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Posts Tagged ‘WMF Martins Fontes’

Por Igor Antunes Penteado

00_SeuAzulGustavo Piqueira acaba de lançar seu 14º livro, Seu Azul, pela editora Lote 42. O mote é interessante: um casal com a relação afundada na monotonia busca ajuda de um analista e recebe como tratamento a sugestão de, para retomar o hábito do diálogo e intimidade, discutir durante o jantar notícias publicadas em portais brasileiros (as notícias são verdadeiras e têm conteúdo nitidamente duvidoso). Enquanto isso, o filho deles, Allyson, deve produzir desenhos com suas percepções daquilo que é conversado pelos pais.

Designer de renome, Piqueira é fundador da Casa Rex, premiado estúdio com sedes em São Paulo e Londres, e gosta de inovar em suas publicações, utilizando-se do conceito de livro-objeto. Na obra que antecede Seu Azul, Iconografia Paulistana (WMF Martins Fontes), por exemplo, um espelho foi colado à capa do livro, remetendo ao conteúdo, que procura estabelecer um retrato de São Paulo. Com Seu Azul não é diferente e o livro apresenta um projeto gráfico arriscado.

Assim que peguei o exemplar em mãos, um pensamento me escapou: “de quem foi essa ideia?” Isso porque a capa é feita com areia e cola de silicone. O objetivo, segundo o autor, é tornar a sensação que a relação retratada na história provoca, ainda mais desconfortável. E é justamente isso que faz com que o projeto seja arriscado, deixando brechas para que a leitura seja realmente desconfortável, com areia caindo a cada virada de página. Fora que não é das melhores a ideia de colocar um livro cheio de areia em uma estante recheada de preciosidades – como considero meus livros.

Entretanto, discutir o projeto gráfico não é meu objetivo, tampouco tenho traquejo para tal, então, vamos ao que interessa. O texto de Seu Azul é bom e tem um ritmo interessante (li numa tacada só, embora não seja dos mais fininhos). Como as páginas não são numeradas e os capítulos representam os dias do “tratamento” do casal, você acaba perdendo a noção de tempo/espaço e, quando vê, está imerso nos diálogos caóticos entre Luiz Fernando e Giuliana, personagens centrais do livro.

Faltam claramente construções mais elaboradas e o livro não se trata de nenhum primor literário. Mas essa talvez tenha sido uma casualidade que mais contribuiu do que prejudicou o resultado final, já que a argumentação e retórica do casal – bastante simplistas – servem justamente como agentes reforçadores de uma relação corriqueira, como a que o autor tenta reproduzir. Ainda nesse sentido, um ponto forte é a utilização do humor nos diálogos, principalmente nas falas de Luiz Fernando. Algumas vezes, me peguei rindo alto com as coisas que o personagem diz.

Entretanto, o ritmo dos diálogos é prejudicado por algumas “escolhas” do autor. Uma delas é a repetição excessiva de palavras, recurso que, creio, foi utilizado para dar mais oralidade às construções, mas que acaba tornando a leitura um tanto truncada em alguns trechos. A outra é o excesso de asteriscos ao longo da obra (nem a capa escapa). A cada vez que aparecem nomes dos personagens, há a sistemática repetição de um asterisco para lembrar que aqueles são nomes fictícios. E não é porque há muitos personagens na história que o excesso de asteriscos me incomodou. Esse recurso é usado toda vez que os nomes dos mesmos personagens são citados. Cansativo e desnecessário.

O livro se presta bem aos dois propósitos centrais: mostrar as agruras de uma relação fadada ao fracasso e a exposição do conteúdo extremamente discutível do que tem cada vez mais pautado nossa imprensa. São premissas que dariam, por si só, sustentação à obra, sem dúvida. Não fosse aquilo que, pra mim, é o problema mais recorrente em Seu Azul. O livro é recheado de preconceito, dos mais diversos. Machismo, racismo, preconceito de classe etc. E essa é uma crítica que vai além do conteúdo do livro, é direcionada a tudo o que consumimos.

Esses preconceitos (como já exposto por mim aqui e aqui) são extremamente difíceis de serem combatidos porque são velados. E, ao contrário do que possa ser alegado, reproduzir cenas, comportamentos, ideias, opiniões ou o que quer que seja com um conteúdo claramente discriminatório não serve como um exemplo de “olha só como essas são todas coisas ruins”, mas, pelo contrário, reforça a ideia de que esse É um mundo assim. De que essa é a postura “comum”, “normal”. E exigir tamanho grau de abstração de um público que cada vez mais consome conteúdos como os criticados no próprio livro é de uma inocência que não convém.

Mas, no geral, Seu Azul vale a leitura. Serve como reflexão acerca do mundo ao qual estamos sendo expostos e também contém alguns bons momentos de diversão, além, é claro, da sensação de desconforto provocada pelos desenhos do pequeno Allyson. O incômodo que Gustavo Piqueira quis passar, ao menos em mim, surtiu efeito. Ponto para o autor.

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