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Clube de Prosa: Diário da guerra do porco

No dia 29/2, quarta-feira, às 19h30, a Cosac Naify promove a 5ª edição do Clube de Prosa. O tema do encontro é o livro Diário da guerra do porco, de Adolfo Bioy Casares. O bate-papo será conduzido pelo professor de história e literatura latino-americana Julio Pimentel Pinto.

O Clube de Prosa Cosac Naify acontece mensalmente na Loja de Artes da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, sempre às 19h30, e as senhas (25 lugares) devem ser retiradas a partir das 18h30. O evento é gratuito e aberto a todos. A editora aconselha a leitura do título para o debate.

Diário da guerra do porco
Uma das mais importantes obras de Adolfo Bioy Casares (1914-1999), o autor narra a história de Isidro Vidal, um senhor aposentado que passa as noites com os amigos jogando cartas e bebendo fernet. Após um desses encontros, o grupo presencia a morte de um velho, assassinado por um bando de jovens. O episódio revela uma onda de perseguição aos anciãos de Buenos Aires. Em meio à violência – real e simbólica –, o protagonista é surpreendido pelo amor de uma mulher mais jovem.

CLUBE DE PROSA COSAC NAIFY
29/2, quarta-feira, das 19h30 às 21h30
Loja Artes – Livraria Cultura – Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2073, São Paulo – SP
25 lugares; retirada de senhas a partir das 18h30

Fonte: http://editora.cosacnaify.com.br/EditoraAgenda/2012/2/Agenda.aspx#233

Abujamra entrevista Eliane Brum

Recentemente, no programa Provocações, da Cultura, Antônio Abujamra fez uma ótima entrevista com a jornalista e escritora Eliane Brum.  Confira:

 

 

 

As Viagens de Gulliver – a grande viagem de Jonathan Swift

Por Fred Linardi

Cansado de conviver em sociedade, o médico-cirurgião Lemuel Gulliver resolve navegar em busca de novas aventuras. Logo na primeira rota da viagem, seu navio naufraga e o tripulante é levado pelo mar até uma praia onde, após dormir, acorda amarrado dos pés aos cabelos, rodeado pelos pequenos e curiosos habitantes locais. Isso é apenas o começo, pois além deste que é mais o conhecido país visitado pelo intrépido navegante, o leitor o acompanhará por mais três povoados, cada um com suas particularidades, numa das obras que se tornou essencial entre os livros da literatura infanto-juvenil.

Antes de seguir adiante, é bom corrigir este que é um dos maiores equívocos sobre esta narrativa escrita pelo irlandês Jonathan Swift que, numa de suas típicas manifestações de rabugice, dizia não suportar as crianças. Quando publicou o livro, em 1726, sob o título original Viagens em diversos países remotos do mundo em quatro partes, por Lemuel Gulliver, a princípio cirurgião e, depois, capitão de vários navios, Swift pretendia escrever algo que, com colocações indiretas e diretas, agredisse da maneira mais profunda a natureza mesquinha do homem.

O livro é, na verdade, uma crítica tão contundente a diversos pensamentos humanos que até hoje tem sua validade, abordando o modo de organização de países, religiões, profissões e grupos sociais. Por seu tom fabulesco e deliciosa prosa, acaba por ser uma leitura agradável tanto para adultos quanto para crianças, o que lhe rendeu sucesso desde a primeira publicação. Com o passar do tempo, associou-se à leitura juvenil, mas continua apreciado como um registro histórico e de perspicaz lucidez.

De homens e cavalos

Como é o próprio Gulliver que escreve suas andanças pelo mundo, As viagens de Gulliver é cheio de impressões sobre suas visitas pelos países. O primeiro país que visita é Lilipute, o que se tornou mais conhecido de todos, com seus habitantes ferozes, divididos em dois partidos opostos e resolvendo problemas por meio de disputas. Logo depois, o viajante segue rumo à terra de Brobdingnag, onde se vê na situação inversa, numa terra de gigantes doze vezes maiores que ele, vivendo aparentemente em paz e governados por um rei e uma rainha contrários à violência. O terceiro ponto de parada é a ilha flutuante de Laputa, onde muito se pensa e nada se realiza. Por fim, sua última viagem o leva até o país dos Houyhnhnms, de cavalos inteligentes que convivem com os rudes e grosseiros Yahoos, na terra mais exemplar encontrada por Gulliver. Entre esses países, ele passa por outros como Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib e o próprio Japão, explicando aos habitantes e líderes locais sobre como as coisas funcionam na Europa e discutindo sobre diversos temas.

A forma de contar todo este enredo, cuja veracidade é sempre destacada pelo narrador, acaba por ser uma paródia ao estilo literário em moda na Europa naquela época: a narrativa de viagem. O escritor inglês Daniel Defoe publicara sete anos antes as Aventuras de Robinson Crusué, com grande aceitação entre diversos setores sociais. “A popularidade deste tipo de narrativa é de uma Inglaterra que ainda vive um processo de expansão marítima, com novas terras sempre sendo descobertas. E há também um apelo pelo próprio exotismo e diferença entre a sociedade britânica e os povos descobertos”, diz Sandra Vasconcelos, professora de literatura da Universidade de São Paulo. “Ele usa este aparato ficcional, que tinha grande popularidade na época, para atingir outro objetivo: o da sátira, que também tinha forte presença na literatura inglesa. As Viagens de Gulliver não é uma exceção em sua obra, que é repleta de ensaios satíricos”, explica. A própria obra de Swift rebate o otimismo que rege a de Defoe, sugerindo pouca esperança às habilidades humanas.

Punhos afiados

“Matem todas as crianças da Irlanda”, sugeriu Swift no clássico texto de 1729 Uma Modesta Proposta – para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus progenitores ou para o país, e para torná-los proveitosos ao interesse público. Foi impulsionado, mais uma vez, pelo inconformismo em relação à burrice do homem dito civilizado, principalmente com a política inglesa, responsável pela colonização que deixara irlandeses agora colhendo as consequências da miséria, falta de comida e trabalho, imigrando aos Estados Unidos.

