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Por Rodrigo Casarin

Ilustração de Janio Santos

Janio Santos

1.

Quando escrevemos, quando criamos, expurgamos o que está em nós, damos forma a sentimentos, organizamos ideias, refletimos sobre o que parecia estar escondido em algum compartimento na periferia do cérebro, dividimos com o papel – real ou virtual – o peso de nossas experiências, um pouco de nossas sombras. Às vezes, algo que começa como um íntimo desabafo se transforma num revigorante e produtivo processo.

2.

Você vai voltar pra mim é um apanhado de histórias transformadas em contos. Praticamente todos eles são de alguma forma inventadas, buscam fazer um retrato da realidade que talvez só seja possível com as nuances permitidas pela ficção. Mais do que relatos pontuais da época da ditadura no Brasil, os textos trazem o clima de medo, perseguição e até mesmo indiferença – a maioria das pessoas não estava nem aí para o que acontecia – que se instaurou no país ao longo de duas décadas que estão num passado apenas cronológico. O período está ali, bem representado, seja de maneira trágica, como em “Sobre a natureza do homem” e “Tio André” – talvez o melhor texto de todo o livro –, seja de maneira originalmente saudosista, como em “Recordações do casarão”.

Olhados na totalidade, os contos nos dão um grande panorama da vida íntima de muitos brasileiros ao longo da ditadura, de famílias que entravam em conflito porque o filho com verve revolucionária batia de frente com o pai reacionário (“Pais e filhos” e “Os gaúchos”), de “subversivos” que, por viverem em estado de permanente tensão, de medo de serem pegos pela polícia, acabavam encontrando alguma tranquilidade somente quando presos (“A mãe rezadeira”), dos podres da esquerda, tanto em forma de membros delatores (“Dodora”) quanto das artimanhas ilícitas para se levantar dinheiro (“O filósofo e o comissário”). Você vai voltar pra mim trata o assunto com a complexidade e profundidade que ele merece ser tratado, enfim.

3.

Bernardo Kuscinski entrou na USP no começo da década de 1960 para estudar Física. Quando um grupo de alunos subversivos foi expulso da FEI, estava dentre aqueles que os receberam na Universidade de São Paulo. De maneira quase que natural para um jovem estudante, pendia para a esquerda na mesma proporção que a direita se extremava. Tentou entrar para um grupo trotskista – estava de olho principalmente nas meninas que dele participavam –, mas foi recusado sob a alegação de que era muito fraco. Isso talvez tenha lhe poupado a vida.

Então, colaborava como podia. Levava bilhetes de um grupo para outro, ajudava em ações e até mesmo assaltou alguns mimeógrafos – apesar de não saber para quê foram usados. Percebeu que tinha mais jeito para comunicação e trocou a física pelo jornalismo. Trabalhando na revista Veja, participou da publicação de duas matérias de capa que denunciavam a tortura no Brasil. Fez também um dossiê sobre o assunto, com o irônico objetivo de ajudar o ditador Médici, que bradava ser contra aquela forma de violência, a extinguir a prática cada vez mais disseminada no Brasil. Se não houve censura antes da publicação, a perseguição após a veiculação das matérias foi enorme. Acreditava que colegas da imprensa ficariam ao seu lado, mas estava errado. Com medo de que algo pudesse acontecer, aproveitou que a esposa estava em Londres e se auto-exílou na Inglaterra.

Kuscinski viveu a ditadura de perto. Mais que isso, conheceu gente que mergulhou e foi engolido pelas entranhas dos órgãos de repressão. É com base nas histórias dessas pessoas que escreveu Você vai voltar pra mim.

2.

A semelhança entre K. e a obra de Kafka é evidente, a começar pelo nome do protagonista, K, que remete a Joseph K., personagem principal de O processo. K está em busca de sua filha, Ana Rosa, e de seu genro, Wilson, desaparecidos durante a ditadura. Já não tem esperanças de encontrá-los vivos, mas quer os corpos, reivindica seu direito de cumprir os ritos e o luto necessários para que a morte possa ser, se não superada, ao menos aceitada. Nessa busca, entra num espiral de mandos, desmandos, informações, contrainformações e absurdos semelhantes aos vividos por Joseph K. Além disso, em todo momento a ditadura soa como a grande força superior que inspira medo e transforma vítimas em culpados – para Kafka, esse elemento estava em casa, como podemos comprovar em sua Carta ao pai.

