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Cuide do corpo! Seja sarado! E a cabeça?

Por Rodrigo Casarin

Está aí o verão. Principalmente nesta época do ano, é difícil passarmos um dia sem ver na tevê, escutar no rádio ou ler em alguma revista ou site alguém falando sobre como cuidar do corpo. A ordem é clara: todos precisam estar em forma. Ser saudável não basta, é preciso ser sarado. É preciso que seu corpo esteja de acordo com os padrões de beleza atuais, nada de se achar bonito apenas por seguir critérios renascentistas. Ter uma barriga passa a quase ser um crime. Se ainda o barrigudo for flagrado se deliciando com uma bela porção de calabresa acebolada e um tonel de cerveja, aí o julgamento e a acusação são inevitáveis: precisa se cuidar mais.

E ta lá no programa das 13h20: tome suco de clorofila com jaca para diminuir a barriga; na revista semanal: corra 150km por dia e coma apenas mato para atingir o corpo perfeito; na Internet: plante a própria melancia e conquiste o corpo da mulher fruta da estação… É um policiamento constante, uma lavagem cerebral permanente.

Claro que ter um corpo saudável é importante, contudo, não é isso que pregam, não se enganem. Basta ver a quantidade de pessoas que tomam diversos tipos de substâncias maléficas ao ser humano apenas para atingir os formatos que nos empurram goela abaixo como sendo os ideais. Agora, se fingem querer que todos tenham uma saúde impecável, por que não desejam o mesmo para o cérebro?

Que interessante seria se assistíssemos na televisão, ouvíssemos nas rádios e lêssemos em qualquer canto sistematicamente coisas do tipo: “Você precisa ler mais, é importante para o seu cérebro”, “Não dê opiniões sem fundamentações básicas, estude o assunto antes de meter o bedelho”, “Ache o que quiser, mas saiba embasar os seus achismos”. Poderiam criar programas, que passariam no horário nobre, com dicas de leituras e debates sobre obras consagradas. Com o tempo, as pessoas se acostumariam com nomes como Tolstoi, Philip Roth, Gabriel Gárcia Márquez, Cristovão Tezza ou Jorge Luis Borges. Ficariam íntimas de Ryszard Kapuscinski e Charles Bukowski. Não estranhariam aquele gordo que continua comendo feito um porco, mas qualquer um que não saiba o mínimo sobre Dostoievski.

Obviamente outros programas abordariam outras manifestações artísticas. Os filmes enlatados dos Estados Unidos dariam lugar a verdadeiras obras de arte. Menos Spielberg, mais Ricardo Darín, Almodóvar e Lars Von Trier. Em seguida, discussões sobre as obras e como elas se encaixaram no contexto da época em que foram filmadas. Outras formas de se expressar também teriam seu lugar, tudo para que o cérebro de cada um seja realmente desenvolvido.

Alguns bons anos depois, teríamos muito mais pessoas cultas e verdadeiramente inteligentes por aí, com real capacidade para lidar com os problemas, com uma dimensão muito maior da realidade, que saberiam conviver muito melhor com as diversidades e respeitar o próximo. O próximo, esse sim, poderia ser gordo, magro, tanto faz, desde que saudável. Saudável de corpo e, principalmente, de mente (com o perdão do cacófato).

Novidades na área

Abaixo de zero

Bret Easton Ellis

L&PM

Abaixo de zero é o livro de estreia de Bret Easton Ellis. Lançado em 1985, é um retrato visceral da geração perdida dos anos 80. Clay, o protagonista, de férias da faculdade, volta para a casa dos pais em Los Angeles. Juntamente com os amigos da época do colégio e uma antiga namorada, entra numa espiral de drogas, sexo e dinheiro que acentua o vazio existencial de toda essa geração. Esse destino incerto é retomado pelo autor 25 anos depois em Suítes imperiais (Rocco, 2011), no qual mostra esses mesmos personagens, já adultos, confrontando suas experiências passadas.

Com seu primeiro livro, Bret Easton Ellis que, na época do lançamento tinha praticamente a mesma idade dos personagens, chamou a atenção para a passividade e a inconsequência dessa juventude e delineou aquela que seria a temática central de sua obra: como as cicatrizes da adolescência podem ser profundas e difíceis de apagar.