O escritor expôs suas ideias à sua maneira. Segundo o texto, as crianças, ao invés de virarem ladrões por falta de trabalho, ou abandonarem seu país natal para lutar pelo pretendente ao trono britânico, James Stuart, deveriam ser mantidas pelos ingleses sob amamentação durante seu primeiro ano, até que engordassem e fossem servidas como aperitivos e jantares. É claro que haveria uma organização em torno disso, considerando inclusive a conservação de 20 mil delas para a procriação no futuro. O escritor e ensaísta francês, André Breton, ao escrever sobre Swift, já no século 20, o considera o precursor do humor negro, elogiando sua perspicácia ao tratar sobre política e as mazelas sociais. De fato, a Grã-Bretanha era um terreno fértil para críticas, além de sua já tradicional cultura literária voltada a textos que provocam peculiares tipos de risos, mesmo que não tão agradáveis.

O próprio Swift nascera em Dublin, na Irlanda, em 1667, filho de uma inglesa radicada no país. Devido aos problemas econômicos, sua mãe, Abigail Erick, irmã de um vigário ainda residente na Inglaterra, envia Swift já adolescente para Londres e, graças às boas relações com um diplomata que já trabalhara no parlamento irlandês, Sir Willian Temple, Swift consegue emprego como seu secretário na Inglaterra, enquanto se doutorava em teologia pela Universidade de Oxford. Depois de concluir os estudos, torna-se cônego em Killrooth, encaminhado também pelo próprio Temple (que diziam ser seu verdadeiro pai).

Desde 1685, a política inglesa estava dividida entre dois grandes partidos: o partido dos whigs que defendiam ideias liberais, porém contrários à ascensão de um rei católico; e o partido dos tories, conservadores e defensores da monarquia protestante. Neste ano, o católico James II é coroado. Sob forte pressão, no entanto, é destronado no mesmo ano pela filha protestante e pelo genro Guilherme III, que passa a governar. Essa batalha de poderes rende divisão também entre intelectuais conservadores, como o próprio Willian Temple, e autores modernizadores. Swift tomava cuidado até a medida do possível. Quando lançou As viagens de Gulliver, por exemplo, não assinou a obra, cuja autoria é simplesmente do viajante fictício, evitando sofrer possíveis processos.  Mas Swift se dizia contra tudo relacionado à política. Era a favor da verdade e contra qualquer forma de organização humana.

Rato na toca

Devido aos textos irônicos, ele acaba pagando um preço. Em 1713, quando a Inglaterra é governada pela Rainha Ana, do partido dos tories, Swift perde um importante cargo: ao invés de conseguir a Sé de Hereford, na Inglaterra, é nomeado como deão da Catedral de São Patrício, em Dublin. Ofende-se com a nomeação, mas crê que o melhor a fazer é retornar à Irlanda, onde se diz sentir-se como um rato entocado. No ano seguinte, os whigs voltariam ao poder, mas Swift já é uma forte voz pela causa irlandesa.

De qualquer maneira, e por mais que tivesse sua própria visão política, que parece tender ao lado mais conservador do conhecimento científico e social, Swift era apartidário. Ao invés de levantar bandeiras contra um partido ou outro, ele escreveu a sua maior obra, sobre homens de terras diferentes, comparando suas atitudes com a curiosa sociedade europeia e a política inglesa. Gulliver conversa e aprende sobre as sociedades que visita, mas na melhor delas, ele mesmo acaba sendo recusado, pois tem uma aparência que lembra a casta irracional da sociedade. Gulliver deixa os mares e retorna à sua vida reclusa.

Os últimos anos de Swift também foram destinados à reclusão. Na Irlanda, continuou escrevendo textos cheios de sátiras e ironias, entre eles Sobre a vassoura, em que compara o homem ao utensílio de faxina. Cada vez mais se convencia de que a estupidez humana era a grande culpada por todos os males sociais. Por conta disso, chegou a desejar a loucura, que o faria se esquecer da idiotice dos homens. Em 1736, ironicamente, adoece e é diagnosticado como louco. Internado num asilo, para o qual doaria quase toda sua herança, serviu de atração para curiosos – devido à sua doença e não à sua obra. Foi sua última viagem.

Texto originalmente publicado na revista Aventuras na História.

Novidades na área

A vida está em outro lugar (edição de bolso)

Milan Kundera

Cia das Letras

Jaromil cresce na Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas. Para o júbilo de sua mãe, manifesta já na infância o dom de criar rimas. O menino pouco conhecerá o pai, que é preso pela Gestapo e morre num campo de concentração. Assim, é a mãe quem vai cuidar para que seja um grande poeta.
O jovem, porém, se entusiasma com a revolução e põe sua arte a serviço da sociedade socialista. Para o desespero da mãe, ele não faz mais versos rimados. Agora redige palavras de ordem.
O poeta quer ser livre e pertencer a algo maior, e ele não está sozinho. A seu lado estão Rimbaud, Lermontov, a poesia da afirmação, da embriaguez. Mas Jaromil nunca será verdadeiramente livre, pois o universo que o gestou não lhe permitirá emancipar-se de suas amarras.

A senhorita de Scuderi 

E. T. A. Hoffmann

Record

Pela primeira vez publicada no Brasil, A senhorita de Scuderi, de E. T. A. Hoffmann, é considerada a primeira novela policial da história da literatura alemã. A obra abre a coleção Fanfarrões, libertinas e outros heróis, organizada por Marcelo Backes e destinada à publicação de clássicos da ficção mundial ainda inéditos no país. A narrativa vertiginosa criada pelo escritor germânico revela a investigação de assassinatos em série ocorridos na já glamourosa Paris, nos anos de 1680.
Admirado e louvado por alguns dos maiores escritores do século XIX, entre eles Heine, Balzac e Gautier, E. T. A. Hoffmann influenciou os franceses Victor Hugo, Baudelaire e Maupassant, os russos Puchkin, Gogol e Dostoievski, e os americanos Hawthorne e Edgar Allan Poe.

