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Por Rodrigo Casarin

Gado Novo_Guille ThomaziNeste ano, em virtude da Copa do Mundo, uma turba de livros sobre futebol dominou as prateleiras. Tive contato, li parte deles e raros foram os que julguei realmente oportunos – o melhor de todos, O drible, de Sergio Rodrigues, é do ano passado. Das novidades, uma boa obra é Entre quatro linhas, coletânea de contos sobre o esporte organizada por Luiz Ruffato, que traz nomes como Ronaldo Correia de Brito, Tatiana Salem Levy, Carola Saavedra, André Sant’anna, Rogério Pereira e Cristovão Tezza, que alternam textos razoáveis com outros bons. Entretanto, no volume, um trabalho realmente se destaca: “Raimundo, o dono da bola”, de Eliane Brum.

Em seu conto, Eliane usa o futebol para ir além, mostrando a famigerada bravura e a coragem do sertanejo, mas também toda a sua fragilidade e inocência. Raimundo é um homem bruto e matuto, que nasceu e cresceu no meio da floresta e conhece o futebol somente pelo que ouve no rádio – nunca assistiu a partida alguma, portanto, o esporte acontece somente em seu imaginário, na ficção que cria com as informações que os locutores tentam transmitir, emular aquilo que o interiorano jamais viu.

As coisas mudam quando Valdir aparece em sua vida e, ao mesmo tempo que abre um ponto de contato entre Raimundo e a vida urbana ou moderna, também traz consigo os males da civilização. Utilizando o futebol – que passa efetivamente para o plano real, com traves e bola -, Valdir ganha a amizade do outrora desconfiado e fechado Raimundo e consegue arquitetar a sua ruína. O conto é de uma violência – não apenas física, mas moral, emocional e contra a natureza, inclusive – extrema, é daqueles que marcam e perturbam o leitor. O jogo acaba sem gol, sem apito final, mas com uma selvagem e destrutiva invasão de campo, digamos.

Numa conversa, Eliane me disse que algumas pessoas se queixaram que o texto era muito grande para um conto. Quanta mediocridade! Primeiro porque “Raimundo, o dono da bola”, com suas 31 páginas, se não é exatamente pequeno, também não é nenhum Guerra e paz do gênero. Segundo, porque isso pouco importa. A qualidade do trabalho não está condicionada a seu tamanho. Essa lógica, na ordem reversa, poderia colocar em cheque, por exemplo, o bom Gado novo, de Guille Thomazi, uma novela de 50 páginas – o livro tem 68, mas descontei as que não trazem exatamente o trabalho literário do autor. Será que alguém se queixou com Thomazi que seu livro é muito pequeno? Espero que não.

Violência do campo

Gado novo traz outra história de extrema violência que se passa no campo. Eu nasci em Campinas e cresci em São Paulo – digo que minha mãe foi me parir lá apenas para que os outros pudessem fazer piadas relacionadas à cidade -, costumava passar alguns dias de férias em Lins, no interior paulista, mas jamais estive efetivamente no campo, em uma daqueles longos vazios de fazendas gigantescas, cujos vizinhos, às vezes, estão separados por quilômetros de distância e cada endereço, de alguma forma, acaba sendo uma cidade em si mesmo. Durante muito tempo, a imagem que tive desses lugares é aquela do censo comum para um homem médio da cidade grande (ou seja, formado seguindo uma longa lista de clichês): são terras onde se vive em contato direto com a natureza, o que traz paz e tranquilidade. Lá, as pessoas plantam e criam o que comem, precisam apoiar-se e proteger-se mutuamente, o que gera uma boa relação social, que, graças às distâncias, acaba não sendo banalizada pela convivência diária. São pessoas corteses, sempre preparadas para abrir as portas de casa e receber visitantes, mesmo que sejam desconhecidos. (O clichê também tem uma variação para as cidades interioranas, segue a linha do “quero mudar pra lá porque a vida é mais tranquila, menos violência, trabalhar perto de casa, num lugar onde as pessoas se respeitam e blá blá blá”).

Entretanto, ao conversar com pessoas desses lugares e ao ler ou assistir aos relatos de como é realmente a vida nessas enormes e pouco habitadas fazendas, percebo que muitas vezes esse ideal só existe mesmo na imaginação. Se no conto de Eliane é o homem da cidade que leva a desgraça para o isolado homem do campo, na novela de Thomazi o homem do campo, já influenciado pela vida da cidade, é o próprio responsável pelas suas mazelas.

A história começa com o narrador, sempre em primeira pessoa, procurando por um norte. “O dia nasceu torto. A menina nasceu sem futuro. Descobri como se faz mal ao mundo”. As frases são bastante breves, como se o personagem, cansado e confuso, buscasse fôlego para continuar. A tragédia está feita e ele gostaria de remediá-la, entretanto, há atitudes que são impossíveis de se contornar.

Com o passar dos capítulos, o foco da narrativa vai mudando e o ponto de vista alternando de personagem – passa pela avó da menina, o padrasto, o peão, um forasteiro – e Thomazi constrói uma intricada teia, às vezes confusa, como é mesmo a vida. Cabe ao leitor situar-se dentro da obra e procurar, por meio dos relatos, dar corpo à sua própria versão da macro-história proposta – impossível ler de fato Gado novo sendo um leitor passivo. Conforme o foco muda, o texto, o ritmo, o vocabulário, também mudam, e de maneira precisa, mostrando que o jovem escritor – que nasceu em 1986 – já em seu livro de estreia apresenta bom domínio das técnicas narrativas.

Animais, humanos, humanos animais

Uma outra característica da novela de Thomazi que me chamou a atenção é a batalha entre diferentes animais pela sobrevivência. Quando o homem se depara com o bicho, a forma como se matam bois, por exemplo, pode impressionar algum urbanóide como eu, acostumado apenas com a carne já fria, pronta para ir à churrasqueira. “Paraguay não tem dó nem mão mole. Empurra a faca no peito do bicho, no espaço entre os ossos para que dê no coração” – escreve e me lembra que cresci ouvindo o quanto é cruel quando se erra essa facada no porco, que solta um berro que causa condolência até mesmo nos mais acostumados em sacrificar os futuros alimentos. Em seguida, “cortar a carne viva é uma das funções com a qual ocasionalmente nos deparamos, e o fazemos com naturalidade”, registra uma das mulheres da obra.

