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Posts Tagged ‘Canto dos Livros’

eduardo-spohrHá uma clara divisão na literatura nacional. Enquanto a maior parte dos escritores se desdobra para que a venda de seus livros atinja o milhar, alguns raríssimos podem se gabar de centenas de milhares (ou até mais de um milhão) de exemplares vendidos. Muitos desses bestseller pertencem ao nicho da literatura fantástica, como é o caso do carioca Eduardo Spohr, autor de A batalha do Apocalipse, Filhos do Éden: herdeiros de Atlântida, Protocolo bluehand: Alienígenas ,Filhos do Éden: anjos da morte e A torre das almas e editor do blog Filosofia Nerd. Amado por milhares (ou milhões?) de fãs, defendido por Paulo Coelho e sustentando que a literatura deve ser analisada com o coração, Spohr falou com o Canto dos Livros. 

Canto dos Livros: Sobre seu primeiro trabalho, A batalha do Apocalipse, você já declarou que, devido à dificuldade em encontrar informações concretas durante a pesquisa, teve de criar uma “mitologia própria”. Tolkien talvez tenha sido o escritor que melhor desenvolveu este trabalho, criando um universo completamente novo. Quais foram as dificuldades encontradas nas pesquisas? Como foi criar uma mitologia própria? Em quais pontos foi bom ou ruim não ter algum embasamento prévio?

Eduardo Spohr:  Foi longo, porém mais fácil dos que as pessoas pensam porque eu já jogava RPG dentro desse universo, e tive anos para desenvolvê-lo. Então, a coisa aconteceu de forma orgânica e gradual. Quando comecei a escrever A batalha do Apocalipse, já tinha praticamente tudo pronto. O mais difícil, acredito, é manter a coerência com as “regras” estabelecidas para esse universo fantástico.

CdL: É comum vermos você falando de mitos. Conte-nos um pouco sobre a sua relação com a mitologia, com a obra de Joseph Campbell e o impacto que isso tem na sua escrita.

ES: Quando eu conheci Campbell, já tinha escrito o meu primeiro livro, mas o curioso foi ver que tudo o que ele falava, eu já tinha aplicado nas minhas histórias. Então, estudando mais sobre as teorias dele, eu entendi o porquê e comecei a desconstruir todo o processo.

CdL: Flertando com Campbell, de que forma um personagem deve ser construído para que desperte emoção no leitor?  Quais seus personagens mais amados? E os mais odiados?

ES: Bom, acho que acima de tudo o personagem deve ser crível. Como fazer isso? Cada escritor deve encontrar o seu caminho. No meu caso, não tenho personagens mais amados ou odiados. São todos como filhos (risos).

CdL: De que forma você enxerga a tradicional personificação do mal, na figura de um adversário – Diabo, Satã, Lúcifer ou equivalente? Sobre a responsabilidade do mal cometido pelos e sobre os homens, a quem ela recai?

ES: É uma forma de ver as coisas. De fato o mal existe dentro de nós, assim como o bem. Está nas nossas mãos escolher o que fazer: o certo ou o errado, geralmente sendo o errado mais tentador. Metaforicamente é uma alegoria poderosa.

CdL: Suas crenças religiosas ou espirituais interferiram na escrita de seu livros ou a escrita de seus livros interferiram em suas crenças?

ES: Não. O livro é 100% ficção, não há nada relacionado com as minhas crenças ou algo do tipo.

CdL: Além de livros, você produz bastante conteúdo das suas histórias em outros formatos, como podcasts e textos no blog. Como esses formatos te ajudam a construir sua obra e envolver os leitores?

ES: São materiais diferentes, na verdade. Não acho que exista grande influência dos podcasts, por exemplo, nos meus livros.

CdL: De que forma a interação online com seus mais de 30 mil fãs no Facebook e mais de 50 mil seguidores no Twitter exerce impacto na sua obra?

ES: Eu sempre fico de olho no que os leitores falam, e escuto suas críticas. Isso tem me ajudado muito a melhorar, tenho certeza.

CdL: Você demonstra desejo de compartilhar sua experiência como escritor aos novos talentos. Há, inclusive, um post no seu blog com inúmeras referências, podcasts e vídeos sobre o assunto. O que te motiva a estimular a nova geração? Quais foram seus maiores professores na profissão?

ES: Eu acho um barato que a galera curta meus livros e o meu trabalho. Então, quando me fazem perguntas sobre como escrever, eu tenho o maior prazer em ajudar, daí eu ter feito esse post. Meu principal mentor creio que foi o escritor José Louzeiro, uma pessoa que admiro muito.

CdL: Num mundo cada vez mais racional, pelos avanços da ciência e do conhecimento, a literatura de fantasia tem hoje um papel diferente do que tinha antes?

ES: Não. Acho que é o mesmo. O papel de reconstruir a nossa sociedade e nós mesmos de forma metafórica.

CdL: Você esteve na Feira de Frankfurt este ano. O que achou da participação do Brasil no evento e como encarou todas as polêmicas que a cercaram, principalmente a lista de autores levados pelo governo e o discurso do Luiz Ruffato na abertura?

ES: Frankfurt é muito corrido. É uma reunião atrás da outra, com editores, agentes, etc. Confesso que nem tive tempo de parar e nem de pensar nas polêmicas. Estava totalmente concentrado em apresentar meu trabalho aos editores internacionais. Vamos torcer para que dê certo.

CdL: Como é a receptividade das editoras internacionais pela literatura de fantasia brasileira? O país de origem influencia no interesse dos editores? 

