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Archive for the ‘Entrevista’ Category

Rodrigo Casarin

Claudio Tavares_ISA

Claudio Tavares_ISA

A convivência com diferentes povos indígenas, o apreço por valores humanos como, o respeito às minorias, e o fortalecimento da diversidade socioambiental são alguns dos motivos que moveram o antropólogo Beto Ricardo nesses últimos 45 anos. Um dos convidados para a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), onde irá compor a mesa “Tristes trópicos” com Eduardo Viveiros de Castro, seu colega de profissão, passou a vida profissional batalhando por causas ligadas principalmente aos índios e ao meio ambiente.

Formou-se em Ciências Sociais pela USP em 1972, idealizou e coordenou o projeto Povos Indígenas do Brasil, com atuação entre 1978 e 1992, e militou pelos direitos indígenas. É sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA), que visa propor soluções para problemas sociais e ambientais; nele, coordena o Programa Rio Negro, que atua na Bacia do Rio Negro, no noroeste da Amazônia. Também fez parte da criação da Comissão Pró-Yanomami, que defende os direitos dos índios yanomamis. Pelo seu trabalho, ainda em 1992, recebeu, nos Estados Unidos, o Prêmio Ambientalista Goldman. Já em 2011, foi eleito a Personalidade do Ano pelo Paladar, caderno gastronômico do jornal O Estado de São Paulo, pela ajuda prestada a chefs na busca por ingredientes amazônicos.

Na entrevista a seguir – concedida inicialmente para uma matéria que fiz ao Uol sobre a presença de Davi Kopenawa, escritor e xamã yanomami, na Flip -, Beto Ricardo fala sobre as questões indígenas em voga no país, os problemas pelos quais as nações marginalizadas passam e a importância dos atos simbólicos. Além disso, também conta que ainda há muito a se explorar na relação entre as florestas e a gastronomia, algo que só será possível caso haja preservação ambiental.

Rodrigo Casarin: Neste momento, como está a questão da demarcação das terras indígenas? Por que é tão importante que isso aconteça?

Beto Ricardo: A demarcação de terras indígenas está praticamente paralisada no governo Dilma, além de outros sinais de retrocesso. Há forte pressão da bancada ruralista no Congresso Nacional para transferir o reconhecimento de terras indígenas do executivo para o legislativo, incluindo a revisão de Terras já em processo de demarcação. Se isso acontecer será a pá de cal no principal direito indígena inscrito na Constituição Federal de 1988, segundo a qual é considerado direito originário e cabe ao Estado reconhecê-lo. Terras reconhecidas são a base para os demais direitos coletivos dos povos indígenas. É verdade que uma boa parte dos direitos territoriais dos povos indígenas no Brasil já está reconhecida, mas ainda há pendências importantes e pressões e ameaças nas terras demarcadas. Além do fato de que esses direitos estão desigualmente distribuídos. Nas regiões centro-oeste e norte a maior parte das terras indígenas são extensas e contínuas, reconhecidas e demarcadas depois da Constituição de 1988, mas pesam sobre essas terras o impacto das hidrelétricas, as invasões garimpeiras, o desmatamento do entorno e o aumento da vulnerabilidade ao fogo. Já nas regiões nordeste, sudeste e sul, os índios estão confinados em terras diminutas ou vivendo literalmente na beira de estradas, como é o caso de muitas comunidades do povo guarani.

RC: E quais são as questões indígenas que precisam ser tratadas com maior urgência?

BR: É preciso resolver o caso Guarani, o mais numeroso dos povos indígenas do país e desprovido de seus direitos territoriais básicos, e também a proteção dos chamados povos “isolados”. É preciso concluir as demarcações nas regiões centro-oeste e norte. Para as demais regiões do país há casos que requerem a desapropriação de terras para alargar os horizontes dos confinamentos a que estão relegados muitos povos e para viabilizar o assentamento de indígenas sem terra.

É também muito importante que o Governo Federal garanta recursos do orçamento da União, a longo prazo, para bancar os planos de gestão desses territórios, conforme prevê a PNGATI (Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas), criada pela presidente Dilma em 2012. Para as Terras Indígenas situadas no arco do desmatamento da Amazônia, serão necessárias cada vez mais ações de adaptação às mudanças climáticas. Além disso é importante a implantação de sistemas diferenciados de educação escolar, com um programa de fortalecimento das línguas indígenas e de atendimento especializado à saúde. Também seria oportuno a criação de espaços institucionais e protocolos que permitam o diálogo intercultural com os conhecimentos indígenas, relevantes para o futuro do Brasil, dos biomas brasileiros e do planeta. Nunca é demais lembrar os serviços socioambientais e climáticos prestados pelas terras indígenas. Na Amazônia, elas representam uma parte muito importante das florestas, que garantem as chuvas, a biodiversidade e as condições do clima na maior parte do continente.

RC: Na luta pelos direitos dos povos indígenas, qual a importância de momentos simbólicos, como o pequeno índio que, na abertura da Copa, levou uma faixa pedindo a demarcação de terra?

BR: Fatos positivos marcantes e registrados em imagens são cruciais, porque alimentam um capital simbólico que funciona como um estoque de compensação à minoridade demográfica (0.4% da população nacional) e política dos povos indígenas, num país imenso, preconceituoso e avassalador, com 200 milhões de habitantes. Nos últimos 40 anos, tivemos vários episódios que renderam imagens marcantes para o imaginário do Brasil e do mundo: Mário Juruna Xavante com seu gravador para registrar as promessas de políticos em Brasília; Raoni Mentuktire Kayapó dividindo o palco com Sting ou puxando a orelha do ministro (do regime militar) Mario Andreazza durante uma coletiva de imprensa; Ailton Krenak pintando o rosto de preto enquanto discursava no plenário da Câmara Federal, em sinal de protesto pela supressão do capítulo dos direitos indígenas durante a Constituinte; a presença dos Kayapó no plenário da Câmara, durante a votação da Constituição Federal; Davi Kopenawa Yanomami protestando contra o massacre do seu povo pelos garimpeiros e recebendo o rei da Noruega em sua aldeia; a advertência de Tuira que usou a lâmina de seu facão para tocar o rosto de um diretor da Eletronorte em protesto contra a construção de barragens no rio Xingu em 1989 e tantos outros. Essas imagens estão reunidas numa exposição Povos Indígenas no Brasil 1980/2013, uma iniciativa da Embaixada da Noruega e do ISA, da qual fui curador. Essa exposição estreou em Brasília no final do ano passado, já esteve em São Paulo, em Belém e desde 15 de julho está instalada ao ar livre na Ponta Negra, em Manaus, por um mês.

RC: Qual a importância, a representatividade, da questão indígena ser abordada na Flip, um dos principais eventos culturais do país, tendo inclusive a mesa “Marcados” dedicada ao tema e com participação do Davi Kopenawa, um xamã Yanomami?

BR: Eu fiquei surpreso com o espaço aberto pela Flip para este tema. Originalmente havia a expectativa de se organizar apenas uma mesa ao redor do lançamento do livro “A queda do Céu”, de coautoria do xamã Davi Kopenawa e do antropólogo Bruce Albert, uma obra de fôlego, com 800 páginas, já publicada em francês e inglês, cuja versão em português está a caminho.

Acho importante que o tema seja abordados na Flip, se possível de uma forma não apenas episódica, mas incorporando narradores e autores indígenas, como um nicho de mercado. Mas é preciso politicas públicas governamentais para fortalecer processos e produtos bem acabados, com traduções competentes das narrativas em cerca de 150 línguas.

