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Posts Tagged ‘David Foster Wallace’

Por Rodrigo Casarin

Anotações-de-um-voyeurO que é literatura? Apesar das inúmeras pesquisas acerca desta simples pergunta, é difícil, se não impossível, acharmos uma resposta decisiva, totalmente convincente. Contudo, algumas possibilidades, ainda que vagas, baseadas em subjetividades (a arte sempre se baseia em subjetividades), parecem já agradar bastante. Em uma simplificação absurda de toda a discussão, não erraríamos se disséssemos que literatura é a arte feita por meio de palavras, palavras que buscam algo mais. Pouco adianta, no entanto; apenas cairíamos em outra discussão. Também não temos uma resposta definitiva para “o que é arte?”. Ainda bem. Caso tivéssemos, talvez a arte deixasse de existir.

Contudo, precisamos de algo para este texto. Então, usando essa premissa simplista de que literatura é a arte feita com o bom manejo das palavras, essa arte pode acontecer de diversas formas e em tamanhos completamente distintos. A meu ver, um livro pode servir de ótimo modelo para os extremos: a totalidade de Anna Kariênina, do magistral russo Liev Tolstói, é sem dúvida uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Caso o leitor deseje ler toda a saga, se optar pela edição brasileira traduzida por Rubens Figueiredo e lançada pela Cosac Naify, terá pela frente oitocentas páginas a percorrer. Entretanto, se a obra-prima contribui muito para que Tolstói seja o que é hoje, talvez apenas a primeira frase do tijolo já justificasse todo o trabalho do escritor: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Forte, taxativa, impositiva, essa primeira frase já condensa em si aquilo que entendemos por literatura. Ou seja, a literatura está nas oitocentas páginas da obra de Tolstoi, e também está apenas em sua primeira frase.

Disso, partimos para outro ponto, um tanto óbvio: uma obra literária de qualidade é composta por frases de qualidade. Para se chegar a um texto que mereça ser chamado de arte, o escritor precisa criar um corpo de frases ao menos aceitáveis, que servem de base para momentos mais brilhantes, raros porém essenciais. São frases que, mesmo isoladas, também podemos considerar literatura. Peguemos a Bíblia, por exemplo, um dos escritos mais importantes de todos os tempos. Ela pode ser lida em sua totalidade e de forma linear, mas não perde o brilho se lermos apenas fragmentos, apenas um versículo. A qualidade está ali, a cada pequeno trecho.

Pílulas literárias

Essa condensação da literatura virou até se não um gênero, um estilo próprio: o miniconto. Um dos meus preferidos é “Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial”, de David Foster Wallace, presente em Breves entrevistas com homens hediondos, cujo longo título faz contraponto à brevidade do texto:

Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para frente, com a mesma contração no rosto.

O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

O legal de tratarmos de obras assim é que podemos colocá-las integralmente em nossos textos sem que comam todos os toques que temos disponíveis. E isso fica ainda mais fácil de ser feito nas condensações da condensação: o microconto, como o famosíssimo “Vende-se: sapatos de bebê, sem uso”, de Ernest Hemingway. Excelência em poucos caracteres.

Indo ainda mais além e já saindo das páginas dos livros, chego à música. Passei a adolescência discutindo se algumas letras poderiam ou não ser consideradas poesia. Ainda que ouvisse falar de versos alexandrinos, escanção, de ABAB ou ABBA, sequer sabia o que era poesia, achava que era algo que precisasse rimar — mas ainda assim discutia. Como os outros também não sabiam o que era poesia, não raro eu vencia o debate. Tempos depois, já com outra cabeça, percebi que havia sim algo de literatura em meio a letras de música. Um exemplo que me chama bastante atenção vem de “Tendo a lua”, escrita por Herbert Vianna. O trecho “O Sol de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu” condensa muitas coisas em pouquíssimas palavras. A figura de Ícaro, sonhadora, utópica, contrasta sobremaneira com a de Galileu, um frio cientista. É o Sol sendo mirado dialeticamente pelo olhar da razão e da emoção.

Falo tudo isso para finalmente chegar ao livro que é o alvo desta resenha: Anotações de um voyeur, do misterioso Krauh Offman. A obra é composta por aproximadamente 180 pílulas literárias, textos em miniatura que não passam de quatro ou cinco pequenas linhas e raramente extrapolam os 140 toques no teclado (caberiam em um tweet). São temas diversos, tratados na maior parte das vezes de maneira bastante precisa e criativa, ainda que um ou outro apenas confabule sobre platitudes.

Anotações de um voyeur não é uma obra para ser lida em uma tacada, na seqüência. É sim um livro para estar sempre à mão, para ser aberto e curtido de maneira aleatória, a postos para um momento de desafogo, para uma prazerosa leitura de cinco segundos. Seu formato acolhedor e o cuidado gráfico inclusive convidam a isso.

Disse muito sobre a condensação da literatura exatamente para justificar a relevância literária desta obra. Não que o livro tenha potencial para se tornar um clássico, longe disso — aliás, aparentemente, sequer é essa a pretensão do autor —, mas ali há bons momentos, em que realmente a palavra é transformada em arte.

Texto publicado originalmente na edição 165 do jornal literário Rascunho.

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Por Rodrigo Casarin

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Sou são paulino e apaixonado por futebol. Antes do preço dos ingressos me afastar da arquibancada, ia praticamente toda semana ao Morumbi, e às vezes até viajava para torcer. Como também sempre gostei muito de ler, natural que tenha um enorme interesse por livros sobre futebol e torcidas.

Em uma conversa, descobri que precisava ler Entre os vândalos, de Bill Buford, jornalista que viveu como autêntico hooligan do Manchester United e depois transformou sua experiência em livro-reportagem. Torcedor eu já era, e havia decidido cursar jornalismo. Claro que fiquei empolgado. Queria a obra imediatamente, mas mal sabia o quanto demoraria para consegui-la.

