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Posts Tagged ‘André Sant’Anna’

Por Rodrigo Casarin

Gado Novo_Guille ThomaziNeste ano, em virtude da Copa do Mundo, uma turba de livros sobre futebol dominou as prateleiras. Tive contato, li parte deles e raros foram os que julguei realmente oportunos – o melhor de todos, O drible, de Sergio Rodrigues, é do ano passado. Das novidades, uma boa obra é Entre quatro linhas, coletânea de contos sobre o esporte organizada por Luiz Ruffato, que traz nomes como Ronaldo Correia de Brito, Tatiana Salem Levy, Carola Saavedra, André Sant’anna, Rogério Pereira e Cristovão Tezza, que alternam textos razoáveis com outros bons. Entretanto, no volume, um trabalho realmente se destaca: “Raimundo, o dono da bola”, de Eliane Brum.

Em seu conto, Eliane usa o futebol para ir além, mostrando a famigerada bravura e a coragem do sertanejo, mas também toda a sua fragilidade e inocência. Raimundo é um homem bruto e matuto, que nasceu e cresceu no meio da floresta e conhece o futebol somente pelo que ouve no rádio – nunca assistiu a partida alguma, portanto, o esporte acontece somente em seu imaginário, na ficção que cria com as informações que os locutores tentam transmitir, emular aquilo que o interiorano jamais viu.

As coisas mudam quando Valdir aparece em sua vida e, ao mesmo tempo que abre um ponto de contato entre Raimundo e a vida urbana ou moderna, também traz consigo os males da civilização. Utilizando o futebol – que passa efetivamente para o plano real, com traves e bola -, Valdir ganha a amizade do outrora desconfiado e fechado Raimundo e consegue arquitetar a sua ruína. O conto é de uma violência – não apenas física, mas moral, emocional e contra a natureza, inclusive – extrema, é daqueles que marcam e perturbam o leitor. O jogo acaba sem gol, sem apito final, mas com uma selvagem e destrutiva invasão de campo, digamos.

Numa conversa, Eliane me disse que algumas pessoas se queixaram que o texto era muito grande para um conto. Quanta mediocridade! Primeiro porque “Raimundo, o dono da bola”, com suas 31 páginas, se não é exatamente pequeno, também não é nenhum Guerra e paz do gênero. Segundo, porque isso pouco importa. A qualidade do trabalho não está condicionada a seu tamanho. Essa lógica, na ordem reversa, poderia colocar em cheque, por exemplo, o bom Gado novo, de Guille Thomazi, uma novela de 50 páginas – o livro tem 68, mas descontei as que não trazem exatamente o trabalho literário do autor. Será que alguém se queixou com Thomazi que seu livro é muito pequeno? Espero que não.

Violência do campo

Gado novo traz outra história de extrema violência que se passa no campo. Eu nasci em Campinas e cresci em São Paulo – digo que minha mãe foi me parir lá apenas para que os outros pudessem fazer piadas relacionadas à cidade -, costumava passar alguns dias de férias em Lins, no interior paulista, mas jamais estive efetivamente no campo, em uma daqueles longos vazios de fazendas gigantescas, cujos vizinhos, às vezes, estão separados por quilômetros de distância e cada endereço, de alguma forma, acaba sendo uma cidade em si mesmo. Durante muito tempo, a imagem que tive desses lugares é aquela do censo comum para um homem médio da cidade grande (ou seja, formado seguindo uma longa lista de clichês): são terras onde se vive em contato direto com a natureza, o que traz paz e tranquilidade. Lá, as pessoas plantam e criam o que comem, precisam apoiar-se e proteger-se mutuamente, o que gera uma boa relação social, que, graças às distâncias, acaba não sendo banalizada pela convivência diária. São pessoas corteses, sempre preparadas para abrir as portas de casa e receber visitantes, mesmo que sejam desconhecidos. (O clichê também tem uma variação para as cidades interioranas, segue a linha do “quero mudar pra lá porque a vida é mais tranquila, menos violência, trabalhar perto de casa, num lugar onde as pessoas se respeitam e blá blá blá”).

Entretanto, ao conversar com pessoas desses lugares e ao ler ou assistir aos relatos de como é realmente a vida nessas enormes e pouco habitadas fazendas, percebo que muitas vezes esse ideal só existe mesmo na imaginação. Se no conto de Eliane é o homem da cidade que leva a desgraça para o isolado homem do campo, na novela de Thomazi o homem do campo, já influenciado pela vida da cidade, é o próprio responsável pelas suas mazelas.