RC: Como a cultura indígena se relaciona com a literatura?

BR: É um caso de amor sem solução. É a luta dos igarapés contra as rochas. O vigor e originalidade das culturas indígenas estão nas narrativas orais, reiterativas, performáticas, fluidas. A literatura é baseada na palavra, escrita e impressa, que o vento não leva. Dito isso, como é de conhecimento, estão disponíveis no mercado editorial muitos livros infantis e juvenis, com autores individuais – sejam indígenas ou não indígenas – baseados, ou inspirados, em mitos indígenas. Para criar Macunaíma, Mário de Andrade bebeu nos registros da mitologia dos Taurepang, Ingarikó e Macuxi, feitos pelo pesquisador Koch-Grunberg no início do século XX.

Mas há que se reconhecer que a antropologia e a linguística no Brasil nunca estiveram tão capacitadas para transitar entre as línguas indígenas específicas e algumas línguas dominantes, como o português e o espanhol. E até o francês e o inglês, como é o caso de “A queda do céu”, um trabalho de excelência, que custou a ser publicado e se transformou rapidamente num marco desse novo ambiente. Tradicionalmente os esforços da linguística para grafar e normatizar as línguas indígenas era ofício de missionários que tinham por objetivo a tradução da bíblia para a catequese e a conversão, desde os jesuítas no século XVI até as organizações missionárias evangélicas atuais.

Hoje em dia há muitos antropólogos e linguistas – inclusive indígenas – que tem bons conhecimentos das línguas indígenas contemporâneas, o que viabiliza o registro e a difusão de contribuições dos povos indígenas com outras culturas. Uma iniciativa exemplar é o Programa de Documentação de Línguas Indígenas, que inclui o Museu Nacional e o Museu do Índio, com apoio da Unesco e coordenado por Bruna Franchetto, desde 2009.

Há que se destacar alguns outros exemplos, como a série “Narradores Indígenas do Rio Negro”, da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), com oito volumes já publicados e vários a caminho. Trata-se de um esforço editorial de mobilizar jovens adultos bilíngues, que gravam narrativas com os velhos sabedores e as transcrevem nas suas línguas de origem, posteriormente traduzidas ao português com apoio e notas de antropólogos especializados, resultando em versões atribuídas autoralmente aos narradores/clãs dos quais fazem parte. São bons exemplos os trabalhos do antropólogo Pedro Cesarino publicados em livros: “Oniska: poética do xamanismo na Amazônia” e “Quando a Terra deixou de falar: cantos da mitologia Marubo.

RC: E qual a importância, não só pela participação na Festa, de Davi Kopenawa?

BR: Davi é uma pessoa inspirada, cuja trajetória de vida o fez um homem-ponte entre mundos, na era da crise planetária, que começa a ser designada como antropoceno, uma nova época geológica, devido a transformação da espécie humana de mero agente biológico em força geofísica capaz de alterar as condições fundamentais da vida no planeta. No Brasil essa perspectiva tem pautado trabalhos recentes da filósofa Deborah Danowski e do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

RC: De que forma você acha que o seu trabalho contribuiu para que a presença de um xamã num evento literário fosse possível?

BR: Eu conheço Davi Kopenawa há mais de 30 anos. Fui membro da Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), depois da demarcação e homologação da Terra Yanomami em 1992, renomeada como Comissão Pró-Yanomami, e desde 2008 incorporada ao ISA (Instituto Socioambiental). Pelo ISA eu coordeno um programa na bacia do Rio Negro que inclui um termo de cooperação com a Hutukara Associação Yanomami, do qual Davi é o presidente. Apoiamos várias iniciativas do povo yanomami, entre as quais a realização de encontros de xamãs, a expansão de uma rede de comunicação por radiofonia, o intercâmbio com os yanomami da Venezuela e algumas pesquisas sobre os conhecimentos tradicionais e diálogos interculturais. Resultam desses processos algumas publicações e vídeos. Nesse contexto estamos apoiando a tradução do livro “A queda do céu”.

RC: Como você vê a relação entre os índios e o restante da sociedade brasileira?

RC: Em geral eu acho que o paradigma mudou nos últimos 40 anos. Quando começamos dar atenção a este assunto, no início dos anos 1970, os povos indígenas estavam condenados ao desaparecimento ou invisíveis, sob a retórica da ditadura militar de que a Amazônia era um vazio demográfico a ser ocupado aceleradamente em nome da soberania nacional. Na contra mão e a partir de uma rede da sociedade civil, conseguimos botar os índios no mapa, os direitos na Constituição de 1988 e avançamos com as demarcações de terras e outras iniciativas que inscreveram os povos indígenas no imaginário social e nas agendas nacionais futuras. Mas há pelo menos duas derivações desse novo paradigma, uma favorável aos povos indígenas , suas terras e direitos coletivos – com audiência especialmente entre a maioria dos brasileiros, que vivem na cidades; e outra que quer retroagir nos direitos constitucionais e frear ou reduzir os direitos indígenas, especialmente os territoriais, para liberar mais terras para o agronegócio ou obras de infraestrutura associadas. Nessa segunda vertente estão os segmentos da população brasileira que estão mais próximos geograficamente dos índios, muitas vezes atiçados por grandes interesses econômicos.

RC: Já ouvi muita gente, ao ver um índio aparecer na televisão com um celular, por exemplo, dizer: “olha lá, desde quando índio usa celular? Índio usa arco e flecha” ou algo semelhante. O que você pensa disso?

BR: É uma das formas mais perversas de preconceito, porque quer congelar as culturas indígenas, negando-lhes o direito que todas as culturas do mundo trocam processos, ideias, símbolos, comportamentos, sem que isso signifique perda de identidade. Além do mais, tal visão preconceituosa pretende deslegitimar o manejo que os povos indígenas fazem de suas identidades para obter vantagens práticas. Refiro-me, por exemplo, ao fato de indígenas que vivem em regiões fronteiriças e que possuem dupla documentação de identidade, o que lhes permite participar de processos eleitorais e de programas sociais em dois países. Por que não? Afinal, um belo dia, dona Marisa, então primeira dama, resolveu tirar passaporte italiano, incluindo os filhos, na expectativa de, eventualmente, obter vantagens derivadas da dupla nacionalidade e nem por isso deixou de ser brasileira. Tá cheio de paulistas que querem ser italianos. Se índio que usa celular deixasse de ser índio, o que dizer dos brancos que comem farinha e dormem em redes?

RC: Até aqui, utilizei “povos indígenas” e “índios” para simplificar as perguntas, mas essa simplificação é possível? Podemos, de alguma forma, tratar os indígenas como se fossem todos iguais ou cada tribo deve ser vista de maneira única?

BR: Depende das circunstâncias e do espaço disponível. Às vezes só cabe usar índios para diferenciar os nativos dos adventícios. O melhor é usar o genérico povos indígenas, terminologia amplamente reconhecida na legislação internacional e que faz jus às identidades culturais e organizações sociais específicas. Na prática cada tribo deve ser vista como singular. Claro que há semelhanças entre os povos de língua tupi e entre os de língua gê, por exemplo, mas há também muitas diferenças. No caso do Brasil estamos falando de 240 povos e 150 línguas, aproximadamente. Ou seja, não se confirmou a hipótese de alguns pessimistas, de que os indígenas no Brasil caminhariam inexoravelmente para uma identidade genérica. Aliás, no censo do IBGE de 2010, quase 900 mil pessoas se auto-identificaram como indígenas, como pertencentes a 305 povos, falando 274 línguas, resultados que necessitam de uma refinada revisão metodológicas para serem corretamente interpretados.

