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Posts Tagged ‘Tropa de Elite’

Por Alberto Nannini

lobão e fã manifesto do nada na terra do nuncaSer polêmico hoje em dia é, além de lugar comum, quase uma profissão. Em diversas carreiras, há os que se mantêm em evidência por serem as vozes dissonantes, por irem contra a corrente. Claro que há aqueles que apostam em controvérsias para ocultar sua absoluta falta de conhecimento da área em que atuam. Mas há outros que conseguem polemizar fundamentando suas posições.

O músico Lobão é um destes últimos. Detentor de uma carreira sólida no rock nacional, emplacou vários hits, com auge nos anos 80 e 90. Com sua língua ferina, sempre gostou de cutucar tanto alguns  grandes da nossa música, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, como a própria instituição da MPB, suas “panelinhas” e modas. Chegou a trabalhar na MTV, ancorando um programa de debates.

Sua biografia, 50 anos a Mil, lançada em 2010, passa de 100.000 cópias vendidas e deve virar filme, mas o seu último livro, Manifesto do Nada na Terra do Nunca, é que tem ocupado as atenções, atirando para todos os lados, e acertando alvos insuspeitos.

Ex-militante de esquerda desiludido

Nos oito capítulos do livro, Lobão destila suas memórias e sua formação musical e intelectual, conta alguns episódios e experiências, tudo para criticar especialmente os cenários político e musical no país. Há um ranço declarado contra a orientação política de esquerda: seus intelectuais seriam “carolas estatizados”, prontos a apontar o dedo a qualquer voz que se levante criticando a nação.

Aqui há um ponto interessante, embora já bem conhecido: identificação ideológica na política já não faz o menor sentido. Não parece cabível categorizar Lobão como “de direita” apenas porque critica a esquerda. Aliás, algumas simplificações destas orientações deixariam qualquer um confuso. Se você apoia as liberdades individuais, é de direita. Se apoia a justiça social, é de esquerda. Ué, mas elas são excludentes? Não se pode apoiar as duas causas?

Creio que Lobão se assemelhe a muitos: desiludidos com os rumos que a esquerda tomou quando se tornou o poder, constatam que não há diferenças significativas entre a situação e a oposição quando elas estão invertidas. Os conchavos, a corrupção sistêmica e a busca insana pela perpetuação do poder é denominador comum a nossos políticos, e o que eles estão dispostos a fazer para perseguir estes objetivos joga qualquer reputação que tenha havido um dia na lama.

Entender Lobão como um ex-militante de esquerda desiludido explica bastante coisa e é uma chave para compreender algumas de suas polêmicas. Por exemplo, a celeuma com Mano Brown, rapper e líder do grupo Racionais MC’s, vem da sua crítica cabível à atitude dos rappers aqui transcrita: “se você não é mano, é um ser repugnante a ser desprezado”. Há que se convir que o desprezo pelo tal sistema que os rappers preconizam – particularmente os Racionais – acaba por rotular todos os que não sejam “manos da comunidade” como pertencentes a este mesmo sistema. Mais que isso, desacredita qualquer cidadão que queira criticar este tal sistema, se ele (cidadão) não couber dentro de um determinado estereótipo.

Como toda generalização simplista, isto é uma estupidez. Muitos militantes e políticos de esquerda, antes de se confundirem com todo o resto, eram justamente os que lutavam contra o sistema então estabelecido, que incluía censura, tortura e morte.

Mas a resposta de mano Brown foi truculenta. Pena que ele não aproveitou a nítida inteligência que demonstra na maioria de suas letras para responder à altura. Ao contrário, disse que “resolveria a parada como homem”, como qualquer valentão diria. Detesto valentões.

Enfim, até aí, perceber que há preconceito na atitude dos rappers não torna ninguém um gênio, nem faz do livro de Lobão algo imperdível. Mas levantar uma bandeira bem mais difícil de ser defendida – a exaltação do funk carioca – vai bem mais fundo e exige do leitor algumas reflexões.