Entretanto, é a violência entre dois bichos da mesma espécie que merece maior destaque: a do homem contra o homem, essa tão bem conhecida por qualquer um, seja a pessoa da cidade, do campo, da praia, da floresta… “O homem meio fora de si podia decidir passar fogo em mim era ali mesmo”, pensa um dos personagens. E poderia mesmo, sempre pode. Passar fogo, espancar, vilipendiar… Sempre é preciso que um animal humano sobreviva a outro animal humano. A menina não conseguiu resistir e sua morte foi terrível: marcas de arma branca, semidespida, roupa íntima arrancada, saia rasgada, mordidas no pescoço e nos seios miúdos, falta de parte do lábio inferior, perfurações no abdômen, olhos abertos…

Quando o homem perde para o homem. Raimundo perdeu o seu lugar e Isabel jamais chegará.

Texto publicado originalmente no jornal literário Rascunho.

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Por Rodrigo Casarin

bibliotecário do imperadorO objeto livro é a principal plataforma (ao menos ainda) para a publicação da literatura. Contudo, qual seria a máxima relação entre um livro e uma obra literária? Não digo um entrar com o entorno e as páginas e o outro com o conteúdo, isso já é o que acontece. E se dados vitais do texto estivessem no ISBN ou na ficha catalográfica? E se a ilustração da capa ou as inscrições da lombada contivesse informações essenciais para que a história seja entendida? E se um detalhe fundamental sobre o cenário, algo que explica muitas das ações dos personagens, estivesse naquela última página, no meio do “este livro foi composto em papel x para a editora y e impresso na gráfica h no outono do ano tal”? Mais, e se o tipo de papel estivesse diretamente relacionado com o enredo? Estaríamos indo além da literatura, conciliando a arte com o objeto livro em uma simbiose total.

Faço essas perguntas provocado pela leitura de O bibliotecário do imperador, de Marco Lucchesi. Não que a obra apresente alguma dessas “contravenções”, mas um ponto me levou à divagação. A história começa com um prefácio do revisor. Prefácios são comuns, mas, de revisores, bastante raros (para falar a verdade, nunca tinha visto nenhum). Mais, ao final, não há assinatura do prefácio. Ainda mais, o prefácio é precedido por um “1” bem grande, iniciando a contagem dos capítulos. Ou seja, o espaço destinado ao comentário que antecede a obra foi incorporado à narrativa. Pode não ser a coisa mais original do mundo, mas é algo bastante raro — o que é bom, convenhamos.

Nele, o revisor, que assume pouco entender de literatura moderna, faz algumas ponderações ao livro que está por vir. Compara a obra com outras que cansou de revisar, afirma que ela não tem foco e está alicerçada sobre terreno incerto e movediço, diz que o autor “não entende quase nada sobre muita coisa”. Como se quisesse desencorajar o leitor — a quem faz elogios protocolares —, dispara: “Descobre-se que o livro, que antes parecia um rio caudaloso, não passa de um logro, de um simples riacho, quase sem água. Tentei preveni-lo [o autor], mas sua vaidade não permitiu sequer uma troca de palavras”. E termina com uma frase típica dos saudosistas: “Sinto saudades dos escritores antigos, dos que sabiam tecer uma narrativa densa e ao mesmo tempo ágil”.

Essa intromissão do suposto revisor tem desdobramentos ao longo da obra. Em diversos momentos, o narrador procura se justificar para o revisor. Um exemplo: “E se me perco em devaneios, meu bom Revisor, se não vou direto ao ponto é porque não achei infelizmente o esqueleto de Inácio [o alvo da investigação que deveria mover a obra]”. Se não bastasse, em algumas oportunidades o revisor se torna um intruso e volta para discutir, por meio de notas de rodapé.

A ideia até que é boa, mas a execução não funciona bem. Primeiro porque, no prefácio, o que o revisor-personagem escreve soa como uma justificativa, um mea-culpa do autor pelo o que está por vir. Segundo, porque as discussões ao longo do texto são forçadas e inverossímeis. Não faz sentido autor e revisor discutirem durante a narrativa, da mesma forma que não faz sentido um revisor atacar o autor no livro deste, com aval até mesmo do editor. Soa inverossímil. Ao final, o intrometido acaba sendo um fantoche para que o autor consiga chamar a atenção para alguns momentos da história, como se utilizasse esse personagem para poder comentar e dar alguma complexidade ao seu próprio texto a partir de pontos de vista conflitantes.

Alguma razão para o revisor
Mas a obra de Lucchesi não se resume a essa questão, é claro. O bibliotecário do imperador é uma espécie de busca pela história de Inácio Augusto César Raposo, responsável por cuidar dos livros de dom Pedro II. Para tentar reconstruir a vida de Inácio, o narrador vai em busca de vestígios que mostram a relação do personagem com o objeto livro. Contudo, o sucesso é parco e o texto resulta numa espécie de biografia ficcional frustrada, apenas com um tatear da história, como um esboço da pessoa que teria sido Inácio. O próprio narrador/pesquisador define bem o rastro daquele que norteia o seu trabalho: é um “personagem à procura de um autor, porque precisa contar sua própria vida, como no drama de Pirandello, vestido de preto, náufrago de sua geração. E, no entanto, desapareceu de repente, como um fantasma, obrigando-me a persegui-lo nas raras pistas que encontrei”. Pistas que foram insuficientes.

