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Posts Tagged ‘Ernest Hemingway’

Por Rodrigo Casarin

primeira guerraSarajevo, 1914. Balas mortais atingem o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando e a duquesa Sofia. Quem as dispara é Gavrilo Princip, um sérvio integrante da Mão Negra, organização que quer todos os territórios eslavos independentes do império austro-húngaro. Para alcançar o objetivo, usam a violência como principal arma. O assassinato do casal é somente mais um ato. Gavrilo não imaginava o que aqueles disparos ocasionariam.

A Europa vivia um momento delicado. As nações imperialistas tentavam a todo custo aumentar seus territórios. Disputavam espaços na África e, para se fortalecer, investiam muito dinheiro em armamentos. Com animosidade entre os impérios, o sentimento de nacionalismo se exacerbava em uma época cujas feridas causadas por conflitos no século XIX ainda incomodavam.

Após o assassinato, os austro-húngaros acusam a Sérvia de financiar a Mão Negra e logo declaram guerra ao país. É a desculpa que todos precisavam. Como garotos esperando qualquer olhar torto para iniciar uma confusão, as nações europeias vão à briga. A Rússia em defesa dos sérvios; a Alemanha, contra a França e depois contra a Rússia; a Grã Bretanha, contra a Alemanha, em defesa da Bélgica; a Itália um tanto perdida, sem saber ao certo em quem bater. Logo os Estados Unidos chegariam para dar uma força aos amigos bretões e franceses.

A briga seria superlativa. Duraria até 1918, envolveria países de todos os continentes, deixaria mais de quinze milhões de mortos e seria conhecida como a Primeira Guerra Mundial, ou A Grande Guerra.

2014 marca os cem anos do início do conflito e o mercado editorial prepara novidades sobre o assunto. A Rocco lançará Adeus à Europa, de Olivier Campagnon, um estudo que mostra o impacto da batalha nos países latino-americanos, principalmente no Brasil e na Argentina. Segundo Campagnon, a mudança na imagem europeia, outrora exemplo de civilização, levanta questões identitárias que levam a uma reformulação do nacionalismo na América Latina.

Pela Companhia das Letras, chegará às prateleiras The Sllepwalkers (ainda sem título em português), de Christopher Clark, que trata das razões que motivaram a luta armada, e The beauty and the sorrow (outro ainda sem nome em nossa língua), de Peter England, um retrato das pessoas comuns durante o combate. A Alfaguara também trará uma novidade: O bom soldado Svejk, de Jaroslav Hasek, uma comédia que flerta com o absurdo, previsto já para o primeiro semestre.

A literatura da Primeira Guerra

As editoras se aproveitam da efeméride. Contudo, ao longo desses cem anos, diversos livros já abordaram A Grande Guerra. Os dois mais comumente associados ao evento são os romances Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, e Adeus às armas, de Ernest Hemingway.

Erich Maria Remarque é o pseudônimo de Erich Paul Remark, alemão que esteve no campo de batalha. Nada de novo no front, de 1929, é protagonizado por Paul Bäumer, que se alista ao exército germânico e vai combater no oeste europeu, onde se dá conta do que é realmente a guerra: um bando de homens matando outros homens por causa de homens que jamais viram na vida. A matança é intercalada por momentos de monotonia e fome – a dificuldade em encontrar comida às vezes é grande. Quando Paul volta à cidade, surpreende-se com as pessoas que acompanham tudo de suas casas, loucas por uma triunfal vitória, bastante diferente dos soldados da linha de frente, que só querem permanecer vivos.

Hemingway também esteve no front. Recusado pelo exército de seu país, os Estados Unidos, arrumou uma vaga na Cruz Vermelha. Foi enviado à Itália, onde dirigiu ambulâncias até estilhaços de uma bomba lhe atingirem na perna, obrigando-o a retornar para casa. Da experiência nasceu Adeus às armas, que, se lançado hoje, com certeza fomentaria ainda mais a discussão sobre as metaficções. A obra, lançada no mesmo ano de Nada de novo no front, narra a história de Frederic Henry, estadunidense que vai à guerra ser piloto de ambulância e é ferido na perna, veja só. Assim como Hemingway, Frederic se apaixona em meio à barbárie. É sobre a relação do personagem com sua amada que o enredo desenrola até seu final publicado – apenas um dos 47 finais elaborados pelo escritor.

Se o cenário dessas duas obras é Primeira Guerra Mundial, em outras ela aparece de forma velada, com influência sobre o ambiente que os personagens vivem – é o caso de O grande Gatsby, clássico do estadunidense Scott Fitzgerald, lançado em 1925 e que mostra a prosperidade e o deslumbramento da elite de seu país nos anos que sucederam o conflito –, ou explicitamente, mas de maneira pontual – como em O tempo redescoberto, último volume da Em busca do tempo perdido, do francês Marcel Proust, do qual se destaca a cena do protagonista passeando por uma Paris em meio a bombardeios.

