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Posts Tagged ‘Piauí’

Por Fred Linardi

CapaPoeiraBaixa-202x300Se alguém quiser escrever na grande imprensa usando sua criatividade e autoria, pena um bocado para ser compreendido, principalmente nos veículos mais tradicionais, ou “quadradões”. Há dez anos então, essa realidade era ainda mais inflexível. Não sei se Ivan Marsiglia sofreu para convencer no uso de sua criatividade, mas valeu a pena, como se pode ver no livro A poeira dos outros.

É certo que o espaço curto como o de uma década é pouco para grandes transformações, principalmente quando se trata de uma imprensa conservadora e medrosa como a nossa, que normalmente se recusa a ousar nos textos. Mas foi há menos de uma década que o Brasil viu surgir alguns veículos cujos escritos têm a proposta de colorir um pouco o deserto monocromático da objetividade jornalística. Apareceram revistas como a Piauí, a Brasileiros e a Rolling Stone nacional. Também assistimos ao reconhecimento de que textos mais fluidos e que lançam mão de técnicas narrativas são muito bem-vindos, e que podem entreter o leitor sem fugir dos fatos.

Enquanto espaços semelhantes ganhavam algumas revistas, outras delas já comprovavam que escrever com estilo não era uma receita nada ruim. A revista Trip, voltada para um público jovem, já mostrava que reportagens criativas ainda podiam ser feitas com seriedade, e chegavam a dar exemplo de cobertura em muitos veículos tradicionais. A própria Playboy ousava em suas matérias e foi nesta onda de renovação que outras começaram a esboçar alguma inovação.

Foi num contexto de mudança que surgiu o caderno “Aliás”, do Estado de São Paulo, que reservou desde o início sua última página para uma reportagem sobre personagens e acontecimentos marcantes escrita de maneira diferente.

Ivan traçou exatamente esse caminho, conquistando um raro espaço para escrever com o máximo de liberdade possível. A poeira dos outros conta com 20 matérias publicadas nas revistas Trip, Playboy e no caderno “Aliás”, veículos nos quais Ivan passou como repórter e em cargos de editor ou chefe de redação. Neste ponto, é evidente que a marca mais forte de sua produção é o estilo que adota para escrever sobre diversos assuntos, assim como a escolha desses temas, que em alguns casos são um tanto originais.

Leitura promissora

Não se pode deixar de perceber que de todos os textos, 17 foram tirados do Estado de São Paulo, o que implica em duas conclusões: a primeira delas é que texto bem apurado e bem escrito não depende de espaço físico do papel. E não estamos falando de assuntos rasos ou facilmente esgotáveis. Entre essas matérias, é possível ler sobre uma família que luta para continuar morando numa casa que, de acordo com todas as indicações, era usada para torturas durante o regime militar (“A memória das paredes”); ou então, com a mesma extensão de texto escreve um perfil sobre o cabeleireiro Celso Kamura (“Ele faz a cabeça da Dilma”), ou então de assuntos mais dolorosos, como o excelente texto sobre a da mulher que contraiu HIV do seu segundo marido (“Contaminada pela vida”).

A segunda conclusão é o outro gume da faca. Pela limitação de espaço, muitas vezes encerramos a leitura com o pesar de que as reportagens do jornal poderiam ter rendido muito mais. Queremos mais do que a poeira dos outros – queremos os outros por inteiro (se é que é possível). É preciso reconhecer a abertura editorial que o veículo se dispôs a reservar para esses tipos de reportagem, mas é evidente que a limitação ainda é muito grande, ao contrário do que se pode conferir nas matérias vindas de revistas. De qualquer maneira – e por isso mesmo – é notável que o jornalista aproveita bem o espaço destinado para esses textos.

Um dos destaques do livro é “Viagem ao centro da guerra”, publicada na revista Trip, contando como é uma noite no pronto-socorro no bairro periférico de Campo Limpo, em São Paulo, com um início que fisga a leitura:

“Eu tô morrendo, eu tô morrendo…”

São 20h37 de um domingo de agosto quando um rapaz de camiseta, bermuda amarela de nylon e tênis Mizuno entra no pronto-socorro (PS) do Hospital Municipal do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo. Ele tem um tiro no rosto e três perfurações de bala espalhadas pelo corpo. Está consciente e andando com as próprias pernas. “Eu tô morrendo”, repete, com a voz empastelada pelo sangue que escorre dos cantos da boca e empapa sua camisa. Na sala de emergência, o residente de cirurgia Rodrigo Rodrigues da Costa está de plantão. Ele mal terminou a faculdade, ainda mora com os pais e completa 29 anos amanhã – mas já tem que salvar uma vida.”

E a partir daí estabelece dois mundos, entre o futuro das pessoas atendidas e o futuro do jovem médico naquele ponto em que todos se encontram, entre vítimas, bandidos e polícia num hospital naquela região. É um dos exemplos de matérias com maior espaço editorial e, por isso, que permite um mergulho maior ainda dentro da imersão de Ivan.

Várias vozes

Uma das grandes peculiaridades da escrita de Ivan está nas diferentes vozes que assume. Faz das palavras do personagem as suas próprias, como acontece no perfil de Celso Kamura, onde o jornalista escreve em tons como “Menina, não se fala em outra coisa neste salão. Bafo. Segredo? Nada. Aqui todo o mundo sabe de todo o mundo. Você ainda é cliente nova, mas eu já venho faz sete anos.”, absorvendo o dialeto comum de salões de beleza.

E vai ainda além nas matérias cujos protagonistas são a faixa a presidencial ou a uma onça sussuarana encontrada próxima à rodovia no interior de São Paulo. Com um texto leve, assume a voz dos personagens e conta em primeira pessoa como é a vida deles, num estilo que se distancia ao máximo das regras primordiais do jornalismo, mas sem perder a veracidade dos fatos. Essa liberdade não afasta o leitor da verdade, mas abre espaço para voos criativos como:

“No meu sonho, eu corria por campos sem fim, ao lado dos meus amigos preás, capivaras, veados, catetos… Quer dizer, para eles sou mesmo é amigo da onça. Mas era um sonho feliz, sim senhor, que foi virando pesadelo enquanto me carregavam para a clínica do Centro Brasileiro para Conservação de Felinos Neotropicais, da Mata Ciliar, em Jundiaí”.