Essa busca frustrada, ancorada principalmente em documentos e cartas que aparecem aos montes (empobrecendo a narrativa), acaba por fazer com que o narrador pegue raiva de Inácio, o que rende alguns bons momentos, como o próprio narrador supondo que o “biografado” deixou parcos rastros apenas para que sua história não pudesse ser contada no futuro. “Vejo-me aborrecido com sua decisão de deixar a cena, pouco antes do fim do ato, longamente planejado e consumado, sem aviso prévio, fora de enredo, a produzir graves resultados ficcionais, trajando terno escuro, chapéu e casemira. Como se de mim suspeitasse, digamos, cem anos antes, e mais obstinado se mostrasse, e foragido, nas dobras do tempo, despistando sempre, apagando as provas, assaltando afrontosamente os bolsos do futuro”.

Ao final, em um dos momentos mais interessantes do livro, Inácio aparece para discutir com o narrador, chamando-o diretamente de Marco Lucchesi. Não fica claro como o fenômeno metafísico se dá, mas ele resulta em um excelente diálogo no qual o biografado reclama do biógrafo por ter transformado parte de sua vida em um livro, o que nos remete à discussão de quem possui os direitos de uma história, da legitimidade de se narrar uma vida alheia sem que o objeto de inspiração e pesquisa autorize o escritor para tal.

Não bastasse o revisor, o protagonista da história também não gosta da obra composta por Lucchesi, que é um livro razoável, com alguns bons momentos, algumas máximas interessantes (como “A biografia de um homem de livros encerra uma contradição. A vida e o livro são inimigos ferozes. Viver no seio da biblioteca reflete o isolamento de um bibliopata”), mas nada muito além disso, nada marcante. Vendo como o autor se utilizou de elementos em sua narrativa para, a todo momento, defender a obra, fico na dúvida se até mesmo Lucchesi não teria ressalvas a fazer sobre O bibliotecário do imperador.

Contudo, para não ser injusto, ao final fiquei com outro pensamento: o que acontece com a história das pessoas comuns depois que elas, os amigos e parentes próximos se vão? Nós morreremos de verdade, definitivamente, quando mais nenhuma história sobre nós é contada ou lembrada. Então, se nossa vida está num livro, há uma chance a mais de continuarmos a viver. É algo para se pensar mais a fundo, discutir comigo mesmo — às vezes o Rodrigo e o Rodrigo se pegam feio aqui na mente — e, quem sabe, abordar em um texto futuro.

Texto publicado originalmente no jornal literário Rascunho.

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Por Rodrigo Casarin

cronicas de viagemAntes dos holofotes da cena literária se voltarem para Paulo Coelho, Luiz Ruffato e a polêmica das biografias, um tema que vinha novamente sendo bastante discutido era a autoficção, muito por conta do lançamento de Divórcio, de Ricardo Lísias. A edição 162 do Rascunho, inclusive, trouxe o excelente ensaio A imposição do “eu”, de Luciana Hidalgo, obrigatório para quem se interessa pelo assunto.

Uma obra que poderia incitar algo nas conversas é Crônicas de viagem, de Peter Ferry. Nela, um escritor chamado Peter Ferry conta para os seus alunos de escrita criativa uma história que ganha força e passa a ser a narrativa principal do livro. Ferry diz que presenciou um acidente, e que neste uma mulher, Lisa Kim, morreu. Contudo, ele supostamente poderia ter evitado a tragédia e, por isso, carrega consigo a culpa. Decide, então, investigar quem era aquela mulher.

Em seguida, a história dessa busca se mistura com elementos da vida particular de Ferry. O relacionamento com Lydia, sua companheira, começa a degringolar por conta da fixação do parceiro por saber quem era Lisa. Também precisa se afastar das salas de aula e viajar para conseguir continuar a escrever a história — que está sendo contada para seus alunos, vale lembrar. De certa forma, o que chega aos leitores é seu tatear, a busca por ela e por como contá-la, algo que remete ao que Julián Fuks fez em Procura do romance.

E as crônicas de viagem?

Antes de nos aprofundarmos em por que o livro poderia contribuir para a discussão da autoficção, vale dizer que Crônicas de viagem não é um livro de viagem, e nem de crônicas de viagem, como seria de se esperar. Não das viagens a que a palavra nos remete, aquelas em que nos deslocamos de um lugar para o outro e vivemos durante algum tempo numa realidade distinta da que estamos habituados. É sim um romance que traz alguns relatos de viagens. O mais interessantes deles é sobre Bangkok, na Tailândia. Ferry, o personagem, fala com aparente propriedade sobre as famosas putas do sudeste asiático, parece se apaixonar por elas. Sobre a cidade, define: “Bangkok é o bordel da Ásia… A cidade inteira exala uma ligeira sordidez”.

Viaja também para duas cidades mexicanas: San Miguel de Allende e Curnavaca, onde passa um longo período porque o lugar tem uma calmaria boa para um escritor, detecta que por lá pessoas são menos importantes que máquinas e conhece Charlie, “um homem complexo, original, perturbado, multidimensional, autoinventado, cheio de falhas e idiota, mas um homem completo”, um dos personagens mais interessantes da obra. Outros destinos são as florestas canadenses e, ao final, Doolin, na Irlanda.

Mas esses deslocamentos são passagens pontuais e estão longe de caracterizar o livro como uma narrativa de viagem. “Crônicas de viagem. É uma espécie de metáfora”, diz o protagonista em um diálogo. E é uma pena, pois essas viagens são as partes mais interessantes do livro, muito melhores do que quando estamos na história principal.

Voltando à discussão

Até aqui, encarei o Peter Ferry do livro somente como um personagem homônimo de seu criador. Entretanto, vale trazermos alguns poucos elementos biográficos do Peter Ferry de carne e osso. Como seu personagem, obviamente, ele também é escritor. Também é professor e escreve crônicas de viagem. Com isso, e pela maneira que a história é narrada e estruturada (um livro de Peter Ferry, que tem como personagem um professor chamado Peter Ferry que cria uma história com um também professor Peter Ferry), a confusão é inevitável. Mas é nos diálogos que o personagem trava com os alunos que aparecem alguns elementos que realmente poderiam contribuir com a discussão.