Mas claro que não é só isso. K também luta contra a crueldade do desaparecimento súbito e sem registros – até mesmo durante o holocausto, os soldados de Hitler ao menos anotavam os nomes das vítimas. Os capítulos alternam o foco entre K e outros personagens, como uma delatora construída com extrema complexidade, cuja participação é um dos pontos mais altos da obra. Também mostra os problemas da esquerda radical, seu totalitarismo, seus hábitos semelhantes aos praticados por aqueles que combatiam. No âmbito familiar, é uma narrativa sobre um pai que se aproxima e passa a conhecer muito mais sobre a sua filha – não só politicamente, mas também pessoalmente – apenas depois que ela desaparece.

3.

Ana Rosa Kuscinski e Wilson Silva desapareceram em 22 de abril de 1974. Militavam pela ALN (Ação Libertadora Nacional) e sumiram quando os repressores eliminavam pessoas que pudessem comprometê-los de alguma forma. A bandidagem batia continência.

Bernardo Kuscisnki estava em Londres e só soube do desaparecimento da irmã e do cunhado quando seu pai foi encontrá-lo. A princípio, acreditavam que o sumiço poderia ser temporário. Porém, com o passar dos dias, das semanas, dos meses, primeiro a angustia e depois o desolamento aumentavam na proporção inversa à esperança de acharem Ana e Wilson vivos. Investiram dinheiro, contataram gente em diversos lugares do mundo, vasculharam todas as pistas que surgiram, mas elas sempre vinham acompanhadas de algo estranho, como uma força maior que misteriosamente as alteravam e impediam que se aproximassem de alguma verdade. O espectro ditatorial parecia atuar em todas as instâncias.

A violência contra a família e contra Ana não se encerrou no desaparecimento em si. Depois disso, ela passou a ser tratada por muitos como uma mera comunista, como alguém que mereceu sofrer o que sofreu por ser subversiva. Nem mesmo na USP, onde dava aulas, recebeu um tratamento respeitoso. Após uma decisão tomada por seus colegas, foi destituída de seu cargo por abandono de emprego, como se não ir ao trabalho fosse uma opção sua, não uma consequência de seu assassinato, de um crime político. O caso ainda é uma chaga na história da universidade.

No ótimo K., Kuscinski romanceia a história da busca de seu pai por sua irmã e se aprofunda nessas questões que envolveram o pós-morte de Ana.

2.

A abordagem que Kuscinski utilizou em K., a tragédia vista sob uma perspectiva próxima, mas não grudada, a um pai que perde sua filha, o transforma em um livro esteticamente mais interessante do que Você vai voltar pra mim. Contudo, ambos são fundamentais – aliás, qualquer obra bem escrita sobre a ditadura é fundamental. Retratam um período que ainda não se esgotou, que vive nos algozes impunes que continuam por aí, nos mais variados tipos de vítimas e, o que é mais preocupante, em seus entusiastas.

Mas a relevância vai além. Todas as atrocidades representadas nas obras de alguma maneira eram justificadas por conta da vítima ser “subversiva”, algo bastante semelhante com o que temos hoje, quando alguém pode ser espancado por dez policiais em uma manifestação, afinal, se estava lá, é “baderneiro”, ou preso ao poste com um cadeado de bicicleta, já que é “bandido” mesmo. O ser humano continua sendo descartável no Brasil, só mudaram os adjetivos.

Um dos melhores trechos de K. vai ao cerne da questão, flertando com a humanização dos animais e animalização dos humanos: “Mandou comprar essa ração de trinta paus o quilo, mais cara que filé mignon; o pior foi ontem, quanto eu falei em sacrificar a cadela, levei o maior esporro, me chamou de desumano, de covarde, que quem maltrata cachorro é covarde; quase falei pra ele: e quem mata esses estudantes coitados, que têm pai e mãe, que já estão presos, e ainda esquarteja, some com os pedaços, não deixa nada, é o quê?” – haviam acabado de matar os donos da cadela que agora deveriam cuidar bem.