Ao longo dos textos, deparamos como o uso de alguns termos um tanto óbvios, como quando a faixa presidencial reflete sobre como foi cara sua confecção “Mas queriam o quê? Que fosse na faixa?” Ou então o uso do termo “comunidade carente” referindo-se a uma periferia de São Paulo. Afinal, existem comunidades – pobres ou ricas – sem carências? De qualquer maneira, não se trata de alguém com uma visão simplista – acredito que apenas um deslize editorial –, já que o repórter demonstra um olhar sensível para tratar os diversos assuntos.

O que sobra ao leitor é a prova de que, com um pouco mais de esforço e criatividade do que se vê por aí, os veículos poderiam ousar como faz Ivan, sob o desejado sonho que os jornais têm em serem mais lidos – e também por respeito aos seus leitores, pois estes gostam de bons textos e isso tem a ver com originalidade e sabor. E A Poeira dos Outros tem para vários os gostos.

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Ricardo Lísias é um dos escritores nacionais de quem os leitores mais podem esperar algo atualmente. Autor de O livro dos mandarins, obra singular sobre o mundo corporativo, também escreveu Cobertor de estrelas, que foi traduzido para o espanhol e o galego, Duas praças, terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de 2006 e Anna O. e outras novelas, de contos. O céu dos suicidas, seu próximo romance, já está no forno e deverá ser lançado até o começo de abril pela editora Alfaguara. Confira abaixo uma entrevista com Ricardo, onde ele fala sobre O livro dos mandarins, prêmios literários e, dentre outras coisas, o texto que escreveu recentemente para a revista Piauí.

Canto dos Livros: Para começar, o que é literatura para você?

Ricardo Lísias: Muita coisa especial, mas nesse momento da minha vida estou preferindo praticá-la a pensá-la. Talvez possa dizer que entre tanta coisa, uma das que mais me agrada é a forma particularmente profunda e eficaz de expressão.

CL: Qual o papel da literatura de ficção?

RL: Creio também que muitos: entre eles, fugir da vulgaridade, fugir do lugar-comum, resguardar discursos particulares etc.

CL: Como vê a literatura não ficcional?

RL: Acho que dentro de suas particularidades, pode ser tão especial quanto a ficção. Eu não colocaria em patamares diferentes Franz Kafka e Walter Benjamin.

CL: O livro dos mandarins pode ser considerado um retrato dos executivos atuais? Como o livro foi recebido por pessoas dessa classe?

RL: Em parte, sim. Tive notícias apenas das pessoas que serviram como informantes. Todas gostaram. Muita gente que trabalhou nesse meio – sobretudo em bancos – me disse que a representação e  ideologia também ficaram adequadas. Mas algumas pessoas também se sentiram agredidas pelo livro. Recebi algumas manifestações nesse sentido.

CL: Em O livro dos mandarins quase todos os seus personagens se chamam Paulo (ou Paul, Pablo…). Por que a escolha por esse recurso e esse nome especificamente?

RL: Há a tentativa de mostrar a despersonalização das pessoas no ambiente corporativo. O nome Paulo foi utilizado porque foi o que eu achei que permite um grande número de variações.

CL: O livro dos mandarins foi lançado em 2009 e provavelmente concorreu aos prêmio de 2010, quando Minha mãe se matou sem dizer adeus, de Evandro Affonso Ferreira, ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Leite derramado, de Chico Buarque, levou o Jabuti de melhor livro do ano de Ficção – enquanto Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre, foi escolhido como melhor romance – e o mesmo Leite derramado venceu o Prêmio Portugal Telecom, apenas para ficarmos em três premiações das mais conhecidas. Em uma entrevista para a revista Vice, você diz não ter recebido nenhum grande prêmio com O livro dos mandarins por ter uma postura que desagrada muitos jurados, por não fazer média com os outros. Você acredita que o seu livro seja superior a todos esses citados?

RL: Não acho que eu tenha dito exatamente isso para a Vice, mas não vou olhar a revista agora, para não me influenciar com a resposta aqui. Eram também dois momentos diferentes para mim. Antes de tudo, acho que o livro de Evandro Affonso Ferreira saiu um ano depois do meu, não creio que concorremos a nada juntos. Mas já respondendo a uma parte da pergunta, acho o livro dele bom, como também acho bom o romance do Chico Buarque. Já o livro do Edney Silvestre, acho muito bem feito e bom como os outros dois, mas com um detalhe: é um livro claramente infanto-juvenil. Para esse público, é excelente. 

Eu li uma parte das “discussões” que se seguiram às premiações sobre o livro do Edney Silvestre e do Chico Buarque e fiquei impressionado como não houve nenhum tipo de atenção a esse detalhe. Como quase sempre, aliás, não houve discussão estética…

De resto, não acho de forma alguma que meu livro tenha sido prejudicado (ou não tenha sido…) em prêmios literários por causa de alguma possível radicalidade. Sequer me sinto à vontade para dizer que há alguma radicalidade no meu romance. Não é minha função, como também não é minha função dizer se eu merecia ter ganho ou não, ou aliás, quem merecia.

O que acho claramente é que os prêmios e tudo o que cerca a literatura brasileira são parte do Brasil, portanto também um reflexo dele. É só pensar nas eleições: de vez em quando, elegemos de longe o melhor candidato, outras vezes, o Tiririca. Prêmios dizem mais sobre o júri do que sobre o autor vencedor e os outros. Também não quero ser hipócrita: o dinheiro é importante, lógico, facilita o trabalho de todo mundo.

Acho ainda que o comportamento “morno” de muitos grandes ganhadores de prêmio no Brasil os ajuda a chegar ao consenso. Dificilmente um senhor desses faz alguma declaração incômoda…

Mas de jeito nenhum eu me sinto prejudicado: ganhei alguns, perdi outros, mas frequento boa parte dessas listas já faz tempo, e nunca fiz nenhuma concessão, de nenhuma ordem. Nem vou fazer.

CL: Por outro lado, O livro dos mandarins foi o último campeão da Copa de Literatura Brasileira, ganhando de goleada d’O filho da mãe, do Bernardo Carvalho, na final. Isso tem alguma importância para você?

RL: Sem dúvida, muita importância. Em primeiro lugar, muitos dos textos sobre o meu livro eram ótimos e mostravam coisas que eu não tinha visto. Depois confirmaram algo que venho sentindo há algum tempo: que meus textos cada vez mais agradam as novas gerações de leitores, inclusive muitos afastados do mainstream literário e com reservas a ele. A Copa de Literatura está fora dos espaços já muito viciados. Fiquei bastante satisfeito com o resultado.   

CL: Você tem um conto chamado Concentração, na Granta edição de narrativas e contos de viagem. Sua estrutura é perspicaz, acompanhando acontecimentos dramaticamente irônicos em torno do personagem Damião. Como foi o processo de criação desta narrativa?  