De início, o professor deixa claro que a história que está contando é inventada e mostra a força que uma narrativa pode ter:

É claro que nada disso aconteceu na realidade. Eu já disse isso a vocês quatro vezes, e vocês sabem que não aconteceu. Mas olhem para vocês. Estão todos interessados, querem saber o resto, querem saber se ela estava nua, o que havia de errado com ela, o que eu fiz ou deixei de fazer e todo o resto, embora eu esteja inventando tudo isso bem na cara de vocês. É por isso que as histórias são tão poderosas.

“Estou tirando essa história da minha cabeça agora”, diz em outra oportunidade para depois embaralhar tudo: “A história da moça no carro realmente aconteceu, é claro, ou poderia ter acontecido, ou talvez tenha mesmo acontecido”. O que fica é a boa bagunça na cabeça dos alunos — e do leitor.

Ora, mas se o criador da história já disse que ela é inventada, por que não acreditamos? Simples: porque a mentira pode estar nessa informação.

O problema está já na epígrafe do livro, uma citação de E. M. Forster: “Os homens no rio estavam pescando. (Mentira; mas também assim é a maioria das informações)”. Pouco importa se pescavam ou não. Para ir mais além, independentemente de verdades ou falsidades, o que interessa é que o máximo que conseguimos atingir é uma versão de uma história real que, se não é uma mentira, também está longe de ser a realidade. Pode ser uma verdade, mas, para alcançar essa uma verdade, abrimos mão de infinitas outras — parece confuso, e é mesmo. De certa forma, é esse ponto que Lísias aborda em seus discursos e é essa falta de limites entre o inalcançável e irretratável real (que talvez pudesse ser encarado como a totalidade das verdades) e o fictício que Javier Cercas usa tão bem em suas criações arraigadas em eventos históricos, por exemplo.

Mas, voltando ao livro de Ferry, o tempo todo disse que ele poderia acrescentar algo à discussão, só que isso não deverá acontecer, pois a obra em si deixa a desejar. Sua história central não funciona bem, as crônicas de viagem, apesar de boas, mais confundem do que contribuem e diversas situações deveriam ser trabalhadas com um cuidado maior: muita coisa acontece de maneira fácil, discussões na sala de aula contam com vozes secundárias que mais parecem filmes pessimamente dublados, e pontos interessantes que mereciam ser explorados são deixados de lado. Em determinado momento, o personagem Ferry diz para seus alunos “Um escritor precisa acreditar que o que está escrevendo naquele exato momento é a coisa mais importante que alguém já escreveu na vida”. Será que Ferry, o escritor, acreditava Crônicas de viagem era a coisa mais importante que ele escreveu na vida? Acho que não.

Texto publicado originalmente na edição 163 do jornal literário Rascunho.

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Por Rodrigo Casarin

Marcos_Peres_Evangelho_Segundo_Hitler_162-140x215Uma sociedade secreta em busca da verdade do mundo, do segredo mais profundo do cristianismo e da reencarnação de seu Messias. Uma seita de homens tatuados, mensagens subliminares encontradas nos contos de um escritor famoso, o homônimo deste escritor se transformando em seu duplo e tomando o lugar nada aprazível que caberia ao primeiro. Uma paixão improvável que ganha forças. A busca por vingança… Uma maçaroca de elementos que deixa alguns leitores realmente preocupados com o que estão começando a ler.

O evangelho segundo Hitler, de Marcos Peres, é um livro bastante atraente, a começar pelo seu nome, realmente forte. A também chamativa capa traz a informação de que se trata do vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013. Na quarta capa, palavras elogiosas de Manuel da Costa Pinto; na orelha, mais elogios, desta vez de André Sant’Anna, nomes que ajudam a dar credibilidade à obra. Mas a preocupação com a miscelânea de assuntos permanece. Faz muitos anos, mas já li O código da Vinci Anjos e demônios, e não gostaria de repetir a experiência, ainda que com outro título.

Pelo visto, Peres é um escritor atento, que se preocupa com o que o leitor irá achar do seu livro antes mesmo de lê-lo. Sabe que, apesar dos elogios, o que ele aparentemente promete pode gerar sérias desconfianças. Por isso, utiliza o prefácio para se justificar: “Minhas fontes eram os evangelhos canônicos, a curiosidade sobre História e a admiração por um escritor argentino chamado Jorge Luis Borges”, explica. Diz que gostaria de construir uma tese capaz de se erguer — ainda que de maneira frágil, como um castelo de areia —, mas não ser um “vendedor de teorias conspiratórias como os que pululam em livrarias”. Pelo contrário, gostaria de ser uma espécie de crítico daqueles que compram com facilidade qualquer tipo de teoria (e o que seria aceitar tudo em um texto literário? Tê-lo como verdadeiro? Plausível? Verossímil? Mas sigamos em frente). Para afastar de vez a sombra de Dan Brown, garante que se espelha principalmente em Umberto Eco, em O pêndulo de Foucault.

Menos mal, vamos ver se é isso mesmo, então.

Início desanimador

O começo de O evangelho segundo Hitler desmente o prefácio otimista de Peres e coloca em xeque os elogios de Pinto e Sant’Anna. Além do festival de elementos bem distintos que se entrelaçam, temos um texto ágil que se inicia com uma cena de muito suspense, um artigo misterioso, a procura por alguém que sabe de um segredo que mudou a história da humanidade… Tudo isso em capítulos breves e com finais em aberto, para que o leitor, totalmente envolvido com a trama e curioso para ter aqueles mistérios revelados, não desgrude um minuto sequer do livro; para que passe galopando de um capítulo para o outro. Ou desista.

Impossível não pensar em Dan Brown, não tem jeito. Mas, para que esse começo tenha alguma erudição, Peres desfila referências: cita Dostoiévski, irmãos Grimm, Dante, Harold Bloom, Aristóteles e até mesmo a Bíblia. Tivesse copiado qualquer um destes, é de se pensar.