3.

Kuscinski acredita que no Brasil a ditadura não tem o tratamento que merece. Crê que o brasileiro, de uma maneira geral, não se envergonha de um dos períodos mais asquerosos de sua história, que encara as perseguições, torturas, mortes e sumiços como algo necessário para aquele momento. Evoca países que protagonizaram tragédias semelhantes, ainda que de proporções distintas, e tentam se retratar com o passado, como a Alemanha e a necessidade de reafirmar constante que o holocausto foi um erro gigantesco, como outros países da América do Sul, que julgaram, condenaram e prenderam ditadores e seus capangas fardados. Aqui não. Apesar da Comissão da Verdade, o esforço é pequeno, como se não quisessem incomodar os velhinhos que ainda exercem influência e, mais do que isso, são admirados por membros das Forças Armadas e de parte representativa – e poderosa, principalmente – da população.

16.

Mas essa é a visão macro, a visão do país, do povo. Há ainda a visão micro, o eu, a tragédia particular. Essas Kuscinski começa a de alguma forma superar. Depois de ser compulsoriamente aposentado pela USP, onde era professor, e de se desiludir com o jornalismo que pende cada vez mais para o lado de quem detém o poder, resolveu escrever ficção – garante que ela permite uma maior reflexão sobre a condição humana.

Enquanto conversamos sobre sua relação com o período ditatorial, sobre sua irmã, seus olhos permaneceram vermelhos como o uniforme da seleção da Polônia – país onde seu pai nasceu. Às vezes os esfregava com as mãos, com força, apertava-nos, mas nenhuma lágrima se desprendeu do seu marejado globo ocular. Sua aparência, seu sentimento, só mudou quando falamos de literatura. Sorri para dizer que descobriu a maravilha que é inventar ou recriar histórias, mas lamenta ter começado muito tarde – ele completa 77 anos em 2014. Arrisca-se em diversos gêneros, experimenta-se com o estilo de outros escritores, passeia por temas, descobre-se como autor. “Rompi com a razão racional, fui para a razão humana”.

Por que optou por começar escrevendo sobre a ditadura? Porque era o que ainda estava – está – latente dentro de si. Enxerga Você vai voltar pra mim como um livro bastante forte, mas escrito com a cabeça, enquanto diz que K. foi feito com suas entranhas. Dessa forma, com a cabeça, com as entranhas, Kuscisnki encontrou nas palavras uma forma para cuidar de seu passado.

Texto publicado originalmente na edição 98 do suplemento literário Pernambuco.

 

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IvanaDepois de passar por distintas fases, Ivana Arruda Leite não sabe porque escreve. Mais que isso, fará dessa falta de resposta o mote de seu próximo romance. A mestre em Sociologia pela USP que nasceu em 1951, em Araçatuba, é autora de obras como Falo de mulher e Ao homem que não me quis, de contos, da novela Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60 e dos romances Hotel novo mundo e Alameda Santos. Também escreve livros infantis e infanto-juvenis e vê alguns de seus trabalhos sendo publicados em no exterior. A escritora fala disso e de diversos outros assuntos na conversa que tivemos com ela.

Canto dos Livros: A revista alemã Die horen publicou dois contos seus. Quais contos são esses? Do que eles tratam?

Ivana Arruda Leite: Os contos são “Receita para comer o homem amado” e “O sabonete das estrelas”. O primeiro é do meu livro Falo de Mulher, o segundo, do Ao Homem que não me quis.

CdL: O que significa ser publicada numa revista estrangeira? Como conseguiu essa publicação?

IAL: Essas publicações (além de antologias no México) são reverberações da feira de Frankfurt, que jogou luz sobre autores brasileiros. Apesar de não ter ido à feira, fui publicada na revista bilíngüe Machado de Assis, da Câmara Brasileira do Livro, e ela me levou a outras publicações.

CdL: Por que você escreve?

IAL: Se você me fizesse essa pergunta há quarenta anos eu diria “escrevo porque a literatura é a minha vida, o meu meio de expressão pra chegar às pessoas. Através dela eu consigo organizar meus sentimentos, minhas idéias e botar pra fora todo meu torvelinho interior. Sem a literatura eu morro”.