Funk como fonte de originalidade

“E assim a classe média inicia sua marcha a ré em direção à laje da Barbie, à MPB de segunda, ao pagode de terceira, ao forró de quarta, ao sertanejo de última. O funk carioca é uma das raras exceções, pois importou a batida do Miami Sound e se apossou, em plena favela, de recursos eletrônicos, transformando o funk num grito de guerra e sexo, o mais genuíno estilo que o morro produz hoje em dia. Alguns de vocês podem pular indignados da poltrona (…) e vociferar: ‘mas o funk é grotesco, sexista, violento, obsceno, tem letras horríveis, de articulação gramatical que beira dialetos neolíticos, um monte de cachorras de todas as raças, feitios e tamanhos oferecendo a bunda em rebolados ultrajantes, MCs e playboys juntos em delírio a entoar cânticos guturais de rimas ininteligíveis!’ Isso é fato, mas existe uma coisa inegável: é o único, dentro todos os outros aqui mencionados, verdadeiro. Ainda não foi reciclado, reinventado, regurgitado, muito menos aprovado pelo intelectual de esquerda.”

Desta polêmica eu gostei, porque me deixou desconfortável.

Analisando o dito pelo autor, cabe primeiro considerar sua autoridade a fazê-lo: Lobão é músico há décadas, e evidentemente entende do riscado. O argumento que desanca esta autoridade tende a escorregar em gosto pessoal ou senso comum. Notemos que ele diz, num primeiro momento, sobre a autenticidade do funk.

E depois, ele concorda com o diagnóstico que a maioria de nós daria sobre o gênero. Mas continua ressaltando sua originalidade, e o utiliza como contraponto a modismos, como as variações “universitárias”: sertanejo e forró, que seriam, segundo ele, “abominavelmente ruins, malfeitos e postiços”. Veja este outro trecho:

“Este falso moralismo impede a maioria das pessoas de verificar que o funk, com toda a sua decantada precariedade estético-literária, dá de mil a zero em qualquer grife musical universitária por justamente não ter este filtro idiota e pretensioso do carola estatizado”.

Esta ênfase dele ao mal que os tais carolas estatizados causam a tudo nubla um pouco a pertinência de seu alerta quanto ao pré-julgamento do funk, mas não importa. A discussão sobre este como algo de bom parece promissora.

Ensaio – O mais novo funk

O funk já foi reciclado, mas não pelo intelectual de esquerda. Depois das variações do funk carioca para o funk romântico, o consciente, o pornô e o proibidão (que exalta a bandidagem), paulistas reciclaram o gênero no chamado “funk de ostentação”.

São músicas que falam sobre bens de consumo de alto padrão. Carros e motos importados, roupas de grife, dinheiro, bebidas, festas e mulheres. Os clipes da modalidade têm, quando não todos estes ingredientes, a maioria deles, e as letras mencionam marcas dos bens de desejo. Assisti a muitos enquanto amadurecia este ensaio, e custei a acreditar que aquilo realmente existia. Veja um documentário sobre o tema aqui.

Outro fato significativo ligado ao funk paulista foi o assassinato do MC Daleste, morto em 6 de julho de 2013, durante um show, por um tiro vindo da plateia. Daleste cantava várias vertentes do funk, como o proibidão, e também o de ostentação. Uma rápida pesquisa listou mais de 80 letras de músicas suas, com estes trechos (tomei a liberdade de listar um pequeno glossário ao final deles, para facilitar a compreensão):

Gabriel com AR15 trocando tiro com os verme do Garra/ Mano, a chapa esquentou foi tiro pra todo lado / Não vou desistir vou seguir em frente com meus aliados / Era 5 horas da tarde sangue de policia espalhado no chão mas / Graças a deus nenhum dos nossos morreu em missão (“Bonde dos Menor”)

[AR15= fuzil; verme= policial; Garra= unidade da polícia de São Paulo]

Bebendo Red Bull / Misturado com Absolut /Camarote, área vip / No pulso Bulova / Two one two é o perfume. / No role pela quebrada, De Hornet ou de 1100 / Vem com nós que /Tu passa bem. (“Novinha cifrão”)

[Absolut: marca de vodka – Bulova: marca de relógio – Hornet e 1100: modelos de motocicletas – novinha: gíria para garota]

Quando ele foi fuzilado, houve manifestações a favor disso, desde aquelas em tom de piada às raivosas. Não entrando no mérito da falha moral destas atitudes, o fato é que o funk causa uma ojeriza bastante grande, e parece ser um daqueles casos de “ame ou odeie”.

Por que então que seus músicos vendem como água e ganham muito dinheiro? Há público para este tipo de música?