RC: O que te motiva a realizar o seu trabalho?

BR: As oportunidades de convivência com diferentes povos indígenas pelo Brasil afora, nos últimos 45 anos, além do apreço por valores estratégicos para a humanidade, como o respeito às minorias e o fortalecimento da diversidade socioambiental.

RC: Entrando rapidamente na questão gastronômica, como você ajudou chefs a obterem acesso a ingredientes da Amazônia? Quais ingredientes foram esses?

BR: O ISA tem programas e subsedes regionais nas bacias hidrográficas onde atua (Ribeira, Xingu e Rio Negro). Operamos com parcerias locais, regionais, nacionais e internacionais. Uma das linhas básicas da nossa atuação é criar ou apoiar alternativas econômicas com valor socioambiental agregado para comunidades que vivem na floresta. Nesse contexto é que abrimos uma conversa com vários chefs de cozinha, começando pelo Alex Atala no Rio Negro, em 2005. Desde então vários chefs do Brasil e do exterior vieram andar conosco nessas fronteiras de conhecimentos, convivendo com as comunidades indígenas e ribeirinhas, experimentando novos ingredientes, mas sobretudo aprendendo sobre as origens e modos de fazer, convertendo-se em aliados importantes para equacionar as dificuldades da comercialização: distâncias, dificuldades de logística, sazonalidades e controle de qualidade, entre outras. Essa nova atitude tomou corpo no Instituto Atá, fundado em São Paulo em 2012, uma organização da sociedade civil dedicada a promover e fortalecer a diversidade socioambiental e a agrobiodiversidade brasileira em particular. Começamos pela pimenta baniwa tipo jiquitaia, mas estamos identificando e pesquisando com as comunidades uma cesta de produtos, que inclui óleos, castanhas, derivados da mandioca brava, cogumelos, méis de abelhas sem ferrão e muitos outros.

RC: Há ainda muito a ser explorado na relação entre a floresta e a gastronomia? Faz ideia de algo que esteja por vir?

BR: Sim, as regiões de floresta são as maiores fronteiras da diversidade socioambiental do planeta, mas estão fortemente pressionadas pela agropecuária extensiva, com suas associadas, as indústrias de defensivos, de infraestrutura e de alimentos. Sem falar nas empresas de gás, petróleo e mineração. Esse bloco está altamente capitalizado, seja na vertente transnacionalizada, seja no cacife voraz de países como a China.

As paisagens florestais e a diversidade cultural associada estão sendo erradicadas e substituídas por paisagens reducionistas e “monótonas” numa velocidade espantosa.

Uma economia socioambiental baseada na diversidade cultural e nas paisagens florestais ainda é possível, mas requer visão estratégica e volumes de investimentos e modelos de governança capazes de deter o rolo compressor do capitalismo predatório.

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jaffePara viver de literatura quase sempre é preciso se desdobrar. Noemi Jaffe se desdobra. Escreve livros, prefácios, ensaios e críticas, faz curadoria, dá aula em universidades e ministras cursos e oficinas de escrita. Assim, leva uma vida sem luxos, é verdade, mas alinhada com sua paixão pelas letras. Autora, dentre outros, de A verdadeira história do alfabeto e O que os cegos estão sonhando, também mantem o blog “Quando nada está acontecendo”. Na conversa que tivemos com ela por e-mail, falou de suas obras,da literatura de uma forma geral, do belo e até mesmo de poesia, assunto um tanto raro aqui no Canto.

Canto dos Livros: O que se passa quando nada está acontecendo?

Noemi Jaffe: Quando nada está acontecendo passa o que passa distraído e é durante a distração, quase sempre, que se passam as melhores coisas. Aquelas das quais a gente não se dá conta, que não têm grandiloquência, mas têm voz e vez. Não o amor, nem a guerra, nem a paz: mas algumas palavras, algumas pessoas, lugares e ações. O que se passa é o concreto, quando nada está acontecendo.

CdL: A verdadeira história do alfabeto guarda algumas semelhanças com O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges. Ele realmente lhe é uma referência?

NJ: Esse livro, particularmente, não, porque eu nem tinha feito essa relação. Mas a literatura borgeana, sim, embora não diretamente. Borges está sempre ressoando em quase tudo o que escrevo, na sua visão de literatura como jogo, influência, espelho, circularidade e na ideia de que a linguagem e as línguas são mistérios que, quanto mais você cava, mais misteriosas ficam.

CdL: Em O que o cegos estão sonhando você parte do diário que sua mãe escreveu durante a Segunda Guerra, quando ela foi prisioneira em um campo de concentração, para criar uma ficção. Como foi o contato com esse passado da sua mãe? Quais emoções afloraram? Onde a ficção se fez essencial?

NJ: Foi, e sempre é, um contato muito difícil. Me identifico muito com ela e sinto dor, medo e culpa. Mas também aprendo, com ela, a importância da dignidade, da coragem e tento dar importância, na vida, ao que é realmente importante, sem me ater ou fixar a bobagens ou frivolidades. A ficção se fez essencial porque foi a forma que encontrei para lidar com algo de que não conseguia me libertar. Não quer dizer que me libertei, mas aprendi muito com a ficção. Aprendi sobre a importância de dividir essa história e mais algumas coisinhas sobre as pessoas e o mal, que está em todo lugar e no fundo de todo mundo.

CdL: Ainda sobre O que os cegos estão sonhando, a leitura de um relato sobre o holocausto tende a modificar o leitor. Você foi modificada pelos relatos que teve contato? Em qual medida?

NJ: Acho que já respondi na pergunta acima. Estou sempre sendo modificada por essa história e pelo que leio sobre ela. Não termina.

CdL: Você atua em diversas frentes literárias, seja como escritora, professora, crítica, curadora ou acadêmica. É possível afirmar que você vive de literatura? Como foi seu trajeto? Como é possível alcançar essa realidade que é o sonho de muita gente?

NJ: Sim, vivo de literatura. Mas principalmente das aulas de escrita criativa que ministro. Não vivo de direitos, de forma alguma. Mas é a literatura que me sustenta, através de palestras, prefácios, críticas, aulas etc.
Alcançar essa realidade é fruto de perseverança. A literatura sempre dá vontade de desistir, num país como o nosso e com a pressa que as pessoas têm de obterem repercussão. Não se pode ter pressa. Se escrever é reescrever, viver de literatura é tentar de novo. Nunca tive luxo e acho que nunca vou ter.

CdL: Dessas frentes, qual é a que lhe dá mais prazer? E há alguma que na qual você gostaria de parar de atuar?

NJ: A que mais me dá prazer é terminar um livro e vê-lo pronto. Não quero parar de atuar em nenhuma. Talvez dar menos aulas.

CdL: Quais as maiores surpresas que você já teve nas aulas e oficinas de escrita que ministra?

NJ: Ter encontrado alguns grandes escritores.

CdL: Até onde é possível ensinar alguém a fazer literatura?

NJ: Infinitamente, na mesma medida em que eu mesma estou sempre aprendendo. Eu não ensino a escrever. Ensino as pessoas, ou tento ensinar a extrair o melhor de si em termos técnicos e na demonstração de recursos, como concisão, uso de palavras, simplicidade etc.

CdL: Nas artes, em geral, e na literatura, especificamente, o clássico será sempre o belo?