Se você me fizesse essa pergunta há dez anos eu diria: “escrevo pra chegar às pessoas, emocioná-las com minhas histórias, fazer com que elas se identifiquem, tenham um pouco de conforto e consigam rir de si próprias”.

Hoje você me pergunta e eu não tenho resposta.

Durante anos escrevi pra me curar ou curar as pessoas. Esvaídos esses propósitos, busco um sentido para a escrita e a resposta para a sua pergunta.

CdL: Do que tratará seu próximo romance?

IAL: Justamente disso. Meu próximo romance conta a história de um escritor cinqüentão, boa pinta, sucesso de público e de crítica em crise com a literatura. De repente ele se dá conta que a vida fora dos livros é muito mais rica e bonita do que a artificialidade que ela ganha ao “virar” literatura. Depois de conseguir fama, dinheiro, prêmios e mulheres, ele se pergunta: escrever pra quê? Essa é a pergunta.

CdL: Você tem livros escritos para públicos de diversas idades. O que muda na hora de escrever um infanto-juvenil e um adulto, por exemplo?

IAL: Muda a temática e a linguagem. Tanto uma quanto outra devem se adequar aos pequenos. Eu acho muito mais fácil e divertido escrever pra crianças. Pena que essa que não seja minha vocação primeira. Os livros infantis são raros de acontecer e geralmente surgem para atender uma encomenda.

CdL: Até quando você acha que teremos a cultura do politicamente correto na produção infantil e infanto-juvenil?

IAL: Infelizmente, por muito tempo. Parece que o politicamente correto chegou pra ficar. Pior que o politicamente correto é a briguinha entre os dois partidos. Os corretinhos vendo os incorretos como preconceituosos escrotos, fascistas e reacionários; os incorretos vendo os corretinhos como babacas imbecis. Ai que preguiça…

CdL: Você já declarou que considera a narrativa no estilo “diário” um forte atrativo para o público jovem. Como você trabalha esse tipo de texto pra que ele não fique raso e/ou meramente anedótico?

IAL: Eu só tenho um livro no estilo diário, é o Confidencial – anotações secretas de uma adolescente. Como ele foi feito com base nas vivências com uma sobrinha muito querida de quem eu sempre fui muito próxima, eu tinha material para aprofundar questões polêmicas como sexo, drogas, brigas com os pais, etc. Apesar do humor (sempre presente nas minhas obras), o livro não ficou raso nem anedótico.

CdL: Você costuma citar Kafka e Julio Cortázar como suas principais influências na produção de contos por causa da concisão. Na sua obra, a busca pela concisão é uma escolha estilística ou, pra você, ser conciso é um pré-requisito para um bom conto. Por quê?

IAL: As duas coisas. Pra mim, a concisão é uma escolha por considerá-la um pré-requisito para o bom conto. Mas entenda: concisão não quer dizer necessariamente conto curto. Um conto pode ser imenso e ser conciso. Concisão é a qualidade do que não excede, não se estende em demasia, não enrola, não escreve em dez linhas o que pode ser dito em duas, segue rente ao osso. Essa será sempre minha escolha estilística.

CdL: O seu livro Eu te darei o céu é dedicado ao Joca Reiners Terron. Qual importância ele tem na sua carreira?

IAL: Eu vivia contando meus “causos” dos anos 60 nas rodas de cerveja da Mercearia [São Pedro, famoso ponto de encontro de escritores em São Paulo] e o Joca vivia insistindo pra que eu escrevesse sobre isso. Quando finalmente resolvi colocar minhas memórias adolescentes no papel, nada mais justo do que dedicá-las a quem me incentivou a fazê-lo. Fora isso, o Joca é um ótimo conselheiro e vive me dando palpites certeiros. Tonta sou eu que não os sigo à risca.

CdL: Você vivenciou diversos períodos emblemáticos na história do país e no mundo, como a Ditadura e a censura militar, o fim da polarização da guerra fria, o advento da internet. Em qual medida a experiência destas mudanças te afetou como escritora?