ES: Creio que dependa do caso. Nos lugares onde meu livro já saiu (Alemanha, Holanda e Portugal), a recepção foi bem legal.

CdL: É nítido o amadurecimento no seu texto desde o primeiro trabalho até o mais recente, Filhos do Éden: Anjos da Morte. Além da evolução como escritor, o que acha que mudou nesse tempo? Como a mudança tem sido recebida pelos leitores?

ES: Muito obrigado. Bom, claro que eu tenho tentado melhorar. Os leitores parecem estar curtindo também, pelo feedback que estão me dando.

CdL: Sobre sua evolução, você já declarou que precisava melhorar nos diálogos. Esse é um dos pontos cuja diferença pode ser percebida se compararmos o seu primeiro e o terceiro romance. Para você, qual a importância desse recurso dentro do todo? Em que exatamente e quanto acha que melhorou nesse sentido? 

ES: Muito importante. É o diálogo que dá vida aos personagens. Não só ele, mas é uma parte importante, acredito. Eu não posso dizer que melhorei (isso é para o leitor avaliar), posso dizer apenas que me esforcei para tentar melhorar.

CdL: Sua obra alcançou um grande público no Brasil, tornando-se um bestseller. Você faz parte também da coletânea de contos Geração Subzero, que reuniu autores “esquecidos pela crítica”. Afinal, não estar nas críticas da grande imprensa faz falta para você? Qual é a real importância destas críticas?

ES: Para mim é mais importante a crítica do leitor. Mas acho que toda crítica, quando feita com respeito, é válida e nos ajuda a evoluir.

CdL: Na sua opinião, um livro deve ser analisado dentro do seu nicho específico ou comparado com tudo o que compõe a literatura? Em outras palavras, uma obra de fantasia deve ser analisada tendo somente Tolkien como parâmetro ou podemos colocá-la ao lado de Graciliano Ramos, por exemplo?

ES: Acho que deve ser analisado com o coração. Pelo menos eu faço isso, enquanto leitor. Obviamente, os críticos discordariam.

CdL: Levando em conta toda a literatura brasileira contemporânea, como sua obra se situa nela?

ES: Para mim, é difícil fazer essa auto-avaliação. Prefiro que o leitor o faça.

CdL: Fazendo um exercício de futurologia, daqui cem anos, quais dos escritores brasileiros atuais continuarão sendo lidos? Por quê?

ES: Impossível dizer. E qualquer resposta seria errada. Prefiro não arriscar (risos).

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Crédito da foto: Renato Parada

Crédito da foto: Renato Parada

Antonio Prata está em evidência. Na mesma semana do lançamento do seu novo livro, Nu, de botas, no início deste mês, envolveu-se em uma polêmica por conta do texto “Guinada à direita“, publicado na Folha de São Paulo, jornal onde é colunista. Alguns não entenderam sua suposta mudança de posição ideológica, e outros, pior, aplaudiram de pé o texto que precisou ser esmiuçado no domingo seguinte para que maus entendidos (ou entendedores?) fossem resolvidos. Autor de obras como Douglas, As pernas da tia Corália, Adulterado, Felizes quase sempre e Meio intelectual, meio de esquerda, foi um dos integrantes da edição da revista Granta com os melhores jovens escritores brasileiros e ajudou a escrever a novela Avenida Brasil. Além disso, informação importante, fabrica cervejas em sua própria casa. Falou de todos esses assuntos nesta entrevista que fizemos com ele (e de futebol também!).

Canto dos Livros: Como anda a vida depois da guinada à direita?

Antonio Prata: Muito mais tranquila. É bem mais fácil ser de extrema direita do que ser meio de esquerda. Você não precisa se preocupar com a pobreza – é culpa dos pobres – nem com a desigualdade – cada indivíduo é diferente do outro. Você pode fazer piadas racistas, machistas e homofóbicas e pagar de vanguardista. Ser de esquerda dá muito trabalho. Você está sempre sofrendo. Direita é paz de espírito. (RISOS – é sempre bom frisar…)

CdL: Ficou muito surpreso com a reação das pessoas a esse seu texto? Pensou que haveria tanta gente se identificando com o discurso e incapaz de perceber a ironia?

AP: Fiquei. Eu escrevi tantos absurdos no texto que jamais pensei que alguém pudesse levá-lo ao pé da letra.  Afirmava que José Maria Marin e Marco Feliciano eram de esquerda, que o “poderoso lobby dos antropólogos” havia transformado toda a área cultivável do Brasil em reserva indígena, que os negros estavam no poder, escanteando os brancos…

CdL: Na quarta capa de Nu, de botas está escrito que no livro “Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância”. Nessas revisitas você foi fiel à sua memória ou você criou histórias – ou detalhes – em cima daquilo que lembra da sua infância? Você realmente deixou de ganhar uma bicicleta do Bozo porque não sabia qual era o seu endereço?

AP: Olha, não dá pra chamar memórias de outra coisa senão de ficção, esse é um primeiro ponto. A memória é sempre uma história editada, reescrita no nosso cérebro. Às vezes (não poucas) é até inventada do zero. Memórias tão antigas, então… Eu não poria a mão no fogo por nada do que está no livro, se tivesse que testemunhar num tribunal quanto à veracidade. Ou seja, mesmo o que eu acho que aconteceu, não sei se aconteceu mesmo (ou se foi do jeito que lembro). Já certas histórias ou pedaços delas eu realmente inventei, para melhorar os enredos ou preencher brechas. A história da bicicleta eu trago na lembrança exatamente do jeito que escrevi. (Mas duvido que tenha acontecido: você acha que o Bozo ia conversar com um moleque de 5 anos depois do programa? E que ia se propor a dar uma bicicleta, do nada? Estranho.)