Comecei a busca quando estava no primeiro ou segundo colegial. Frustrei-me, estava esgotado. Seria exagero dizer que visitei quase todos os sebos de São Paulo, mas com certeza entrei em todos pelos que passei em frente: ninguém tinha o maldito livro. De tempos em tempos, mandava e-mail para a Companhia das Letras. Minha esperança não era que republicassem Entre os vândalos apenas por minha causa, mas que achassem um mísero exemplar perdido na editora. Não rolou.

Foi no segundo ou terceiro ano da faculdade que descobri o Estante Virtual. Finalmente uma nova chance se abria. Pelo que tinham me dito, seria impossível não achar alguma obra no site. Mentira, já não achei algumas, mas felizmente três exemplares de Entre os vândalos estavam à venda. Comprei de um sebo em Bauru, era o que estava mais próximo de São Paulo. Virou o meu livro de estimação.

Alguns anos depois, finalmente a Companhia das Letras republicou a obra. Confesso que até hoje, sempre que esbarro com algum exemplar na livraria, tenho vontade de comprá-lo. É estranho vê-lo ali, fácil, à disposição.

2.

Estávamos reunidos em umas dez pessoas. Discutíamos particularidades e rumos de um dos livros que estou escrevendo. O lugar era uma mistura de sala de estar e biblioteca. Logo interrompemos o papo para almoçar.

Nosso anfitrião é um grande colecionador. Dentre suas coleções, a de livros é uma das proeminentes. Enquanto pessoas se serviam de quiches e copos de água, aproveitei para dar uma olhada nos exemplares que estavam enfileirados nas prateleiras. Pouca coisa me chamou a atenção.

Sentamos, almoçamos, falamos amenidades e partimos para o café e a sobremesa. Ficamos todos de pé, rodando pelo espaço. Voltei às prateleiras e, enfim, um volume realmente me atraiu. Aliás, não só a mim, mas aos que me acompanhavam também. Indiscutivelmente, tínhamos ali uma preciosidade que nos maravilhava. Logo o anfitrião puxou uma mesa embutida à estante, pegou o livro e cuidadosamente abriu para que nós o admirássemos. Não tinha nome, mas o importante era sua data: 1492.

Ao vê-lo, fiquei momentaneamente paralisado, mas poderia jamais ter outra chance de me relacionar com um Matusalém daqueles. Abdiquei da compostura que a reunião pedia. Só ver o livro não bastava. Toquei, peguei, acariciei e, finalmente, levantei o livro e meti o nariz o mais próximo possível das suas páginas — precisava saber quais cheiros trazia do século 15.

Não senti grandes coisas, mas ao menos não espirrei.

Saí de lá surpreso: como uma raridade daquelas estava ali, sem proteção alguma, à mercê de uma xícara de café voadora ou de uma colher que erre a boca e derrube pavê sobre suas centenárias páginas?

3.

Sempre precisamos organizar minimamente nossos livros. Na parte de cima da minha estante ficam as obras, digamos, técnicas. Um pouco abaixo estão as de não-ficção. Já mais perto do chão, ficção, e, na mais baixa das prateleiras, livros sobre futebol — não o Entre os vândalos, que está em não-ficção —, música, livros que escrevi, enfim, um apanhado de tudo o que sobrou.

Dentro de cada uma dessas seções, eles são separados novamente de acordo com o seu gênero específico e dispostos conforme o sobrenome dos autores. Tudo isso na teoria, claro, pois na prática pouco funciona. Raramente um livro retirado da estante volta para o seu lugar de origem. Logo os espaços acabam e precisamos abrir concessões. Se não cabe mais nada na parte de biografias, é mais fácil deixar a vida de Borges provisoriamente perto de um Dostoiévski do que remanejar todas as obras até que ache algum espaço mais adequado.

Também há muitos livros que são difíceis de classificar. Onde colocar o último de David Foster Wallace (que precisei tirar da estante e já não voltará mais para o seu lugar)? Apesar da capa dizer que se trata de um livro de ensaios, a classificação não me convence. Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo é muito mais um apanhado de experiências jornalísticas de DFW. E Nu, de botas, do Antonio Prata? São memórias de sua infância, mas, pela forma e pelo autor, estou propenso a colocá-lo junto de obras ficcionais, não próximo de O ano do pensamento mágico. A plena e satisfatória organização de uma estante ou de uma biblioteca é uma utopia. Gosto de utopias.

4.

Não costumo falar de mim em resenhas — se é que deste texto está saindo uma resenha —, deixo isso para quem sabe fazê-lo com maestria, como o Julián Ana (que, aliás, anda um tanto sumido aqui do Rascunho. Espero que volte logo.), mas é impossível ler Fantasmas na biblioteca — A arte de viver entre livros, do bibliófilo Jacques Bonnet, e não pensar nos momentos mais marcantes e na relação que tenho com os livros.

O livro é um ensaio — com certeza irá para esta seção — que traz diversas nuances da relação do seu autor com as obras que compõem sua vasta biblioteca. Fala da busca por exemplares raros, da estrutura requerida para abrigar tantos volumes, da necessidade de classificá-los, das formas de ler (aqui concordo plenamente com o autor, o ideal realmente é estar alongado, como se a posição permitisse ao texto descer melhor pelo corpo)… Em alguns momentos, Bonnet traz um humor sutil e uma ironia que me lembraram Vanessa Barbara — que, aliás, tem diversos textos também falando da sua relação com os livros.