Andy Warhol

Mériam Korichi

L&PM

Quando Andrew Warhola (1928-1987) chegou a Nova York em 1949, vindo da inóspita Pittsburgh, ele tinha 21 anos e uma obsessão: tornar-se célebre. O jovem descendente de imigrantes logo fabricou Andy Warhol, este personagem midiático, adulado, controverso, que tudo queria e tudo fazia acontecer. Era pintor, escultor, fotógrafo. Era ator, homem de televisão, manequim. Era produtor de banda de rock, diretor de revista. Era dramaturgo, cineasta, romancista. Criou um universo, a legendária Factory, onde circulavam livremente drogas, sexo, artistas e vagabundos. Era um verdadeiro rebelde, genial, inventivo, underground. Por trás de sua peruca prateada, seu exibicionismo, escondia-se um criador exigente e frágil, cuja vida e obra formaram um espelho desencantado e cheio de humor. Mais que um personagem, tornou-se um mito.


Cães heróis

Mario Bellatin 

Cosacnaify

Segundo livro de Mario Bellatin publicado pela Cosac Naify, Cães heróis é a perturbadora história de um homem paraplégico, seu enfermeiro e trinta pastores belga malinois “prontos para matar quem quer que seja com uma única mordida na jugular”. Assim como em Flores, a edição brasileira de Cães heróis tem projeto gráfico radical: com letras que aumentam e diminuem de acordo com a intensidade da narrativa, o livro vem “mutilado”, com uma embalagem de plástico no lugar da capa.

Oficina de Criatividade em Porto Alegre

Começa hoje, em Porto Alegre, a Oficina de Criatividade com Lehgau-Z, que já foi entrevistado aqui do Canto dos Livros. A oficina é uma atividade dinâmica e multidisciplinar que busca resgatar as fontes criativas de cada indivíduo. As duas aulas contarão com atividades lúdicas que vão trabalhar com questões relativas aos bloqueios e desbloqueios da capacidade de criação de cada um dos participantes.

Quando: Dias 19 e 20 de janeiro, às 18h30min

Onde: Na Palavraria – Vasco da Gama, 165 – Telefone: 51-3268 4260

Quanto: R$90,00 por participante

O Antiamericano Americano

Por Alberto Nannini

O Antiamericano Americano

Recentemente, eu e o Igor falamos sobre a hipótese da organização do mundo e da sociedade como a conhecemos ruir (aqui e aqui). Não é algo que se pense ou escreva com frequência, a não ser que você seja meio paranóico ou se chame Neil STRAUSS, e tenha escrito “EMERGÊNCIA – Este Livro Vai Salvar sua Vida”, 396 pags, publicado pela editora Best Seller.

Crítico musical da prestigiada revista Rolling Stone, autor de um livro de enorme sucesso  – “O JOGO – A Bíblia da Sedução” – era como todo americano médio: vivia num “mundo à parte do mundo”, gozando da prosperidade do seu país, confiante no “sistema”, alienado de todo o restante e se sentindo inatingível, ao ponto de, jocosamente, colecionar em suas viagens souvenires com temática anti-americana, como camisetas e postais.

Mas então, sobreveio a data fatídica: 11.09.01, e a sensação de segurança do americano médio desabou, em meio a milhares de toneladas de vidro, metal e fogo, junto com as torres gêmeas.

De repente, STRAUSS não era mais tão jocoso em relação ao anti-americanismo. Mais que isso, ele se deu conta de que eles eram odiados de forma quase unânime, e reeleger o G.W. Bush não foi exatamente uma ajuda… Veja o que ele diz a respeito:

“Depois da eleição de 2004, porém, foi tudo diferente. Desta vez, Bush foi eleito de fato. E a mensagem enviada a todos os outros países do mundo era a de que o povo americano aprovava suas ações. Assim, Bush já não era o estúpido aos olhos do mundo, mas sim, nós.”    

Como tudo o que está ruim sempre pode piorar, em agosto de 2005, o furacão Katrina arrasou a cidade de Nova Orleans, e, para espanto geral, o governo da nação mais avançada do planeta demorou a eternidade de 5 dias para reagir de maneira apropriada, sob a alegação de que “não estavam preparados para uma tragédia destas dimensões.” Esta foi a gota d’água, literalmente, para o autor, que resolveu “pular do barco”: ele seria um sobrevivente, a qualquer custo.

A partir daí, o livro vira uma verdadeira saga, até ele se metamorfosear de um sedentário urbano para um especialista em sobrevivência. Ele vai contando o que aprendeu e como aprendeu, desde improvisar uma faca com um cartão de crédito a se descontaminar no caso de um ataque com uma “bomba-suja”, do tipo que usa materiais radiativos. Sobra espaço até para uma redenção, lá pelo fim do livro, como toda boa história.