CdL: Como foi escrever esse livro?

AP: Foi legal. E cansativo, como sempre é a escrita.

CdL: É raro vermos crianças sendo bem retratadas na literatura e em Nu, de botas, você consegue captar bem o contraste entre a diferença de olhar, raciocínio e pensamento entre uma criança e um adulto. Como conseguiu isso? Tentativa e erro, estudos sobre a infância, convivência com crianças, boa memória dos primeiros anos de vida?

AP: Agradeço o elogio. Eu tentei criar as histórias a partir das memórias. E as memórias já tinham uma certa linguagem, um certo estilo de narrativa. O que tentei fazer foi ser fiel a esse estilo. Agora, se é assim que uma criança pensa (ou que eu pensava), já não sei. Mesmo esse elogio é o elogio de um adulto, alguém que, como eu, já não sabe mais o que passa pela cabeça das crianças. É igual filme de época. Você assiste Gladiador ou Spartacus e diz “nossa, eles recriaram direitinho a vida em Roma!”: mas quem é que sabe como era exatamente a vida em Roma?!

CdL: Ainda sobre a técnica de narrar histórias sob a perspectiva de uma criança, é uma questão da habilidade de bons escritores (como Bill Waterson e Neil Gaiman, para ficar em dois exemplos), ou há algum macete que facilite a tarefa?

AP: Pois então, são recriações, né? Pra começar, se eu quisesse ser realmente fiel ao pensamento das crianças, teria que restringir meu vocabulário a duzentas palavras, não poderia fazer frases longas nem conjugar direito os verbos. Eu tentei esse caminho quando comecei a escrever o livro, ficou ridículo. Experimentei alguns caminhos antes de chegar no que está publicado.

CdL: O Nu, de botas foi lançado junto com o Ligue os pontos, do Gregório Duvivier, em uma espécie de balada. De onde surgiu essa ideia? Como foi a experiência de aproximar dois universos tão distintos, a balada e a literatura?

 AP: A ideia foi da editora e eu achei ótima, porque sou fã do Gregório (embora não o conhecesse pessoalmente). Mais do que pela balada, o lançamento foi legal porque teve um bate-papo entre o Gregório e eu e leitura de trechos dos livros. Quanto à balada, propriamente, lamento dizer que eu tava tão exausto depois de tudo que nem consegui chegar à pista de dança. (Subir num palco e falar em público não é muito aterrorizante, pra mim. Aterrorizante são os sete dias e as vinte e quatro horas antes de subir no palco e falar em público…).

CdL: Você começou a publicar seus textos em veículos de comunicação bem jovem. De lá até hoje, como tem acompanhado as mudanças na imprensa? Como enxerga o futuro dela?

AP: Cara, quem souber responder essa pergunta ou é um gênio ou tá mentindo… 

CdL: Avenida Brasil foi uma das novelas mais elogiadas dos últimos anos, principalmente por causa de seu roteiro. Como foi fazer parte da equipe que escreveu essa novela? Como o trabalho era dividido? Quais eram as suas funções?

AP: A história é criada pelo autor principal, João Emanuel Carneiro. Todo dia ele faz uma escaleta, um resumão bem detalhado do capítulo e manda pros quatro colaboradores. Na escaleta, já vem apontado qual colaborador pegará quais cenas. A gente faz basicamente diálogos. Daí manda pra ele, ele dá um tapa final e manda pra ser filmado.

Foi demais participar dessa novela, por várias razões. Primeiro, por trabalhar com o João Emanuel, um escritor talentosíssimo e generoso, com quem aprendi muito. Também pela graça de escrever um troço que metade do país tá assistindo e comentando. Sem falar na alegria que é ver o diálogo que você escreveu sair da boca de alguns dos melhores atores do Brasil. (Em vários casos, aliás, melhorado por eles).

CdL: Ainda sobre a novela, você teve alguma participação nas hilárias cenas que o Tufão aparecia lendo A interpretação dos sonhos, de Freud (e o chamava de Fred), Mar morto, do Jorge Amado (para o Leleco dizer que nem sabia que o mar tinha vida para morrer) e O idiota, do Dostoievski (para o mesmo Leleco dizer que idiota mesmo era o Tufão)? Como foi a recepção para essas, digamos, intervenções? Como o pessoal da Globo as recebeu?

AP: Olha, quem mandava nas leituras do Tufão era o João Emanuel.

Não vejo essas citações como intervenções. Fazia sentido a Nina incentivar o Tufão a ler, como parte da “recuperação” que ela estava promovendo ali. E havia algumas piscadelas pro público, também. O primeiro livro que ela deu pra ele, se não em engano, era o Primo Basílio, que tinha não só o tema da traição como a inversão de papéis entre patroa e empregada, que se daria entre Nina e Carminha lá pelo capítulo cem. 

CdL: Seu pai, Mário Prata, o influencia como escritor?  Há ou houve alguma cobrança – sua, dele, da crítica ou dos leitores – pelo parentesco? Houve algum conflito íntimo quando você decidiu que seria escritor, como querer se diferenciar do estilo dele? 

 AP: Eu sempre digo que influência é uma palavra leve demais para definir o quanto a presença de um pai determina os caminhos de um filho. Mais do que me influenciar, ele me deu vinte e três cromossomos, me ensinou a andar, a falar, etc. Ou seja: sem dúvida “influenciou” muitíssimo minha escolha na profissão.

No começo havia a desconfiança de algumas pessoas, sim, mas com o tempo isso ficou pra trás. Ser filho de um escritor sem dúvida me abriu muito mais portas do que criou cobranças.