Aparentemente, Fantasmas na biblioteca é despretensioso, e esse é um dos seus grandes méritos. Não é preciso ser um grande livro para ser uma obra preciosa, daquelas que se preocupam apenas com o prazer da leitura, justamente para aqueles que amam os livros. É sempre bom ver algo que amamos sendo tratado com o carinho que Bonnet aparenta tratar seus livros e as histórias que estão ao redor deles. É sempre bom quando algo nos faz lembrar vivamente das nossas próprias histórias.

Texto publicado originalmente na edição 164 do jornal literário Rascunho.

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Por Alberto Naninni

post_betoExiste um momento precioso numa leitura – quando, ao ler determinado texto, você se dá conta de algo sobre você mesmo(a) que ignorava até então.

E também, com a imensa diversidade de opiniões que se encontra por aí, hoje mais acessíveis do que nunca, graças a sites e blogs como este, me diga se você já não se sentiu meio “perdido(a)” ante assuntos espinhosos, defendidos de forma bastante convincente por antagonistas? Tudo parece tão bem embasado, que fica difícil tomar uma posição; e, quando a tomamos, diz mais a respeito sobre simpatias e “pré-conceitos” do que sobre lógica ou razão. Bons exemplos se deram aqui no Canto mesmo, ante as discussões sobre os originais racistas de Monteiro Lobato e sobre o voto nulo, ambos escritos buscando solidez argumentiva, e gerando contra-argumentos igualmente sólidos.

De qualquer maneira, ainda que facilitadas as discussões, quando se tratar de alguns assuntos – talvez os mais importantes – nós apenas buscaremos as confirmações de nossas opiniões pré-estabelecidas, ignorando inadvertidamente bons argumentos contrários a elas. Há um experimento que corrobora esta tese, feito pelo psicólogo americano Drew Westen, e também um livro, mencionado no fim deste artigo.

Pois bem.

Em meio a balbúrdia que é o Facebook, suas fotos, seus memes, piadinhas, textos pessimamente escritos e afins, é possível garimpar algumas joias. Com a possibilidade de assinar perfis ou mesmo de adicionar  pessoas que tenham relevância dentro dos meios que admiramos ou que tenhamos afinidades, é provável ler bons comentários, receber bons textos, links interessantes, e eventualmente, na leitura de algum deles, possa vir o tal “momento precioso”.

Li no perfil do Rodrigo Casarin um texto da Eliane Brum por ele compartilhado, que reproduzo aqui:

“Desqualificar os índios, sua cultura e a situação de indignidade na qual vive boa parte das etnias é uma piada clássica em alguns meios, tão recorrente que se tornou quase um clichê. Para parte da elite escolarizada, apesar do esforço empreendido pelos antropólogos, entre eles Lévi-Strauss, as culturas indígenas ainda são vistas como “atrasadas”, numa cadeia evolutiva única e inescapável entre a pedra lascada e o Ipad – e não como uma escolha diversa e um caminho possível. Assim, essa parcela da elite descarta, em nome da ignorância, a imensa riqueza contida na linguagem, no conhecimento e nas visões de mundo das 230 etnias indígenas que ainda sobrevivem por aqui.”

Li, e me dei conta: lá estava eu, em meio à tal “elite escolarizada”, prisioneiro de uma visão superficial sobre o “progresso cultural”, por assim dizer, apesar de me achar bastante defensor das minorias e que-tais.

Com este pequeno insight na cabeça, li muitas outras notícias, acontecidas em culturas muitíssimo diferentes daquela que vivo.

E aí veio o me “sentir perdido” – se não há superioridade de uma cultura a outra, como poderei condenar o que acho errado e tomar uma posição, se a justificativa de qualquer ato pode ser como algo típico de determinada cultura? E como balizar aonde eu, com minha cultura, me situo?

O problema é bem mais capcioso que parece.

Há algumas semanas, li a notícia de uma garota paquistanesa de 15 anos, que foi morta pelos próprios pais – tenho que repetir, com ênfase em toda a tristeza e todo o absurdo que daí vem: foi morta pelos próprios pais – que lhe jogaram ácido no rosto e corpo. Ela teria olhado para um garoto, e os pais “defenderam a honra da família”, segundo eles, já manchada pela filha mais velha que teria fugido para se casar. Crimes de honra acontecem corriqueiramente em diversas culturas. Mulheres suspeitas de adultério são queimadas com gasolina, pelos noivos ofendidos ou até pelos próprios familiares; desfiguradas, apedrejadas, enterradas vivas, executadas, barbarizadas, em alguns países no Oriente Médio, Ásia e África (se quiser mais detalhes sobre este horror, leia isso.

Claro que estes são exemplos absurdos destas culturas, e claro que há exemplos extremos na nossa cultura também, mas a questão aqui não é simplesmente pinçar os extremos, mas observar as variações morais, éticas e legais dentre elas. Por causa da infinidade de variações que existe, tais atos são legitimados. Mas, para não ir tão longe, algumas tribos indígenas brasileiras tinham o costume de sacrificar gêmeos ou bebês albinos recém-nascidos, por acreditar que eles trariam mau agouro, enterrando-os logo que nascessem. Num primeiro momento, este outro exemplo parece igualmente extremo e bárbaro. E é, claro. Mas, olhando-o atentamente, em tudo se assemelha ao aborto. Um aborto tardio. A diferença é que a índia não faz pré-natal, e não sabe como ou quantos serão seus filhos.

E o aborto, sem entrar em suas razões ou méritos, algo que mereceria uma discussão à parte, é algo muito mais próximo. Assim, pode-se dizer que todas as culturas, mesmo as indígenas, toleram ou até incentivam um sem-número de barbaridades, segundo suas convenções e costumes. E a minha cultura? Esta, que eu acreditava linearmente superior às outras, atrasadas e arcaicas?