No Brasil, um dos personagens mais marcantes de nossa literatura nasceu inspirado pelo combate. Jeca Tatu, uma espécie de arquétipo caipira, apareceu primeiro em um artigo para o jornal O Estado de São Paulo em 1914, mas foi eternizado no conto “Urupês”, do livro Cidades mortas, de 1919. Quando criou o personagem, Monteiro Lobato estava revoltado com brasileiros que se preocupavam mais com a condição da Europa do que com o interior do seu próprio país.

Em Cidades mortas ainda há o conto “O espião alemão”, no qual Lobato ridiculariza quem pensava que o Brasil poderia ser alvo de exércitos estrangeiros, enquanto uma verdadeira batalha acontecia em seus rincões: a luta pela sobrevivência.

É evidente que a lista de prosas ficcionais que tratam do assunto não se esgota nesses títulos. Contudo, como se trata de um acontecimento histórico, é importante destacarmos os livros de não ficção que abordam a Grande Guerra. Com o nome nada original de A Primeira Guerra Mundial, temos obras assinadas por Michael Howard, Lawrence Sondhaus e H.P. Willmott, que trazem uma visão panorâmica do conflito. Focado no início do embate, enquanto estavam sendo decididos os rumos que influenciariam o mundo, há Canhões de agosto, de Barbara Tuchman, que alia informações históricas à narrativa literária em um trabalho que valeu o Prêmio Pulitzer de 1963 à autora.

Infelizmente, uma outra obra histórica construída em forma de narrativa ainda não foi publicada no Brasil. Trata-se de Der Kleine Frieden im Grossen Krieg (algo como Um pouco de paz na Grande Guerra), de Michael Jürgs, que refaz a trégua de quase uma semana entre soldados inimigos para celebrar o natal, enterrar seus mortos, jogar bola e até mesmo trocar alguns presentes. Fosse ficção, provavelmente soaria piegas.

Já com uma abordagem diferente, que dá luz às pessoas comuns, que vivenciaram e sofreram o período, há os relatos contidos em Vozes esquecidas da Primeira Guerra Mundial, trabalho de Max Arthur em parceria com o Museu Imperial de Guerra britânico.

A literatura na Primeira Guerra

Apesar dos exércitos, invasões, balas e mortes, novidades literárias continuavam aparecendo durante a Grande Guerra. E com um detalhe importante: o conflito, de certa forma, influenciou a que, para muitos, é a santíssima trindade literária do século XX: Franz Kafka, Marcel Proust e James Joyce, que, após uma busca de década por quem o editasse, lançou o livro de contos Dublinenses, uma de suas obras mais importantes, poucos dias antes de soarem os primeiros tiros. Nele, o escritor traça um retrato da vida dos habitantes de Dublin e apresenta sinais do estilo que radicalizaria em Ulysses. É de se imaginar que algumas pessoas deixassem os assuntos bélicos de lado e preferissem discutir as histórias do irlandês.

Outro título que deve ter sido posto em pauta entre uma opinião ou outra sobre o conflito é A metamorfose, um dos trabalhos mais representativos de Kafka, lançado em 1915. A saga do homem-inseto Samsa foi escrita após o início da Primeira Guerra Mundial, que impactou tanto na própria obra – o pessimismo da época, as questões que a modernidade trazia, a desesperança – quanto no autor tcheco, que passava por uma crise emocional agravada pelos episódios de matança.

Completando o trio sacro, já mostramos como a embate aparece no último volume de Em busca do tempo perdido, de Proust, mas faltou dizer que a publicação da septologia foi interrompida por conta da luta entre países. No caminho de Swan chega às livrarias em 1913, enquanto À sombra das raparigas em flor sai apenas em 1919. Apesar da conhecida morosidade da escrita do francês, o lapso entre publicações foi um motivo externo ao autor. A guerra também aparece de forma velada em Em busca do tempo perdido, afinal, não haveria como retratar a sociedade de sua época sem levar em conta os efeitos que ela provocou.

Apesar de distantes, não escapamos de novidades que flertam ou se agarram à confusão europeia. Lima Barreto, por exemplo, publica Numa e a ninfa e a versão em livro de O triste fim de Policarpo Quaresma durante os anos de conflito. Porém, é na poesia brasileira que o combate exerceu uma influência mais direta, em autores dos mais importantes para o movimento modernista no país.

Manuel Bandeira era tuberculoso, por isso, em 1913, mudou-se para a Suíça – iria se tratar por lá. Iria, caso não tivesse que retornar ao Brasil no ano seguinte, por conta do início das animosidades. De volta ao seu país natal, publica em 1917 A cinza das horas, sua primeira obra, que sai com uma edição de 200 exemplares custeados pelo autor. Mais evidente é a influência da Grande Guerra em Mário de Andrade, que também em 1917 publicou, sob o pseudônimo de Mario Sobral, Há uma gota de sangue em casa poema, livro inspirado pelas barbáries da batalha.

E tudo isso começou, de certa forma, com os tiros de Gavrilo Princip.

Texto publicado originalmente na edição XX suplemento literário Pernambuco.

Ps: Desculpem pelo jogo de negrito e não-negrito, mas há algum tempo venho apanhando do WordPress.