NJ: De forma alguma! O belo não tem mais nome. O belo é o necessariamente belo, como disse Kandinsky.

CdL: A criação de novos gêneros textuais – tweets, posts etc – pode alterar a produção literária ou ela só existe nos gêneros consagrados?

NJ: Acredito que sim, mas ainda não. Talvez parte da literatura passe a ser mais condensada e talvez outra parte, como acredito, por oposição, retorne ao caudaloso e ao trabalhoso.

CdL: Uma de suas obras, para a série Folha Explica, trata de Macunaíma. Considerando que é possível detectar uma mudança de mentalidade na sociedade brasileira, de uns 20 ou 30 anos para cá, a análise e os paralelos possíveis de serem traçados do romance com a realidade também devem mudar? A 1ª edição do seu livro, de 2001, deveria ter algum acréscimo ou modificação significativa?

NJ: Acho que eu faria mudanças sim, mas não em função da realidade brasileira e sim em função da análise que realizei, à qual acrescentaria alguns trechos do livro que deixei de verificar. Acho que Macunaíma é mutante o suficiente para sempre ser uma representação fiel (e infiel) do Brasil.

CdL: Há alguma obra recente potencialmente similar à Macunaíma, em seu impacto e originalidade?

NJ: Penso em várias ótimas obras sobre o Brasil, mas em nenhuma especificamente, portanto acho que nada com o mesmo impacto. Gosto do José Luis Passos (confira aqui a entrevista que fizemos com ele), Paulo Scott, Bia Bracher e outros, que falaram sobre questões políticas brasileiras.

CdL: Você organizou ma antologia de poemas do Arnaldo Antunes e já ministrou curso sobre Paulo Leminski. Como está o atual momento da poesia?

NJ: Acho que está realmente bom! Poetas ótimos, com dicção nova e desafiadora. Estou adorando o momento poético brasileiro.

CdL: Do que se trata e a que se propõe o romance que você está escrevendo? Qual a previsão de lançamento?

NJ: Não tenho previsão de lançamento. O romance tem a ver com a revolução húngara de 1956. Não quero, por enquanto, falar mais do que isso. 

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IvanaDepois de passar por distintas fases, Ivana Arruda Leite não sabe porque escreve. Mais que isso, fará dessa falta de resposta o mote de seu próximo romance. A mestre em Sociologia pela USP que nasceu em 1951, em Araçatuba, é autora de obras como Falo de mulher e Ao homem que não me quis, de contos, da novela Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60 e dos romances Hotel novo mundo e Alameda Santos. Também escreve livros infantis e infanto-juvenis e vê alguns de seus trabalhos sendo publicados em no exterior. A escritora fala disso e de diversos outros assuntos na conversa que tivemos com ela.

Canto dos Livros: A revista alemã Die horen publicou dois contos seus. Quais contos são esses? Do que eles tratam?

Ivana Arruda Leite: Os contos são “Receita para comer o homem amado” e “O sabonete das estrelas”. O primeiro é do meu livro Falo de Mulher, o segundo, do Ao Homem que não me quis.

CdL: O que significa ser publicada numa revista estrangeira? Como conseguiu essa publicação?

IAL: Essas publicações (além de antologias no México) são reverberações da feira de Frankfurt, que jogou luz sobre autores brasileiros. Apesar de não ter ido à feira, fui publicada na revista bilíngüe Machado de Assis, da Câmara Brasileira do Livro, e ela me levou a outras publicações.

CdL: Por que você escreve?

IAL: Se você me fizesse essa pergunta há quarenta anos eu diria “escrevo porque a literatura é a minha vida, o meu meio de expressão pra chegar às pessoas. Através dela eu consigo organizar meus sentimentos, minhas idéias e botar pra fora todo meu torvelinho interior. Sem a literatura eu morro”.

Se você me fizesse essa pergunta há dez anos eu diria: “escrevo pra chegar às pessoas, emocioná-las com minhas histórias, fazer com que elas se identifiquem, tenham um pouco de conforto e consigam rir de si próprias”.

Hoje você me pergunta e eu não tenho resposta.

Durante anos escrevi pra me curar ou curar as pessoas. Esvaídos esses propósitos, busco um sentido para a escrita e a resposta para a sua pergunta.

CdL: Do que tratará seu próximo romance?

IAL: Justamente disso. Meu próximo romance conta a história de um escritor cinqüentão, boa pinta, sucesso de público e de crítica em crise com a literatura. De repente ele se dá conta que a vida fora dos livros é muito mais rica e bonita do que a artificialidade que ela ganha ao “virar” literatura. Depois de conseguir fama, dinheiro, prêmios e mulheres, ele se pergunta: escrever pra quê? Essa é a pergunta.

CdL: Você tem livros escritos para públicos de diversas idades. O que muda na hora de escrever um infanto-juvenil e um adulto, por exemplo?

IAL: Muda a temática e a linguagem. Tanto uma quanto outra devem se adequar aos pequenos. Eu acho muito mais fácil e divertido escrever pra crianças. Pena que essa que não seja minha vocação primeira. Os livros infantis são raros de acontecer e geralmente surgem para atender uma encomenda.

CdL: Até quando você acha que teremos a cultura do politicamente correto na produção infantil e infanto-juvenil?

IAL: Infelizmente, por muito tempo. Parece que o politicamente correto chegou pra ficar. Pior que o politicamente correto é a briguinha entre os dois partidos. Os corretinhos vendo os incorretos como preconceituosos escrotos, fascistas e reacionários; os incorretos vendo os corretinhos como babacas imbecis. Ai que preguiça…

CdL: Você já declarou que considera a narrativa no estilo “diário” um forte atrativo para o público jovem. Como você trabalha esse tipo de texto pra que ele não fique raso e/ou meramente anedótico?

IAL: Eu só tenho um livro no estilo diário, é o Confidencial – anotações secretas de uma adolescente. Como ele foi feito com base nas vivências com uma sobrinha muito querida de quem eu sempre fui muito próxima, eu tinha material para aprofundar questões polêmicas como sexo, drogas, brigas com os pais, etc. Apesar do humor (sempre presente nas minhas obras), o livro não ficou raso nem anedótico.

CdL: Você costuma citar Kafka e Julio Cortázar como suas principais influências na produção de contos por causa da concisão. Na sua obra, a busca pela concisão é uma escolha estilística ou, pra você, ser conciso é um pré-requisito para um bom conto. Por quê?

IAL: As duas coisas. Pra mim, a concisão é uma escolha por considerá-la um pré-requisito para o bom conto. Mas entenda: concisão não quer dizer necessariamente conto curto. Um conto pode ser imenso e ser conciso. Concisão é a qualidade do que não excede, não se estende em demasia, não enrola, não escreve em dez linhas o que pode ser dito em duas, segue rente ao osso. Essa será sempre minha escolha estilística.

CdL: O seu livro Eu te darei o céu é dedicado ao Joca Reiners Terron. Qual importância ele tem na sua carreira?

IAL: Eu vivia contando meus “causos” dos anos 60 nas rodas de cerveja da Mercearia [São Pedro, famoso ponto de encontro de escritores em São Paulo] e o Joca vivia insistindo pra que eu escrevesse sobre isso. Quando finalmente resolvi colocar minhas memórias adolescentes no papel, nada mais justo do que dedicá-las a quem me incentivou a fazê-lo. Fora isso, o Joca é um ótimo conselheiro e vive me dando palpites certeiros. Tonta sou eu que não os sigo à risca.