Febre do Panamá

 

Matthew Parker

Record

Iniciado em 2007, o ambicioso e bilionário projeto de expansão do Canal do Panamá – que será concluído em 2014 (ano em que completa um século de sua fundação), ampliando significativamente o comércio marítimo na região – é um dos responsáveis pela recente eleição do país como principal destino a se visitar em 2012 pelo jornal americano The New York Times. Considerado uma das mais monumentais obras de engenharia de todos os tempos, o Canal do Panamá foi a realização de um sonho iniciado 400 anos antes, quando o conquistador espanhol Núñez de Balboa descobriu um grande oceano, separado do Atlântico por uma pequena faixa de terra. A partir de 1880, e durante mais de vinte anos, milhares de homens se deixaram contaminar pela febre do progresso – além do tifo, varíola e uma variedade particularmente cruel de malária, conhecida como febre amarela. A empreitada épica, iniciada pelos franceses, foi finalizada pelos EUA em 1914. Em Febre do Panamá, Matthew Parker traz um relato minucioso sobre a concepção e construção do canal e revela os bastidores dessa tarefa hercúlea. Muito menor que o Canal de Suez, o do Panamá custou quatro vezes mais e demandou uma escavação três vezes maior. Montanhas, literalmente, tiveram que ser removidas, no que ficou conhecido como a maior arbitrariedade feita à natureza. E que marcou a ascensão dos Estados Unidos a uma posição de liderança mundial.

Diário de Oaxaca

Oliver Sacks

Cia das Letras

Conhecido por seus relatos clínicos que desvendam grandes mistérios do cérebro humano, Oliver Sacks revela uma nova faceta em seu diário de viagem para o estado de Oaxaca, no México. Durante dez dias, acompanhou um grupo de botânicos e cientistas amadores interessados em conhecer o hábitat das samambaias mais raras do mundo.
Entre descrições minuciosas da morfologia das plantas e uma ou outra digressão acerca de pássaros e tipos de solo, o texto concentra toda a sua força em desvendar um grande mistério da mente humana: a curiosidade científica. Ao observar de perto o comportamento de seus colegas de excursão, Oliver Sacks revela que a ciência, longe de ser uma seara de cálculos e experimentos, nasce do interesse genuíno e apaixonado de amadores, cuja erudição nem sempre supera a vontade de aprender e descobrir fatos novos.
Os personagens que compõem a expedição são sui generis. O grupo é composto de tipos humanos diversos: homens e mulheres, americanos e ingleses, cientistas e curiosos circulam com desenvoltura por selvas e grutas, mas protagonizam cenas de verdadeira comédia ao tentar, sem sucesso, se imiscuir no cotidiano das cidades mexicanas por onde passam. É o caso da visita coletiva feita a um alambique onde se processa o mescal, bebida alcoólica extraída do agave, uma planta nativa que também dá origem à tequila. Levemente alterados pela degustação a que se submetem no maior “interesse científico”, os expedicionários terminam sentados em uma pequena planície das redondezas, uivando para a lua e se “perguntando como será que os lobos e os outros animais se sentiram quando a lua, a sua lua, lhes foi roubada”.
Composto de uma gama variada de assuntos, Diário de Oaxaca versa ainda sobre a intimidade de Oliver Sacks, cujo mal-estar em relação aos meios oficiais e ultracompetitivos da ciência contemporânea fica evidente nas diversas passagens em que o autor externaliza sua admiração pelos amadores – classe de cientistas à qual, aliás, o livro é dedicado.

Dez mil guitarras

Catherine Clément

Cia das Letras

Um brâmane morre em Bengala, na Índia, e nasce de novo, como rinoceronte, na África. Para seu azar, sofre uma dupla reencarnação, levando para a nova vida sua antiga consciência, encerrada agora naquele animal portentoso. Quando já havia se acostumado a sua rotina de mergulhos na lama, é capturado e levado a Portugal para ser o bibelô de d. Sebastião, num reino prestes a deixar para trás seus dias de glória.
Com a alma e o corpo aprisionados, nada resta ao misto de brâmane e bada senão narrar tudo o que presencia e ouve falar, iniciando uma jornada que o levará a uma nova transformação, a outros países e a um insólito contato com a intimidade do filósofo René Descartes em seus momentos finais na corte da rainha Catarina da Suécia.
Misto de romance histórico e narrativa fantástica, o novo romance de Catherine Clément nos transporta com humor e magia aos tumultos políticos da Europa de fins do século XVI e meados do XVII.

A complexidade do real – uma entrevista com Edvaldo Pereira Lima

Edvaldo Pereira Lima é uma daquelas pessoas muito complicadas de se definir. Seu currículo, ainda que condensado, abrange páginas e mais páginas, mas vamos tentar dar uma ideia de quem ele é. Professor aposentado da Escola de Comunicação e Artes da USP, é Doutor em Ciências da Comunicação pela mesma universidade e realizou o pós-doutorado em Educação pela Universidade de Toronto, no Canadá. Também deu aulas como professor-visitante nas universidades de Florença, na Itália, e Londres, na Inglaterra. É co-fundador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, onde ainda ministra aulas.

Ed, como costuma ser chamado pelos conhecidos, foca boa parte de suas pesquisas nas narrativas de não-ficção, mas costuma ir além do convencional, propondo integrações multidisciplinares ao jornalismo.  Já escreveu diversos livros, dentre eles Páginas Ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, O que é livro-reportagem, Colômbia Espelho América, Aytorn Senna: o guerreiro de aquário e Escrita total. Recentemente, escreveu o capítulo sobre o Brasil do livro Literary Journalism around the Globe.

Nesta conversa para o Canto dos Livros, Ed fala sobre Jornalismo Literário (ou simplesmente JL), o poder das histórias edificantes e como a falta delas afeta o ser humano, mitologia, física quântica, olhar holístico sobre o mundo e alguns outros assuntos, como uma paixão de adolescente que levou para o mundo profissional.

Canto dos Livros: É constante o aumento de livros de não ficção nas livrarias. O que isso significa? As pessoas estão perdendo o interesse pela ficção?

Edvaldo Pereira Lima: Não sei se estão perdendo o gosto pela ficção, mas é fato que os livros de não ficção conquistaram nos anos mais recentes um lugar especial na produção das editoras, nas prateleiras das livrarias e no gosto do leitor.  Talvez parte desses leitores também leia ficção, enquanto uma parcela significativa (da qual fazem parte  leitores que antes não tinham o  hábito de ler, talvez) escolhe particularmente a não ficção.  De qualquer modo, o fato demonstra a maturidade do mercado editorial de livros, pelo menos nos grandes centros urbanos do país. Esse público encontra nos livros de não ficção abordagens exclusivamente disponíveis em livros, retratando distintos aspectos da vida real, quanto linhas temáticas de algum modo tratado por outras mídias, mas sem a longa duração e – às vezes – o aprofundamento desejado.