Não acho que eu tenha querido me diferenciar do estilo dele. Nossas disputas edípicas se deram em outros campos que não nas páginas

CdL: Como parte do time, o que você tem a dizer sobre o vexame brasileiro em Frankfurt? Perder de 9X1 não foi um pouco demais?

AP: Cara, pegue dezesseis escritores brasileiros que treinaram juntos duas vezes na vida no Playball da Barra Funda (nunca os onze do mesmo lado, só seis contra seis) e ponha pra jogar contra um time de quarenta alemães que treinam desde 2005. Ponha num campo oficial, a quatro graus, com garoa fina. Acho que 9X1 foi praticamente um empate.

CdL: Você também faz cerveja em casa. Há alguma forma de se relacionar a literatura com a cerveja caseira?

AP: Os textos dá pra consertar o tempo todo, dá pra mexer, remexer, cortar, remendar. Cerveja, se você cometer um errinho, vai tudo pro lixo. Ou melhor, pra pia.

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bernardo carvalhoDesde sua estreia em 1993, com Aberração, Bernardo Carvalho já publicou outras dez obras e se tornou um dos escritores mais prestigiados do país. Dentre seus trabalhos merecem destaque títulos como Mongólia, Onze, Nove noites e O filho da mãe, que integra a polêmica coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras. Reprodução, o livro mais recente do autor, foi lançado neste segundo semestre de 2013 e apresenta um estudante de chinês envolvido em um enorme imbróglio no aeroporto horas antes de embarcar para a sonhada viagem à China. Por conta deste novo trabalho e da importante carreira que o Canto dos Livros entrevistou Bernardo Carvalho. 

CdL: É de se imaginar que para escrever Reprodução você tenha navegado bastante por sites de notícias e blog para ler os comentários dos internautas. Ao ler esses comentários – muitas vezes reacionários e racistas, como o personagem principal da obra –, qual era o seu sentimento? 

Bernardo Carvalho: Não li muitos comentários. Nem naveguei muito para poder escrever o livro. Como é tudo mais ou menos igual, basta ler alguns pra entender como a coisa funciona.

CdL: Apesar do tamanho, Reprodução tem uma estrutura que em muitos momentos se assemelha ao conto ou à novela. Contudo, ainda não existe uma definição clara do que seja um conto, uma novela e um romance. Para você, como esses gêneros são caracterizados? 

BC: Você vai achar as definições clássicas dos gêneros nos manuais literários. Pra mim, interessa embaralhar os gêneros. Mas acho que esse livro tem um espírito mais teatral do que qualquer outra coisa.

CdL: Em certo momento, Reprodução também é um livro que fala sobre o domínio que determinadas línguas exercem sobre outras. A passagem que trata das línguas que morrem chega a ser comovente. Qual a sua relação e interesse pelas línguas, sejam elas dominantes ou à beira da morte? 

BC: O desvio me interessa. O desvio da regra, a diferença, a exceção, a resistência ao hegemônico etc. Nesse sentido, as línguas em vias de extinção são chaves pra mundos alternativos, que estão se perdendo. Com o desaparecimento das línguas, o mundo também se estreita.

CdL: É cada vez mais evidente a maneira truculenta como policiais costumam tratar qualquer tipo de suspeito. Não seria mais plausível se o delegado que interroga o “estudante de chinês” desse um tapa na orelha do interrogado e mandasse ele apenas responder objetivamente as perguntas feitas? 

BC: Os personagens literários mais interessantes são aqueles que não correspondem às expectativas do leitor.

CdL: O protagonista de Reprodução parece só ouvir as pessoas quando aparentemente aumentam a voz ou quando não há mais nada para ser feito além de escutar uma conversa. É uma forma de mostrar que estamos cada vez mais preocupados em falar e menos dispostos a ouvir? 

BC: Não sei. É uma característica do personagem.

CdL: O final de Reprodução é forte e emblemático. Você é um crente, um otimista? 

BC: O final é trágico e triste. Crente, eu não sou. Acho que oscilo entre fases de otimismo e pessimismo.

CdL: Em entrevista recente, ao comentar sobre a banalização promovida pela internet, você destacou o narcisismo, e a maneira perversa pela qual ele pega as pessoas que escrevem ali, para qualquer audiência, lhes dando a ilusão de que são celebridades. Por outro lado, os romancistas costumam ter um forte componente narcisista, a serem bajulados pelos leitores e editoras, tanto mais quanto maior seja a projeção e o potencial comercial de suas obras, importando pouco a qualidade literária dela. No seu caso, escritor há 20 anos e consagrado, reconhece em você ou na sua obra indícios deste mesmo narcisismo? Concorda com o diagnóstico de alguns especialistas, de que a atual literatura brasileira é em grande parte feita com narrativas em primeira pessoa, confessionais e também narcisistas? 

BC: O narcisismo está em todo mundo. Faz parte do humano. Há gradações, claro, e maneiras diferentes de lidar com o narcisismo. Mas acho pobre pensar que uma narrativa em primeira pessoa é sinal de narcisismo do autor. É não ter entendido absolutamente nada do que é literatura.

CdL: Em uma resenha para O Globo, Beatriz Resende, professora da UFRJ, diz que você “confirma sua versatilidade como escritor que foge da zona de conforto”. É possível fazer arte permanecendo na zona de conforto? 

BC: Não há regras em literatura e arte. O conforto me incomoda, mas é o meu caminho. Não sou modelo pra ninguém.