CdL: Você vivenciou diversos períodos emblemáticos na história do país e no mundo, como a Ditadura e a censura militar, o fim da polarização da guerra fria, o advento da internet. Em qual medida a experiência destas mudanças te afetou como escritora?

IAL: Essas mudanças me afetaram como pessoa. Nasci em 51. Cresci na efervescência psicodélica dos anos 60, passei a juventude sob o tacão da ditadura, dancei muito ao som do primeiro compacto dos Beatles, fui macaca de auditório do Roberto Carlos, saí à rua sem lenço e sem documento. Sou cria da televisão. Como passar imune a tudo isso? Claro que este universo acaba constituindo a pessoa que eu sou e a escritora que eu me tornei. Não há como fugir da própria história.

CdL: Qual a sensação ao ler algum texto seu escrito há muito tempo? Qual Ivana você enxerga nele?

IAL: Quando releio minhas primeiras publicações às vezes eu me surpreendo (poxa, que conto legal, eu não sabia que ele era tão bom); às vezes eu torço o nariz (poxa, que pena, se eu tivesse me dedicado um pouco mais, ele ficaria bem melhor); às vezes eu me arrependo (poxa, por que não joguei esse conto no lixo?)

CdL: O empoderamento feminino é um tema que vez ou outra aparece em sua obra. Como você enxerga essa questão na literatura atual? Acha que ainda há resistência a temáticas sobre as “minorias”?

IAL: Não acho não. Até porque as mulheres não são minoria há muito tempo. Nos meus contos você nunca vai encontrar a mulher coitadinha. Pelo contrário, elas são bravas, são loucas, se vingam e dão um jeito de saírem vitoriosas. Na real, o fato de ser mulher não faz de mim um ser especial com direitos e privilégios que os homens não mereçam. Somos todos igualmente desgraçados, homens e mulheres.

CdL: Durante sua carreira, houve mudanças em relação ao reconhecimento das mulheres escritoras? Se sim, quais? São necessárias mais mudanças, ou o status do escritor independe do gênero sexual?

IAL: O status do escritor independe do gênero.

CdL: Certa vez você disse que sonhava em viver de literatura. Como anda a busca por esse sonho?

IAL: Depois de trinta longos e árduos anos de trabalho, hoje sou funcionária pública aposentada e tenho a sobrevivência garantida até o fim dos meus dias. Não preciso da literatura pra viver. Aleluia!!!! E aí volta a pergunta: escrever pra quê mesmo? 

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eduardo-spohrHá uma clara divisão na literatura nacional. Enquanto a maior parte dos escritores se desdobra para que a venda de seus livros atinja o milhar, alguns raríssimos podem se gabar de centenas de milhares (ou até mais de um milhão) de exemplares vendidos. Muitos desses bestseller pertencem ao nicho da literatura fantástica, como é o caso do carioca Eduardo Spohr, autor de A batalha do Apocalipse, Filhos do Éden: herdeiros de Atlântida, Protocolo bluehand: Alienígenas ,Filhos do Éden: anjos da morte e A torre das almas e editor do blog Filosofia Nerd. Amado por milhares (ou milhões?) de fãs, defendido por Paulo Coelho e sustentando que a literatura deve ser analisada com o coração, Spohr falou com o Canto dos Livros. 

Canto dos Livros: Sobre seu primeiro trabalho, A batalha do Apocalipse, você já declarou que, devido à dificuldade em encontrar informações concretas durante a pesquisa, teve de criar uma “mitologia própria”. Tolkien talvez tenha sido o escritor que melhor desenvolveu este trabalho, criando um universo completamente novo. Quais foram as dificuldades encontradas nas pesquisas? Como foi criar uma mitologia própria? Em quais pontos foi bom ou ruim não ter algum embasamento prévio?

Eduardo Spohr:  Foi longo, porém mais fácil dos que as pessoas pensam porque eu já jogava RPG dentro desse universo, e tive anos para desenvolvê-lo. Então, a coisa aconteceu de forma orgânica e gradual. Quando comecei a escrever A batalha do Apocalipse, já tinha praticamente tudo pronto. O mais difícil, acredito, é manter a coerência com as “regras” estabelecidas para esse universo fantástico.

CdL: É comum vermos você falando de mitos. Conte-nos um pouco sobre a sua relação com a mitologia, com a obra de Joseph Campbell e o impacto que isso tem na sua escrita.

ES: Quando eu conheci Campbell, já tinha escrito o meu primeiro livro, mas o curioso foi ver que tudo o que ele falava, eu já tinha aplicado nas minhas histórias. Então, estudando mais sobre as teorias dele, eu entendi o porquê e comecei a desconstruir todo o processo.

CdL: Flertando com Campbell, de que forma um personagem deve ser construído para que desperte emoção no leitor?  Quais seus personagens mais amados? E os mais odiados?

ES: Bom, acho que acima de tudo o personagem deve ser crível. Como fazer isso? Cada escritor deve encontrar o seu caminho. No meu caso, não tenho personagens mais amados ou odiados. São todos como filhos (risos).

CdL: De que forma você enxerga a tradicional personificação do mal, na figura de um adversário – Diabo, Satã, Lúcifer ou equivalente? Sobre a responsabilidade do mal cometido pelos e sobre os homens, a quem ela recai?

ES: É uma forma de ver as coisas. De fato o mal existe dentro de nós, assim como o bem. Está nas nossas mãos escolher o que fazer: o certo ou o errado, geralmente sendo o errado mais tentador. Metaforicamente é uma alegoria poderosa.

CdL: Suas crenças religiosas ou espirituais interferiram na escrita de seu livros ou a escrita de seus livros interferiram em suas crenças?

ES: Não. O livro é 100% ficção, não há nada relacionado com as minhas crenças ou algo do tipo.

CdL: Além de livros, você produz bastante conteúdo das suas histórias em outros formatos, como podcasts e textos no blog. Como esses formatos te ajudam a construir sua obra e envolver os leitores?

ES: São materiais diferentes, na verdade. Não acho que exista grande influência dos podcasts, por exemplo, nos meus livros.

CdL: De que forma a interação online com seus mais de 30 mil fãs no Facebook e mais de 50 mil seguidores no Twitter exerce impacto na sua obra?

ES: Eu sempre fico de olho no que os leitores falam, e escuto suas críticas. Isso tem me ajudado muito a melhorar, tenho certeza.

CdL: Você demonstra desejo de compartilhar sua experiência como escritor aos novos talentos. Há, inclusive, um post no seu blog com inúmeras referências, podcasts e vídeos sobre o assunto. O que te motiva a estimular a nova geração? Quais foram seus maiores professores na profissão?

ES: Eu acho um barato que a galera curta meus livros e o meu trabalho. Então, quando me fazem perguntas sobre como escrever, eu tenho o maior prazer em ajudar, daí eu ter feito esse post. Meu principal mentor creio que foi o escritor José Louzeiro, uma pessoa que admiro muito.

CdL: Num mundo cada vez mais racional, pelos avanços da ciência e do conhecimento, a literatura de fantasia tem hoje um papel diferente do que tinha antes?

ES: Não. Acho que é o mesmo. O papel de reconstruir a nossa sociedade e nós mesmos de forma metafórica.

CdL: Você esteve na Feira de Frankfurt este ano. O que achou da participação do Brasil no evento e como encarou todas as polêmicas que a cercaram, principalmente a lista de autores levados pelo governo e o discurso do Luiz Ruffato na abertura?

