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Posts Tagged ‘violência’

Por Rodrigo Casarin

Gado Novo_Guille ThomaziNeste ano, em virtude da Copa do Mundo, uma turba de livros sobre futebol dominou as prateleiras. Tive contato, li parte deles e raros foram os que julguei realmente oportunos – o melhor de todos, O drible, de Sergio Rodrigues, é do ano passado. Das novidades, uma boa obra é Entre quatro linhas, coletânea de contos sobre o esporte organizada por Luiz Ruffato, que traz nomes como Ronaldo Correia de Brito, Tatiana Salem Levy, Carola Saavedra, André Sant’anna, Rogério Pereira e Cristovão Tezza, que alternam textos razoáveis com outros bons. Entretanto, no volume, um trabalho realmente se destaca: “Raimundo, o dono da bola”, de Eliane Brum.

Em seu conto, Eliane usa o futebol para ir além, mostrando a famigerada bravura e a coragem do sertanejo, mas também toda a sua fragilidade e inocência. Raimundo é um homem bruto e matuto, que nasceu e cresceu no meio da floresta e conhece o futebol somente pelo que ouve no rádio – nunca assistiu a partida alguma, portanto, o esporte acontece somente em seu imaginário, na ficção que cria com as informações que os locutores tentam transmitir, emular aquilo que o interiorano jamais viu.

As coisas mudam quando Valdir aparece em sua vida e, ao mesmo tempo que abre um ponto de contato entre Raimundo e a vida urbana ou moderna, também traz consigo os males da civilização. Utilizando o futebol – que passa efetivamente para o plano real, com traves e bola -, Valdir ganha a amizade do outrora desconfiado e fechado Raimundo e consegue arquitetar a sua ruína. O conto é de uma violência – não apenas física, mas moral, emocional e contra a natureza, inclusive – extrema, é daqueles que marcam e perturbam o leitor. O jogo acaba sem gol, sem apito final, mas com uma selvagem e destrutiva invasão de campo, digamos.

Numa conversa, Eliane me disse que algumas pessoas se queixaram que o texto era muito grande para um conto. Quanta mediocridade! Primeiro porque “Raimundo, o dono da bola”, com suas 31 páginas, se não é exatamente pequeno, também não é nenhum Guerra e paz do gênero. Segundo, porque isso pouco importa. A qualidade do trabalho não está condicionada a seu tamanho. Essa lógica, na ordem reversa, poderia colocar em cheque, por exemplo, o bom Gado novo, de Guille Thomazi, uma novela de 50 páginas – o livro tem 68, mas descontei as que não trazem exatamente o trabalho literário do autor. Será que alguém se queixou com Thomazi que seu livro é muito pequeno? Espero que não.

Violência do campo

Gado novo traz outra história de extrema violência que se passa no campo. Eu nasci em Campinas e cresci em São Paulo – digo que minha mãe foi me parir lá apenas para que os outros pudessem fazer piadas relacionadas à cidade -, costumava passar alguns dias de férias em Lins, no interior paulista, mas jamais estive efetivamente no campo, em uma daqueles longos vazios de fazendas gigantescas, cujos vizinhos, às vezes, estão separados por quilômetros de distância e cada endereço, de alguma forma, acaba sendo uma cidade em si mesmo. Durante muito tempo, a imagem que tive desses lugares é aquela do censo comum para um homem médio da cidade grande (ou seja, formado seguindo uma longa lista de clichês): são terras onde se vive em contato direto com a natureza, o que traz paz e tranquilidade. Lá, as pessoas plantam e criam o que comem, precisam apoiar-se e proteger-se mutuamente, o que gera uma boa relação social, que, graças às distâncias, acaba não sendo banalizada pela convivência diária. São pessoas corteses, sempre preparadas para abrir as portas de casa e receber visitantes, mesmo que sejam desconhecidos. (O clichê também tem uma variação para as cidades interioranas, segue a linha do “quero mudar pra lá porque a vida é mais tranquila, menos violência, trabalhar perto de casa, num lugar onde as pessoas se respeitam e blá blá blá”).