Nela, o Estado de Direito que vigora busca trazer uma igualdade. Se é verdade que há muitos senões a isso, também é verdade que crimes como os já descritos são tipificados, com suas respectivas punições. O sistema econômico incentiva uma concorrência – que, se é um tanto predatória e irresponsável no consumo de matérias-primas e degradação do meio ambiente, também trouxe incontestáveis melhorias e avanços para a vida de milhões e milhões de pessoas, além de praticamente duplicar a expectativa de vida destas num espaço de tempo bastante curto.

Então, é possível detectar porque há uma inconsistência entre uma suposta superioridade que despreza riquezas culturais em detrimento de confortos tecnológicos – algo dificilmente defensável, e esta mesma superioridade, em detrimento de costumes arcaicos – algo plausível, pelo menos no campo moral. Trata-se de medir estas diferenças com a “régua” adequada.

As riquezas culturais de civilizações com milênios de história não podem ser desprezadas. Nossa civilização seria uma criança pequena comparada a estas. Mas eu acredito haver sim uma espécie de “linha evolutiva” do progresso das civilizações e culturas, e acredito que estamos mais evoluídos que a maioria, se aplicarmos esta “régua”: o maior amor ao próximo.

Este critério, uma vez definido o que se entende por amor, esclarece as controvérsias havidas quando confrontadas as culturas e seus costumes. Assim, é indiferente se o jovem anda com seu Ipad ou se pesca no rio com seu arco-e-flecha. Se sua cultura o acolhe, ama, respeita e protege, tentando igualá-lo em direitos e deveres a todos os outros (salvo inevitáveis variações hierárquicas), não há superioridade ou inferioridade a outra cultura. É apenas um outro caminho.

Mas, se ao invés de se amar às pessoas, se ama mais os conceitos e instituições, como a honra, os costumes, a religião, as posses ou o governo, fatalmente se sucederão e se admitirão absurdos como a violência às mulheres e minorias. E isto é um atraso, e um horror, e uma tristeza.

Sim, há na nossa cultura muitos e muitos casos de violência contra mulheres e diversas minorias. Isso é indiscutível. Infelizmente. Não somos o exemplo de amor ao próximo que poderíamos ser, ante o esclarecimento que atingimos. Mas eu até acho que nos dirigimos para isso, timidamente. Prova disso são os militantes pelos direitos de parcelas oprimidas, como por exemplo o movimento feminista, os anti-racistas, e os de defesa dos animais.

Muitos movimentos de defesa das minorias tem sido bastante ativos, e este é um ótimo sinal. Tomando o último citado, quando expandimos o conceito de amor ao próximo aos animais, inferimos que as pessoas que o fazem, em sua absoluta maioria, respeita seus semelhantes como iguais. Ou seja, partem do pressuposto que obviamente não se deve maltratar as pessoas, e muito menos os animais, que são indefesos. Muitos gostam mais deles do que delas, e não os culpo – os animais são puros e desinteressados; as pessoas, nem sempre.

De qualquer forma, apesar destes movimentos, há pouco amor ao próximo, e por isso, há muitas leis. Há inclusive a tentativa de se criminalizar maus-tratos aos animais, e os militantes em defesa deles fazem muito barulho quando flagram algum caso, como o da enfermeira que, sujando sua categoria, torturou até a morte seu cãozinho, sem perceber que estava sendo filmada. De minha parte, acho justo a crueldade ser punida.

Porém, reconheço que, por interesse, contemporizo com outro tipo de crueldade: a que envolve se alimentar de outros animais. É algo cultural, e talvez até genético. Segundo o dr. Dráusio Varella, estaria impresso nos nossos genes o consumo de carne, tanto que salivamos só de cheirar um bife sendo feito. Mas há aqueles que optam por abrir mão deste consumo: os vegetarianos e veganos.  Eles transcendem um impulso atávico humano: o de caçar e comer, ainda que não cacemos nada senão em açougues e mercados. E o substituem por um tipo de amor que não despreza o sofrimento causado a um outro ser vivo, criado apenas para o abate, e muitas vezes, em condições extremamente cruéis. Além disso, costumam se tornar vegetarianos ou veganos pela própria vontade – e não por ser um costume do seu povo, ou por ordem de seu líder religioso. Até porque eles costumam prescindir de crenças, já que são guiados pela própria consciência, a ponto de se importar não só com seus semelhantes, mas também com os outros seres vivos.

Por estes motivos, acredito que eles sejam a próxima “linha evolutiva” humana, e a princípio, moralmente superiores. Aliás, possivelmente, num futuro talvez não tão distante, seremos vistos como neandertais, com nossos churrascos e frigoríficos.

Enfim, as violências – culturais ou não – que se passam do outro lado do mundo chegam até mim, assim como aquelas que literalmente batem à minha porta, ou chegam à minha mesa. Os movimentos pelos direitos humanos e animais – mais fortes e presentes em algumas culturas do que outras – também. Então, posso respeitar as culturas e diferenças, mas, munido da medida do amor, também posso ver que, quanto mais tradicionalista e fechada uma cultura seja, mais distorções e violência contra os seus ela tende a abrigar. Em contraponto, quanto mais progressista e aberta seja outra, mais ela tenderá a dar voz aos seus, e, por conseguinte, mais equilibrada e justa ela possivelmente será.

Depreende-se então que desta cisma se originou um outro tipo de desafio: como se estar conectado a tudo e não ser massacrado por isso.

O genial David Foster Wallace, jornalista e escritor americano, escreveu um relato cru sobre um tal Festival da Lagosta, que acontece nos EUA, para uma revista especializada, que foi de certa forma até corajosa em publicá-lo, ante a posição que ele toma e as reflexões que ele faz.