A história começa com o narrador, sempre em primeira pessoa, procurando por um norte. “O dia nasceu torto. A menina nasceu sem futuro. Descobri como se faz mal ao mundo”. As frases são bastante breves, como se o personagem, cansado e confuso, buscasse fôlego para continuar. A tragédia está feita e ele gostaria de remediá-la, entretanto, há atitudes que são impossíveis de se contornar.

Com o passar dos capítulos, o foco da narrativa vai mudando e o ponto de vista alternando de personagem – passa pela avó da menina, o padrasto, o peão, um forasteiro – e Thomazi constrói uma intricada teia, às vezes confusa, como é mesmo a vida. Cabe ao leitor situar-se dentro da obra e procurar, por meio dos relatos, dar corpo à sua própria versão da macro-história proposta – impossível ler de fato Gado novo sendo um leitor passivo. Conforme o foco muda, o texto, o ritmo, o vocabulário, também mudam, e de maneira precisa, mostrando que o jovem escritor – que nasceu em 1986 – já em seu livro de estreia apresenta bom domínio das técnicas narrativas.

Animais, humanos, humanos animais

Uma outra característica da novela de Thomazi que me chamou a atenção é a batalha entre diferentes animais pela sobrevivência. Quando o homem se depara com o bicho, a forma como se matam bois, por exemplo, pode impressionar algum urbanóide como eu, acostumado apenas com a carne já fria, pronta para ir à churrasqueira. “Paraguay não tem dó nem mão mole. Empurra a faca no peito do bicho, no espaço entre os ossos para que dê no coração” – escreve e me lembra que cresci ouvindo o quanto é cruel quando se erra essa facada no porco, que solta um berro que causa condolência até mesmo nos mais acostumados em sacrificar os futuros alimentos. Em seguida, “cortar a carne viva é uma das funções com a qual ocasionalmente nos deparamos, e o fazemos com naturalidade”, registra uma das mulheres da obra.

Entretanto, é a violência entre dois bichos da mesma espécie que merece maior destaque: a do homem contra o homem, essa tão bem conhecida por qualquer um, seja a pessoa da cidade, do campo, da praia, da floresta… “O homem meio fora de si podia decidir passar fogo em mim era ali mesmo”, pensa um dos personagens. E poderia mesmo, sempre pode. Passar fogo, espancar, vilipendiar… Sempre é preciso que um animal humano sobreviva a outro animal humano. A menina não conseguiu resistir e sua morte foi terrível: marcas de arma branca, semidespida, roupa íntima arrancada, saia rasgada, mordidas no pescoço e nos seios miúdos, falta de parte do lábio inferior, perfurações no abdômen, olhos abertos…

Quando o homem perde para o homem. Raimundo perdeu o seu lugar e Isabel jamais chegará.

Texto publicado originalmente no jornal literário Rascunho.

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Por Rodrigo Casarin

Marcos_Peres_Evangelho_Segundo_Hitler_162-140x215Uma sociedade secreta em busca da verdade do mundo, do segredo mais profundo do cristianismo e da reencarnação de seu Messias. Uma seita de homens tatuados, mensagens subliminares encontradas nos contos de um escritor famoso, o homônimo deste escritor se transformando em seu duplo e tomando o lugar nada aprazível que caberia ao primeiro. Uma paixão improvável que ganha forças. A busca por vingança… Uma maçaroca de elementos que deixa alguns leitores realmente preocupados com o que estão começando a ler.

O evangelho segundo Hitler, de Marcos Peres, é um livro bastante atraente, a começar pelo seu nome, realmente forte. A também chamativa capa traz a informação de que se trata do vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013. Na quarta capa, palavras elogiosas de Manuel da Costa Pinto; na orelha, mais elogios, desta vez de André Sant’Anna, nomes que ajudam a dar credibilidade à obra. Mas a preocupação com a miscelânea de assuntos permanece. Faz muitos anos, mas já li O código da Vinci Anjos e demônios, e não gostaria de repetir a experiência, ainda que com outro título.

Pelo visto, Peres é um escritor atento, que se preocupa com o que o leitor irá achar do seu livro antes mesmo de lê-lo. Sabe que, apesar dos elogios, o que ele aparentemente promete pode gerar sérias desconfianças. Por isso, utiliza o prefácio para se justificar: “Minhas fontes eram os evangelhos canônicos, a curiosidade sobre História e a admiração por um escritor argentino chamado Jorge Luis Borges”, explica. Diz que gostaria de construir uma tese capaz de se erguer — ainda que de maneira frágil, como um castelo de areia —, mas não ser um “vendedor de teorias conspiratórias como os que pululam em livrarias”. Pelo contrário, gostaria de ser uma espécie de crítico daqueles que compram com facilidade qualquer tipo de teoria (e o que seria aceitar tudo em um texto literário? Tê-lo como verdadeiro? Plausível? Verossímil? Mas sigamos em frente). Para afastar de vez a sombra de Dan Brown, garante que se espelha principalmente em Umberto Eco, em O pêndulo de Foucault.