Quisesse eu me apegar a isso e criticar negativamente a obra de Peres, poderia ir a fundo a alguns pontos, a começar pela relação que os jovens escritores brasileiros têm com Buenos Aires: parece que muitos deles conhecem mais a cidade portenha do que São Paulo, Curitiba, Belém, Cuiabá, Recife ou qualquer outro canto do Brasil. Falam de suas ruas e cafés como se falassem do quintal de casa (ou da sacada do apartamento). Reclamaria dos argentinos que dizem “Porra!” ao invés do tradicional “Carajo!”. Atacaria o terrível momento-clichê em que o protagonista pensa: “Que se fodam os alemães, Judas e essa bobeira toda. Dinheiro é o de menos, se com Raquel. Viveríamos de amor, em alguma praia perdida do Brasil, lendo livros de Jorge Amado e amando loucamente”. Repudiaria a quantidade de revelações da trama que há na capa, quarta capa e orelha, o que prejudica a história. Comentaria o momento em que a impressão é de que o autor é que está falando, não o narrador ou algum dos personagens.

Contudo, fizesse isso, estaria contaminado com as desanimadoras primeiras páginas. Sempre que leio uma obra, espero que ela seja boa e ao final eu possa elogiá-la e indicá-la aos amigos, por isso fiquei realmente contente em perceber que aquilo era um julgamento precipitado.

Grata reviravolta

A segunda impressão é que o livro se torna esquizofrênico, sem saber muito bem que caminho quer seguir, se o assumidamente pop ou algo que se aproxime da alta literatura. Mas logo fica nítido que Peres sabe o que está fazendo. A tensão afrouxa, o ritmo cadencia e recursos como flashback, digressão e quebra de expectativa começam a despontar oportunamente. O humor e a ironia, traços típicos de Borges, também aparecem. Dan Brown continua sim no imaginário, mas agora podemos ver O evangelho segundo Hitler como uma espécie de paródia dos livros do famigerado escritor estadunidense. O início, outrora terrível, já soa como um pastiche — um perigoso pastiche, aliás, que pode afastar alguns leitores e iludir outros com uma falsa promessa do que lerão pela frente.

E a narrativa que prometia voar desesperadoramente com o leitor de um canto para o outro da trama acaba apresentando uma estrutura bem definida, dividida em dois momentos. No primeiro plano está o presente que supostamente justifica toda a obra e que aos poucos vai perdendo espaço para o segundo plano, a revelar toda a história que leva o protagonista até o momento do plano inicial. Tudo bem amarrado no final e seguido de um epílogo que se conecta ao prefácio e abre a possibilidade para que a narrativa seja desconstruída: ponto para Peres.

Pela maneira que compôs seu livro de estréia, fica evidente que, além de fã, Peres é um grande conhecedor dos trabalhos de Jorge Luis Borges, caso contrário não conseguiria brincar da maneira que brinca com os contos do escritor argentino. O autor também utiliza elementos que fascinavam o autor de O aleph, como o próprio duplo e o Paradoxo de Zeno.

“Sei que nos escritos de Borges está a salvação do mundo, quiçá a minha própria. É só lê-lo com atenção. Lá está tudo, tudo o que um homem precisa saber em sua vida”, escreve Peres já nas últimas linhas de O evangelho segundo Hitler. Disso, poderia ter tirado mais uma obra à la Dan Brown, mas não, construiu uma verdadeira reverência a Jorge Luis Borges. E mais de Borges, até mesmo uma homenagem, é sempre ótimo.

Resenha publicada originalmente na edição 162 do jornal literário Rascunho

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Por Rodrigo Casarin

trem fantasmaA paixão de Paul Theroux pelos trens vem desde a sua infância, quando morava próximo aos trilhos que ligavam as cidades de Boston e Maine. Ao ouvir o barulho da locomotiva puxando todos os outros vagões, quase sempre sentia vontade de estar dentro de um deles. Theroux cresceu com a certeza de que o trem é um lugar seguro, ainda que a paisagem momentânea que o cerca possa ser extremamente desagradável. Para ele, é o melhor meio de transporte que há: não causa pânico como os aviões, não fede como os ônibus e não limita os movimentos dos passageiros como acontece em um automóvel.

Em 1973, quando já havia deixado os Estados Unidos e residia na Inglaterra, pegou um trem na Victoria Station, em Londres, rumo à estação central de Tóquio. Foi pelos trilhos do lendário Expresso do Oriente, parando e conhecendo cidades, conversando com pessoas, esboçando os seus próprios caminhos. Pegou também avião e navio, mas apenas quando trem algum poderia levá-lo ao destino seguinte. Precisou contornar o então quase impenetrável sul da União Soviética, encantou-se com a Índia e perambulou pelo sudeste asiático. Depois do Japão, o caminho de casa seria menos complexo. Um barco o levou até o gelado noroeste russo, onde subiu no Expresso Transiberiano. A ferrovia da volta era quase tão simbólica quanto a da ida.

Muita coisa na vida de Theroux mudou graças à aventura. Pessoalmente, é possível realizar-se, ao menos parcialmente, como viajante. Afetivamente, sua mulher lhe ornou com um par de chifres — o que lhe abriu a possibilidade de ser feliz em outro casamento. Profissionalmente, despontou como um promissor autor de narrativas de viagens após lançar O grande bazar ferroviário.

Trinta e três anos e muitos livros depois, o escritor quis saber se os locais por onde passara haviam mudado tanto quanto ele, e resolveu refazer a viagem que remodelou sua carreira. Saiu de Londres tendo o Japão como destino — e só não foi 100% fiel ao roteiro traçado na década de 1970 porque lhe recusaram o visto para o Irã e temeu ser seqüestrado e fuzilado no Afeganistão, mas ao menos pôde passar por reminiscências soviéticas, como o Turcomenistão e o Azerbaijão. A primeira viagem estava ali, como uma espécie de sombra contínua no seu caminho. Caberia ao escritor transformar a experiência em uma saudosa e modorrenta reprise de uma já desbotada aventura ou em algo novo, vívido, de real importância e incontestável valor literário e humano. Ao escrever Trem fantasma para a estrela do oriente, felizmente Theroux alcança a segunda alternativa.