Entretanto, ao conversar com pessoas desses lugares e ao ler ou assistir aos relatos de como é realmente a vida nessas enormes e pouco habitadas fazendas, percebo que muitas vezes esse ideal só existe mesmo na imaginação. Se no conto de Eliane é o homem da cidade que leva a desgraça para o isolado homem do campo, na novela de Thomazi o homem do campo, já influenciado pela vida da cidade, é o próprio responsável pelas suas mazelas.

A história começa com o narrador, sempre em primeira pessoa, procurando por um norte. “O dia nasceu torto. A menina nasceu sem futuro. Descobri como se faz mal ao mundo”. As frases são bastante breves, como se o personagem, cansado e confuso, buscasse fôlego para continuar. A tragédia está feita e ele gostaria de remediá-la, entretanto, há atitudes que são impossíveis de se contornar.

Com o passar dos capítulos, o foco da narrativa vai mudando e o ponto de vista alternando de personagem – passa pela avó da menina, o padrasto, o peão, um forasteiro – e Thomazi constrói uma intricada teia, às vezes confusa, como é mesmo a vida. Cabe ao leitor situar-se dentro da obra e procurar, por meio dos relatos, dar corpo à sua própria versão da macro-história proposta – impossível ler de fato Gado novo sendo um leitor passivo. Conforme o foco muda, o texto, o ritmo, o vocabulário, também mudam, e de maneira precisa, mostrando que o jovem escritor – que nasceu em 1986 – já em seu livro de estreia apresenta bom domínio das técnicas narrativas.

Animais, humanos, humanos animais

Uma outra característica da novela de Thomazi que me chamou a atenção é a batalha entre diferentes animais pela sobrevivência. Quando o homem se depara com o bicho, a forma como se matam bois, por exemplo, pode impressionar algum urbanóide como eu, acostumado apenas com a carne já fria, pronta para ir à churrasqueira. “Paraguay não tem dó nem mão mole. Empurra a faca no peito do bicho, no espaço entre os ossos para que dê no coração” – escreve e me lembra que cresci ouvindo o quanto é cruel quando se erra essa facada no porco, que solta um berro que causa condolência até mesmo nos mais acostumados em sacrificar os futuros alimentos. Em seguida, “cortar a carne viva é uma das funções com a qual ocasionalmente nos deparamos, e o fazemos com naturalidade”, registra uma das mulheres da obra.

Entretanto, é a violência entre dois bichos da mesma espécie que merece maior destaque: a do homem contra o homem, essa tão bem conhecida por qualquer um, seja a pessoa da cidade, do campo, da praia, da floresta… “O homem meio fora de si podia decidir passar fogo em mim era ali mesmo”, pensa um dos personagens. E poderia mesmo, sempre pode. Passar fogo, espancar, vilipendiar… Sempre é preciso que um animal humano sobreviva a outro animal humano. A menina não conseguiu resistir e sua morte foi terrível: marcas de arma branca, semidespida, roupa íntima arrancada, saia rasgada, mordidas no pescoço e nos seios miúdos, falta de parte do lábio inferior, perfurações no abdômen, olhos abertos…

Quando o homem perde para o homem. Raimundo perdeu o seu lugar e Isabel jamais chegará.

Texto publicado originalmente no jornal literário Rascunho.

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Por Alberto Naninni

post_betoExiste um momento precioso numa leitura – quando, ao ler determinado texto, você se dá conta de algo sobre você mesmo(a) que ignorava até então.

E também, com a imensa diversidade de opiniões que se encontra por aí, hoje mais acessíveis do que nunca, graças a sites e blogs como este, me diga se você já não se sentiu meio “perdido(a)” ante assuntos espinhosos, defendidos de forma bastante convincente por antagonistas? Tudo parece tão bem embasado, que fica difícil tomar uma posição; e, quando a tomamos, diz mais a respeito sobre simpatias e “pré-conceitos” do que sobre lógica ou razão. Bons exemplos se deram aqui no Canto mesmo, ante as discussões sobre os originais racistas de Monteiro Lobato e sobre o voto nulo, ambos escritos buscando solidez argumentiva, e gerando contra-argumentos igualmente sólidos.