CdL: O discurso de Luiz Ruffato na abertura da Feira de Frankfurt tem dividido opiniões no meio literário. Qual sua opinião sobre as colocações do autor? 

BC: Gostei do discurso dele.

CdL: Como foi a sua participação na Feira de Frankfurt? O que achou da seleção de escritores?

BC: Senti falta do Rubens Figueiredo e do Reinaldo Moraes [que já foi entrevistado pelo Canto e cujas respostas guardam certa semelhança com as de Bernardo]. Não sei se não foram convidados o se não quiseram ir.

CdL: Ainda sobre a feira, na oportunidade João Paulo Cuenca, Paulo Lins e Luiz Ruffato iniciaram um abaixo assinado apoiando a greve de professores do Rio de Janeiro e repudiando a violência policial. O que você achou desse manifesto? Na sua visão, qual é o papel de um escritor diante de reivindicações contemporâneas, como essa e tantas outras levantadas recentemente no Brasil? 

BC: Não conheço ninguém que seja contra a democracia e a educação, e a favor da truculência policial.

CdL: Alguns acham que a Literatura tem papel específico, outros, que ela pode ser uma agente de mudanças profundas. Entre estes dois pólos, onde você se situa? 

BC: Entre os dois. Nos dois.

CdL: Recentemente, a discussão sobre as biografias não autorizadas ganhou força novamente com a posição do Procure Saber, encabeçado por Paula Lavine. Tanto como escritor quanto personalidade pública, qual sua posição sobre isso? 

BC: A favor da liberdade de expressão.

CdL: Hoje em dia, ante as facilidades em se publicar, mas também ante a enorme concorrência, qual(is) atitude(s) aconselharia para novos escritores? O que eles devem enfatizar? 

BC: Cada um deve levar seu projeto literário e suas diferenças até as últimas consequências.

CdL: O humor tem qual espaço na sua obra? Se fosse defini-la em uma característica, qual seria?  

BC: Geralmente, o humor não está muito aparente no que eu escrevo. O Reprodução é uma exceção.

CdL: Após 20 anos de sua estreia como escritor, como você olha para sua própria obra?

BC: Fiz o que deu pra fazer.

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Por Fred Linardi

livro por diaDe um dia para o outro a rotina do jornalista policial canadense Jeremy Mercer mudou. Sem honrar o voto de confiança de um criminoso, Mercer citou seu nome num livro-reportagem sobre uma série de assassinatos ocorridos na cidade. Seria muito ingênuo pensar que o assassino deixaria por menos. Logo depois do lançamento do livro, o telefone da casa do jovem jornalista tocou. Era o próprio foragido que prometia acertar as contas mais cedo ou mais tarde.

Essa foi a maior motivação para que Mercer pensasse em sair de cena por um tempo, ao menos até que os ânimos do bandido (talvez) se acalmassem. A segunda motivação foi sua situação acadêmica. Ele estava quase jubilando na faculdade de jornalismo por causa do francês, a única matéria que faltava para concluir sua graduação. Resolveu que faria a disciplina na França, berço da língua e um país distante o suficiente para não ser perseguido por um enfurecido criminoso.

Com o dinheiro contado para poucas semanas, Mercer passou um tempo em condições extremamente simples, mas mesmo assim seus tostões acabaram. Um dia, enquanto fugia de uma das típicas chuvas de Paris, abrigou-se na Livraria Shakespeare and Company. Mal imaginava a história da loja, tampouco sobre seu dono ou sobre a principal informação que mudaria o destino de Mercer na cidade luz. George Whitman, o fundador e proprietário, vivia e pregava uma filosofia socialista e fazia de sua loja um celeiro para isso. Uma de suas atitudes era abrigar escritores e aspirantes entre as prateleiras repletas de títulos em inglês. Em meio aos livros novos, usados, antigos e raros, algumas camas compunham o romântico ambiente da loja. Jeremy Mercer apresentou-se e foi aceito para ocupar uma delas durante o tempo que precisasse – desde que escrevesse. Desde que se dedicasse à leitura, à escrita e, claro, ajudasse em algo da loja.

Um livro por dia, publicado aqui pela Casa da Palavra, é uma agradável leitura sobre a experiência de morar na livraria cuja fama se dá graças a escritores como Ezra Pound, Ernest Hemingway e James Joyce. Isso porque George Whitman abriu sua loja com o mesmo nome da primeira versão da lendária livraria que não sobreviveu à ocupação alemã em 1940. Amigo e admirador de Sylvia Beach, que criara a primeira versão da Shakespeare and Company, Whitman a reinaugurou em outro endereço na década seguinte, mantendo a tradição da original.

Mas Jeremy Mercer alojou-se na livraria no ano 2000, quando o contexto era bem diferente daquele retratado por Woody Allen em Meia noite em Paris. Não que hoje em dia não haja mais novos Hemingways na livraria – pode ser até que tenha… – mas a realidade parisiense que é outra também. Entre os suspenses vivenciados pelos jovens moradores estava a situação ameaçadora imposta por um grande magnata da hotelaria em comprar o prédio de três andares ocupado pela Shakespeare and Company. Além deste drama financeiro, Whitman carregava uma difícil questão familiar: a relação com sua filha que morava na Inglaterra e que pouco teve contato ao longo de sua vida.