CL: Quais as boas novidades que apareceram no Jornalismo Literário nos últimos anos?

EPL: No caso brasileiro, o que merece registro é a continuação da produção de livros-reportagem em volume respeitável, sejam traduções de obras assinadas por autores internacionais, sejam trabalhos de escritores nacionais.  Alguns desses títulos apresentam qualidade narrativa considerável.  É o caso, recentemente, de Os Últimos Soldados da Guerra Fria,  de Fernando Morais, publicado pela Companhia das Letras. Trata-se de uma saborosa e competente narrativa da história algo que tragicômica de espiões cubanos que se infiltram no movimento anti-castrista dos Estados Unidos.

CL: Recentemente foi publicado o livro Literary Journalism around the Globe, cujo capítulo sobre o Brasil é de sua autoria. O Brasil tem alcançado seus próprios traços no Jornalismo Literário? 

EPL: Sim, há  características peculiares que marcam a produção do jornalismo literário por autores brasileiros. Nem sempre a precisão é tão meticulosa como se vê na produção norte-americana, por exemplo. Em compensação, o estilo é às vezes algo mais esteticamente livre,  como nas reportagens de Eliane Brum, ou apresentam um tom descontraído, quase como uma conversa entre compadres, como se percebe em textos de José Hamilton Ribeiro, por exemplo.  Participar deste livro – lançado nos Estados Unidos em 2011 pela University of Massachusetts Press, por iniciativa da International Association for Literary Journalism Studies, foi uma honra, contribuindo para divulgar internacionalmente os trabalhos pioneiros de Euclides da Cunha e João do Rio, assim como a fase exuberante da revista Realidade e do Jornal da Tarde na década de 1960. O livro, por sinal, pode ser comprado no Brasil através dos serviços de importação de grandes livrarias, como a Cultura, ou por meio da Amazon, na Internet.

CL: Dentro do JL, o que é inspiração? Você acredita no famoso 99% de transpiração e 1% de inspiração? O que você faz para conseguir esse bendito 1%?

EPL: Esses duas marcas da produção do JL geralmente atuam juntas.  Há um movimento de esforço e trabalho duro do autor – especialmente na pesquisa, no levantamento de campo, nas entrevistas, nas observações in loco –, por um lado, e inspirações que iluminam questões essenciais de uma obra, de outro,  ou ajudam a gerar passagens narrativas de qualidade estética. Uma coisa não existe sem a outra. Colocando de outro modo, uma delas, sozinha, é geralmente insuficiente para gerar uma boa obra de JL.  Você precisa das duas abordagens.

CL: A sua pesquisa envolve muito as chamadas histórias edificantes. Quais são os traços dessas narrativas? Como dosar este teor entre o drama humano e algo que edifique o leitor?

EPL: O que move o bom JL é a procura de compreensão dos episódios reais sob uma perspectiva integral, plena, que abarca tanto os aspectos factuais quanto os conteúdos subjetivos.  Se o autor é consciente de que o eixo condutor da boa narrativa  está nos conflitos que marcam o drama humano da existência, tem condição de manter o interesse do leitor do princípio ao fim, mesmo que a história escape de um final trágico ou amargo, ou mesmo que apesar de algo dessa natureza, exista um significado edificante.  Na vida real, nós seres humanos somos criaturas conscientes até um certo ponto; inconscientes, noutra medida.  O drama motor de toda existência humana é a pressão interna para que a nossa consciência se expanda ao máximo, diminuindo tanto quanto possível nossa porção inconsciente, que nos traz sofrimentos existenciais terríveis.   Somos seres impulsionados para sairmos das sombras – as porções negativas e muitas vezes destrutivas do inconsciente –, reconhecermos o que rejeitamos em nós próprios, nos demais e no mundo, e iluminarmos essa parte indesejada da nossa realidade, transformando-a.  Toda narrativa pública transporta implicitamente uma visão de mundo, contribuindo ou para manter o grau de consciência do leitor num nível muito baixo de entendimento da realidade, ou ajudando-o a despertar para uma visão transformadora, que não termina no ângulo puramente derrotista, negativista.  A visão negativista que conduz o leitor a um beco sem saída e à construção mental de uma representação destrutiva – a imagem de que o mundo não tem saída, de que a espécie humana é mesmo esse desastre sem conserto que vemos nos infinitos casos de corrupção profundamente imoral ou nas infindáveis histórias de crueldade do homem contra o homem – não é algo gratuito, sem efeito. Ao contrário, colabora para gerar, no inconsciente coletivo, que abarca a todos nós, um funesto pessimismo e uma desvalorização perigosa da nossa identidade enquanto indivíduos e espécie. Lamentavelmente, boa parte da produção de massa, na indústria cultural, contribui para a escravização das consciências nesse baixíssimo patamar de visão reduzida, ignóbil, das coisas, como é exemplo bem recente este polêmico caso do Big Brother, da Rede Globo de Televisão, em que vemos um deprimente episódio da baixaria que domina os princípios diretrizes de um programa produzido com todo o requinte tecnológico moderno, com audiência estrondosa, mas vergonhoso patamar de valores. A que serve algo assim? A manter as pessoas como que hipnotizadas, alienadas dos aspectos mais sublimes da vida.  São como que vampirizadas na consciência.  Resulta que ao se exporem a assistir sistematicamente a esses medíocres espetáculos de baixaria, estão dando um tiro no coração de sua própria dignidade como seres humanos.