RL: Em 2001, em julho, tive um problema em uma conexão e acabei ficando bastante tempo no aeroporto de Buenos Aires. Comprei alguns jornais e fiquei espantado com a situação do país. Como já gostava de literatura latino-americana e tinha estudado os movimentos autoritários dessa região, mergulhei na história argentina e desde esse mesmo ano visitei o país algumas vezes. Comecei a escrever ainda no aeroporto. Devo tê-lo refeito inúmeras vezes em vários anos. Comprei alguns arquivos de jornais e fiz algumas pequenas coleções de material histórico sobre a Argentina, até concluir esse conto, em 2008. Foi o texto em que trabalhei por mais tempo até hoje, mesmo contando os romances. Tive certa obsessão pela história e pela literatura argentina, mas ela já passou.

CL: O que você pensa dos outros escritores de sua geração? Quais destaca?

RL: É incômodo para mim responder essa pergunta de maneira pontual, porque uns poucos deles são amigos muito próximos, então não vou citá-los. Acho que a Vanessa Barbara é bastante notável em vários aspectos, inclusive (ou sobretudo) tecnicamente. Também gostei bastante do livro do José Luis Passos (Nosso grão mais fino) e tenho bastante expectativa com relação ao próximo dele. Gostei de tudo o que li até hoje do Julian Fuks também. O livro de Brisa Paim me surpreendeu. Também gostei dos últimos textos da Verônica Stigger, achei-os bastante originais. Acho que no geral há uma possibilidade razoável de nos próximos anos termos bons livros para ler. No entanto, parece-me que boa parte da produção ainda reproduz – sem criticar ou, ainda pior, aderindo ao que há de pior no Brasil. Digamos que estamos diante, se formos falar no geral, de uma produção amena e edulcorada.

Eu gostaria de conhecer um pouco melhor a poesia e a crítica para falar desses campos também, mas seria leviano com o pouco que li.

CL: Sobre o processo criativo, você relatou para a revista Piauí deste mês uma verdadeira saga, aonde o ato de correr e depois treinar para completar a Corrida de São Silvestre foram sua terapia para superar problemas e conseguir concluir seus escritos pendentes. Não raro, diz-se que a tristeza e a adversidade auxiliam na criação. Quais diferenças você sentiu – ou não – na sua criação durante este período, comparado a outros normais? E como era o seu processo até então?

RL: No segundo semestre de 2011 sofri uma espécie de “acidente biográfico” que me causou um colapso emocional. Escrevi sobre isso em três momentos, durante o tratamento de recuperação. Na verdade, ainda estou me tratando, com um psicanalista com quem eu já tinha feito análise uma vez. Como continuo sob impacto emocional, ainda que muito melhor, não quero falar sobre isso em um gênero diferente dos que já me manifestei.

CL: Este relato da Piauí daria um excelente roteiro para ser aproveitado em outras mídias, como filmes (de curta metragem, no caso) ou quadrinhos biográficos. Você aprecia estas mídias? É influenciado por algumas delas? Se sim, por quais autores e obras?

RL: Eu não costumo ler quadrinhos, apenas alguns casos muito especiais, como Art Spiegelman e Joe Sacco, mas mesmo assim sem muita constância. Sobre o cinema, ao contrário dos quadrinhos, tenho muito interesse. Não sei dizer em que medida o cinema poderia influenciar uma obra literária. Acho que não muito, se formos pensar na particularidade formal de cada gênero. Gosto bastante de documentários, de uma parte do cinema norte-americano e de alguns diretores específicos, como Antonioni, Buñuel e, entre outros, Lars von Trier.

CL: Ainda sobre o publicado na Piauí, a fragilidade e a sinceridade que você corajosamente demonstra se devem ao gênero do escrito, bem como à situação e tempo específicos, ou poderia se dizer que eles permeiam sua obra e estilo?

RL: Acho que tudo se intensificou por conta da violência enorme da situação. Mas como eu disse acima, sinto-me melhor me manifestando sobre o “incidente” em outro gênero que não a entrevista.

CL: Qual é o seu objetivo ao editar o jornal literário Silva? Como ele se mantém, já que você não o vende?

RL: Silva tem um pouco para mim a função de reafirmar a importância do papel. Ele só existe porque o papel permite o formato. Não tenho obviamente nada contra as mídias digitais, que na verdade me interessam muito, mas não gosto do discurso que diz que elas soterrarão o papel. Nesse sentido, o Silva é um objeto de resistência. Também gosto bastante de edições alternativas e fanzines. Por isso fiz uma.

Ele se mantém com meus recursos próprios, até aqui. No entanto, para ser justo, é preciso dividir a autoria com o artista gráfico Luciano Arnold, que faz um excelente trabalho por um valor quase que abaixo do custo.

CL: Quais conselhos que gostaria de ter ouvido quando começou a escrever e poderia dizer hoje aos iniciantes?

RL: Não sei se eu acredito em conselhos. Mas eu acredito na leitura dos bons livros (dos grandes livros) e na procura intensa por um caminho particular. Acredito também em consciência de trabalho, de forma e de ideologia. Por fim, acredito que é preciso se distanciar dos grupos, do glamour e da vida “chapa-branca”.

CL: Do que se trata O céu dos suicidas, livro seu que será lançado em breve? O que podemos esperar dele?

RL: Em 2008, um dos meus amigos mais próximos se matou, depois de uma situação muito complicada. Fui uma das últimas pessoas a estar com ele antes. O livro é sobre isso. Eu não queria adiantar mais, porém.

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Por Alberto Nannini

Muito satisfeito com o convite, nesta minha primeira postagem para o Canto dos Livros, gostaria de tratar sobre “discussões literárias”, e, a julgar pelos textos e comentários que já li aqui, e pelo próprio direcionamento do blog, não poderia encontrar melhor lugar!

Pois eu pensava justamente no quão necessário é este tipo de contenda para se mudar, para se “oxigenar” o cérebro, para desenferrujar as dobradiças das portas pelas quais queremos passar, para se enxergar o mundo por novas janelas. Como é satisfatório conversar com alguém que conhece aquele autor que você tanto gosta, não é? Ou que também leu aquele livro que te é tão especial! Ou ainda, que possa indicar uma leitura que te assombre, que te mova, que te arrebate.