ES: Frankfurt é muito corrido. É uma reunião atrás da outra, com editores, agentes, etc. Confesso que nem tive tempo de parar e nem de pensar nas polêmicas. Estava totalmente concentrado em apresentar meu trabalho aos editores internacionais. Vamos torcer para que dê certo.

CdL: Como é a receptividade das editoras internacionais pela literatura de fantasia brasileira? O país de origem influencia no interesse dos editores? 

ES: Creio que dependa do caso. Nos lugares onde meu livro já saiu (Alemanha, Holanda e Portugal), a recepção foi bem legal.

CdL: É nítido o amadurecimento no seu texto desde o primeiro trabalho até o mais recente, Filhos do Éden: Anjos da Morte. Além da evolução como escritor, o que acha que mudou nesse tempo? Como a mudança tem sido recebida pelos leitores?

ES: Muito obrigado. Bom, claro que eu tenho tentado melhorar. Os leitores parecem estar curtindo também, pelo feedback que estão me dando.

CdL: Sobre sua evolução, você já declarou que precisava melhorar nos diálogos. Esse é um dos pontos cuja diferença pode ser percebida se compararmos o seu primeiro e o terceiro romance. Para você, qual a importância desse recurso dentro do todo? Em que exatamente e quanto acha que melhorou nesse sentido? 

ES: Muito importante. É o diálogo que dá vida aos personagens. Não só ele, mas é uma parte importante, acredito. Eu não posso dizer que melhorei (isso é para o leitor avaliar), posso dizer apenas que me esforcei para tentar melhorar.

CdL: Sua obra alcançou um grande público no Brasil, tornando-se um bestseller. Você faz parte também da coletânea de contos Geração Subzero, que reuniu autores “esquecidos pela crítica”. Afinal, não estar nas críticas da grande imprensa faz falta para você? Qual é a real importância destas críticas?

ES: Para mim é mais importante a crítica do leitor. Mas acho que toda crítica, quando feita com respeito, é válida e nos ajuda a evoluir.

CdL: Na sua opinião, um livro deve ser analisado dentro do seu nicho específico ou comparado com tudo o que compõe a literatura? Em outras palavras, uma obra de fantasia deve ser analisada tendo somente Tolkien como parâmetro ou podemos colocá-la ao lado de Graciliano Ramos, por exemplo?

ES: Acho que deve ser analisado com o coração. Pelo menos eu faço isso, enquanto leitor. Obviamente, os críticos discordariam.

CdL: Levando em conta toda a literatura brasileira contemporânea, como sua obra se situa nela?

ES: Para mim, é difícil fazer essa auto-avaliação. Prefiro que o leitor o faça.

CdL: Fazendo um exercício de futurologia, daqui cem anos, quais dos escritores brasileiros atuais continuarão sendo lidos? Por quê?

ES: Impossível dizer. E qualquer resposta seria errada. Prefiro não arriscar (risos).

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Crédito da foto: Renato Parada

Crédito da foto: Renato Parada

Antonio Prata está em evidência. Na mesma semana do lançamento do seu novo livro, Nu, de botas, no início deste mês, envolveu-se em uma polêmica por conta do texto “Guinada à direita“, publicado na Folha de São Paulo, jornal onde é colunista. Alguns não entenderam sua suposta mudança de posição ideológica, e outros, pior, aplaudiram de pé o texto que precisou ser esmiuçado no domingo seguinte para que maus entendidos (ou entendedores?) fossem resolvidos. Autor de obras como Douglas, As pernas da tia Corália, Adulterado, Felizes quase sempre e Meio intelectual, meio de esquerda, foi um dos integrantes da edição da revista Granta com os melhores jovens escritores brasileiros e ajudou a escrever a novela Avenida Brasil. Além disso, informação importante, fabrica cervejas em sua própria casa. Falou de todos esses assuntos nesta entrevista que fizemos com ele (e de futebol também!).

Canto dos Livros: Como anda a vida depois da guinada à direita?

Antonio Prata: Muito mais tranquila. É bem mais fácil ser de extrema direita do que ser meio de esquerda. Você não precisa se preocupar com a pobreza – é culpa dos pobres – nem com a desigualdade – cada indivíduo é diferente do outro. Você pode fazer piadas racistas, machistas e homofóbicas e pagar de vanguardista. Ser de esquerda dá muito trabalho. Você está sempre sofrendo. Direita é paz de espírito. (RISOS – é sempre bom frisar…)

CdL: Ficou muito surpreso com a reação das pessoas a esse seu texto? Pensou que haveria tanta gente se identificando com o discurso e incapaz de perceber a ironia?

AP: Fiquei. Eu escrevi tantos absurdos no texto que jamais pensei que alguém pudesse levá-lo ao pé da letra.  Afirmava que José Maria Marin e Marco Feliciano eram de esquerda, que o “poderoso lobby dos antropólogos” havia transformado toda a área cultivável do Brasil em reserva indígena, que os negros estavam no poder, escanteando os brancos…

CdL: Na quarta capa de Nu, de botas está escrito que no livro “Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância”. Nessas revisitas você foi fiel à sua memória ou você criou histórias – ou detalhes – em cima daquilo que lembra da sua infância? Você realmente deixou de ganhar uma bicicleta do Bozo porque não sabia qual era o seu endereço?

AP: Olha, não dá pra chamar memórias de outra coisa senão de ficção, esse é um primeiro ponto. A memória é sempre uma história editada, reescrita no nosso cérebro. Às vezes (não poucas) é até inventada do zero. Memórias tão antigas, então… Eu não poria a mão no fogo por nada do que está no livro, se tivesse que testemunhar num tribunal quanto à veracidade. Ou seja, mesmo o que eu acho que aconteceu, não sei se aconteceu mesmo (ou se foi do jeito que lembro). Já certas histórias ou pedaços delas eu realmente inventei, para melhorar os enredos ou preencher brechas. A história da bicicleta eu trago na lembrança exatamente do jeito que escrevi. (Mas duvido que tenha acontecido: você acha que o Bozo ia conversar com um moleque de 5 anos depois do programa? E que ia se propor a dar uma bicicleta, do nada? Estranho.)

CdL: Como foi escrever esse livro?

AP: Foi legal. E cansativo, como sempre é a escrita.

CdL: É raro vermos crianças sendo bem retratadas na literatura e em Nu, de botas, você consegue captar bem o contraste entre a diferença de olhar, raciocínio e pensamento entre uma criança e um adulto. Como conseguiu isso? Tentativa e erro, estudos sobre a infância, convivência com crianças, boa memória dos primeiros anos de vida?

AP: Agradeço o elogio. Eu tentei criar as histórias a partir das memórias. E as memórias já tinham uma certa linguagem, um certo estilo de narrativa. O que tentei fazer foi ser fiel a esse estilo. Agora, se é assim que uma criança pensa (ou que eu pensava), já não sei. Mesmo esse elogio é o elogio de um adulto, alguém que, como eu, já não sabe mais o que passa pela cabeça das crianças. É igual filme de época. Você assiste Gladiador ou Spartacus e diz “nossa, eles recriaram direitinho a vida em Roma!”: mas quem é que sabe como era exatamente a vida em Roma?!

CdL: Ainda sobre a técnica de narrar histórias sob a perspectiva de uma criança, é uma questão da habilidade de bons escritores (como Bill Waterson e Neil Gaiman, para ficar em dois exemplos), ou há algum macete que facilite a tarefa?

