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Por Rodrigo Casarin

big jatoBig Jato, de Xico Sá, é uma merda.

Mas é repleto de qualidades, a começar pelos personagens e pela história, baseada na vida do escritor, como podemos perceber já no prólogo. “A história que vem a seguir […] é verdadeira. Estiquei ao máximo a corda da verossimilhança. Quase no pescoço”, escreve Xico, logo depois de usar uma citação de B. Traven em Viagem noturna: “De certa forma, uma história não significa nada a menos que você mesmo a tenha vivido”. Para finalizar, antes de sermos levados ao Vale do Cariri durante a primeira metade dos anos 1970, o veredicto sobre o teor autobiográfico do que vem a seguir: “Tudo isso estava muito guardado. Agora emerge por força superior. Se um homem não conta, é um homem morto”. Em seguida, entramos definitivamente no que podemos supor seja parte do passado, ainda que romanceado — leia-se “ficcionalizado” —, de Xico Sá. Um passado vivido praticamente na merda.

Apesar de a história ser quase que integralmente (dois capítulos são exceção) contada por uma criança entrando na adolescência — e acreditamos representar o autor —, o grande personagem de Big Jato não é esse narrador, mas seu pai, conhecido como “o velho”, que logo descobrimos nem ser tão velho assim. Resmungão do tipo que só fala quando bêbado, bronco que finge não ter sentimentos, trabalha com o Big Jato, um caminhão de limpar fossas. Ou seja, é uma pessoa cuja vida é feita — com sucesso — sobre a merda alheia. E se orgulha disso: o Big Jato é de suma importância para toda a família, é dele que vem o sustento da casa e é graças e ele que começam a enriquecer.

Com a maleabilidade típica de uma criança, o garoto narrador arquiteta sua relação com o pai — que paulatinamente ganha intensidade e entrosamento — em alicerces escatológicos. A única pessoa que parece se incomodar com o ramo de negócios do velho é sua mulher, uma dona de casa com horror ao vento — provavelmente por ser o culpado por trazer o cheiro de merda do Big Jato para dentro de casa, cheiro que está sempre impregnado em seu marido.

Outro personagem importante e bastante marcante na obra é o tio do menino, irmão gêmeo do velho, mas com personalidade praticamente oposta — de igual, apenas o fanatismo pelos Beatles. Um vagabundo de primeira, que nutre horror imenso e declarado pelo trabalho, exemplo do que o velho não quer para o seu filho. Ironicamente, é esse tio o responsável por encaminhar o garoto para o seu primeiro emprego, numa rádio da cidade.

Contudo, o trabalho na rádio dura pouco. Logo o rapaz precisa assumir o Big Jato por causa de uma doença que deixa o velho de cama. Para decepção da mãe, agora é o filho que sai pelas ruas do Cariri para recolher a merda dos outros. É grande o desgosto da mulher ao ver a cria herdar do pai o gosto pelas fezes alheias.

Toda essa história é contada com a ajuda de referências diversas. Há diálogos com outras obras literárias, como O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, e Grandes esperanças, de Charles Dickens, e ícones da cultura pop, como o filme O exorcista e os próprios Beatles, além de comparações relativamente sofisticadas — o pai remete a Apolo e Graciliano Ramos; o tio, a Dionísio e Vinícius de Moraes. São elementos dignos de alguém que já tem uma boa bagagem cultural e amplo repertório, alguém que volta a uma história depois de bastante tempo, não de um menino da década de 1970.

Putaria e seriedade

No começo do livro, Xico parece acanhado, como se estivesse intimidado por estar escrevendo um romance. Contudo, não demora a mostrar suas melhores marcas. Quem acompanha o trabalho de Xico Sá em seu blog ou no jornal Folha de S. Paulo sabe que uma das principais características do escritor é a prosa bem-humorada, repleta de sacanagem, filosofia de boteco e clichês que se transformam em grandes adágios. Tudo isso também está em Big Jato. Os conhecimentos mais profundos dos personagens parecem vir diretamente dos lugares mais comuns, as sacadas são ótimas e a fixação do garoto por quem realmente faz cocô (“até o papa?”) rende diálogos escatologicamente bem-humorados. A maneira como Xico trata o sexo — que muitos dirão ser pornográfica — também proporciona grandes momentos. Eis um deles: “Se tem uma dupla que toca de ouvido, é pau e boceta, mondrongo e racha, pra-te-vai e chibiu, cara e periquito, rola e xoxota, pênis e vagina, como dizem os compêndios escolares”.

