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Por toda a equipe

Recentemente, eu, Rodrigo, entrevistei o escritor Antonio Lino para uma matéria que escrevi para a Revista da Cultura. Como o texto solicitado era pequeno, tive que descartar quase tudo que o entrevistado disse, resultando na famosa e lamentável pescada de aspas. Contudo, para que o conteúdo da boa entrevista não se perca, resolvi expandi-la com a colaboração de toda a equipe aqui do blog,

Antonio Lino é um dos tipos raros que não deixa que a vontade de cair na estrada sem destino certo e nem data para voltar fique apenas nos sonhos. Sem medo de sumir um pouco do mundo onde vivia, largou São Paulo para trás e foi explorar os confins do Brasil em uma Kombi, que se transformou em sua casa. Da aventura nasceu o Encaramujado, um livro que conta parte de tudo o que o escritor viveu ao longo da viagem aos interiores – do país e de si mesmo. Cuidado, leitor, a conversa abaixo deixará você com um imenso desejo de cometer alguma semelhante saudável loucura.

Canto dos Livros: Qual foi o seu maior objetivo ao escrever o Encaramujado?

Antonio Lino: Escrevendo eu colocava alguma ordem na bagunça de sentimentos que a viagem me provocava. E ao mesmo tempo em que a viagem ia definindo o livro, o contrário também acontecia: o livro ia definindo a viagem. Esses dias, li uma frase do Sérgio Sant’Anna com a qual me identifiquei muito. Ele dizia: “Às vezes até seleciono aquilo que vou viver em função do que desejo escrever”. Sendo assim, não sei bem se foi o maior, mas creio que um dos grandes objetivos do Encaramujado, desde o começo, foi me servir como uma espécie de cajado, que me ajudou muito a firmar meus movimentos, enquanto eu vivia os abalos intensos da viagem.

CL: Como você vê a literatura de viagem no Brasil e o que te motivou a fazer algo do gênero? Foi inspirado por algum autor em particular?

AL: Para além dos relatos de aventura, a literatura de viagem é um gênero bastante amplo, e um tanto difícil de enquadrar. Talvez nem seja propriamente um gênero, mas um “transgênero”, digamos assim, pois flerta com a ficção, com o ensaio, com a crônica, com a reportagem, com a poesia… Por isso, não me arrisco a fazer uma análise da literatura de viagem no Brasil, seria muito pretensioso da minha parte. Mas tenho minhas preferências, claro. No que se refere aos relatos não ficcionais, por exemplo, já li muitos livros que me pareceram descritivos demais, uma coleção de detalhes, diários repletos de pormenores. Acho isso enfadonho. Não me interessa saber o que o cara comeu no café-da-manhã, se ele escovou os dentes depois, se parou pra abastecer o carro… Nesse sentido, em geral, prefiro os escritores que viajam aos viajantes que escrevem. E especificamente em relação ao Encaramujado, um autor que me inspirou muito foi o Julio Cortázar. Na década de 80, ele viajou numa Kombi vermelha pela França, com a sua esposa de então, a Carol Dunlop. A partir dessa experiência, juntos, os dois escreveram Os Autonautas da Cosmopista. Além da qualidade literária (e da referência à Kombi, claro), o que me fascina bastante nesse livro é a destreza poética dos autores, que transformaram uma viagem tão aparentemente ordinária (o casal passou 30 dias na mesma estrada, encostando em todos os pontos de parada que encontravam pelo acostamento) num relato incrivelmente sensível e criativo. Para mim, esse é o ponto: nos livros sobre viagem, é o olhar do viajante, mais do que a viagem em si, o que realmente me inspira e me interessa.

CL: Como você se organizou para fazer essa viagem? Estabeleceu datas, orçamentos, roteiro geográfico…?