Isso tudo é bem legal de se ler, especialmente se gostar de assistir a programas como “Survivor” e “A Prova de Tudo” (você chegará inevitavelmente a esta conclusão: Bear Grills é uma mocinha!). Legal, mas não valeria a resenha, nem a indicação.

O que há no livro que vale tanto a resenha como a indicação, na minha opinião, foi algumas  reflexões que o pioneirismo da visão do autor te leva a fazer. Primeiro, porque é um americano tentando a todo custo conseguir uma dupla cidadania, porque quer sair dos Estados Unidos. Aventa até mesmo a possibilidade de engravidar uma brasileira, já que nossas leis, segundo ele conta, a concedem automaticamente a um estrangeiro que o faça. Mas no fim, para sorte ou azar de nossas incautas moçoilas, o autor dirige suas forças para São Cristóvão e Névis… Não, não o time de futebol do Rio de Janeiro… Você sabe, aquele país lá, que “vende” dupla cidadania por meio de algumas brechas… e do qual eu nunca tinha ouvido falar até então.

O que importa é sair da “América” – e o próprio autor percebe a ironia, em determinado momento, ao ir a uma cerimônia de atribuição do green card, espécie de visto permanente a estrangeiros.

Isso traz uma voz bastante diferente à história, como uma crítica interna e pessoal a tudo aquilo que ele vê e vive todo os dias.

Mas ainda mais relevante – e impressionante – é a análise que ele e alguns amigos discutem, sobre o que poderia estar por vir. Veja só este trecho:

“– Todo mundo concorda que os terroristas odeiam os Estados Unidos e os norte-americanos, e que querem nos destruir, certo?

- É por isso que são chamados de terroristas.

- Mas, alguma vez, vocês já pararam pra pensar que talvez não seja este o plano deles? Osama Bin-Laden não é tão estúpido e ignorante como a maioria dos norte-americanos pensa. Talvez seu plano seja destruir nossa economia. Porque esta é a única maneira de acabar de fato com os Estados Unidos da forma como nós o conhecemos. E nosso governo entrou perfeitamente no plano dele, iniciando guerras que custam centenas de milhões de dólares e que não têm fim à vista.”

Viramos os maiores adivinhos DEPOIS de acontecer algo, do tipo: “Eu sabia o tempo todo!”, “Tava na cara que isso ia acontecer” e afins. É por isso que nos parece incrível que não tenha havido muito mais predições do colapso econômico que atinge proporções globais, que tem como “marco” o anúncio da quebra do banco Lehman Brothers, em 15.09.08, e cujos efeitos persistem até hoje. O copyright do livro registra o ano de 2009, poderia até ter dado tempo de escrever já ciente de tudo; mas a seqüência cronológica que relata a história do autor situa este diálogo algum tempo após a tragédia do Katrina. Ou seja, tudo leva a crer que o autor interpretou antes e de forma certeira os sinais no horizonte, e sua odisséia para estar pronto para isso foi conseqüência.

Agora, com toda autoridade profética de quem está vendo o fato acontecer, podemos dizer que a queda do maior império que já existiu parece iminente. Esta queda não deverá ser fragorosa, com a nação norte-americana varrida do planeta; está mais para um grande “encolhimento”. Lendo a respeito, vejo que os autores concordam que a sanha expansionista geralmente é o epitáfio de um império. Afinal, é muito mais difícil manter do que conquistar. Daí que a logística envolvida em guerras a milhares de quilômetros, com objetivos escusos, não poderia dar em outra coisa. Linda Bilmes, escritora e especialista em Políticas Públicas da Universidade de Harvard, estima o custo da chamadas “guerras contra o terror” em TRÊS TRILHÕES de dólares, ou cerca de 20% da dívida que está afundando a economia americana, como talvez fosse o desejo de Bin Laden.

Contudo, eu particularmente não assisto a esta derrocada de maneira jocosa. Acredito que a democracia é a menos pior das formas de governo inventadas até hoje; prezo a liberdade que este sistema traz, ainda que se possa discutir até quais limites ela chega; e reconheço o mérito de uma nação de história muito recente se erguer como um colosso.  Seus muitos pecados não me passam em branco, mas não vejo diferença entre eles e quaisquer outras nações, a nossa inclusive. Vejamos:

-         massacres dos índios nativos: eles, e nós também;

-         opressão aos mais fracos: eles, nós e todos os outros que são ou já foram fortes;

-         consumo irresponsável das reservas energéticas e destruição do meio ambiente: idem-ibidem.