Mais até do que ler, acho ainda melhor discutir sobre a leitura/autor. Estas discussões podem, partindo da obra em questão, revelar gostos e aversões, sedimentar ou abalar opiniões, criar afinidades, e sempre enriquecerão a história de vida e a “bagagem cultural” dos seus participantes.

Há algum tempo, propus uma discussão literária, via e-mail, que tinha como ponto de partida um texto do falecido escritor americano David Foster Wallace. Trata-se de um discurso de formatura nada comum, e o considero um dos textos mais geniais que já li, cujo link é este: http://migre.me/1Dfr0 (em tempo: como o Rodrigo, também não ganho nada da revista piauí pela propaganda!).

Mas o mais interessante é que, após enviar o texto e o link via email para pessoas selecionadas, obtive poucas respostas, mas tão instigantes e originais, que sustentaram um debate que durou semanas, e abordou desde a definição de literatura à descriminalização das drogas, desde a superficialidade da fama à renovação da música brasileira, desde a escolha de vida dos hippies “bichos-grilos” à necessidade de referenciais. Tudo isso bem encadeado e temperado com uma riquíssima “salada” de citações literárias, alusões a obras e autores consagrados (ou não), toneladas de filmes, quadrinhos e outras deliciosas formas de cultura (se fosse tudo isso regado à cerveja de trigo e picanha, aí sim, seria o paraíso!!!).

Claro que nem todas discussões literárias vão tão longe, e a definição sobre o que seria uma “DL” pode ser bastante elástica, para abranger até mesmo um simples comentário sobre um texto, num blog. Então, eu queria saber: Qual foi a discussão sobre literatura que mais te marcou? Por quê?

 

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Hoje, 7 de outubro de 2010, foi anunciado que o Prêmio Nobel de Literatura deste ano vai para o escritor peruano Mario Vargas Llosa. Gostei das poucas coisas que li do cara, mas precisaria conhecer um pouco mais sua obra para emitir uma opinião embasada sobre ela. Contudo, um livro de Llosa, Elogio da madrasta, já foi comentada aqui no blog.

O peruano é o sexto escritor latino-americano a conquistar o prêmio, os outros foram os chilenos Pablo Neruda e Gabriela Mistral, o guatemalteco Miguel Ángel Asturias, o colombiano Gabriel García Márquez e o mexicano Octavio Paz. Fico muito feliz ao ver um autor de um país de terceiro mundo, que em suas obras costuma retratar a dura realidade da América Latina, tão distante da européia e da estadunidense, ganhando um prêmio de tamanha importância. Parabéns, Mario Vargas Llosa.

Fica abaixo um enorme texto sobre Literatura que o autor escreveu para a edição 37 da revista Piauí (to falando pra caramba dela no blog ultimamente, mas juro que não estou recebendo nada por isso!rs):

 

Em defesa do romance

Mario Vargas Llosa

Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo – um mundo sem literatura teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal

Muitas vezes me ocorre, nas feiras de livros ou nas livrarias, que um senhor se aproxime de mim com um livro meu nas mãos e me peça para autografá-lo, especificando: é para a minha mulher, ou minha filha, ou minha irmã, ou minha mãe; ela, ou elas, são grandes leitoras e são apaixonadas por literatura. E eu lhe pergunto, de imediato: “E o senhor? Não gosta de ler?”

A resposta chega pontual, quase sempre: “Bem, sim, é claro que gosto, mas sou uma pessoa muito ocupada, sabe como é.” Sim, sei muito bem, porque ouvi essa explicação dezenas de vezes: esse senhor, esses milhares de senhores iguais a ele têm tantas coisas importantes, tantas obrigações e responsabilidades na vida, que não podem desperdiçar seu tempo precioso passando horas e horas imersos num romance, num livro de poemas ou num ensaio literário. Segundo essa concepção, a literatura é uma atividade da qual se pode prescindir, um entretenimento elevado e útil para cultivar a sensibilidade e as boas maneiras, um ornamento que se podem permitir os que dispõem de tempo livre para a recreação, e que seria necessário computar na categoria dos esportes, do cinema, do bridge ou do xadrez, mas que pode ser sacrificado sem escrúpulos no momento de estabelecer uma escala de prioridades nos afazeres e compromissos indispensáveis da luta pela vida.

É verdade que a literatura acabou por se tornar, cada vez mais, uma atividade feminina: nas livrarias, nas conferências ou nas readings dos escritores e, natural-mente, nos departamentos e nas faculdades em que se estuda literatura, as saias ganham de goleada das calças. A explicação é que, na classe média, as mulheres leem mais porque trabalham menos horas que os homens, e que muitas delas tendem a se considerar mais justificadas do que os homens no tempo que dedicam à fantasia e à ilusão. Como sou um tanto alérgico a essas explicações, que dividem homens e mulheres em categorias estanques com virtudes e fraquezas coletivas, não partilho dessas interpretações; mas num aspecto não resta dúvida: há cada vez menos leitores de literatura – há muitos leitores, mas de lixo impresso – e, entre eles, as mulheres prevalecem.

Uma pesquisa organizada recentemente pela Sociedade Geral de Autores Espanhóis forneceu um dado alarmante: metade dos habitantes daquele país jamais leu um livro. A pesquisa revelou também que, na minoria leitora, o número de mulheres que declaram ler é superior em 6,2% ao dos homens. Muito me alegro pelas mulheres, é claro, mas me preocupo pelos homens, e pelos milhões de seres humanos que, podendo ler, renunciaram a fazer isso. Não só porque desconhecem o prazer que perdem, mas porque estou convencido de que uma sociedade sem romances, ou na qual a literatura foi re-legada, como certos vícios inconfessáveis, às margens da vida social e convertida mais ou menos num culto sectário, essa sociedade está condenada a se barbarizar no plano espiritual e a pôr em risco a própria liberdade.

Vivemos numa época de especialização do conhecimento, causada pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques. A especialização permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e se sentir de algum modo solidários.

A especialização leva à incomunicabilidade social, à fragmentação do conjunto de seres humanos em guetos culturais de técnicos e especialistas, aos quais a linguagem, alguns códigos e a informação progressivamente setorizada relegam naquele particularismo contra o qual nos alertava o antiquíssimo adágio: não é necessário se concentrar tanto no ramo nem na folha, a ponto de esquecer que eles fazem parte de uma árvore, e esta de um bosque. O sentido de pertencimento, que conserva unido o corpo social e o impede de se desintegrar em uma miríade de particularismos solipsistas, depende, em boa medida, de que se tenha uma consciência precisa da existência do bosque. E o solipsismo – de povos ou indivíduos – gera paranoias e delírios, as deformações da realidade que sempre dão origem ao ódio, às guerras e aos genocídios. A ciência e a técnica não podem mais cumprir aquela função cultural integradora em nosso tempo, precisamente pela infinita riqueza de conhecimentos e da rapidez de sua evolução que levou à especialização e ao uso de vocabulários herméticos.