 

 

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Por Rodrigo Casarin

Anotações-de-um-voyeurO que é literatura? Apesar das inúmeras pesquisas acerca desta simples pergunta, é difícil, se não impossível, acharmos uma resposta decisiva, totalmente convincente. Contudo, algumas possibilidades, ainda que vagas, baseadas em subjetividades (a arte sempre se baseia em subjetividades), parecem já agradar bastante. Em uma simplificação absurda de toda a discussão, não erraríamos se disséssemos que literatura é a arte feita por meio de palavras, palavras que buscam algo mais. Pouco adianta, no entanto; apenas cairíamos em outra discussão. Também não temos uma resposta definitiva para “o que é arte?”. Ainda bem. Caso tivéssemos, talvez a arte deixasse de existir.

Contudo, precisamos de algo para este texto. Então, usando essa premissa simplista de que literatura é a arte feita com o bom manejo das palavras, essa arte pode acontecer de diversas formas e em tamanhos completamente distintos. A meu ver, um livro pode servir de ótimo modelo para os extremos: a totalidade de Anna Kariênina, do magistral russo Liev Tolstói, é sem dúvida uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Caso o leitor deseje ler toda a saga, se optar pela edição brasileira traduzida por Rubens Figueiredo e lançada pela Cosac Naify, terá pela frente oitocentas páginas a percorrer. Entretanto, se a obra-prima contribui muito para que Tolstói seja o que é hoje, talvez apenas a primeira frase do tijolo já justificasse todo o trabalho do escritor: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Forte, taxativa, impositiva, essa primeira frase já condensa em si aquilo que entendemos por literatura. Ou seja, a literatura está nas oitocentas páginas da obra de Tolstoi, e também está apenas em sua primeira frase.

Disso, partimos para outro ponto, um tanto óbvio: uma obra literária de qualidade é composta por frases de qualidade. Para se chegar a um texto que mereça ser chamado de arte, o escritor precisa criar um corpo de frases ao menos aceitáveis, que servem de base para momentos mais brilhantes, raros porém essenciais. São frases que, mesmo isoladas, também podemos considerar literatura. Peguemos a Bíblia, por exemplo, um dos escritos mais importantes de todos os tempos. Ela pode ser lida em sua totalidade e de forma linear, mas não perde o brilho se lermos apenas fragmentos, apenas um versículo. A qualidade está ali, a cada pequeno trecho.

Pílulas literárias

Essa condensação da literatura virou até se não um gênero, um estilo próprio: o miniconto. Um dos meus preferidos é “Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial”, de David Foster Wallace, presente em Breves entrevistas com homens hediondos, cujo longo título faz contraponto à brevidade do texto:

Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para frente, com a mesma contração no rosto.

O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

O legal de tratarmos de obras assim é que podemos colocá-las integralmente em nossos textos sem que comam todos os toques que temos disponíveis. E isso fica ainda mais fácil de ser feito nas condensações da condensação: o microconto, como o famosíssimo “Vende-se: sapatos de bebê, sem uso”, de Ernest Hemingway. Excelência em poucos caracteres.

Indo ainda mais além e já saindo das páginas dos livros, chego à música. Passei a adolescência discutindo se algumas letras poderiam ou não ser consideradas poesia. Ainda que ouvisse falar de versos alexandrinos, escanção, de ABAB ou ABBA, sequer sabia o que era poesia, achava que era algo que precisasse rimar — mas ainda assim discutia. Como os outros também não sabiam o que era poesia, não raro eu vencia o debate. Tempos depois, já com outra cabeça, percebi que havia sim algo de literatura em meio a letras de música. Um exemplo que me chama bastante atenção vem de “Tendo a lua”, escrita por Herbert Vianna. O trecho “O Sol de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu” condensa muitas coisas em pouquíssimas palavras. A figura de Ícaro, sonhadora, utópica, contrasta sobremaneira com a de Galileu, um frio cientista. É o Sol sendo mirado dialeticamente pelo olhar da razão e da emoção.

Falo tudo isso para finalmente chegar ao livro que é o alvo desta resenha: Anotações de um voyeur, do misterioso Krauh Offman. A obra é composta por aproximadamente 180 pílulas literárias, textos em miniatura que não passam de quatro ou cinco pequenas linhas e raramente extrapolam os 140 toques no teclado (caberiam em um tweet). São temas diversos, tratados na maior parte das vezes de maneira bastante precisa e criativa, ainda que um ou outro apenas confabule sobre platitudes.

Anotações de um voyeur não é uma obra para ser lida em uma tacada, na seqüência. É sim um livro para estar sempre à mão, para ser aberto e curtido de maneira aleatória, a postos para um momento de desafogo, para uma prazerosa leitura de cinco segundos. Seu formato acolhedor e o cuidado gráfico inclusive convidam a isso.

Disse muito sobre a condensação da literatura exatamente para justificar a relevância literária desta obra. Não que o livro tenha potencial para se tornar um clássico, longe disso — aliás, aparentemente, sequer é essa a pretensão do autor —, mas ali há bons momentos, em que realmente a palavra é transformada em arte.

Texto publicado originalmente na edição 165 do jornal literário Rascunho.