Enfim, já tive a posição de ser um tanto antiamericano – mas sem abrir mão de conquistas reforçadas/melhoradas por eles, de consumir seus produtos, de gostar muito de alguns derivados da sua cultura – e cheguei a conclusão que esta minha posição era mais emocional do que fundamentada.

Hoje, se eu tivesse que me opor a um opressor, seria contra a própria noção de nacionalidade. Ela parece ser uma evolução natural às famílias, aos clãs e aos outros agrupamentos que foram surgindo, mas acaba dividindo e estigmatizando as pessoas, ao invés de reforçar o que temos em comum. Mas também confesso que não estou disposto a abrir mão de tudo o que batalhei para conseguir para que isso mude.

Enfim, o antiamericanismo puro e simples me parece um tanto parcial e até invejoso. Inacreditavelmente, com a súbita melhora de muitos de nossos índices econômicos, o Brasil passou de figurante sem-nome-de-costas-pra-tela a coadjuvante de 1ª linha no “palco” mundial, e não precisa mais ser por problema de “auto estima enquanto nação” – ou a velha “Síndrome-do-Patinho-Feio” – que se permaneça antiamericano. Neil STRAUSS lista motivos bem melhores, ainda que um tanto pessoais. Mas ainda acho que a maior parte do antiamericanismo que se vê por aí é apenas e somente moda.

Se você tiver ainda motivos mais fortes para ser antiamericano, podemos discutir a respeito. Acho que o próprio Neil Strauss também gostaria de participar de um debate assim, caso encontrasse tempo ou ainda precisasse de um filho brasileiro. De qualquer forma, devemos discutir logo, porque, em apenas algumas décadas, que é um piscar de olhos para a História, se estivérmos vivos, pode ser que eu te repreenda, dizendo que é feio chutar cachorro morto.

Encontros Cosac Naify

A Cosac Naify realizará alguns encontros literários agora no mês de janeiro. Seguem abaixo:

Sob o sol de Arles

Por Fred Linardi

Na manhã de 23 de outubro de 1888, Vincent van Gogh abriu a porta de sua casa e se deparou com o fim de uma ansiedade que o dominava desde maio. Como planejado durante meses, o artista francês Paul Gauguin finalmente chegava à cidade de Arles, França, para dividir a casa com o pintor holandês. De fato, os anseios de Van Gogh acabaram, mas não serviu de alento diante de tantas preocupações e instabilidades daquela mente em constante ebulição.

Van Gogh estava em Arles desde fevereiro daquele ano. Depois de morar num restaurante-hotel, mudou-se para o sobrado de duas salas e dois quartos, que viria a ficar conhecido como “Casa Amarela”, devido à cor das paredes externas. Mas também tinha janelas verdes, portas azuis e o piso terreo vermelho. Por dentro, as paredes eram bege, mas logo foram cobertas com as telas que assinava. Martin Gayford, autor do livro “The yellow house – Van Gogh, Gauguin and nine turbulent weeks in Arles” (inédito em português), conta a respeito do cuidado do artista ao decorar a casa com móveis e vasos. Apesar da péssima situação financeira, ele priorizou finalizar os cômodos. Sua idéia era fazer uma casa de artista (mesmo prezando pela simplicidade) e, com o tempo, estabelecer uma cooperativa de amigos que discutiriam sobre obras, independente do estilo, dividiriam o teto, o estúdio e lucro das vendas, o que era comum na época.

Sua vida era solitária, até porque não tinha lá uma fama muito atraente. As pessoas não se aproximavam daquele homem estranho, andando apressado pela cidade, coberto com um chapéu de palha e exalando um cheiro nada agradável (falta de banho e excesso de cachimbo). Esperava desesperadamente por alguém do seu mundo. Seu irmão, Theodore van Gogh, o Theo, que o sustentava enquanto Vincent não lucrasse com as obras, o ajudou na busca por alguém.

Gauguin se convenceu por Arles com alguns interesses em mente. Van Gogh era, no mínimo, uma figura curiosa e certamente teria muitas idéias para trocar. Gauguin havia passado uma temporada na Martinica, no Caribe, e voltara à França para se recuperar da malária. Por hora, imaginou que a nova vida na Provença seria um bom lugar. Além disso, estreitaria os laços com Theo, que morava em Paris como negociador de artes e passaria a trabalhar com suas telas também.