A literatura, ao contrário, diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geografias, as circunstâncias em que se encontram e as conjunturas históricas que lhes determinam o horizonte. Nós, leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstoi, nos sentimos membros da mesma espécie porque, nas obras que eles criaram, aprendemos aquilo que partilhamos como seres humanos, o que permanece em todos nós além do amplo leque de diferenças que nos separam. E nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial de homens e mulheres em todas as latitudes, e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração.

Nada, mais que bons romances, ensina a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do patrimônio humano, e a valorizá-las como uma manifestação de sua múltipla criatividade. Ler boa literatura é divertir-se, com certeza; mas também aprender, dessa maneira direta e intensa que é a da experiência vivida através das obras de ficção, o que somos e como somos em nossa integridade humana, com os nossos atos, os nossos sonhos e os nossos fantasmas, a sós e na urdidura das relações que nos ligam aos outros, em nossa presença pública e no segredo de nossa consciência, essa soma extremamente complexa de verdades contraditórias – como as chamava Isaiah Berlin – de que é feita a condição humana.

Esse conhecimento totalizador e imediato do ser humano, hoje, se encontra apenas no romance. Nem mesmo os outros ramos das disciplinas humanistas – como a filosofia, a psicologia, a história ou as artes – puderam preservar essa visão integradora e um discurso acessível porque, por trás da pressão irresistível da cancerosa divisão e fragmentação do conhecimento, acabaram por sucumbir também às imposições da especialização, por isolar-se em territórios cada vez mais segmentados e técnicos, cujas ideias e linguagens estão fora do alcance da mulher e do homem comuns. Não é nem pode ser o caso da literatura, embora alguns críticos e teóricos se empenhem em transformá-la em uma ciência, porque a ficção não existe para investigar uma área determinada da experiência, mas para enriquecer de maneira imaginária a vida, a de todos, a vida que não pode ser desmembrada, desarticulada, reduzida a esquemas ou fórmulas, sem que desapareça.

Por isso, Marcel Proust disse: “A verdadeira vida, a vida por fim esclarecida e descoberta, a única vida, pois, ple-namente vivida, é a literatura.” Não exagerava, guiado pelo amor a essa vocação que praticou com talento superlativo: simples-mente queria dizer que, graças à literatura, a vida se compreende e se vive melhor, e entendê-la e vivê-la melhor significa vivê-la e partilhá-la com os outros.

Borges se irritava quando lhe perguntavam: “Para que serve a literatura?” Parecia-lhe uma pergunta idiota, e ele respondia: “A ninguém ocorreria perguntar-se sobre qual é a utilidade do canto de um canário ou das cores do céu no crepúsculo!”; com efeito, se essas coisas belas estão ali e graças a elas a vida, ainda que por um instante, é menos feia e menos triste, não é mesquinho procurar justificativas práticas?

À diferença do gorjeio dos pássaros ou do espetáculo do sol fundindo-se no horizonte, um poema, um romance não estão pura e simplesmente ali, fabricados por acaso ou pela natureza. São uma criação humana, e é lícito perguntar como e por que nasceram, e o que deram à humanidade para que a literatura, cujas origens remotas se confundem com as da escrita, tenha durado tanto tempo. Nasceram como fantasmas incertos, no íntimo de uma consciência, projetados a ela pelas forças conjugadas do inconsciente, de uma sensibilidade e de algumas emoções, a que, numa luta às vezes implacável com as palavras, o poeta, o narrador, deram forma, corpo, movimento, ritmo, harmonia, vida. Uma vida artificial, feita com a linguagem e a fantasia, que coexiste com a outra, a real, desde tempos imemoriais, e à qual acorrem homens e mulheres porque a vida que têm não lhes basta, não é capaz de oferecer tudo aquilo que gostariam de ter. O romance não começa a existir quando nasce, por obra de um indivíduo; só existe realmente quando é adotado pelos outros e passa a fazer parte da vida social, quando se torna, graças à leitura, experiência partilhada.

Um dos primeiros efeitos benéficos se verifica no plano da linguagem. Uma comunidade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances e clareza do que outra cujo instrumento principal de comunicação, a palavra, foi cultivado e aperfeiçoado graças aos textos literários. Uma humanidade sem romances, não contaminada pela literatura, se pareceria com uma comunidade de tartamudos e afásicos, atormentada por problemas terríveis de comunicação causados por uma linguagem ordinária e rudimentar.

Isso vale também para os indivíduos, obviamente. Uma pessoa que não lê, ou que lê pouco, ou que lê apenas porcarias, pode falar muito, mas dirá sempre poucas coisas, porque para se exprimir dispõe de um repertório reduzido e inadequado de vocábulos. Não se trata apenas de um limite verbal; é, a um só tempo, um limite intelectual e de horizonte imaginário, uma indigência de pensamentos e de conhecimentos, porque as ideias, os conceitos, mediante os quais nos apropriamos da realidade e dos segredos da nossa condição, não existem dissociados das palavras, por meio das quais as reconhece e define a consciência. Aprende-se a falar com precisão, com profundidade, com rigor e agudeza, graças à boa literatura, e apenas graças a ela.

Nenhuma outra disciplina, nenhum outro ramo das artes, pode substituir a literatura na formação da linguagem com que as pessoas se comunicam. Os conhecimentos que nos transmitem os manuais científicos e os tratados técnicos são fundamentais; mas eles não nos ensinam a dominar as palavras nem a exprimi-las com propriedade: pelo contrário, amiúde são mal escritos e revelam certa confusão linguística porque os autores, às vezes eminências indiscutíveis em sua profissão, são literariamente incultos e não sabem se servir da linguagem para comunicar os tesouros conceituais de que são detentores. Falar bem, dispor de uma linguagem rica e variada, encontrar a expressão adequada para cada ideia ou emoção que se queira comunicar, significa estar mais preparado para pensar, ensinar, aprender, dialogar e, também, para fantasiar, sonhar, sentir e emocionar-se.