IAL: Essas mudanças me afetaram como pessoa. Nasci em 51. Cresci na efervescência psicodélica dos anos 60, passei a juventude sob o tacão da ditadura, dancei muito ao som do primeiro compacto dos Beatles, fui macaca de auditório do Roberto Carlos, saí à rua sem lenço e sem documento. Sou cria da televisão. Como passar imune a tudo isso? Claro que este universo acaba constituindo a pessoa que eu sou e a escritora que eu me tornei. Não há como fugir da própria história.

CdL: Qual a sensação ao ler algum texto seu escrito há muito tempo? Qual Ivana você enxerga nele?

IAL: Quando releio minhas primeiras publicações às vezes eu me surpreendo (poxa, que conto legal, eu não sabia que ele era tão bom); às vezes eu torço o nariz (poxa, que pena, se eu tivesse me dedicado um pouco mais, ele ficaria bem melhor); às vezes eu me arrependo (poxa, por que não joguei esse conto no lixo?)

CdL: O empoderamento feminino é um tema que vez ou outra aparece em sua obra. Como você enxerga essa questão na literatura atual? Acha que ainda há resistência a temáticas sobre as “minorias”?

IAL: Não acho não. Até porque as mulheres não são minoria há muito tempo. Nos meus contos você nunca vai encontrar a mulher coitadinha. Pelo contrário, elas são bravas, são loucas, se vingam e dão um jeito de saírem vitoriosas. Na real, o fato de ser mulher não faz de mim um ser especial com direitos e privilégios que os homens não mereçam. Somos todos igualmente desgraçados, homens e mulheres.

CdL: Durante sua carreira, houve mudanças em relação ao reconhecimento das mulheres escritoras? Se sim, quais? São necessárias mais mudanças, ou o status do escritor independe do gênero sexual?

IAL: O status do escritor independe do gênero.

CdL: Certa vez você disse que sonhava em viver de literatura. Como anda a busca por esse sonho?

IAL: Depois de trinta longos e árduos anos de trabalho, hoje sou funcionária pública aposentada e tenho a sobrevivência garantida até o fim dos meus dias. Não preciso da literatura pra viver. Aleluia!!!! E aí volta a pergunta: escrever pra quê mesmo? 

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Desde Homero e a sua Odisseia, a literatura estabelece uma cumplicidade entre a viagem literária e a real através dos grandes livros sobre destinos exóticos, dos romances de itinerância incessante, das ficções brasileiras expatriadas e do testemunho pessoal de autores exilados ou de dupla nacionalidade cultura. Com base nisso, o Centro Universitário Maria Antonia, ligado à USP, oferece o curso “Ritos e rotas: a literatura de viagem”, ministrado por Paulo Nogueira. 

Programação:

18 de fevereiro – O relato real repleto de informações históricas de autores como Bruce Chatwin, Paul Theroux, V. S. Naipaul e Claudio Magris

19 de fevereiro – O romance de viagem ou a literatura nômade de Vladimir Nabokov e Jack Kerouac

20 de fevereiro – Budapeste e Magnólia, de Chico Buarque e Bernardo Carvalho

21 de fevereiro – Exílio e literatura em autores como Ovídio, Thomas Mann, Victor Hugo e Joseph Brodsky 

Horário: das 16h às 18h 

Preço: R$200,00 (estudante tem 20% de desconto e pessoas da terceira idade, 40%) 

Paulo Nogueira é graduado em jornalismo na ECA-USP. Autor de O amor é um lugar comum (Oficina do Livro, 2011). Correspondente no Brasil do jornal português O Expresso, também colabora com as revistas Época, Bravo! e Piauí.

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edusp2012

 

A 14ª Festa do Livro da USP – um dos eventos mais aguardados pelos fanáticos por literatura, já que as diversas editoras participantes vendem seus livros com descontos de ao menos 50% sobre o preço de capa – será realizada nos dias 12, 13 e 14 deste mês, nos prédios da Mecânica, Civil e do Biênio da Escola Politécnica da USP.

E uma dica preciosa para ganhar tempo nas filas dos caixas improvisados: leve dinheiro vivo, pois assim o pagamento é sempre muito mais rápido do que com cartão.