Aliás, entre as maiores qualidade da maneira de Mercer narrar, está no modo que mantém pequenos suspenses entre um capítulo e outro, conquistando a atenção do leitor, que se envolve cada vez mais na leitura. Entre breves perfis de outros estrangeiros que ali vivem – incluindo um velho e excêntrico poeta inglês –, retrata a liberdade e as situações extremas daqueles que resolveram deixar seus países para morar praticamente de favor e com moedas contadas. O relato então se torna ainda mais generoso ao leitor, pois conta a história de Whitman e da livraria, mas também mostra as fraquezas e dúvidas dos personagens do livro, inclusive do próprio Mercer ao longo dos quatro meses que lá viveu, bebeu, escreveu e – devido ao costume local e ao inverno – pouco teve condições de se assear.

Vivendo em algumas questões extremas – a livraria não é munida de banheiro com chuveiro, por exemplo – Mercer relata episódios aflitivos, como os indesejáveis ratos que disputavam a comida do jantar preparado e servido por Whitman. E também como os moradores arranjavam diferentes meios para combater a miséria, valia até mesmo cuidar um pouco da higiene no banheiro de um café do outro lado da rua, já que banhos de verdade costumavam acontecer somente quando tinham a sorte de ter uma noite de amor no quarto de hotel de alguma turista que surgia na loja.

O livro aproveita as tramas de destinos incertos. O destino de Jeremy Mercer parece ter sido muito melhor do que se jamais tivesse sofrido uma ameaça de morte. Temos a certeza disso inclusive pelo livro publicado – tudo ocorreu bem e ele está vivo até hoje. Já sobre o destino da livraria e George, é preciso ler toda a obra. A leitura é gratificante, indicando que a narrativa de não ficção continua a atingir os altos níveis de qualidade que tem alcançado há décadas.

O próximo entrevistado do Canto dos Livros será o Jeremy Mercer. Não percam!

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Dos seis escritores brasileiros que ilustram um dos cartazes de divulgação do Brasil como homenageado da edição de 2013 da Feira de Frankfurt, a mais importante do universo literário, três deles já deram entrevista para o Canto dos Livros. Confira os papos que batemos com Vanessa Barbara, Ricardo Lísias e Andrea del Fuego.

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Panorama do setor, cobertura do mercado livreiro e o que Cinquenta tons de cinza pode nos ensinar sobre incentivo à leitura

Por Igor Antunes Penteado

A Bienal Internacional do Livro de São Paulo encerrou sua 22ª edição no último domingo, 19 de agosto, no Pavilhão de Exposições do Anhembi. Segundo dados da organização, nos 34 mil metros de exposição, o evento terminou com um saldo de mais de 750 mil visitantes – 123 mil apenas no último sábado (18/08), um recorde histórico.  De acordo com o que afirmou a presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Karine Pansa, essa edição pode ser considerada “o maior encontro literário da América Latina” e evidencia que a “leitura continua crescendo no interesse da população”.

Outros dados da CBL apontam que a Bienal conseguiu trazer a São Paulo cerca de 1.180 autores – 18 deles internacionais -, contou com aproximadamente 1.829 lançamentos de livros, recebeu a visita de 120 mil alunos das escolas públicas e particulares, vindos da capital e interior do Estado de São Paulo, e obteve presença destacada nas redes sociais, com 84,7 mil “curtidores” no Facebook (que geraram 12 mil compartilhamentos) e 17,3 mil seguidores no Twitter (com dois mil retweets até o sábado 18/08).

Nesta 22ª edição, o tema central foi “Livros transformam o mundo, livros transformam pessoas”, mas será mesmo que esses números revelam o cenário brasileiro ou tratam-se apenas de um recorte positivo e inverossímil da nossa realidade?

Panorama

De cara, recentemente, tivemos a publicação de diversos dados sobre a preocupante situação brasileira em termos de leitura, notícias como: no ensino superior 38% dos alunos não sabem ler e escrever plenamente, brasileiro vai cada vez menos às bibliotecas, Brasil enfrenta o desafio de formar novos leitores  e cerca de 75% dos brasileiros jamais pisaram em uma biblioteca. Há também a cada vez mais nítida e acentuada segmentação do setor, com dados como os de que cresce o número de títulos e caem tiragens de livros no Brasil.

Nesta realidade, durante a Bienal, foi lançada a obra Retratos da Leitura no Brasil, livro homônimo à pesquisa apresentada em março e que compila seus principais dados. Coordenada pela socióloga Zoara Failla, a iniciativa traz artigos de pesquisadores, escritores e de profissionais do governo, de entidades do livro e de organizações do terceiro setor acerca dos mais variados temas abordados no levantamento que ouviu, em 2011, 5.012 pessoas de 5 anos ou mais, moradoras de 315 municípios. Traz ainda os números da pesquisa e gráficos comparativos, apresentando um mapa do comportamento leitor brasileiro – o que lê, quando e onde lê, por que lê.

Entretanto, o principal dado que a pesquisa mostra é nossa sensível deficiência no estímulo à leitura. Não só no sentido de ensinar as crianças a juntar letras e formar palavras e frases, mas incentivá-las e transformá-las em leitores críticos, que terão prazer em ler um livro de literatura e que continuarão buscando novas leituras quando saírem da escola e não forem mais obrigadas a ler. Melhor retrato disso é que o índice de leitura do brasileiro é de quatro livros por ano segundo a pesquisa, mas, quando excluímos as obras indicadas pela escola, ou seja, quando consideramos apenas a leitura espontânea, chega-se ao risível índice de pouco mais de um livro por ano.

É, o cenário não parece positivo, apesar do incentivo que o governo federal tem mostrado quanto ao assunto, como o Plano Nacional do Livro e da Leitura – PNLL, instância interministerial do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, para o qual a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, anunciou em abril investimentos de R$ 373 milhões em ações situadas em quatro eixos estratégicos: democratização do acesso, fomento à leitura e à formação de mediadores, valorização institucional da leitura e fomento às cadeias criativa e produtiva.