Visão de mundo
Paul Theroux é um escritor em permanente evolução — ao menos em seus livros de não-ficção, pois não conheço seus trabalhos ficcionais. Uma mudança em sua personalidade acabou por impactar diretamente e positivamente em seus escritos: a maneira de ver o mundo. Quando escreveu O grande bazar, o escritor parecia ser um estadunidense quase caricato, que queria encontrar no resto do planeta as maravilhas de seu país natal, não outras possibilidades de se viver. Isso mudou. Em Até o fim do mundo, obra com trechos de diversos livros de viagens do autor, e O safári da estrela negra, que narra uma jornada pela África, essa transformação já era bastante perceptível. Contudo, é em Trem fantasma que ela fica mais latente.

A busca por entender, compreender e principalmente respeitar hábitos, culturas e formas de pensamento é essencial para que Theroux possa transmitir ao leitor um pouco de toda a complexidade dos lugares por onde passa. Sem um julgamento precipitado, o escritor consegue retratar toda a excentricidade, por assim dizer, de Saparmyrat Niyazov, então ditador do Turcomenistão, que rebatizou os meses do ano (janeiro passou a ter o seu nome) e tentou também rebatizar o pão com o nome de sua mãe.

A imersão em uma realidade completamente diferente é que leva Theroux a detectar a maneira como os vietnamitas lidam com as memórias da guerra com os estadunidenses. Há sim muita tristeza e pesar, mas em nenhum momento guardam rancor ou querem se vingar, pelo contrário, recebem e tratam Theroux com muita cordialidade. Para um filho do Tio Sam — e para os ocidentais, de uma maneira geral — isso é algo que beira o inverossímil. É o momento mais valioso de todo o livro. 

Domínio do gênero
Alguns preceitos são inerentes à narrativa de viagem, estão presentes em praticamente todas as boas obras do gênero. E Theroux sabe disso, a começar pela tentativa de estar em algum lugar para compreendê-lo; ser parte do todo sem modificá-lo, não um corpo estranho que causa ruídos. Isso permite ao viajante captar com mais fidelidade algo que se aproxime da essência dos lugares.

Um pensamento que Theroux transmite ao leitor logo nas primeiras páginas de Trem fantasma para a estrela do oriente tem muito a ver com isso: ele acusa viajantes de generalizarem lugares a partir de experiências brevíssimas, de tirarem conclusões de evidências insuficientes. Só faltou dizer que esses viajantes ainda escrevem para revistas de turismo. Ótimo que Theroux tenha consciência disso, ainda que também tente algumas generalizações.

É também importante que um viajante ganhe ares de “sabichão”. Theroux resgata passagens e se aprofunda no passado de muitos lugares, como se dominasse a história de cada canto recôndito da Terra. Não se engane, muitas pesquisas e estudos posteriores à viagem precisam ser feitos para que se atinja esse nível de excelência.

Por fim, o aspecto mais importante para que a narrativa de viagem possa ser vista como uma peça literária: o texto de Theroux é realmente bom. Ao longo de Trem fantasma, somente dois problemas me chamaram a atenção: a repetição de alguns conceitos (a maneira como a Índia atual vale-se da exploração de trabalhadores, por exemplo) e o último capítulo, uma espécie de breve ensaio repleto de chavões sobre viagens. Nada que tire o brilho da obra.

Resenha publicada originalmente na edição 161 do jornal literário Rascunho 

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Por Rodrigo Casarin

escritor fim do mundoO ano era 2007 e Juremir Machado da Silva, tradutor de Michel Houellebecq para o português (vertera Partículas elementares Extensão do domínio da luta até então), havia conseguido que o escritor francês fosse um dos convidados do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento. Convite aceito, Houellebecq pede ao “amigo” Juremir que, junto com sua mulher Claudia, também o acompanhe a uma viagem a Buenos Aires, Ushuaia e El Calafate. Vão à Patagônia porque é o lugar habitado mais ao Sul do mundo; porque, para os franceses, há a impressão de que nenhum outro canto pode ser mais longe — ainda que a Nova Zelândia seja mais distante da França — e porque, na ocasião, Houellebecq vendia mais livros na Argentina do que em todos os outros países hispânicos juntos.

Claro que o casal aceita o pedido — caso contrário, Um escritor no fim do mundo (viagem com Michel Houellebecq à Patagônia) não existiria e, conseqüentemente, esta resenha tampouco. Embarcam em uma viagem de sete dias, e é importante notar como de algo tão breve Juremir retirou um bom e valioso relato. Livros de viagens costumam retratar longas expedições — como Na trilha da humanidade, de Airton Ortiz —, aventuras que duram meses — O safári da estrela negra, de Paul Theroux —, buscas por algo quase sagrado — A última casa de ópio, de Nick Tosches — ou profundas imersões na cultura um país ou região ao menos um pouco estranho ao viajante-escritor — Colômbia espelho América, de Edvaldo Pereira Lima. Em todos os casos, quanto mais tempo o explorador tiver para flanar pelo desconhecido, melhor.

Talvez por não ter tido tanto tempo para esmiuçar a cultura local, talvez por não ter vivido nenhuma grande aventura — a viagem que Juremir, Michel e Claudia fazem é estritamente turística: andam de avião, táxi, hospedam-se em bons hotéis, integram excursões a atrações tradicionais, comem em bons restaurantes… — ou por estar acompanhado de um interessante escritor de renome internacional, o foco da escrita de Juremir se concentra muito mais no relacionamento que desenvolve com Houellebecq do que na viagem em si, que fica em segundo plano.

O autor opta por iniciar a obra com uma confissão que é quase um paradoxo para o que vem a seguir: “Eu amo as viagens e as memórias fugitivas. Mas odeio os viajantes e seus relatos”. Logo depois, trabalha com um conceito um tanto básico das narrativas de viagem: “Fomos ao exterior. Viajamos para o interior de nós mesmos. É essa narrativa que pretendo fazer aqui: a história de uma viagem ao interior de um homem”. E o que entrega ao leitor não é simplesmente um relato da sua passagem pela Argentina, mas principalmente uma interessante mistura de perfil do escritor francês — uma viagem ao seu interior — com ensaio sobre a relação dos dois — ou dos três, em alguns momentos. 