De qualquer maneira, ainda que facilitadas as discussões, quando se tratar de alguns assuntos – talvez os mais importantes – nós apenas buscaremos as confirmações de nossas opiniões pré-estabelecidas, ignorando inadvertidamente bons argumentos contrários a elas. Há um experimento que corrobora esta tese, feito pelo psicólogo americano Drew Westen, e também um livro, mencionado no fim deste artigo.

Pois bem.

Em meio a balbúrdia que é o Facebook, suas fotos, seus memes, piadinhas, textos pessimamente escritos e afins, é possível garimpar algumas joias. Com a possibilidade de assinar perfis ou mesmo de adicionar  pessoas que tenham relevância dentro dos meios que admiramos ou que tenhamos afinidades, é provável ler bons comentários, receber bons textos, links interessantes, e eventualmente, na leitura de algum deles, possa vir o tal “momento precioso”.

Li no perfil do Rodrigo Casarin um texto da Eliane Brum por ele compartilhado, que reproduzo aqui:

“Desqualificar os índios, sua cultura e a situação de indignidade na qual vive boa parte das etnias é uma piada clássica em alguns meios, tão recorrente que se tornou quase um clichê. Para parte da elite escolarizada, apesar do esforço empreendido pelos antropólogos, entre eles Lévi-Strauss, as culturas indígenas ainda são vistas como “atrasadas”, numa cadeia evolutiva única e inescapável entre a pedra lascada e o Ipad – e não como uma escolha diversa e um caminho possível. Assim, essa parcela da elite descarta, em nome da ignorância, a imensa riqueza contida na linguagem, no conhecimento e nas visões de mundo das 230 etnias indígenas que ainda sobrevivem por aqui.”

Li, e me dei conta: lá estava eu, em meio à tal “elite escolarizada”, prisioneiro de uma visão superficial sobre o “progresso cultural”, por assim dizer, apesar de me achar bastante defensor das minorias e que-tais.

Com este pequeno insight na cabeça, li muitas outras notícias, acontecidas em culturas muitíssimo diferentes daquela que vivo.

E aí veio o me “sentir perdido” – se não há superioridade de uma cultura a outra, como poderei condenar o que acho errado e tomar uma posição, se a justificativa de qualquer ato pode ser como algo típico de determinada cultura? E como balizar aonde eu, com minha cultura, me situo?

O problema é bem mais capcioso que parece.

Há algumas semanas, li a notícia de uma garota paquistanesa de 15 anos, que foi morta pelos próprios pais – tenho que repetir, com ênfase em toda a tristeza e todo o absurdo que daí vem: foi morta pelos próprios pais – que lhe jogaram ácido no rosto e corpo. Ela teria olhado para um garoto, e os pais “defenderam a honra da família”, segundo eles, já manchada pela filha mais velha que teria fugido para se casar. Crimes de honra acontecem corriqueiramente em diversas culturas. Mulheres suspeitas de adultério são queimadas com gasolina, pelos noivos ofendidos ou até pelos próprios familiares; desfiguradas, apedrejadas, enterradas vivas, executadas, barbarizadas, em alguns países no Oriente Médio, Ásia e África (se quiser mais detalhes sobre este horror, leia isso.