AL: Entre a decisão de viajar e a saída, passei cerca de um ano cuidando dos preparativos. Na verdade, o mais difícil mesmo foi me desligar das relações e compromissos que me seguravam em São Paulo. O resto foi cair na estrada. Eu tinha amigos espalhados pelo país que eu queria visitar e pretendia também conhecer alguns festejos tradicionais da cultura popular brasileira. Estive por exemplo na Festa do Divino, no Maranhão, num festival do povo Yawanawa [foto], no Acre, num Encontro dos Povos do Cerrado, em Goiás… mas quando eu não ouvia nenhuma batucada por perto, geralmente os acasos é que me guiavam. Na maior parte do tempo, viajei sem lugar certo para ir nem hora marcada para voltar.

CL: Um projeto como o Encaramujado exige certo nível de desapego afetivo, não?. Por outro lado, deve proporcionar uma amplitude imensurável na capacidade de lidar e compreender gente diferente. Após a viagem, o que mudou no jeito com que você lida com as pessoas? É mais fácil ou mais difícil “se apegar” ou ter afinidade com outra pessoa? Por quê?

AL: Além do desprendimento inicial, na saída, quando é preciso se separar da família e dos amigos, durante a viagem também se pratica continuamente esse desapego afetivo em relação às pessoas que cruzam seu caminho na estrada. De tanto se separar dos outros, o viajante acaba aprendendo melhor como estar junto. Parece um paradoxo, mas as despedidas ensinam algo sobre os encontros. E o que sinto depois dessa experiência é que o desapego não precisa se confundir com uma certa frieza, ou até desdém, no trato com a vida, não é isso. Acho que o cuidado todo é para não cultivar falsas sensações de posse e controle em relação a alguém. Sem esse sentimento de “propriedade particular”, as amizades e relações amorosas tendem a ganhar uma profundidade leve, natural. Nesse sentido, sinto que o desapego afetivo, em vez de me afastar das pessoas, na verdade, pode até fortalecer as minhas relações.

CL: Como foi passar as experiências de uma viagem pelo Brasil em uma Kombi para um livro?

AL: Boa parte dos textos do Encaramujado foi manuscrita na estrada. Era uma cena muito comum me ver por aí, nos banquinhos de praça do interior, com o bloquinho de anotações na mão, escrevendo, escrevendo. De modo que o livro e a viagem foram ganhando forma e conteúdo juntos. Nesse sentido, não sei identificar muito bem quando foi que a viagem virou livro e como foi essa passagem porque, dentro de mim, o escritor e o viajante são inseparáveis, convivem como um só.

CL: Você se preocupou mais em fazer com que o leitor também viajasse e tivesse suas próprias sensações ou se sentisse em sua pele, vivendo os sentimentos que você viveu?

AL: Me fascina mais pensar que a imaginação dos leitores reinventa a minha viagem. Por isso, quando alguém me escreve para compartilhar suas impressões em relação ao Encaramujado, é como se as posições se invertessem: o leitor assume o volante da Kombi e eu vou no banco do passageiro, admirando uma viagem que já não é mais minha. Em vez da repetição da minha experiência, necessariamente pessoal e intransferível, acho que o livro oferece janelas. E cada leitor, à sua maneira, acaba reconhecendo ali suas próprias paisagens. É o que eu espero.

CL: O Brasil não é um país muito amigável quando se trata de estradas. Houve algum episódio em que você chegou a temer pela vida de sua Kombi (e sua Kombi a temer pela vida do motorista)?

AL: Na verdade, ao longo da viagem, até que fiquei com uma impressão positiva sobre a qualidade da malha rodoviária brasileira. É claro, percorri alguns trechos vergonhosos (no Piauí, por exemplo, me lembro de uma placa pintada à mão na beira da estrada, anunciando aos motoristas, ao mesmo tempo como advertência e como protesto, que viriam pela frente “86 km de desprezo e abandono”. Dali em diante, confirmando a placa, a pista se transformou numa sucessão de crateras). Me enrosquei em alguns atoleiros também, no Jalapão e na Chapada dos Guimarães (mas aí, foi mais por imprudência do motorista, que colocou a Kombi em território exclusivo a 4×4). O único episódio mais grave não teve relação com a qualidade da estrada: no Maranhão, me envolvi num acidente com dois ciclistas. A Kombi derrapou e tombou na pista. Todos ficaram bem, mas o carro teve que ser rebocado para o conserto. Nos cinco meses seguintes, continuei a viagem a pé.