Outro cenário que parece positivo é mostrado pela pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) sobre o mercado editorial do Brasil, que apontou que os brasileiros compraram cerca de 469,5 milhões de livros em 2011. Contudo, em debate virtual entre os autores deste Canto dos Livros, surgem ainda mais questionamentos sobre os números. Um exemplo é que boa parte dessas vendas é feita para o governo. “Isso significa que, teoricamente, os livros estão chegando a escolas e bibliotecas, mas não necessariamente na mão dos leitores”, argumentou Rodrigo Casarin.

Já João Dutra foi ainda mais fundo na questão, e a analisou sob o ponto de vista econômico. “Lembro que vi manchetes em cadernos de Economia dizendo que a Classe C agora compra carro importado, faz cruzeiro, consome luxo… e como isso impactou no crescimento desses mercados. Mas não me lembro de ter visto nada sobre a Classe C comprar mais livros. Imagino que esse [pequeno] aumento na compra de livros provavelmente deva ter vindo de quem já comprava antes”, salientou.

Dentro disso, é imprescindível acabarmos com o conceito de que o brasileiro não lê por problemas econômicos – com a falácia de que o livro é caro, desconstruída brilhantemente aqui – e analisarmos a própria indústria do livro, o que ela tem oferecido, como divulga seus produtos e como tem pautado sua produção meramente sob o ponto de vista mercadológico.

Mercado Editorial e suas nuances

Na sexta-feira (17/08), a Bienal realizou o encontro “A Cobertura do Mercado Editorial Pela Imprensa”, com as participações de Antoune Nakkhle, jornalista e diretor de comunicação da assessoria de comunicaçãoespecializada em livros e cultura Parceria 6, Luiz Costa Pereira, jornalista, doutor em filosofia e educação pela USP, criador e editor da revista Língua Portuguesa (Editora Segmento), e de Rinaldo Gama , também jornalista e editor do caderno Sabático – Um tempo para a leitura, do jornal O Estado de S. Paulo.

Durante a conversa, sob mediação de Guilherme Loureiro, os três discutiram o quanto a imprensa influencia – ou deveria influenciar – positivamente no hábito de leitura da população. Até porque, intrinsecamente, Literatura e Jornalismo têm a mesma origem, como lembrou Rinaldo. “Literatura é um conceito recente. Ambos são e derivam da arte da escrita. No final do século XIX e início do século XX, era o jornal que publicava literatura e ajudava a popularizá-la. Claro, popularizava dentro do contexto histórico de analfabetismo da época”.

O editor do Sabático também lembrou que a nossa realidade ainda é calcada no fato de que só a obrigatoriedade é capaz de estimular os alunos a lerem. “Nossa sociedade é acostumada com a leitura compulsória, quando as pessoas são obrigadas a ler. Pesquisas mostram que alunos da universidade leem mais no primeiro ano do que no último, o que é no mínimo estranho”, afirmou Rinaldo. Já Luiz Costa Pereira lembrou outra de nossas deficiências. “Hoje o Brasil tem muito mais editora do que livraria. Só pra ter um exemplo, o estado do Acre inteiro tem apenas uma livraria” disse ele.

Outro aspecto bastante discutido durante o encontro foi o papel da imprensa especializada no incentivo à leitura. Todos os participantes foram unânimes em concordar que a imprensa é importante – e não desaparecerá tão cedo –, já que as pessoas desenvolveram o hábito de precisar de alguém que diga o que consumir, já que hoje a literatura é vista também, e principalmente, como uma forma de entretenimento. “A imprensa de hoje é uma espécie de curadoria, que diz o que é legal ou não. Só que o problema é que tem tanto lançamento que não tem como dar tudo. Aí, claro, existem as apostas óbvias, como um lançamento de um escritor consagrado, e fica difícil achar bons autores novos”, confidencia Luiz.

Ele também destacou que a vastidão de conteúdo que pode ser encontrado na internet ajuda a fazer com que o trabalho de quem cobre o setor de livros seja mais aprofundado. “Se eu for falar de um livro do Machado de Assis, eu não posso ficar falando da vida e da obra dele, porque isso já tem na internet. Mais e melhor. Eu tenho que fazer uma crítica que envolva muitos outros aspectos”.  Entretanto, no Brasil, o relacionamento entre editores e jornalistas ainda encontra dificuldades, como parece ser a tônica de todo o setor.

Relação mercado editorial X imprensa

“’Se meu livro é bom, por que eu vou anunciar? Vão dar de qualquer jeito nos suplementos dedicados à literatura mesmo’. Esse é o pensamento do editor”, diz Rinaldo Gama. Segundo ele, as editoras até hoje não têm a tradição de serem anunciantes como outros seguimentos da cultura cultivaram e, assim, a divulgação de lançamentos fica quase exclusivamente por conta das resenhas e críticas. Quem fez coro nesse sentido foi o assessor Antoune Nakkhle, que disse encontrar severas dificuldades de abertura do mercado editorial ao relacionamento com os jornalistas.

Segundo ele, 99% dos editores não entendem que é necessário oferecer um PDF, mesmo que ainda sem os ajustes finais, 30 dias antes do lançamento de um livro para o jornalista trabalhar em cima do material. “Eu trabalho com o outro 1%”, brincou Antoune. Ele também destacou que os editores querem garantias de que, estabelecendo uma relação com a imprensa, seus livros serão com certeza divulgados, o que nem sempre é possível. “O cara quer que eu dê garantias de o que o livro dele vai sair no jornal, e isso eu não tenho como fazer. O que eu sinto é que o editor tem uma expectativa diametralmente oposta a dos jornalistas que cobrem livros. A mentalidade tem que ser de que se deve dar o livro porque ele é bom e você acredita nele, não só pra vender”, postulou.