Claro que estes são exemplos absurdos destas culturas, e claro que há exemplos extremos na nossa cultura também, mas a questão aqui não é simplesmente pinçar os extremos, mas observar as variações morais, éticas e legais dentre elas. Por causa da infinidade de variações que existe, tais atos são legitimados. Mas, para não ir tão longe, algumas tribos indígenas brasileiras tinham o costume de sacrificar gêmeos ou bebês albinos recém-nascidos, por acreditar que eles trariam mau agouro, enterrando-os logo que nascessem. Num primeiro momento, este outro exemplo parece igualmente extremo e bárbaro. E é, claro. Mas, olhando-o atentamente, em tudo se assemelha ao aborto. Um aborto tardio. A diferença é que a índia não faz pré-natal, e não sabe como ou quantos serão seus filhos.

E o aborto, sem entrar em suas razões ou méritos, algo que mereceria uma discussão à parte, é algo muito mais próximo. Assim, pode-se dizer que todas as culturas, mesmo as indígenas, toleram ou até incentivam um sem-número de barbaridades, segundo suas convenções e costumes. E a minha cultura? Esta, que eu acreditava linearmente superior às outras, atrasadas e arcaicas?

Nela, o Estado de Direito que vigora busca trazer uma igualdade. Se é verdade que há muitos senões a isso, também é verdade que crimes como os já descritos são tipificados, com suas respectivas punições. O sistema econômico incentiva uma concorrência – que, se é um tanto predatória e irresponsável no consumo de matérias-primas e degradação do meio ambiente, também trouxe incontestáveis melhorias e avanços para a vida de milhões e milhões de pessoas, além de praticamente duplicar a expectativa de vida destas num espaço de tempo bastante curto.

Então, é possível detectar porque há uma inconsistência entre uma suposta superioridade que despreza riquezas culturais em detrimento de confortos tecnológicos – algo dificilmente defensável, e esta mesma superioridade, em detrimento de costumes arcaicos – algo plausível, pelo menos no campo moral. Trata-se de medir estas diferenças com a “régua” adequada.

As riquezas culturais de civilizações com milênios de história não podem ser desprezadas. Nossa civilização seria uma criança pequena comparada a estas. Mas eu acredito haver sim uma espécie de “linha evolutiva” do progresso das civilizações e culturas, e acredito que estamos mais evoluídos que a maioria, se aplicarmos esta “régua”: o maior amor ao próximo.

Este critério, uma vez definido o que se entende por amor, esclarece as controvérsias havidas quando confrontadas as culturas e seus costumes. Assim, é indiferente se o jovem anda com seu Ipad ou se pesca no rio com seu arco-e-flecha. Se sua cultura o acolhe, ama, respeita e protege, tentando igualá-lo em direitos e deveres a todos os outros (salvo inevitáveis variações hierárquicas), não há superioridade ou inferioridade a outra cultura. É apenas um outro caminho.

Mas, se ao invés de se amar às pessoas, se ama mais os conceitos e instituições, como a honra, os costumes, a religião, as posses ou o governo, fatalmente se sucederão e se admitirão absurdos como a violência às mulheres e minorias. E isto é um atraso, e um horror, e uma tristeza.

Sim, há na nossa cultura muitos e muitos casos de violência contra mulheres e diversas minorias. Isso é indiscutível. Infelizmente. Não somos o exemplo de amor ao próximo que poderíamos ser, ante o esclarecimento que atingimos. Mas eu até acho que nos dirigimos para isso, timidamente. Prova disso são os militantes pelos direitos de parcelas oprimidas, como por exemplo o movimento feminista, os anti-racistas, e os de defesa dos animais.

Muitos movimentos de defesa das minorias tem sido bastante ativos, e este é um ótimo sinal. Tomando o último citado, quando expandimos o conceito de amor ao próximo aos animais, inferimos que as pessoas que o fazem, em sua absoluta maioria, respeita seus semelhantes como iguais. Ou seja, partem do pressuposto que obviamente não se deve maltratar as pessoas, e muito menos os animais, que são indefesos. Muitos gostam mais deles do que delas, e não os culpo – os animais são puros e desinteressados; as pessoas, nem sempre.