Entretanto, o livro não é somente isso. Em algumas oportunidades, Xico também acaba por retratar a triste situação do sertão brasileiro, mas faz isso de maneira leve, quase que superficial. Os problemas abordados — a seca, a falta de comida, o passado sangrento, a escassez de opções para diversão, o pouco valor à vida, a violência cotidiana, a mortalidade infantil… — aparecem no dia-a-dia dos personagens como algo trivial, que não desperta atenção de quem vive naquela realidade.

Ao final, baseado na merda, Xico constrói um bom e divertido livro.

Texto publicado originalmente na edição 155 do jornal literário Rascunho.

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Na década de 1980, Reinaldo Moraes fez muito barulho no meio literário com seus dois primeiros livros, Tanto faz, de 1981, e Abacaxi, de 1985. Depois disso, ouve um grande hiato até que o escritor publicasse o seu terceiro romance, Pornopopéia, de 2009, uma das obras mais elogiadas dos últimos anos na literatura nacional. Não que tenha ficado apenas de pernas para o ar ao longo de todo esse tempo, mas o foco da produção estava em contos e literatura infanto-juvenil. Confira abaixo a entrevista que fizemos com o escritor, que deu respostas extremamente sucintas para todas as questões abordadas. Torcemos para que Moraes não economize as palavras e ideias também em seu próximo romance. 

Canto dos livros: Pornopopéia foi um livro muito bem aceito pela crítica e pelo público (ainda que isso não represente grandes vendas, necessariamente). Você esperava que ele tivesse essa recepção?

Reinaldo Moraes: Esperava bomba ou indiferença. Ou ambos.

CL: Passado alguns anos de seu lançamento, já é possível avaliar a importância desta obra dentro da sua trajetória literária?

RM: Prefiro fugir a esse tipo de auto-avaliação. Sento, escrevo o próximo livro, e só.

CL: Suas obras costumam conter muitas cenas de sexo. Na sua opinião, o que é uma boa cena de sexo na literatura? Quais os grandes exemplos que temos? Quem consegue transformar o ato em palavras com maestria?

RM: Belos motes para um belo ensaio. Mas não serei eu a escrevê-lo, velho.

CL: Seus escritos também costumam tratar bastante dos submundos da cidade e das pessoas que por ele transitam. Por que escrever sobre esse universo? Como você se relaciona com ele?

RM: Imagino que as respostas a essas questões estejam lá nas próprias histórias que escrevi. Deveriam estar, pelo menos.

CL: Alguns de seus personagens são bastante machistas (como o Zeca, de Pornopopéia). Já teve problemas por conta disso? Alguma história curiosa?

RM: Eu não tive nenhum problema com isso. As mulheres até me contam que gostaram do jeito desgraçado de ser do Zeca.

CL: Muitos escritores têm uma relação bastante obsessiva com o processo de reescrita, elaborando alguns trechos dezenas de vezes. Como isso se dá com você? O que pensa a esse respeito?

RM: Reescrevo milhões de vezes. Escrever é reescrever, já disse alguém.

CL: Indo mais além, como funciona o seu processo criativo e produtivo? Onde busca inspiração?

RM: Na cabeça. Literatura, como sexo, é uma coisa mental. Da Vinci concordaria comigo, já que a frase original é dele.

CL: Quando deverá ficar pronto o seu livro para a coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras? No que a viagem ao México te ajudou na composição da história? O que pode antecipar desta obra?

RM: Lá por 2014. Não gosto de falar sobre o que ainda não escrevi. Estou nos finalmente de outro romance. Também não quero falar dele, por preguiça e superstição.

 CL: Em escritores com tanto tempo de estrada, é comum, com o passar dos anos, notar transformações. Como você percebe o amadurecimento do seu trabalho? Não só a questão estética e temática, mas, fundamentalmente, o que mudou do Reinaldo Moraes autor de Tanto Faz ou Abacaxi para o Reinaldo Moraes atual?

RM: Aí, cumpadre, você é que vai ter que ler a bagaça toda e me dizer.

CL: A sua produção de contos também é relevante. Há alguma preferência da sua parte por escrever conto ou romance? Por quê?

RM: Prefiro romance. Tenho 1,92m. sou um cara comprido que gosta de narrativas compridas.

CL: Você fez a tradução para o português de Mulheres, de Charles Bukowski. Qual a importância de traduzir uma obra do velho safado? Como foi a experiência? Quais as peculiaridades e dificuldades deste trabalho?

RM: Adorei traduzir Mulheres., mas podia ter ficado melhor. Sou um tradutor muito improvisado. Sobre a minha relação com o velho Buk, dá uma olhada nisso aqui.

