que talvez pudesse ser encarado como a totalidade das verdades) e o fictício que Javier Cercas usa tão bem em suas criações arraigadas em eventos históricos, por exemplo.

Mas, voltando ao livro de Ferry, o tempo todo disse que ele poderia acrescentar algo à discussão, só que isso não deverá acontecer, pois a obra em si deixa a desejar. Sua história central não funciona bem, as crônicas de viagem, apesar de boas, mais confundem do que contribuem e diversas situações deveriam ser trabalhadas com um cuidado maior: muita coisa acontece de maneira fácil, discussões na sala de aula contam com vozes secundárias que mais parecem filmes pessimamente dublados, e pontos interessantes que mereciam ser explorados são deixados de lado. Em determinado momento, o personagem Ferry diz para seus alunos “Um escritor precisa acreditar que o que está escrevendo naquele exato momento é a coisa mais importante que alguém já escreveu na vida”. Será que Ferry, o escritor, acreditava Crônicas de viagem era a coisa mais importante que ele escreveu na vida? Acho que não.

Texto publicado originalmente na edição 163 do jornal literário Rascunho.

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