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A cidade de São Paulo sempre apresenta boas alternativas ao caos cotidiano para quem sabe procurar. E no campo literário não é diferente. O Guia da Folha separou alguns ótimos exemplos de viagens literárias que você pode fazer pela cidade e, aqui no nosso Canto também as indicamos. Veja quais são e escolha a(s) sua(s):

 

Jorge, Amado e Universal

 

Em cartaz no Museu da Língua Portuguesa (centro de São Paulo), a mostra homenageia o centenário de nascimento de Jorge Amado, é dividida em módulos e explora personagens, o lado político, a malandragem e traz depoimentos do autor baiano. O ingresso custa R$ 6,00.

 

A Poesia em Revista

Na quarta (25), às 19h30, o Centro Cultural São Paulo abriga debate sobre a edição de revistas literárias no país. Na mesma data, serão lançadas edições das revistas “Babel”, “Celuzlose” e “Musa Rara”.

 

Clube de Leitura – O Cheiro do Ralo

O livro O Cheiro do Ralo, do escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli, ganha discussão mediada pela atriz Lorena Lobato, que participou do filme homônimo dirigido por Heitor Dhalia. O evento acontece na quinta-feira (26), às 19h, no Sesc Carmo.

 

Clube de Prosa Cosac Naify: O Assassinato e Outras Histórias

Na quinta (26), às 19h30, a editora Cosac Naify promove a sétima edição do Clube de Prosa na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. O tema do encontro é o livro O Assassinato e outras Histórias, de Antón Tchekhov. Elena Vássina, professora de literatura russa da USP, conduz o bate-papo.

 

Mitologia Grega

Ajax Pérez Salvador e Wladia Beatriz Correia promovem leituras de textos mitológicos e traçam um paralelo entre a mitologia e a vida real, fixando nas imagens criadas pelos mitos e no que oferecem para a imaginação, a poesia e a fantasia. O evento acontece na quinta (26), às 15h, na Biblioteca Alceu Amoroso de Lima (zona oeste).

 

Com informações do Guia da Folha.


 

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Monica Martinez é uma dessas profissionais que conseguem unir o domínio da prática e da teoria de sua profissão. Doutora em Ciências da Comunicação pela USP, defendeu uma tese que depois se transformou no livro Jornada do herói – a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo. Não parou por aí, foi para a Umesp onde obteve o seu pós-doutorado. Professora universitária e ativa pesquisadora, também possui interesse pela Criatividade. Ministra cursos de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo e, sobre o assunto, publicou Tive uma ideia! – o que é criatividade e como desenvolvê-la. Ainda que atualmente se dedique mais ao campo acadêmico, Monica é uma apaixonada pelas redações – nelas já redigiu matérias publicadas em grandes revistas do país. Não bastasse tudo isso, ainda está prestes a publicar o seu primeiro livro de ficção. Poderíamos falar por mais umas 50 linhas sobre suas qualificações, mas pararemos por aqui e deixaremos que a entrevista revele mais da PhD.

Canto dos Livros: Na sua opinião, o que é literatura?

Monica Martinez: Boa pergunta. Às vezes é mais fácil saber o que não é literatura do que o que de fato se encaixa neste rótulo, não é? A meu ver, e de forma bem sintética, literatura demanda o uso estético e criativo da linguagem escrita. E este uso deve sempre ser visto no contexto do espaço e do tempo em que o material é produzido.

CL: O Brasil é tido como um país de pessoas criativas. Essa virtude engloba a produção literária, ou essa é uma característica infundada do nosso povo? A criatividade artística não depende de um sistema de educação de maior qualidade, afinal?

MM: Um dos estudiosos contemporâneos de criatividade, o estadunidense Steven Johnson, remete ao conceito de redes líquidas para falar sobre criatividade. Este argumento é baseado nos estados da matéria e, portanto, é de simples compreensão. Assim, no estado gasoso há um caos criativo, porém neste universo caótico as boas ideias têm dificuldade em se concretizar. Já no sólido há estabilidade, porém as estruturas são tão cristalizadas que as inovações encontram dificuldade para irromper. Neste cenário, entendo que o Brasil estaria mais próximo do caos, com bastante explosões criativas, mas enfrentaria desafio no planejamento e na implementação a longo prazo das ideias criativas. Não basta criar: é preciso implementar as boas ideias, o que demanda outras habilidades do ser humano.  Habilidades, muitas delas, que evidentemente são transmitidas ou treinadas pelo sistema educacional, daí a importância de ele ser eficiente.