De qualquer forma, apesar destes movimentos, há pouco amor ao próximo, e por isso, há muitas leis. Há inclusive a tentativa de se criminalizar maus-tratos aos animais, e os militantes em defesa deles fazem muito barulho quando flagram algum caso, como o da enfermeira que, sujando sua categoria, torturou até a morte seu cãozinho, sem perceber que estava sendo filmada. De minha parte, acho justo a crueldade ser punida.

Porém, reconheço que, por interesse, contemporizo com outro tipo de crueldade: a que envolve se alimentar de outros animais. É algo cultural, e talvez até genético. Segundo o dr. Dráusio Varella, estaria impresso nos nossos genes o consumo de carne, tanto que salivamos só de cheirar um bife sendo feito. Mas há aqueles que optam por abrir mão deste consumo: os vegetarianos e veganos.  Eles transcendem um impulso atávico humano: o de caçar e comer, ainda que não cacemos nada senão em açougues e mercados. E o substituem por um tipo de amor que não despreza o sofrimento causado a um outro ser vivo, criado apenas para o abate, e muitas vezes, em condições extremamente cruéis. Além disso, costumam se tornar vegetarianos ou veganos pela própria vontade – e não por ser um costume do seu povo, ou por ordem de seu líder religioso. Até porque eles costumam prescindir de crenças, já que são guiados pela própria consciência, a ponto de se importar não só com seus semelhantes, mas também com os outros seres vivos.

Por estes motivos, acredito que eles sejam a próxima “linha evolutiva” humana, e a princípio, moralmente superiores. Aliás, possivelmente, num futuro talvez não tão distante, seremos vistos como neandertais, com nossos churrascos e frigoríficos.

Enfim, as violências – culturais ou não – que se passam do outro lado do mundo chegam até mim, assim como aquelas que literalmente batem à minha porta, ou chegam à minha mesa. Os movimentos pelos direitos humanos e animais – mais fortes e presentes em algumas culturas do que outras – também. Então, posso respeitar as culturas e diferenças, mas, munido da medida do amor, também posso ver que, quanto mais tradicionalista e fechada uma cultura seja, mais distorções e violência contra os seus ela tende a abrigar. Em contraponto, quanto mais progressista e aberta seja outra, mais ela tenderá a dar voz aos seus, e, por conseguinte, mais equilibrada e justa ela possivelmente será.

Depreende-se então que desta cisma se originou um outro tipo de desafio: como se estar conectado a tudo e não ser massacrado por isso.

O genial David Foster Wallace, jornalista e escritor americano, escreveu um relato cru sobre um tal Festival da Lagosta, que acontece nos EUA, para uma revista especializada, que foi de certa forma até corajosa em publicá-lo, ante a posição que ele toma e as reflexões que ele faz.

Creio ter chegado a conclusões parecidas. O homem é abjeto. Vil, ditador, mesquinho e cruel. Animal em suas pulsões. Ler sobre as barbaridades que alguns são capazes, as fazendo por causa de sua cultura ou por outra justificativa qualquer, nos dá a sensação de que somos melhores, que não faríamos aquilo em hipótese nenhuma. Bem, pesquisas consagradas contestam isso: somos capazes dos piores atos, se arrumarmos uma justificativa que considerarmos plausível, como obediência, costume, autodefesa ou “forte emoção”.

Não admira que David Foster Wallace, capaz de enxergar tanto sobre si e seus semelhantes até num Festival de Lagostas, não tenha mais aguentado viver. Ser sensível demais, enxergar demais, traz desespero. É necessário um embotamento, uma “correria” atarantada, que consome futilidades, que acumula coisas, que se engana com um juízo distorcido de si mesmo, e que ignora, ou finge ignorar, o quanto de vaidade há nisso tudo. E mais que isso, é necessária uma “dessensibilização” aos absurdos do mundo, como um antídoto, que nos possibilita viver e até ser felizes.

Como uma espécie de ácido que nós mesmos derramamos em nossas consciências.