Ao chegar, Gauguin se surpreendeu com o que viu nas paredes. Entre maio e outubro, Van Gogh tivera uma euforia criativa. Toda a ansiedade pelos adiamentos da chegada de Gauguin transformara-se em pinturas. O trabalho era exaustivo, acompanhado por agitações, má alimentação e a busca por resultados que mostrassem seu talento. Em poucos meses, pintou cerca de 200 obras (um terço do que Gauguin reproduziria durante sua vida toda). Entre elas, Quarto em Arles, e a favorita do novo morador, Os Girassóis. Além de eufórico, o pintor holandês queria impressionar o novo amigo.

Segundas impressões

Agora, com a companhia de Gauguin, o ritmo mudaria e eles sairiam para pintar juntos o cenário e as pessoas de Arles. Durante o trabalho, ficavam a poucos metros um do outro para retratar a mesma paisagem, cada um com seu estilo. Enquanto Van Gogh prezava pelo impressionismo, com o uso de cores contrastantes a partir do que via, Gauguin tendia a criar e modificar, implementando cenas, mudando cores e seguindo um caminho voltado ao que chamava de sensorial – chegou até a usar a palavra “abstrato” em uma das cartas a Theo. Tudo era estudo e experimento.

Vincent, até então, não conseguira vender um trabalho sequer (vendeu apenas uma tela em vida, A vinha encarnada, poucos meses antes de morrer). Por isso, sempre fora sustentado por Theo que, além de ser um fiel apoiador, acreditava na proposta do irmão, enquanto os críticos de arte torciam o nariz para aquela confusão de cores dos artistas de vanguarda. Mesmo assim, na primeira semana em Arles, Gauguin recebeu uma carta de Theo contando que havia negociado uma de suas telas, Meninas bretãs dançando.

As primeiras vendas de Gauguin não causaram atrito com Van Gogh, tampouco a diferença de estilos que acabava sendo enriquecedora a ambos. De fato, a entrada de mais dinheiro na casa trouxe mais estabilidade financeira. Gastos foram organizados por Paul, e Vincent era beneficiado também, já que agora comia melhor e sobrava mais dinheiro para a casa. Tudo parecia estar bem, não fossem as instabilidades de Van Gogh.

 

A iniciante prosperidade de Gauguin e suas histórias da época em que cruzou os trópicos como marinheiro representavam nos olhos de Van Gogh a figura de um mestre. Tudo era algo a ser ouvido, aprendido e adorado. A figura anti-social e raquítica de Vincent até poderia não expressar muito, mas seu temperamento poderia levá-lo aos extremos. Em poucos dias, a novidade acabaria e não sobraria muito além das gritantes diferenças entre os dois artistas. Em novembro, quando a temperatura já esfriava e ficava difícil passar muito tempo fora de casa, os dois ficavam enfurnados no estúdio.

Enquanto Van Gogh acreditava sentir-se mais calmo com a cidade, Gauguin logo se desencantou com o lugar. As divergências entre gostos por outros pintores poderiam não representar muito, mas acabou sendo também o início de um desgaste dentro da casa.

A Crise

As vendas de Gauguin serviram para que Van Gogh entrasse numa paulatina queda de autoconfiança. Até novembro, Vincent já havia produzido grande parte de suas obras mais geniais, mas ninguém as enxergava dessa forma. A preocupação devido às dificuldades financeiras, que o assolaram a vida toda, continuou a perseguir sua paz e, por mais que Theo enviasse uma quantia segura de dinheiro, a falta de perspectiva de sucesso unia-se à insegurança.

Poucas semanas seriam suficientes para que o quadro psicológico de Van Gogh piorasse. Aos 35 anos de idade, ele fazia cálculos para o sucesso, baseado nas vendas de Gauguin, com 40 anos, e imaginava se em cinco anos ele estaria tão bem quanto o francês. Em dezembro, a situação piorou. As discussões cresceram até que Gauguin disse que pretendia voltar à Martinica assim que tivesse condições. Isso seria possível com mais algumas vendas. Para piorar a situação, no dia 19 de dezembro, Theo envia uma carta anunciando que iria se casar. Na cabeça de Van Gogh, essas notícias eram as piores que poderia receber – além de ficar sozinho novamente, teria seu lugar tomado na vida do irmão.