CL: Pegando neste ponto também, sempre existe uma grande questão em torno de escola para escritores. Alguns defendem sua importância, outros dizem que escritores já nascem prontos. Qual é a sua opinião?

MM: Já vi muita gente talentosa que simplesmente não tem a disciplina necessária para sentar e escrever. A escrita não é um fim, mas um processo. Neste sentido, é muito salutar a troca de informações e experiências, daí, a meu ver, a grande importância das oficinas. Há também muito de grupo de apoio nestes grupos, que inspiram os integrantes a vencer seus desafios e ir além do que imaginam ser seus limites.

CL: A partir da sua experiência em salas de aula, quais são as principais causas de bloqueios criativos que seus alunos expõem? E como fugir deles? 

MM: Deste assunto entendo bem, pois desde 2004 ministro um curso de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Nele, faço um levantamento, por meio de respostas espontâneas, dos problemas relacionados a bloqueios. As seis causas de bloqueios mais citadas são desorganização, dispersão, perfeccionismo, indisciplina, insegurança e falta de estabelecer prioridades, respectivamente. Penso que não se trata de uma questão de fuga, mas de identificá-los e estabelecer uma estratégia para lidar com eles. É simples assim.

CL: Você anunciou recentemente que em breve lançará um livro de ficção. O que podemos esperar dele?

MM: Livros são como filhos. A gente lhes tem um amor infinito, mas nunca sabe de fato o que se pode esperar deles. E aí reside a graça: em geral somos surpreendidos por ambos. No meu caso, até agora, o simples fato de escrever ficção foi uma das coisas mais deliciosas que já fiz. O que já é uma recompensa e tanto. O que vier a mais é lucro…

CL: Como foi para uma pessoa tão acostumada a escrever fatos reais ter a liberdade total para criar o que quisesse? Essa liberdade em algum momento atrapalhou?

MM: Sou muito rigorosa com a apuração quando faço um texto jornalístico. A pessoa não tem mais ou menos 1,70m. Ou tem 1,69m ou 1,71m, por exemplo. Para mim, portanto, escrever ficção foi relaxante, um estado muito criativo e libertador.

CL: Um dos erros comuns de iniciantes em não-ficção é a dificuldade em livrar-se de conceitos pré-concebidos, amarras e juízos de valor. Você sente isso também? Como fazer para quebrar preconceitos, tabus e julgamentos que estão tão intrinsecamente ligados a cada um de nós?

MM: Acho que tenho uma característica de personalidade que me ajuda muito, que é a de ser muito exigente comigo mesma, mas de ter uma grande abertura para as idiossincrasias dos outros. Eu tenho uma infinita curiosidade de entender o ponto de vista do outro, sem endossá-lo nem absorvê-lo, mas de compreender o porquê a pessoa pensa, sente ou age desta ou daquela forma. Uma vez uma aluna escreveu uma história de vida fantástica, na qual uma moradora de um complexo habitacional poupava a vida de um rato que morava em sua cozinha — ainda que ela tivesse medo que o roedor mordesse seu bebê — porque ele tinha três patas. Essa delicadeza com um animal, digamos, com restrições motoras, vinda de uma pessoa com tal desfavorecimento econômico, nunca saiu da minha cabeça. A realidade, realmente, na maioria das vezes é mais surpreendente que a melhor ficção.

CL: Seu trabalho no campo acadêmico está muito voltado à pesquisa. Como é ser pesquisadora no Brasil? Você sempre teve essa vontade ou foi uma coisa que “aconteceu”?