Mau uso da voz

Sim, há público. Há muito público, a julgar pelos shows lotados de seus artistas, que vão se tornando milionários precocemente. Eu mesmo reconheço aqui que, embora deteste ouvir qualquer coisa que não escolhi a alturas ensurdecedoras, e mesmo criticando o conteúdo inexistente das letras de funk, em situações específicas a batida dele pode contagiar. Por exemplo, em festas de casamento, é certo que o DJ tocará o funk do momento e que as pessoas se divertirão dançando.

Por isso, acredito que o problema do funk não é o conteúdo sofrível de suas letras, que também acomete outras canções populares. Isso se dá pela proposta de se tornar músicas facilmente identificáveis, virarem sucesso e serem dançantes. Aliás, não vejo como apreciar o funk e as canções da moda sob outra ótica, e não tenho vergonha de me divertir com elas nas tais situações específicas – não espero de suas letras a poesia de um Renato Russo.

O problema é que há variações que tornam o estilo altamente criticável. O funk proibidão (que exalta a bandidagem) e o funk de ostentação (que prega o consumismo e exibicionismo desenfreados) são excrescências por não agregarem qualquer tipo de valor moral, por aumentarem a separação mais ou menos velada entre periferia e elite, por serem indefensáveis por qualquer critério e por serem um mau uso de algo legítimo: a voz de parcela da sociedade excluída, que poderia protestar contra os confortos e benesses exclusivos àqueles que detém status e contas bancárias de muitos dígitos.

Quando conseguem a voz para poder dizer algo a respeito, o que dizem? Que desejam ter exatamente os mesmos luxos. Que continuarão a coisificar as mulheres. Que só serão aceitos se tiverem posses. Ou seja, escancaram e abraçam de vez o discurso consumista que está levando tudo para o buraco.

Nesta medida, e se tratando de algumas vertentes, como as duas citadas e também o funk pornô, eu posso ser categórico: trata-se de lixo.

Reconhecimento cultural e baliza de excelência

É fácil encontrar apoio para criticá-lo. Diga-me se você, por exemplo, gosta de ter que parar a conversa para esperar passar um carro que utiliza um sistema de som capaz de tremer paredes, e que passa com (adivinha…) funk no último volume? Ou se gosta de vozes esganiçadas, horrivelmente desafinadas, cantando versos medonhos?

Pois é, o funk dá a corda para ser enforcado. Mas no fundo, é mera questão de gosto. Não cabe desacreditar ou atacar esta verdade se baseando em preferências pessoais, porque o mesmíssimo argumento serve para a defesa.

tapa batmanAdemais, cultura não é apenas aquilo que é prestigiado e/ou restrito. Tampouco é aquilo que grupos mais ou menos coesos – como escritores e leitores de blogs de literatura, com nível universitário ou mais – decidem que seja, por mais uníssona que sejam suas vozes criticando ou endeusando determinada manifestação cultural.

O funk faz parte de nossa cultura e tem seu valor. É um estilo musical que veio das minorias e se disseminou. Para criticá-lo, é grande a tentação de aplicar uma “baliza de excelência” que exponha sua relativa pobreza e simplicidade. Comparado aos grandes da música, como um Tom Jobim, digamos, a precariedade do funk chega a dar dó.

Mas este artifício não é justo. Comparado aos grandes da nossa música, quase ninguém de gênero nenhum se salvaria.

Também por isso, é certo dizer que dificilmente o funk se tornará clássico. Aposto que as músicas mais apelativas desaparecerão no limbo da história em pouquíssimo tempo, primeiro, porque o anseio pela novidade, pelo “mais novo funk”, é característica do movimento, e segundo, porque não há mérito artístico para sustentá-las – elas se seguram apenas no modismo.

Mas recordo dois funks que, proporcionalmente, poderiam ser considerados “clássicos do gênero”: um deles é o “Rap da Felicidade”, de MC Cidinho e Doca, que tem o refrão “eu só quero ser feliz/ Andar tranquilamente na favela onde eu nasci…”, que é uma letra inteligente e muito cabível, e o outro, dos mesmos autores, pegou carona na popularidade do filme Tropa de Elite, e é uma espécie de “proibidão”: O “Rap das Armas”, que tem aquele refrão do “parapapapapa papapaaa…”. Ambos tocam até hoje.

Aonde nos leva a batida do funk

Após todo este exercício de ponto e contraponto, o que se conclui?

Que é um gênero com várias vertentes, algumas melhores que outras. Que Lobão acerta em falar de originalidade. Que há campo para estudos sociais bem mais embasados que este ensaio para falar sobre a questão do funk. Que ele dá voz a uma parcela excluída da população, e revela seus anseios.