No dia 23 de dezembro, os artistas vão ao bar vizinho da casa. Enquanto discutiam sobre o pintor Rembrandt (venerado por Vincent e desprezado por Paul), um susto: Gauguin foi atingido na cabeça pelo copo de absinto de Van Gogh. Gauguin percebeu que sua presença piorava as condições do amigo e resolveu que iria dormir num hotel. Era o começo de uma tragédia. Momentos mais tarde Van Gogh saiu pelas ruas até cruzar com Gauguin. Perturbado, segurava sua lâmina de barbear, provavelmente para ferir seu amigo, comprovando as suspeitas de que beirava a loucura. Convencido a acalmar-se, voltou correndo e sumiu na escuridão. A partir deste momento, Gauguin estava certo de que iria a Paris logo que amanhecesse.

Após este encontro (que seria o último entre os dois), Van Gogh voltou para casa, decepou sua orelha esquerda (talvez apenas o lóbulo), fechou-a num envelope e mandou que a levassem à Rachel, uma jovem prostituta de 16 anos, no Bordel na Rua Bout d´Arles. Após este episódio, sua vida entraria num inevitável declínio, impulsionado por crises e, ao mesmo tempo, contrapondo-se com suas geniais criações. O pintor nunca explicou o motivo de sua atitude e os médicos não conseguiram chegar a uma conclusão. Gauguin chegou a ser suspeito, mas a hipótese foi descartada.

Uma das associações feitas por Gayford quanto ao caso da orelha vem de casos que ganharam grande notoriedade nos jornais daquele ano (e os moradores da Casa Amarela haviam acompanhado assiduamente) – como o dos assassinos de prostitutas: Prado, em Paris, e o de Jack, o Estripador,em Londres. Jackparticularmente apresentara uma novidade – estava mutilando orelhas das vítimas. Van Gogh tinha uma visão humanista em relação às prostitutas e comparava suas vidas marginais à dos artistas. O interesse de Gauguin pelos casos também era surpreendente, a ponto do artista ter ido assistir à morte de Prado, em Paris, apenas dois dias após o incidenteem Arles. Trêsanos depois, ele se mudaria para o Taiti, na Polinésia, onde continuou sua obra e viveu até os 54 anos.

A história de Van Gogh após o corte da orelha passa a ser cada vez mais crítica e instável. Foi a Paris, depois morou na cidade de Auvers-sur-Oise, até que decidiu internar-se para seu próprio bem. Suicidou-se em 1890, aos 37 anos, atirando em seu peito, no meio de uma plantação de trigo, após freqüentes internações e crises profundas. Por outro lado, obras fantásticas em períodos de lucidez, como Noite Estrelada, de 1889. O quadro é marcante pelo céu espiralado, além das formas agitadas, que marcam seu estilo e representam seu temperamento. Van Gogh dizia que as estrelas o acalmavam e por isso pintara aquele quadro. A cidade retratada de memória é Arles, para onde jamais voltaria.

E os primeiros livros que a L&PM lançará a 5 reais serão…

64 páginas de literatura com um preço bem baixo. Esta é a proposta da nova série da L&PM Editores que começará a ser publicada no final de janeiro. Serão contos, poemas e novelas curtas, de autores nacionais e internacionais, lançados simultaneamente em papel e e-book, sempre com exatas 64 páginas.

Os livros da Série 64 páginas custarão sempre R$ 5,00 em formato pocket e R$ 3,00 em versão e-book. Os primeiros doze títulos já estão confirmados:

O mistério de Marie Rogêt, de Edgar Allan Poe

A corista & outras histórias, de Tchékhov

O retrato, de Gogol

Missa do Galo e outros contos, de Machado de Assis

O gato do Brasil e outras histórias de terror e suspense, de Arthur Conan Doyle

Antologia poética, de Fernando Pessoa

120 tirinhas da Turma da Mônica

Fábulas chinesas, seleção de Sérgio Capparelli e Márcia Schmaltz

O diabo, de Tolstói

- A mulher mais linda da cidade, de Charles Bukowski

Cenas de Nova York e outras viagens, de Jack Kerouac

Histórias de Sherlock Holmes (título provisório), de Arthur Conan Doyle

Para março, estão previstos mais doze títulos que incluem Balzac, Agatha Christie, Raymond Chandler, Anaïs Nin e Simenon. E para o segundo semestre de 2012, mais uma dúzia de livros que ainda estão sendo definidos.