De uma maneira sub-reptícia, as palavras reverberam em todas as ações da vida, até mesmo nas que parecem muito distantes da linguagem. Isso, na medida em que, graças à literatura, evoluiu até níveis elevados de refinamento e de sutileza nas nuances, elevou as possibilidades da fruição humana, e, com relação ao amor, sublimou os desejos e alçou à categoria de criação artística o ato sexual. Sem a literatura não existiria o erotismo. O amor e o prazer seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias. Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão. Em um mundo iletrado, o amor e a fruição não poderiam ser diferenciados daqueles que satisfazem os animais, não iriam além da mera satisfação dos instintos elementares: copular e devorar.

Os meios audiovisuais não estão em condições de substituir a literatura na função de ensinar o ser humano a usar com segurança, e talento, as riquíssimas possibilidades que a língua encerra. Esses meios tendem a relegar as palavras a um segundo plano em relação às imagens, que são a sua linguagem essencial, e a reduzir a língua à sua expressão oral, ao mínimo indispensável, o mais distante possível de sua vertente escrita que, na tela e nos alto-falantes, resulta sempre soporífera. Dizer de um filme ou de um programa que ele é “literário” é um modo educado de chamá-lo de chato.

Isso me leva a pensar, também, embora sobre essa questão eu deva admitir que nutro certas dúvidas, que não só a literatura é indispensável para o conhecimento correto e para o domínio da língua, mas que o destino dos romances está ligado, em um matrimônio indissolúvel, ao do livro, produto industrial que muitos declaram já obsoleto.

Um deles é um senhor importante e a quem a humanidade deve muito no campo das comunicações, isto é, Bill Gates, o fundador da Microsoft. O senhor Gates estava em Madri, há pouco tempo, e visitou a Real Academia Espanhola, com a qual a Microsoft lançou as bases daquilo que, assim se espera, será uma fecunda colaboração. Entre outras coisas, Bill Gates assegurou aos acadêmicos que se ocupará pessoalmente de que a letra “ñ” nunca seja retirada dos computadores, promessa que, é óbvio, arrancou de nós um suspiro de alívio, de nós, 400 milhões de hispanohablantes dos cinco continentes, para os quais a mutilação daquela letra essencial no ciberespaço teria criado problemas babélicos.

Pois bem, imediata-mente depois dessa concessão amável à língua espanhola e, assim entendo, sem ter sequer deixado a Real Academia, Bill Gates declarou que espera não morrer sem ter realizado o seu maior projeto. E qual seria ele? Acabar com o papel, e, pois, com os livros, mercadoria que, a seu entender, já é de um anacronismo contumaz. O senhor Gates explicou que as telas dos computadores estão em condições de substituir com êxito o papel em todas as funções e que, além de isso custar menos, de ocupar menos espaço e de ser mais fácil de transportar, as informações e a literatura por meio da tela terão a vantagem ecológica de pôr fim à devastação dos bosques, cataclismo que, pelo visto, é consequência da indústria de papel. As pessoas continuam a ler, explicou ele, mas nas telas, e, desse modo, haverá mais clorofila no meio ambiente.

Eu não estava presente – tomei conhecimento desses detalhes pela imprensa -, mas, se houvesse estado lá, teria interrompido rumorosamente o senhor Bill Gates para contestar, sem o menor constrangimento, a sua intenção de nos aposentar a mim e a tantos colegas meus, a nós, pobres escritores de livros. Pode o monitor substituir o livro em todos os casos, como afirma o criador da Microsoft? Não estou seguro disso. Digo isso sem negar, de modo algum, a revolução que no campo das comunicações e da informação representou o desenvolvimento das novas técnicas, como a internet, que todo dia me presta uma ajuda inestimável em meu trabalho; mas daí a admitir que a tela eletrônica possa substituir o papel no que concerne às leituras literárias há uma lacuna que não consigo preencher. Simplesmente não sou capaz de aceitar a ideia de que a leitura não funcional nem prática, a que não busca uma informação nem uma comunicação de utilidade imediata, possa conviver na tela de um computador com o sonho e com a fruição da palavra, gerando a mesma sensação de intimidade, a mesma concentração e o mesmo isolamento espiritual do livro.

Talvez seja um preconceito, resultante da falta de prática, da já longa identificação na minha experiência da literatura com os livros de papel, mas, se bem que navegue com muito prazer na internet em busca de notícias do mundo, não me ocorreria servir-me dela para ler os poemas de Góngora, um romance de Onetti ou de Calvino, nem um ensaio de Octavio Paz, porque sei muito bem que o efeito dessa leitura jamais seria o mesmo.

A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com o modo como vivem a vida. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa é um modo astuto que inventamos para nos mitigar pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a sermos sempre os mesmos, enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.

Só momentaneamente é que o romance aplaca essa insatisfação vital, mas, nesse intervalo milagroso, nessa suspensão temporária da vida em que a ilusão literária nos imerge – que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal – somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos do que na rotina forçada da nossa vida real. Quando, fechado o livro, posta de parte a ficção, voltamos àquela e a comparamos com o território resplandecente que mal acabamos de deixar, espera-nos uma grande desilusão. Isto é, esta grande confirmação: que a vida sonhada do romance é melhor – mais bela e variada, mais compreensível e perfeita – do que a que vivemos quando estamos despertos, uma vida tolhida nos limites e na servidão a nossa condição.

Nesse sentido, a boa literatura é sempre – ainda que não proponha isso nem se dê conta disso – sediciosa, insubmissa, em revolta: um desafio ao que existe. A literatura nos permite viver em um mundo cujas leis transgridem as leis inflexíveis em meio às quais transcorre a nossa vida real, emancipados da prisão do espaço e do tempo, na impunidade para o excesso e donos de uma soberania que não conhece limites. Como não nos sentirmos defraudados depois de termos lido Guerra e Paz ou Em Busca do Tempo Perdido, ao nos voltarmos a este mundo de mesquinharias infinitas, de fronteiras e proibições que estão à espreita e que em toda parte, a cada passo, perturbam nossas ilusões? Esta é, talvez, ainda mais do que conservar a continuidade da cultura e enriquecer a linguagem, a melhor contribuição da literatura ao progresso humano: recordar-nos (involuntariamente, na maior parte dos casos) de que o mundo se acha mal-acabado, de que mentem os que sustentam o contrário – por exemplo, os poderes que o governam -, e de que poderia ser melhor, mais próximo dos mundos que a nossa imaginação e a nossa palavra são capazes de inventar.