Difícil companheiro

Michel Houellebecq é um gênio ou um grande idiota, depende de quem o avalia. Em abril de 2002, Moacyr Scliar resenhou Plataforma, terceiro romance do francês, para a revista Veja. O título do texto, bastante elogioso à obra, era exatamente uma alusão a esses dois extremos de tratamento ao escritor: “Seria o autor francês um novo Albert Camus ou apenas um romancista medíocre e apelativo?”.

Seus romances são perturbadores. Pessimistas, politicamente incorretos, cheios de humor negro e com cenas de sexo que alguns dizem se aproximar da descrição de um filme pornô, de alguma maneira refletem a imagem do próprio autor. Houellebecq gosta de polêmicas e parece não se preocupar com o que os outros pensam dele (os brasileiros que o digam: o escritor já cancelou duas vezes sua vinda à Flip; a segunda, inclusive, aconteceu neste ano). Esforça-se para nutrir a imagem construída em torno da sua figura.

Na relação com Jurandir, faz questão que seja visto como alguém arrogante e eurocentrista, além de reiteradamente mostrar-se sedento por sexo. “Eu adoraria transar com brasileiras de dezessete anos que me acham radicalmente delicioso, mas isso me parece difícil dado o pouco tempo que ficarei em Porto Alegre. Tu não poderias organizar um concurso para descobrir a mais motivada dessas garotas? Afinal, estou ficando velho e talvez seja a minha última oportunidade de ir para a cama com uma brasileira”, diz em determinado momento para o parceiro, que, em algumas ocasiões, tem a clara impressão de que ouvirá Houellebecq se convidando para participar de um ménage à trois junto com o brasileiro e sua mulher.

Como é de se imaginar, a relação com o escritor francês não é exatamente tranqüila. Imprevisível, pode desencadear uma longa e surpreendente discussão sobre o que pingüins e lobos marinhos supostamente representariam — Houellebecq defende os primeiros; Juremir, os segundos, numa discussão que ganha corpo e importância ao longo do livro —, mas também se comunicar com o interlocutor apenas por meio de “humm” com entonações e sentidos diferentes, tudo depende do seu humor. Uma pena, pois quando o francês resolve efetivamente falar, surgem boas conversas, cheias de idéias, teorias e discussões intercaladas por amenidades e bobagens — que dão um toque pessoal e informal aos diálogos, bem ao ritmo de uma viagem sem grandes compromissos —, muito bem transpostas para o livro por Juremir.

Como não poderia ser diferente, o assunto que rende os melhores papos é literatura. Ciente do vasto conhecimento do francês, Juremir, em uma preocupação típica de intelectual, até decora o trecho de um texto de Jean Baudrillard para poder citá-lo e se fazer de erudito. Com essa alternância entre quase monólogos seguidos de lacônicos “humm” e longos, profundos e bem humorados diálogos, Juremir e Houellebecq ora parecem estar se descobrindo, ora parecem velhos amigos. 

Paisagens de gelo

Talentoso e atento, Juremir não se perde quando o francês resolve praticamente se enclausurar em si mesmo. Utiliza a relação com Claudia, as experiências que vivem, as refeições e momentos turísticos para dar corpo e movimento ao livro. Também observa bastante Houellebecq, em alguns momentos até demais: “É sempre comovente e elegante esperar um escritor famoso urinar”, confessa.

Apesar do foco na convivência com Houellebecq, em alguns momentos a narrativa de Um escritor no fim do mundo aproxima-se dos tradicionais livros de viagem. Juremir traz um pouco do fim do mundo para o leitor — lá encontram marcas da civilização que parecem se espalhar por toda a parte: American Express, Diesel, Puma, Adidas, Renault, Sony e BMW, por exemplo — e apresenta interessantes histórias de alguns lugares por onde passam, como o presídio de Ushuaia.

Ainda levando em conta os elementos locais, são interessantes as poucas oportunidades em que o autor se utiliza de algo tradicionalmente hermano como recurso. Eis uma amostra: “O silêncio tornou-se espesso. Parecia a defesa de um time argentino de futebol, de tão compacto”. Aliás, o futebol aparece em diversos momentos, mas é uma pena que daí surjam os raros deslizes do autor. Escrever que “em time que está ganhando não se mexe” para justificar o pedido de outra garrafa do mesmo vinho que estavam tomando ou que quando vêem um enorme bloco de gelo, correm para fotografá-lo junto com “as torcidas reunidas do Flamengo e do Corinthians” é optar por soluções fáceis demais.

Entretanto, não fossem construções tão óbvias, passariam desapercebidas perante os méritos do escritor. Durante uma das muitas conversas sobre literatura, Houllebecq pergunta: “Por que os seus livros não são lidos, Juremir?”. “Talvez por serem ruins. Essa é a opinião dos que me criticam”, responde o brasileiro. Não sei como andam as vendas nem o número de leitores de Um escritor no fim do mundo, mas, caso não estejam sendo satisfatórios, o problema está em algum outro lugar, não na qualidade da obra. Ao menos na opinião deste que lhe critica, Juremir.

Resenha publicada originalmente na edição 160 do jornal literário Rascunho 

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Por Rodrigo Casarin

Juan_Gabriel_Vásquez_ruído_cair_“O primeiro dos hipopótamos, macho da cor das pérolas negras e tonelada e meia de peso, caiu morto em meados de 2009.” Triste, muito triste um hipopótamo aparecer morto já nas duas primeiras linhas de um livro. Contudo, um romance que começa com um hipopótamo já merece atenção. Falo de O ruído das coisas ao cair, do colombiano Juan Gabriel Vásquez, que ficou com o título de melhor romance de 2011 do Prêmio Alfaguara.