Creio ter chegado a conclusões parecidas. O homem é abjeto. Vil, ditador, mesquinho e cruel. Animal em suas pulsões. Ler sobre as barbaridades que alguns são capazes, as fazendo por causa de sua cultura ou por outra justificativa qualquer, nos dá a sensação de que somos melhores, que não faríamos aquilo em hipótese nenhuma. Bem, pesquisas consagradas contestam isso: somos capazes dos piores atos, se arrumarmos uma justificativa que considerarmos plausível, como obediência, costume, autodefesa ou “forte emoção”.

Não admira que David Foster Wallace, capaz de enxergar tanto sobre si e seus semelhantes até num Festival de Lagostas, não tenha mais aguentado viver. Ser sensível demais, enxergar demais, traz desespero. É necessário um embotamento, uma “correria” atarantada, que consome futilidades, que acumula coisas, que se engana com um juízo distorcido de si mesmo, e que ignora, ou finge ignorar, o quanto de vaidade há nisso tudo. E mais que isso, é necessária uma “dessensibilização” aos absurdos do mundo, como um antídoto, que nos possibilita viver e até ser felizes.

Como uma espécie de ácido que nós mesmos derramamos em nossas consciências.

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O novo livro traduzido de David Foster Wallace, publicado quatro anos após sua morte, Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, da Cia. das Letras, acabou de chegar às livrarias, e tem o ensaio “Pense na Lagosta”, mencionado aqui. Também pode ser lido no site da revista piauí.

O livro mencionado que aprofunda a noção de que só procuramos a confirmação das nossas teses é o Previsivelmente Irracional, da Elsevier, escrito pelo psicólogo e professor americano Dan Ariely.

Agora, consigo marcar uma posição de qual lugar minha cultura ocupa (e eu dentro dela). Muito longe da perfeição ela está, e muito para se envergonhar existe. Consumir carne e esgotar o meio-ambiente, ligar pouco para as minorias, fazer parte de um sistema que mais separa e exclui do que o contrário. Confere. Mesmo assim, afirmo haver grande diferença entre cometer estes e outros pecados, e cometer não apenas estes, mas ainda outros piores, contra qualquer um, por motivo de ódio, costumes medievais e ignorância – pura, grossa e cascuda. Em relação a estas pessoas, cuja cultura autoriza e estimula este tipo de ação, só preciso ver a foto de UMA das milhares e milhares de vítimas que eles desfiguraram com seus ácidos e preconceitos para dizer: atrasados. Covardes. Bárbaros. Desumanos.

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Por Rodrigo Casarin

A tentação de escrever um texto sobre O céu dos suicidas traçando um paralelo entra o Ricardo Lísias, o autor da obra, com outros escritores que se relacionaram de alguma forma com o suicídio é grande. Contudo, há quem já tenha escrito colocando-o ao lado de Enrique Vila-Matas, do bom Suicídios exemplares, ou mostrando como o tema remete a David Foster Wallace, um nome cada vez mais querido pela crítica e que optou por acabar com sua própria vida. São boas abordagens, mas que se aproximam basicamente pela temática.

Penso que uma maneira de ler O céu dos suicidas é procurando entendê-lo dentro da própria obra de Ricardo Lísias e de suas referências (ou auto-referências, como veremos mais adiante). Mas vamos primeiro ao livro.

A história inicia com Ricardo Lísias (o protagonista homônimo do escritor) deixando de ser um colecionador para se tornar um especialista em coleções. É o ser não sendo, o afastamento necessário que devemos ter de um assunto para que possamos tratá-lo com a devida imparcialidade – o que nem sempre acontecerá ao longo da trama.

Aos poucos, a história deixa de falar da vida do protagonista como colecionador e especialista para imergi-lo em duas grandes buscas: a principal é saber o porquê do suicídio de André, amigo de Ricardo; a secundária, que funciona bem para o desenrolar dos fatos, é descobrir qual era a relação do avô de Ricardo com o Oriente Médio, mais precisamente o Líbano, ao longo da década de 1970.

Como já é de se esperar de uma obra que trata do suicídio, uma certa melancolia permeia cada página de O céu dos suicidas. As reflexões sobre a culpa de quem fica vão sendo aos poucos abordadas. O que poderia ter sido feito para que o suicídio fosse evitado? Qual a parcela de culpa de cada um para que a tragédia acontecesse? Onde o amigo estará agora? Ricardo acaba se tornando um colecionador de hipóteses e dados e acontecimentos da vida de André – e apenas os mais importantes merecem destaque, como em qualquer coleção que se preze –, como se isso pudesse manter o amigo vivo, como se com isso continuasse vivendo com o amigo.

Os detalhes do suicídio de André aparecem aos poucos, deixando a impressão que Ricardo não quer encará-los de uma vez. Contudo, em certo ponto da narrativa, o narrador parece tomar coragem e falar definitivamente sobre o que aconteceu, explicitando os pormenores da tragédia. Em contrapartida, conforme a história é contada, Ricardo vai se dando conta da dimensão da persa e a cada capítulo aparenta sentir mais falta do amigo.

Já a busca dos motivos pelos quais o avô trocava cartas com alguém do Líbano acabam por levar o protagonista a uma viagem – aparentemente precipitada; fracassada, com certeza – até o país do Oriente Médio, o que nos remete a outras obras de Lísias, onde o contato com o estrangeiro também é elemento marcante.