CL: Se o Encaramujado tivesse sido escrito por outra pessoa, o quão diferente você acha que ele seria?

AL: Já dizia o velho Heráclito, aquela história de que um homem não se banha duas vezes no mesmo rio. Da mesma forma, um livro não se repete, nem mesmo pela pena do próprio autor, o que dirá por outra pessoa. O Encaramujado é obra de quem eu fui naquele momento. Nunca mais vai acontecer.

CL: Toda viagem pode ser uma oportunidade de autoconhecimento. Que Antonio Lino você encontrou pelos confins do Brasil?

AL: Durante a viagem, tive a oportunidade de conviver com vários Antonios. Fui agricultor, peão-de-obra, pescador, artista mambembe, alpinista, e muito mais. Essa possibilidade de me experimentar, de me descobrir plural e conhecer um pouco melhor esse monte de gente dentro de mim, foi sem dúvida um dos grandes baratos da viagem. Por isso, acabei preferindo não ficar com nenhum Antonio em especial. Na verdade, para mim, esse exercício de autoconhecimento é fascinante justamente pela contínua perdição de si mesmo. Mais do que o encontro definitivo, acho que o movimento da busca combina mais com um viajante.

CL: De tudo o que viu pelo caminho, o que você encontrou de mais diferente de você mesmo? Se tivesse de escolher, hoje, uma outra vida, qual das tantas retratadas no livro você escolheria? Por quê?

AL: Por mais interessantes e diferentes que tenham sido as experiências que vivi durante a viagem, tenho escolhido não estacionar em vida nenhuma. Isso não quer dizer viver superficialmente, à deriva, do tipo “pra onde me chamar eu vou”. É, na verdade, uma tentativa de se manter aberto, receptivo às novidades. E um cuidado também para não alimentar muita nostalgia da estrada, como se minha felicidade só fosse possível viajando. Quando começo a me sentir meio entediado, lembro de uma frase do Rilke: “Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas…”. Atualmente, mesmo “parado”, morando num “imóvel”, tenho tentado seguir essa recomendação do Rilke: ao invés de escolher uma outra vida, mais poética, em algum lugar distante, no passado, procuro encontrar a poesia aqui mesmo, na vida que eu tenho hoje.

CL: Qual história inédita dos bastidores da viagem/ produção do Encaramujado poderia contar para nós?

AL: Tem uma historinha que acabou não entrando no livro, que aconteceu em São Luiz do Maranhão. Como eu disse, depois do acidente, segui viagem sem a Kombi. Depois de cinco meses a pé, rodando pela Amazônia, voltei para pegar o carro na oficina. Imagine, a Kombi parada aquele tempo todo, estava toda suja, uma poeira danada por dentro. Então estacionei em frente a uma pensãozinha em São Luiz e comecei a arrumação. Na calçada, fui organizando o que eu ia jogar fora, dentro de uma caixa de papelão. Lá pelas tantas, a caixa já cheia de cacarecos, chega um mendigo, conversa comigo e me pede pra fuçar aquele meu lixo. Deixo ele lá, mexendo no que eu havia descartado. E quando ele se despede e vai embora, o que me surpreende é que, entre tudo o que estava ali, ele escolhera justamente umas fotos de alguns amigos e da minha família, que eu havia jogado fora porque estavam já muito amassadas e molhadas e além do mais, eu tinha as cópias digitais. Aquilo me tocou profundamente. Um misto de compaixão pelo sujeito, já que aquele gesto me pareceu o cúmulo da solidão. E ao mesmo tempo, um incômodo, como se ele estivesse invadindo a minha vida ao levar aquelas fotografias. Até comecei a escrever um conto, baseado nessa história. Mas até hoje, ainda não acabei.

CL: O que fica de mais gratificante numa experiência como essa?