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ftfarahComo jornalista, Fábio Farah já foi repórter de uma revista semanal, editor de turismo em portal de Internet e coordenador de redação em emissora de tevê, além de crítico gastronômico e de vinhos – e ainda está com 36 anos. Já assinando como F. T. Farah, o paulistano é autor de livros infanto-juvenis e do romance A Outra Face de Deus (já resenhado aqui no blog). Este romance é o primeiro de uma trilogia, cujo segundo volume está sendo desenvolvido e, se tudo correr conforme previsto, chegará às livrarias no segundo semestre de 2014.

Nesta entrevista, Farah fala sobre sua obra, revela o novo contrato com a editora Geração Editorial (divulgando em primeira mão que serão republicados os dois livros iniciais de sua série “Clube dos Mistérios”, com lançamento do primeiro livro já em novembro, em formato de e-book) e comenta sobre a “pesquisa de campo” para escrever a respeito do Diabo. Confira:

Canto dos Livros: Há um ano você deixou a editora Papagaio e assinou com a Geração Editorial. Por que essa troca?

F. T. Farah: Os editores da Papagaio, Denise e Sérgio Pinto de Almeida, foram os primeiros a apostar em minha carreira de escritor. Eles aprovaram a coleção Clube dos Mistérios, composta por cinco livros juvenis, e publicaram o primeiro, O Enigma das Estrelas, em 2005. O segundo, A Diversão dos Mortos, saiu três anos depois. Quando recebi a proposta da Geração Editorial para a aquisição da série, conversei com meus primeiros editores e, consensualmente, rescindimos o contrato. Uma editora maior, e com mais recursos, tem mais chances de alavancar comercialmente a coleção.

CdL: Como é a sua relação com as editoras?

F.T.F: A relação com as editoras é ótima quando elas valorizam o autor. Isso significa respeitar não apenas suas opiniões durante o processo de edição, mas também o que ocorre quando o livro chega ao mercado. E um dos pecados mais graves é não pagar os direitos autorais. Felizmente, em minha jornada, as experiências positivas superam as desilusões.

CdL: Ainda sobre a troca de editoras, na nova casa você lançará uma versão ampliada do seu primeiro livro, O enigma das estrelas. Do que trata essa ampliação? Uma simples extensão da história?

F.T.F. Se um autor disser que gosta de reler seus livros, provavelmente estará mentindo. Sempre encontrará palavras que se encaixarão melhor em uma descrição, diálogos que soarão melhor de outra maneira. Quando surgiu a oportunidade de reeditar meu primeiro livro em outra casa, resolvi revisitá-lo. Para respeitar meus primeiros leitores, não mudei o fio condutor da trama. Mas mudei palavras, aprimorei diálogos e, sobretudo, procurei construir uma narrativa mais ágil, com histórias paralelas, novos enigmas e personagens surpreendentes.

CdL: Como você aprendeu a escrever para o público infanto-juvenil? De que forma compreendeu seus interesses, desejos, anseios, para criar histórias que despertassem sua atenção?

A resposta a essa questão é simples e complexa ao mesmo tempo. Excetuando-se alguns prodígios, os autores que escrevem histórias infanto-juvenis já foram crianças e adolescentes. Os sentimentos e as percepções daquela época permanecem guardados. O primeiro passo é resgatá-los. Geralmente quando isso acontece, costumamos descartá-los como “bobagens” de uma época passada. O segredo é deixar o adulto de castigo por alguns instantes e conversar com as crianças como uma criança e com os adolescentes como um adolescente.

CdL: Qual a sua opinião sobre a Educação, atualmente, no Brasil? Como escritor de livros infanto-juvenis, qual acredita que seja o papel da literatura na formação de crianças e adolescentes?

A literatura é fundamental na educação de crianças e adolescentes. Mas não acredito que ela contribua apenas para a formação humanística. Acredito que ela desempenha um papel primordial no desenvolvimento de certas áreas cerebrais. Se elas não forem exercitadas, crianças serão prejudicadas pela vida inteira. Neste sentido, o problema da educação básica brasileira – e aqui cabe uma generalização – é não incentivar o interesse pela leitura, mas apresentá-la como algo enfadonho. E isto afasta as pessoas. O reflexo pode ser facilmente contabilizado pelo número de livros, em média, que o brasileiro lê por ano. Às vezes, a educação familiar consegue preencher esta lacuna. Mas, se os pais cresceram sem dar importância à leitura, dificilmente conseguirão criar filhos leitores. É um ciclo vicioso.

CdL: Como foi a transição de publicar livros infanto-juvenis e infantil para o romance A outra face de Deus?

Não foi propriamente uma transição. Antes de publicar histórias infantojuvenis, já tinha esboçado um romance adulto. O ponto-chave é despertar o interesse de seu público-alvo. Para as crianças, como eu disse anteriormente, é preciso dialogar de igual para igual. É preciso, por exemplo, se divertir diante de coisas que soariam banais para um adulto. As crianças se divertem quando leem o título de meu primeiro infantil, Pum de Peixe. Para os adolescentes, é preciso compreender os conflitos próprios da época, como os batimentos cardíacos após o primeiro beijo. Escrever para diferentes faixas etárias é a capacidade para transitar dentro de si mesmo.