Entenda-se bem: chamar de sediciosa uma literatura porque as belas obras de ficção desenvolvem nos leitores uma consciência alerta em face das imperfeições do mundo real não significa, como creem as igrejas e os governos que se fiam da censura para atenuar ou anular sua carga subversiva, que os textos literários provoquem diretamente comoções sociais ou acelerem as revoluções. Os efeitos sociopolíticos de um poema, de um drama ou de um romance não podem ser verificados porque não se mostram quase nunca de maneira coletiva, mas individual, e isso significa que variam enormemente de uma pessoa para outra. Por isso é difícil, para não dizer impossível, estabelecer normas precisas. Por outro lado, muitas vezes esses efeitos, quando resultam evidentes no âmbito coletivo, podem ter pouco a ver com a qualidade estética do texto que os produz. Por exemplo, um romance medíocre, A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, parece ter desempenhado um papel importantíssimo na tomada de consciência social, nos Estados Unidos, dos horrores da escravidão; o fato de que esses efeitos sejam difíceis de identificar não significa que eles não existam, mas que se manifestam, de maneira indireta e múltipla, por meio dos comportamentos e ações dos cidadãos cuja personalidade os romances contribuíram para moldar.

A boa literatura, enquanto aplaca momentaneamente a insatisfação humana, incrementa-a e, fazendo que se desenvolva uma sensibilidade inconformista em relação à vida, torna os seres humanos mais aptos para a infelicidade. Viver insatisfeito, em luta contra a existência, significa empenhar-se, como dom Quixote, bater-se contra os moinhos de vento, condenar-se, de certa forma, a viver as batalhas travadas pelo coronel Aureliano Buendía, em Cem Anos de Solidão, sabendo que as perderia todas. Isso é provavelmente verdadeiro; mas também é verdadeiro que, sem a revolta contra a mediocridade e a sordidez da vida, nós, seres humanos, ainda viveríamos em condições primitivas, a história teria acabado, não teria nascido o indivíduo, a ciência e a tecnologia não se teriam desenvolvido, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos, a liberdade não existiria, porque tudo isso nasceu de atos de insubmissão contra uma vida perce-bida como insuficiente e intolerável.

Tentemos traçar uma reconstrução histórica fantástica, imaginando um mundo sem literatura, uma humanidade que não haja lido romances. Nessa civilização ágrafa, com um léxico liliputiano, em que talvez os grunhidos e a gesticulação simiesca prevalecessem sobre as palavras, não existiriam certos adjetivos formados a partir das criações literárias: quixotesco, kafkiano, pantagruélico, rocambolesco, orwelliano, sádico e masoquista, entre muitos outros. Haveria loucos, vítimas de paranoias e delírios de perseguição, e pessoas de apetite descomunal e de excessos desmedidos, e bípedes que gozariam recebendo ou infligindo a dor, com certeza; mas não teríamos aprendido a ver por trás desses comportamentos extremados, em contraste com a pretensa normalidade, aspectos essenciais da condição humana, vale dizer, de nós mesmos, algo que só o talento criador de Cervantes, de Kafka, de Rabelais, de Sade ou de Sacher Masoch nos revelou.

Quando veio a lume o Dom Quixote, os primeiros leitores riam daquele homem iludido e extravagante, da mesma forma como riam as outras personagens do romance. Agora sabemos que o empenho do Cavaleiro da Triste Figura em ver gigantes em vez de moinhos de vento e em cometer todos os desatinos que comete é a forma mais elevada de generosidade, um modo de protestar contra as misérias deste mundo e de procurar mudá-lo. Os próprios conceitos de ideal e de idealismo, tão impregnados de uma validade moral positiva, não seriam o que são – ou seja, valores claros e respeitáveis – se não tivessem encarnado naquela personagem de romance com a força persuasiva que lhe conferiu o gênio de Cervantes. E o mesmo se poderia dizer desse pequeno dom Quixote pragmático e de saias que foi Emma Bovary – o bovarismo não existiria, está claro -, que por sua vez se bateu com ardor para viver essa vida resplendente de paixões e de luxo que ela conhecera nos romances, e se queimou nesse fogo como a mariposa que se aproxima demais da chama.

Como as de Cervantes e Flaubert, as invenções dos grandes criadores literários, ao mesmo tempo em que nos arrancam de nossa prisão realista, conduzem e guiam pelos mundos da fantasia, abrem-nos os olhos sobre aspectos desconhecidos e secretos da nossa condição, e nos dão os instrumentos para explorar e entender mais os abismos do que é -humano. Dizer “borgeano” significa destacar-se da realidade racional costumeira e penetrar numa fantástica, rigorosa e elegante construção mental, quase sempre labiríntica, impregnada de referências e alusões livrescas, cuja singularidade não nos é, todavia, estranha, porque nela reconhecemos desejos recônditos e verdades íntimas do nosso ser que só graças às criações literárias de um Jorge Luis Borges puderam tomar forma. O adjetivo “kafkiano” nos vem à mente de maneira natural, como o flash de uma daquelas velhas máquinas fotográficas de fole, toda vez que nos sentimos ameaçados, como indivíduos inermes, por esses mecanismos opressores e destrutivos que tanta dor, tantos abusos e injustiças causaram no mundo moderno: os regimes autoritários, os partidos verticais, as igrejas intolerantes, as burocracias asfixiantes. Sem os contos e romances daquele atormentado judeu de Praga que escrevia em ale-mão e que viveu sempre à espreita, não teríamos sido capazes de compreender o sentido de fragilidade e impotência do indivíduo isolado ou das minorias discriminadas e perseguidas, ante as forças onipotentes que podem pulverizá-los.

O adjetivo “orwelliano”, primo em primeiro grau de “kafkiano”, refere-se à angústia opressiva e à sensação de absurdo extremo que geraram as ditaduras totalitárias do século XX, as mais refinadas, cruéis e absolutas da história, em seu controle dos atos, da psique e até dos sonhos dos membros de uma sociedade. Nos seus romances mais célebres, A Revolução dos Bichos e 1984, George Orwell descreveu, com acentos gélidos e de pesadelo, uma humanidade submetida ao controle do Grande Irmão, um senhor absoluto que, por meio de uma combinação eficaz de terror e tecnologia moderna, eliminou a liberdade, a espontaneidade e a igualdade – nesse mundo alguns são “mais iguais do que os outros” – e transformou a sociedade em uma colmeia de seres humanos autômatos, programados como os robôs. Não apenas as condutas obedecem aos desígnios do poder, mas também a língua, o newspeak, foi depurada de toda conotação individualista, de toda invenção ou matiz subjetivo, transformando-se numa enfiada de lugares-comuns e clichês impessoais, o que aumenta a servidão dos indivíduos ao sistema. É verdade que a profecia sinistra de 1984 não se materializou e que, como ocorreu com os totalitarismos fascista e nazista, o comunismo totalitário desapareceu na União Soviética e depois começou a se deteriorar na China e naqueles anacronismos que são ainda Cuba e a Coreia do Norte; mas a palavra “orwelliano” permanece como lembrança de uma das experiências político-sociais mais devastadoras vividas pela civilização, e que os romances e ensaios de George Orwell nos ajudaram a compreender nos seus mecanismos mais recônditos.