AL: Além de todos os aprendizados colhidos na estrada, sem dúvida, uma das maiores recompensas da viagem é essa possibilidade de compartilhar histórias com outras pessoas através do livro. Acontece de me escrevem contando das inspirações de um ou outro texto do Encaramujado, e isso me fascina, porque, de certa forma, isso quer dizer que minha Kombi nunca parou. Na imaginação de cada leitor, a viagem segue acontecendo.

CL: Como tem sido a aceitação do livro pelo público?

AL: Seis meses depois do lançamento, a primeira tiragem, de mil exemplares, já vai se esgotando, o que é um bom feito para um livro independente, dentro dos padrões do mercado editorial brasileiro. Entre algumas reportagens e entrevistas, que tem ajudado bastante na divulgação, sinto o boca-a-boca funcionando, muita gente comprando por indicação, ou que pegou o livro emprestado do amigo… Graças ao generoso empurrão dos leitores, posso dizer que o Encaramujado tem conseguido embalar bastante bem.

CL: A publicação de livros hoje, ainda que não seja acessível a qualquer um, é mais fácil do que nunca, já que existem impressões por demanda, editoras especializadas, dentre outras alternativas. O que isso implica para os autores?

AL: Mais e melhores oportunidades de ser lido, certamente. E mais responsabilidade também. Porque se começam a aparecer novas possibilidades de publicação (entre elas, a auto-publicação), o autor não pode mais se colocar naquela posição resignada, de “gênio incompreendido”, à espera de que alguma editora reconheça seu talento e venha bater à sua porta querendo publicá-lo. Me parece (como um palpite, quem pode saber?) que nós escritores precisaremos cada vez menos de qualquer tipo de chancela institucional para publicar nossos textos e estabelecer um contato direto com os leitores. Isso pode afetar profundamente as regras do mercado editorial e a forma como é comercializada a literatura. Vejo essa possibilidade com os meus melhores olhos.

CL: Você se sente “preso” ao tema de Literatura de Viagem? Quais são seus próximos projetos?

AL: Depois dessa viagem pelo Brasil que está contada no Encaramujado, eu já experimentei uma outra aventura: entre 2009 e 2010, andei dez meses pela África. Dessa vez, sem a Kombi. Fiquei dois meses num campo de refugiados em Gana e depois morei sete meses na Libéria, um pequeno país que tenta se recuperar de quatorze anos de guerra civil. Atualmente, estou trabalhando no meu próximo livro, que contará algumas das histórias que ouvi e vivi lá na África. Apesar de ser recorrente nos meus textos, não me sinto preso ao tema das viagens não, de maneira alguma. Muito pelo contrário: misturando viagens com literatura, o que eu sinto é liberdade.

A Festa Literária Internacional de Paraty, a famosa Flip, acaba de divulgar a programação preparada para este ano. Na edição que comemora dos 10 anos do evento, os destaques ficam por conta de três autores estrangeiros que participaram das primeiras edições: Ian McEwan, Enrique Vila-Matas e Hanif Kureishi. Além disso, a “pré-abertura” da festa, com a presença de Luis Fernando Verissimo para um bate-papo sobre literatura também merece destaque.

Confira a seguir a programação completa da Flip 2012.

Programação:

Dia 4 de julho
19 h – Pré-abertura: Flip, 10 Anos, com Luis Fernando Verissimo. Conferência de abertura Drummond 110, com Antonio Cicero e Silviano Santiago
21 h – Show com Ciranda da Tarituba e Lenine

Dia 5 de julho
10 h – Escritas da Finitude, com Altair Martins, André de Leones e Carlos de Brito e Mello; mediação João Cezar de Casto Rocha
11h45 – Leitura no Espaço Público, com Silvia Castrillon e Alexandre Pimentel; mediação Écio Salles
15 h – Apenas literatura, com Enrique Vila-Matas e Alejandro Zambra; mediação Paulo Roberto Pires
17h15 – Ficção e História, com Javier Cercas e Juan Gabriel Vásquez; mediação Ángel Gurría-Quintana
19h30 – Autoritarismo, Passado e Presente, com Luiz Eduardo Soares e Fernando Gabeira; mediação Zuenir Ventura