CL: Certa vez, quando perguntado sobre o que achava sobre a abordagem da literatura contemporânea em gêneros como o regionalismo, você disse que, após Guimarães Rosa, as produções nesse sentido tendem a ficar “meio capengas, quando não ridículas”. Não acha que praticamente tudo, se comparado aos grandes mestres, corre o mesmo risco? O que fazer para lidar com essa questão limitante, que pode impedir novos fenômenos (de qualidade) de surgir por medo de parecerem ridículos quando comparados a quem já fez história?

RM: Caceta, sei lá, bicho.

CL: Você também já afirmou que “tem muita gente escrevendo por aí que eu não conheço e nunca vou conhecer, porque simplesmente não dá tempo de ler nem sequer uma boa amostra da produção brasileira contemporânea”. O que pensa sobre essa produção exorbitante? Como seleciona suas leituras?

RM: Leio o que estiver mais ao alcance da mão. Prefiro beber a ler.

CL: Aproveitando a pergunta anterior, quais os livros que estão na sua fila de espera para leitura?

RM: Todos os livros que me deram nos últimos anos.

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Abaixo de zero

Bret Easton Ellis

L&PM

Abaixo de zero é o livro de estreia de Bret Easton Ellis. Lançado em 1985, é um retrato visceral da geração perdida dos anos 80. Clay, o protagonista, de férias da faculdade, volta para a casa dos pais em Los Angeles. Juntamente com os amigos da época do colégio e uma antiga namorada, entra numa espiral de drogas, sexo e dinheiro que acentua o vazio existencial de toda essa geração. Esse destino incerto é retomado pelo autor 25 anos depois em Suítes imperiais (Rocco, 2011), no qual mostra esses mesmos personagens, já adultos, confrontando suas experiências passadas.

Com seu primeiro livro, Bret Easton Ellis que, na época do lançamento tinha praticamente a mesma idade dos personagens, chamou a atenção para a passividade e a inconsequência dessa juventude e delineou aquela que seria a temática central de sua obra: como as cicatrizes da adolescência podem ser profundas e difíceis de apagar.

Andy Warhol

Mériam Korichi

L&PM

Quando Andrew Warhola (1928-1987) chegou a Nova York em 1949, vindo da inóspita Pittsburgh, ele tinha 21 anos e uma obsessão: tornar-se célebre. O jovem descendente de imigrantes logo fabricou Andy Warhol, este personagem midiático, adulado, controverso, que tudo queria e tudo fazia acontecer. Era pintor, escultor, fotógrafo. Era ator, homem de televisão, manequim. Era produtor de banda de rock, diretor de revista. Era dramaturgo, cineasta, romancista. Criou um universo, a legendária Factory, onde circulavam livremente drogas, sexo, artistas e vagabundos. Era um verdadeiro rebelde, genial, inventivo, underground. Por trás de sua peruca prateada, seu exibicionismo, escondia-se um criador exigente e frágil, cuja vida e obra formaram um espelho desencantado e cheio de humor. Mais que um personagem, tornou-se um mito.


Cães heróis

Mario Bellatin 

Cosacnaify

Segundo livro de Mario Bellatin publicado pela Cosac Naify, Cães heróis é a perturbadora história de um homem paraplégico, seu enfermeiro e trinta pastores belga malinois “prontos para matar quem quer que seja com uma única mordida na jugular”. Assim como em Flores, a edição brasileira de Cães heróis tem projeto gráfico radical: com letras que aumentam e diminuem de acordo com a intensidade da narrativa, o livro vem “mutilado”, com uma embalagem de plástico no lugar da capa.

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Um dos livros nacionais mais elogiados pela crítica nos últimos anos, Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, além de ter um grande valor literário, também é uma grande diversão para o leitor – e sabemos que quando algum livro agrada aos críticos, muitas vezes ele é um porre para os míseros mortais, não é mesmo!?

Como o nome já indica, a história é praticamente uma epopeia pornográfica. A obra é dividida em duas partes. A primeira, de uma intensidade fantástica, com cenas, cenários e diálogos muito bem trabalhados, passa-se na cidade de São Paulo. Ou melhor, em uma espécie de submundo da metrópole. O personagem principal é Zeca, um anti-herói que cativa o leitor já no começo do texto. O cara bebe, fuma, cheira, não é nem um pouco chegado a trabalho, não está nem aí para a esposa, mostra raras preocupações pelo filho, não desperdiça nenhuma oportunidade de comer uma mulher, vive passando a perna no cunhado e, ainda assim, é extremamente carismático, surpreendentemente humano.