A notícia da morte do pobre animal dispara lembranças em Antonio Yammara. Lembranças de quando sua vida mudou. Lembranças de Ricardo Laverde. São essas memórias que Yammara sente necessidade de relatar. “Li em algum lugar que um homem deve contar a história de sua vida aos quarenta anos, e esse prazo peremptório cai-me perfeitamente bem”, anuncia antes de regressar a 1996 — e depois cada vez mais ao passado — e contar uma história que buscou, a um alto custo, reconstruir.

Yammara é um professor universitário que nas horas vagas costumava jogar sinuca em um boteco próximo à faculdade. É nesse bar que conhece Ricardo Laverde, homem que havia pouco deixara a prisão e quase nada diz sobre o seu passado. Certo dia, quando a relação começa a se estreitar, Ricardo aparece com uma fita e pede auxílio a Yammara para ouvi-la. Satisfeita a necessidade, enquanto andam na rua, um atentado mata Ricardo e fere gravemente o professor.

Curioso sobre o que Ricardo teria ouvido na fita e por que o homem sofrera a violência — que também o atingiu, deixando como seqüela uma dor crônica e um trauma a ser superado —, Yammara passa a buscar informações sobre o passado do colega. Essa busca se torna o centro da vida do personagem, que praticamente deixa Aura, sua ex-aluna e agora mulher, e Letícia, a filha do casal, de lado. Contudo, suas pesquisas parecem ser em vão. Até que encontra Maya, filha que Ricardo tivera com Elena, uma estadunidense que fora para a Colômbia a fim de prestar serviços sociais. 

Planos e focos

A maneira como Vásquez trabalha com os planos narrativos é um dos pontos altos da obra. A história de O ruído das coisas ao cair se passa em três momentos distintos: quando Yammara vê a história do hipopótamo que desencadeia as lembranças e o leva a escrever o relato; a breve história que o protagonista viveu ao lado de Ricardo e a busca pelo passado do colega; e, finalmente, a reconstrução do passado de Ricardo — de modo que a terceira parte está dentro da segunda, e ambas são englobadas pela primeira.

Além disso, outras histórias menores estão ao redor desta tríade do plano principal. A relação de Yammara com sua mulher e sua filha — que é um dos pontos problemáticos do livro, como falarei mais adiante — é uma delas. A maneira com que o narcotráfico influenciou a vida de pessoas comuns na Colômbia ao longo das décadas de 1970 a 1990, outra.

Vásquez também se mostra hábil na construção de situações com focos diferentes, como quando Yammara e Ricardo estão na Casa de poesía para ouvir a fita. Enquanto Ricardo a escuta, Yammara senta em frente a outro aparelho para ouvir o poema Nocturno, de José Asunción Silva. Então, Vásquez constrói uma cena em que os versos de Silva servem de inspiração para os pensamentos de Yammara, que estão focados em Ricardo. De acordo com cada expressão, cada reação do colega, Yammara imagina um caminho diferente para a história que acredita que Ricardo esteja ouvindo. Essa mistura do som e conteúdo da poesia com as reações de Ricardo ao ouvir a sua fita e os pensamentos do protagonista dão um oportuno toque cinematográfico ao livro.

Mais um fator a se destacar na obra está depois que Yammara encontra a filha de Ricardo e descobre que o colega assassinado, seguindo seu sonho de ganhar dinheiro como piloto de avião, fora detido por tráfico internacional de drogas. Nesse ponto não há demonização nem idealização do traficante. Do mesmo jeito que Ricardo aparece levando drogas da Colômbia para os Estados Unidos — ciente de que isso era ilegal, mas sem juízo moral sobre o ato, talvez por se passar no momento em que a política de guerra às drogas do governo Nixon começa a ser implantada —, também fazia o seu papel na comunidade, procurava dar o melhor para a sua mulher e planejava um futuro tranqüilo. Ou seja, o traficante não recebe o tratamento clássico, estigmatizado, que se dá a um bandido desse tipo. Há, sim, uma contradição e complexidade humanizadoras. 

História possível

Sem dúvida, Vásquez fez um grande livro. Contudo, há alguns pequenos problemas na obra. O maior deles, provavelmente, é a falta de força de Aura e Letícia. São personagens fracos, rasos, sem carisma, que não atendem ao propósito de serem as figuras de extrema importância que Yammara deixa de lado com o intuito de buscar a história de Ricardo. Ainda sobre Aura, Vásquez dispensa alguns parágrafos para uma extensa apresentação da moça, disfarçada de diálogo, que em momento algum se justifica. As informações que nos são dadas sobre ela não criam empatia alguma e não são primordiais para que o texto funcione, para que a história se encaixe. Outro ponto (bem menos grave, diga-se) que poderia ser mais bem trabalhado é o ritmo da narrativa e o balanço entre os planos da história.

Mas problemas existem até mesmo nos grandes clássicos, então não são eles que diminuem a obra de Vásquez. Apesar de mostrar como o narcotráfico, de alguma forma, acabou por influenciar direta ou indiretamente a vida de todos os colombianos — e isso por si só já justificaria o livro —, O ruído das coisas ao cair também pode ser encarado como um livro que mostra a necessidade de se ter uma história. Para Yammara, saber do passado de Ricardo, saber quem ele era, torna-se uma necessidade que norteia (ou desnorteia) sua vida. O mesmo acontece com Maya, que de todas as formas buscou saber algo sobre o seu pai.

O que chega até eles — e até nós, por conseqüência — não é a história real (a discussão do que é uma história real fica para uma próxima oportunidade) de Ricardo, mas a história que foi possível reconstruir, a que restou em cartas, documentos e memórias. Uma história que é ao menos plausível, possível de se imaginar e contar. Todos precisamos de uma história e precisamos que as pessoas ao nosso redor — principalmente as mais próximas — também a tenham. Pode até ser uma história imprecisa, romantizada ou inventada, mas, ainda assim, precisamos de uma história que pelo menos tenha sentido. Sem uma história não somos nada.

Texto publicado originalmente na edição 157 do jornal literário Rascunho.

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