Dia 6 de julho
10 h – Drummond – O Poeta Moderno, com Antonio C. Secchin e Alcides Villaça; mediação Flávio Moura
12 h – O Mundo de Shakespeare, com Stephen Greenblatt e James Shapiro; mediação de Cassiano Elek Machado
15 h – Exílio e Flânerie, com Teju Cole e Paloma Vidal; mediação João Paulo Cuenca
17h15 – Literatura e Liberdade, com Adonis e Amin Maalouf; mediação Alexandra Lucas Coelho 19h30 – Encontro com Jonathan Franzen; mediação de Ángel Gurría-Quintana

Dia 7 de julho
10 h – Cidade e Democracia, com Richard Sennett e Roberto DaMatta; mediação Guilherme Wisnik
12 h – Pelos Olhos do Outro, com Ian McEwan e Jennifer Egan; mediação Arthur Dapieve
15 h – Em Família, com Zuenir Ventura, Dulce Maria Cardoso e João Anzanello Carrascoza; mediação João Cezar de Castro Rocha
17 h – O Avesso da Pátria, com Zoé Valdés e Dany Laferrière; mediação Alexandra Lucas Coelho
19h30 – Encontro com Le Clézio; mediação Humberto Werneck

Dia 8 de julho
10 h – Vidas em Verso, com Jackie Kay e Fabrício Carpinejar; mediação João Paulo Cuenca
11h45 – A Imaginação Engajada, com Rubens Figueiredo e Francisco Dantas; mediação João Cezar de Castro Rocha
14h30 – Drummond – O Poeta Presente; com Armando Freitas Filho (em vídeo), Eucanaã Ferraz e Carlito Azevedo; mediação Flávio Moura
16h30 – Entre Fronteiras, com Gary Shteyngart e Hanif Kureishi; mediação Ángel Gurría-Quintana
18h30 – Livro de Cabeceira, com todos os autores

Ingressos. A venda de ingressos para a Flip 2012 começa no dia 4 de junho, às 10h da manhã, pela internet, por telefone e em diversos pontos. A partir de 4 de julho, as entradas poderão ser compradas apenas na bilheteria da Flip em Paraty.

Os ingressos são vendidos por mesa e os interessados em participar da programação da Flip Casa da Cultura devem comprar as entradas durante o evento.

Para cada mesa, há o limite de dois ingressos por pessoa de acordo com o CPF do comprador.

Preços:

Conferência de Abertura e Mesas Literárias
Tenda dos Autores: R$ 40,00
Tenda do Tel: R$ 10,00
Show de abertura
Tenda do Tel: R$ 30,00

Eventos da Flip Casa da Cultura 
Eventos pagos: R$ 10,00
Eventos gratuitos – retirar ingressos uma hora antes, na Casa da Cultura

Com informações do portal Estadão

Na semana passada, aproveitei a passagem do português Valter Ugo Mãe por São Paulo para comprar os livros que ainda não tinha dele e conseguir algumas dedicatórias. Para minha surpresa, não decifrei completamente o que ele escreveu em nenhum dos quatro exemplares autografados (veja um deles acima), mas beleza, valeu a boa intenção.

Livros com dedicatórias – seja ela do autor o da pessoa que presenteia com uma obra – são uma espécie de fetiche entre leitores e o tumblr “Eu te dedico” é uma espécie de acervo coletivo destes exemplares. Vale conhecer a página, explorá-la e, se possível, colaborar com o projeto, que, além de mostrar a imagem do livro com a dedicatória ainda contextualiza o porquê dos escritos.

E, por favor, se alguém conseguir entender a segunda parte do que o Valter Ugo Mãe escreveu, deixe a tradução aí no comentário!

Ps: Conheci o “Eu te dedico” por meio do “Sobre leituras e observações”, que também recomendo.