Em O livro dos mandarins, Paulo passa pela Inglaterra e imerge na China – chega até a aprender o idioma chinês. Em “Tólia”, conto de Lísias publicado na Granta – Os melhores jovens escritores brasileiros, o personagem principal, que também chama Ricardo, vai parar na Rússia e aprende o russo, outro idioma bastante estranho para nós brasileiros, com uma origem linguistica diferente do português. Em “Concentração”, conto publicado na Granta – Longe daqui, uma edição destinada às narrativas de viagem, Damião, o protagonista, viaja para e na cultura Argentina, muito mais próxima da nossa realidade. Como outros escritores de sua geração, Ricardo é um autor que não confina a ambientação de suas histórias nos limites geográficos do país onde vive. Mas há mais características de O céu dos suicidas que aproximam o livro de outras obras do mesmo autor.

Elementos autobiográficos e o narrador

Elementos autobiográficos permeiam O Céu dos Suicidas. O indicativo mais óbvio disso é o nome do protagonista: Ricardo Lísias, ainda que o autor deixe claro que o personagem principal não é ele. Ricardo – o escritor – recentemente também perdeu um amigo que se suicidou, diz que também passou por uma fase psicologicamente e emocionalmente bastante conturbada após o ocorrido (e quem há de duvidar?), também estudou em Campinas… Há momentos em que as reações do protagonista parecem ser as do próprio autor, como a surpresa com a educação de um policial ou quando o personagem relata que “As melhores coleções sobre material político que observei até hoje comprovam que José Sarney e Fernando Collor combinavam com o papel que lhes coube no picadeiro que foi a presidência do Brasil após a ditadura. Eu me envergonho de sentir saudades daquele tempo”. O posicionamento político de Ricardo escritor refletido no Ricardo personagem é evidente.

Em “Tólia”, como já vimos, o protagonista do conto também se chama Ricardo e os elementos autobiográficos voltam a abundar: a formação acadêmica, a relação com a literatura, os livros que escreveu… Pode ser apenas uma fase, mas, nesses dois exemplos – os seus trabalhos mais recentes se considerarmos apenas as publicações em livros – a ficção de Lísias parece tomar um rumo fortemente baseado em experiências de vida do próprio autor, como também acontece em Meus três Marcelos, conto de 2011 com um protagonista que dá aulas sobre literatura, como Lísias.

Toques da biografia de um escritor estão presentes, em menor ou maior escala, em praticamente qualquer obra de ficção, contudo, ao menos nesses trabalhos citados, Lísias parece criar uma nova história em cima de sua própria história, não utilizar elementos de suas vivências para dar um tom mais realístico ou falar com mais propriedade de algo que ocorre no plano ficcional. É a ficção invadindo a realidade, não o contrário.

E o protagonista de O céu dos suicidas não é útil apenas para que haja uma discussão da interferência da biografia do criador em sua criação. Ricardo Lísias personagem também é uma ótima oportunidade para que retomemos a sempre atual discussão de até onde podemos confiar no narrador de uma história.

Ricardo Lísias personagem é alguém que passa por surtos repentinos que beiram a inverossimilhança. Em meio a uma conversa, pode mandar alguém tomar no cu ou se foder de uma hora para a outra, apenas porque o interlocutor diz algo que não lhe agrada ou que não vai de encontro às suas expectativas. Além disso, o protagonista – também narrador – não é dos mais confiáveis. “Não me recordo como saí do apartamento da desgraça. Desde que meu grande amigo se matou, tenho problemas de memória. De repente, na lembrança que consigo recuperar, vejo-me na rua de novo”, revela. Ora, se temos aí um ser que passa por surtos – mostrando um distúrbio ou, ao menos, um indiscutível momento de forte perturbação psicológica – aliado a uma memória falha, como podemos acreditar nas palavras que ele diz?

Em outro momento de forte carga emocional, novo exemplo. Ricardo fecha um capítulo com um lapidar: “Não vou conseguir terminar este capítulo”, mostrando que está completamente envolvido com a história – envolvido a ponto de ser influenciado por ela, de ser até refém dela, mostrando que não possui um distanciamento necessário para encará-la como isenção, tal qual um especialista em coleções que não se afasta de suas próprias coleções. Esse é um dos grandes trunfos do livro, deixar para que o leitor decida se acredita ou não em tudo aquilo que vem sendo dito. Alguns acontecimentos são irrefutáveis – não há como negar o suicídio, por exemplo – mas outros são questionáveis – em alguns momentos, será que tamanha falta de educação e respeito realmente aconteceram daquela maneira?

Linguagem e beleza

Em O livro dos mandarins, romance publicado em 2009, Ricardo Lísias utiliza a linguagem com radicalismo. São comuns as excessivas repetições de frases e ideias em parágrafos próximos ou até em um mesmo parágrafo. Já em O céu dos suicidas, o recurso é usado com muito mais parcimônia, como no seguinte trecho: “Nesse mesmo dia, recebi uma ligação. Ricardo, o André se enforcou. Ricardo, a polícia achou o corpo do André enforcado. Já faz alguns dias. Ricardo, o seu amigo. Ricardo, você, Ricardo, o André, Ricardo. Enforcado, Ricardo. O André se enforcou, Ricardo”, fazendo com que as repetições e as frases incompletas deixem a impressão de que estamos vivendo a confusão mental que acontece na cabeça de Ricardo ao receber a notícia do suicídio do amigo.

Por outro lado, em O céu dos suicidas um toque de radicalismo está no formato dos capítulos, sempre curtos, ocupando não mais de uma página e meia, como se tudo acontecesse em flashs. O resultado da comparação mostra um escritor mais maduro, mais feliz nas experimentações, que consegue atingir uma estética muito mais bela com a linguagem e os recursos utilizados.

E por falar em beleza, os momentos mais belos de O céu dos suicidas são aqueles em que Ricardo busca saber para onde a alma de André poderá ter ido.