Procura do romance

Os escritores ficcionistas sabem o quanto é difícil criar um livro. Qual história contar? O que serve ou não para aquela história? Tais cenas são suficientemente boas para compor a obra? Como construir o personagem? Quais características ele terá? Vai gostar de cerveja ou vinho? Quanto do real estará presente nas páginas? Quais palavras usar para descrever uma situação que pode ser descrita de inúmeras maneiras? Qual o melhor começo? Por onde começar a escrever? Construo primeiro um final, a primeira frase, crio um roteiro…?

É sobre essa aflição do autor que trata Procura do romance, de Julián Fuks, publicado neste mês pela Record. O personagem principal da obra é Sebastán, um escritor brasileiro que retorna à Argentina para, no apartamento onde cresceu e passou boa parte da juventude, procurar inspirações para o seu próximo romance. Boa parte toda a história se passa na cabeça de Sebastián. Quase todos os objetos que toca, cenas que vê e pessoas que tem contato são capazes de fazer com que o personagem desencadeia uma série de pensamentos ou mergulhos em sua memória. Até as coisas mais banais desencadeiam-lhe ideias e sentimentos. A dúvida é sempre a mesma: posso usar isso ou não para o próximo livro? A conclusão é quase sempre negativa. E quando esses mergulhos na consciência de Sebastán tocam o passado do escritor, acabam por revelar, até de forma inesperada, um pouco da história do personagem.

Contudo, antes de qualquer coisa, Sebastián é um traído, uma traído pelo seu próprio criador. De nada adiantaria ele achar uma ideia brilhante para a sua obra. O narrador tem acesso a tudo o que se passa em sua cabeça e revela essas confabulações em Procura do romance. Se a história do livro é a história de Sebastián em busca de uma história, qualquer história que Sebastán pensasse já estaria retratada no livro de Fuks. Ou seja, já teria sido contada, revelada. Na verdade, tudo o que Sebastián descarta, Fuks aproveita em Procura do romance.

Fuks opta por começar a obra com a fala de uma personagem em espanhol para nas páginas seguintes explorar a consciência de Sebastián. O recurso de usar o espanhol para a fala dor personagens argentinos é bastante interessante, uma pena que não tenha sido mantido nos diálogos mais extensos. Ao compor a narrativa, o escritor também demonstra um vasto conhecimento das palavras da língua portuguesa, contudo, a variação vocabular – que por si só é uma grande qualidade – em alguns momentos parece forçada, o que acaba deixando um ar de pretensão exacerbada. Essa pretensão também está presente em algumas descrições, às vezes carregadas de detalhes que não fazem a menor diferença para o texto – não cumprem função estética alguma e frequentemente travam a  leitura – ou para a história.

Tradutor e autor de Histórias da literatura e cegueira e Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, Fuks possui diversas semelhanças com Sebastián. A mais óbvia é que ambos são escritores. Mas os dois são brasileiros filhos de país que vieram da Argentina para o Brasil fugindo da ditadura e possuem uma forte ligação com o país vizinho. Em muitos momentos, Fuks parece colocar em Sebastián as suas opiniões, apenas para dizer o que pensa de alguns assuntos, como a arte voltada puramente para aspectos comerciais.

Ainda com relação à ditadura, o tema parece ser o grande mote para a produção artística na Argentina – ou das histórias que na Argentina se passam – nos dias de hoje. É bastante comum vermos filmes e livros que tratam do assunto com bastante profundidade e que, por mais que a enredo tome outros rumos, acaba flertando com o período que os militares argentinos estiveram no poder de seu país, como é o caso de Procura do romance.

O Segredo de Joe Gould: o contador de histórias e um excêntrico andarilho

Por Fred Linardi

Quando o jornalista Joseph Mitchell inicia a narrativa sobre um excêntrico miserável de Nova York dos anos 40, o leitor já se depara com um texto que inspira curiosidade. O personagem em questão é um joão-ninguém; um “homenzinho” que anda pelos bares e ruas e não tem nada de celebre ou exemplar para mostrar. E é exatamente isso que instiga também um dos repórteres mais importantes da revista The New Yorker.

Homenzinho é exatamente o primeiro termo que Mitchell usa para designar Joe Gould assim que começa este perfil jornalístico originalmente publicado em 1942. O requinte narrativo pode trazer a desconfiança de que se trata de uma ficção baseada em fatos reais, mas não é o caso. De fato, todos da região de Greenwich Village, Nova York, conheciam esse tal de Joe Gould com suas aparições em bares, tomando um café e comendo muito ketchup das mesas (puro! Não tinha dinheiro). Assim como grupos de poesias, onde o velho baixinho cismava em fazer parte e recitar seus versos que, não saíssem da boca de quem as recitava, não passariam de uma brincadeira de gosto duvidoso.