No JL, se queremos que cumpra um papel que realmente valha a pena, nobre, na sociedade, não pode se sujeitar a essas imbecilidades dos meios de comunicação de massa. Precisa transcender essa nuvem nebulosa do pão e circo que domina boa parte da mídia, procurando retratar a realidade em sua complexidade vital, onde imperam fenômenos tanto luminosos quanto escurecedores da consciência, mas onde também manifestam-se inúmeros casos de seres humanos que transcendem a banalidade doentia da maior parte do nosso mundo contemporâneo, revelando que sim, temos esperança como espécie, ainda somos capazes de grandeza e nobreza.  A descoberta dessas qualidades, sua manifestação e consolidação nas pessoas exige um esforço enorme, às vezes dramático, em busca da consciência perdida. O drama humano verdadeiramente poderoso, narrativamente, é a trajetória dessa descoberta, na qual a consciência individual atravessa as barreiras tenebrosas dos poderes – políticos, culturais, econômicos – coletivos que tentam de todas as formas impedir que o indivíduo  liberte-se das visões de mundo escravizantes que para eles é cômoda, mas que para a pessoa humana é terrível, pois achatam e sufocam sua liberdade potencial de ser integral, pleno, verdadeiramente independente.  Dramas deste tipo, das jornadas de crescimento da consciência individual rumo ao seu potencial pleno, são cheios de suspense e desafios que não deixam a desejar a nenhum bom roteiro de Hollywood. Cabe ao autor de JL o exercício da sensibilidade para captar esse drama e contá-lo com maestria, tocando o coração e a mente do leitor, tanto pela qualidade narrativa de sua história quanto pela visão de mundo transformadora inerente a histórias desse quilate.
CL: Como o conhecimento de diferentes mitologias pode auxiliar um escritor a construir um texto de ficção ou não ficção?

EPL: Mais do que o conhecimento de mitos específicos – isto é, de histórias que apresentam sentido profundo, pela simbologia que transportam –, é bastante útil a escritores de ficção e não ficção conhecerem o processo arquetípico conhecido pelo nome de Jornada do Herói, padrão estruturador de narrativas que tem se mostrado universalmente aplicável na organização da sequência e dos elementos que compõem uma boa história dramática. O processo foi sistematizado gradativamente, começando pelo clássico livro O Herói de Mil Faces, do mitólogo Joseph Campbell, e chegando à  Jornada do Escritor, de Christopher Vogler – que reúne tanto conceitos de Campbell quanto do pai da psicologia humanista, Carl Gustav Jung –, ambos trabalhos de enorme importância na construção narrativa dos filmes de Steven Spielberg, George Lucas e James Cameron, por exemplo.  Pude formatar uma adaptação dessa linha estuturadora de narrativas a matérias de JL, formato este todo como partida para a Tese de Doutorado de Monica Martinez que resultou em seu livro Jornada do Herói: A  Estutura Mítica na Construção de Histórias de Vida em Jornalismo (Annablume, 2008).  A Jornada do Herói serve como baliza decisiva, ajudando o autor a compreender a dinâmica narrativa potencial da história sobre a qual esteja trabalhando, e a organizá-la no seu texto.

CL: Você defende que um escritor tenha uma base holística. Quais pontos de vista comumente vêm sendo negligenciados por esses profissionais?

EPL: A visão holística verdadeira nada tem a ver com concepções místicas de qualidade duvidosa.  Diz respeito, sim, a uma visão de mundo  integral, sistêmica, complexa.   É uma abordagem muito diferente desse patamar raso, mecanicista, superficial, esquemático que impera na maior parte dos relatos públicos, tanto na mídia jornalística quanto mesmo em obras de ficção. A nossa sociedade está nessa situação crítica em que se encontra parcialmente por causa desse olhar míope sobre a realidade que impera na maior do sistema cultural e do sistema educacional.  Essa visão distorcida e reducionista trouxe à nossa civilização este mundo em perigoso caminho de autodestruição em que nos encontramos. É urgente uma revisão e uma transformação do nosso olhar, rumo a uma perspectiva complexa, integral – portanto holística, já que a palavra “holos” quer dizer todo –, dinâmica, processual.  Se um jornalista literário absorve os instrumentos comprovadamente eficazes do JL para construir narrativas e a isso acrescenta um modo de ver holístico, realiza um trabalho de grande importância para a transformação da consciência do leitor rumo a um patamar relevante de compreensão dinâmica da realidade.  A aquisição de um olhar holístico é possível através do estudo de propostas de vanguarda existentes em vários campos do saber e da prática em que o autor reeduca sua maneira de ver as coisas, desenvolvendo para isto não só seus potenciais mentais, intelectuais, mas também suas emoções e seus processos intuitivos, colocando-se a serviço de captação e ressignificação da realidade.

CL: O que a física quântica, um assunto cujo estudo é de seu interesse, tem a acrescentar ao jornalismo?

EPL: Muito, pois é um dos campos da ciência que nos ajuda exatamente a olhar para a realidade com uma angulação complexa, dinâmica, abrangente. Tome-se, por exemplo, o conceito de múltiplas realidades apresentado pelo grande físico téorico David Bohm, e já estaremos vendo os fatos da história imediata de nossos dias não como algo raso, superficial e mecânico, mas como um processo complexo que nos abre um horizonte muito mais vasto de entendimento orgânico, vivo, efetivo e significativo do que é, verdadeiramente, esse fenômeno extraordinariamente desafiador e belo que se chama vida.

CL: Como podemos utilizar o máximo de potencial de nossa mente na hora de contar uma história?

EPL: Conhecendo a mente, abrindo nossa percepção para descobrir como pensamos, como vemos a realidade, que fatores condicionam o modo como a percebemos.  Praticando exercícios de distintas metodologias que nos ajudam a sairmos fora do padrão reduzido de visão das coisas apenas pelo lado estreito da racionalidade reduzida. Aprendendo a usar técnicas e métodos de ativação da criatividade que ensinamos nos cursos de pós-graduação da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, como a visualização criativa.  Exercitando alguns desses dispositivos de vanguarda que disponibilizo no meu método e livro Escrita Total de redação espontânea.  Aprendendo a meditar, como nos cursos e práticas do budismo, especialmente em suas linhagens tibetanas.  Abandonando os preconceitos da racionalidade estreita. Deixando nossa sensibilidade falar mais alto.

CL: Em todo seu tempo de carreira, qual sua maior decepção literária (um livro, um autor, algo que tenha ficado muito abaixo da sua expectativa…)? Por quê?