Mas isso não se dá de forma inofensiva.

Já vivemos num mundo onde corporações e seus produtos ditam rumos; onde pessoas dormem em filas para comprar a última geringonça tecnológica (que eles chamam de “gadget”); onde somos bombardeados com mensagens para consumir. Aquilo que aceitamos bovinamente que nos imponham hoje revela uma estupidez sem fim, pela qual as gerações futuras nos ridicularizarão: instituições bancárias corrigem nosso dinheiro com índices patéticos e nos extorquem quando emprestamos delas, via cartões, cheques e outras linhas de crédito. O saldo disto é de BILHÕES de lucro para eles. Empresas devastam o meio ambiente com um discurso hipócrita de que são parceiras do consumo consciente. E nós mesmos andamos por aí com SUV’s, verdadeiros monstros de metal de duas toneladas, que torram gasolina e congestionam tudo.

Neste mundo já péssimo, algumas vertentes do funk reforçam o discurso belicista e o consumista, e mais uma série de outros junto, como o machista, o sexista, o separatista… Não há como concordar com isso.

O rock já foi criticado como música subversiva – mas precisávamos de subversão. O Heavy Metal, como música depressiva e anticristã – que são simplificações pouco fiéis, mas que, ainda assim, tinham lugar e função. Agora, olhando seus clipes, de que serve garotos com correntes e medalhões de ouro abanando maços de dinheiro e garrafas de bebidas, atraindo garotas menores de idade para dançarem seminuas?

Boy do Charmes e garotas

Tudo bem, concordo que houve outras modalidades que fizeram algo parecido. As bandas de axé desfilavam com suas dançarinas seminuas até ontem. Verdade. Isso nem importa tanto, porque não se valida um erro demonstrando outro anterior. O valor deste argumento é demonstrar que nós, como povo festeiro, no calor dos trópicos, com a sensualidade latente e quantos mais chavões couberem, sempre teremos danças e músicas lascivas. Certo. Porém, nas músicas de axé, havia um componente mais lúdico e inocente, apesar de sexualizado. Já no funk, há os tais “quadradinhos de oito”, onde acontece a inversão máxima: a mulher, numa posição precária onde sua bunda está acima, se torna a própria bunda. Despersonalizada, seu rosto importa tão pouco que fica ao rés do chão.

Não sobra melhor juízo ao funk proibidão: com uma polícia despreparada como a que temos para enfrentar bandidos cada vez mais profissionais, e com a exclusão social que reserva subempregos e suboportunidades aos moradores de comunidades carentes, o crime vira sedução. Isso tem que ser cantado? É preciso mesmo que haja hinos que glorifiquem os bandidos, suas armas e maldades?

Deixei escorregar um pouco minha argumentação contra as vertentes horrorosas do funk apenas para me dar conta que elas não são causa de nada, são apenas um sintoma – a voz da sociedade doente que nós estamos construindo, com muros sendo erguidos dos dois lados. Do nosso, que ridicularizamos a cultura e os costumes dos excluídos, e deles, que se unem contra nós, mas que cobiçam justamente aquilo que os mais abastados do nosso lado têm – algo inacessível a, digamos, 99% da população.

Há ainda outra preocupação que pode não ter a conexão levantada, mas que, dada a gravidade, deve ser verificada.

A equação dos encorajamentos errados

Acenar com dinheiro, posses, popularidade, sucesso com garotas ou garotos a quem não pode obtê-los gera cobiça. Endeusar atitudes criminosas, armas, bandidagem, a excluídos, pode gerar um motim criminoso. Coisificar as mulheres, reduzi-las a corpos compráveis e desfrutáveis, reforça sexismo e preconceito e gera violências diversas.

Felizmente, há o discernimento dos nossos jovens, que não saem violentando mulheres porque o funk as chama de cachorras para baixo, nem tentam matar policiais porque seriam vermes, tampouco tentam roubar ou assaltar para poderem ostentar luxos e riquezas. A absoluta maioria não se influencia por isso.

O problema é a minoria, aqueles que queimam dentistas por não poder sacar dinheiro suficiente (para quê? Para comer é que não é…), que violentam e trucidam jovens indefesas, que se associam a organizações e buscam matar policiais em troca de status. Estes são o problema.