Mas o assunto mais discutido entre todos – e também certamente o mais polêmico – foi a questão da qualidade do que tem sido publicado.  Essa discussão girou dentro do tema de um excelente questionamento feito pelo Rodrigo (colega e idealizador aqui do Canto) há uns meses atrás, sobre se as livrarias andam sendo frequentadas por mais leitores ou por simples consumidores de livros, e que também deu ideia para este post. Para Rinaldo Gama, essa conversa deve começar, necessariamente, com uma ressalva. “É importante lembrar que nem tudo o que se publica em livro é literatura, como nem tudo que se publica em jornal é jornalismo. Muitas vezes trata-se de outro tipo de expressão que usa o mesmo ferramental”, definiu.

Seguindo na mesma linha, Luiz Costa Pereira concordou com Rinaldo, mas ampliou um pouco mais a discussão, ressaltando que um best seller, ainda que de qualidade duvidosa, merece sim atenção, o cuidado que deve ser tomado é com o tamanho da importância que se dá ao fato. “Um livro vender muito, quantidades fora dos padrões, é um fato cultural que eu, como jornalista, não posso dar as costas. A questão é a relevância que você dá a ele”, explicou. Para exemplificar ainda melhor, Luiz lembrou um fato que, segundo ele mesmo, até hoje não sai da sua cabeça. “Nunca me esqueço do dia em que o Jornal Nacional exibiu uma reportagem de dez minutos sobre o nascimento da filha da Xuxa e, no mesmo dia, apenas dois minutos sobre a privatização da telefonia no Brasil”. Segundo ele, é essa a dosagem que o jornalista tem de ter.

Sem discordar completamente dos companheiros de debate, Antoune, entretanto, defendeu a importância de todo tipo de livro ser, sim, discutido e divulgado na imprensa. “Quem sustenta uma editora é quem compra o livro que não é literatura, principalmente autoajuda e livros técnicos. Isso é fato”, provocou. E, mesmo afirmando que sua empresa cresce devagar porque “não trabalha com lixo”, disse que atende também a todos estes segmentos.

Aqui chegamos a uma outra discussão, que já foi proposta por aqui antes, mas que creio estar longe de ser esgotada. Qualquer tipo de leitura vale para incentivar este hábito nas pessoas? Leitores que são formados através de livros que nada tem a acrescentar podem migrar pra leituras mais complexas? Devemos continuar a criticar livros de qualidade duvidosa mesmo sabendo de sua extrema importância para a saúde financeira das editoras, inclusive para a viabilidade de toda a sua produção?  Fato é que a Bienal do Livro 2012, pra mim, parece ter encerrado deixando mais perguntas do que respostas. Mas quem disse que isso é ruim, não?

*Nota do Autor. O livro Cinquenta tons de cinza foi usado no subtítulo do texto simplesmente como exemplo recente de um best seller que sofreu duramente nas mãos da crítica especializada. Entretanto, este exemplo poderia conter outros tantos nomes. Vale lembrar que essa iniciativa não significa um pré-julgamento meu (que não li o estrondoso sucesso da inglesa E.L. James) e tampouco dos outros autores deste Canto dos Livros.

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O ano de 2011 foi bastante agitado no Canto dos Livros. Dentre diversas notícias, lançamentos e curiosidades, alguns textos merecem destaque.

Resenhamos Devaneios literários, de Mariana Collares, Fahrenheit 451 em quadrinhos, de Ray Bradbury e Tim Hamilton, o grande Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, Tive uma ideia!, de Monica Martinez, Adeus, China, de Li Cunxin, O Safári da estrela negra, de Paul Theroux e O filho da mãe, de Bernardo Carvalho. Falamos de quando o Carnaval e a Literatura de encontram, criticamos a Flip, falamos do lançamento do Luzir, de como os personagens marcam os leitores e dos livros indicados por Renato Russo.

Nas entrevistas, tivemos o prazer de falar com os escritores Nazarethe Fonseca, Lehgau Z Qarvalho, Marcelo Maluf, Cristina Cezar, Ferréz, Paulão de Carvalho e Renato Modernell.

Em sua coluna, o Beto falou de Planolândia e visitantes de uma quinta dimensão, perspectiva, resenhou o Muito longe de casa, de Ishmael Beah, racionalizou sobre Deus e relacionou Literatura com cinema.

Já o Igor Antunes Penteado começou o ano falando sobre religião, depois procurou um limite aceitável para o incentivo à leitura, descobriu o óbvio, falou sobre assassinos em série e trocou figurinhas com Homem comum, do Philip Roth, e Carta a D, de André Gorz.

João Dutra imaginou Camões postando no Twitter, tomou um porre de Machado de Assis e falou sobre Sherazade, sobre histórias.

Também tivemos a estréia de Fred Linardi, que resenhou Reparação, de Ian McEwan.

Por fim, associamos bastante a Literatura com boa cerveja: Entre os vândalos e Harp, Jim Knipfel e Brooklyn, Pedro Juan Gutiérrez e Hoegaarden, Adoniran Barbosa e Paulistânia, Luis Fernando Veríssimo e Abadessa, Saint Patrick, Guinness e James Joyce e Edgar Allan Poe e Colorado Demoiselle.

Mas o ano ainda não acabou. Nesta semana ainda teremos ao menos mais uma entrevista e uma resenha. E que 2012 seja ainda melhor!

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