Um miserável Orwell

Por Fred Linardi

Ao escrever Na pior em Paris e Londres, Eric Arthur Blair ainda não era conhecido como George Orwell e, claro, não havia escrito os clássicos 1984 e A revolução dos bichos. De fato, essa narrativa de não ficção foi seu primeiro livro.

Sua premissa parece uma ideia que já passou pela cabeça de muitos: numa arriscada aventura, o autor decidiu que viveria como um jovem miserável pelas cidades de Paris e Londres, usando roupas de segunda mão e procurando empregos direcionados para pessoas naquela condição social. Simplesmente isso.

Os altos e baixos da vida um tanto vagabunda e desesperadora o fizeram passar fome e ser pressionado pelas cobranças de aluguel do seu miserável cubículo em Paris, infestado de percevejos. Foi também na capital francesa que ele batalhou por empregos como professor ou qualquer coisa que lhe pudesse trazer uma sobrevivência mais digna. Com incertezas e dias de estomago vazio, fixou-se como lavador de pratos de um hotel, onde conseguiu ficar a maior parte do tempo.

Entre o próprio emprego e os bares que frequentava, o escritor inglês soube aproveitar o encontro com personagens de vidas semelhantes a ele e ilustrá-los como retratos daquela realidade. Nesses meados dos anos 1920, Orwell conseguiu informar o que acontecia entre as ruas repletas de pessoas que viviam à margem da sociedade europeia, como eram tratados pelos patrões, colegas de trabalho e como era o relacionamento entre os próprios miseráveis que acabou conhecendo. É em Londres que o jovem escritor tem uma grande rotação entre albergues de todos os tipos e conta como esses lugares funcionam e quais são as condições de hospedagem.

Entre as ideias e ensaios sobre as experiências nesta rotina, os episódios são narrados com requintes textuais que mantêm o interesse pela leitura, por mais grotescos que sejam os casos contados pelos homens e mulheres que cruzavam seu caminho. Algumas vezes os depoimentos duram por quase todo um capítulo curto e pontual, mas também incrementados de ótimas reconstruções de cenas que projetam os ambientes de forma vívida.

Além de imprimir uma realidade à parte, o livro revela um enérgico jovem escritor. Na pior em Paris e em Londres manteve-se inédito no Brasil até 2005, quando foi editado pela Companhia das Letras em sua já notável coleção Jornalismo Literário. A narrativa revela a possibilidade de se fazer reportagem pela sua maneira mais radical, ou seja, retirando-se do escritório e vivenciando um determinado tema. Orwell não chega às últimas consequências, como décadas depois o Jornalismo Gonzo faria, nas mãos de seu mais ilustre representante, o americano Hunter Thompson. Talvez esteja aí o equilíbrio deste trabalho de Orwell, onde é perceptível seu cuidado em voltar vivo para contar a história.

Ainda bem, pois dentro dos seus trabalhos de não ficção, ele ainda escreveria os notáveis Dentro da baleia e A caminho de Wigan, refletindo sobre a sociedade e a política. De forma mais direta e pessoal, seus ensaios prevêem a qualidade narrada e a profundidade filosófica contida em seus clássicos romances posteriores.

Novidades na área

O amor e o sexo
James McConnachie
Kamasutra é o manual de sexo mais famoso do mundo. O amor e o sexo conta a saga deste tratado hindu, desde a origem na antiga Índia até seu ressurgimento no moderno Ocidente. De forma detalhada, James McConnachie delineia um retrato singular da época em que o Kamasutra foi escrito. Apresenta também como os últimos manuscritos subsistentes foram rastreados na Índia por visionários eruditos vitorianos. Revela ainda como, auxiliado por um clandestino e seleto grupo de experimentadores e iconoclastas sexuais, o excêntrico explorador Richard Burton desvendou o livro para a sociedade inglesa, em uma tentativa de iniciar uma revolução. E como, em seguida, a obra foi parar nas mãos de pornógrafos piratas, antes de ser novamente descoberta com alvoroço na década de 1960.