As religiões são implacáveis com os suicidas, praticamente todas elas os condenam veementemente. Nos templos, igrejas, sinagogas ou qualquer outra espécie de casa de Deus, não há consolo, afago, clemência e nem piedade com aqueles que optam por tirar suas próprias vidas. Nem com estes e nem com os que ficam. A dor e, principalmente, a raiva do protagonista após cada acolhimento frustrado são latentes. Ao procurar o psiquiatra, que também em nada lhe ajuda, o narrador se abre “Um dos nossos amigos, um cara muito espiritual, acho que a palavra é essa, espiritual, disse que em todas as religiões, ou praticamente em todas, os suicidas sofrem muito e na maior parte das vezes não vão para o céu”.

Em uma das buscas por alguma palavra que lhe conforte, Ricardo acaba sendo – não sem motivo – espancado por um grupo de espíritas. A surra é tamanha que vai parar no hospital e, após receber os primeiros tratamentos, é de um médico que ouve o consolo que tanto procurava. Em cenas breves e diálogos sucintos, mas belos, o doutor lhe ensina a rezar para acalmar a angustia, conversa com Ricardo sobre Deus, diz o que o personagem tanto procurou ouvir: “Seu amigo foi direto para o céu, sem nenhum sofrimento”.

Na obra, Médico é escrito assim, com m maiúsculo, da mesma maneira que se convencionou escrever Deus. Com esse recurso, de certa forma Lísias coloca o doutor no mesmo patamar do Todo-Poderoso, mas não por acaso. É de uma ironia, sensibilidade e beleza imensa o personagem, após ouvir palavras que muito lhe doíam dos religiosos, encontrar o afago nos dizeres de um médico, um dos profissionais mais ligados à ciência e que levam a fama de se sentirem mesmo deuses, mas pelas intervenções que podem fazer no ser humano, por poderem salvar vidas com atos físicos, não com palavras. Palavras essas que encaminham Ricardo de volta a uma vida um pouco mais nos eixos.

Esse último aspecto de O céu dos suicidas, o Médico fazendo aquilo que Deus não conseguiu fazer por causa de seus representantes na Terra, é um daqueles momentos que tocam profundamente o leitor mais atento e que está realmente envolvido com a obra. É um daqueles momentos que nos fazem entender porque a arte é essencial para a vida.

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Ricardo Lísias já foi entrevistado aqui no Canto dos Livros, confira clicando aqui.

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Por Alberto Nannini

“Se não fosse a possibilidade do suicídio, eu já teria me matado.”,                                                                                E.M. Cioran

Passava um comercial assim: uma praia, em um dia nublado; ao fundo, uma música linda e triste. Uma mulher de vestido anda. Ela vai entrando no mar revolto, entrando, entrando… até desaparecer. Era do CVV, Centro de Valorização da Vida. Talvez conheça, trata-se de um serviço por telefone, feito por voluntários, que está 24 horas por dia disponível para receber ligações de qualquer pessoa, que queira dizer qualquer coisa. Nasceu como uma medida para prevenção do suicídio, e ajuda também as vítimas de depressão, traumas, ou apenas quem queira desabafar um pouco.

Para ser voluntário do CVV, havia um treinamento rigoroso, de oito finais de semana, que acabava funcionando como uma “peneira”. Mas os persistentes enfrentavam seu primeiro plantão semanal já bastante preparados: simulações de atendimento eram feitas, e havia um trabalho incessante para despir os novatos de preconceitos. Ante a diversidade incrível de voluntários, que vinham de todas as classes sociais, havia muitos profissionais – como psicólogos e médicos – que davam embasamento às teorias ensinadas sobre os potenciais suicidas – gente comum, cuja dor e sofrimento os comprime a um beco sem saída, do qual a única escapatória parece ser a mais definitiva delas.

Aprendi ali, dentre outras coisas valiosíssimas, a não subestimar nem pré-julgar alguém que tentou ou consumou o suicídio. Cada um sabe a dor que sente. O sofrimento insuportável do suicida termina ali, da pior forma. Mas o dos seus conhecidos, amigos e familiares, está apenas começando. Virá avassalador, na forma das saudades, das perguntas que ficarão eternamente sem resposta, e, não raro, de doses cavalares de culpa.

No excepcional livro O Céu dos Suicidas, Ricardo Lísias fala com propriedade sobre isso.

Tal qual alguns outros autores contemporâneos, como Marcelo Mirisola e Alex Antunes, Ricardo vai escrevendo “instantâneos” do seu cotidiano, nesse estilo que borra a linha entre romance e autobiografia, e vai reconstruindo, em capítulos de página e meia, as memórias dos dias próximos ao suicídio de seu grande amigo, André.

Esta escolha estilística poderia ser um problema. Os mais puristas chiariam , dizendo que os novos romances andam com cara de diários, ou de blogs, e que seria perfeitamente possível  criar um personagem para servir de alter-ego. Outros se queixariam ante a indefinição do que é “real” e do que foi romanceado.

Felizmente, não sou um purista.

É verdade que mesmo com um narrador em primeira pessoa e utilizando seu próprio nome, não se poderia assegurar a princípio que a obra não é total ou parcialmente de ficção.   Porém, há muito os leitores não estão mais restritos apenas ao livro: há a internet, e há as diversas outras publicações, como artigos, resenhas e afins. Por isso, um leitor mais detalhista lembrará de outros textos do autor com este mesmo tom e tema (como a nossa entrevista) que revelam a realidade desta experiência.

De qualquer forma, ante a qualidade da escrita de Lísias, esta discussão vira algo menor. Fosse o Ricardo do livro “apenas” um personagem, ou que haja nele um determinado tanto de ficção, suas experiências não se tornam por isso menos tocantes e verossímeis. A leitura te envolve de maneira quase suave, falando sobre coleções, até se perceber logo que tudo ali grita e dói. Tudo o que foi largado dói, a saudade dói, a impotência dói, a irreversibilidade dói.