MM: Acho que tudo o que eu sempre quis foi escrever. Eu sempre soube que lidaria com a escrita, embora não soubesse muito bem como isso aconteceria. Foi tudo muito natural. Escolher jornalismo como profissão, migrar para a docência num certo ponto da vida, fazer mestrado, doutorado, pós-doutorado, começar a ensinar a escrever, virar pesquisadora… No fundo, escrever um artigo científico exige muita competência textual. E, para mim, é mandatório que um artigo científico escrito por alguém da área de comunicação social seja bem redigido. Não faz sentido que não o seja.

CL: Como essas pesquisas se encaixam ou influenciam efetivamente no fazer jornalístico? Como a imprensa adota as novidades propostas pelo meio acadêmico?

MM: É uma simbiose. Até porque muitos acadêmicos são ou foram profissionais. E acho que mesmo quem se dedica mais à docência e já esteve numa redação não se esquece o quanto é apaixonante estar no meio de uma apuração ou de um fechamento. Você se sente 100% vivo, fazendo parte da história, é uma experiência fantástica.

CL: Após fazer mestrado e doutorado em uma universidade (USP), resolveu respirar novos ares e levar sua linha de pesquisa a outra instituição (Metodista), no pós-doutorado. Fale um pouco sobre a importância dessa mudança de ares para o desenvolvimento das pesquisas e produção de conhecimento.

MM: Tive muita sorte de ter tido a oportunidade de conhecer, na USP, o professor Edvaldo Pereira Lima (que viria a ser meu orientador do doutorado anos depois), que me despertou para o Jornalismo Literário — nunca mais fui a mesma depois desta descoberta. Entre 2008 e 2010, foi uma oportunidade e tanto conhecer mais de perto pesquisadores de uma instituição de ensino muito sólida como a Umesp, com um programa de pós-graduação de quase 40 anos. É inspirador participar de um grupo de pesquisadores sérios, altamente produtivos. Você vê o conhecimento sendo gestado na sua frente. Recentemente participei, com um grupo de pesquisadores do Brasil e de outros países, de um evento na Universidade de Viena e está sendo outro aprendizado interessantíssimo, descobrir como é feita a ciência da comunicação em nível mundial. O método pode ser o mesmo, mas o tempero é absolutamente cultural, regional. Neste sentido, os brasileiros têm sorte, pois bebem tanto na fonte da ciência quantitativa do modelo estadunidense quando na qualitativa do modelo europeu.

CL: Uma de suas paixões é a narrativa de viagem. Como é a sua relação com o gênero?

MM: Tenho particular carinho pelas narrativas de viagem. Outro dia, por exemplo, estava lendo o livro do Hans Staden — já há quase 500 anos se produzia narrativas de qualidade. Penso que meu amor pelas viagens deriva do fato de que elas são sempre uma aventura de descoberta porque fazem com que os indivíduos deixem seus limites conhecidos para trás e se aventurem no novo, em universos diferentes. Isso faz com que as pessoas aprendam mais sobre si mesmos e sobre os outros — o que, para mim, é o grande desafio de se estar vivo.

CL: Quais autores na Literatura e quais jornalistas te inspiram?

MM: Tive a sorte de ter uma mãe que lia muito e que me ensinou o amor pela leitura. E um pai visionário, que me ensinou que o impossível não existe. Com certeza posso dizer que sou apaixonada por García Márquez, Hemingway, Falkner, mas amo mesmo a literatura de não-ficção americana. Talvez esta seja, de fato, minha grande especialidade. Entre eles, meus favoritos são sem dúvida Gay Talese (um clássico), Lilian Ross (com seu encantador estilo mosca-na-parede) e Joseph Mitchell (a revelação no segundo perfil de O Segredo de Joe Gould é, para mim, um dos momentos altos do jornalismo). Dos atuais, aprecio muitíssimo os livros de David Remnick, o atual editor da The New Yorker, em particular A Ponte, sobre o presidente Barack Obama.

CL: O que poderia dizer a jovens que pensam em ingressar no jornalismo ou que pretendam publicar seus escritos?

MM: Dizem que quando se vai comprar um imóvel é preciso se pensar em três coisas: localização, localização e localização. Para mim, a resposta para sua pergunta demanda três palavras: persistência, persistência e persistência. Não desistir nunca. Quem age assim certamente verá chegar a sua hora.

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