CdL: A trama do livro A outra face de Deus parece beber de várias fontes, de literatura a quadrinhos, passando por cinema e religião. Quais foram as influências mais determinantes na obra? Quais outras influências te inspiram a escrever?

A Outra Face de Deus bebe, sim, de várias fontes. E elas não se resumem somente a outras obras literárias.  Falar sobre influências determinantes nunca é fácil. No caso específico de A Outra Face de Deus, tentarei resumir. Ela sofre a influência de best-sellers contemporâneos, como Dan Brown – na forma de encadear a trama – e Stephen King – no suspense permeado por toques sobrenaturais -, além de outros que se tornaram clássicos, como sir Arthur Conan Doyle e G. K. Chesterton. Eles criaram detetives fascinantes. Mas essa história também é influenciada por obras canônicas, como A Tempestade, de Shakespeare, utilizada na trama, e O Apocalipse de São João. Também me inspiro em textos medievais, sobretudo os que revelam profecias misteriosas, além de guias de viagem. E, como afirmado, cinema. Para citar alguns filmes: O Bebê de Rosemary e O Último Portal, ambos dirigidos Polanski. E, claro, quadrinhos, música, obras de arte, manuais de ocultismo…

CdL: O livro mostra um extenso trabalho de pesquisa. Quanto tempo levou entre imaginar a história, levantar informações e dar forma final a tudo isso? Como se deu esta jornada?

A trama se desenvolve na cabeça do autor, mesmo que ele não esteja plenamente consciente disso. E o processo varia de história para história. Para compor uma ficção, a mente se apropria de lugares pelos quais passou, lugares pelos quais gostaria de ter passado, histórias reais ou imaginárias, detalhes que, em algum momento da vida, despertaram sua atenção. É um processo contínuo. No meu caso, imagino histórias o tempo inteiro, de livros infantis a romances adultos. Mas escrever uma história envolve mais do que imaginá-la. É um trabalho exaustivo que requer inúmeras pesquisas adicionais. Ao sentar para escrever A Outra Face de Deus, a linha principal da história já existia. Entre pesquisar, escrever e revisar, contabilizaria dez meses.

CdL: O personagem Diabo sempre fascinou a literatura ocidental. Muitas obras recentes tem repensado seu papel, humanizando-o. Já no seu livro, o personagem equivalente se assemelha mais ao clássico. Como se deu a construção dele?

O Diabo é um personagem bastante complexo. Não à toa fascinou escritores afamados como Dante, Goethe, Milton, Oscar Wilde, apenas para citar alguns exemplos. No entanto, embora Samyaza (o demônio em A Outra Face de Deus) se assemelhe ao personagem clássico, como definiu em sua pergunta, resolvi buscá-lo em outras fontes. Procurei o Demônio que os exorcistas encontram em possessões e que os feiticeiros costumavam invocar, utilizando antigos grimórios medievais. Procurei o anjo caído que a Igreja Católica define como um ser “real e pessoal”. E o encontrei, talvez da mesma maneira que os autores citados. Talvez algum dia escreva sobre essas experiências não-convencionais.

CdL: E dos protagonistas, o padre Pietro Amorth e o jornalista David Rowling? O que há de autobiográfico neles, especialmente no último?

Muitos leitores me fazem a mesma pergunta. E a resposta é sempre a mesma. Não construo personagens autobiográficos. Claro que há semelhanças que podem nos aproximar, mas as diferenças nos afastam bem mais. Por exemplo, David Rowling e eu somos jornalistas e apreciamos vinho. No entanto, o protagonista escolheu a carreira por vocação. Eu me tornei um jornalista acidental após desistir da faculdade de Física. O Jornalismo me aproximou dos vinhos tardiamente, quando me tornei especialista no nobre fermentado. David é um aristocrata inglês e cresceu provando os melhores rótulos que o dinheiro pode comprar. Já em relação ao padre, temos algo em comum: ambos somos católicos.

CdL: Há menção textual ao livro O Código da Vinci no livro. Acredita que sua obra pertença ao nicho alargado pelo best seller? Por quê?

Na realidade, há uma brincadeira com o nome do best-seller de Dan Brown. A repórter Mary está lendo O Enigma Michelangelo quando é surpreendida pelo seu chefe. David Rowling é um leitor de clássicos e brinca com sua subordinada sobre seu gosto literário. Como foi apontado na crítica do blog, A Outra Face de Deus tem semelhanças – e diferenças – com a obra-prima de Dan Brown. Entre as primeiras, uma página inicial com fatos verídicos transportados para a ficção, capítulos curtos com cortes em pontos-chave e, consequentemente, um ritmo veloz. Desse ponto de vista, a obra pertence ao nicho alargado pelo norte-americano.

CdL: Qual impacto da publicação do livro, passado um ano de seu lançamento? Como reagem os leitores e a crítica? De alguma maneira essas reações irão interferir nos outros livros da trilogia?