EPL: Não seria ético citar nomes, mas há alguns livros-reportagem decepcionantes, assinados por profissionais de renome do jornalismo, mas que nada sabem sobre a natureza real e as exigências do livro-reportagem. São pessoas famosas da mídia diária, mas que ao trabalharem um tema potencialmente rico, em livro-reportagem, levam para essa modalidade o mesmo padrão de linguagem e o mesmo caráter efêmero, superficial, do jornal do dia a dia. Metem os pés pelas mãos, produzindo um resultado pífio.

CL: Qual você julga ser o erro mais frequente de um pretendente a autor de não-ficção? E de ficção?

EPL: No primeiro caso, querer deitar verdades, como se sua leitura da realidade fosse a mais perfeita e a mais absoluta de todas. No segundo, achar que destilar pobreza de olhar o mundo a partir de seu próprio umbigo é a coisa mais esplendorosa que já aconteceu na história da literatura.

CL: Por que a opção por publicar alguns de seus livros por conta própria? Qual a vantagem, para o autor, nesse tipo de publicação?

EPL: No meu caso, não se trata propriamente de publicação por conta própria, mas sim de publicação por um sistema editorial independente e inovador.  Tenho livros publicados por editoras convencionais, mas também tenho títulos pelo Clube de Autores, iniciativa que democratiza sobremaneira a publicação de livros no país. O Clube oferece aos autores um modo de publicação instantânea, sobre a qual têm controle e domínio bastante grande do processo de edição, em si, sem custos e sem a burocracia operacional que cerca o trabalho costumeiro das editoras convencionais.

CL: Sua paixão pela aviação é amplamente reconhecida. Você trocaria tudo o que realizou dentro do jornalismo – e, mais amplamente, dentro de todo campo de narrativas de não ficção – para ter sido piloto? Por quê?

EPL: Não. O sonho de ser piloto foi uma paixão de adolescência. O que me move na aviação, mais do que tudo, é o que representa como liberdade e velocidade para unir culturas, conhecer mundos, transpor distâncias, descobrir territórios, povos e histórias dos mais variados cantos do globo. Estou feliz em unir de um jeito peculiar as duas coisas.  Parte da minha atividade profissional consiste em escrever, como jornalista, sobre aviação comercial.

CL: Um daqueles clichês, mas que todos gostam de saber a resposta: quais os seus livros e autores preferidos?

EPL: No JL, quase todos os livros de Gay Talese, com destaque para seu clássico Fama & Anonimato, assim como  para o ótimo  O Olho da Rua, de Eliane Brum. Em biografias, o bom O Mago, de Fernando Moraes, sobre Paulo Coelho.  Na ficção, o divertidíssimo Pantaleão e as Visitadoras, de Mario Vargas Llosa, assim como o extraordinário romance de ficção científica Shikasta, de Doris Lessing.  Na filosofia da ciência e suas implicações para toda a sociedade, o fabuloso Ponto de Mutação, de Fritjof Capra. Na categoria de boa narrativa por cientistas, Muito Além do Nosso Eu, de Miguel Nicolélis.   No conhecimento não convencional da realidade, os intrigantes livros assinados por Ramatís, psicografados pelo médium Hercílio Maes, com destaque para A Fisiologia da Alma. Em narrativa de viagem, o excelente Um Adivinho Me Disse, de Terziano Terzani.

CL: Está preparando alguma novidade que já possa nos contar?

EPL: Estou preparando sim, mas prefiro nada dizer, por enquanto.

Cuide do corpo! Seja sarado! E a cabeça?

Por Rodrigo Casarin

Está aí o verão. Principalmente nesta época do ano, é difícil passarmos um dia sem ver na tevê, escutar no rádio ou ler em alguma revista ou site alguém falando sobre como cuidar do corpo. A ordem é clara: todos precisam estar em forma. Ser saudável não basta, é preciso ser sarado. É preciso que seu corpo esteja de acordo com os padrões de beleza atuais, nada de se achar bonito apenas por seguir critérios renascentistas. Ter uma barriga passa a quase ser um crime. Se ainda o barrigudo for flagrado se deliciando com uma bela porção de calabresa acebolada e um tonel de cerveja, aí o julgamento e a acusação são inevitáveis: precisa se cuidar mais.

E ta lá no programa das 13h20: tome suco de clorofila com jaca para diminuir a barriga; na revista semanal: corra 150km por dia e coma apenas mato para atingir o corpo perfeito; na Internet: plante a própria melancia e conquiste o corpo da mulher fruta da estação… É um policiamento constante, uma lavagem cerebral permanente.

Claro que ter um corpo saudável é importante, contudo, não é isso que pregam, não se enganem. Basta ver a quantidade de pessoas que tomam diversos tipos de substâncias maléficas ao ser humano apenas para atingir os formatos que nos empurram goela abaixo como sendo os ideais. Agora, se fingem querer que todos tenham uma saúde impecável, por que não desejam o mesmo para o cérebro?

Que interessante seria se assistíssemos na televisão, ouvíssemos nas rádios e lêssemos em qualquer canto sistematicamente coisas do tipo: “Você precisa ler mais, é importante para o seu cérebro”, “Não dê opiniões sem fundamentações básicas, estude o assunto antes de meter o bedelho”, “Ache o que quiser, mas saiba embasar os seus achismos”. Poderiam criar programas, que passariam no horário nobre, com dicas de leituras e debates sobre obras consagradas. Com o tempo, as pessoas se acostumariam com nomes como Tolstoi, Philip Roth, Gabriel Gárcia Márquez, Cristovão Tezza ou Jorge Luis Borges. Ficariam íntimas de Ryszard Kapuscinski e Charles Bukowski. Não estranhariam aquele gordo que continua comendo feito um porco, mas qualquer um que não saiba o mínimo sobre Dostoievski.

Obviamente outros programas abordariam outras manifestações artísticas. Os filmes enlatados dos Estados Unidos dariam lugar a verdadeiras obras de arte. Menos Spielberg, mais Ricardo Darín, Almodóvar e Lars Von Trier. Em seguida, discussões sobre as obras e como elas se encaixaram no contexto da época em que foram filmadas. Outras formas de se expressar também teriam seu lugar, tudo para que o cérebro de cada um seja realmente desenvolvido.