O profeta da inovação
Thomas K. McCraw
Um dos mais importantes economistas da primeira metade do século XX, e provavelmente aquele que melhor compreendeu o funcionamento do capitalismo, o austríaco Joseph Schumpeter deixou sua marca como o profeta da mudança incessante. Sua visão era radical: quase todas as empresas fracassam, vítimas das inovações introduzidas pelas concorrentes. Tendo como base todos os escritos do teórico, inclusive diários e cartas íntimas nunca publicados, o professor emérito da Harvard Business School Thomas K. McCraw, vencedor do Prêmio Pulitzer de história, traça nesta primorosa biografia um retrato completo de uma figura carismática e genial e também de sua época, marcada por duas guerras mundiais.

Sua face ilegal
Peter Carey
Peter Carey, único escritor a ganhar por duas vezes o cobiçado Booker Prize, cria, em Sua face ilegal, um romance corajoso, resistente, frágil, soberbo. Incensado pela crítica e aclamado pelo público. Che Selkirk tem 7 anos, uma vida tranqüila e todos os privilégios que sua avó poderia lhe oferecer na Nova York de 1972. Mas algo importante falta em seu mundo: seus pais, radicais que fugiram de Harvard e da polícia no final dos anos 1960. A rotina do menino sofre uma reviravolta quando uma mulher misteriosa surge em seu apartamento. Che imediatamente acredita ser sua mãe, e juntos fogem para dar início a uma nova jornada além dos Estados Unidos e de tudo que o menino conhecia.

O som da revolução
Rodrigo Merheb
Entre riffs de guitarra e solos estonteantes, O som da revolução, de Rodrigo Merheb, conta a história cultural do rock, entre os anos psicodélicos de 1965 e 1969. Em meio a um quadro de intensa turbulência social, as aventuras eletrificadas de ícones de várias gerações como Jimi Hendrix, Beatles, Pink Floyd e Bob Dylan se interligam numa narrativa envolvente que compõe um painel extenso e detalhado sobre a trilha sonora da contracultura.

 

A última princesa
Fábio Yabu
Em A última princesa, Fábio Yabu aborda de forma lúdica a vida da princesa Isabel, em livro belissimamente ilustrado. O escritor une fantasia a fatos reais na história que refaz a trajetória da nobre brasileira desde seu nascimento até o exílio na Europa. Um fato pouco conhecido na vida da princesa – seu encontro com Santos Dumont – tem destaque na trama repleta de fantasia e emoção. O autor ganhou fama mundial com a série de livros e desenhos animados Princesas do Mar, exibido diariamente nas TVs de mais de 50 países.

Correnteza e Escombros

Olavo Amaral

Correnteza e Escombros, segundo livro de Olavo Amaral, utiliza a linguagem do fantástico e cenários inusitados para abordar temas universais como o desejo e a busca do encontro. Com forte unidade temática, seus nove contos falam sobre tentativas de aproximação entre personagens díspares, usando o líquido como fio condutor entre as histórias. Em rios caudalosos ou em tigelas de leite, a correnteza serve como metáfora do desejo que nos impele ao outro e da pulsão de abandonar o isolamento para dissolver-se em algo maior.

Sétima do singular

Diego Grando

O autoconhecimento, a vida vivida, o aprendizado e o eterno recomeço. A autenticidade e a criatividade. O conformismo e a desesperança. A existência e a inexistência. Os medos e os segredos. O vocabulário e a matemática. O dividido somado. Sete representações da singularidade poética de Diego Grando presentes em seu novo livro.

 

O homem que não sabia contar histórias
Rodrigo Barbosa
Em seu primeiro romance, o jornalista Rodrigo Barbosa oferece uma trama que se passa em três planos: a imaginação do protagonista – o meteorologista José Brás -, retratada em seu caderno, a visão dele e a realidade propriamente dita. Com diversas referências musicais e à história recente do Brasil, O homem que não sabia contar histórias apresenta os tortuosos caminhos trilhados pelo personagem central em busca do seu verdadeiro “eu”.