Recebo muitas mensagens de leitores, seja pela minha fanpage do Facebook, seja pelo Fale Conosco do meu site. Reservo um tempo para ler e responder a todas elas. Há os que se apaixonam pela história e cobram a continuação. Um leitor chegou a ingressar na faculdade de Jornalismo inspirado pelo protagonista de A Outra Face de Deus, David Rowling. Também há leitores críticos. Para mim, tanto suas considerações – como a de críticos profissionais – são fundamentais para a sequência de A Outra Face de Deus. O escritor deve procurar aprimorar sempre seu trabalho. E fará isso na medida em que agradar, cada vez mais, seus leitores e, claro, aumentar seu público. Mas deve fazer isso respeitando seu estilo.

CdL: Na sua opinião, a literatura de gênero deve ser analisada e avaliada dentro de seus nichos específicos ou deve ser comparada ao trabalho de autores canônicos?

Há dois níveis de análise. Em um primeiro momento, a obra deve ser avaliada dentro de seus nichos específicos e comparada com outras do mesmo gênero. Esse tipo de análise é a que mais interessa aos leitores. Se alguém é aficionado por ficção científica, por exemplo, quer saber de que maneira os títulos que chegam ao mercado se assemelham a outras obras já consagradas do gênero. Em um nível acadêmico, a literatura de gênero deve ser comparada ao trabalho de autores canônicos. Muitos estudiosos brasileiros ainda têm preconceito em relação aos romances policiais, para citar um gênero. Recentemente, a inglesa P.D. James foi entrevistada por vários veículos brasileiros. A revista Época, por exemplo, indagou: “A senhora sempre se esforçou para elevar a literatura policial. Acha que colaborou na união da arte culta com a literatura policial?”

A resposta da autora é genial: Literatura policial, não. Literatura, por favor! Esse foi sempre meu desejo, mostrar que a narrativa de mistério deve ser valorizada como obra literária. Eu já disse uma vez que uma história de mistério de primeira classe tem de ser literatura de primeira classe…”. Ou seja, toda história de primeira classe deve ser avaliada como literatura de primeira classe, independente do gênero.

CdL: Qual a sua percepção sobre a crítica literária no Brasil em relação aos livros de temas como fantasia, mistérios, thrillers e afins?

Ainda há muito preconceito da crítica especializada brasileira em relação a esses temas. Posso dizer isso com segurança, pois já trabalhei como crítico literário (na IstoÉ Gente) e me relaciono com vários jornalistas especializados. Geralmente, as obras nacionais são ignoradas e as obras internacionais recebem destaque apenas quando se tornam best-sellers no exterior. Graças a esse “empenho” da mídia, muitos bons autores brasileiros estão fora do mercado editorial. E os que estão não recebem a merecida atenção de seus possíveis leitores.

CdL: Você estudou demonologia, ciências ocultas e percorreu vários santuários cristãos do mundo. Sendo os temas espirituais algo de seu profundo interesse, o que acha que um bom livro com essa temática (ainda que de pano de fundo) deve ter para não cair na mera doutrina e/ou pregação?

Acima de tudo, um bom autor. G.K.Chesterton foi um dos maiores escritores de seu tempo e influenciou autores como Ernest Hemingway, laureado com o Nobel. Seus romances não se assemelham a pregações. Ele era um católico devoto, mas suas ideias religiosas não amarravam sua imaginação. Quando ele queria debater sobre o tema, escrevia livros de não-ficção, como Ortodoxia. Outro exemplo: o badalado J.R.R.Tolkien. Ele reinventou a fantasia e é parâmetro para os atuais escritores do gênero. O que poucos fãs sabem é que ele frequentava a missa toda semana.

CdL: Você trabalha com jornalismo há bastante tempo. Qual a diferença de encarar uma folha em branco como repórter e como ficcionista? Qual te desafia mais e qual te agrada mais?

Acredito que o Fábio Farah jornalista foi um degrau necessário para revelar o F.T.Farah ficcionista. A experiência em uma redação, primeiro como repórter, depois como crítico e, finalmente, como editor, aprimorou a habilidade para escrever uma boa história. E editá-la. Não é raro exemplos de escritores que se formaram em redações. Alguns, revolucionaram a história da literatura. Talvez um dos mais notáveis – e um dos que mais aprecio – seja o norte-americano Ernest Hemingway. Seu estilo foi forjado em uma redação. Pessoalmente, me sinto mais desafiado a criar histórias do que a reportar a realidade. Por isso, me agrada mais o ofício de ficcionista.

CdL: Tendo trabalhado na revista de celebridades IstoÉ Gente, você entrevistou muita gente famosa. Se pudesse escolher um(ns) personagem(ns) de ficção para entrevistar, qual(is) seria(m)? Por quê? Qual(is) pergunta(s) faria?

Gostaria de entrevistar vários personagens. Mas colocaria dois nos primeiros lugares. Talvez propusesse a eles uma entrevista simultânea: Dorian Gray e Fausto. A pergunta principal: “Se tivessem a chance de reeditar o contrato com o ‘tinhoso’, qual cláusula acrescentariam?”.