AP: Pois então, são recriações, né? Pra começar, se eu quisesse ser realmente fiel ao pensamento das crianças, teria que restringir meu vocabulário a duzentas palavras, não poderia fazer frases longas nem conjugar direito os verbos. Eu tentei esse caminho quando comecei a escrever o livro, ficou ridículo. Experimentei alguns caminhos antes de chegar no que está publicado.

CdL: O Nu, de botas foi lançado junto com o Ligue os pontos, do Gregório Duvivier, em uma espécie de balada. De onde surgiu essa ideia? Como foi a experiência de aproximar dois universos tão distintos, a balada e a literatura?

 AP: A ideia foi da editora e eu achei ótima, porque sou fã do Gregório (embora não o conhecesse pessoalmente). Mais do que pela balada, o lançamento foi legal porque teve um bate-papo entre o Gregório e eu e leitura de trechos dos livros. Quanto à balada, propriamente, lamento dizer que eu tava tão exausto depois de tudo que nem consegui chegar à pista de dança. (Subir num palco e falar em público não é muito aterrorizante, pra mim. Aterrorizante são os sete dias e as vinte e quatro horas antes de subir no palco e falar em público…).

CdL: Você começou a publicar seus textos em veículos de comunicação bem jovem. De lá até hoje, como tem acompanhado as mudanças na imprensa? Como enxerga o futuro dela?

AP: Cara, quem souber responder essa pergunta ou é um gênio ou tá mentindo… 

CdL: Avenida Brasil foi uma das novelas mais elogiadas dos últimos anos, principalmente por causa de seu roteiro. Como foi fazer parte da equipe que escreveu essa novela? Como o trabalho era dividido? Quais eram as suas funções?

AP: A história é criada pelo autor principal, João Emanuel Carneiro. Todo dia ele faz uma escaleta, um resumão bem detalhado do capítulo e manda pros quatro colaboradores. Na escaleta, já vem apontado qual colaborador pegará quais cenas. A gente faz basicamente diálogos. Daí manda pra ele, ele dá um tapa final e manda pra ser filmado.

Foi demais participar dessa novela, por várias razões. Primeiro, por trabalhar com o João Emanuel, um escritor talentosíssimo e generoso, com quem aprendi muito. Também pela graça de escrever um troço que metade do país tá assistindo e comentando. Sem falar na alegria que é ver o diálogo que você escreveu sair da boca de alguns dos melhores atores do Brasil. (Em vários casos, aliás, melhorado por eles).

CdL: Ainda sobre a novela, você teve alguma participação nas hilárias cenas que o Tufão aparecia lendo A interpretação dos sonhos, de Freud (e o chamava de Fred), Mar morto, do Jorge Amado (para o Leleco dizer que nem sabia que o mar tinha vida para morrer) e O idiota, do Dostoievski (para o mesmo Leleco dizer que idiota mesmo era o Tufão)? Como foi a recepção para essas, digamos, intervenções? Como o pessoal da Globo as recebeu?

AP: Olha, quem mandava nas leituras do Tufão era o João Emanuel.

Não vejo essas citações como intervenções. Fazia sentido a Nina incentivar o Tufão a ler, como parte da “recuperação” que ela estava promovendo ali. E havia algumas piscadelas pro público, também. O primeiro livro que ela deu pra ele, se não em engano, era o Primo Basílio, que tinha não só o tema da traição como a inversão de papéis entre patroa e empregada, que se daria entre Nina e Carminha lá pelo capítulo cem. 

CdL: Seu pai, Mário Prata, o influencia como escritor?  Há ou houve alguma cobrança – sua, dele, da crítica ou dos leitores – pelo parentesco? Houve algum conflito íntimo quando você decidiu que seria escritor, como querer se diferenciar do estilo dele? 

 AP: Eu sempre digo que influência é uma palavra leve demais para definir o quanto a presença de um pai determina os caminhos de um filho. Mais do que me influenciar, ele me deu vinte e três cromossomos, me ensinou a andar, a falar, etc. Ou seja: sem dúvida “influenciou” muitíssimo minha escolha na profissão.

No começo havia a desconfiança de algumas pessoas, sim, mas com o tempo isso ficou pra trás. Ser filho de um escritor sem dúvida me abriu muito mais portas do que criou cobranças.

Não acho que eu tenha querido me diferenciar do estilo dele. Nossas disputas edípicas se deram em outros campos que não nas páginas

CdL: Como parte do time, o que você tem a dizer sobre o vexame brasileiro em Frankfurt? Perder de 9X1 não foi um pouco demais?

AP: Cara, pegue dezesseis escritores brasileiros que treinaram juntos duas vezes na vida no Playball da Barra Funda (nunca os onze do mesmo lado, só seis contra seis) e ponha pra jogar contra um time de quarenta alemães que treinam desde 2005. Ponha num campo oficial, a quatro graus, com garoa fina. Acho que 9X1 foi praticamente um empate.

CdL: Você também faz cerveja em casa. Há alguma forma de se relacionar a literatura com a cerveja caseira?

AP: Os textos dá pra consertar o tempo todo, dá pra mexer, remexer, cortar, remendar. Cerveja, se você cometer um errinho, vai tudo pro lixo. Ou melhor, pra pia.

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entrevista_desenhoNesses mais de quatro anos de Canto dos Livros, as entrevistas que procuramos fazer mensalmente se tornaram um dos principais diferenciais do blog. Por isso, resolvemos reunir os links de todas as conversas que tivemos com pessoas do meio literário em um só post. Abaixo, trechos de dez delas e, em seguida, uma relação com todos aqueles que já falaram conosco. Para ler uma entrevista na íntegra, basta clicar sobre os nomes dos entrevistados. Divirta-se!

“Perceber o mundo como um morador local o percebe é fundamental para escrever com realismo e convencer o leitor de que ele está entrando num mundo especial, diferente do seu dia-a-dia” – Airton Ortiz

“Adoro o cotidiano mais prosaico, um ponto de ônibus, um sofá com televisão, um almoço qualquer” – Andréa del Fuego

“Por mais interessantes e diferentes que tenham sido as experiências que vivi durante a viagem, tenho escolhido não estacionar em vida nenhuma. Isso não quer dizer viver superficialmente, à deriva, do tipo ‘pra onde me chamar eu vou’. É, na verdade, uma tentativa de se manter aberto, receptivo às novidades” – Antonio Lino

“Toda narrativa pública transporta implicitamente uma visão de mundo, contribuindo ou para manter o grau de consciência do leitor num nível muito baixo de entendimento da realidade, ou ajudando-o a despertar para uma visão transformadora, que não termina no ângulo puramente derrotista, negativista” – Edvaldo Pereira Lima

“Geralmente, há uma esnobação equivocada que cerca a ficção. Eu adoro belos romances, mas a verdade é que genialidade na ficção é rara e a vasta maioria dos autores que se empenha em fazê-lo acaba produzindo uma bobagem banal” – Jeremy Mercer

“A ficção é parte do real, não se opõe a ele; não é o oposto da verdade. A ficção é um modo de se tornar visíveis relações constitutivas do real” – José Luiz Passos

“Sinto que todo escritor sofre de uma hipermetropia: pode enxergar bem a obra dos outros, à distância, mas a sua própria sempre aparece aos seus olhos imprecisa e turva” – Julián Fuks

“Acho que no geral há uma possibilidade razoável de nos próximos anos termos bons livros para ler. No entanto, parece-me que boa parte da produção ainda reproduz – sem criticar ou, ainda pior, aderindo ao que há de pior no Brasil. Digamos que estamos diante, se formos falar no geral, de uma produção amena e edulcorada” – Ricardo Lísias