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O novo livro traduzido de David Foster Wallace, publicado quatro anos após sua morte, Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, da Cia. das Letras, acabou de chegar às livrarias, e tem o ensaio “Pense na Lagosta”, mencionado aqui. Também pode ser lido no site da revista piauí.

O livro mencionado que aprofunda a noção de que só procuramos a confirmação das nossas teses é o Previsivelmente Irracional, da Elsevier, escrito pelo psicólogo e professor americano Dan Ariely.

Agora, consigo marcar uma posição de qual lugar minha cultura ocupa (e eu dentro dela). Muito longe da perfeição ela está, e muito para se envergonhar existe. Consumir carne e esgotar o meio-ambiente, ligar pouco para as minorias, fazer parte de um sistema que mais separa e exclui do que o contrário. Confere. Mesmo assim, afirmo haver grande diferença entre cometer estes e outros pecados, e cometer não apenas estes, mas ainda outros piores, contra qualquer um, por motivo de ódio, costumes medievais e ignorância – pura, grossa e cascuda. Em relação a estas pessoas, cuja cultura autoriza e estimula este tipo de ação, só preciso ver a foto de UMA das milhares e milhares de vítimas que eles desfiguraram com seus ácidos e preconceitos para dizer: atrasados. Covardes. Bárbaros. Desumanos.

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Por Igor Antunes Penteado

O Beto, também colunista aqui no Canto, propôs, só pra variar, uma discussão interessante em seu último post, sobre a que ponto nossa natureza pode chegar se submetida e exposta a determinados tipos de situações, ainda que em ambiente controlado. Para tal, fez referência a um texto que fala um pouco sobre experimentos famosos, como os de Milgram e Zimbardo, que faço questão de linkar novamente aqui, de tão interessantes que são.

Esse é um assunto – e, de certa forma, tudo que gira em torno da “natureza humana” e determinados tipos de comportamento – que sempre despertou minha curiosidade. Às vezes, de maneira tão obsessiva que ajo como um próprio “retroalimentador” dessa questão de “até que ponto…”, tornando um tanto profundas demais certas buscas por esse conhecimento. E um dos assuntos que talvez mais me intrigue em todo esse cenário (e que obviamente se enquadra nesse questionamento do “até que ponto…”) é o da psicopatologia forense. O nome é tão feio quanto o objeto de estudo, ou seja, as mentes criminosas por trás de assassinatos e crimes hediondos.

Essa busca me levou até uma leitura bem indigesta, mas boa para aproximar a gente de situações que bastam um estopim para que aconteçam: Serial Killer – Louco ou Cruel?, da pesquisadora Ilana Casoy. Basicamente, o livro destina-se aos interessados em procurar descobrir até que ponto a mente humana é capaz de chegar, e tenham estômago forte.

Ilana também sempre foi curiosa sobre o que levava alguém a praticar atos tão bizarros como assassinatos em série e decidiu tirar um ano sabático para pesquisar o tema. A pesquisa acabou virando livro; ela, especialista no assunto (hoje, inclusive, Ilana trabalha em conjunto com a polícia para tentar desvendar crimes e prender os culpados).

Entre tantos e tantos questionamentos interessantes, a autora consegue nos levar por caminhos múltiplos nesse emaranhado que é a cabeça do ser humano, tentando compreender a fundo como uma mente pode ser tão perversa a ponto de não perceber o quão horrendos são alguns de seus atos. Como diz Percival de Souza (que assina o prefácio do livro), “Como não existem monstros, é um desfile incessante de parte da raça humana”.

É estarrecedor perceber que um episódio esporádico, de muito tempo atrás, pode dar início a uma natureza psicopata, a ponto de uma pessoa não saber sentir compaixão pelas outras, tampouco como se relacionar com elas, precisando aprender a imitar o comportamento de pessoas normais a fim de mascarar sua personalidade obscura.

Às vezes a máscara que o indivíduo cria é tão verossímil que nem ele próprio consegue se distinguir como uma única pessoa. É como se a mente perversa e doentia se separasse daquela que convive em harmonia com a sociedade (Ilana ilustra esse fato com casos bastante perturbadores ao longo do livro).