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Por Fred Linardi

livro por diaDe um dia para o outro a rotina do jornalista policial canadense Jeremy Mercer mudou. Sem honrar o voto de confiança de um criminoso, Mercer citou seu nome num livro-reportagem sobre uma série de assassinatos ocorridos na cidade. Seria muito ingênuo pensar que o assassino deixaria por menos. Logo depois do lançamento do livro, o telefone da casa do jovem jornalista tocou. Era o próprio foragido que prometia acertar as contas mais cedo ou mais tarde.

Essa foi a maior motivação para que Mercer pensasse em sair de cena por um tempo, ao menos até que os ânimos do bandido (talvez) se acalmassem. A segunda motivação foi sua situação acadêmica. Ele estava quase jubilando na faculdade de jornalismo por causa do francês, a única matéria que faltava para concluir sua graduação. Resolveu que faria a disciplina na França, berço da língua e um país distante o suficiente para não ser perseguido por um enfurecido criminoso.

Com o dinheiro contado para poucas semanas, Mercer passou um tempo em condições extremamente simples, mas mesmo assim seus tostões acabaram. Um dia, enquanto fugia de uma das típicas chuvas de Paris, abrigou-se na Livraria Shakespeare and Company. Mal imaginava a história da loja, tampouco sobre seu dono ou sobre a principal informação que mudaria o destino de Mercer na cidade luz. George Whitman, o fundador e proprietário, vivia e pregava uma filosofia socialista e fazia de sua loja um celeiro para isso. Uma de suas atitudes era abrigar escritores e aspirantes entre as prateleiras repletas de títulos em inglês. Em meio aos livros novos, usados, antigos e raros, algumas camas compunham o romântico ambiente da loja. Jeremy Mercer apresentou-se e foi aceito para ocupar uma delas durante o tempo que precisasse – desde que escrevesse. Desde que se dedicasse à leitura, à escrita e, claro, ajudasse em algo da loja.

Um livro por dia, publicado aqui pela Casa da Palavra, é uma agradável leitura sobre a experiência de morar na livraria cuja fama se dá graças a escritores como Ezra Pound, Ernest Hemingway e James Joyce. Isso porque George Whitman abriu sua loja com o mesmo nome da primeira versão da lendária livraria que não sobreviveu à ocupação alemã em 1940. Amigo e admirador de Sylvia Beach, que criara a primeira versão da Shakespeare and Company, Whitman a reinaugurou em outro endereço na década seguinte, mantendo a tradição da original.

Mas Jeremy Mercer alojou-se na livraria no ano 2000, quando o contexto era bem diferente daquele retratado por Woody Allen em Meia noite em Paris. Não que hoje em dia não haja mais novos Hemingways na livraria – pode ser até que tenha… – mas a realidade parisiense que é outra também. Entre os suspenses vivenciados pelos jovens moradores estava a situação ameaçadora imposta por um grande magnata da hotelaria em comprar o prédio de três andares ocupado pela Shakespeare and Company. Além deste drama financeiro, Whitman carregava uma difícil questão familiar: a relação com sua filha que morava na Inglaterra e que pouco teve contato ao longo de sua vida.

Aliás, entre as maiores qualidade da maneira de Mercer narrar, está no modo que mantém pequenos suspenses entre um capítulo e outro, conquistando a atenção do leitor, que se envolve cada vez mais na leitura. Entre breves perfis de outros estrangeiros que ali vivem – incluindo um velho e excêntrico poeta inglês –, retrata a liberdade e as situações extremas daqueles que resolveram deixar seus países para morar praticamente de favor e com moedas contadas. O relato então se torna ainda mais generoso ao leitor, pois conta a história de Whitman e da livraria, mas também mostra as fraquezas e dúvidas dos personagens do livro, inclusive do próprio Mercer ao longo dos quatro meses que lá viveu, bebeu, escreveu e – devido ao costume local e ao inverno – pouco teve condições de se assear.

Vivendo em algumas questões extremas – a livraria não é munida de banheiro com chuveiro, por exemplo – Mercer relata episódios aflitivos, como os indesejáveis ratos que disputavam a comida do jantar preparado e servido por Whitman. E também como os moradores arranjavam diferentes meios para combater a miséria, valia até mesmo cuidar um pouco da higiene no banheiro de um café do outro lado da rua, já que banhos de verdade costumavam acontecer somente quando tinham a sorte de ter uma noite de amor no quarto de hotel de alguma turista que surgia na loja.

O livro aproveita as tramas de destinos incertos. O destino de Jeremy Mercer parece ter sido muito melhor do que se jamais tivesse sofrido uma ameaça de morte. Temos a certeza disso inclusive pelo livro publicado – tudo ocorreu bem e ele está vivo até hoje. Já sobre o destino da livraria e George, é preciso ler toda a obra. A leitura é gratificante, indicando que a narrativa de não ficção continua a atingir os altos níveis de qualidade que tem alcançado há décadas.

O próximo entrevistado do Canto dos Livros será o Jeremy Mercer. Não percam!

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Cruzar a África de norte a sul sem tomar aviões nem ter acesso a celulares, computadores, Internet, fax ou qualquer coisa do tipo. Esse foi o desafio que Paul Theroux se impôs para escrever O Safári da Estrela Negra – uma viagem através da África. Famoso tanto pelos seus livros de ficção como pelos de não ficção, esses sobre viagens, o autor obteve uma grande história ao imergir no continente africano. E soube contá-la muito bem, eis o grande mérito.