“O que mais me incomodava, além dos entraves burocráticos, era a minha completa inaptidão para conversar com as pessoas. Às vezes eu ficava em silêncio ao lado de algum entrevistado vendo os ônibus passarem, por puro pânico e falta de perguntas. Isso às vezes era uma vantagem, porque o sujeito acabava falando qualquer coisa que lhe viesse à mente” – Vanessa Barbara

Alex Robinson

Augusto Paim

Bernardo Carvalho

Claudio Brites

Cristina Cezar

Eric Novello

Felipe Pena

Ferréz

F. T. Farah

Lehgau-Z Qarvalho

Marcelo Maluf

Monica Martinez

Nazarethe Fonseca

Nelson Magrini

Paulão de Carvalho

Reinaldo Moraes

Renato Modernell

Tatiana Salem Levy

Xico Sá

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bernardo carvalhoDesde sua estreia em 1993, com Aberração, Bernardo Carvalho já publicou outras dez obras e se tornou um dos escritores mais prestigiados do país. Dentre seus trabalhos merecem destaque títulos como Mongólia, Onze, Nove noites e O filho da mãe, que integra a polêmica coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras. Reprodução, o livro mais recente do autor, foi lançado neste segundo semestre de 2013 e apresenta um estudante de chinês envolvido em um enorme imbróglio no aeroporto horas antes de embarcar para a sonhada viagem à China. Por conta deste novo trabalho e da importante carreira que o Canto dos Livros entrevistou Bernardo Carvalho. 

CdL: É de se imaginar que para escrever Reprodução você tenha navegado bastante por sites de notícias e blog para ler os comentários dos internautas. Ao ler esses comentários – muitas vezes reacionários e racistas, como o personagem principal da obra –, qual era o seu sentimento? 

Bernardo Carvalho: Não li muitos comentários. Nem naveguei muito para poder escrever o livro. Como é tudo mais ou menos igual, basta ler alguns pra entender como a coisa funciona.

CdL: Apesar do tamanho, Reprodução tem uma estrutura que em muitos momentos se assemelha ao conto ou à novela. Contudo, ainda não existe uma definição clara do que seja um conto, uma novela e um romance. Para você, como esses gêneros são caracterizados? 

BC: Você vai achar as definições clássicas dos gêneros nos manuais literários. Pra mim, interessa embaralhar os gêneros. Mas acho que esse livro tem um espírito mais teatral do que qualquer outra coisa.

CdL: Em certo momento, Reprodução também é um livro que fala sobre o domínio que determinadas línguas exercem sobre outras. A passagem que trata das línguas que morrem chega a ser comovente. Qual a sua relação e interesse pelas línguas, sejam elas dominantes ou à beira da morte? 

BC: O desvio me interessa. O desvio da regra, a diferença, a exceção, a resistência ao hegemônico etc. Nesse sentido, as línguas em vias de extinção são chaves pra mundos alternativos, que estão se perdendo. Com o desaparecimento das línguas, o mundo também se estreita.

CdL: É cada vez mais evidente a maneira truculenta como policiais costumam tratar qualquer tipo de suspeito. Não seria mais plausível se o delegado que interroga o “estudante de chinês” desse um tapa na orelha do interrogado e mandasse ele apenas responder objetivamente as perguntas feitas? 

BC: Os personagens literários mais interessantes são aqueles que não correspondem às expectativas do leitor.

CdL: O protagonista de Reprodução parece só ouvir as pessoas quando aparentemente aumentam a voz ou quando não há mais nada para ser feito além de escutar uma conversa. É uma forma de mostrar que estamos cada vez mais preocupados em falar e menos dispostos a ouvir? 

BC: Não sei. É uma característica do personagem.

CdL: O final de Reprodução é forte e emblemático. Você é um crente, um otimista? 

BC: O final é trágico e triste. Crente, eu não sou. Acho que oscilo entre fases de otimismo e pessimismo.

CdL: Em entrevista recente, ao comentar sobre a banalização promovida pela internet, você destacou o narcisismo, e a maneira perversa pela qual ele pega as pessoas que escrevem ali, para qualquer audiência, lhes dando a ilusão de que são celebridades. Por outro lado, os romancistas costumam ter um forte componente narcisista, a serem bajulados pelos leitores e editoras, tanto mais quanto maior seja a projeção e o potencial comercial de suas obras, importando pouco a qualidade literária dela. No seu caso, escritor há 20 anos e consagrado, reconhece em você ou na sua obra indícios deste mesmo narcisismo? Concorda com o diagnóstico de alguns especialistas, de que a atual literatura brasileira é em grande parte feita com narrativas em primeira pessoa, confessionais e também narcisistas? 

BC: O narcisismo está em todo mundo. Faz parte do humano. Há gradações, claro, e maneiras diferentes de lidar com o narcisismo. Mas acho pobre pensar que uma narrativa em primeira pessoa é sinal de narcisismo do autor. É não ter entendido absolutamente nada do que é literatura.

CdL: Em uma resenha para O Globo, Beatriz Resende, professora da UFRJ, diz que você “confirma sua versatilidade como escritor que foge da zona de conforto”. É possível fazer arte permanecendo na zona de conforto? 

BC: Não há regras em literatura e arte. O conforto me incomoda, mas é o meu caminho. Não sou modelo pra ninguém.

CdL: O discurso de Luiz Ruffato na abertura da Feira de Frankfurt tem dividido opiniões no meio literário. Qual sua opinião sobre as colocações do autor? 

BC: Gostei do discurso dele.

CdL: Como foi a sua participação na Feira de Frankfurt? O que achou da seleção de escritores?

BC: Senti falta do Rubens Figueiredo e do Reinaldo Moraes [que já foi entrevistado pelo Canto e cujas respostas guardam certa semelhança com as de Bernardo]. Não sei se não foram convidados o se não quiseram ir.

CdL: Ainda sobre a feira, na oportunidade João Paulo Cuenca, Paulo Lins e Luiz Ruffato iniciaram um abaixo assinado apoiando a greve de professores do Rio de Janeiro e repudiando a violência policial. O que você achou desse manifesto? Na sua visão, qual é o papel de um escritor diante de reivindicações contemporâneas, como essa e tantas outras levantadas recentemente no Brasil? 

BC: Não conheço ninguém que seja contra a democracia e a educação, e a favor da truculência policial.

CdL: Alguns acham que a Literatura tem papel específico, outros, que ela pode ser uma agente de mudanças profundas. Entre estes dois pólos, onde você se situa? 

BC: Entre os dois. Nos dois.

CdL: Recentemente, a discussão sobre as biografias não autorizadas ganhou força novamente com a posição do Procure Saber, encabeçado por Paula Lavine. Tanto como escritor quanto personalidade pública, qual sua posição sobre isso? 

BC: A favor da liberdade de expressão.

CdL: Hoje em dia, ante as facilidades em se publicar, mas também ante a enorme concorrência, qual(is) atitude(s) aconselharia para novos escritores? O que eles devem enfatizar? 

BC: Cada um deve levar seu projeto literário e suas diferenças até as últimas consequências.

CdL: O humor tem qual espaço na sua obra? Se fosse defini-la em uma característica, qual seria?  

BC: Geralmente, o humor não está muito aparente no que eu escrevo. O Reprodução é uma exceção.

CdL: Após 20 anos de sua estreia como escritor, como você olha para sua própria obra?

BC: Fiz o que deu pra fazer.

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