Além de ser uma presença atípica nas ruas da metrópole, o andarilho beirava o limite entre uma pessoa única e inocente, mas desagradável ao mesmo tempo. Sua excentricidade rendia-lhe convites, assim como podia causar náuseas como quando ele insistia em mostrar saber falar o idioma das gaivotas: o “gaivotês”. Mas seu grande orgulho consistia no maior projeto de sua vida, ao qual chamava Uma história oral do nosso tempo. Nela, o autor relatava sobre pessoas que ia conversando aleatoriamente pela cidade, figuras que, segundo Gould, eram os verdadeiros agentes que moviam a história de um país.

Joseph Mitchell teria todos os motivos para retratar aquele personagem, com quem conviveu por alguns meses entre bares e muitas conversas, de forma jocosa, folclórica e até mesmo pedante ou piedosa. Mas o tratamento honesto rendeu humanização àquele homem, como se, página após página, Mitchell conseguisse ir tirando mais camadas da aparência e palavras de Gould até conseguir expor a alma do personagem.

O livro é dividido em duas partes justamente pelo cuidado que Mitchell tomou ao publicar o que rendeu duas reportagens na New Yorker. O primeiro, intitulado O Professor Gaivota, é mais curto e conta sobre essa figura fascinante que também era capaz de irritar o narrador em algumas conversas que pareciam não ir mais a lugar algum (ou seriam sucessivas fugas de Gould em fugir de um determinado assunto?). O segundo perfil, este o próprio O Segredo de Joe Gould, foi publicado vinte e dois anos após o primeiro, em 1964, quando Gould já havia morrido. Mitchell continuou uma história que julgara impossível de relatar quando seu personagem ainda vivia ,preservando sua dignidade.

O suspense para descobrir o que Joe Gould escondia de todos só não causa tanta aflição porque a narrativa flui e faz com que o leitor se aproxime e crie uma simpatia tanto pelo boêmio nova-iorquino quanto pelas situações vividas por ele. O segredo revelado finda uma busca seguida pelo repórter a passos de detetive e carregada de voltas em torno dessa personalidade tão ímpar.

Retrospectiva Canto dos Livros

O ano de 2011 foi bastante agitado no Canto dos Livros. Dentre diversas notícias, lançamentos e curiosidades, alguns textos merecem destaque.

Resenhamos Devaneios literários, de Mariana Collares, Fahrenheit 451 em quadrinhos, de Ray Bradbury e Tim Hamilton, o grande Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, Tive uma ideia!, de Monica Martinez, Adeus, China, de Li Cunxin, O Safári da estrela negra, de Paul Theroux e O filho da mãe, de Bernardo Carvalho. Falamos de quando o Carnaval e a Literatura de encontram, criticamos a Flip, falamos do lançamento do Luzir, de como os personagens marcam os leitores e dos livros indicados por Renato Russo.

Nas entrevistas, tivemos o prazer de falar com os escritores Nazarethe Fonseca, Lehgau Z Qarvalho, Marcelo Maluf, Cristina Cezar, Ferréz, Paulão de Carvalho e Renato Modernell.

Em sua coluna, o Beto falou de Planolândia e visitantes de uma quinta dimensão, perspectiva, resenhou o Muito longe de casa, de Ishmael Beah, racionalizou sobre Deus e relacionou Literatura com cinema.

Já o Igor Antunes Penteado começou o ano falando sobre religião, depois procurou um limite aceitável para o incentivo à leitura, descobriu o óbvio, falou sobre assassinos em série e trocou figurinhas com Homem comum, do Philip Roth, e Carta a D, de André Gorz.

João Dutra imaginou Camões postando no Twitter, tomou um porre de Machado de Assis e falou sobre Sherazade, sobre histórias.

Também tivemos a estréia de Fred Linardi, que resenhou Reparação, de Ian McEwan.

Por fim, associamos bastante a Literatura com boa cerveja: Entre os vândalos e Harp, Jim Knipfel e Brooklyn, Pedro Juan Gutiérrez e Hoegaarden, Adoniran Barbosa e Paulistânia, Luis Fernando Veríssimo e Abadessa, Saint Patrick, Guinness e James Joyce e Edgar Allan Poe e Colorado Demoiselle.

Mas o ano ainda não acabou. Nesta semana ainda teremos ao menos mais uma entrevista e uma resenha. E que 2012 seja ainda melhor!

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