As dificuldades que Theroux encontrou pelo caminho foram inúmeras, principalmente ao procurar informações sobre como se locomover entre cidades ou países.  Em determinado momento, por exemplo, o escritor precisa checar diariamente se o barco que carece tomar sairia naquele dia, pois não havia nada programado com antecedência. Problemas burocráticos o viajante também encontrou aos montes, principalmente quando necessitou de vistos prévios para entrar em algum país.

Mas, ao mesmo tempo, Theroux se deparou com uma África muito diferente da que conhecemos daqui. Claro que toda a questão da miséria, fome e violência está presente no livro, mas há também inúmeros exemplos de um povo solidário e atencioso, sempre pronto para estender a mão. Um dos momentos mais marcantes da viagem é a passagem do escritor pela Etiópia, país devastado no começo da segunda metade do século XX, porém com uma nação altruísta e que luta pela reconstrução e reestruturação da sua terra.

Uma questão que é escancarada diversas vezes ao longo do livro é o quanto o assistencialismo emperra o desenvolvimento do continente. As ajudas humanitárias vindas de todo o mundo fazem com que boa parte dos africanos (principalmente os governantes) se acomode, fique apenas esperando a ajuda de alguém. Por outro lado, caso essa caridade cesse, em um primeiro momento as vítimas fatais seriam inúmeras. Esse parece ser o grande paradoxo dessa política de amparo constante, não apenas na África, mas em qualquer lugar que ele exista.

Ao longo da livro, Theroux cita referências literárias sobre o continente, como Coração das Trevas, de Joseph Conrad e parte da obra de Rimbaud, que se mudou para a África ainda adolescente. Também faz questão de criticar constantemente Ernest Hemingway, que, segundo o viajante, incorpora exatamente o tipo de turista que faz mal ao lugar: aquele que o vê apenas como exótico, hospeda-se em hotéis luxuosos que são ilhas em meio à miséria e ainda sai pela savana matando os maiores animais que vê pela frente, apenas para exaltar sua masculinidade.

O Safári da Estrela Negra é um ótimo livro, mas torna-se ainda melhor se comparado com outras obras do autor. A evolução da escrita e da forma como Theroux enxerga o mundo fica evidente se compararmos esse título, lançado em 2002, com O Grande Bazar Ferroviário, obra de referência para narrativas de viagem de não ficção, de 1975. Atualmente, o escritor consegue enxergar nos povos as distintas realidades existentes, sem querer traçar um paralelo com a forma de viver dos ocidentais. Antes bastante presente, o preconceito é deixado quase que totalmente de lado, e isso faz uma diferença imensa. Tal diferença pode ser notada também em Até O Fim do Mundo, uma coletânea com diversos trechos de livros de Theroux, mas se faz ainda mais presente quando percebida em uma obra completa, não apenas em fragmentos de viagens.

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Paris é uma Festa é um livro de memórias de Ernest Hemingway, autor famoso por ser tido como durão e pelo texto marcado por parágrafos curtos e diretos. Na obra, Hemingway, que nasceu em 1899, nos Estados Unidos, relata a parte da sua juventude vivida em Paris, entre os anos de 1921 e 1926.

No início do livro predominam passagens do escritor ao lado de Elizabeth, sua primeira mulher (ao longo da vida ele veio a ter outros três casamentos), com quem teve um filho em 1924. A vida do casal não era das mais fáceis na capital francesa. A luta por dinheiro era constante, já que Hemingway ainda estava longe de se tornar um consagrado escritor e penava para conseguir vender seus contos para algumas revistas literárias e jornais. A principal diversão de ambos  era ir ao hipódromo – apostar em cavalos era um dos hobbies de Ernest – e, vez ou outra, se permitiam comer em restaurantes badalados, apesar do certo perrengue financeiro. Aliás, tal dificuldade fazia com que Hemingway e Elizabeth tivessem que ter jogo de cintura para conviver com parte da alta (ou metida à alta) sociedade parisiense.

Porém, apesar dos interessantes momentos vividos pelo casal, as melhores partes do livro são as que Hemingway relembra de sua convivência com outros escritores, que na época também buscavam crescer na profissão. Há passagens onde Ernest se reúne em cafés (onde adorava trabalhar) ou livrarias com amigos ou conhecidos como James Joyce e  Scott Fitzgerald. Sobre este segundo, inclusive, Ernest relata uma viagem que realizaram juntos pela França e mostra o quão temperamental era Fitzgerald, que vivia sendo importunado por sua mulher, ficava paranóico quando se achava doente e, ao tentar acompanhar Hemingway, não agüentava algumas poucas doses de bebida alcoólica.

Mesmo o gênero Memórias não estando entre os meus preferidos, Paris é uma Festa é um livro bastante gostoso de ler. Com capítulos curtos, mostra o lado machão de Hemingway, mas também apresenta uma faceta cordial do autor, principalmente no trato com sua mulher. Boa pedida para quem quer conhecer um pouco da obra de um dos mais importantes e influentes escritores do século XX.

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