Por vezes, a imagem que se delineia no espelho que os romances e os poemas nos oferecem de nós mesmos é a imagem de um monstro. Ocorre quando lemos as horripilantes carnificinas sexuais fantasiadas pelo Divino Marquês, ou as tétricas dilacerações e sacrifícios que povoam os livros malditos de um Sacher Masoch ou de um Bataille. E, todavia, o pior dessas páginas não são o sangue nem a humilhação, tampouco as torturas abjetas nem a sanha que as tornam febris; é a descoberta de que essa violência e os abusos não nos são estranhos, estão repletos de humanidade, de que esses monstros ávidos de transgressão e excesso estão entocados no mais fundo de nosso ser e que, das sombras onde estão ocultos, aguardam uma ocasião favorável para se manifestar, para impor a lei dos seus desejos, que acabaria com a racionalidade, com a convivência e talvez com a própria existência. Não a ciência, mas a literatura foi a primeira a examinar os abismos do fenômeno humano e a descobrir o apavorante potencial destrutivo e autodestrutivo que também o conforma. Portanto, um mundo sem romances seria parcialmente cego em face desses abismos terríveis onde com frequência jazem as motivações das condutas e comportamentos inusitados, e por isso mesmo tão injusto contra o que é diferente, como aquele que, em um passado não muito remoto, acreditava que canhotos, aleijados e gagos estivessem possuídos pelo demônio. Esse mundo talvez continuasse a praticar, como até há pouco tempo algumas tribos amazônicas, o perfeccionismo atroz de afogar nos rios os recém-nascidos com defeitos físicos.

Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo, o mundo sem romances, esse pesadelo que procuro delinear, teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal. Os instintos básicos decidiriam a rotina de uma vida oprimida pela luta pela sobrevivência, pelo medo do desconhecido, pela satisfação das necessidades físicas, em que não haveria espaço para o espírito e a que, à monotonia sufocante da vida, acompanharia o pessimismo, a sensação de que a vida humana sempre será assim, e que nada nem ninguém poderá mudar o estado das coisas.

Quando se imagina um mundo assim, há a tendência a identificá-lo de imediato com o primitivo, com o trapo cobrindo os órgãos genitais, com as pequenas comunidades mágico-religiosas que vivem à margem da modernidade na América Latina, na Oceania e na África. A verdade é que o formidável desenvolvimento dos meios audiovisuais em nossa época – os quais, por um lado, revolucionaram as comunicações tornando todos os homens e mulheres do planeta partícipes da atualidade e, por outro, monopolizaram cada vez mais o tempo que os seres vivos dedicam ao ócio e à diversão em vez de à leitura – permite imaginar, como possível cenário histórico do futuro, uma sociedade moderníssima, repleta de computadores, telas e alto-falantes, e sem livros, ou mais precisamente, onde os livros – a literatura – se tornaram semelhantes à alquimia na era da física: uma curiosidade anacrônica, praticada nas catacumbas da civilização mediática por minorias neuróticas. Esse mundo cibernético, receio muito, apesar de sua prosperidade e poderio, de seus elevados níveis de vida e de suas façanhas científicas, seria profundamente incivilizado, letárgico, privado de espírito, uma humanidade resignada de robôs que abdicaram da liberdade.

É mais do que improvável que essa perspectiva sombria chegue a se concretizar. A história não está escrita, não há um destino preestabelecido que tenha decidido por nós o que seremos. Depende totalmente da nossa visão e da nossa vontade que aquela utopia macabra se realize ou se oculte. Se queremos evitar que com os romances desapareça, ou permaneça apartada no desvão das coisas inúteis, essa fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que nos aguça a sensibilidade e nos ensina a falar com força expressiva e rigor, e nos torna mais livres e nossas vidas mais ricas e intensas, é necessário agir. Há que ler os bons livros e incitar a ler, e ensinar a fazer isso a quantos venham depois de nós – nas famílias e nas aulas, nos meios de comunicação de massa e em todos os setores da vida comum – como uma ocupação imprescindível, pois que é a que imprime a sua marca em todos os demais, e os enriquece.

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Já estão no site da Piauí todos os contos enviados para o 6×6, concurso literário noticiado por este blog há alguns dias. Você pode ver todas as micro histórias clicando aqui. A minha está lá no meio, dentre as enviadas no dia 23/09. As seis sábias palavras que redigi de maneira a contar algo foram: “Infância, violência. Pai, ódio. Tempo, vingança”. Gostou? Não gostou? Não sabe se gostou? Por quê?

Os três melhores contos, na opinião do pessoal da revista, serão publicados na edição de outubro da Piauí. O concurso terá mais cinco edições, acontecendo em todos os meses até fevereiro de 2011.

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Concurso literário

A revista Piauí está realizando um concurso literário chamado 6 X 6. A proposta é bem simples, os interessados em participar devem escrever uma história com até seis palavras (isso mesmo, meia dúzia, no máximo) e enviar até o dia 23 de setembro para concurso@revistapiaui.com.br. Todos os contos serão postados no site da publicação ao final de cada edição do concurso, enquanto que os três melhores vão para as páginas da edição impressa da revista. O autor do melhor texto ganhará uma assinatura por seis meses da Piauí; o segundo e o terceiro não ganham nada, apenas poderão concorrer novamente em uma próxima edição do concurso, algo que será vetado ao vencedor desta primeira edição.

E aí, se interessou? Está a fim de participar? Então veja abaixo alguns exemplos desses pequenos contos, todos eles retirados do próprio texto da Piauí sobre o concurso (aliás, todas as informações acima são de lá, portanto, em caso de dúvidas, recorram diretamente a eles):

“Vendem-se: sapatinhos de bebê, jamais usados”, Ernest Hemingway (observe a utilização da palavra composta, o que pode ser um bom recurso para compensar o espaço limitado para o conto).

“Infância miserável leva a direitos autorais”,  Frank McCourt.

“Tipo sanguíneo do bebê? Humano, essencialmente”, de um leitor da revista Wired.

“Marido, amante transgênica; esposa: ‘Sua vaca!’”, de um leitor da revista Wired.

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