Alguns bons anos depois, teríamos muito mais pessoas cultas e verdadeiramente inteligentes por aí, com real capacidade para lidar com os problemas, com uma dimensão muito maior da realidade, que saberiam conviver muito melhor com as diversidades e respeitar o próximo. O próximo, esse sim, poderia ser gordo, magro, tanto faz, desde que saudável. Saudável de corpo e, principalmente, de mente (com o perdão do cacófato).

Novidades na área

Abaixo de zero

Bret Easton Ellis

L&PM

Abaixo de zero é o livro de estreia de Bret Easton Ellis. Lançado em 1985, é um retrato visceral da geração perdida dos anos 80. Clay, o protagonista, de férias da faculdade, volta para a casa dos pais em Los Angeles. Juntamente com os amigos da época do colégio e uma antiga namorada, entra numa espiral de drogas, sexo e dinheiro que acentua o vazio existencial de toda essa geração. Esse destino incerto é retomado pelo autor 25 anos depois em Suítes imperiais (Rocco, 2011), no qual mostra esses mesmos personagens, já adultos, confrontando suas experiências passadas.

Com seu primeiro livro, Bret Easton Ellis que, na época do lançamento tinha praticamente a mesma idade dos personagens, chamou a atenção para a passividade e a inconsequência dessa juventude e delineou aquela que seria a temática central de sua obra: como as cicatrizes da adolescência podem ser profundas e difíceis de apagar.

Andy Warhol

Mériam Korichi

L&PM

Quando Andrew Warhola (1928-1987) chegou a Nova York em 1949, vindo da inóspita Pittsburgh, ele tinha 21 anos e uma obsessão: tornar-se célebre. O jovem descendente de imigrantes logo fabricou Andy Warhol, este personagem midiático, adulado, controverso, que tudo queria e tudo fazia acontecer. Era pintor, escultor, fotógrafo. Era ator, homem de televisão, manequim. Era produtor de banda de rock, diretor de revista. Era dramaturgo, cineasta, romancista. Criou um universo, a legendária Factory, onde circulavam livremente drogas, sexo, artistas e vagabundos. Era um verdadeiro rebelde, genial, inventivo, underground. Por trás de sua peruca prateada, seu exibicionismo, escondia-se um criador exigente e frágil, cuja vida e obra formaram um espelho desencantado e cheio de humor. Mais que um personagem, tornou-se um mito.


Cães heróis

Mario Bellatin 

Cosacnaify

Segundo livro de Mario Bellatin publicado pela Cosac Naify, Cães heróis é a perturbadora história de um homem paraplégico, seu enfermeiro e trinta pastores belga malinois “prontos para matar quem quer que seja com uma única mordida na jugular”. Assim como em Flores, a edição brasileira de Cães heróis tem projeto gráfico radical: com letras que aumentam e diminuem de acordo com a intensidade da narrativa, o livro vem “mutilado”, com uma embalagem de plástico no lugar da capa.

Oficina de Criatividade em Porto Alegre

Começa hoje, em Porto Alegre, a Oficina de Criatividade com Lehgau-Z, que já foi entrevistado aqui do Canto dos Livros. A oficina é uma atividade dinâmica e multidisciplinar que busca resgatar as fontes criativas de cada indivíduo. As duas aulas contarão com atividades lúdicas que vão trabalhar com questões relativas aos bloqueios e desbloqueios da capacidade de criação de cada um dos participantes.

Quando: Dias 19 e 20 de janeiro, às 18h30min

Onde: Na Palavraria – Vasco da Gama, 165 – Telefone: 51-3268 4260

Quanto: R$90,00 por participante

O Antiamericano Americano

Por Alberto Nannini

O Antiamericano Americano

Recentemente, eu e o Igor falamos sobre a hipótese da organização do mundo e da sociedade como a conhecemos ruir (aqui e aqui). Não é algo que se pense ou escreva com frequência, a não ser que você seja meio paranóico ou se chame Neil STRAUSS, e tenha escrito “EMERGÊNCIA – Este Livro Vai Salvar sua Vida”, 396 pags, publicado pela editora Best Seller.

Crítico musical da prestigiada revista Rolling Stone, autor de um livro de enorme sucesso  – “O JOGO – A Bíblia da Sedução” – era como todo americano médio: vivia num “mundo à parte do mundo”, gozando da prosperidade do seu país, confiante no “sistema”, alienado de todo o restante e se sentindo inatingível, ao ponto de, jocosamente, colecionar em suas viagens souvenires com temática anti-americana, como camisetas e postais.

Mas então, sobreveio a data fatídica: 11.09.01, e a sensação de segurança do americano médio desabou, em meio a milhares de toneladas de vidro, metal e fogo, junto com as torres gêmeas.

De repente, STRAUSS não era mais tão jocoso em relação ao anti-americanismo. Mais que isso, ele se deu conta de que eles eram odiados de forma quase unânime, e reeleger o G.W. Bush não foi exatamente uma ajuda… Veja o que ele diz a respeito:

“Depois da eleição de 2004, porém, foi tudo diferente. Desta vez, Bush foi eleito de fato. E a mensagem enviada a todos os outros países do mundo era a de que o povo americano aprovava suas ações. Assim, Bush já não era o estúpido aos olhos do mundo, mas sim, nós.”    

Como tudo o que está ruim sempre pode piorar, em agosto de 2005, o furacão Katrina arrasou a cidade de Nova Orleans, e, para espanto geral, o governo da nação mais avançada do planeta demorou a eternidade de 5 dias para reagir de maneira apropriada, sob a alegação de que “não estavam preparados para uma tragédia destas dimensões.” Esta foi a gota d’água, literalmente, para o autor, que resolveu “pular do barco”: ele seria um sobrevivente, a qualquer custo.

A partir daí, o livro vira uma verdadeira saga, até ele se metamorfosear de um sedentário urbano para um especialista em sobrevivência. Ele vai contando o que aprendeu e como aprendeu, desde improvisar uma faca com um cartão de crédito a se descontaminar no caso de um ataque com uma “bomba-suja”, do tipo que usa materiais radiativos. Sobra espaço até para uma redenção, lá pelo fim do livro, como toda boa história.