Tal estilo de vida acaba envolvendo Zeca em uma série de complicações, e aí que a história em si começa a realmente se desenrolar. Após uma intensa noite de bebedeira, sexo e muito nariz na farinha, o protagonista resolve passar uma temporada em Ubatuba – e aqui chegamos na segunda parte da obra. Vai para o Litoral para espairecer sobre alguns problemas pontuais, mas lá descobre que sua vida está muito mais complicada do que poderia supor.

Na praia, desacelera. Durantes algumas semanas, leva uma vida bem mais tranquila, longe do pó, tomando apenas alguns gorós e fumando poucos baseados. Começa a curtir o estilo de vida praiano, enquanto a sua vida só piora em São Paulo. Contudo, a necessidade de sexo acaba fazendo com que Zeca arrume confusões – e, durante algum tempo, soluções – também em Ubatuba.

Atualmente, qualquer livro repleto de sexo, drogas e com a história completamente focada em um ponto de vista bastante masculino (que beira o machismo) é automaticamente comparado às obras de Bukowski. Com Pornopopéia não é diferente. Contudo, enquanto o Velho Safado atingia o seu ápice em rapidinhas (contos), Reinaldo Moraes domina com maestria a arte do sexo tântrico, e mantém a relação – nem sempre ereto, é verdade, mas ainda assim mostrando presença – ao longo de 660 páginas.

Em alguns momentos a lembrança de Nelson Rodrigues também é inevitável, principalmente quando relacionamentos “proibidos” ocorrem. Há passagens deste tipo, inclusive, nas quais Moraes utiliza um vocabulário próximo ao do Anjo Pornográfico (o famoso ululante, por exemplo). Talvez isso não seja apenas uma coincidência, mas um exemplo do domínio que o autor tem do texto, que levou anos para ficar pronto.

O final de Pornopopéia poderia ser um pouco melhor, contudo isso está longe de ser um problema em um livro que nos brinda constantemente com passagens do tipo. “Lá vai a tarde entrando em preguiçosa agonia no horizonte líquido desse lugar comum à beira-mar. Olha só que poesia tem essa frase. Má poesia, mas poesia assim mesmo. Eu conseguiria viver sem poesia. Aliás, eu vivo sem poesia, Não conseguiria é viver sem buceta. E estou vivendo sem buceta”.

No lugar de Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa ou Graciliano Ramos (como fazem – ou ao menos tentam – as escolas), dê Pornopopéia na mão de um moleque de 15, 16 ou 17 anos. Quero ver se ele não se apaixonará por Literatura.

Livro: Pornopopéia

Autor: Reinaldo Moraes

Editora: Objetiva

Páginas: 660

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Vendedor de sorvete e jornal, soldado, instrutor de natação e caiaque, cortador de cana-de-açúcar, trabalhador agrícola, técnico em construção, desenhista técnico, locutor de rádio e jornalista. Foram essas as profissões pelas quais o cubano Pedro Juan Gutiérrez passou antes de se tornar pintor e um dos melhores escritores latino-americanos da atualidade. A variada gama de atividades que exerceu antes de começar a escrever o torna um autor repleto de vivências, constantemente exploradas em seus textos.

Com um estilo claramente inspirado no grande Charles Bukowski, Gutiérrez retrata o duro cotidiano cubano, mas sem enveredar para a política. Trilogia suja em Havana, sua primeira obra em prosa, é um dos melhores relatos sobre a realidade vivida pela maior parte população da capital de Cuba. As histórias, com muito conteúdo autobiográfico, são repletas de miséria, luta por comida, diversão e algum lugar para dormir, cerveja, rum barato e sexo, muito sexo. Aliás, um dos grandes méritos do autor é saber escrever sobre sexo (trata de forma direta, explícita), algo ainda raro até entre os grandes escritores.

Uma das coisas latentes nas obras de Gutiérrez é o calor infernal que faz em Cuba. Nesse calor todo, um pouco mais felizes seriam os cubanos – e o próprio escritor, claro – se pudessem tomar muitas Hoegaarden, uma Witbier belga que leva em sua receita malte de trigo, semente de coentro e casca de laranja.

Cerveja leve e extremamente refrescante, a Hoegaarden possui características semelhantes a uma Weissbier, porém, as notas cítricas são mais destacadas, assim como a acidez. Ao tomá-la, a sensação de frescor também é maior, tornando a cerveja uma excelente opção não apenas para os cubanos, obviamente, mas para qualquer um que curta uma boa cerveja em dias quentes (alguém gostar de tomar cerveja em dia quente? Difícil, hein!rs). Importada para o Brasil pela InBev, essa “branquinha” belga pode ser achada de tempos em tempos em mercados como o Pão de Açúcar por cerca de 5 reais.

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