A construção da narrativa é brilhante: vai descendo em espiral, afundando aos poucos, entre as memórias e reconstruções cada vez mais doloridas, antes, durante e depois do episódio do suicídio. Uma vez que tudo está sendo relembrado e já foi vivido, pequenos gestos, pequenas palavras ditas ou não-ditas assumem um significado enorme. Tudo fica desmedido.

Além disso, não há (ou não se percebe) uma intenção planejada, seguindo um “roteiro”. Este é um mérito deste tipo de escrita. É como se o autor nos disponibilizasse os seus recortes, iguais àquele diário das experiências que cada um de nós vai tecendo em sua cabeça, dia após dia, e que nem sempre contamos aos outros. Conforme lidas, as sensações, as lembranças, as reações relatadas vão trazendo à nossa frente o Ricardo, frágil e contrito, e é impossível ficar alheio ao seu drama.

Ante esta leitura, parece que o estilo de escrita sequer foi uma escolha: foi uma imposição. Tinha que ter sido escrito desta forma. Faz sentido. Há dores pessoais demais para serem  romanceadas.

Arrisco dizer também que somente após um certo distanciamento foi possível colocar tudo no papel, dar-lhe coesão, porque o próprio Ricardo menciona dificuldade de concluir alguns capítulos, e também reconhece seu comportamento reativo – aquilo que ele fazia sem controle e mal se dando conta – na voz das pessoas que, com muita paciência e amor, lhe servem de bóia. Por exemplo, no capítulo em que sua mãe o socorre e o situa, naquele tom incontestável que só as mães conseguem, é impressionante como ele deu mais a conhecer dela do que se a descrevesse por páginas e páginas.

Este e os outros fragmentos de memória do Ricardo-autor-personagem-narrador vão descrevendo a espiral de frustração, culpa e solidão que ele vai descendo, e podem ser creditados como extremamente fidedignos, principalmente porque ele não se poupa em nenhum momento.

Aliás, para extravasar tamanha dor, o que ele menos fez foi poupar. Sobra para todo mundo, e aqueles risos tristes que o livro vai te arrancar será quando ele terá que enfrentar alguns desdobramentos bastante singulares (e literalmente doloridos) dos seus próprios gritos e ações.

Mas acredito que a sensação que vai perdurar mais será aquela de bolo na garganta – algo que você tenta engolir, mas parece que não está cabendo. E, dependendo da proximidade que você tenha com o tema, é bem possível que as lágrimas surjam.

Como se tudo isso não bastasse, fiquei particularmente sensibilizado com as descrições de epifania que Ricardo viveu, na busca de explicação junto às religiões. Há alguns ditos que tem o poder e o efeito de uma oração – seja pela súplica, seja pela raiva que contém, e a quem se dirigem. Momentos belíssimos são relatados, e não pude deixar de constatar – e lamentar – que, num dia comum, se fosse testemunha de qualquer um deles, provavelmente continuaria andando, e imaginaria alguma espécie de loucura. Se um amigo me relatasse as experiências que ele relatou, eu buscaria como resposta alguma bobagem ouvida como stress pós-traumático, ou surto. Tal e qual já fizeram comigo. Isso prova uma coisa: eu, que já vivi epifanias muito parecidas, e que já fiz perguntas semelhantes, aprendi direitinho, e agora estou “curado”.

Estou normal.

Que bom.

Enfim.

Os livros que nos marcam de tal forma que não os resumimos a alguns parágrafos ou a apenas uma vaga lembrança, são poucos. Os que mostram e/ou confirmam verdades profundas, e nos emocionam de verdade, levando a sensações extremas, são ainda mais raros. Pois, para mim, O Céu dos Suicidas está neste rol. Sua escrita pungente me emocionou, me fez pensar, me tornou solidário à dor do autor e com o muito de dor que há por aí. Fez também que eu me tornasse mais convicto de algumas posições – dentre elas, a que me faz achar o título da obra perfeito e verdadeiro. Necessário até.

Eu escrevi que há ditos com efeito de oração no livro (apesar de Ricardo, em determinado momento, ser ensinado a rezar),  mas agora me dei conta: o livro é inteiro uma oração.

Por tudo isso, mas não só por tudo isso, indico: leia correndo!!! Ou melhor, compre-o correndo, e leia sem pressa, se puder – creio que haja poucas ofertas tão atrativas e compensadoras quanto esta nas livrarias.

E, por último, gostaria de ligar esta resenha e indicação ao texto de David Foster Wallace. Não por haver o suicídio em comum aos dois, mas por ambos falarem, com tanta precisão e beleza, da vida e suas dores e alegrias. De liberdade e difíceis escolhas. E por soarem como orações, de urgência e de amor.

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Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para frente, com a mesma contração no rosto.

O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

(David Foster Wallace – conto retirado do livro Breves Entrevistas com Homens Hediondos)

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Mais uma revista online sobre Literatura. Dessa vez é uma iniciativa da Não Editora, que criou a publicação Cadernos de não-ficção. Os temas abordados são focados principalmente em critica literária e, apesar do nome, o que predomina é mesmo a ficção. Na primeira edição, há um grande – e muito bom – especial sobre David Foster Wallace, o escritor estadunidense que vem sendo um dos nomes mais comentados pelos críticos quando o assunto é literatura pós-moderna. Já na segunda edição, com um especial dedicado à poesia contemporânea, destaco um ensaio sobre oficinas literárias.

A revista era para ser quadrimestral, contudo a terceira edição está atrasada. Mas a publicação não morreu não, a promessa é que tenhamos a nova edição até junho. Enquanto isso, dêem uma olhada nas outras duas edições, vale a pena conhecer. O link está aqui.

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