Menos mal, vamos ver se é isso mesmo, então.

Início desanimador

O começo de O evangelho segundo Hitler desmente o prefácio otimista de Peres e coloca em xeque os elogios de Pinto e Sant’Anna. Além do festival de elementos bem distintos que se entrelaçam, temos um texto ágil que se inicia com uma cena de muito suspense, um artigo misterioso, a procura por alguém que sabe de um segredo que mudou a história da humanidade… Tudo isso em capítulos breves e com finais em aberto, para que o leitor, totalmente envolvido com a trama e curioso para ter aqueles mistérios revelados, não desgrude um minuto sequer do livro; para que passe galopando de um capítulo para o outro. Ou desista.

Impossível não pensar em Dan Brown, não tem jeito. Mas, para que esse começo tenha alguma erudição, Peres desfila referências: cita Dostoiévski, irmãos Grimm, Dante, Harold Bloom, Aristóteles e até mesmo a Bíblia. Tivesse copiado qualquer um destes, é de se pensar.

Quisesse eu me apegar a isso e criticar negativamente a obra de Peres, poderia ir a fundo a alguns pontos, a começar pela relação que os jovens escritores brasileiros têm com Buenos Aires: parece que muitos deles conhecem mais a cidade portenha do que São Paulo, Curitiba, Belém, Cuiabá, Recife ou qualquer outro canto do Brasil. Falam de suas ruas e cafés como se falassem do quintal de casa (ou da sacada do apartamento). Reclamaria dos argentinos que dizem “Porra!” ao invés do tradicional “Carajo!”. Atacaria o terrível momento-clichê em que o protagonista pensa: “Que se fodam os alemães, Judas e essa bobeira toda. Dinheiro é o de menos, se com Raquel. Viveríamos de amor, em alguma praia perdida do Brasil, lendo livros de Jorge Amado e amando loucamente”. Repudiaria a quantidade de revelações da trama que há na capa, quarta capa e orelha, o que prejudica a história. Comentaria o momento em que a impressão é de que o autor é que está falando, não o narrador ou algum dos personagens.

Contudo, fizesse isso, estaria contaminado com as desanimadoras primeiras páginas. Sempre que leio uma obra, espero que ela seja boa e ao final eu possa elogiá-la e indicá-la aos amigos, por isso fiquei realmente contente em perceber que aquilo era um julgamento precipitado.

Grata reviravolta

A segunda impressão é que o livro se torna esquizofrênico, sem saber muito bem que caminho quer seguir, se o assumidamente pop ou algo que se aproxime da alta literatura. Mas logo fica nítido que Peres sabe o que está fazendo. A tensão afrouxa, o ritmo cadencia e recursos como flashback, digressão e quebra de expectativa começam a despontar oportunamente. O humor e a ironia, traços típicos de Borges, também aparecem. Dan Brown continua sim no imaginário, mas agora podemos ver O evangelho segundo Hitler como uma espécie de paródia dos livros do famigerado escritor estadunidense. O início, outrora terrível, já soa como um pastiche — um perigoso pastiche, aliás, que pode afastar alguns leitores e iludir outros com uma falsa promessa do que lerão pela frente.

E a narrativa que prometia voar desesperadoramente com o leitor de um canto para o outro da trama acaba apresentando uma estrutura bem definida, dividida em dois momentos. No primeiro plano está o presente que supostamente justifica toda a obra e que aos poucos vai perdendo espaço para o segundo plano, a revelar toda a história que leva o protagonista até o momento do plano inicial. Tudo bem amarrado no final e seguido de um epílogo que se conecta ao prefácio e abre a possibilidade para que a narrativa seja desconstruída: ponto para Peres.

Pela maneira que compôs seu livro de estréia, fica evidente que, além de fã, Peres é um grande conhecedor dos trabalhos de Jorge Luis Borges, caso contrário não conseguiria brincar da maneira que brinca com os contos do escritor argentino. O autor também utiliza elementos que fascinavam o autor de O aleph, como o próprio duplo e o Paradoxo de Zeno.

“Sei que nos escritos de Borges está a salvação do mundo, quiçá a minha própria. É só lê-lo com atenção. Lá está tudo, tudo o que um homem precisa saber em sua vida”, escreve Peres já nas últimas linhas de O evangelho segundo Hitler. Disso, poderia ter tirado mais uma obra à la Dan Brown, mas não, construiu uma verdadeira reverência a Jorge Luis Borges. E mais de Borges, até mesmo uma homenagem, é sempre ótimo.

Resenha publicada originalmente na edição 162 do jornal literário Rascunho

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