Nossa sociedade os estimula a irem adiante, certos de impunidade. Corrobora suas atitudes, já que somos tão consumistas como os jovens que cantam a ostentação nos clipes de funk. Endossa as violências contra as mulheres, com nossa cultura machista retrógrada. O funk seria apenas a voz disso tudo que está errado. Só que ele também traz, junto com a festa, a batida dançante e o protesto legítimo, o grave demérito de encorajar e homenagear os piores erros e atitudes, potencialmente criminosos, contra os quais só podemos rezar para não sermos as próximas vítimas.

Por ter esta leitura dos fatos, quando ouço funk de ostentação, fico profundamente incomodado. É isto que estamos construindo. É isto que meus parentes ainda crianças e pré-adolescentes ouvem por aí. É isso que passa na TV. O mais novo funk da última semana tem como receita o “batidão” inconfundível, e seus ídolos vão dos caricatos, como Mr. Catra, Naldo e Anitta, aos incitadores, como Daleste e afins.

Geração uísque com Red Bull

Não posso afirmar se há e qual seria a correspondência da incitação de atitudes péssimas sobre uma minoria de sociopatas e psicopatas. Preocupações iguais já atingiram os videogames violentos, com resultados inconclusivos. Mas continuo temendo porque a música é mais democrática e acessível que os videogames, se dissemina muito mais fácil, e repercute de maneira mais poderosa. As músicas criam ídolos, que espelham estilos de vida desejados. E os funks criticados jogam de volta nas nossas caras aquilo que estamos construindo.

Nossa “geração Coca-Cola”, que cuspiu de volta o lixo imposto pela geração anterior, constrói algo mais distorcido, que por sua vez, começa a ser regurgitado: a geração “uísque com Red Bull”, de seres consumistas, hedonistas, vaidosos ao extremo e que tendem a ser desprovidos de valores. Quando os têm, são enfraquecidos pelo bombardeio constante por consumo, aceitação e ostentação. E isso não afeta só os do outro lado do muro que ouvem funks: afeta os nossos, que ouvem os modismos detestados por Lobão (“qualquer-coisa-universitário”), e que ostentam seus tênis e celulares caríssimos apenas porque seus colegas também têm.

É tristemente irônico que isso irmane nossos jovens, seja em bailes funk, seja em baladinhas vip: bebem o mesmo coquetel, e não raro, tem a mesma visão estreita da vida.

Internado em estado crítico

Então, o funk é um sintoma. Estamos doentes, criando algo doente e distorcido. Não peço pela censura da modalidade, ao contrário, continuo militando, por plena convicção, pela máxima atribuída a Voltaire: mesmo discordando veementemente de ideias (ou músicas) apregoadas, defender até a morte o direito de elas existirem. Até porque negar a doença ou censurá-la é absolutamente inócuo, e tornar ilegal algo que já nasceu à margem resultaria apenas em fortalecimento e num atestado de burrice.

A questão não é uma censura formal, mas o desenvolvimento de um “filtro” pessoal, que proteja dos excessos. Este tal filtro fará perceber que há ideias para combater alguns males da sociedade que podem ser mais prejudiciais que os próprios males. Utilizar a música como forma de protesto e de expressão não só é absolutamente legítimo como também um de seus melhores e mais elevados usos – mas se deveria perceber que o discurso das modalidades do funk aqui atacadas apenas desagregam e contaminam mais nossa sociedade já tão pouco sadia.

Cabe protestar contra nossos políticos, como temos feito, contra as desigualdades e contra o sistema excludente. Cabe expressar pela música insatisfação contra tudo isso, bem como cantar as rotinas, os dialetos e as particularidades que mantém determinados grupos unidos. O funk faz isso muito bem, assim como o rap. Mas não é necessário incitar a guerra contra a polícia, nem reduzir as mulheres a partes e buracos desfrutáveis, tampouco contar a mentira que muito dinheiro e acúmulo de coisas trará felicidade. Funks que pregam isso são vazios de sentido e nitidamente só pioram o quadro.

Se meu diagnóstico é válido, sugiro como antibióticos (ou como paliativos?) a livre discussão de ideias, como estas aqui expostas, e o consumo também de formas consagradas de cultura, como os clássicos da música e muita literatura. Para contrabalançar toda esta contaminação e lixo, e também porque isso jamais fará mal.

Resta-nos torcer para que o que há de infeccioso neste último modismo passe, sem maiores sequelas, e que não seja substituído por algo pior.

Nossa cultura é nosso reflexo, e se constrói pelos nossos apelos e demandas.

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