Isso tudo é bem legal de se ler, especialmente se gostar de assistir a programas como “Survivor” e “A Prova de Tudo” (você chegará inevitavelmente a esta conclusão: Bear Grills é uma mocinha!). Legal, mas não valeria a resenha, nem a indicação.

O que há no livro que vale tanto a resenha como a indicação, na minha opinião, foi algumas  reflexões que o pioneirismo da visão do autor te leva a fazer. Primeiro, porque é um americano tentando a todo custo conseguir uma dupla cidadania, porque quer sair dos Estados Unidos. Aventa até mesmo a possibilidade de engravidar uma brasileira, já que nossas leis, segundo ele conta, a concedem automaticamente a um estrangeiro que o faça. Mas no fim, para sorte ou azar de nossas incautas moçoilas, o autor dirige suas forças para São Cristóvão e Névis… Não, não o time de futebol do Rio de Janeiro… Você sabe, aquele país lá, que “vende” dupla cidadania por meio de algumas brechas… e do qual eu nunca tinha ouvido falar até então.

O que importa é sair da “América” – e o próprio autor percebe a ironia, em determinado momento, ao ir a uma cerimônia de atribuição do green card, espécie de visto permanente a estrangeiros.

Isso traz uma voz bastante diferente à história, como uma crítica interna e pessoal a tudo aquilo que ele vê e vive todo os dias.

Mas ainda mais relevante – e impressionante – é a análise que ele e alguns amigos discutem, sobre o que poderia estar por vir. Veja só este trecho:

“– Todo mundo concorda que os terroristas odeiam os Estados Unidos e os norte-americanos, e que querem nos destruir, certo?

- É por isso que são chamados de terroristas.

- Mas, alguma vez, vocês já pararam pra pensar que talvez não seja este o plano deles? Osama Bin-Laden não é tão estúpido e ignorante como a maioria dos norte-americanos pensa. Talvez seu plano seja destruir nossa economia. Porque esta é a única maneira de acabar de fato com os Estados Unidos da forma como nós o conhecemos. E nosso governo entrou perfeitamente no plano dele, iniciando guerras que custam centenas de milhões de dólares e que não têm fim à vista.”

Viramos os maiores adivinhos DEPOIS de acontecer algo, do tipo: “Eu sabia o tempo todo!”, “Tava na cara que isso ia acontecer” e afins. É por isso que nos parece incrível que não tenha havido muito mais predições do colapso econômico que atinge proporções globais, que tem como “marco” o anúncio da quebra do banco Lehman Brothers, em 15.09.08, e cujos efeitos persistem até hoje. O copyright do livro registra o ano de 2009, poderia até ter dado tempo de escrever já ciente de tudo; mas a seqüência cronológica que relata a história do autor situa este diálogo algum tempo após a tragédia do Katrina. Ou seja, tudo leva a crer que o autor interpretou antes e de forma certeira os sinais no horizonte, e sua odisséia para estar pronto para isso foi conseqüência.

Agora, com toda autoridade profética de quem está vendo o fato acontecer, podemos dizer que a queda do maior império que já existiu parece iminente. Esta queda não deverá ser fragorosa, com a nação norte-americana varrida do planeta; está mais para um grande “encolhimento”. Lendo a respeito, vejo que os autores concordam que a sanha expansionista geralmente é o epitáfio de um império. Afinal, é muito mais difícil manter do que conquistar. Daí que a logística envolvida em guerras a milhares de quilômetros, com objetivos escusos, não poderia dar em outra coisa. Linda Bilmes, escritora e especialista em Políticas Públicas da Universidade de Harvard, estima o custo da chamadas “guerras contra o terror” em TRÊS TRILHÕES de dólares, ou cerca de 20% da dívida que está afundando a economia americana, como talvez fosse o desejo de Bin Laden.

Contudo, eu particularmente não assisto a esta derrocada de maneira jocosa. Acredito que a democracia é a menos pior das formas de governo inventadas até hoje; prezo a liberdade que este sistema traz, ainda que se possa discutir até quais limites ela chega; e reconheço o mérito de uma nação de história muito recente se erguer como um colosso.  Seus muitos pecados não me passam em branco, mas não vejo diferença entre eles e quaisquer outras nações, a nossa inclusive. Vejamos:

-         massacres dos índios nativos: eles, e nós também;

-         opressão aos mais fracos: eles, nós e todos os outros que são ou já foram fortes;

-         consumo irresponsável das reservas energéticas e destruição do meio ambiente: idem-ibidem.

Enfim, já tive a posição de ser um tanto antiamericano – mas sem abrir mão de conquistas reforçadas/melhoradas por eles, de consumir seus produtos, de gostar muito de alguns derivados da sua cultura – e cheguei a conclusão que esta minha posição era mais emocional do que fundamentada.

Hoje, se eu tivesse que me opor a um opressor, seria contra a própria noção de nacionalidade. Ela parece ser uma evolução natural às famílias, aos clãs e aos outros agrupamentos que foram surgindo, mas acaba dividindo e estigmatizando as pessoas, ao invés de reforçar o que temos em comum. Mas também confesso que não estou disposto a abrir mão de tudo o que batalhei para conseguir para que isso mude.

Enfim, o antiamericanismo puro e simples me parece um tanto parcial e até invejoso. Inacreditavelmente, com a súbita melhora de muitos de nossos índices econômicos, o Brasil passou de figurante sem-nome-de-costas-pra-tela a coadjuvante de 1ª linha no “palco” mundial, e não precisa mais ser por problema de “auto estima enquanto nação” – ou a velha “Síndrome-do-Patinho-Feio” – que se permaneça antiamericano. Neil STRAUSS lista motivos bem melhores, ainda que um tanto pessoais. Mas ainda acho que a maior parte do antiamericanismo que se vê por aí é apenas e somente moda.

Se você tiver ainda motivos mais fortes para ser antiamericano, podemos discutir a respeito. Acho que o próprio Neil Strauss também gostaria de participar de um debate assim, caso encontrasse tempo ou ainda precisasse de um filho brasileiro. De qualquer forma, devemos discutir logo, porque, em apenas algumas décadas, que é um piscar de olhos para a História, se estivérmos vivos, pode ser que eu te repreenda, dizendo que é feio chutar cachorro morto.

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