Outra questão interessante é notar que esse desvio básico na conjuntura que forma a personalidade de alguém – grosso modo, fatores biológicos, psicológicos e sociais – pode fazer um estrago irreparável, o que é sempre representado no livro por estudos interessantes sobre o comportamento, como, por exemplo, no trecho a seguir, que discorre sobre o momento em que descobrimos o quanto podemos interferir na vida do outro:

“Quando uma criança começa a provocar outra, notamos imediatamente um novo estágio em seu desenvolvimento: significa que ela já é capaz de se colocar no lugar de outra pessoa, concluir qual atitude sua vai irritá-la e então se utilizar desse raciocínio para aborrecer o outro.”

Em um mundo que cada vez mais nos submete a episódios traumáticos, de violência absurda e gratuita, Serial Killer – Louco ou Cruel?, que, como disse no começo,  não é uma leitura fácil, é fundamental pra quem pretende ir além na compreensão do comportamento humano, cobrindo até as facetas mais horrendas que existem. Você certamente sairá desconcertado, mas entenderá como poucos a origem e os mecanismos da violência.

Serial Killer – Louco ou Cruel?

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laranjaMais conhecida pela sua versão cinematográfica, dirigida Stanley Kubrick, Laranja Mecânica é uma grande obra também da literatura. Escrito pelo inglês Anthony Burgess, o livro aborda a violência praticada por gangues de jovens, como ela interfere na sociedade – também responsável pelo problema – e a forma como os sistemas políticos se aproveitam disso tudo.

A história é dividida em três partes. Na primeira, o jovem Alex – personagem principal e narrador da trama – e seus amigos Pete, Georgie e Tosko andam pela cidade cometendo atrocidades. Divertem-se espancando mendigos, brigando com outras gangues, estuprando mulheres e invadindo casas para agredir os residentes. Em uma destas invasões, o desfecho acaba sendo infeliz para Alex, que, sozinho, acaba preso.

A segunda parte da história se passa no presídio. Alex se torna um detento de boa conduta, porém com uma grande vontade de conseguir sua liberdade o mais rápido possível. Por isso se candidata e é escolhido para ser cobaia de um novo experimento, desenvolvido por cientistas, que promete eliminar a violência que há nas pessoas. O tratamento consiste em imobilizar o “paciente” de maneira com que ele não consiga sequer piscar os olhos e expô-lo a filmes com diversas cenas brutais.

Ao final do tratamento, realizado com êxito, Alex é devolvido à sociedade, mas, ao chegar a sua casa, encontra seu quarto ocupado por um inquilino de seus pais. Sem ter para onde ir, começa a vagar pelas ruas até ser espancado por um grupo de velhos após um deles reconhecê-lo como o delinquente que era. Sem conseguir reagir, devido à repugnância à violência que o tratamento lhe impusera, o jovem só é salvo com a chegada da polícia, que o leva para um lugar afastado da cidade e também o agride.

Todo machucado, Alex consegue achar uma casa, pede auxilio e é ajudado por pessoas do partido opositor ao governo, que tentam usar o jovem como uma prova de como os mandatários do país maltratam os humanos.  A partir deste ponto, tanto dirigentes da oposição quanto da situação governamental buscam utilizar Alex de acordo com seus próprios interesses.

Alguns pontos da narrativa chamam bastante atenção, como a forma que o personagem principal acaba passando de criminoso para vitima de todo um sistema. Além disso, a violência de Alex contrasta com sua paixão pela música clássica, que acaba tendo um papel primordial na história.

Também merece destaque o cuidado que Burgess teve ao criar diversas palavras para construir o dialeto dos jovens da história. A mais recente versão em português do livro, publicada em 2004 pela editora Aleph, traz um interessante prefácio, escrito por Fábio Fernandes – tradutor da obra – contando como o escritor criou estas gírias e o trabalho para adaptá-las ao português.

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