O escritor Valter Hugo Mãe, tido como um dos maiores nomes da literatura portuguesa nos últimos anos, estará em um bate-papo sobre o lançamento de O filho de mil homens, que acaba de ser lançado no Brasil pela Cosac Naify  (junto com o nosso reino, pela Editora 34). A conversa será mediada por Daniel Benevides e acontecerá na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho (nº915), em São Paulo, a partir das 19h30.

Por quê?

Por Igor Antunes Penteado

Quando pequenos, temos em nós um profundo ímpeto em saber as coisas, que é constantemente tolhido pelos adultos que nos cercam.

“Por que, pai? Por que, mãe? – Porque sim, moleque chato.”

O intrigante é que essa curiosidade infantil é justamente uma das características que mais deveriam ser incentivadas e cultivadas em nós. Talvez, se fôssemos estimulados a sempre buscarmos respostas para as coisas que não entendemos, o percentual de leitores não ficasse sempre com as médias vergonhosas de sempre.

Querer saber mais, por si só, já é meio caminho andado para gostar de ler. Quanto mais você lê, mais você sabe; quanto mais você sabe, mais você quer saber. E aí o processo se retroalimenta sem necessidade de maiores explicações. Entretanto, o que fazemos com nossas crianças é, aos poucos, tentarmos enquadrá-las em fôrmas pré-moldadas de comportamentos “aceitos” socialmente – muitas vezes, fôrmas baseadas em nossas próprias atitudes, que foram baseadas nas de nossos pais etc.

Mas o maior agravante é que não somos os únicos responsáveis por moldar as crianças. A escola é, certamente, a maior vilã de toda essa história. Primeiramente porque, desde que o método moderno de ensino foi implantado, foi responsável por nos moldar, assim como moldou nossos pais, avós, bisavós ad aeternum. Dessa forma, nós também somos obviamente produtos pré-moldados.

O principal problema reside no fato de que nossas escolas não nos ensinam a pensar. O que a gente aprende desde cedo é pensar de acordo com o que outros já pensaram, com suas realizações e descobertas. Quantos de nós podemos levantar a mão e dizer que tiveram um professor que não seguia estritamente o que constava nos livros e apostilas? Ou, mais ainda, que se prestavam a discutir o que estava sendo ministrado em aula não como verdade absoluta, mas como uma das versões da história, um dos jeitos de fazer, uma das soluções?

Pensando por esse lado, não espanta o fato de chegarmos ao Ensino Médio odiando a Filosofia, por exemplo. Aposto que não raro você, leitor, depara-se com um adolescente reclamando que estudar Filosofia é chato e só maluco faz isso. Isso porque a Filosofia (claro, isso conforme o jeito com o qual ela é ensinada) força a gente a pensar. E a gente não está acostumado a pensar. Acomodados, não gostamos de ter que pensar por nós mesmos. Essa é mais uma verdade constrangedora que muitas vezes não conseguimos enxergar e, não enxergando, continuamos a dar seguimento ao sistema já implantado. A velha história do dado viciado. Não adianta mudar os jogadores se o jogo é o mesmo, o resultado sempre vai ser igual.

Por isso é tão importante incentivarmos a curiosidade infantil e o anseio de sempre saber mais. Aos poucos, os pequenos começam a aprender a ir, por eles mesmo, atrás das verdades e inevitavelmente viram leitores vorazes. Essa é uma teoria particular, e sei que pode parecer simplista e até otimista demais. Mas justamente por ser simples que acredito fielmente em sua eficácia.

Como tradição, sempre indicamos um ou mais livros em nossos posts. Mas, dessa vez, farei diferente. Neste caso, indicar um livro seria ir contra meu próprio texto e tentar enquadrar sua capacidade de pensar, leitor. Entretanto, sugiro autores que podem ajudá-lo a entender melhor o mundo que o cerca e responder algumas de nossas maiores perguntas. Leia Marcelo Gleiser, leia Mario Sergio Cortella, leia Florestan Fernandes, leia Ruben Alves, leia Paulo Freire. Leia de tudo um pouco e explore que lhe serve. Esse é o melhor caminho.